domingo, 10 de março de 2019

King Crimson - Live at the Orpheum [2015]


Por Micael Machado

Em 2008, o grupo progressivo inglês King Crimson fez aquela que deveria ser sua última turnê, celebrando seu quadragésimo aniversário. Tendo em seu line up o sempre presente Robert Fripp nas guitarras, sintetizadores e soundscapes (equipamentos eletrônicos que produzem as famosas sonoridades ambientais conhecidas como "Frippertronics"), o cantor e vocalista Adrian Belew, o baterista e percussionista Pat Mastelotto, o baixista e "sticker" (como se chama o instrumentista que toca Chapman Stick, alguém sabe?) Tony Levin (retornando ao grupo após quase dez anos) e um segundo baterista, Gavin Harrison (ex-integrante do Porcupine Tree), o então quinteto se apresentou em poucas datas na Europa antes de entrar em um hiato que, para Fripp, deveria ser definitivo, devido à sua eterna briga com as gravadoras e o mundo empresarial da música (motivo que já o havia feito parar com as atividades da banda algumas vezes antes). Mas, em 2011, Fripp começou a fazer jams despretensiosas com o cantor e guitarrista Jakko Jakszyk, então membro de um grupo tributo ao King Crimson chamado 21st Century Schizoid Band, onde também tocava o saxofonista e flautista Mel Collins, que já havia integrado o Rei Escarlate entre 1970 e 1972, registrando três discos de estúdio e um ao vivo com o grupo. Jakszyk, Fripp e Collins lançaram o álbum A Scarcity of Miracles em maio daquele ano, tendo na "cozinha" a ajuda dos já citados Levin e Harrison. O registro excitou os fãs do King Crimson, que passaram a especular uma volta da banda aos palcos, fato que foi confirmado pelo líder Fripp em 2013.

A nova formação do sempre mutante legado carregado por Fripp seria composta pelo quinteto responsável por A Scarcity of Miracles, com o acréscimo do antigo companheiro Pat Mastelotto e de um terceiro baterista, Bill Rieflin, ex-colaborador de grupos tão díspares quanto Ministry, R.E.M. e Swans, e que, nesta encarnação do KC, ficaria também responsável por alguns dos trechos de teclados. Este septeto ficaria conhecido como "The Seven-Headed Beast" (algo como "A Besta de Sete Cabeças", em tradução livre), e excursionou por 20 datas nos Estados Unidos no final de 2014, em uma turnê chamada "The Elements of King Crimson". Dois destes shows ocorreram em 30 de setembro e 1 de outubro daquele ano no Teatro Orpheum, em Los Angeles, na California, e foram lançados em janeiro de 2015 (coincidindo com o quadragésimo-sétimo aniversário do grupo) sob o nome Live at the Orpheum, em uma edição dupla que compreende um CD e um DVD-Áudio (ambos com o mesmo conteúdo), além de uma versão limitada em vinil de 200 gramas (e repertório igual ao do CD).


"A Besta de Sete Cabeças": Tony Levin, Gavin Harrison, Mel Collins, Bill Rieflin, Robert Fripp, Pat Mastelotto e Jakko Jakszyk

Se, por um lado, este disco ao vivo deve ser bastante saudado, por trazer faixas que o grupo não interpretava ao vivo desde o início da década de 1970 (além do retorno de Collins e Levin a um disco do King Crimson), por outro, vários motivos poderiam ser citados para colocá-lo como uma grande decepção. O maior deles, sem dúvida alguma, é sua curta duração (meros 41 minutos, muito pouco para tanta expectativa gerada pelo anúncio do álbum, sendo que sabe-se hoje que os dois shows foram gravados na íntegra, e poderiam ter sido lançados em sua versão completa, se Fripp assim desejasse), seguido de perto pelo fato de que as duas músicas inéditas presentes no enxuto track list são, na verdade, curtos e desinteressantes trechos instrumentais. "Walk On: Monk Morph Chamber Music", uma delas, é uma simples intro do show, unindo sonoridades geradas pelos Frippertronics, sons aleatórios de flauta e de uma orquestra afinando, conversas entre os músicos e até um trecho falado de uma conhecida "faixa escondida" presente nas edições originais do álbum Islands, de 1971, e que apareceu depois nas edições comemorativas lançadas em CD. Já "Banshee Legs Bell Hassle", a outra "novata", compreende pouco mais de um minuto e meio de barulhinhos percussivos feitos pelos três bateristas, em uma vinhetinha sem muito sentido, pois a força da união de tão talentosos instrumentistas fica longe de ser demonstrada aqui. A única outra canção não lançada na década de 1970 presente no registro, "The ConstruKction of Light" (faixa título do álbum de 2000) também soa decepcionante, não pela primorosa execução (que agrega inéditos trechos de sopro em seu arranjo, em um acréscimo muito bem vindo à música), mas por estar presente apenas em sua curta parte instrumental inicial. Quando a expectativa para a entrada da letra escrita por Belew é interrompida pelo final da faixa, fica uma sensação amarga em quem ouve Live at the Orpheum, pois o gosto de "quero mais" é impossível de se fazer presente nesta hora.

