domingo, 5 de abril de 2020

Gorilla - Treecreeper [2019]


Por Micael Machado

Confesso que, apesar de ser admirador do chamado estilo Stoner, nunca tinha ouvido falar do trio inglês Gorilla, hoje formado por Johnny Gorilla nos vocais e guitarras, Sarah Jane no baixo e Ryan Matthews na bateria, mesmo o pessoal estando na estrada desde o início da década de 1990, e já tendo lançado três registros antes deste Treecreeper. O fato deste ser seu primeiro full-length desde 2007 talvez contribua para isto, mas a verdade é que, quando o registro caiu em minhas mãos, não nutria grandes expectativas quanto à sua audição, apesar do mesmo vir muito bem recomendado a mim por pessoas nas quais confiro.

E, aos meus ouvidos, realmente os conselhos foram sábios. O grupo investe no chamado "stoner rock", e, apesar de ter algumas partes mais lentas em suas músicas, sabiamente foge quase por completo da definição de "imitadores do Black Sabbath" que tantas outras bandas sob o amplo rótulo "stoner" carregam (a não ser por uma pequena escorregadela em "Terror Trip", onde uma parte mais rápida no meio da faixa lembra e muito "Electric Funeral", do disco Paranoid, dos mestres de Birmingham), apostando em canções mais velozes e "rock and roll", quase uma mistura de Motörhead (especialmente por causa dos vocais de Johnny) com as bandas de hard rock do início da década de 1970, como Buffalo ou Dust (para entender melhor, confira "Ringo Dingo", com o baterista Matthews nos vocais principais, ou "Gorilla Time Rock N Roll", onde algum ouvinte mais incauto pode jurar que está ouvindo o eternamente saudoso Lemmy Kilmister ao microfone, e uma inusitada harmônica surge para fazer o solo principal da canção).

O trio Gorilla: Ryan Matthews, Johnny Gorilla e Sarah Jane

"Scum Of The Earth" e "Killer Gorilla" seguem bem esta fórmula, mas é quando o trio investe na psicodelia que consegue os resultados mais agradáveis, na minha opinião. Apesar de uma certa "fórmula pronta" adotada a cada composição (início mais lento, solos lisérgicos e partes mais aceleradas e "aditivadas" no meio ou no final da faixa), músicas como "Last In Line" ou a faixa-título (onde suaves sons de passarinhos aparecem no início tentando nos enganar quanto à potência da sonoridade da banda) mostram que a banda consegue ser bastante criativa e arranjar soluções diferentes para que seus registros não soem maçantes ou muito similares entre si. Neste mesmo estilo "psicodélico com partes agitadas", a épica "Cyclops" (em seus mais de seis minutos) acaba sendo o grande destaque do registro para mim, ao lado de "Mad Dog", com uma longa e interessante intro (repetida ao final) e um contagiante ritmo quebrado.

Lançado em CD e em algumas versões diferentes de vinil (amarelo, laranja, preto e uma limitada edição splatter), além das inevitáveis plataformas digitais que hoje dominam o streaming de música, Treecreeper, em seus pouco mais de quarenta e sete minutos, é uma bela pedia aos fãs de Stoner Rock, mas também é muito recomendado aos saudosos admiradores da sonoridade do Motörhead e de um rock and roll pegado e furioso, com um pezinho no metal sim, mas o outro firmemente plantado na psicodelia e na "aura setentista" de alguns dos melhores grupos da história. Confira!

Contracapa da versão em vinil de Treecreeper

Track List:

01. Scum Of The Earth
02. Cyclops
03. Gorilla Time Rock N Roll
04. Treecreeper
05. Mad Dog
06. Ringo Dingo
07. Terror Trip
08. Last In Line
09. Killer Gorilla

domingo, 22 de março de 2020

Stick Men - Midori [2016]


Por Micael Machado

Não é a primeira vez que escrevo para o site sobre o Stick Men, trio formado pelo multi-instrumentista Tony Levin (responsável aqui pelo stick e pelas vozes principais), pelo percussionista Pat Mastelotto (ambos membros de antigas e da atual formação do King Crimson) e por outro multi-instrumentista, Markus Reuter, que neste registro fica responsável pela touch guitar, os "soundscaps" e os teclados (para aqueles que estão se perguntando o que seriam stick, touch guitar e soundscaps, sugiro audições sucessivas da obra do King Crimson a partir da década de 1990 para maiores compreensões). Seus lançamentos sempre foram bastante difíceis de encontrar no mercado nacional, por isso, foi com uma agradável surpresa que encontrei alguns de seus discos à venda em sites virtuais em edições brasileiras, especialmente este disco duplo ao vivo chamado Midori, que registra dois shows da curta turnê japonesa do grupo em 2015, onde foram acompanhados pelo também ex-membro do King Crimson David Cross, encarregado do violino e dos teclados nestas gravações.

Registrado a 10 de abril de 2015 na cidade de Tóquio, no Japão, cada CD traz, como dito, a íntegra de uma apresentação do Stick Men para a plateia japonesa, tendo no CD 1 a apresentação vespertina do trio, e no CD 2 a noturna. O bom é que, ao contrário do que ocorre com nomes mais consagrados da música mundial, o repertório de ambos os shows repete pouquíssimas músicas, fazendo com que o conjunto da obra seja ainda mais atraente aos fãs da sonoridade adotada pelo trio (temporariamente transformado em quarteto, pois Cross está presente em todas as músicas, ao invés de fazer participação especial em algumas partes selecionadas, como se poderia supor).

