quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Livro: Viva La Vida Tosca - João Gordo


Por Micael Machado

Quem acompanha a carreira de João Gordo, seja pelas várias entrevistas que concede (para mídias tão distintas que vão desde os programas de Marília Gabriela e Ronnie Von a canais undergrounds do youtube), quanto por aquelas que realiza em seu próprio canal, o Panelaço, já sabe há tempos que o músico e ex-apresentador da MTV e da Rede Record vinha preparando um livro sobre sua vida em parceria com o conceituado jornalista André Barcinski. Pois, na reta final de 2016, a editora Darkside Books finalmente colocou no mercado Viva La Vida Tosca, o qual narra, ao longo de 324 páginas (acondicionadas em uma belíssima edição com capa dura), a história de vida de um dos personagens mais importantes da música "pesada" nacional, seja ela punk, hardcore, heavy metal ou algo ainda mais extremo.

Escrito todo em primeira pessoa, o texto é extremamente agradável de ler, especialmente para aqueles já acostumados a escutar João conversando com seus convidados ou entrevistadores nas mídias citadas acima. Aliás, é na forma deste texto que se percebe com mais facilidade a "mão" de Barcinski (que, segundo o site da editora, entrevistou Gordo por quase dezoito meses para poder compor a obra), pois o mesmo certamente teve um trabalho enorme para "amaciar" os termos por vezes "chulos" usados pelo biografado quando fala para a câmera, e que raramente aparecem ao longo da escrita, sendo substituídos por expressões mais "palatáveis" a alguns ouvidos mais "sensíveis" que por ventura venham a ler esta obra. Mas não é algo que chegue a descaracterizar o conteúdo, e, ao longo da leitura, a impressão que temos é de que estamos diante do próprio vocalista do Ratos de Porão, contando animada e alegremente "causos" variados de sua tumultuada e "aventurada" vida, muitos deles já relatados antes aqui e ali, mas que surgem mais detalhados e explicados nas páginas deste livro do que nos rápidos e incompletos relatos anteriores onde possam já haver aparecido.

Parte do conteúdo de Viva La Vida Tosca

Viva La Vida Tosca pode, a grosso modo, ser dividido em quatro partes: a infância e adolescência de Gordo (com destaque para os problemas entre este e sua família, especialmente com o pai altamente repressor, o qual foi causa de muitos traumas ao longo da vida do músico), o início de sua participação no Ratos de Porão e os primeiros anos de sua vida na banda (período que vai, mais ou menos, até o lançamento do álbum Anarkophobia, em 1991), sua participação como apresentador da MTV (e, posteriormente, como já dito, da Rede Record), e o período "marido-e-pai-de-família" que passou a viver depois de quase morrer de overdose e problemas pulmonares, e se casar com a argentina Viviane Torrico, que ele declara ter salvo sua vida, além de ter lhe dado seus dois filhos, Victoria e Pietro. Como disse, o texto ao longo do livro é bastante interessante, e realmente "prende" a atenção do leitor, mas senti falta de uma maior "interação" entre as diferentes "partes" da história, pois, a partir do momento em que o biografado inicia sua carreira na televisão, o Ratos de Porão praticamente desaparece do livro, assim como a própria TV (e seus trabalhos posteriores, como o citado Panelaço) praticamente não aparecem na parte "família" do livro, algo que não chega a comprometer a obra, mas que poderia ter aparecido no texto para enriquecer mais ainda a historia de Gordo.

Contracapa de Viva La Vida Tosca (foto retirada do site mobground.net)

De resto, o maior defeito de Viva La Vida Tosca, apesar das mais de trezentas páginas (grande parte delas ocupadas por fotos muitas vezes inéditas, cedidas pelo próprio João Gordo), é ser extremamente curto para a quantidade de histórias e "causos" que o personagem retratado em suas páginas já viveu ou experimentou. Muitas passagens interessantes que João já relatou aqui e ali não aparecem no livro, e, mesmo que a leitura seja extremamente prazerosa ao final, ainda fica um gosto de "quero mais", o qual talvez seja sanado em uma hipotética "parte dois" (quem sabe, hã)?