Felizmente, o restante do disco é de fazer sorrir de orelha a orelha qualquer fã mais devoto do Rei Escarlate. "One More Red Nightmare", originalmente presente no álbum Red, de 1974 (particularmente, o meu preferido dentre a vasta discografia do grupo), surge maravilhosa, com destaque para o peso e a força das três baterias, que finalmente se faz presente neste disco, além das passagens de sopro de Collins, especialmente no primeiro solo de sax. Lamentavelmente, faltam aquelas passagens no prato tão marcantes no início da versão de estúdio, e a voz de Jakszyk soa aguda demais perto da perfeição e da força da versão original, registrada pelo saudoso John Wetton, algo que não chega a tirar o brilho de uma das melhores composições da chamada "trilogia elétrica" do King Crimson. Fechando o lado "A" do vinil, como fazia no citado Islands"The Letters" é bastante fiel à versão de estúdio, embora apresente um solo de sax mais longo que aquele registrado décadas atrás por Collins, e falte algo do peso nas guitarras que a faixa original possui. Jakszyk se sai bem melhor aqui, pois seu registro de voz não fica tão distante do de Boz Burrell (cantor da primeira versão), ganhando destaque na parte a capella ao final da canção, e, ao longo do arranjo, o peso e a força das três baterias novamente se faz presente, sem nunca soar "embolado" ou "atropelado", algo que poderia facilmente acontecer com músicos menos tarimbados que os presentes aqui.


Interior da capa gatefold da versão em vinil de Live at the Orpheum

O lado "B" do vinil (ou as duas últimas músicas do CD) também são só alegria. Outra faixa originalmente presente em Islands"Sailor's Tale" sempre foi uma das minhas favoritas da fase inicial do Rei Escarlate, em muito graças à sua vibrante linha de baixo, reproduzida aqui com perfeição por Levin, mas também graças a um sentimento de "perigo" e de aparente desordem que o arranjo produz, e que consegue ser mantido nesta versão, além de alguns pequenos improvisos aqui e ali por parte de Collins. O "ameaçador" mellotron da faixa de estúdio acaba fazendo falta na parte final, mas a guitarra de Jakko e os sopros de Mel conseguem, de alguma forma, compensar esta "perda", com a guitarra de Fripp (penso eu que seja dele) solando alucinadamente ao fundo, e só não transformando esta na melhor faixa de Live at the Orpheum porque o disco se encerra com a maravilhosa "Starless", música que também termina o lado "B" do já citado Red. A maior obra prima já lançada pela banda, esta suíte é um dos grandes clássicos do rock progressivo, e já teve várias versões ao vivo lançadas ao longo dos anos (várias delas presentes na caixa Road to Red, sobre a qual já tratei aqui no site, em matéria que, infelizmente, o site UOL retirou do ar), mas todas elas gravadas ainda com David Cross ao violino. Quem já as ouviu, sabe que o arranjo é bem diferente daquele presente em Red, gravado sem a presença do violinista. Sendo assim, esta é a primeira versão registrada ao vivo com o arranjo de estúdio, onde os sopros de Collins ganham bastante destaque ao longo da execução da faixa (como no registro de 1974, onde ele também esteve presente). Nem a diferença entre os timbres vocais de Jakko e Wetton, nem a evidente desaceleração do trecho final da parte instrumental intermediária (pouco antes da retomada do tema inicial), nem mesmo a sentida ausência do peso do baixo presente no encerramento da composição original conseguem estragar este clássico, que acaba sendo o grande destaque deste belo registro ao vivo do King Crimson.

Live at the Orpheum acabou sendo o único registro da turnê de 2014, mas esta encarnação em septeto ainda participaria dos álbuns Live in Toronto, de 2016 (gravado em 2015 e lançado como parte do Collectors Club do King Crimson) e do box set Radical Action to Unseat the Hold of Monkey Mind, um compilado  de apresentações ao vivo da turnê de 2015 lançado também em 2016. No mesmo ano, Rieflin precisou se afastar da turnê, sendo substituído pelo baterista Jeremy Stacey, da Noel Gallagher's High Flying Birds, mas retornou no ano seguinte, apenas como tecladista, transformando o grupo em um octeto, no que passou a ser conhecida como a encarnação chamada de "Double Quartet", ou "Duplo Quarteto", em tradução livre. A formação do período sem Rieflin está presente no EP ao vivo Heroes e no CD triplo Live in Vienna, ambos de 2017, e o "Double Quartet" aparece em Live in Chicago, lançado no final do mesmo ano, além de continuar na estrada ao longo deste 2018. Seria muito sonhar com uma apresentação da banda aqui por estas terras tropicais? Tomara que não!



Contracapa de Live at the Orpheum

Track List:

1. Walk On: Monk Morph Chamber Music
2. One More Red Nightmare
3. Banshee Legs Bell Hassle
4. The construKction of light
5. The Letters
6. Sailor's Tale
7. Starless

CJ Ramone - American Beauty [2017]


Por Micael Machado

Christopher Joseph Ward passou a fazer parte dos Ramones em 1989, sendo imediatamente "rebatizado" como CJ Ramone, e permanecendo como baixista e eventual vocalista do quarteto nova-iorquino até o encerramento das atividades do grupo, em 1996. Após tentativas de continuar em evidência participando de bandas como Los Gusanos e Bad Chopper, CJ embarcou em uma carreira solo iniciada com o álbum independente Reconquista, de 2012, seguido por Last Chance to Dance, de 2014, voltando sua música à sonoridade tradicional de seus tempos ao lado dos "brothers" de sua banda mais famosa. American Beauty, de 2017 (lançado nas versões CD, vinil preto e em uma linda edição limitada em vinil colorido pela gravadora Fat Wreck Chords, de propriedade do músico Fat Mike, do NOFX, sendo o segundo registro de CJ por este selo), dá continuidade à trajetória do músico, que mais uma vez se fez acompanhar pelas lendas do punk rock Steve Soto (ex-Adolescents, infelizmente falecido em junho deste ano) e Dan Root (ex-Tender Fury e também membro do Adolescents) nas guitarras, além do baterista Pete Sosa (ex-integrante do Roger Miret And The Disasters), em um disco que certamente agradará à enorme e saudosa legião de fãs dos Ramones.