Infelizmente, cabe dizer que, para aqueles curiosos que gostariam de utilizar o registro como "porta de entrada" para a discografia do trio, este será de uso bastante limitado, isto porque o número de composições próprias presentes nas duas apresentações são muito reduzidas. As instrumentais "Hide The Trees" e "Cusp" (com Cross nos teclados) são as únicas presentes no primeiro CD, enquanto "Crack In The Sky" (com Levin nos vocais, e que lembra um pouco as baladas do King Crimson registradas nos discos dos anos 90) é a representante solitária da obra original do Stick Men na segunda bolachinha. Boa parte do registro é composta de improvisações feitas na hora pelos músicos, sem preparação anterior, como muitas e muitas vezes o King Crimson fez durante sua trajetória, especialmente na época em que Levin e Mastelotto faziam parte da formação (seja tocando juntos ou em momentos separados).

Stick Men ao vivo no Japão: Markus Reuter, o convidado David Cross, Pat Mastelotto e Tony Levin

Estes improvisos podem soar bastante desafiadores (para dizer o mínimo) àqueles não tão familiarizados com a sonoridade proposta pelo grupo (ou, sou obrigado a citar mais uma vez, àquela adotada pela banda de origem de dois de seus membros, especialmente a partir da década de 1990). Dos quatro registros espalhados pelos CDs, "Moth" lembra  bastante os improvisos feitos pelo King Crimson na década de 1970, especialmente pela participação do violino de Cross, músico que também se destaca em "Midori", onde seu instrumento cria climas bastante interessantes. "Moon" é mais lento, com um belo trabalho de Levin no Stick, e "Blacklight", precedido por uma vinheta introdutória composta pelos "soundscaps" tão adotados pelo Rei Escarlate a partir da década de 1980 (algo que também ocorre com o citado "Midori"), serve apenas para comprovar que a técnica e a inventividade destes músicos está realmente muito acima da média normal encontrada no mundo da música atualmente.

Claro que, com três membros com passagens pelas fileiras do grupo liderado por Robert Fripp, seria quase impossível que alguma composição desta banda não aparecesse nos shows. Pois alguns dos momentos mais interessantes destes shows ocorrem justamente nestas covers, que, a bem da verdade, soam aqui muito mais como "recriações" do que simples versões, como é o caso de "Industry", cuja faixa de estúdio original nunca foi muito de meu agrado, mas aqui ganha pelo menos cinco minutos a mais em sua duração, e a presença do violino de Cross dividindo improvisos com a touch guitar de Reuter, ou de "Sartori In Tangier" (esta, uma das minhas favoritas dentre os registros da chamada "trilogia das cores" lançada pelo Rei Escarlate na década de 1980), onde o acréscimo do violino às passagens originais leva a composição para novas paisagens sonoras. 

Ao olhar o track list pela primeira vez, pensei que "Shades Of Starless" (uma das poucas músicas que se repetem nos dois shows) se trataria de alguma variação de "Starless", a obra prima que encerra o disco Red (vocês devem saber de quem, certo?), mas a faixa é quase um improviso, onde durante boa parte do tempo a condução é o item que mais se assemelha à faixa setentista original, sendo que, no primeiro disco, apenas depois da metade de seus oito minutos o violino enfim emenda a melodia original de abertura da prima-irmã mais clássica, sendo que mesmo esta é "desvirtuada" por improvisos e pela participação da touch guitar de Reuter, resultando em uma quase completa recriação da obra original, sendo que cabe destacar que as versões presentes nos CDs são bem diferentes entre si, tanto em duração quanto em arranjo, pois no segundo disco a participação de Cross se inicia mais cedo, e é mais presente que naquela apresentada no primeiro show. Encerrando os dois registros, a dobradinha "The Talking Drum"/"Lark's Tongues In Aspic, part II", fora alguns improvisos aqui e ali, soa bastante fiel às versões setentistas interpretadas pelo King Crimson (pois as formações da banda nas décadas seguintes, sem a presença do violino, também tinham suas próprias interpretações para estas faixas, que, obviamente, acabavam soando bem diferentes), especialmente graças à presença de Cross, cujo violino também comparece nas composições originais registradas no disco Lark's Tongues In Aspic.

Capa da versão sul-americana de Midori

Completando o registro, o segundo show ainda traz uma versão "quase' fiel para "Breathless", canção registrada originalmente por Robert Fripp em seu álbum solo Exposure, de 1979 (o qual conta com Levin no baixo), e uma bela interpretação para parte da obra "Firebird Suite", do compositor russo Igor Stravinsky, famosa por ser o tema de abertura dos shows do Yes nos anos setenta do século passado. Os dez minutos desta música beiram o divino, sendo valorizados aqui pelo trabalho do violino, com a parte final, justamente aquela mais conhecida, soando mais agressiva do que a interpretação com orquestra a que o ouvinte do Yes está acostumado, em muito graças aos timbres utilizados pela touch guitar e pelos teclados de Cross.

Produzido pelo próprio Markus Reuter, Midori foi lançado originalmente apenas no mercado japonês, mas, como citei, uma edição sul-americana (que incluiu uma versão para o mercado nacional) foi disponibilizada em 2018, graças a um acordo entre as gravadoras MoonJune Records, Iapetus e Unsung Productions. Sorte a nossa, que temos à disposição por um preço bastante acessível uma obra que mostra que o rock progressivo não precisa ser sonolento e melodioso como muitos não-iniciados podem pensar, mas sim ser cerebral, criativo e genial quando submetido ao talento de músicos tão gabaritados quanto estes. Confira!



