domingo, 23 de abril de 2017

Midnight Oil - Diesel and Dust [1987]


Por Micael Machado

Corria o ano de 1987, e a Atlântida FM, a única "rádio rock" a chegar até a pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul onde eu morava então (e que permanece no ar até hoje, embora com um perfil já diferente) foi dominada por uma música introduzida por uma melodia onde várias vozes entoavam ao mesmo tempo algo como "tchu-ru-tchu-ru-tchu-ru-ru" repetidas vezes. Pouco tempo depois (ou antes, já não recordo), outra música do mesmo grupo invadiu as ondas daquela estação, desta vez questionando "como podemos dormir enquanto nossas camas queimam?". Do alto dos meus treze anos, eu nunca havia ouvido falar daquela banda (e de muitas outras, sejamos honestos),  mas, assim que descobri se chamar Midnight Oil, e que o disco que continha as duas faixas (a primeira chamada "The Dead Heart", e a segunda "Beds Are Burning") possuía como título Diesel and Dust, aproveitei a primeira oportunidade que tive de ir até uma cidade vizinha onde havia uma boa loja de discos e adquirir aquela bolachona (uma das primeiras que tive), em uma das decisões mais acertadas que já tomei, e que causou um caso de paixão por esta obra que permanece intacto mesmo passados quase trinta anos daquela ocasião.

Ao contrário do que eu pensava então, Diesel and Dust estava longe de ser a estreia do Midnight Oil. Sexto registro completo do grupo australiano formado em 1976 e composto, à época, por Peter Garrett nos vocais, Martin Rotsey e Jim Moginie nas guitarras (com o segundo também se dedicando aos teclados), Peter Gifford no baixo (o qual deixaria a banda ainda antes do lançamento do disco, sendo substituído por Bones Hillman) Robert Hirst na bateria, o álbum foi o responsável por consolidar o nome do quinteto nas paradas mundiais, mas eles estavam longe de ser meros desconhecidos, especialmente em seu país natal, onde sua popularidade já era bastante destacada. Tanto que, ao longo de boa parte do ano de 1986, o grupo se dedicou a uma turnê intitulada "Blackfella/Whitefella", onde percorreu os confins da Austrália ao lado das bandas Gondwanaland e Warumpi Band, dois grupos formados por músicos de origem aborígene (a população indígena original do país), e que serviu para divulgar as dificuldades que esta população enfrentava para conseguir sobreviver em seu país natal (como ocorre com muitos indígenas em todo o continente americano).

Midnight Oil em 1987, posando no meio do deserto australiano

A turnê foi crucial para o conceito das letras do próximo registro do Midnight Oil (o mesmo disco do qual estamos tratando aqui), as quais servem para chamar a atenção não só dos australianos, mas do mundo inteiro para as agruras de toda uma raça, a começar pela própria "The Dead Heart" (quarto lugar nas paradas da Austrália, e décimo-primeiro lugar na "Billboard Mainstream Rock Tracks" dos Estados Unidos), cujo título é uma expressão tradicional que faz referência ao imenso deserto que domina boa parte do continente australiano, e onde a maioria da população aborígene reside. A preocupação com a causa indígena continua na roqueira "Warakurna", minha faixa favorita no álbum (cujo título faz referência a uma pequena comunidade aborígene visitada pela banda durante a turnê "Blackfella/Whitefella"), na rápida "Bullroarer" (nome de um instrumento típico daquela comunidade, e que foi utilizado nesta faixa), na própria "Beds Are Burning" (que chegou ao sexto lugar das paradas australianas, inglesa e norte-americana, e que pede a devolução de terras da Austrália para sua população original), na tipicamente oitentista "Sell My Soul" (que trata dos aborígenes que deixam suas comunidades originais para conviver nas cidades dos "homens brancos"), na empolgante "Gunbarrel Highway" (que acabou censurada nos Estados Unidos, e não faz parte das versões em vinil e cassete da obra, infelizmente, visto ser melhor que algumas faixas da versão "oficial" de Diesel and Duste na sinistra (e meio gótica) "Whoah", onde os aborígenes se voltam à religião dos "colonizadores", a qual não lhes dá a atenção necessária.

Outras causas defendidas pelo grupo ao longo de sua carreira aparecem também nas letras das demais faixas do disco, como a preocupação com o meio-ambiente e o futuro do planeta (em "Arctic World", que tem a melodia conduzida por violões e um sentimento mais tristonho ao longo de sua audição), os direitos dos trabalhadores ("Sometimes", onde os operários são explorados por "canibais de terno e gravata", e que apresenta melodias que remetem à surf music), questões políticas de seu país natal (na animada "Dreamworld", que foi lançada em single e ganhou um vídeo) e tópicos pacifistas e anti-guerras  (em "Put Down That Weapon", um rock mais marcado, com destaque para a linha de baixo, além de um belo refrão onde os teclados assumem a frente da melodia, também lançada como single e recebendo um vídeo de divulgação). O curioso é que, mesmo as letras sendo tão importantes para o contexto geral do álbum, no encarte original era bastante difícil compreendê-las e entender seus significados (especialmente quando se tem apenas treze anos e não existe algo como a internet para lhe ajudar a buscar todas estas informações, as quais só vim a descobrir muitos anos depois), visto que a arte do mesmo foi toda feita de modo a parecer que os textos foram escritos no papel com um óleo bastante viscoso, que "escorre"e "pinga" aqui e ali, e torna tudo bastante difícil de ser lido.

Detalhe do encarte original de Diesel and Dust, cuja arte dificulta a leitura das letras

Como disse, felizmente anos depois a internet deixou tudo mais fácil, e hoje é bastante fácil termos acesso ao conteúdo dos textos de Diesel and Dust, suas traduções e significados, e darmos ainda mais importância a esta verdadeira obra prima do rock australiano, que em 1989 foi considerado pela prestigiada revista Rolling Stone como o décimo-terceiro melhor disco da década de 1980, e listado como "número um" no livro "100 Best Australian Albums", lançado em 2010, e que em 2008 ganhou uma "Legacy Edition" que vem com um DVD de bônus, o qual contém os vídeo clipes de "The Dead Heart" e "Beds are Burning", além de um documentário sobre a citada turnê "Blackfella/Whitefella". Já o Midnight Oil continuou acumulando hits e prestígio até 2002, quando anunciou sua separação, vindo o vocalista Peter Garrett a se dedicar à política de seu país natal, chegando a ser eleito para um cargo equivalente ao de Senador na Austrália, e depois assumindo a pasta de ministro do meio ambiente do país.