De todo modo, é um livro extremamente recomendável, especialmente aos fãs do Ratos ou apenas de seu "multimidiático" vocalista!

sábado, 28 de janeiro de 2017

Oops… I Did It Again – Wander Wildner – Wanclub - Música Para Dançar Volume 59 [2016]


Por Micael Machado

O cantor e compositor Wander Wildner começou sua carreira no grupo de punk rock gaúcho Os Replicantes, que lançou seu álbum de estreia, O Futuro é Vórtex, em 1986. Em 1995, Wander saiu em carreira solo, que iniciou efetivamente com o lançamento do disco Baladas Sangrentas, no ano seguinte. Sendo assim, 2016 marca não só os trinta anos da estreia fonográfica de um dos mais importantes artistas do rock no Rio Grande do Sul, mas também os vinte anos do início da discografia solo do inventor do estilo punk brega. Talvez motivado por isso, além de sentir uma necessidade de se aproximar mais de seus fãs (que sempre lhe cobraram um álbum reunindo seus maiores sucessos), o músico decidiu regravar alguns temas de seu vasto repertório (desde a época dos "Repli" até seu momento atual), "atualizando" os mesmos para os arranjos que Wander e sua banda, os Comancheros, apresentam já há algum tempo pelos palcos do país inteiro. Para tal, Wildner recorreu a uma campanha de financiamento coletivo (também conhecido como crowdfunding) através do site Kickante. O valor pretendido para o projeto (R$ 39.000 reais) foi rapidamente conseguido, e esta meta foi inclusive superada, possibilitando a tranquilidade necessária para Wander e seus parceiros entrarem no estúdio Dreher,  em Porto Alegre, e saírem de lá com um registro que tem tudo para cair nas graças dos muitos admiradores de seu trabalho.

A escolha do repertório do disco foi feita por aqueles que participaram da campanha, através de uma votação feita por e-mail enviado diretamente a cada um dos que colaboraram com o financiamento (os quais ainda receberam uma cópia autografada do CD e tiveram o seu nome registrado no encarte do mesmo como forma de agradecimento). As possibilidades de escolha eram muitas, mas o repertório final acabou soando como um verdadeiro "best of" da carreira de Wander, que, sempre inquieto e irrequieto com relação à suas músicas, não se limitou a apenas regravar preguiçosamente seus grandes sucessos, mas registrou novos arranjos para praticamente todas as faixas selecionadas para o álbum. Em alguns casos, a mudança foi sutil, como as alterações na letra de "Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo", a bela e sombria linha de teclado adicionada a "Astronauta", a linha de sax muito bem encaixada em "Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro" (a cargo do convidado King Jim, ex-integrante dos Garotos da Rua, e que inclusive recebeu um vídeo clipe de divulgação), a leve injeção de peso dada a "Surfista Calhorda" ou o belo arranjo de piano de "Quase Um Alcoólatra", que conseguiu deixar a canção ainda mais brega que a original (o que, no caso das músicas de Wander, não é demérito algum).


O autógrafo de Wander e o nome deste que vos escreve no encarte, itens exclusivos de quem participou da campanha de crowdfunding.