Contracapas das versões sul-americana e japonesa de Midori

Track List:

CD 1:

1. Opening Soundscape - Gaudy
2. Improv - Blacklight
3. Hide The Trees
4. Improv - Moth
5. Industry
6. Cusp
7. Shades Of Starless
8. The Talking Drum
9. Larks' Tongues In Aspic, Part 2

CD 2:

1. Opening Soundscape - Cyan
2. Improv - Midori
3. Breathless
4. Improv - Moon
5. Sartori In Tangier
6. Crack In The Sky
7. Shades Of Starless
8. Firebird Suite
9. The Talking Drum
10. Larks' Tongues In Aspic, Part 2

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Rainbow ‎– Boston 1981 [2016]


Por Micael Machado

Entre 2013 e 2016, a banda Rainbow teve vários bootlegs "oficializados" no mercado, passando por pelo menos três fases de sua existência (aquelas onde os vocalistas Graham Bonnet, Joe Lynn Turner e Doogie White empunharam o microfone do grupo liderado pelo sempre marrento, mas genial, guitarrista Ritchie Blackmore), sendo estes, coincidentemente ou não, interrompidos quando do anúncio do "retorno" da turma (em uma nova formação, mantendo apenas o chefão Blackmore de algum dos antigos line-ups) para alguns poucos shows na Europa em 2016 (os quais renderam, por si só,  outros três registros ao vivo, pelo menos até agora). 

Um destes "lançamentos" que chegaram ao mercado foi Boston 1981, cuja versão oficial chegou ao mercado poucos meses antes dos shows de "retorno" de 2016. Registrado no Orpheum Theatre de Boston em 07 de maio de 1981, o disco, lançado tanto em CD quanto em vinil duplo, captura o grupo no meio de sua primeira excursão com Turner à frente, sendo a formação completada então por Roger Glover no baixo, Don Airey nos teclados, Bob Rondinelli na bateria e o big boss Blackmore nas seis cordas, e, pelo menos para mim, pode ser considerado um dos mais fracos "ao vivo" da carreira da banda, muito disto, em parte, pelo repertório escolhido para o show.

Detalhe do encarte da versão em vinil de Boston 1981

Na época, o Rainbow já havia abandonado sua sonoridade "hard rock" de origem europeia em favor de outra mais "comercial", "americanizada" e "pasteurizada" (processo que começou, a bem da verdade, já na formação anterior, com a entrada de Graham Bonnet em 1979). A chegada de Turner levou a mudança ainda mais adiante, e os anos que viriam mostrariam uma descaracterização ainda maior do som "tradicional" do grupo, aproximando-o do chamado AOR e gerando discos horrorosos como Bent Out of Shape, de 1983, último lançamento antes da separação oficial. Neste show de 1981, músicas das formações anteriores do grupo ainda são presença constante (formando mais da metade do repertório do disco), e é aí que o bicho pega, pois fica impossível não comparar estas versões com aquelas registradas pelas encarnações anteriores do Rainbow (e que contavam com músicos como Ronnie James Dio, Cozy Powell, Jimmy Bain e Tony Carey, para citar apenas alguns). E aí, o bicho pega de verdade...

Bob Rondinelli, por exemplo, é um baterista bastante seguro e pesado, conseguindo manter bem o ritmo e a fluidez de seu instrumento. Mas, quando comparado a seu antecessor na banda (o já citado Powell, que na época já tinha uma carreira consagrada, especialmente por sua passagem no grupo de Jeff Beck, e que depois só iria aumentar seu currículo e fama ao lado de formações como Michael Schenker Group, Whitesnake, Black Sabbath e Emerson, Lake & Powell, dentre muitos outros), soa muito "quadrado" e "reto", algo facilmente perceptível nas músicas onde Cozy era o instrumentista original. Roger Glover, ex-colega (e desafeto) de Blackmore no Deep Purple, tem aqui um repertório bem menos exigente que o de seu antigo grupo, e faz o seu "feijão com arroz" bem temperadinho ao longo do show, sem muitos arroubos ou momentos de glória, o que chega a ser pouco para um músico tão tarimbado quanto ele.

Os teclados sempre foram um instrumento importante na sonoridade do Rainbow desde seus primeiros anos, e o excepcional Don Airey (que, anos depois, se uniria a Glover em uma nova encarnação do Purple), não deixa a bola cair em momento algum. Apesar de seus "momentos de brilho" serem menores que os de seus antecessores em épocas passadas da banda, a "cama" para os solos e riffs do chefão do grupo é sempre precisa, e os próprios solos do teclado (como os que aparecem em "Difficult To Cure", "I Surrender" ou já na abertura com "Spotlight Kid") são invariavelmente talentossísimos e agradáveis de ouvir, embora, no geral, o músico acabe ficando meio que "à sombra" do "dono da porra toda", o Sr. "Ricardinho Maispreto", que não precisa se esforçar tanto aqui como na sonoridade da primeira fase de sua banda, e, sem ninguém para competir consigo pelas luzes do estrelato, acaba nos entregando uma penca de solos com sua legítima assinatura, como em "Love's No Friend", na já citada instrumental "Difficult To Cure" (sua interpretação própria para a nona sinfonia de Beethoven), no momento "quebra tudo" que antecede o solo final de "Lost In Hollywood" ou em uma surpreendente versão de "Smoke On The Water", visto que as encarnações anteriores do Rainbow sempre passavam longe dos clássicos da antiga banda de seu patrão.