Para surpresa geral, em 2016 o quinteto anunciou seu retorno, com uma excursão mundial que iniciará com cinco datas no Brasil entre abril e maio deste ano, da qual a primeira data será dia 25 deste mês na cidade de Porto Alegre, onde certamente estarei presente, cantando, a plenos pulmões, não só os grandes clássicos da carreira da banda, mas também (espero eu) muitas faixas de Diesel and Dust, um dos primeiros discos a chamar minha atenção ainda na adolescência, e que permanece no meu coração até hoje! Que este dia chegue logo, para que eu e muitos outros fãs possamos novamente cantar de forma emocionada o tão conhecido "tchu-ru-tchu-ru-tchu-ru-ru" de uma das grandes faixas da década de 1980! Há de ser épico!

Contracapa da versão original em vinil, sem a faixa "Gunbarrel Highway"

Track List:

1. Beds Are Burning
2. Put Down That Weapon 
3. Dreamworld 
4. Arctic World
5. Warakurna
6. The Dead Heart
7. Whoah
8. Bullroarer
9. Sell My Soul
10. Sometimes 
11. Gunbarrel Highway

Ramones Too Tough To Die [1984]


Por Micael Machado

As coisas não andavam lá muito boas para os Ramones em 1983. Seus últimos álbuns não tinham se saído muito bem em termos de vendas, o baterista Marky Ramone havia sido afastado devido a seus problemas com o álcool, bandas confessamente influenciadas pelos brothers de Nova Iorque começavam a chamar a atenção e ultrapassar comercialmente seus inspiradores com sua interpretação mais vigorosa do punk rock conhecida como hardcore (assim como as primeiras bandas de thrash metal também estavam despontando pelo mundo), e, para piorar tudo, o guitarrista Johnny Ramone havia sido espancado por um sujeito (ao que consta, chamado Seth Macklin, membro da banda Sub-Zero Construction) na madrugada de quatorze de agosto daquele ano, e acabou parando no hospital com uma fratura no crânio, sendo submetido a uma operação e ficando com sua vida seriamente arriscada. Três meses depois, com a cabeça raspada e usando um capacete de beisebol como proteção, Johnny estava de volta à ativa, e decidido a provar que o seu grupo também podia competir com talento e competência no mesmo campo dos novos grupos que se espalhavam pela Grande Maçã, como a cidade natal da banda é conhecida.

A dupla de produtores Ed Stasium e Thomas Erdelyi (Tommy Ramone, primeiro baterista do grupo, recentemente falecido), que já haviam comandado os trabalhos no disco Road To Ruin, de 1978, foi chamada de volta para coordenar as gravações do novo álbum, o qual marcaria a estreia em estúdio do novo baterista, Richie Ramone (Richard Reinhardt, também conhecido como Richard Beau, ex-membro dos Velveteens). Com Johnny ainda se recuperando de seu trauma, e o vocalista Joey Ramone entrando e saindo de hospitais por causa de sua saúde (que nunca foi muito boa ao longo de toda a carreira do quarteto, mas na época andava um pouco pior), a maior parte do trabalho de composição acabou caindo sobre Dee Dee Ramone, e o baixista, é claro, não decepcionou!

Um dos registros feitos durante a sessão de fotos para a capa. Aqui, a banda aparece visível: Joey, Richie, Dee Dee e Johnny

Se a ideia era mostrar que os Ramones sabiam fazer música pesada tão bem quanto os "novatos" de sua vizinhança, a faixa de abertura, "Mama's Boy" (de Johnny, Dee Dee e Tommy), servia perfeitamente de exemplo, assim com a faixa título, cujo nome foi inspirado pelo incidente pelo qual o guitarrista havia passado, mas também servia para provar a determinação do grupo em não desistir, apesar dos fracassos recentes e da falta de um maior sucesso comercial. Já composições como "Wart Hog" (cuja letra, cantada por Dee Dee, não era citada no encarte original, sendo substituída por um grande ponto de interrogação), "Endless Vacation" (uma das coisas mais velozes gravadas pelos brothers em sua carreira, e também vociferada pelo baixista) e até mesmo a instrumental "Durango 95" (única do tipo na discografia do grupo, e que teve seu título inspirado por um restaurante frequentado pela banda, o qual, por sua vez, se inspirou no carro dirigido por Malcolm McDowell no filme "Laranja Mecânica", de 1971) provavam claramente que o quarteto também era capaz de tocar um punk rock tão rápido e agressivo quanto qualquer agrupamento novato de Nova Iorque. Os discos seguintes deixariam isto ainda mais evidente, mas estas cinco faixas já bastavam para que Johnny provasse o seu ponto quanto à relevância e ao lugar dos Ramones no cenário da musica à época. Cabe citar que as três últimas faixas citadas foram aquelas deste álbum que contaram com a colaboração do guitarrista em sua composição (as duas primeiras ao lado de Dee Dee), assim como a de abertura e "Danger Zone", outra faixa rápida e veloz, porém não tão próxima do hardcore quanto as demais contribuições de Johnny para o disco.

