domingo, 18 de junho de 2017

Belgrado - Obraz [2016]


Por Micael Machado

Em uma das muitas matérias que o site UOL Host fez o "desfavor" de excluir, certa vez eu escrevi sobre a banda espanhola de pós-punk Belgrado (formada pelos venezuelanos Renzo Narvaez no baixo, Fergu Marquez na guitarra, e Jonathan Sirit na bateria, além da polonesa Patrycja Proniewska - Pat para os íntimos - nos vocais), que à época divulgava seu segundo LP, Siglo XXI, lançado em 2013. Três anos depois, o quarteto lança seu terceiro registro, Obraz, novamente pela gravadora independente espanhola La Vida Es Un Mus, e, mais uma vez, com edição apenas em vinil. O resultado, como no disco anterior, tem tudo para agradar os admiradores do estilo adotado pela banda.

Ao contrário de outros ícones do pós-punk, a música do Belgrado não é lenta, arrastada, tristonha e sorumbática. Os músicos, sediados em Barcelona, optam por uma versão mais rápida e agitada do estilo, mantendo o baixo à frente das composições, a bateria seca e marcada e a guitarra com mais licks e efeitos do que riffs e solos memoráveis. Neste disco, belas amostras desta "fórmula" podem ser encontradas nas faixas "Wiatr", "Dalej" (que abre o LP com muitos efeitos na guitarra e uso de eco na bateria), "Kulminacja Oddzielenia", "Raz Dwa" (um dos destaques), "Nierealne Realne Społeczeństwo" e "Fragmenty Świata", a faixa de encerramento. Mas nem tudo é "mais do mesmo" quando tratamos de Obraz. "Na Ten Czas", por exemplo, é um pouco mais lenta que o usual do grupo, com melodias de guitarra um tanto "incomuns" ao estilo de suas companheiras de track list. "Pasaż" e "Krajobraz" são instrumentais, a primeira guiada pela guitarra de Fergu, e a segunda usando e abusando de elementos eletrônicos e efeitos de som, em uma faixa que foge bastante daquilo que se espera das composições do grupo. Já "1000 Spektakli" traz um acento de reggae no baixo de Renzo, além de alguns efeitos de guitarra típicos do dub style jamaicano, em uma composição que foge completamente ao padrão das demais faixas da carreira do Belgrado, mas que serve para mostrar que o grupo não se deixa acomodar em uma mesma "receita" para compor suas obras.


Belgrado ao vivo em 2016: Fergu, Jonathan, Pat e Renzo

Outra mudança em relação a Siglo XXI está nos vocais de Pat. Ela continua soando como uma espécie de versão loira de Siouxsie Sioux (cantora do Siouxsie & the Banshees), mas desta vez abriu mão dos gritinhos e interjeições que colocava frequentemente em meio aos arranjos, e que, sejamos honestos, por vezes soavam bastante irritantes. Neste novo registro (que apresenta, apenas no encarte, o subtitulo "w dziesięciu konstrukcjach", que significa "em dez construções"), Pat se limita a representar as letras usando apenas alguns efeitos na voz, sem exagerar na interpretação. É também nas letras que se percebe outra grande mudança em relação aos primeiros registros: como o leitor mais atento já deve ter percebido, desta vez o inglês, o espanhol e o catalão foram totalmente excluídos da parte lírica, a qual se limitou ao polonês, prejudicando bastante a compreensão dos temas abordados pelo Belgrado, ainda mais que, ao contrário do que ocorre no álbum anterior, desta vez não há um encarte extra com as traduções para o inglês, e a parte gráfica, em formato de livreto, apesar de bastante interessante, usa praticamente apenas a língua natal de Patrycja em sua composição. 

Mas não é esse mero "detalhe" da incompreensão das letras que nos impede de ouvir e apreciar esta bela "obra" feita pelo quarteto (que pode ser escutada na íntegra pelo youtube através deste link), a qual pode não ser tão direta e atraente quanto seu antecessor, mas mantém o nome do grupo como um dos principais representantes do pós-punk em plena atividade neste século XXI. Se você curte este estilo musical, dê uma chance para a banda, e garanto que não irá se arrepender.


Contracapa do álbum Obraz

Track List:

01. Dalej 
02. 1000 Spektakli 
03. Wiatr 
04. Kulminacja Oddzielenia 
05. Krajobraz 
06. Raz Dwa 
07. Nierealne Realne Społeczeństwo 
08. Na Ten Czas 
09. Pasaż 

10. Fragmenty Świata 

domingo, 21 de maio de 2017

Body Count – Bloodlust [2017]


Por Micael Machado

Com seu autointitulado disco de estreia. de 1992, o quinteto californiano Body Count chamou a atenção por vários fatores, como: misturar rap com metal (algo bastante incomum na época), ter o conhecido rapper Ice T nos vocais, ser formado apenas por músicos negros, e, principalmente, pela violenta "Cop Killer", cuja letra criticava os excessos da polícia de Los Angeles (especialmente os de contexto racista), e defendia que era melhor matar um policial do que ser morto por ele (a faixa acabou censurada, sendo retirada das versões posteriores do registro, e substituída por um discurso lido por Jello Biafra, ex-Dead Kennedys. Como represália, a banda distribuiu gratuitamente para o público singles com a música nos seus shows da época). A polêmica deu combustível para que o grupo mantivesse o interesse em seu segundo registro, Born Dead, de 1994, mas o mesmo já havia arrefecido bastante quando saiu Violent Demise: The Last Days, o terceiro disco, de 1997. A morte de três integrantes da banda (o baterista Beatmaster V, que teve leucemia, o guitarrista D-Roc, que foi vítima de um linfoma, e o baixista Mooseman, morto em um até hoje mal explicado tiroteio em uma rua de Los Angeles) forçou uma parada para o Body Count, que, com novos integrantes, tentou um retorno em 2006, com o álbum Murder 4 Hire, o qual, apesar da qualidade, acabou não dando em nada.