Contracapa e encarte da versão em vinil de Boston 1981

Já Joe Lynn Turner se sai muito bem nas músicas que registrou em estúdio, pois possui uma voz perfeitamente adequada ao estilo que a banda adotava na época.  Mas, mesmo nas canções da "fase Bonnet", já se nota alguma falta de identificação do cantor com as melodias. Naquelas originalmente cantadas por Dio, então, a coisa se aproxima bastante da chamada "vergonha alheia, e sua voz é a grande responsável por tornar maravilhas como "Man On The Silver Mountain", "Long Live Rock N Roll" ou (principalmente) a fantástica "Catch The Rainbow" em canções pouco mais que comuns, ao invés do status de "clássicos" que o baixinho mais talentoso que já empunhou o microfone da banda conseguia lhes conferir. Por isso digo que o repertório não favorece este disco, pois, em excursões futuras (onde Turner já tinha mais material próprio registrado ao lado de Blackmore e seus asseclas), as músicas de formações anteriores foram gradualmente sendo substituídas a outras mais adequadas à voz e ao estilo do cantor, tornando a coisa toda mais "palatável" a quem frequentava os shows do Rainbow, e não expondo tanto seu front man a dificuldades (vale lembrar que, mais à frente no tempo, Turner iria reencontrar Ritchie e Roger em uma das mais controversas formações do Deep Purple, responsável pelo contestadíssimo Slaves and Masters, de 1990).

Acusado por alguns de possuir grandes edições em comparação às versões "não oficiais" disponíveis no mercado anteriormente (algo que, infelizmente, não posso confirmar ou negar, pois não conheço tais versões), Boston 1981 possui um belíssimo trabalho gráfico, completado por um longo encarte (em forma de livro na versão em vinil, lançado nas versões preto, azul, verde e vermelho) onde as fotos predominam sobre o texto, em uma embalagem bastante atraente, mas cujo conteúdo, infelizmente, vai depender muito da relação do ouvinte com a voz de Joe Lynn Turner para ter sua qualidade avaliada. Eu, posso confessar, nunca fui muito fã deste cantor, e, embora tenha encontrado bons momentos ao longo da audição, me senti bastante desconfortável em outros tantos, especialmente aqueles onde o saudoso Ronnie James Dio já havia mostrado como fazer aquele trabalho com muito mais qualidade. De toda forma, ouça por si mesmo, e tenha certeza que, se a voz de Turner nunca lhe perturbou, não será o restante do material contido neste disco que irá fazê-lo. Afinal, ainda não foi nesta época que Ritchie Blackmore iria fazer algo que não orgulharia seus seguidores... mas isto é papo para outra matéria, deixemos assim...

Contracapa da versão em CD de Boston 1981

Track List:

01. Spotlight Kid
02. Love's No Friend
03. I Surrender
04. Man On The Silver Mountain
05. Catch The Rainbow
06. Can't Happen Here
07. Lost In Hollywood
08. Difficult To Cure
09. Long Live Rock N Roll
10. Smoke On The Water

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Livro: Kraftwerk Publikation - A Biografia [2012]


Por Micael Machado

"O Kraftwerk é mais influente, mais importante e mais incrível que os Beatles"!

Sempre achei curioso a parca presença do grupo alemão Kraftwerk nas postagens deste site. Tudo bem que eles estão a anos luz do tradicional estereótipo "guitarra-baixo-bateria e um vocalista virtuoso" de noventa e tantos por cento das bandas que passam por aqui, mas vários de seus melhores momentos se aproximam (e bastante) do rock progressivo tão apreciado por muitos dos redatores desta equipe. Outros pontos de sua discografia se aproximam claramente (sendo até mesmo influência importantíssima em certos casos) de boa parte do pop e do rock feito na década de 1980, período exaltado aos quatro ventos por outros colaboradores dentre os escribas deste site. Se uma banda que merece, não sem toda a razão, o comentário que abre este texto (e aquele presente na contracapa de sua biografia, Kraftwerk Publikation, escrita pelo jornalista David Buckley e publicada lá fora em 2012, mas que só saiu no Brasil em 2015, pela editora Seoman, com tradução - excelente, diga-se de passagem - de Martha Angel e Humberto Moura Neto) não figura mais frequentemente por aqui, certamente não é por falta de méritos. Afinal, uma boa quantidade do que foi produzido musicalmente a partir da segunda metade da década de 1970 deve muito de sua origem e inspiração à esta banda, seja na Disco Music, no pop oitentista (especialmente nos gêneros new romantic e pós punk), no hip hop, no rap e em todos os gêneros da chamada "música eletrônica" utilizada largamente em raves hoje em dia (sejam eles house, trip hop, trance, ambient ou seja lá qual nome for dado a este tipo de música elaborada quase que exclusivamente por máquinas, baseada mais em ritmos muita vezes repetitivos e envolventes do que em melodias e emoções), muitos dos quais sequer existiriam se dois rapazes de Düsseldorf não tivessem unido sonhos e aspirações no começo dos anos 1970 para se dedicar inteiramente às suas paixões: música e eletrônica em geral, especialmente aquela ligada aos instrumentos musicais.