Parte do encarte original de Too Tough to Die. Bem acima à direita, o ponto de interrogação que substituía a letra de "Wart Hog"

Duas composições exclusivas de Dee Dee, "I'm Not Afraid of Life" e "Planet Earth 1988", são bem mais sombrias do que o restante do material, tanto musical quanto liricamente. Elas passam um sentimento de pessimismo quanto ao futuro do planeta e de seus habitantes, assim como a única contribuição de Richie para o repertório, "Humankind", a qual, apesar de se encaixar perfeitamente no conceito de punk rock (embora um pouco mais pesada que o padrão, conforme o conceito de Johnny para o álbum), está longe de ser uma faixa alegre e divertida, especialmente quando prestamos atenção à sua letra. Joey, apesar de não estar em sua melhor forma em termos de saúde, também arranjou espaço para contribuir, escrevendo o exemplo perfeito de poppy punk chamado "Daytime Dilemma (Dangers of Love)" ao lado do guitarrista Daniel Rey, e a quase rockabilly "No Go", que emanava o bubblegum da década de 1950 no encerramento do lado B do disco.

Duas composições totalmente fora do contexto "hardcore" de Too Tough to Die acabaram também se incluindo dentre seus pontos mais altos. Fechando o lado A, a descaradamente pop "Chasing the Night" (uma parceria de Joey e Dee Dee, com a ajuda do baixista Busta Cherry Jones, que tocou, entre outros, com Gang Of Four e Talking Heads) soava completamente deslocada quando comparada ao restante do track list, além de apresentar os teclados e sintetizadores de Jerry Harrison, também dos Talking Heads. Mas, curiosamente, esta faixa encontrava parceria na primeira música do lado B, "Howling at the Moon (Sha-La-La)", único single e vídeo retirado do álbum, e que teve o envolvimento, em sua produção, do músico Dave Stewart, da banda Eurythmics, agenciada pela mesma equipe de gerenciamento dos Ramones, e sugerido pelo empresário dos brothers à época, Gary Kurfirst. Foi Stewart quem trouxe o tecladista do Tom Petty and the Heartbreakers, Ben Tench, para tocar na faixa, que atingiu a modesta posição de número 85 na parada britânica (o single não foi lançado nos Estados Unidos). Já o álbum, cuja capa teve seu conceito inspirado pelo mesmo filme "Laranja Mecânica" que deu nome para "Durango 95", e que apresenta apenas a sombra dos músicos em frente a um fundo azul, em um "erro" causado por uma falha dos flashes durante o registro das fotos para as capas (em outras fotografias daquela sessão a banda é perfeitamente visível), apesar de sua qualidade, conseguiu naufragar nas paradas ainda mais do que seus antecessores, não passando da posição 171 da Billboard.

Contracapa da versão original em vinil de Too Tough to Die

Em 2002, a gravadora Rhino lançou uma edição "expandida e remasterizada" do disco, que acrescentou outras doze faixas às treze composições originais. Dentre elas, o excelente cover para "Street Fighting Man", dos Rolling Stones, e a poppy punk "Smash You" (outra composição de Richie), ambas "lados B" da versão de doze polegadas do single para "Howling at the Moon (Sha-La-La)". Há também as inéditas "Out Of Here" (música em mid tempo onde a voz de Joey, infelizmente, ficou muito baixa na mixagem final) e "I'm Not an Answer", mais veloz e selvagem do que a versão que aparece no relançamento de Pleasant Dreams, e que, aqui, conta com vocais a cargo de Dee Dee, assim como as versões demo de "Planet Earth 1988", "Danger Zone" e "Too Tough to Die", que mostram que o baixista era perfeitamente capaz de encarar os microfones neste novo estilo musical que os Ramones estavam abraçando. As demais faixas desta edição são demos para musicas que acabaram integrando o track list original de Too Tough to Die, e, apesar de interessantes (especialmente "Howling at the Moon", totalmente descaracterizada sem a presença dos teclados, e "Endless Vacation", com Dee Dee entoando repetidamente "Deutschland" ao seu final), não consigo apontar destaque maior para nenhuma delas em relação às versões "oficiais".

Too Tough to Die (que também conta com a presença do guitarrista Walter Lure, dos Heartbreakers, como músico de apoio em algumas faixas) marcaria o início da colaboração de Richie Ramone com o quarteto de Nova Iorque, na minha opinião (e parece que apenas para mim) o melhor período dos brothers, onde a influência do hardcore foi primordial para a criação dos meus dois discos favoritos na carreira do grupo, Animal Boy, de 1986, e Halfway to Sanity, de 1987, embora, assim como no disco de 1984, o grupo também mostrasse outras facetas de sua sonoridade ao longo dos sulcos destes três vinis, os quais, infelizmente, ainda carecem de um maior apreço e compreensão por parte do fãs do conjunto. Um fato, a meu ver, incompreensível!

"On my last leg, just gettin' by, halo round my head, too tough to die..."

Contracapa da versão expandida de Too Tough to Die

Track List:

1. Mama's Boy

2. I'm Not Afraid of Life

3. Too Tough to Die

4. Durango 95

5. Wart Hog

6. Danger Zone

7. Chasing the Night

8. Howling at the Moon (Sha-La-La)

9. Daytime Dilemma (Dangers of Love)

10. Planet Earth 1988

11. Humankind

12. Endless Vacation

13. No Go

Faixas Bônus da edição expandida de 2002:

14. Street Fighting Man

15. Smash You

16. Howling at the Moon (Sha-La-La) (Demo Version)

17. Planet Earth 1988 (Dee Dee vocal version)

18. Daytime Dilemma (Dangers of Love) (Demo Version)

19. Endless Vacation (Demo Version)

20. Danger Zone (Dee Dee vocal version)

21. Out of Here

22. Mama's Boy (Demo Version)

23. I'm Not an Answer

24. Too Tough to Die (Dee Dee vocal version)

25. No Go (Demo Version)

domingo, 2 de abril de 2017

Plebe Rude - Nação Daltônica [2014]


Por Micael Machado

Depois de oito anos sem apresentar um registro de inéditas, a Plebe Rude lançou em 2014 seu sexto disco, Nação Daltônica, uma mostra da relevância e da importância do quarteto originado em Brasília para o rock nacional. Os fundadores Philippe Seabra (guitarra e vocais) e André X (baixo e vocais) se fizeram acompanhar pelo guitarrista e vocalista Clemente Nascimento (também membro dos Inocentes, na banda desde 2004) e pelo estreante baterista Marcelo Capucci (que se uniu ao grupo em 2011), e gravaram um disco que reafirma a essência do som da Plebe.