Ice T se envolveu com o cinema e a televisão (conseguindo um papel de destaque na série Law And Order: Special Victims Unit), mas, em 2013, reagrupou o Body Count com o guitarrista original Ernie C, o baixista Vincent Price, o guitarrista Juan of the Dead e o baterista Ill Will, além da presença de Sean E Sean nos samplers e backing vocals. Com este time, o grupo lançou em 2014 Manslaughter, que conseguiu alguma repercussão graças à nova versão para a clássica "Institutionalized", do Suicidal Tendencies. A mesma formação se manteve junta, e lança agora em 2017 Bloodlust, disco que tem tudo para recuperar o respeito e o prestígio que o Body Count conquistou em seus primeiros anos.

Body Count em 2017: Ill Will (ao fundo), Juan of the Dead e Ernie CVincent Price e Sean E Sean (mais à frente), Ice T (em primeiro plano)

Já nos primeiros segundos da faixa de abertura, "Civil War", temos a voz de Dave Mustaine, do Megadeth, em um discurso do tipo "utilidade pública", que termina anunciando: "a America agora está empenhada em uma guerra civil"! Sem ser arrastada, a música se desenvolve em um ritmo mais lento, tendo um veloz solo de guitarra mais próximo ao final que soa bem ao estilo de Mustaine, embora eu não tenha informações de que foi ele realmente quem fez o registro do mesmo. Outro convidado especial é Max Cavalera (Soulfly, Cavalera Conspiracy, ex-Nailbomb e Sepultura), que participa nos vocais da brutal "All Love Is Lost" (onde Ice T deixa transparecer muita raiva em sua voz), mas a participação mais destacada acaba sendo a de Randy Blythe, do Lamb of God, que divide os vocais de "Walk With Me…", que, ao alternar partes velozes com outras cadenciadas, acaba sendo um dos maiores destaques do track list. Também foi registrada uma homenagem ao Slayer (citada por Ice T como uma das maiores influências do grupo em uma falsa entrevista registrada no começo da faixa), com as covers para as clássicas "Raining In Blood" e "Postmortem", feitas com competência, embora o rapper sofra para conseguir cantar as velozes linhas vocais da segunda.

Nas demais faixas, o grupo alterna músicas mais cadenciadas mixadas a partes "pula-pula" (como a faixa título e "This Is Why We Ride", com todas as características típicas de uma composição do Body Count), faixas mais sombrias ("Here I Go Again", com Ice rapeando ao invés de cantar) e composições que alternam velocidade e partes cadenciadas (como a interessante "Black Hoodie", a nervosa "The Ski Mask Way", um dos destaques do disco, e que traz uma vinheta no início, lembrando as faixas do primeiro disco, algo que também acontece em "No Lives Matter". Não por acaso, as três receberam vídeos promocionais para divulgação), com a vinheta "God, Please Believe Me" (onde o destaque vai para a linha de guitarra de Ernie C) fechando o track list do álbum.

Contracapa de Bloodlust

Como disse antes, Bloodlust tem tudo para reconquistar um papel de destaque para os californianos, pois, efetivamente, é um registro superior aos seus últimos discos. Resta saber se o público de metal dos tempos atuais (onde o streaming toma conta das "playlists" e a importância do artista em relação ao que se ouve é cada vez menor) continua interessado na música do quinteto, a qual, tanto em relação aos riffs e melodias, quanto às letras raivosas e expositivas, continua atual e necessária como sempre. Que o grupo recupere seu lugar de direito, e continue lançando álbuns desta qualidade.

Track List:

01. Civil War (ft. Dave Mustaine)
02. The Ski Mask Way
03. This Is Why We Ride
04. All Love Is Lost (ft. Max Cavalera)
05. Raining In Blood / Postmortem
06. God, Please Believe Me
07. Walk With Me… (ft. Randy Blythe)
08. Here I Go Again
09. No Lives Matter
10. Bloodlust
11. Black Hoodie

domingo, 23 de abril de 2017

Midnight Oil - Diesel and Dust [1987]


Por Micael Machado

Corria o ano de 1987, e a Atlântida FM, a única "rádio rock" a chegar até a pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul onde eu morava então (e que permanece no ar até hoje, embora com um perfil já diferente) foi dominada por uma música introduzida por uma melodia onde várias vozes entoavam ao mesmo tempo algo como "tchu-ru-tchu-ru-tchu-ru-ru" repetidas vezes. Pouco tempo depois (ou antes, já não recordo), outra música do mesmo grupo invadiu as ondas daquela estação, desta vez questionando "como podemos dormir enquanto nossas camas queimam?". Do alto dos meus treze anos, eu nunca havia ouvido falar daquela banda (e de muitas outras, sejamos honestos),  mas, assim que descobri se chamar Midnight Oil, e que o disco que continha as duas faixas (a primeira chamada "The Dead Heart", e a segunda "Beds Are Burning") possuía como título Diesel and Dust, aproveitei a primeira oportunidade que tive de ir até uma cidade vizinha onde havia uma boa loja de discos e adquirir aquela bolachona (uma das primeiras que tive), em uma das decisões mais acertadas que já tomei, e que causou um caso de paixão por esta obra que permanece intacto mesmo passados quase trinta anos daquela ocasião.