Pois é a historia do grupo liderado por Ralf Hütter e Florian Schneider (ambos tecladistas, programadores e ocasionais vocalistas) que é contada no livro tratado neste texto, desde sua formação, com outros músicos acompanhando Florian e ainda sem  a presença de Ralf, que entraria pouco tempo depois, ainda a tempo de participar do primeiro disco, passando pelo período onde apenas a dupla compunha o line up do Kraftwerk (e iniciava o processo de dedicação pura aos instrumentos eletrônicos, em muitos casos fabricados por eles mesmos, e em detrimento daqueles mais "tradicionais" do mundo do rock and roll), a chegada do sucesso mundial com o acréscimo dos percussionistas Wolfgang Flür e Karl Bartos a partir da segunda metade da década de 1970, o período de quase afastamento do cenário musical na década seguinte (onde os problemas com a gravação do álbum Techno Pop, lançado apenas em 1986 sob o nome de Electric Café, e a dedicação de Ralf e Florian ao ciclismo por pouco não acabaram com o grupo, culminando na saída de Wolfgang e Karl), o período de "renascimento" a partir do lançamento de The Mix, em 1991, e a volta triunfal aos palcos e holofotes no século XXI, curiosamente expandida após a saída de Florian  em 2009.

Detalhe de uma das (poucas) páginas com fotos de Kraftwerk Publikation

Através de depoimentos colhidos das parcas entrevistas dadas pelos membros ao longo dos anos (a aversão do quarteto à exposição na imprensa e na mídia em geral é destacada várias vezes ao longo do livro), de conversas com jornalistas e músicos influenciados ou interessados pelas composições do Kraftwerk, de artigos retirados de jornais e revistas da época, e até mesmo de entrevistas pessoais com antigos membros e colaboradores da banda (com destaque evidente para Wolfgang Flür e Karl Bartos, que inclusive fez o prefácio da obra, e para Eberhard Kranemann, músico importante para o começo do grupo, e que deixaria a banda em 1971 para concluir seus estudos na escola de artes, o qual colabora na obra para esclarecer muito sobre a historia dos primeiros anos do conjunto), David Buckley conta a história dos rapazes em um texto fluido, informativo e de fácil leitura, atrapalhada aqui e ali pelas muitas expressões em alemão que nos fazem recorrer frequentemente (pelo menos àqueles não familiarizados com a língua) às notas de rodapé com as traduções para o português. Sabiamente, o autor escapa do clichê de dedicar páginas e mais páginas à infância e adolescência dos membros do grupo, passando rapidamente por esta fase e dando mais ênfase à parte musical e histórica do conjunto, abordando os discos, algumas músicas específicas, os shows e (as poucas) turnês feitas pelo quarteto, sua dedicação quase que exclusiva à criação e pesquisa musical feitas pelos músicos em seu estúdio particular em Düsseldorf, o mundialmente famoso Kling Klang, e um pouco à vida pessoal dos membros da banda, sempre avessos aos holofotes e a mídia em geral, preferindo fazer sua música em seus próprios termos e condições a se deixar levar pelas trivialidades proporcionadas pelo sucesso e pela fama que obtiveram (ainda hoje, pouco se sabe sobre a rotina dos membros do grupo fora dos palcos, e as entrevistas com eles - ou, mais especificamente, com Ralf, que assumiu a função de "porta voz não oficial" do Kraftwerk após a partida de Florian - são cada vez mais raras, assim como a produção de novidades na área musical pelo conjunto).

O desinteresse nas grandes turnês, a dedicação do grupo em ser quase impassível e robótico quando no palco, dando ênfase à música tocada pelos quatro, e não ao espetáculo visual em si, pelo menos durante o século XX (já no século XXI, o livro cita como uma das prováveis causas da demissão de um dos primeiros substitutos de Florian na formação ao vivo o fato de que ele "se empolgava demais durante o concerto", chegando "até mesmo a dançar em algumas músicas", algo totalmente contrário à postura concentrada e estática perpetrada pelo conjunto desde o início de sua fase "eletrônica" ainda nos anos 70), a dedicação cada vez maior aos experimentos com instrumentos eletrônicos no campo da música (ampliados com o aumento e melhoria da tecnologia com o passar dos anos), a influência do Kraftwerk sobre uma imensa legião de músicos que vieram a gravar depois de seu sucesso, alguns utilizando claramente suas ideias como fonte de inspiração, como David Bowie em sua fase "Berlim", ou seu colaborador nesta época, o músico e arranjador Brian Eno (chegando até mesmo à rainha do pop, Madonna, que chegou a assistir aos alemães nos anos 70, sentindo-se "pirada" com sua música, como declara na obra), outros simplesmente copiando ou expandindo os conceitos criados pelo grupo, como muitas formações do gênero chamado de new romantic da década de 1980 (inclua-se aí o OMD, o Cabaret Voltaire, o Duran Duran e o New Order, bandas cujos membros colaboraram com declarações para o livro, ou diretamente ao autor, ou através de entrevistas coletadas por ele) ou da música eletrônica dos anos 1990, que utilizaram o caminho aberto pelos alemães para explorar as possibilidades do uso de instrumentos eletrônicos e computadores para a produção de música para as massas.