Considerada uma das primeiras formações punk do país (ao lado do Aborto Elétrico), a música do quarteto sempre foi mais do que o estilo delimita, incorporando elementos do pós-punk, do pop rock e do folk ao longo de sua trajetória. Nação Daltônica traz um pouco de tudo isso em suas dez faixas (que perfazem pouco menos de trinta e seis minutos), mostrando a integridade de Philippe, o principal compositor da banda. Até mesmo a capa, que intencionalmente remete a Nunca Fomos Tão Brasileiros (segundo disco do grupo, de 1987), parece querer reafirmar que, mesmo passados tantos anos, a Plebe ainda é a mesma, desde o som até a temática contestadora das letras, como se percebe em "Anos de Luta", que critica a apatia da atual geração de "roqueiros" do país, onde a música não é o mais importante, mas sim a fama e o sucesso instantâneo, ainda que para isso seja preciso aceitar as "regras do jogo" impostas pela TV e pelas rádios, e onde tudo vira apenas "entretenimento no final" (em uma mensagem parecida com a de "Minha Renda", do EP de estreia do grupo).

A Plebe Rude atual: Clemente Nascimento, André X, Philippe Seabra e Marcelo Capucci

Com o baixo guiando a melodia, a agitada "Que Te Fez Você" é um dos destaques do track list, ao lado de "Mais Um Ano Você" (versão em português para "Will You Stay Tonight?", da banda inglesa de The Comsat Angels, e que, ao expurgar os chatos teclados eletrônicos da versão original, acabou ficando bem mais interessante do que esta), da legitimamente pós-punk "Rude Resiliência" e de "Tudo Que Poderia Ser", composição que traz em seu arranjo todas as características típicas da Plebe Rude, e que ganha aqui sua versão "oficial" de estúdio, visto já ter aparecido antes no ao vivo Rachando Concreto, de 2011.

Se a semi-balada "(Go Ahead) Without Me" (com letras em inglês) teve todos os instrumentos tocados exclusivamente por Philippe, a linda "Sua História" contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Praga, enriquecendo ainda mais o arranjo de uma das melhores faixas do disco. "Retaliação", a faixa de abertura, tem um ritmo mais cadenciado, quase marcial, enquanto "Quem Pode Culpá-lo?" lembra algumas bandas da cena "alternativa" atual (e poderia facilmente marcar presença nas rádios, caso estas se interessassem em tocar música de qualidade em sua programação) e "Três Passos", que fecha o trabalho, é a única deste registro a contar com os vocais de Clemente em dueto com Seabra.

Contracapa de Nação Daltônica

Nação Daltônica nos faz lembrar de um tempo onde o rock brasileiro era contestador, instigante e relevante, e não dominado por aglomerações "indie" com tendências "modernosas" e sonoridade derivativa e enfadonha! Que saudades!

Track List:

01. Retaliação
02. Anos de Luta
03. Mais Um Ano Você
04. Que Te Fez Você
05. Sua História
06. Rude Resiliência
07. Quem Pode Culpá-lo?
08. Tudo Que Poderia Ser
09. (Go Ahead) Without Me
10. Três Passos

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Livro: Viva La Vida Tosca - João Gordo


Por Micael Machado

Quem acompanha a carreira de João Gordo, seja pelas várias entrevistas que concede (para mídias tão distintas que vão desde os programas de Marília Gabriela e Ronnie Von a canais undergrounds do youtube), quanto por aquelas que realiza em seu próprio canal, o Panelaço, já sabe há tempos que o músico e ex-apresentador da MTV e da Rede Record vinha preparando um livro sobre sua vida em parceria com o conceituado jornalista André Barcinski. Pois, na reta final de 2016, a editora Darkside Books finalmente colocou no mercado Viva La Vida Tosca, o qual narra, ao longo de 324 páginas (acondicionadas em uma belíssima edição com capa dura), a história de vida de um dos personagens mais importantes da música "pesada" nacional, seja ela punk, hardcore, heavy metal ou algo ainda mais extremo.

Escrito todo em primeira pessoa, o texto é extremamente agradável de ler, especialmente para aqueles já acostumados a escutar João conversando com seus convidados ou entrevistadores nas mídias citadas acima. Aliás, é na forma deste texto que se percebe com mais facilidade a "mão" de Barcinski (que, segundo o site da editora, entrevistou Gordo por quase dezoito meses para poder compor a obra), pois o mesmo certamente teve um trabalho enorme para "amaciar" os termos por vezes "chulos" usados pelo biografado quando fala para a câmera, e que raramente aparecem ao longo da escrita, sendo substituídos por expressões mais "palatáveis" a alguns ouvidos mais "sensíveis" que por ventura venham a ler esta obra. Mas não é algo que chegue a descaracterizar o conteúdo, e, ao longo da leitura, a impressão que temos é de que estamos diante do próprio vocalista do Ratos de Porão, contando animada e alegremente "causos" variados de sua tumultuada e "aventurada" vida, muitos deles já relatados antes aqui e ali, mas que surgem mais detalhados e explicados nas páginas deste livro do que nos rápidos e incompletos relatos anteriores onde possam já haver aparecido.

Parte do conteúdo de Viva La Vida Tosca

Viva La Vida Tosca pode, a grosso modo, ser dividido em quatro partes: a infância e adolescência de Gordo (com destaque para os problemas entre este e sua família, especialmente com o pai altamente repressor, o qual foi causa de muitos traumas ao longo da vida do músico), o início de sua participação no Ratos de Porão e os primeiros anos de sua vida na banda (período que vai, mais ou menos, até o lançamento do álbum Anarkophobia, em 1991), sua participação como apresentador da MTV (e, posteriormente, como já dito, da Rede Record), e o período "marido-e-pai-de-família" que passou a viver depois de quase morrer de overdose e problemas pulmonares, e se casar com a argentina Viviane Torrico, que ele declara ter salvo sua vida, além de ter lhe dado seus dois filhos, Victoria e Pietro. Como disse, o texto ao longo do livro é bastante interessante, e realmente "prende" a atenção do leitor, mas senti falta de uma maior "interação" entre as diferentes "partes" da história, pois, a partir do momento em que o biografado inicia sua carreira na televisão, o Ratos de Porão praticamente desaparece do livro, assim como a própria TV (e seus trabalhos posteriores, como o citado Panelaço) praticamente não aparecem na parte "família" do livro, algo que não chega a comprometer a obra, mas que poderia ter aparecido no texto para enriquecer mais ainda a historia de Gordo.