Ao contrário do que eu pensava então, Diesel and Dust estava longe de ser a estreia do Midnight Oil. Sexto registro completo do grupo australiano formado em 1976 e composto, à época, por Peter Garrett nos vocais, Martin Rotsey e Jim Moginie nas guitarras (com o segundo também se dedicando aos teclados), Peter Gifford no baixo (o qual deixaria a banda ainda antes do lançamento do disco, sendo substituído por Bones Hillman) Robert Hirst na bateria, o álbum foi o responsável por consolidar o nome do quinteto nas paradas mundiais, mas eles estavam longe de ser meros desconhecidos, especialmente em seu país natal, onde sua popularidade já era bastante destacada. Tanto que, ao longo de boa parte do ano de 1986, o grupo se dedicou a uma turnê intitulada "Blackfella/Whitefella", onde percorreu os confins da Austrália ao lado das bandas Gondwanaland e Warumpi Band, dois grupos formados por músicos de origem aborígene (a população indígena original do país), e que serviu para divulgar as dificuldades que esta população enfrentava para conseguir sobreviver em seu país natal (como ocorre com muitos indígenas em todo o continente americano).

Midnight Oil em 1987, posando no meio do deserto australiano

A turnê foi crucial para o conceito das letras do próximo registro do Midnight Oil (o mesmo disco do qual estamos tratando aqui), as quais servem para chamar a atenção não só dos australianos, mas do mundo inteiro para as agruras de toda uma raça, a começar pela própria "The Dead Heart" (quarto lugar nas paradas da Austrália, e décimo-primeiro lugar na "Billboard Mainstream Rock Tracks" dos Estados Unidos), cujo título é uma expressão tradicional que faz referência ao imenso deserto que domina boa parte do continente australiano, e onde a maioria da população aborígene reside. A preocupação com a causa indígena continua na roqueira "Warakurna", minha faixa favorita no álbum (cujo título faz referência a uma pequena comunidade aborígene visitada pela banda durante a turnê "Blackfella/Whitefella"), na rápida "Bullroarer" (nome de um instrumento típico daquela comunidade, e que foi utilizado nesta faixa), na própria "Beds Are Burning" (que chegou ao sexto lugar das paradas australianas, inglesa e norte-americana, e que pede a devolução de terras da Austrália para sua população original), na tipicamente oitentista "Sell My Soul" (que trata dos aborígenes que deixam suas comunidades originais para conviver nas cidades dos "homens brancos"), na empolgante "Gunbarrel Highway" (que acabou censurada nos Estados Unidos, e não faz parte das versões em vinil e cassete da obra, infelizmente, visto ser melhor que algumas faixas da versão "oficial" de Diesel and Duste na sinistra (e meio gótica) "Whoah", onde os aborígenes se voltam à religião dos "colonizadores", a qual não lhes dá a atenção necessária.

Outras causas defendidas pelo grupo ao longo de sua carreira aparecem também nas letras das demais faixas do disco, como a preocupação com o meio-ambiente e o futuro do planeta (em "Arctic World", que tem a melodia conduzida por violões e um sentimento mais tristonho ao longo de sua audição), os direitos dos trabalhadores ("Sometimes", onde os operários são explorados por "canibais de terno e gravata", e que apresenta melodias que remetem à surf music), questões políticas de seu país natal (na animada "Dreamworld", que foi lançada em single e ganhou um vídeo) e tópicos pacifistas e anti-guerras  (em "Put Down That Weapon", um rock mais marcado, com destaque para a linha de baixo, além de um belo refrão onde os teclados assumem a frente da melodia, também lançada como single e recebendo um vídeo de divulgação). O curioso é que, mesmo as letras sendo tão importantes para o contexto geral do álbum, no encarte original era bastante difícil compreendê-las e entender seus significados (especialmente quando se tem apenas treze anos e não existe algo como a internet para lhe ajudar a buscar todas estas informações, as quais só vim a descobrir muitos anos depois), visto que a arte do mesmo foi toda feita de modo a parecer que os textos foram escritos no papel com um óleo bastante viscoso, que "escorre"e "pinga" aqui e ali, e torna tudo bastante difícil de ser lido.

Detalhe do encarte original de Diesel and Dust, cuja arte dificulta a leitura das letras

Como disse, felizmente anos depois a internet deixou tudo mais fácil, e hoje é bastante fácil termos acesso ao conteúdo dos textos de Diesel and Dust, suas traduções e significados, e darmos ainda mais importância a esta verdadeira obra prima do rock australiano, que em 1989 foi considerado pela prestigiada revista Rolling Stone como o décimo-terceiro melhor disco da década de 1980, e listado como "número um" no livro "100 Best Australian Albums", lançado em 2010, e que em 2008 ganhou uma "Legacy Edition" que vem com um DVD de bônus, o qual contém os vídeo clipes de "The Dead Heart" e "Beds are Burning", além de um documentário sobre a citada turnê "Blackfella/Whitefella". Já o Midnight Oil continuou acumulando hits e prestígio até 2002, quando anunciou sua separação, vindo o vocalista Peter Garrett a se dedicar à política de seu país natal, chegando a ser eleito para um cargo equivalente ao de Senador na Austrália, e depois assumindo a pasta de ministro do meio ambiente do país.