Contracapa de Kraftwerk Publikation

Kraftwerk Publikation é informativo, agradável de ler e capaz de cativar até mesmo alguém não tão familiarizado assim com a música do quarteto de Düsseldorf, com este que vos escreve. Seu maior problema, a meu ver, não está na obra em si, mas na edição brasileira do livro, que conta, além do prefácio original citado antes, com um segundo prefácio e uma introdução feitas pelo autor, além de um texto de apresentação escrito pelo repórter musical e DJ Camilo Rocha, além de um prefácio à edição brasileira feito pelo músico Paulo Beto. Todos estes "textos introdutórios" se estendem por quase cinquenta das 350 páginas do livro, e, embora sirvam para contextualizar a importância e o papel que o Kraftwerk teve para o mundo da música (especialmente a eletrônica) nas últimas décadas do século XX, também são arrastados e repetitivos quando comparados ao estilo utilizado no restante do texto dedicado especificamente à história da banda. Mas, caso você, como eu, tenha dificuldade para atravessar este terreno "pantanoso" inicial, lhe sugiro que persista, pois a "autobahn" literária que se abrirá à sua frente após ele com certeza compensará o esforço. Confira!

sábado, 12 de outubro de 2019

Neil Young + Stray Gators - Tuscaloosa [2019]


Por Micael Machado

Em 1972, o canadense Neil Young lançou o álbum Harvest. Seguindo a linha mais acústica e "calma" de seu antecessor, After the Gold Rush, de 1970, Harvest foi gravado quase em sua totalidade na cidade norte-americana de Nashville, ao lado de experientes músicos de estúdio, cuja combinação foi batizada por Young de The Stray Gators, além de alguns convidados especiais aqui e ali. Com o sucesso do disco, Neil queria que Danny Whitten, do Crazy Horse, se juntasse ao grupo para a turnê de divulgação, mas, após poucos ensaios, ficou claro que o guitarrista não estava em condições de cair na estrada, devido a abusos de "substâncias" como álcool e drogas. Young então deu um dinheiro a Danny para que ele voltasse para casa e colocasse a vida em dia, dispensado-o da banda.

Whitten morreria de overdose na noite seguinte ao seu afastamento do grupo...

Como o show não pode parar, Young (vocais, guitarra, piano e harmônica), Ben Keith (pedal steel, slide guitar e vocais), Jack Nitzsche (piano e vocais), Tim Drummond (baixo) e Kenny Buttrey (bateria) entraram em uma excursão onde os shows consistiam basicamente de um set acústico inicial com algumas seleções de músicas presentes em HarvestAfter the Gold Rush com outros registros da carreira de Young, e um segundo set elétrico predominantemente de músicas inéditas, desconhecidas por praticamente todos os presentes na plateia (e, por vezes, até por alguns dos músicos). A tristeza pela perda de Danny, o abuso das tais "substâncias" por parte de todos, e a péssima recepção do público às músicas novas, fizeram com que a turnê virasse um verdadeiro pesadelo, com Buttrey abandonado o barco na metade, sendo substituído por Johnny Barbata, que já havia tocado, dentre outros, com Crosby, Stills, Nash & Young e o Jefferson Airplane.

Neil Young e os Stray Gators, durante a excursão de 1973

Mesmo com todos os problemas, a digressão acabou eternizada no álbum ao vivo Time Fades Away, de 1973, contando com oito daquelas músicas inéditas que a banda de Young interpretava na segunda parte do show. Apesar de bem recebido pela crítica, o registro já foi citado pelo canadense como "o pior disco" que ele já gravou (um enorme exagero, logicamente), e por um longo tempo foi o único de sua enorme discografia a não ser disponibilizado oficialmente em CD, com as pavorosas lembranças daqueles tempos atormentando Neil desde então.

Surpreendentemente, em janeiro deste ano Young anunciou que pretendia lançar um álbum ao vivo com registros inéditos daquela excursão. Assim, Tuscaloosa veio ao mundo em junho de 2019, contendo parte da apresentação de Neil e os Stray Gators originais na cidade que lhe dá nome, no estado norte-americano do Alabama, a 05 de fevereiro de 1973, anteriormente, portanto, a todas as faixas registradas em Time Fades Away (com exceção de "Love in Mind", gravada em 1971). Deste registro, aliás, apenas a faixa título e "Don't Be Denied" se repetem em Tuscaloosa, com o álbum também sendo dividido em uma parte acústica e outra elétrica, como nos shows da turnê que lhe deu origem.

Para os não-iniciados (ou para aqueles que não conhecem tão bem a discografia do bardo canadense), as grandes "pepitas" estão na parte acústica, com uma espetacular sequência de clássicos presentes em Harvest, além de uma linda versão da faixa título de After the Gold Rush e uma rara interpretação ao vivo de "Here We Are in the Years", do disco de estreia da carreira solo de Neil Young, que leva o seu nome. Para os já convertidos, as jóias estarão na parte elétrica, onde, além das duas faixas já citadas (em versões diferentes daquelas presentes no álbum de 1973, especialmente "Don't Be Denied", minha favorita neste novo registro, com quase três minutos a mais que a versão original), estão presentes músicas que só seriam lançadas oficialmente em 1975, no álbum Tonight's the Night, e raramente interpretadas ao vivo desde então (sendo que "Lookout Joe" sequer faz parte do track list de Roxy: Tonight's the Night Live, álbum lançado em 2018 e que traz a interpretação ao vivo de quase todas as faixas presentes em Tonight's the Night), além de uma acachapante versão para "Alabama", outro clássico presente em Harvest.