Contracapa de Viva La Vida Tosca (foto retirada do site mobground.net)

De resto, o maior defeito de Viva La Vida Tosca, apesar das mais de trezentas páginas (grande parte delas ocupadas por fotos muitas vezes inéditas, cedidas pelo próprio João Gordo), é ser extremamente curto para a quantidade de histórias e "causos" que o personagem retratado em suas páginas já viveu ou experimentou. Muitas passagens interessantes que João já relatou aqui e ali não aparecem no livro, e, mesmo que a leitura seja extremamente prazerosa ao final, ainda fica um gosto de "quero mais", o qual talvez seja sanado em uma hipotética "parte dois" (quem sabe, hã)?

De todo modo, é um livro extremamente recomendável, especialmente aos fãs do Ratos ou apenas de seu "multimidiático" vocalista!

sábado, 28 de janeiro de 2017

Oops… I Did It Again – Wander Wildner – Wanclub - Música Para Dançar Volume 59 [2016]


Por Micael Machado

O cantor e compositor Wander Wildner começou sua carreira no grupo de punk rock gaúcho Os Replicantes, que lançou seu álbum de estreia, O Futuro é Vórtex, em 1986. Em 1995, Wander saiu em carreira solo, que iniciou efetivamente com o lançamento do disco Baladas Sangrentas, no ano seguinte. Sendo assim, 2016 marca não só os trinta anos da estreia fonográfica de um dos mais importantes artistas do rock no Rio Grande do Sul, mas também os vinte anos do início da discografia solo do inventor do estilo punk brega. Talvez motivado por isso, além de sentir uma necessidade de se aproximar mais de seus fãs (que sempre lhe cobraram um álbum reunindo seus maiores sucessos), o músico decidiu regravar alguns temas de seu vasto repertório (desde a época dos "Repli" até seu momento atual), "atualizando" os mesmos para os arranjos que Wander e sua banda, os Comancheros, apresentam já há algum tempo pelos palcos do país inteiro. Para tal, Wildner recorreu a uma campanha de financiamento coletivo (também conhecido como crowdfunding) através do site Kickante. O valor pretendido para o projeto (R$ 39.000 reais) foi rapidamente conseguido, e esta meta foi inclusive superada, possibilitando a tranquilidade necessária para Wander e seus parceiros entrarem no estúdio Dreher,  em Porto Alegre, e saírem de lá com um registro que tem tudo para cair nas graças dos muitos admiradores de seu trabalho.

A escolha do repertório do disco foi feita por aqueles que participaram da campanha, através de uma votação feita por e-mail enviado diretamente a cada um dos que colaboraram com o financiamento (os quais ainda receberam uma cópia autografada do CD e tiveram o seu nome registrado no encarte do mesmo como forma de agradecimento). As possibilidades de escolha eram muitas, mas o repertório final acabou soando como um verdadeiro "best of" da carreira de Wander, que, sempre inquieto e irrequieto com relação à suas músicas, não se limitou a apenas regravar preguiçosamente seus grandes sucessos, mas registrou novos arranjos para praticamente todas as faixas selecionadas para o álbum. Em alguns casos, a mudança foi sutil, como as alterações na letra de "Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo", a bela e sombria linha de teclado adicionada a "Astronauta", a linha de sax muito bem encaixada em "Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro" (a cargo do convidado King Jim, ex-integrante dos Garotos da Rua, e que inclusive recebeu um vídeo clipe de divulgação), a leve injeção de peso dada a "Surfista Calhorda" ou o belo arranjo de piano de "Quase Um Alcoólatra", que conseguiu deixar a canção ainda mais brega que a original (o que, no caso das músicas de Wander, não é demérito algum).


O autógrafo de Wander e o nome deste que vos escreve no encarte, itens exclusivos de quem participou da campanha de crowdfunding.

Em outros casos, as mudanças causarão espanto a quem está acostumado apenas às versões originais das músicas escolhidas, especialmente àqueles que não costumam frequentar as apresentações do cantor (seja solo ou com sua banda). Os novos arranjos podem soar muito bem, como em "Sandina", um pouco mais lenta e com a primeira parte cantada por seu autor, o guitarrista Jimi Joe (que registrou as seis cordas na maioria das faixas do álbum); "Rodando El Mundo", transformada em um verdadeiro ska jamaicano, com direito ao trombone de Júlio Rizzo como um "molho" especial e uma parte mais calma e "viajante" no meio; "Mantra das Possibilidades", que ficou mais rápida e com mais participação das guitarras; "Hippie-Punk-Rajneesh", totalmente diferente da original, agora com uma batida de surf music e uma linha melódica que me remete a "Let's Lynch The Landlord", do Dead Kennedys; e, principalmente, "Amigo Punk", surpreendentemente transformada em um funkzão que não deve nada aos clássicos dos anos 1970, com um baixo cheio de groove, um belo órgão Hammond e uma guitarra altamente suingada a cargo do jovem prodígio Erick Endres, um dos maiores talentos surgidos nos últimos anos no rock gaúcho.