Dan Root, Steve Soto, CJ Ramone e Pete Sosa, a formação que gravou American Beauty

Músicas mais rápidas como a energética "Let's Go" (que abre os trabalhos e é um dos destaques do álbum), “Girlfriend In A Grave Yard" (onde a guitarra solo tem um pezinho na surf music da década de 1950), "Steady As She Goes" e "Run Around" são similares às faixas com CJ nos vocais que encontramos nos discos dos Ramones de Mondo Bizarro para a frente. "You'll Never Make Me Believe" e "Moral To The Story" são mais cadenciadas, mas também não soariam deslocadas no meio do track list destes mesmos álbuns, sendo que a última tem uma vibe bem anos 60 que frequentemente aparecia nas composições da ex-banda de Ramone, e que aqui ainda é enfatizada por um interessantíssimo solo de guitarra.

"Be A Good Girl" soa como uma daquelas semi-baladas cheias de romantismo que Joey costumava compor para os Ramones, e não é difícil imaginar Dee Dee na composição e nos vocais da agressiva "Yeah Yeah Yeah". O riff inicial de "Without You" (com participação especial da cantora Kate Eldridge, do Big Eyes) lembra muito o de "The KKK Took My Baby Away" (embora a canção seja mais lenta que a dos "brothers"), e a semi-balada "Before The Lights Go Out" tem ali no meio uma parte "chupinhada" na cara dura de "I Want You Around", outra composição da ex-banda de CJ. Até mesmo um cover de Tom Waits aparece no disco ("Pony", que conta com trompetes mariachi em seu arranjo), remetendo a "I Don't Want to Grow Up", gravada "você-sabe-por-quem" no álbum ¡Adios Amigos!, de 1995. Para fechar o track list do disco (e, no caso do vinil, o lado A do mesmo), temos a acústica "Tommy's Gone", curta e bela homenagem a Tommy Ramone, baterista original e depois produtor por muitos anos daquele tal quarteto tão falado até aqui, infelizmente falecido em 2014.

A linda (e rara) versão limitada em vinil colorido de American Beauty

Se você procura por originalidade e pelos "novos bons sons" do rock atual, fique longe de American Beauty. Mas, se você quer escutar algo empolgante, com um astral "para cima" e divertido, além de bem composto, gravado (em parceria entre CJ e o produtor e engenheiro Paul Miner) e tocado, com melodias agradáveis e refrões pegajosos (do tipo que você já se pega cantando junto depois de uma única audição), além de emular perfeitamente a sonoridade da melhor banda de rock que já passou por este planeta, então pode se entregar sem medo, pois este é o álbum recomendado para você. Valeu, CJ, e que mais discos assim venham por aí!

Contracapa da versão em vinil de American Beauty

Track List:

1. Let's Go
2. Yeah Yeah Yeah
3. You'll Never Make Me Believe
4. Before The Lights Go Out
5. Girlfriend In A Graveyard
6. Tommy's Gone
7. Run Around
8. Steady As She Goes
9. Without You
10. Be A Good Girl
11. Moral To The Story
12. Pony

Nëcro - Adiante [2016]


Por Micael Machado 

Em uma certa quinta feira no final do ano de 2016, fui até um bar de Porto Alegre conferir a estreia na cidade do trio islandês The Vintage Caravan, pela qual nutria grande expectativa. Na abertura do show, além da banda local Wolftrucker, um outro trio também fazia sua primeira performance em um palco da cidade. Os Alagoanos da Nëcro fizeram um show matador com duração de pouco menos de cinquenta minutos (que, inclusive, pode ser conferido na íntegra aqui), me empolgando tanto que logo comprei, das mãos dos próprios músicos, o CD autointitulado que vendiam no local, e que o trio, meio embaraçado e surpreso pelo "assédio", não se furtou de autografar para mim. O que eu não sabia então é que este já era o segundo lançamento do grupo (que iniciou suas atividades em 2009, ainda sob o nome Necronomicon), e que, à época, eles já estavam com um terceiro disco pronto para ser lançado no mercado, o que ocorreria em dezembro daquele ano, sob o epíteto de Adiante.

Thiago Alef (bateria), Lillian Lessa (baixo e voz) e Pedro Ivo Salvador (guitarras, violão, teclados e voz) - estes dois últimos, curiosamente, em funções invertidas em relação ao álbum anterior - tem uma sonoridade totalmente ligada à década de 1970, com bastante influência da psicodelia (como já entrega a própria capa, em uma bela arte assinada por Cristiano Suarez), mas também incorporando passagens do hard rock do início daqueles anos, e muito da sonoridade do rock brasileiro do final daquele período, como atestam as faixas "Orbes" (abertura do disco e um de seus maiores destaques), "Viajor" (escolhida como segundo single de divulgação) e "Entropia", que lembram os melhores momentos de grupos como Casa das Máquinas, O Terço, Tutti-Frutti ou as faixas mais aceleradas do Som Nosso de Cada Dia, por exemplo. Mas o trio não se furta de "pesar" a mão quando preciso, como acontece em "Azul Profundo", cujo início lembra bandas como Buffalo, Mountain ou Dust, inclusive com excelentes passagens de Hammond para ajudar na viagem para décadas atrás, e que, com mais de sete minutos, é a faixa mais longa e "viajante" do disco, além de contar com um dos melhores solos de Pedro Ivo em todo o registro. Já em "Espelhos e Sombras", um pouco mais lenta que suas colegas de track list, o peso (nem tão pesado assim) chega a lembrar (de longe) as músicas mais doom do Black Sabbath, além de ser a única a contar com trechos na letra que não são em português (sendo estes em espanhol, e não no inglês que o grupo utilizou em algumas faixas de seus discos anteriores).