Em outros casos, as mudanças causarão espanto a quem está acostumado apenas às versões originais das músicas escolhidas, especialmente àqueles que não costumam frequentar as apresentações do cantor (seja solo ou com sua banda). Os novos arranjos podem soar muito bem, como em "Sandina", um pouco mais lenta e com a primeira parte cantada por seu autor, o guitarrista Jimi Joe (que registrou as seis cordas na maioria das faixas do álbum); "Rodando El Mundo", transformada em um verdadeiro ska jamaicano, com direito ao trombone de Júlio Rizzo como um "molho" especial e uma parte mais calma e "viajante" no meio; "Mantra das Possibilidades", que ficou mais rápida e com mais participação das guitarras; "Hippie-Punk-Rajneesh", totalmente diferente da original, agora com uma batida de surf music e uma linha melódica que me remete a "Let's Lynch The Landlord", do Dead Kennedys; e, principalmente, "Amigo Punk", surpreendentemente transformada em um funkzão que não deve nada aos clássicos dos anos 1970, com um baixo cheio de groove, um belo órgão Hammond e uma guitarra altamente suingada a cargo do jovem prodígio Erick Endres, um dos maiores talentos surgidos nos últimos anos no rock gaúcho.

Há casos, porém, onde as mudanças são tamanhas que certamente causarão estranhamento mesmo ao mais dedicado fã. A tentativa de transformar "Boas Notícias" e "Bebendo Vinho" em skas acaba fazendo com que as mesmas fiquem soando como aquelas músicas tradicionais alemãs que se ouve em festas como a da Oktoberfest, especialmente a segunda, que ainda conta com Wander no kazoo. Já a batida e a linha de guitarra retiradas da surf music e incorporadas a "Um Lugar do Caralho" não casaram bem com este clássico do rock gaúcho, que ainda tem uma parte lenta bastante desconexa ali pelo meio. O reggae inserido em "Eu Queria Morar em Beverly Hills" também não se encaixou muito bem com a faixa, e causa estranheza em meio ao agito do resto da canção. Não quer dizer que estas mudanças "estraguem" as faixas (longe disso), mas será bastante difícil se acostumar a estas "novas" versões para aqueles que escutam os originais já há bastante tempo, como é o meu caso.

Ainda foram disponibilizadas apenas para download outras seis faixas, com destaque para a inédita "Colonos em Chamas", que também ganhou um vídeo clipe. O fato de estas faixas estarem disponíveis apenas em formato digital, na minha opinião, acabou sendo o único grande erro do projeto, pois, como o álbum acabou recebendo distribuição através do selo Deck Discos, elas poderiam ter sido disponibilizadas pelo menos nas versões entregues àqueles que colaboraram com a campanha de crowdfunding, que ganharam a exclusividade apenas de terem seu nome citado no encarte, pois o autógrafo de Wander qualquer um que for a um show do cantor tem a possibilidade de conseguir (e o encarte da versão "regular" do disco vem com um espaço reservado para isto, o mesmo que já está preenchido na edição entregue aos participantes). Como colecionador, gostaria muito de ter a versão "física" destas outras canções (algumas bastante interessantes, como a versão acústica de "Mares de Cerveja", o arranjo recheado de teclados de "Jesus Voltará!" ou a nova versão da clássica "Festa Punk"), e , certamente, seria um belo diferencial para aqueles que ajudaram na realização e gravação do álbum.

Contracapa de Wanclub - Música Para Dançar Volume 59

Mas esta minha bronca com as "faixas bônus" acaba sendo mais implicância de minha parte do que um problema de verdade, o que não impede Wanclub - Música Para Dançar Volume 59 de ser uma excelente coletânea do melhor do trabalho de Wander Wildner, e uma excelente porta de entrada para quem nunca se interessou por sua longa carreira musical ou não teve a chance de conhecer bem sua trajetória. O cantor e seus Comancheros estão rodando o país em shows que têm este disco como base, resultando em um belo espetáculo para quem tiver a oportunidade de conferir uma de suas apresentações. Se for o seu caso, não desperdice a chance. Garanto que vale a pena!