Há casos, porém, onde as mudanças são tamanhas que certamente causarão estranhamento mesmo ao mais dedicado fã. A tentativa de transformar "Boas Notícias" e "Bebendo Vinho" em skas acaba fazendo com que as mesmas fiquem soando como aquelas músicas tradicionais alemãs que se ouve em festas como a da Oktoberfest, especialmente a segunda, que ainda conta com Wander no kazoo. Já a batida e a linha de guitarra retiradas da surf music e incorporadas a "Um Lugar do Caralho" não casaram bem com este clássico do rock gaúcho, que ainda tem uma parte lenta bastante desconexa ali pelo meio. O reggae inserido em "Eu Queria Morar em Beverly Hills" também não se encaixou muito bem com a faixa, e causa estranheza em meio ao agito do resto da canção. Não quer dizer que estas mudanças "estraguem" as faixas (longe disso), mas será bastante difícil se acostumar a estas "novas" versões para aqueles que escutam os originais já há bastante tempo, como é o meu caso.

Ainda foram disponibilizadas apenas para download outras seis faixas, com destaque para a inédita "Colonos em Chamas", que também ganhou um vídeo clipe. O fato de estas faixas estarem disponíveis apenas em formato digital, na minha opinião, acabou sendo o único grande erro do projeto, pois, como o álbum acabou recebendo distribuição através do selo Deck Discos, elas poderiam ter sido disponibilizadas pelo menos nas versões entregues àqueles que colaboraram com a campanha de crowdfunding, que ganharam a exclusividade apenas de terem seu nome citado no encarte, pois o autógrafo de Wander qualquer um que for a um show do cantor tem a possibilidade de conseguir (e o encarte da versão "regular" do disco vem com um espaço reservado para isto, o mesmo que já está preenchido na edição entregue aos participantes). Como colecionador, gostaria muito de ter a versão "física" destas outras canções (algumas bastante interessantes, como a versão acústica de "Mares de Cerveja", o arranjo recheado de teclados de "Jesus Voltará!" ou a nova versão da clássica "Festa Punk"), e , certamente, seria um belo diferencial para aqueles que ajudaram na realização e gravação do álbum.

Contracapa de Wanclub - Música Para Dançar Volume 59

Mas esta minha bronca com as "faixas bônus" acaba sendo mais implicância de minha parte do que um problema de verdade, o que não impede Wanclub - Música Para Dançar Volume 59 de ser uma excelente coletânea do melhor do trabalho de Wander Wildner, e uma excelente porta de entrada para quem nunca se interessou por sua longa carreira musical ou não teve a chance de conhecer bem sua trajetória. O cantor e seus Comancheros estão rodando o país em shows que têm este disco como base, resultando em um belo espetáculo para quem tiver a oportunidade de conferir uma de suas apresentações. Se for o seu caso, não desperdice a chance. Garanto que vale a pena!

Track List:

01. Astronauta
02. Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo
03. Bebendo Vinho
04. Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro
05. Um Lugar do Caralho
06. Surfista Calhorda
07. Mantra das Possibilidades
08. Rodando El Mundo
09. Sandina
10. Amigo Punk
11. Hippie-Punk-Rajneesh
12. Quase Um Alcoólatra
13. Eu Queria Morar em Beverly Hills
14. Boas Notícias
15. Mares de Cerveja (Bonus Track Digital)
16. Colonos em Chamas (Bonus Track Digital)
17. Empregada (Bonus Track Digital)
18. Um Bom Motivo (Bonus Track Digital)
19. Jesus Voltará! (Bonus Track Digital)
20. Festa Punk (Bonus Track Digital)

Broken Jazz Society - Gas Station [2016]


Por Micael Machado

Formado na cidade mineira de Uberaba em 2013, o trio Broken Jazz Society (composto por Mateus Graffunder nos vocais e guitarra, João Fernandes no baixo e Felipe Araújo na bateria) lançou no ano seguinte seu primeiro registro, Tales From Purple Land, e, agora em 2016,  solta o EP Gas Station, que serve como aperitivo para o segundo disco de estúdio. Se o novo álbum seguir a linha da faixa título deste item, os fãs podem esperar por muita coisa boa vindo por aí!

O próprio grupo rotula seu estilo como "stoner rock", mas a sonoridade dos rapazes vai bem mais além do que a mera cópia dos riffs imortalizados pelo Black Sabbath na década de 1970, coisa que muitas bandas do estilo se limitam a fazer. No caso do BJS, a palavra "jazz" no nome da banda pode levar a expectativas errôneas sobre o tipo de música que os mineiros fazem, mas serve para lembrar que, assim como o tradicional estilo que lhe empresta o epíteto, a música do Broken Jazz Society também não precisa ser limitada pelas convenções do nicho sonoro onde se abrigam. "Gas Station", a música, apesar de começar com um belo riff arrastado e de afinação baixa, como manda a cartilha do Stoner (e que remete ao Corrosion of Conformity da fase Deliverance / Wiseblood), logo ganha ares mais variados, possuindo um refrão bem mais animado que 90% das músicas de seus colegas de estilo. Os vocais de Graffunder podem causar certa estranheza no começo, sendo um pouco mais agudos que o comum em bandas deste gênero, mas se deixam ouvir sem dificuldades depois que nos "acostumamos" a ele. O bom nível da gravação (feita na própria cidade natal dos músicos, com a produção de Ricardo Barbosa e mixagem e masterização a cargo de Gustavo Vazquez, que já trabalhou com bandas como Uganga e Hellbenders) também ajuda no impacto que a faixa causa, dando uma boa impressão do trabalho do trio logo no início da audição além da mesma ter ganho um vídeo clipe de divulgação muito bem feito, e que agrega bastante à sonoridade da canção.

O trio Broken Jazz Society em cena do clipe da música "Gas Station"

"Mean Machine", a faixa que encerra o EP, pode ser qualificada como uma semi-balada, fugindo um pouco do stoner tradicional e agregando algo de southern rock à sua melodia, mostrando mais uma vez que, na hora de compor suas canções, o trio não se limita às convenções do gênero que decidiram abraçar. O refrão mais energético surge como um contraponto ao ritmo calmo das estrofes, em uma composição que tem tudo para agradar quem é fã das saudosas baladas das bandas do hard rock oitentista, desde que o peso da guitarra não lhes assuste ou espante.