Nëcro em ação no citado show de Porto Alegre, em foto retirada da página do facebook da banda: Lillian Lessa, Thiago Alef e Pedro Ivo Salvador

A faixa título tem uma surpreendente guitarra slide e tons de ritmos nordestinos no arranjo, além de uma parte mais psicodélica onde as seis cordas lembram as faixas mais "viajantes" do disco de estreia da Jimi hendrix Experience, e o encerramento do álbum se dá com a excelente "Deuses Suicidas", hard rock pesado e rápido que se configura no melhor momento do álbum, sendo, acertadamente (na minha opinião), escolhida como primeiro single de divulgação para Adiante.

Em pouco mais de 36 minutos, o Nëcro registrou um dos melhores discos do rock brasileiro nesta segunda metade da década, o qual, para alegria dos que apreciam o formato, foi lançado em vinil pelo selo Abraxas no começo deste 2018, em uma bela edição cuja pré-venda dava direito a "brindes" como pôsteres e camisetas do trio, um nome ao qual se deve prestar bastante atenção no cenário atual do rock nacional, e do qual espero pérolas ainda melhores no futuro. Aguardemos!

Contracapa de Adiante

Track List:

1. Orbes
2. Adiante
3. Azul Profundo
4. Viajor
5. Entropia
6. Espelhos e Sombras
7. Deuses Suicidas

domingo, 2 de setembro de 2018

Clockwork Angels - Os Anjos do Tempo [2012]


Por Micael Machado

Clockwork Angels é, ao que tudo indica, o último disco de estúdio da carreira do grupo canadense Rush. Lançado em 2012, o registro tem suas letras baseadas em uma história criada pelo baterista Neil Peart, e as músicas do mesmo serviriam para contar esta história, em um claro exemplo do que se costumou chamar de "álbum conceitual" no mundo da música. Acontece que, ao contrário de outros discos do mesmo estilo lançados ao longo do tempo, o conto imaginado por Peart é bastante difícil de ser compreendido quando escutamos apenas a versão musicada do mesmo. Para ajudar esta compreensão, além de expandir o universo do conto, o letrista do Rush uniu-se ao conceituado escritor norte-americano Kevin J. Anderson, e ambos escreveram juntos o livro de mesmo nome, lançado no mesmo ano do disco, e que no Brasil recebeu o título Os Anjos do Tempo (sendo lançado no país pela editora Belas Letras, em versões tanto brochura quanto com capa dura). É importante dizer que tanto as letras do álbum quanto a obra escrita foram escritas ao mesmo tempo, com uma influenciando a outra, e que o trabalho de confecção das mesmas levou muito mais tempo do que aquele efetivamente usado para gravações ou escritas por parte de ambos os grupos (no caso, o Rush e a dupla Peart/Anderson).

A história imaginada por Peart e ampliada e "arredondada" por Anderson narra a trajetória do jovem Owen Hardy, que vive em um pequeno vilarejo de um país chamado Albion, um local onde tudo ocorre com uma mesma rotina dia após dia, e onde os eventos são tão previsíveis que até mesmo o horário de começar a chover pode ser previsto com exatidão dias antes de acontecer. A estabilidade e a precisão dos acontecimentos são controladas pelo administrador do país, o misterioso e poderoso Relojoeiro, que, com a ajuda de seus monges alquimistas, controla tudo o que ocorre sob seus domínios, mantendo a todos felizes e bem sustentados em seus papéis nesta sociedade aparentemente justa e igualitária.

A versão em capa dura de Os Anjos do Tempo

Por impulso, curiosidade, destino ou pura estupidez juvenil (a resposta é dada mais adiante na obra), Owen aceita o convite de um estranho desconhecido, e parte rumo à Crown City, a capital do país, que ele sempre sonhara em conhecer, devido às histórias contadas a ele por sua mãe. Esta é a parte do conto que corresponde à música "BU2B", e, no trecho correspondente à faixa título, encontramos o jovem já na cidade grande, deslumbrado com as novas descobertas e com o quanto aquele lugar é diferente de seu pequeno povoado (algo com o qual consegui me identificar plenamente, pois também morei muito tempo em uma pequena cidade do interior para depois vir morar na "cidade grande", no caso, a capital do estado onde nasci, o Rio Grande do Sul). Algo que não aparece no disco é a amizade que Owen faz com uma trupe de circo, da qual passará a fazer parte, e com quem aprenderá conceitos que o tornarão em uma pessoa mais madura e adulta, como responsabilidade, lealdade, amizade e até o que ele julga ser o verdadeiro amor.

Os eventos vão se desenrolando até chegarmos ao trecho correspondente à faixa "Carnies" (que, no livro, vem antes de sua antecessora no disco, chamada "The Anarchist"). Neste ponto, eventos alheios à vontade de Owen fazem com que ele seja obrigado a deixar Albion, partindo em uma jornada (iniciada em "Halo Effect") que o levará a conhecer locais e conceitos bem distantes daqueles pregados e mantidos sob o domínio do Relojoeiro. A fome, o desprezo, a maldade, a exploração, a traição e o escárnio de um ser humano para com o outro são o que Owen encontra longe de sua terra, e apenas em poucas e raras ocasiões ele encontra simpatia ou apoio em seu período naquela terra desconhecida. Tudo isto leva Hardy a partir em novas jornadas, em busca não só de um local onde consiga se adaptar para viver, mas também de respostas para as aflições que passam a invadir sua mente ao perceber que o mundo no qual viveu até então não passava de uma espécie de fantasia artificial criada e mantida por seu antigo governante, e que seria necessário ele amadurecer e se fortificar para realmente sobreviver no "mundo real" onde agora se encontrava.