Para surpresa geral, em 2016 o quinteto anunciou seu retorno, com uma excursão mundial que iniciará com cinco datas no Brasil entre abril e maio deste ano, da qual a primeira data será dia 25 deste mês na cidade de Porto Alegre, onde certamente estarei presente, cantando, a plenos pulmões, não só os grandes clássicos da carreira da banda, mas também (espero eu) muitas faixas de Diesel and Dust, um dos primeiros discos a chamar minha atenção ainda na adolescência, e que permanece no meu coração até hoje! Que este dia chegue logo, para que eu e muitos outros fãs possamos novamente cantar de forma emocionada o tão conhecido "tchu-ru-tchu-ru-tchu-ru-ru" de uma das grandes faixas da década de 1980! Há de ser épico!

Contracapa da versão original em vinil, sem a faixa "Gunbarrel Highway"

Track List:

1. Beds Are Burning
2. Put Down That Weapon 
3. Dreamworld 
4. Arctic World
5. Warakurna
6. The Dead Heart
7. Whoah
8. Bullroarer
9. Sell My Soul
10. Sometimes 
11. Gunbarrel Highway

Ramones Too Tough To Die [1984]


Por Micael Machado

As coisas não andavam lá muito boas para os Ramones em 1983. Seus últimos álbuns não tinham se saído muito bem em termos de vendas, o baterista Marky Ramone havia sido afastado devido a seus problemas com o álcool, bandas confessamente influenciadas pelos brothers de Nova Iorque começavam a chamar a atenção e ultrapassar comercialmente seus inspiradores com sua interpretação mais vigorosa do punk rock conhecida como hardcore (assim como as primeiras bandas de thrash metal também estavam despontando pelo mundo), e, para piorar tudo, o guitarrista Johnny Ramone havia sido espancado por um sujeito (ao que consta, chamado Seth Macklin, membro da banda Sub-Zero Construction) na madrugada de quatorze de agosto daquele ano, e acabou parando no hospital com uma fratura no crânio, sendo submetido a uma operação e ficando com sua vida seriamente arriscada. Três meses depois, com a cabeça raspada e usando um capacete de beisebol como proteção, Johnny estava de volta à ativa, e decidido a provar que o seu grupo também podia competir com talento e competência no mesmo campo dos novos grupos que se espalhavam pela Grande Maçã, como a cidade natal da banda é conhecida.

A dupla de produtores Ed Stasium e Thomas Erdelyi (Tommy Ramone, primeiro baterista do grupo, recentemente falecido), que já haviam comandado os trabalhos no disco Road To Ruin, de 1978, foi chamada de volta para coordenar as gravações do novo álbum, o qual marcaria a estreia em estúdio do novo baterista, Richie Ramone (Richard Reinhardt, também conhecido como Richard Beau, ex-membro dos Velveteens). Com Johnny ainda se recuperando de seu trauma, e o vocalista Joey Ramone entrando e saindo de hospitais por causa de sua saúde (que nunca foi muito boa ao longo de toda a carreira do quarteto, mas na época andava um pouco pior), a maior parte do trabalho de composição acabou caindo sobre Dee Dee Ramone, e o baixista, é claro, não decepcionou!

Um dos registros feitos durante a sessão de fotos para a capa. Aqui, a banda aparece visível: Joey, Richie, Dee Dee e Johnny

Se a ideia era mostrar que os Ramones sabiam fazer música pesada tão bem quanto os "novatos" de sua vizinhança, a faixa de abertura, "Mama's Boy" (de Johnny, Dee Dee e Tommy), servia perfeitamente de exemplo, assim com a faixa título, cujo nome foi inspirado pelo incidente pelo qual o guitarrista havia passado, mas também servia para provar a determinação do grupo em não desistir, apesar dos fracassos recentes e da falta de um maior sucesso comercial. Já composições como "Wart Hog" (cuja letra, cantada por Dee Dee, não era citada no encarte original, sendo substituída por um grande ponto de interrogação), "Endless Vacation" (uma das coisas mais velozes gravadas pelos brothers em sua carreira, e também vociferada pelo baixista) e até mesmo a instrumental "Durango 95" (única do tipo na discografia do grupo, e que teve seu título inspirado por um restaurante frequentado pela banda, o qual, por sua vez, se inspirou no carro dirigido por Malcolm McDowell no filme "Laranja Mecânica", de 1971) provavam claramente que o quarteto também era capaz de tocar um punk rock tão rápido e agressivo quanto qualquer agrupamento novato de Nova Iorque. Os discos seguintes deixariam isto ainda mais evidente, mas estas cinco faixas já bastavam para que Johnny provasse o seu ponto quanto à relevância e ao lugar dos Ramones no cenário da musica à época. Cabe citar que as três últimas faixas citadas foram aquelas deste álbum que contaram com a colaboração do guitarrista em sua composição (as duas primeiras ao lado de Dee Dee), assim como a de abertura e "Danger Zone", outra faixa rápida e veloz, porém não tão próxima do hardcore quanto as demais contribuições de Johnny para o disco.