Track List:

01. Astronauta
02. Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo
03. Bebendo Vinho
04. Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro
05. Um Lugar do Caralho
06. Surfista Calhorda
07. Mantra das Possibilidades
08. Rodando El Mundo
09. Sandina
10. Amigo Punk
11. Hippie-Punk-Rajneesh
12. Quase Um Alcoólatra
13. Eu Queria Morar em Beverly Hills
14. Boas Notícias
15. Mares de Cerveja (Bonus Track Digital)
16. Colonos em Chamas (Bonus Track Digital)
17. Empregada (Bonus Track Digital)
18. Um Bom Motivo (Bonus Track Digital)
19. Jesus Voltará! (Bonus Track Digital)
20. Festa Punk (Bonus Track Digital)

Broken Jazz Society - Gas Station [2016]


Por Micael Machado

Formado na cidade mineira de Uberaba em 2013, o trio Broken Jazz Society (composto por Mateus Graffunder nos vocais e guitarra, João Fernandes no baixo e Felipe Araújo na bateria) lançou no ano seguinte seu primeiro registro, Tales From Purple Land, e, agora em 2016,  solta o EP Gas Station, que serve como aperitivo para o segundo disco de estúdio. Se o novo álbum seguir a linha da faixa título deste item, os fãs podem esperar por muita coisa boa vindo por aí!

O próprio grupo rotula seu estilo como "stoner rock", mas a sonoridade dos rapazes vai bem mais além do que a mera cópia dos riffs imortalizados pelo Black Sabbath na década de 1970, coisa que muitas bandas do estilo se limitam a fazer. No caso do BJS, a palavra "jazz" no nome da banda pode levar a expectativas errôneas sobre o tipo de música que os mineiros fazem, mas serve para lembrar que, assim como o tradicional estilo que lhe empresta o epíteto, a música do Broken Jazz Society também não precisa ser limitada pelas convenções do nicho sonoro onde se abrigam. "Gas Station", a música, apesar de começar com um belo riff arrastado e de afinação baixa, como manda a cartilha do Stoner (e que remete ao Corrosion of Conformity da fase Deliverance / Wiseblood), logo ganha ares mais variados, possuindo um refrão bem mais animado que 90% das músicas de seus colegas de estilo. Os vocais de Graffunder podem causar certa estranheza no começo, sendo um pouco mais agudos que o comum em bandas deste gênero, mas se deixam ouvir sem dificuldades depois que nos "acostumamos" a ele. O bom nível da gravação (feita na própria cidade natal dos músicos, com a produção de Ricardo Barbosa e mixagem e masterização a cargo de Gustavo Vazquez, que já trabalhou com bandas como Uganga e Hellbenders) também ajuda no impacto que a faixa causa, dando uma boa impressão do trabalho do trio logo no início da audição além da mesma ter ganho um vídeo clipe de divulgação muito bem feito, e que agrega bastante à sonoridade da canção.

O trio Broken Jazz Society em cena do clipe da música "Gas Station"

"Mean Machine", a faixa que encerra o EP, pode ser qualificada como uma semi-balada, fugindo um pouco do stoner tradicional e agregando algo de southern rock à sua melodia, mostrando mais uma vez que, na hora de compor suas canções, o trio não se limita às convenções do gênero que decidiram abraçar. O refrão mais energético surge como um contraponto ao ritmo calmo das estrofes, em uma composição que tem tudo para agradar quem é fã das saudosas baladas das bandas do hard rock oitentista, desde que o peso da guitarra não lhes assuste ou espante.

No meio das duas faixas citadas, fechando o track list deste EP (cujo único problema está justamente em sua curta duração, de pouco mais de onze minutos), temos "Riot Spring", uma regravação da faixa de mesmo nome presente no debutMais arrastada e soturna que as demais, mas com um refrão rápido e empolgante, a canção dá destaque ao peso do baixo de João Fernandes, além de contar com um solo final por parte de Mateus que causará empolgação aos fãs do instrumento. A música também ganhou um vídeo de divulgação (bastante elaborado, diga-se de passagem), e é mais uma faixa de destaque no repertório de Gas Station.