Contracapa de Tuscaloosa

Produzido pelo próprio Young ao lado de Elliot Mazer, e lançado tanto em CD quanto em vinil (além das hoje obrigatórias versões nas plataformas digitais, inclusive o youtube, onde o canadense colocou o álbum na íntegra em seu canal oficial), Tuscaloosa é uma excelente adição à série de "registros de arquivo" que Neil Young vem lançando nos últimos tempos, e é aquisição obrigatória aos fãs de sua obra, pois, com o benefício da passagem do tempo, várias de suas faixas vieram a se tornar em clássicos de sua trajetória musical, e, mesmo aquelas consideradas "menores" dentro de sua longuíssima discografia, atraem a atenção por raramente serem executadas ao vivo depois desta digressão. Infelizmente, cabe a mim registrar que a quase sempre obrigatória recomendação da aquisição do disco na versão em vinil acaba não cabendo aqui, pois, apesar do mesmo ser duplo, o lado "D" da obra não possui músicas, sendo substituído por uma gravação do nome de Neil Young e do grupo, além de uma gravura de uma mão fazendo o sinal da paz (algo incompreensível, pois o próprio Young chegou a afirmar que existem faixas registradas neste show que não foram incluídas neste disco, como "The Loner" ou "On The Way Home", que poderiam muito bem ter sido acrescidas como "bônus" nesta versão, completando assim o vinil). Além disto, como a transição entre a parte acústica para a parte elétrica ocorre no meio do lado "B", e não há uma pausa entre elas, a mesma acaba ficando um tanto "abrupta", soando estranho aos ouvidos uma faixa com violões ser seguida logo em sequência por outra eletrificada, sem uma "preparação" de parte da banda para que a mudança ocorra. Ou talvez tudo isso seja apenas a reclamação de um fã chato, que preferia ter em mãos ainda mais registros de uma noite que, pelo menos durante a audição de Tuscaloosa, parece ter sido extremamente prazerosa!

"Son, don't wait until the break of day/Because you know how time fades away"

Track List:

1. Here We Are in the Years
2. After the Gold Rush
3. Out On the Weekend
4. Harvest
5. Old Man
6. Heart of Gold
7. Time Fades Away
8. Lookout Joe
9. New Mama
10. Alabama
11. Don't Be Denied

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Inocentes - Cidade Solidão [2019]



Por Micael Machado

Com carreira iniciada no início da década de 1980, o grupo paulista Inocentes é, desde sempre, um dos principais nomes do movimento punk brasileiro. Formado atualmente por Clemente Nascimento (voz e guitarra), Ronaldo Passos (guitarra), Anselmo Monstro (baixo) e Luis "Nonô" Singnoretti (bateria), o quarteto lançou especialmente para o Record Store Day deste ano (ocorrido a 13 de abril) o EP Cidade Solidão, através da gravadora Hearts Bleed Blue (HBB), com seu formato físico inicialmente apenas em vinil de sete polegadas (com quatro músicas em pouco mais de treze minutos, sendo três inéditas e uma regravação), apresentando uma canção extra na versão disponível nas principais plataformas digitais.

Dentre as inéditas, a abertura com "Donos das Ruas" apresenta um punk rock rápido e "pegado", que parece ter saído diretamente de alguma demo esquecida dos primeiros anos da banda, característica, aliás, bastante relevante ao longo da audição do EP, excetuando-se, claro, a produção (a cargo de Wagner Bernardes), que é extremamente melhor e mais cuidadosa do que as daquela época. Clemente chegou a declarar a respeito da bolachinha que ela "olha para o passado como inspiração para seguir em frente", sendo "uma atualização do que seria feito no começo da carreira, com a mesma energia e criatividade, trazendo elementos novos sem se distanciar das raízes”.

Os Inocentes: Clemente Nascimento, Anselmo Monstro, Ronaldo Passos e Luis Singnoretti

"Fortalece", a segunda faixa, mantém a aura oitentista, apesar de ser um pouco mais lenta que a anterior. Já a composição mais cadenciada do registro (e, para mim, seu maior destaque) é a faixa título, que fecha a versão em vinil, e que já me ganhou no coro de "ô-ô-ô" do início, totalmente oitentista em seu espírito e execução (estivesse ela presente no EP de estreia do grupo, ou mesmo no seu primeiro álbum, não destoaria em nada do repertório, a não ser pelos solos de guitarra que apresenta, bem mais técnicos do que aqueles que o grupo executava na época).

O track list do vinil é completado com uma nova versão para "Escombros", presente originalmente no álbum Ruas, de 1996. Segundo Clemente, a escolha se deu por ser uma canção que a banda e o público gostam muito, "só que, na época em que 'Escombros' foi gravada, em 1996, a banda não tinha a rodagem que tem hoje. Agora conseguimos registrá-la da maneira que queríamos, e o resultado ficou ótimo, a música ganhou vida novamente". Sem muitas mudanças no arranjo, a nova versão ganhou uma produção que a faz soar melhor que a original, tendo os vocais mais destaque nesta nova faixa, e o refrão ganho a adição de backing vocals que tornaram esta regravação mais atraente que sua antecessora. Já a faixa extra disponível inicialmente apenas nas plataformas digitais (mas depois lançada também em uma versão em CD) é uma cover para "Terceira Guerra", do Fogo Cruzado (presente originalmente na lendária coletânea Sub, de 1983), o que ajuda a consolidar a aura oitentista do EP, sendo, logicamente, muito melhor gravada que a versão original, mas mantendo a urgência e o espírito punk rock desta.

Contracapa da versão em vinil de Cidade Solidão

Cidade Solidão pode ser apenas um lançamento "menor" na longa carreira dos Inocentes, mas tem credenciais para ser mais um item marcante na prateleira dos fãs da banda e dos apreciadores de um punk rock na linha old school do estilo. Se este for o seu caso, prepare o pogo, e aqueça os vocais para acompanhar os coros das músicas do quarteto. A diversão, com certeza, será garantida.