Parte do encarte original de Too Tough to Die. Bem acima à direita, o ponto de interrogação que substituía a letra de "Wart Hog"

Duas composições exclusivas de Dee Dee, "I'm Not Afraid of Life" e "Planet Earth 1988", são bem mais sombrias do que o restante do material, tanto musical quanto liricamente. Elas passam um sentimento de pessimismo quanto ao futuro do planeta e de seus habitantes, assim como a única contribuição de Richie para o repertório, "Humankind", a qual, apesar de se encaixar perfeitamente no conceito de punk rock (embora um pouco mais pesada que o padrão, conforme o conceito de Johnny para o álbum), está longe de ser uma faixa alegre e divertida, especialmente quando prestamos atenção à sua letra. Joey, apesar de não estar em sua melhor forma em termos de saúde, também arranjou espaço para contribuir, escrevendo o exemplo perfeito de poppy punk chamado "Daytime Dilemma (Dangers of Love)" ao lado do guitarrista Daniel Rey, e a quase rockabilly "No Go", que emanava o bubblegum da década de 1950 no encerramento do lado B do disco.

Duas composições totalmente fora do contexto "hardcore" de Too Tough to Die acabaram também se incluindo dentre seus pontos mais altos. Fechando o lado A, a descaradamente pop "Chasing the Night" (uma parceria de Joey e Dee Dee, com a ajuda do baixista Busta Cherry Jones, que tocou, entre outros, com Gang Of Four e Talking Heads) soava completamente deslocada quando comparada ao restante do track list, além de apresentar os teclados e sintetizadores de Jerry Harrison, também dos Talking Heads. Mas, curiosamente, esta faixa encontrava parceria na primeira música do lado B, "Howling at the Moon (Sha-La-La)", único single e vídeo retirado do álbum, e que teve o envolvimento, em sua produção, do músico Dave Stewart, da banda Eurythmics, agenciada pela mesma equipe de gerenciamento dos Ramones, e sugerido pelo empresário dos brothers à época, Gary Kurfirst. Foi Stewart quem trouxe o tecladista do Tom Petty and the Heartbreakers, Ben Tench, para tocar na faixa, que atingiu a modesta posição de número 85 na parada britânica (o single não foi lançado nos Estados Unidos). Já o álbum, cuja capa teve seu conceito inspirado pelo mesmo filme "Laranja Mecânica" que deu nome para "Durango 95", e que apresenta apenas a sombra dos músicos em frente a um fundo azul, em um "erro" causado por uma falha dos flashes durante o registro das fotos para as capas (em outras fotografias daquela sessão a banda é perfeitamente visível), apesar de sua qualidade, conseguiu naufragar nas paradas ainda mais do que seus antecessores, não passando da posição 171 da Billboard.

Contracapa da versão original em vinil de Too Tough to Die

Em 2002, a gravadora Rhino lançou uma edição "expandida e remasterizada" do disco, que acrescentou outras doze faixas às treze composições originais. Dentre elas, o excelente cover para "Street Fighting Man", dos Rolling Stones, e a poppy punk "Smash You" (outra composição de Richie), ambas "lados B" da versão de doze polegadas do single para "Howling at the Moon (Sha-La-La)". Há também as inéditas "Out Of Here" (música em mid tempo onde a voz de Joey, infelizmente, ficou muito baixa na mixagem final) e "I'm Not an Answer", mais veloz e selvagem do que a versão que aparece no relançamento de Pleasant Dreams, e que, aqui, conta com vocais a cargo de Dee Dee, assim como as versões demo de "Planet Earth 1988", "Danger Zone" e "Too Tough to Die", que mostram que o baixista era perfeitamente capaz de encarar os microfones neste novo estilo musical que os Ramones estavam abraçando. As demais faixas desta edição são demos para musicas que acabaram integrando o track list original de Too Tough to Die, e, apesar de interessantes (especialmente "Howling at the Moon", totalmente descaracterizada sem a presença dos teclados, e "Endless Vacation", com Dee Dee entoando repetidamente "Deutschland" ao seu final), não consigo apontar destaque maior para nenhuma delas em relação às versões "oficiais".

Too Tough to Die (que também conta com a presença do guitarrista Walter Lure, dos Heartbreakers, como músico de apoio em algumas faixas) marcaria o início da colaboração de Richie Ramone com o quarteto de Nova Iorque, na minha opinião (e parece que apenas para mim) o melhor período dos brothers, onde a influência do hardcore foi primordial para a criação dos meus dois discos favoritos na carreira do grupo, Animal Boy, de 1986, e Halfway to Sanity, de 1987, embora, assim como no disco de 1984, o grupo também mostrasse outras facetas de sua sonoridade ao longo dos sulcos destes três vinis, os quais, infelizmente, ainda carecem de um maior apreço e compreensão por parte do fãs do conjunto. Um fato, a meu ver, incompreensível!

"On my last leg, just gettin' by, halo round my head, too tough to die..."