Broken Jazz Society: João Fernandes (baixo), Felipe Araújo (bateria) e Mateus Graffunder (vocais e guitarra)

Particularmente, sou um grande apreciador do gênero Stoner (ou retro rock, como alguns preferem chamar), e descobrir um talento do estilo surgido aqui no Brasil é bastante agradável, pois não conheço tantos nomes relevantes desta vertente no nosso país. Se o próximo full lenght tiver a mesma qualidade deste EP, o Broken Jazz Society tem tudo para cravar seu nome dentre os principais do estilo no Brasil, e deverá colher excelentes frutos ao longo de sua trajetória! Vamos esperar e conferir!

Track List:

01. Gas Station

02. Riot Spring

03. Mean Machine

domingo, 4 de setembro de 2016

Discografias Comentadas: EMF


Por Micael Machado

No começo da década de 1990, várias bandas da cidade inglesa de Manchester e arredores conseguiram destaques nas rádios mundiais com uma mistura de rock and roll, pop, samplers e outros elementos eletrônicos e ritmos dançantes e "grudentos", em uma "cena" que viria a ser chamada de "Madchester". Dentre nomes como Happy Mondays, The Stone Roses, Inspiral Carpets e James, foi talvez o Epsom Mad Funkers quem se deu melhor (mesmo tendo entrado no movimento meio que por "convenção" da imprensa, visto que a banda se originou na pequena Cinderford, cidade distante de Manchester). O quinteto era formado por James Atkin nos vocais, Ian Dench nas guitarras, Derry Brownson nos teclados e samplers, Zac Foley no baixo e Mark de Cloedt na bateria, todos músicos experientes na região (apesar de bastante jovens), e que foram "agrupados" graças à influência do músico DJ Milf, amigo dos caras, e que ajudou a montar a banda em 1989 (participando depois como convidado do primeiro disco). No ano seguinte, seu single de estreia pelo selo Parlophone, "Unbelievable", era lançado na Inglaterra, alcançando o número 3 da parada de seu país de origem, mas chegando ao primeiro lugar da parada americana. A repercussão abriu espaço para a gravação do primeiro registro completo, e para uma carreira que, entre altos e baixos, mantém os rapazes na ativa até os dias de hoje.

Conheça agora um pouco dos discos e da história de uma das bandas inglesas mais destacadas no final do século XX, o EMF!


Schubert Dip [1991]


"Unbelievable" trazia um pop pegajoso e que se adequava perfeitamente ao gosto das rádios FM daquele começo da década de 1990, mas o álbum de estreia do quarteto não seguia exatamente por esta linha. Os outros principais singles do álbum, "Children" e "I Believe", eram bem mais "nervosos", com a guitarra em destaque e um ritmo frenético, fruto da junção da bateria com os elementos eletrônicos. "Lies", outro destaque, é mais sombria, e causou controvérsia ao trazer, nas primeiras edições do disco, um sample da voz de  Mark David Chapman recitando as primeiras linhas da letra de "Watching the Wheels", música composta por John Lennon (a quem Chapman assassinaria em 1980). Este sample seria retirado das edições posteriores do álbum a pedido da viúva de Lennon, Yoko Ono. O track list de Schubert Dip (título que mistura o nome do famoso compositor austríaco a um popular doce inglês) traz faixas mais pop e dançantes como "Longtime", "When You're Mine", "Girl of an Age" e "Admit It" (guiadas pelos teclados) misturadas a faixas mais "frenéticas" (como "Long Summer Days") e outras de tom sombrio (como "Travelling Not Running", provavelmente a minha preferida na discografia do grupo, e que parece saída de um disco de qualquer uma das bandas góticas de destaque nos anos 1980), além de uma faixa escondida chamada "EMF", uma das melhores composições do quinteto, e cujo refrão brade "E-Ecstasy, M-Motherfuckers, F-From Us To You", o que fez muita gente acreditar que este era o significado da sigla que nomeia o quinteto, algo que os rapazes sempre desmentiram. A boa repercussão do disco de estreia (novamente número 3 na Inglaterra, e número 12 nas paradas americanas) levou ao lançamento do EP Unexplained em 1992, que trazia as inéditas "Far from Me" e "The Same", além de "Getting Through" (que reapareceria no disco seguinte) e uma bela cover para "Search and Destroy", clássico dos Stooges, além da oportunidade de lançarem o segundo disco pela mesma gravadora.