Os autores e sua obra: Kevin J. Anderson e Neil Peart

O livro corria muito bem até então, mas, quando Owen parte para suas mais audaciosas aventuras, a obra vira ficcional demais, perdendo, a meu ver, a verossimilhança que mantinha até ali, e adotando uma dose maior e mais fortemente presente de uma fantasia que, embora constante, ainda era bastante aceitável para o leitor do texto (ainda mais sendo este um fã de ficção científica, como no meu caso). Os trechos da obra que correspondem a "Seven Cities of Gold", "The Wreckers" e "Headlong Flight" soam forçados demais, com conveniências de roteiro (se é que se pode chamar assim, visto esta ser uma obra escrita, e não visual) desnecessárias e preguiçosas que, embora façam a história progredir de forma interessante e até mesmo empolgante em alguns trechos, me fez questionar várias vezes qual seria o motivo da dupla de escritores te escolhido seguir o caminho adotado, e não um mais simples e mais próximo da realidade, o que os tornaria mais aceitáveis ao meu paladar literário.

Os trechos correspondentes às músicas "BU2B2" e "Wish Them Well" encaminham o "final feliz" encontrado em "The Garden", algo já previsto pelo leitor devido ao revelador prólogo do livro, em mais uma solução fácil adotada pelos autores, mas que, surpreendentemente, não chega a ser de todo decepcionante. Ao tratar de temas como a passagem da adolescência para a fase adulta (com a necessidade de um amadurecimento não só físico, mas de caráter e personalidade), a forma como a população aceita ser governada por uma ditadura (aparentemente benéfica, mas de muitas formas castradora das liberdades individuais e de pensamento) apenas por não conhecer uma alternativa diferente, a eterna rivalidade ordem versus caos (e suas consequências tanto para um lado quanto para o outro), além de tópicos mais "comuns" como amizade, desilusões amorosas, desejo por aventuras e o eterno questionamento do papel do indivíduo no mundo e na sociedade, Os Anjos do Tempo torna-se, em seu sub-texto, bem mais profundo do que aparenta na superfície, onde se transforma apenas uma boa aventura de ficção com toques de magia e fantasia, mas que, devido a escolhas de roteiro que, a mim, não agradaram, poderia ter sido mais bem sucedida quando se pensa na premissa criada por seus idealizadores.

Contracapa de Os Anjos do Tempo

No final da obra, há um interessantíssimo posfácio escrito por Peart tratando sobre a confecção da mesma, suas fontes de inspiração e como os debates entre ele e o coautor Anderson foram mudando não só o texto, mas as músicas que resultaram no disco complementado pelo livro (também foi lançada uma história em quadrinhos baseada no tema, a qual, infelizmente, não tive acesso quando da escrita deste artigo). É neste posfácio que Peart confirma algo que percebi ao longo do texto (e que, felizmente, não foi arruinado pela bela tradução feita por Bruno Mattos, que ajudou a leitura e a compreensão do livro a fluírem com agilidade): as pequenas e espalhadas referências a letras, discos e músicas presentes em discos anteriores do Rush. São nomes de canções, frases completas ou apenas uma ou outra palavra que aparecem aqui e ali ao longo da escrita, e que, como Peart afirma, "não atrapalham a leitura daqueles que não pescarem, mas poderão entreter aqueles que perceberem". Se você for um fã da banda, como eu, é mais um ponto a ficar atento na leitura do obra, um livro, que, no mínimo, fará você finalmente compreender a história contada no disco de mesmo nome, além de lhe fornecer novas ideias sobre o significado de várias letras do mesmo. Boa diversão!

domingo, 8 de julho de 2018

Mick Pointer Band ‎– Marillion's "Script" Revisited [2014]


Por Micael Machado

O começo da década de 1980 não estava sendo fácil para os fãs ingleses de rock progressivo, com alguns dos gigantes do estilo se mantendo afastados da sonoridade tradicional do gênero, como o King Crimson (que se voltou para a new wave naquela que é conhecida como a "trilogia das cores", lançada entre 1981 e 1984), o Genesis (cada vez mais voltado ao pop em álbuns como Abacab e aquele que leva o nome da banda, lançado em 1983), o Yes (que quase trocou de nome para Cinema, e voltou aos estúdios também em 1983, com o álbum 90125 e um novo guitarrista, Trevor Rabin, além de uma sonoridade bastante diferente daquela que o caracterizou na década anterior) e o ELP (que estava em hiato, e só retornaria em 1986 com Cozy Powell na bateria e uma sonoridade também distante daquilo que faziam antes). Foi neste contexto que surgiu o Marillion, praticando um prog rock totalmente identificado com as origens do estilo na década de 1970, e, não sem toda a razão, muitas vezes acusado de ser um mero pastiche da fase clássica do Genesis. Seu primeiro álbum, Script For A Jesters Tear (também de 1983, vejam a coincidência), acabou se tornando um dos mais importantes do estilo na década, e ajudou a ganhar uma enorme legião de fãs e admiradores para o grupo ao redor do mundo.

O Marillion mudou muito desde então. Logo após a turnê de lançamento, o baterista Mick Pointer foi demitido, sendo substituído primeiro por membros provisórios como Andy Ward e Jonathan Mover, mas depois pelo definitivo Ian Mosley, que ocupa as baquetas até hoje. Anos depois, foi o vocalista Fish quem cedeu seu posto a Steve Hogarth, o que fez com que a banda mudasse de sonoridade, e se afastasse bastante daqueles anos iniciais tão importantes não só para si, mas também para o progressivo de uma forma geral.