Contracapa da versão expandida de Too Tough to Die

Track List:

1. Mama's Boy

2. I'm Not Afraid of Life

3. Too Tough to Die

4. Durango 95

5. Wart Hog

6. Danger Zone

7. Chasing the Night

8. Howling at the Moon (Sha-La-La)

9. Daytime Dilemma (Dangers of Love)

10. Planet Earth 1988

11. Humankind

12. Endless Vacation

13. No Go

Faixas Bônus da edição expandida de 2002:

14. Street Fighting Man

15. Smash You

16. Howling at the Moon (Sha-La-La) (Demo Version)

17. Planet Earth 1988 (Dee Dee vocal version)

18. Daytime Dilemma (Dangers of Love) (Demo Version)

19. Endless Vacation (Demo Version)

20. Danger Zone (Dee Dee vocal version)

21. Out of Here

22. Mama's Boy (Demo Version)

23. I'm Not an Answer

24. Too Tough to Die (Dee Dee vocal version)

25. No Go (Demo Version)

domingo, 2 de abril de 2017

Plebe Rude - Nação Daltônica [2014]


Por Micael Machado

Depois de oito anos sem apresentar um registro de inéditas, a Plebe Rude lançou em 2014 seu sexto disco, Nação Daltônica, uma mostra da relevância e da importância do quarteto originado em Brasília para o rock nacional. Os fundadores Philippe Seabra (guitarra e vocais) e André X (baixo e vocais) se fizeram acompanhar pelo guitarrista e vocalista Clemente Nascimento (também membro dos Inocentes, na banda desde 2004) e pelo estreante baterista Marcelo Capucci (que se uniu ao grupo em 2011), e gravaram um disco que reafirma a essência do som da Plebe.

Considerada uma das primeiras formações punk do país (ao lado do Aborto Elétrico), a música do quarteto sempre foi mais do que o estilo delimita, incorporando elementos do pós-punk, do pop rock e do folk ao longo de sua trajetória. Nação Daltônica traz um pouco de tudo isso em suas dez faixas (que perfazem pouco menos de trinta e seis minutos), mostrando a integridade de Philippe, o principal compositor da banda. Até mesmo a capa, que intencionalmente remete a Nunca Fomos Tão Brasileiros (segundo disco do grupo, de 1987), parece querer reafirmar que, mesmo passados tantos anos, a Plebe ainda é a mesma, desde o som até a temática contestadora das letras, como se percebe em "Anos de Luta", que critica a apatia da atual geração de "roqueiros" do país, onde a música não é o mais importante, mas sim a fama e o sucesso instantâneo, ainda que para isso seja preciso aceitar as "regras do jogo" impostas pela TV e pelas rádios, e onde tudo vira apenas "entretenimento no final" (em uma mensagem parecida com a de "Minha Renda", do EP de estreia do grupo).

A Plebe Rude atual: Clemente Nascimento, André X, Philippe Seabra e Marcelo Capucci

Com o baixo guiando a melodia, a agitada "Que Te Fez Você" é um dos destaques do track list, ao lado de "Mais Um Ano Você" (versão em português para "Will You Stay Tonight?", da banda inglesa de The Comsat Angels, e que, ao expurgar os chatos teclados eletrônicos da versão original, acabou ficando bem mais interessante do que esta), da legitimamente pós-punk "Rude Resiliência" e de "Tudo Que Poderia Ser", composição que traz em seu arranjo todas as características típicas da Plebe Rude, e que ganha aqui sua versão "oficial" de estúdio, visto já ter aparecido antes no ao vivo Rachando Concreto, de 2011.

Se a semi-balada "(Go Ahead) Without Me" (com letras em inglês) teve todos os instrumentos tocados exclusivamente por Philippe, a linda "Sua História" contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Praga, enriquecendo ainda mais o arranjo de uma das melhores faixas do disco. "Retaliação", a faixa de abertura, tem um ritmo mais cadenciado, quase marcial, enquanto "Quem Pode Culpá-lo?" lembra algumas bandas da cena "alternativa" atual (e poderia facilmente marcar presença nas rádios, caso estas se interessassem em tocar música de qualidade em sua programação) e "Três Passos", que fecha o trabalho, é a única deste registro a contar com os vocais de Clemente em dueto com Seabra.

Contracapa de Nação Daltônica

Nação Daltônica nos faz lembrar de um tempo onde o rock brasileiro era contestador, instigante e relevante, e não dominado por aglomerações "indie" com tendências "modernosas" e sonoridade derivativa e enfadonha! Que saudades!

Track List:

01. Retaliação
02. Anos de Luta
03. Mais Um Ano Você
04. Que Te Fez Você
05. Sua História
06. Rude Resiliência
07. Quem Pode Culpá-lo?
08. Tudo Que Poderia Ser
09. (Go Ahead) Without Me
10. Três Passos

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Livro: Viva La Vida Tosca - João Gordo


Por Micael Machado

Quem acompanha a carreira de João Gordo, seja pelas várias entrevistas que concede (para mídias tão distintas que vão desde os programas de Marília Gabriela e Ronnie Von a canais undergrounds do youtube), quanto por aquelas que realiza em seu próprio canal, o Panelaço, já sabe há tempos que o músico e ex-apresentador da MTV e da Rede Record vinha preparando um livro sobre sua vida em parceria com o conceituado jornalista André Barcinski. Pois, na reta final de 2016, a editora Darkside Books finalmente colocou no mercado Viva La Vida Tosca, o qual narra, ao longo de 324 páginas (acondicionadas em uma belíssima edição com capa dura), a história de vida de um dos personagens mais importantes da música "pesada" nacional, seja ela punk, hardcore, heavy metal ou algo ainda mais extremo.