No meio das duas faixas citadas, fechando o track list deste EP (cujo único problema está justamente em sua curta duração, de pouco mais de onze minutos), temos "Riot Spring", uma regravação da faixa de mesmo nome presente no debutMais arrastada e soturna que as demais, mas com um refrão rápido e empolgante, a canção dá destaque ao peso do baixo de João Fernandes, além de contar com um solo final por parte de Mateus que causará empolgação aos fãs do instrumento. A música também ganhou um vídeo de divulgação (bastante elaborado, diga-se de passagem), e é mais uma faixa de destaque no repertório de Gas Station.

Broken Jazz Society: João Fernandes (baixo), Felipe Araújo (bateria) e Mateus Graffunder (vocais e guitarra)

Particularmente, sou um grande apreciador do gênero Stoner (ou retro rock, como alguns preferem chamar), e descobrir um talento do estilo surgido aqui no Brasil é bastante agradável, pois não conheço tantos nomes relevantes desta vertente no nosso país. Se o próximo full lenght tiver a mesma qualidade deste EP, o Broken Jazz Society tem tudo para cravar seu nome dentre os principais do estilo no Brasil, e deverá colher excelentes frutos ao longo de sua trajetória! Vamos esperar e conferir!

Track List:

01. Gas Station

02. Riot Spring

03. Mean Machine

domingo, 4 de setembro de 2016

Discografias Comentadas: EMF


Por Micael Machado

No começo da década de 1990, várias bandas da cidade inglesa de Manchester e arredores conseguiram destaques nas rádios mundiais com uma mistura de rock and roll, pop, samplers e outros elementos eletrônicos e ritmos dançantes e "grudentos", em uma "cena" que viria a ser chamada de "Madchester". Dentre nomes como Happy Mondays, The Stone Roses, Inspiral Carpets e James, foi talvez o Epsom Mad Funkers quem se deu melhor (mesmo tendo entrado no movimento meio que por "convenção" da imprensa, visto que a banda se originou na pequena Cinderford, cidade distante de Manchester). O quinteto era formado por James Atkin nos vocais, Ian Dench nas guitarras, Derry Brownson nos teclados e samplers, Zac Foley no baixo e Mark de Cloedt na bateria, todos músicos experientes na região (apesar de bastante jovens), e que foram "agrupados" graças à influência do músico DJ Milf, amigo dos caras, e que ajudou a montar a banda em 1989 (participando depois como convidado do primeiro disco). No ano seguinte, seu single de estreia pelo selo Parlophone, "Unbelievable", era lançado na Inglaterra, alcançando o número 3 da parada de seu país de origem, mas chegando ao primeiro lugar da parada americana. A repercussão abriu espaço para a gravação do primeiro registro completo, e para uma carreira que, entre altos e baixos, mantém os rapazes na ativa até os dias de hoje.

Conheça agora um pouco dos discos e da história de uma das bandas inglesas mais destacadas no final do século XX, o EMF!


Schubert Dip [1991]


"Unbelievable" trazia um pop pegajoso e que se adequava perfeitamente ao gosto das rádios FM daquele começo da década de 1990, mas o álbum de estreia do quarteto não seguia exatamente por esta linha. Os outros principais singles do álbum, "Children" e "I Believe", eram bem mais "nervosos", com a guitarra em destaque e um ritmo frenético, fruto da junção da bateria com os elementos eletrônicos. "Lies", outro destaque, é mais sombria, e causou controvérsia ao trazer, nas primeiras edições do disco, um sample da voz de  Mark David Chapman recitando as primeiras linhas da letra de "Watching the Wheels", música composta por John Lennon (a quem Chapman assassinaria em 1980). Este sample seria retirado das edições posteriores do álbum a pedido da viúva de Lennon, Yoko Ono. O track list de Schubert Dip (título que mistura o nome do famoso compositor austríaco a um popular doce inglês) traz faixas mais pop e dançantes como "Longtime", "When You're Mine", "Girl of an Age" e "Admit It" (guiadas pelos teclados) misturadas a faixas mais "frenéticas" (como "Long Summer Days") e outras de tom sombrio (como "Travelling Not Running", provavelmente a minha preferida na discografia do grupo, e que parece saída de um disco de qualquer uma das bandas góticas de destaque nos anos 1980), além de uma faixa escondida chamada "EMF", uma das melhores composições do quinteto, e cujo refrão brade "E-Ecstasy, M-Motherfuckers, F-From Us To You", o que fez muita gente acreditar que este era o significado da sigla que nomeia o quinteto, algo que os rapazes sempre desmentiram. A boa repercussão do disco de estreia (novamente número 3 na Inglaterra, e número 12 nas paradas americanas) levou ao lançamento do EP Unexplained em 1992, que trazia as inéditas "Far from Me" e "The Same", além de "Getting Through" (que reapareceria no disco seguinte) e uma bela cover para "Search and Destroy", clássico dos Stooges, além da oportunidade de lançarem o segundo disco pela mesma gravadora.

O EMF em 1991: Zac FoleyIan Dench, James Atkin, Mark de Cloedt e Derry Brownson

Stigma [1992] 