Mick Pointer Band: Brian Cummings, Mick Pointer, Nick Barrett, Ian Salmon e Mike Varty 

Foi por isto que, quando Script For A Jesters Tear completou 25 anos em 2008, nem os membros que então compunham a banda que o lançou, nem o cantor que o registrou, demonstraram muito interesse na data. Coube então ao baterista do disco, o renegado Mick Pointer, reunir um grupo de amigos e fazer uma pequena excursão europeia celebrando o aniversário da obra mais importante de sua carreira (onde, fora do Marillion, obteve algum reconhecimento ao lado do também progressivo Arena, com quem toca desde 1995). Pointer uniu-se a Brian Cummings (vocais, membro do Carpet Crawlers), Nick Barrett (guitarras, membro do Pendragon), Mike Varty (teclados, integrante do Credo) e Ian Salmon (seu colega no Arena, tocando baixo), e o que era para ser algo de curta duração acabou ocorrendo algumas outras vezes através dos anos, como em 16 de março de 2013, quando o grupo interpretou a íntegra da estreia do Marillion (e mais algumas coisinhas) no clube Cultuurpodium Boerderij, na cidade de Zoetermeer, na Holanda. O show foi lançado em CD e vinil (colorido, numa bela coloração roxa escura, pelo menos na versão que eu possuo) duplos no ano seguinte, sob o nome Marillion's "Script" Revisited, e certamente cairá no agrado dos fãs do grupo original de Pointer.

O primeiro álbum traz a íntegra de Script, com as músicas na mesma ordem da versão original (embora alguns fade outs nos mostrem que talvez a execução no show não tenha seguido esta sequência). A preocupação com o respeito aos arranjos e timbres originais é enorme, o público participa bastante ao longo da maioria das faixas (seja cantando em alto e bom tom, seja acompanhando com palmas), e o ponto que seria mais preocupante, que são os vocais, acabam sendo bastante agradáveis, pois Cummings emula Fish de forma muito parecida com a voz do cantor original do Marillion (até mesmo imitando por vezes o forte sotaque escocês do outro músico), embora fique claro não serem os dois a mesma pessoa. A semelhança com as versões já conhecidas e o talento dos músicos na execução das seis músicas do track list original fazem com que o ouvinte tenha momentos de certa nostalgia ao escutar faixas que tanto Fish quanto o Marillion dificilmente interpretam ao vivo hoje em dia, transformando a audição da revisão de Script em algo bastante agradável e satisfatório, especialmente aos apreciadores da obra original.


Versão em vinil de Marillion's "Script" Revisited

O segundo disco conta com faixas lançadas apenas em singles durante o período de Pointer com o Marillion (seja antes ou depois do lançamento de Script For A Jesters Tear). Com ordens diferentes nas versões CD e vinil, este último abre com os quase 20 minutos da suíte "Grendel" (que ocupa integralmente o lado "C" da bolachona), inspirada pelo clássico literário Beowulf, e uma das melhores composições da carreira da banda, mostrando que o Marillion de então estava completamente comprometido com as regras e o estilo definidos pelo progressivo da década de 1970. Ainda aparecem a calma "Charting The Single", a mais voltada ao rock and roll tradicional "Margaret" (que aqui ganha um trechinho da obra "Hall of The Mountain King" em sua execução), a lindíssima "Three Boats Down From The Candy" (uma das minhas favoritas pessoais) e o hino "Market Square Heroes", outra que levanta a galera e leva a todos a uma celebração de uma fase que ficou no passado, mas não pode nem merce ser esquecida.

Marillion's "Script" Revisited é um bom álbum e certamente agradará aos fãs da obra original (e daquele período inicial do Marillion). O grande problema é que estes mesmos fãs já possuem praticamente tudo isso, e em versão superior, no CD e no DVD Recital of the Script, lançados em diferentes versões entre 1983 e 2009. Nestes registros, temos a banda original, tocando o disco na época de seu lançamento, com a garra e a jovialidade de um grupo que precisava ainda conquistar seu espaço, e não uma banda cover (embora competente) interpretando canções com trinta anos de vida, já então bem conhecidas e algumas delas elevadas ao status de clássicos. De toda forma, se você encontrar a versão "revisitada" por um preço compatível (como eu, que dei a sorte de adquirir a versão em vinil por meros dez dólares, ou cerca de quarenta reais na data em que escrevo), pode se jogar sem medo, que a alegria é garantida, Caso contrário, pode ficar com o Recital original, e certamente você não terá nenhum prejuízo.


Contracapa da versão em vinil de Marillion's "Script" Revisited

Track List (versão CD):

Disco 1:

1. Script For A Jesters Tear
2. He Knows, You Know
3. The Web
4. Garden Party
5. Chelsea Monday
6. Forgotten Sons

Disco 2:

1. Three Boats Down From The Candy
2. Charting The Single
3. Grendel
4. Market Square Heroes
5. Margaret

Olga From The Toy Dolls ‎– OlgAcoustic [2015]


Por Micael Machado

O inglês Michael Algar é um injustiçado. Há quase 40 anos a frente do Toy Dolls, uma das melhores e mais divertidas bandas existentes no punk rock mundial, o sujeito pouquíssimas vezes teve reconhecido o mérito de qualidade dos álbuns que gravou com sua banda, e menos vezes ainda viu seu enorme talento como guitarrista ser citado em alguma destas listas de "melhores" que vez por outra aparecem por aí, e que frequentemente revelam apenas gostos pessoais, e não critérios realmente técnicos ou algo que o valha. O certo é que, além de excelente compositor, vocalista marcante (com um timbre que poderia muito bem ser utilizado para algum personagem de desenhos do cartoon networks) e um excelente performer, Olga (como é conhecido desde sempre por seus fãs) é um instrumentista de mão cheia, sendo um daqueles raros casos que comprovam que não é preciso ser um músico tosco para tocar música punk.