Escrito todo em primeira pessoa, o texto é extremamente agradável de ler, especialmente para aqueles já acostumados a escutar João conversando com seus convidados ou entrevistadores nas mídias citadas acima. Aliás, é na forma deste texto que se percebe com mais facilidade a "mão" de Barcinski (que, segundo o site da editora, entrevistou Gordo por quase dezoito meses para poder compor a obra), pois o mesmo certamente teve um trabalho enorme para "amaciar" os termos por vezes "chulos" usados pelo biografado quando fala para a câmera, e que raramente aparecem ao longo da escrita, sendo substituídos por expressões mais "palatáveis" a alguns ouvidos mais "sensíveis" que por ventura venham a ler esta obra. Mas não é algo que chegue a descaracterizar o conteúdo, e, ao longo da leitura, a impressão que temos é de que estamos diante do próprio vocalista do Ratos de Porão, contando animada e alegremente "causos" variados de sua tumultuada e "aventurada" vida, muitos deles já relatados antes aqui e ali, mas que surgem mais detalhados e explicados nas páginas deste livro do que nos rápidos e incompletos relatos anteriores onde possam já haver aparecido.

Parte do conteúdo de Viva La Vida Tosca

Viva La Vida Tosca pode, a grosso modo, ser dividido em quatro partes: a infância e adolescência de Gordo (com destaque para os problemas entre este e sua família, especialmente com o pai altamente repressor, o qual foi causa de muitos traumas ao longo da vida do músico), o início de sua participação no Ratos de Porão e os primeiros anos de sua vida na banda (período que vai, mais ou menos, até o lançamento do álbum Anarkophobia, em 1991), sua participação como apresentador da MTV (e, posteriormente, como já dito, da Rede Record), e o período "marido-e-pai-de-família" que passou a viver depois de quase morrer de overdose e problemas pulmonares, e se casar com a argentina Viviane Torrico, que ele declara ter salvo sua vida, além de ter lhe dado seus dois filhos, Victoria e Pietro. Como disse, o texto ao longo do livro é bastante interessante, e realmente "prende" a atenção do leitor, mas senti falta de uma maior "interação" entre as diferentes "partes" da história, pois, a partir do momento em que o biografado inicia sua carreira na televisão, o Ratos de Porão praticamente desaparece do livro, assim como a própria TV (e seus trabalhos posteriores, como o citado Panelaço) praticamente não aparecem na parte "família" do livro, algo que não chega a comprometer a obra, mas que poderia ter aparecido no texto para enriquecer mais ainda a historia de Gordo.

Contracapa de Viva La Vida Tosca (foto retirada do site mobground.net)

De resto, o maior defeito de Viva La Vida Tosca, apesar das mais de trezentas páginas (grande parte delas ocupadas por fotos muitas vezes inéditas, cedidas pelo próprio João Gordo), é ser extremamente curto para a quantidade de histórias e "causos" que o personagem retratado em suas páginas já viveu ou experimentou. Muitas passagens interessantes que João já relatou aqui e ali não aparecem no livro, e, mesmo que a leitura seja extremamente prazerosa ao final, ainda fica um gosto de "quero mais", o qual talvez seja sanado em uma hipotética "parte dois" (quem sabe, hã)?

De todo modo, é um livro extremamente recomendável, especialmente aos fãs do Ratos ou apenas de seu "multimidiático" vocalista!

sábado, 28 de janeiro de 2017

Oops… I Did It Again – Wander Wildner – Wanclub - Música Para Dançar Volume 59 [2016]


Por Micael Machado

O cantor e compositor Wander Wildner começou sua carreira no grupo de punk rock gaúcho Os Replicantes, que lançou seu álbum de estreia, O Futuro é Vórtex, em 1986. Em 1995, Wander saiu em carreira solo, que iniciou efetivamente com o lançamento do disco Baladas Sangrentas, no ano seguinte. Sendo assim, 2016 marca não só os trinta anos da estreia fonográfica de um dos mais importantes artistas do rock no Rio Grande do Sul, mas também os vinte anos do início da discografia solo do inventor do estilo punk brega. Talvez motivado por isso, além de sentir uma necessidade de se aproximar mais de seus fãs (que sempre lhe cobraram um álbum reunindo seus maiores sucessos), o músico decidiu regravar alguns temas de seu vasto repertório (desde a época dos "Repli" até seu momento atual), "atualizando" os mesmos para os arranjos que Wander e sua banda, os Comancheros, apresentam já há algum tempo pelos palcos do país inteiro. Para tal, Wildner recorreu a uma campanha de financiamento coletivo (também conhecido como crowdfunding) através do site Kickante. O valor pretendido para o projeto (R$ 39.000 reais) foi rapidamente conseguido, e esta meta foi inclusive superada, possibilitando a tranquilidade necessária para Wander e seus parceiros entrarem no estúdio Dreher,  em Porto Alegre, e saírem de lá com um registro que tem tudo para cair nas graças dos muitos admiradores de seu trabalho.

A escolha do repertório do disco foi feita por aqueles que participaram da campanha, através de uma votação feita por e-mail enviado diretamente a cada um dos que colaboraram com o financiamento (os quais ainda receberam uma cópia autografada do CD e tiveram o seu nome registrado no encarte do mesmo como forma de agradecimento). As possibilidades de escolha eram muitas, mas o repertório final acabou soando como um verdadeiro "best of" da carreira de Wander, que, sempre inquieto e irrequieto com relação à suas músicas, não se limitou a apenas regravar preguiçosamente seus grandes sucessos, mas registrou novos arranjos para praticamente todas as faixas selecionadas para o álbum. Em alguns casos, a mudança foi sutil, como as alterações na letra de "Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo", a bela e sombria linha de teclado adicionada a "Astronauta", a linha de sax muito bem encaixada em "Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro" (a cargo do convidado King Jim, ex-integrante dos Garotos da Rua, e que inclusive recebeu um vídeo clipe de divulgação), a leve injeção de peso dada a "Surfista Calhorda" ou o belo arranjo de piano de "Quase Um Alcoólatra", que conseguiu deixar a canção ainda mais brega que a original (o que, no caso das músicas de Wander, não é demérito algum).