O EMF em 1991: Zac FoleyIan Dench, James Atkin, Mark de Cloedt e Derry Brownson

Stigma [1992] 


O final de 1991 viu o grunge ascender ao estrelato e mudar radicalmente o mundo das paradas de sucesso musical. O EMF com certeza foi atingido pelo furação originado em Seattle, e seu segundo disco vendeu muito menos (ficou na posição número 19 na Inglaterra, sem nem chegar às paradas americanas) e teve um destaque mínimo perto do registro de estreia. O grupo parece ter sido afetado pela áurea mais "séria" e "depressiva" do "novo" estilo musical vigente, e seu novo registro traria um ar muito mais sério e contemplativo do que Schubert Dip. De forma quase "poética", se poderia dizer que o grupo estava abandonando as alegrias da adolescência e passando a enfrentar as agruras da forma adulta, e um bom exemplo disto é o single "It's You", com uma guitarra menos distorcida que antes, teclados de tons mais sombrios e um certo "ar" mais "sóbrio" que as músicas do disco de estreia. "They're Here" é outra composição de tons sombrios, assim como "Never Know", e, apesar da "aura" pop destas duas faixas, parece que anos de distância as afastam das primeiras composições do quinteto, o que também ocorre com "She Bleeds", com muitos elementos eletrônicos, ritmo lento e um certo "peso" dado pelos samplers que pode assustar quem se acostumou com as faixas mais pop do começo da carreira. "Arizona" é uma música bem "rock de FM" (se é que isso existe), ou seja, aquele rock que é "OK", mas não chega a ser tão pesado quanto gostaríamos, apesar de trazer o melhor trabalho de baixo e guitarras do disco. "Inside", "Getting Through" (minha favorita neste disco) e "Blue Highs" ainda trazem um pouco do ritmo frenético e agitado do registro anterior (no caso da última, bem menos acelerado), mas não são tão "alegres" e "divertidas" quanto aquelas canções, o que não ocorre com "Dog", que poderia estar no meio de Schubert Dip sem destoar. Completa o track list a música "The Light that Burns Twice as Bright...", bastante pop, apesar de lenta. A queda na popularidade com certeza deve ter afetado aos membros do grupo, que praticamente se retiraram da cena musical por três anos, até reaparecerem de surpresa com seu terceiro registro de estúdio.

Cha Cha Cha [1995]