Depois da "trolagem" geral aplicada em seus fãs com Our Last Album?, de 2004 (onde muitos realmente acreditaram que a carreira dos Dolls havia finalmente chegado ao fim), e do retorno com The Album After the Last One, em 2012, Olga surpreendeu seus fãs com OlgAcoustic, de 2015, onde interpreta treze canções (e duas vinhetas) de sua banda no esquema "voz e violão", tão comum a muitos artistas bem mais famosos espalhados por aí. Mas não pensem que Algar "acalmou" suas criações para adaptá-las ao formato. De forma alguma. Pouquíssimas foram as mudanças nos arranjos das canções, e, mesmo com a ausência de baixo, bateria e dos marcantes backing vocals utilizados pelo grupo (muitos destes, inclusive, incorporados pelo próprio Olga nestas novas versões), as músicas continuam fortes, mostrando que, quando uma composição é boa de verdade, você pode deixá-la "em um formato acústico totalmente nu" (como estampado na contracapa), que ainda assim ela será relevante.


Anúncio oficial do lançamento de OlgAcoustic

A escolha do repertório passa longe de obviedades. Praticamente todos os clássicos da carreira do Toy Dolls foram limados na hora de selecionar o que entraria no disco, sendo que possivelmente apenas "Dig That Groove Baby" e "Idle Gossip" talvez se enquadrem nesta categoria. Os fãs mais atentos certamente lembrarão de "She'll Be Back With Keith Someday", "The Death Of Barry The Roofer With Vertigo", "Deidre's A Slag" e "My Wife's A Psychopath", e eu, particularmente, fiquei bastante feliz ao ver "Olga I Cannot" no track list, sendo ela uma das minhas composições favoritas da banda. Mas mesmo estes fãs terão de tirar as teias de aranha da memória para lembrar de "Poor Davey" (presente no álbum de estreia, Dig That Groove Baby, de 1983), "PC Stoker" (que faz parte de Idle Gossip, de 1986) ou da recente "Dirty Doreen", gravada no citado The Album After the Last One, que mostram que o gosto pessoal do músico prevaleceu sobre critérios como popularidade ou apelo mercadológico para escolher as músicas selecionadas para o disco.

Abrindo e fechando com uma reinterpretação de "Theme Tune" (que também iniciava e finalizava o citado disco de estreia), OlgAcoustic (que, segundo o encarte, foi registrado no quarto do Olga, algo do qual eu não duvido nem um pouco) se ressente da falta dos demais componentes da musica do Toy Dolls, mas abre generosos espaços para Algar mostrar seus dotes ao violão, especialmente em alguns solos, onde por vezes ele reinterpreta de forma acústica o que havia feito na guitarra elétrica, e, em outras, cria novas melodias em substituição às versões já consagradas antes. Não é um álbum recomendado para iniciantes, mas sim para aqueles já familiarizados com a discografia e o estilo das canções do Toy Dolls, os quais poderão, a princípio, estranhar este "novo formato" de algumas velhas companheiras de estrada, mas, passado o impacto inicial, certamente irão se divertir com este belo registro idealizado, composto e gravado por este gênio chamado Olga, que, não custa nada lembrar, estará em turnê pelo Brasil com sua banda no mês de agosto (em formato elétrico, é bom lembrar), passando por Curitiba (dia 10),  Goiânia (dia 11) e São Paulo (dia 12 - será que nenhum promotor pensou em trazer o grupo a Porto Alegre desta vez? Putz...). Se tiver a chance de conferir, não perca. Você não irá se arrepender!


Contracapa de OlgAcoustic

Track List:

01. Theme Tune
02. Dig That Groove Baby
03. She'll Be Back With Keith Someday
04. Idle Gossip
05. The Death Of Barry The Roofer With Vertigo
06. PC Stoker
07. Dirty Doreen
08. Deidre's A Slag
09. Olga I Cannot
10. You Won't Be Merry On A North Sea Ferry
11. Poor Davey
12. My Wife's A Psychopath
13. Alfie From The Bronx
14. Bitten By A Bed Bug
15. Theme Tune

Livro: Infinita Highway - Uma carona com os Engenheiros do Hawaii - Alexandre Lucchese


Por Micael Machado

Em 2014, o jornal Zero Hora encarregou o repórter Alexandre Lucchese a fazer uma matéria especial sobre a carreira dos Engenheiros do Hawaii. A pesquisa do jornalista rendeu um material muito maior do que aquele que viria a ser publicado nas páginas do periódico, sendo oferecido à editora Belas Letras, e compilado em Infinita Highway - Uma carona com os Engenheiros do Hawaii, livro publicado em 2016. Com muitas entrevistas feitas com o trio da "formação clássica" dos EngHaw (Humberto Gessinger - voz, baixo, guitarra e teclados, Augusto Licks - guitarra, teclados e vocais, e Carlos Maltz - bateria, percussão e vocais), além de "cerca de uma centena de fontes", como o autor cita na introdução, o livro abrange desde a formação do grupo, ainda com Marcelo Pitz no baixo e Carlos Stein (que depois seria membro fundador do Nenhum de Nós) na guitarra, até a saída de Maltz após a gravação e a turnê de Simples de Coração, em 1995. Desta forma, em pouco mais de trezentas páginas, Lucchese conta a trajetória de quase onze anos da estrada de um dos mais importantes grupos do chamado "BRock" (e, seguramente, o maior do estilo já surgido no Rio Grande do Sul), período que os fãs consideram como o mais interessante e relevante de sua carreira, e que ajudou a banda a se tornar um verdadeiro fenômeno pelos quatro cantos do país.