O autógrafo de Wander e o nome deste que vos escreve no encarte, itens exclusivos de quem participou da campanha de crowdfunding.

Em outros casos, as mudanças causarão espanto a quem está acostumado apenas às versões originais das músicas escolhidas, especialmente àqueles que não costumam frequentar as apresentações do cantor (seja solo ou com sua banda). Os novos arranjos podem soar muito bem, como em "Sandina", um pouco mais lenta e com a primeira parte cantada por seu autor, o guitarrista Jimi Joe (que registrou as seis cordas na maioria das faixas do álbum); "Rodando El Mundo", transformada em um verdadeiro ska jamaicano, com direito ao trombone de Júlio Rizzo como um "molho" especial e uma parte mais calma e "viajante" no meio; "Mantra das Possibilidades", que ficou mais rápida e com mais participação das guitarras; "Hippie-Punk-Rajneesh", totalmente diferente da original, agora com uma batida de surf music e uma linha melódica que me remete a "Let's Lynch The Landlord", do Dead Kennedys; e, principalmente, "Amigo Punk", surpreendentemente transformada em um funkzão que não deve nada aos clássicos dos anos 1970, com um baixo cheio de groove, um belo órgão Hammond e uma guitarra altamente suingada a cargo do jovem prodígio Erick Endres, um dos maiores talentos surgidos nos últimos anos no rock gaúcho.

Há casos, porém, onde as mudanças são tamanhas que certamente causarão estranhamento mesmo ao mais dedicado fã. A tentativa de transformar "Boas Notícias" e "Bebendo Vinho" em skas acaba fazendo com que as mesmas fiquem soando como aquelas músicas tradicionais alemãs que se ouve em festas como a da Oktoberfest, especialmente a segunda, que ainda conta com Wander no kazoo. Já a batida e a linha de guitarra retiradas da surf music e incorporadas a "Um Lugar do Caralho" não casaram bem com este clássico do rock gaúcho, que ainda tem uma parte lenta bastante desconexa ali pelo meio. O reggae inserido em "Eu Queria Morar em Beverly Hills" também não se encaixou muito bem com a faixa, e causa estranheza em meio ao agito do resto da canção. Não quer dizer que estas mudanças "estraguem" as faixas (longe disso), mas será bastante difícil se acostumar a estas "novas" versões para aqueles que escutam os originais já há bastante tempo, como é o meu caso.

Ainda foram disponibilizadas apenas para download outras seis faixas, com destaque para a inédita "Colonos em Chamas", que também ganhou um vídeo clipe. O fato de estas faixas estarem disponíveis apenas em formato digital, na minha opinião, acabou sendo o único grande erro do projeto, pois, como o álbum acabou recebendo distribuição através do selo Deck Discos, elas poderiam ter sido disponibilizadas pelo menos nas versões entregues àqueles que colaboraram com a campanha de crowdfunding, que ganharam a exclusividade apenas de terem seu nome citado no encarte, pois o autógrafo de Wander qualquer um que for a um show do cantor tem a possibilidade de conseguir (e o encarte da versão "regular" do disco vem com um espaço reservado para isto, o mesmo que já está preenchido na edição entregue aos participantes). Como colecionador, gostaria muito de ter a versão "física" destas outras canções (algumas bastante interessantes, como a versão acústica de "Mares de Cerveja", o arranjo recheado de teclados de "Jesus Voltará!" ou a nova versão da clássica "Festa Punk"), e , certamente, seria um belo diferencial para aqueles que ajudaram na realização e gravação do álbum.

Contracapa de Wanclub - Música Para Dançar Volume 59

Mas esta minha bronca com as "faixas bônus" acaba sendo mais implicância de minha parte do que um problema de verdade, o que não impede Wanclub - Música Para Dançar Volume 59 de ser uma excelente coletânea do melhor do trabalho de Wander Wildner, e uma excelente porta de entrada para quem nunca se interessou por sua longa carreira musical ou não teve a chance de conhecer bem sua trajetória. O cantor e seus Comancheros estão rodando o país em shows que têm este disco como base, resultando em um belo espetáculo para quem tiver a oportunidade de conferir uma de suas apresentações. Se for o seu caso, não desperdice a chance. Garanto que vale a pena!

Track List:

01. Astronauta
02. Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo
03. Bebendo Vinho
04. Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro
05. Um Lugar do Caralho
06. Surfista Calhorda
07. Mantra das Possibilidades
08. Rodando El Mundo
09. Sandina
10. Amigo Punk
11. Hippie-Punk-Rajneesh
12. Quase Um Alcoólatra
13. Eu Queria Morar em Beverly Hills
14. Boas Notícias
15. Mares de Cerveja (Bonus Track Digital)
16. Colonos em Chamas (Bonus Track Digital)
17. Empregada (Bonus Track Digital)
18. Um Bom Motivo (Bonus Track Digital)
19. Jesus Voltará! (Bonus Track Digital)
20. Festa Punk (Bonus Track Digital)