segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Direto do Forno: A.C.T - Today's Report [1999] / Imaginary Friends [2001]



Por Micael Machado

Mais uma vez fui escalado para fazer um "direto do forno de microondas", desta vez com o lançamento pela Hellion Records de dois álbuns dos suecos do A.C.T (assim mesmo, sem ponto depois do T), exatamente os dois primeiros de sua discografia, que saem no mercado brasileiro em edições especiais, com novas artes gráficas, faixas bônus e vídeos promocionais.

Com a formação à época composta por Jerry Sahlin (teclados), Ola Andersson (guitarras), Peter Asp (Baixo), Herman Saming (vocais principais - cujo timbre, apesar de por vezes lembrar o de André Matos, é bastante irritante) e Tomas Erlandsson (bateria), o grupo me foi apresentado como uma formação de prog metal, e é inegável que os dois estilos marcam presença forte em sua música, mas reduzir sua sonoridade a este rótulo é muito pouco. Uma sempre presente atmosfera pop típica dos anos 80, vocalizações a la Queen, muitas partes orquestradas, jazz, ópera e tudo o que os músicos tiverem em mente é usado sem parcimônias ao longo das músicas dos dois discos...

O que nem sempre é sinônimo de boa música. Parece que a banda tentou agregar todos os estilos de que seus componentes gostam dentro de uma mesma composição, e a salada de frutas que resulta disso por vezes é bastante indigesta.


Tratando primeiro de Today's Report, justamente a estreia do grupo, de 1999, após ouvir o disco, fiquei com a certeza de que o grupo é formado por excelentes instrumentistas, bastante criativos e habilidosos, mas seria melhor se tivessem um direcionamento musical mais definido, e o seguissem ao longo de suas composições. Da maneira que as músicas foram arranjadas, o disco parece mais uma grande colcha de pequenos retalhos unidos ao acaso, sem a unidade necessária para formar uma canção.

Isso se faz notável na suíte "Personalities (The Long One)", formada por sete partes totalmente distintas umas das outras, onde desafio alguém a achar uma continuidade e um termo comum a elas. Sei que isso ocorre muitas vezes no progressivo (o Genesis é um belo exemplo disso), mas nos casos "clássicos", você consegue ver que as partes vão se sucedendo para formar uma composição completa, sem terem sido simplesmente colocadas juntas sob um mesmo título para formar uma canção longa, como parece ser o caso aqui.

Jerry Sahlin é realmente muito bom no que faz, e Ola Andersson não fica muito atrás. As introduções da maioria das canções são excelentes, mas a expectativa que elas geram quase nunca se completa, pois quando você está tentando assimilar uma parte da canção, ela já muda para outra coisa, e mudará de novo antes que você se dê conta. Como exemplo de que estas mudanças ao acaso (e, na maioria das vezes, sem sentido algum) nem sempre fazem com que as músicas fiquem melhores, temos a faixa título do álbum, onde o ritmo da intro é chupado na cara dura de "Da Da Da", dos alemães do Trio, o que, por consequência, faz com que ela fique parecendo com aquela "Só Love, Só Love", de Claudinho e Buchecha, que também chupinhou a mesma música. Quando ela muda pela primeira vez, fica parecendo uma sobra de algum disco do Dream Theater, e durante os próximos dois minutos é excelente, mas aí a música retoma a melodia da intro (para quê, se as duas partes não tem nada a ver uma com a outra?) e se perde novamente.

É ruim? Não, não se pode dizer isso, tanto que o renomado Thiago Sarkis (sempre uma referência para quem pretende escrever sobre música no Brasil) deu nota dez ao disco em uma crítica publicada no site whiplash. O som do grupo apenas não é para os meus ouvidos. Mas, se você não se importa de ouvir uma hora de pequenos trechos de um ou dois minutos que vão do prog viajante a algo próximo do thrash metal, passando por opera, cabaré, pop, jazz e até reggae, fique à vontade.

Eu gostei muito da vinheta "Tinnitus" (que é bastante direta e progressiva... quem dera o grupo a utilizasse como exemplo para as outras composições) e da faixa bônus que encerra o disco, "New Age Polka", instrumental e bem progressiva. E, convenhamos, quando o destaque de um disco é a faixa bônus, algo de errado está acontecendo... 



Embora com alguns resultados melhores, a fórmula se repete no segundo disco, Imaginary Friends, de 2001. Se o número de introduções matadoras diminuiu (e a de "A Supposed Tour" é uma da melhores), a criatividade nas linhas de teclado (as partes progressivas são excelentes) e o peso das guitarras com certeza teve um belo acréscimo em relação à estreia. Mas, infelizmente, ainda não foi desta vez que o A.C.T conseguiu fazer um disco que me agradasse. A mistura de metal que se transforma em baladinha e passa a algo que parece saído de uma ópera em menos de dois minutos não conseguiu, da maneira como foi feito, agradar aos meus ouvidos.

Em uma hora e três minutos, você viaja por diversos estilos musicais, tendo uma grande amostra do que o mundo da música pode lhe oferecer (progressivo, metal, pop, ópera, reggae, baladas, jazz, música de cabaré), porém sem conseguir se aprofundar e absorver nenhuma delas. Novamente temos uma suíte, "Relationships (The Long One)", formada por oito músicas independentes (algumas são só vinhetas) reunidas sob um mesmo título sei eu lá por que.

A curta vinheta "Second Thoughts", com sua guitarra faiscando e excelente uso dos teclados, se destaca por ser, assim como "Tinnitus", do disco anterior, uma música direta e orientada, e não uma junção de retalhos esparsos de tecidos diferentes. O peso do início de "Mr. Unfaithful" nos faz pensar estar diante da melhor música do grupo, mas, como sempre, após pouco mais de um minuto a boa impressão já foi para o espaço, e o grupo embarca em uma montanha russa que leva a composição da excelência para lugar algum. Por qual motivo? Perguntem aos suecos.

Um detalhe a apontar é que a capa lista a faixa bônus do álbum com o título de "Catherine', sendo que esta está escondida após "And They Lived Happily Ever After" (as duas estão na mesma marcação). Na verdade, a décima quinta faixa é um cover para a música "Mouse In A Maze", da banda canadense Saga. Nada que vá mudar o destino do disco. 

Formação de Last Epic

Enfim, dois discos para quem curte um prog metal bastante eclético, algo que você não encontrará por aí com tanta facilidade. O grupo já lançou dois outros álbuns (Last Epic, de 2003, e Silence, de 2006), mas eu não tenho interesse de procurá-los. Se a criatividade do grupo parece ilimitada, assim como o talento dos músicos realmente é enorme, resta ao quinteto orientar suas diversas ideias em canções que tenham mais unidade, e não fiquem passeando por tantos estilos sem chegar a lugar algum.

Ouça se tiver a mente bastante aberta e for extremamente eclético, o que não parece ser o meu caso...
 

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