Apesar de admitir que considera a formação com Gessinger, Licks e Maltz como a sua preferida e a mais importante do grupo, Alexandre despende muitas páginas da obra para tratar da formação do grupo (montado inicialmente para durar apenas uma noite, abrindo uma apresentação do grupo Ritual na faculdade de Arquitetura de Porto Alegre, em 11 de janeiro de 1985, mesmo dia do início do primeiro Rock In Rio), da infância e juventude de seus membros, dos primeiros e únicos meses ao lado de Pitz (Stein sairia pouco depois daquela primeira apresentação), da cena roqueira e musical de Porto Alegre na época (inclusive com muitos depoimentos dos participantes de tal cena, em trechos bastante interessantes, mas que fogem um pouco ao tema principal da obra), da gravação e turnê de divulgação do registro de estreia, Longe Demais das Capitais, de 1986, da relação dos músicos entre si, com os fãs e com a vida na estrada, do início da chegada do "sucesso" na vida dos rapazes, e da complicada e até hoje ainda não muito bem explicada saída do primeiro baixista em meados de 1987. Nesta parte, alguns depoimentos são mais longos do que o necessário, e os relatos e fatos apresentados acabam sendo tratados com uma profundidade talvez mais detalhada do que a recomendável, tornando a leitura um tanto arrastada e difícil, embora muita coisa apresentada seja bastante interessante.

O autor entrevistando Humberto Gessinger para o livro

Por conta desta "dedicação" aos detalhes, a entrada de Licks na banda vai ocorrer apenas na página 165, deixando assim pouco menos de metade da obra para a descrição de quase nove anos de trajetória dos EngHaw. Com o espaço limitado, as histórias se tornam menos detalhadas e os depoimentos mais curtos, mas a leitura se torna mais dinâmica, com o texto ganhando mais agilidade e "prendendo" mais a atenção do leitor às páginas da obra do que a primeira parte do relato. Desta forma, o livro passa pelas gravações dos demais discos do grupo, por relatos de shows marcantes como o Alternativa Nativa, ainda em 1987, e o Rock in Rio II, em 1991, a mudança do trio de Porto Alegre para o Rio de Janeiro, a turnê pela antiga União Soviética em 1989, algumas polêmicas com jornalistas e outros músicos da cena musical nacional, e pela relação cada vez mais complicada entre as três fortes personalidades que compunham a formação mais adorada do grupo por parte de seus fãs. Como se vê, é muito pouco espaço para tanto assunto, ainda mais se levarmos em conta que Lucchese não se furta de tratar um pouco mais demoradamente da saída de Licks e do consequente processo gerado pelo insatisfeito guitarrista contra a dupla remanescente (com o livro trazendo alguns detalhes que eu, pessoalmente, desconhecia a respeito da "briga" entre os integrantes do Engenheiros). Mesmo assim, o autor acaba se saindo bem em sua missão "quase impossível" de condensar tantos fatos em tão poucas páginas, conseguindo trazer ao leitor muitas informações importantes e nem tão conhecidas ou "manjadas" sobre a carreira do trio até ali.

Após tratar rapidamente da junção do quinteto que viria a gravar Simples de Coração e do desgaste e consequente rompimento da relação entre  Gessinger Maltz, que chegaria até mesmo às vias de fato entre os dois e culminaria na partida do baterista, o livro termina deixando uma grande sensação de "quero mais", não só pela "pressa" como a parte mais interessante acaba sendo relatada, mas também porque a trajetória do grupo (e de seu principal compositor) seguiu adiante (com algumas formações diferentes, mas sempre com Humberto à frente), e fica a vontade de saber mais desta parte da carreira do grupo, à qual o autor preferiu ignorar, mas que, mesmo assim, traz histórias bastante interessantes para quem é seguidor de Gessinger e seus asseclas (sejam eles quais forem no momento).

Contracapa do livro

O livro conta ainda com várias fotos interessantes, um belo projeto gráfico (com destaque para a capa, que tem um "rasgo" em formato de círculo que revela uma espécie de "capa interna" para a obra), além de uma discografia comentada do período tratado e de três depoimentos de fãs colocados em momentos "estratégicos" da trajetória do grupo, e que ajudam a explicar um pouco porque três caras sem muita pretensão no mundo da música acabaram se tornando referência em termos de rock and roll não só no seu estado de origem, mas também para muitos e muitos fãs espalhados pelos quatro cantos do país . Estes depoimentos, aliás, talvez sejam a parte mais interessante de toda a obra, pois mostram como os fãs do grupo são parecidos, sendo fácil ao leitor se identificar com pelo menos algumas das situações contadas neles, ou talvez perceber que ele mesmo já passou por algo parecido enquanto "devoto" da banda, tornando sua leitura bastante atraente e, em algumas partes, até mesmo um pouco emotiva.

Infinita Highway - Uma carona com os Engenheiros do Hawaii não é a biografia definitiva dos EngHaw (e nem se pretende ser), mas, apesar de algumas falhas, é bastante recomendável, e com certeza irá agradar aos fãs de Humberto Gessinger e companhia. Os detratores, estes não se interessarão pela obra de toda forma, então melhor que nem leiam, pois podem acabar percebendo que a banda é muito mais que os "sucessos de FM" e as letras "messiânicas" de seu cantor. Que assim seja!