O final de 1991 viu o grunge ascender ao estrelato e mudar radicalmente o mundo das paradas de sucesso musical. O EMF com certeza foi atingido pelo furação originado em Seattle, e seu segundo disco vendeu muito menos (ficou na posição número 19 na Inglaterra, sem nem chegar às paradas americanas) e teve um destaque mínimo perto do registro de estreia. O grupo parece ter sido afetado pela áurea mais "séria" e "depressiva" do "novo" estilo musical vigente, e seu novo registro traria um ar muito mais sério e contemplativo do que Schubert Dip. De forma quase "poética", se poderia dizer que o grupo estava abandonando as alegrias da adolescência e passando a enfrentar as agruras da forma adulta, e um bom exemplo disto é o single "It's You", com uma guitarra menos distorcida que antes, teclados de tons mais sombrios e um certo "ar" mais "sóbrio" que as músicas do disco de estreia. "They're Here" é outra composição de tons sombrios, assim como "Never Know", e, apesar da "aura" pop destas duas faixas, parece que anos de distância as afastam das primeiras composições do quinteto, o que também ocorre com "She Bleeds", com muitos elementos eletrônicos, ritmo lento e um certo "peso" dado pelos samplers que pode assustar quem se acostumou com as faixas mais pop do começo da carreira. "Arizona" é uma música bem "rock de FM" (se é que isso existe), ou seja, aquele rock que é "OK", mas não chega a ser tão pesado quanto gostaríamos, apesar de trazer o melhor trabalho de baixo e guitarras do disco. "Inside", "Getting Through" (minha favorita neste disco) e "Blue Highs" ainda trazem um pouco do ritmo frenético e agitado do registro anterior (no caso da última, bem menos acelerado), mas não são tão "alegres" e "divertidas" quanto aquelas canções, o que não ocorre com "Dog", que poderia estar no meio de Schubert Dip sem destoar. Completa o track list a música "The Light that Burns Twice as Bright...", bastante pop, apesar de lenta. A queda na popularidade com certeza deve ter afetado aos membros do grupo, que praticamente se retiraram da cena musical por três anos, até reaparecerem de surpresa com seu terceiro registro de estúdio.

Cha Cha Cha [1995]

Sabe aqueles discos que a crítica determinou serem um fracasso e ninguém se preocupou de ouvir para tentar desmentir isto? Cha Cha Cha se encaixa perfeitamente nesta descrição. Não que a alcunha que lhe foi dada seja de todo vã, pois este é, certamente o pior registro do grupo, um equívoco lançado em uma época onde a cena musical estava a milhas de distância do ano em que o EMF surgiu, e onde a mistura "pop + eletrônico" já havia sido superada pelas bandas indies que ascenderam a partir do grunge, além da cena de rap e hip hop que começava a se erguer na esteira da morte de Kurt Cobain no ano anterior. Percebendo sabiamente que sua onda havia passado, o quinteto tentou reinventar a sonoridade de suas músicas, mas atingiu o alvo em poucos momentos, como no single "Perfect Day" (que trazia flautas tocadas por James em lugar dos elementos eletrônicos de outrora), "The Day I Was Born" (a que mais lembra as canções antigas), "Skin", "Bring Me Down" (duas faixas mais sombrias, com guitarras mais pesadas que o usual do grupo) e "Bleeding You Dry", pop com elementos agradáveis que talvez tivesse conquistado um bom destaque nas rádios cinco anos antes. Mas as faixas menos interessantes acabam sendo a maioria, como "Patterns", levada apenas pela voz de James e o violão de Ian; "West of the Cox", a qual possui um ritmo "malemolente" que a banda usou com resultados muito melhores em faixas mais antigas; "Secrets", que até tem umas guitarras mais pesadas em evidência (mas não chega a decolar); "La Plage", com uma melodia quebrada e confusa (bem diferente dos registros anteriores); "Glass Smash Jack", a qual possui uma bateria eletrônica chata e repetitiva (apesar de um refrão interessante); "Slouch", quase um punk rock atonal, que foi propositalmente gravada como se o grupo estivesse em um ensaio de garagem (e que não chega a lugar nenhum); "Ballad O' the Bishop", com seu ritmo eletrônico lento, repetitivo e chato; e as baladas "When Will You Come" e "Shining", recheadas de elementos eletrônicos (e orquestrações, no caso da segunda), mas que não conseguem se destacar no meio de tanto marasmo. A versão japonesa ainda trazia a faixa "Angel", melhor que muitas composições do track list oficial, mas sem apresentar nada de excepcional ou mais marcante.

O quinteto em 1995

A banda abandonou a turnê promocional de Cha Cha Cha no verão (europeu) de 1995, e retirou-se novamente da cena musical, não sem antes juntar-se aos comediantes Vic Reeves e Bob Mortimer para a gravação do single "I'm a Believer", cover dos Monkees que chegou ao número 2 da parada britânica, e de lançar seu último single oficial, intitulado Afro King, que trazia a faixa título, "Bring Me Down" (de Cha Cha Cha) e as inéditas "Too Much" (para mim,o destaque deste lançamento) e "Easy". Em 2001, foi lançada a coletânea Epsom Mad Funkers: The Best of EMF (em versões simples e dupla, esta com o segundo disco apresentando vários remixes para as faixas da banda), a qual trazia duas faixas inéditas, "Incredible" (que parece saída de Schubert Dip) e "Let's Go" (que mantém uma atmosfera dançante, apesar da sonoridade acústica). O quinteto se reuniu para uma excursão de promoção a este lançamento, mas, em janeiro de 2002, o baixista Zac Foley viria a falecer de uma overdose de medicamentos, o que levou o quinteto a um novo hiato, entrando mais uma vez em uma obscuridade musical.

O EMF ao vivo em 2012

Com Richard March (ex-integrante do grupo Pop Will Eat Itself) assumindo o baixo, os quatro membros remanescentes voltaram a excursionar em 2007, continuando até 2009, quando foi anunciado que o grupo não tinha mais nenhuma previsão para shows em um futuro próximo. Nesta época, o guitarrista Ian Dench, que havia se tornado um compositor de sucesso no mundo pop (tendo escrito hits para artistas como Beyonce e Shakira, só para citar duas) já não estava mais excursionando com o quinteto, tendo sido substituído pelo músico Tim Stephens. Em 2012, alguns poucos shows foram efetivados com a banda tocando Schubert Dip na íntegra (tendo Stevey Marsh no baixo), e, em fevereiro de 2016, o site oficial anunciou que o EMF será o headliner do festival Indie Daze, a ocorrer em Londres na data de 01 de outubro. Resta saber se esta nova reunião irá animar os rapazes (já nem tão jovens assim) a voltar a comporem juntos, ou se o Epsom Mad Funkers ficará apenas na história, marcado como um grupo de potencial enorme, mas com um sucesso limitado pelas circunstâncias do mercado musical. Só o tempo dirá!