Track List:

1. Donos das Ruas

2. Fortalece

3. Escombros

4.Cidade Solidão

5.Terceira Guerra (Fogo Cruzado) *Bônus das versões digitais e em CD

quarta-feira, 24 de julho de 2019

The Completers - Silence [2017] / Unspoken Signals [2018]


Por Micael Machado

Tem vezes em que a simples experiência de ir a um show de uma banda que se goste pode trazer descobertas incríveis para sua vida. No final de maio deste 2019, o grupo espanhol Belgrado se apresentou em Porto Alegre, tendo por banda de abertura o quarteto local The Completers, do qual eu nunca tinha ouvido falar antes, apesar de morarmos na mesma cidade. Curioso por conhecer o som de meus conterrâneos, fui ouvi-los em uma das várias plataformas digitais onde suas músicas estão disponíveis, e fiquei agradavelmente surpreso com o que conheci!

Assim como o Belgrado, o The Completers investe no pós-punk como estilo de suas canções. Mas não é aquele pós-punk arrastado, tristonho e sombrio característico do estilo, mas sim aquela vertente mais rápida e energética que aparece por vezes na discografia de um Joy Division ou um Sisters Of Mercy (e na maior parte dos registros do próprio Belgrado, só para manter uma relação de comparação). Iniciando seus trabalhos em 2015, e atualmente formado por Felipe Vicente (vocais, guitarra e teclados), Jonas Dalacorte (guitarras), Lucas Richter (baixo) e Guilherme Chiarelli Gonçalves (bateria), o grupo já possui dois registros de estúdio, o compacto Silence, de 2017, e o EP Unspoken Signals, do ano seguinte.

Versão em vinil do compacto Silence b/w Be Gone

Oficialmente intitulado Silence b/w Be Gone, o compacto de estreia tem no lado A da versão em vinil (lançada pelo selo Yeah You!, também de Porto Alegre) a faixa "Silence", bem mais rápida do que se esperaria de um grupo de pós-punk, mas ainda assim com uma certa melancolia e uma atmosfera sombria tão características do estilo. Chama atenção o trabalho das guitarras, com solos muito expressivos e tons bem oitentistas (época do auge do estilo adotado pelo quarteto), além de uma marcante linha de baixo, característica que se repete na canção do lado B, "Be Gone", que se mostra menos virulenta e mais "tristonha" que sua colega de bolacha, mas igualmente atraente. Em ambas, chama a atenção a semelhança do timbre de voz de Felipe com o de Ian Curtis, do Joy Division, embora passe longe de uma cópia ou imitação do mesmo, algo que, convenhamos, seria bem difícil de ser alcançado (ressaltando ainda que esta semelhança não é, de forma alguma, um demérito ao cantor, que fique bem claro).

O EP Unspoken Signals e seu lindo trabalho gráfico

Já o EP Unspoken Signals (lançado em um belíssimo vinil vermelho pelo selo gaúcho Thrash Unreal Records, da cidade de Santa Cruz do Sul) possui a faixa título no lado A , e ao primeiro acorde se nota uma grande diferença em relação ao compacto anterior: a presença do sintetizador de Vicente, totalmente ausente no primeiro registro do grupo. Também em mid-tempo, a faixa ganha tons mais góticos com o novo instrumento, ampliado pelo uso de alguns efeitos de eco na voz de Felipe, que já não soa tão derivativa da de Ian, recursos que ajudam a tornar a canção com uma sonoridade mais "própria" do grupo do que de suas fontes de inspiração. O lado B abre com a instrumental "Words (Never Again)", o mais curto (com pouco mais de dois minutos e meio) e tristonho registro da carreira do grupo até aqui, sendo o exemplo perfeito do que se convencionou chamar de "rock gótico" nestas paragens, com o baixo à frente dos instrumentos (em uma timbragem que imediatamente remete à de Peter Hook em seus tempos de New Order), uma bela "cama" de teclados e a guitarra conduzindo uma melodia sombria e delicada, pontuada pelo belo trabalho de bateria. Fechando a bolacha, "Flowers" é a faixa que mais remete ao trabalho anterior, tanto pela velocidade elevada em relação à suas colegas de track list, quanto pela ausência do teclado, tão marcante nas demais faixas do EP. Impossível ouvir esta canção e não imaginá-la na discografia de um Echo and the Bunnymen ou em um dos primeiros registros do The Cure. Cabe ainda ressaltar o capricho e a preocupação do selo com a parte gráfica da versão em vinil, com as letras e a ficha técnica disponíveis em formatos que lembram uns cartões postais, algo diferente e muito criativo elaborado pelo grupo junto à artista Lucia Marques, e que realmente serve como um diferencial para o trabalho do quarteto.

The Completers ao vivo: Jonas Dalacorte (guitarras), Lucas Richter (baixo), Guilherme Chiarelli Gonçalves (bateria) e Felipe Vicente (vocais, guitarra e teclados), em foto registrada pela agência Clickante no citado show de abertura para a banda Belgrado no Bar Agulha em Porto Alegre, dia 24 de maio de 2019, e retirada de postagem feita na página oficial do evento.

Como fica claro pela leitura do texto, o The Completers não procura esconder suas influências nem reinventar a roda, mas dá continuidade com dignidade e qualidade à história de um estilo que já não anda tão em alta neste final da segunda década do século XXI. Pelo que apresentaram naquela apresentação citada lá no começo da matéria, o grupo possui muitas outras canções tão boas quanto estas esperando por um registro oficial em um álbum completo de estreia (ou mesmo uma nova leva de EPs). Que este não demore a chegar, e que o futuro traga boas venturas aos meus conterrâneos gaúchos!

Track List:

Silence b/w Be Gone

1. Silence
2. Be Gone

Unspoken Signals

1.Unspoken Signals
2.Words (Never Again)
3.Flowers