Sabe aqueles discos que a crítica determinou serem um fracasso e ninguém se preocupou de ouvir para tentar desmentir isto? Cha Cha Cha se encaixa perfeitamente nesta descrição. Não que a alcunha que lhe foi dada seja de todo vã, pois este é, certamente o pior registro do grupo, um equívoco lançado em uma época onde a cena musical estava a milhas de distância do ano em que o EMF surgiu, e onde a mistura "pop + eletrônico" já havia sido superada pelas bandas indies que ascenderam a partir do grunge, além da cena de rap e hip hop que começava a se erguer na esteira da morte de Kurt Cobain no ano anterior. Percebendo sabiamente que sua onda havia passado, o quinteto tentou reinventar a sonoridade de suas músicas, mas atingiu o alvo em poucos momentos, como no single "Perfect Day" (que trazia flautas tocadas por James em lugar dos elementos eletrônicos de outrora), "The Day I Was Born" (a que mais lembra as canções antigas), "Skin", "Bring Me Down" (duas faixas mais sombrias, com guitarras mais pesadas que o usual do grupo) e "Bleeding You Dry", pop com elementos agradáveis que talvez tivesse conquistado um bom destaque nas rádios cinco anos antes. Mas as faixas menos interessantes acabam sendo a maioria, como "Patterns", levada apenas pela voz de James e o violão de Ian; "West of the Cox", a qual possui um ritmo "malemolente" que a banda usou com resultados muito melhores em faixas mais antigas; "Secrets", que até tem umas guitarras mais pesadas em evidência (mas não chega a decolar); "La Plage", com uma melodia quebrada e confusa (bem diferente dos registros anteriores); "Glass Smash Jack", a qual possui uma bateria eletrônica chata e repetitiva (apesar de um refrão interessante); "Slouch", quase um punk rock atonal, que foi propositalmente gravada como se o grupo estivesse em um ensaio de garagem (e que não chega a lugar nenhum); "Ballad O' the Bishop", com seu ritmo eletrônico lento, repetitivo e chato; e as baladas "When Will You Come" e "Shining", recheadas de elementos eletrônicos (e orquestrações, no caso da segunda), mas que não conseguem se destacar no meio de tanto marasmo. A versão japonesa ainda trazia a faixa "Angel", melhor que muitas composições do track list oficial, mas sem apresentar nada de excepcional ou mais marcante.

O quinteto em 1995

A banda abandonou a turnê promocional de Cha Cha Cha no verão (europeu) de 1995, e retirou-se novamente da cena musical, não sem antes juntar-se aos comediantes Vic Reeves e Bob Mortimer para a gravação do single "I'm a Believer", cover dos Monkees que chegou ao número 2 da parada britânica, e de lançar seu último single oficial, intitulado Afro King, que trazia a faixa título, "Bring Me Down" (de Cha Cha Cha) e as inéditas "Too Much" (para mim,o destaque deste lançamento) e "Easy". Em 2001, foi lançada a coletânea Epsom Mad Funkers: The Best of EMF (em versões simples e dupla, esta com o segundo disco apresentando vários remixes para as faixas da banda), a qual trazia duas faixas inéditas, "Incredible" (que parece saída de Schubert Dip) e "Let's Go" (que mantém uma atmosfera dançante, apesar da sonoridade acústica). O quinteto se reuniu para uma excursão de promoção a este lançamento, mas, em janeiro de 2002, o baixista Zac Foley viria a falecer de uma overdose de medicamentos, o que levou o quinteto a um novo hiato, entrando mais uma vez em uma obscuridade musical.

O EMF ao vivo em 2012

Com Richard March (ex-integrante do grupo Pop Will Eat Itself) assumindo o baixo, os quatro membros remanescentes voltaram a excursionar em 2007, continuando até 2009, quando foi anunciado que o grupo não tinha mais nenhuma previsão para shows em um futuro próximo. Nesta época, o guitarrista Ian Dench, que havia se tornado um compositor de sucesso no mundo pop (tendo escrito hits para artistas como Beyonce e Shakira, só para citar duas) já não estava mais excursionando com o quinteto, tendo sido substituído pelo músico Tim Stephens. Em 2012, alguns poucos shows foram efetivados com a banda tocando Schubert Dip na íntegra (tendo Stevey Marsh no baixo), e, em fevereiro de 2016, o site oficial anunciou que o EMF será o headliner do festival Indie Daze, a ocorrer em Londres na data de 01 de outubro. Resta saber se esta nova reunião irá animar os rapazes (já nem tão jovens assim) a voltar a comporem juntos, ou se o Epsom Mad Funkers ficará apenas na história, marcado como um grupo de potencial enorme, mas com um sucesso limitado pelas circunstâncias do mercado musical. Só o tempo dirá!

Livro: Fresh Fruit for Rotting Vegetables [Os Primeiros Anos]


Por Micael Machado

Lançado em 1980, o álbum Fresh Fruit for Rotting Vegetables, disco de estreia dos Dead Kennedys, é um principais registros do hardcore norte-americano em todos os tempos. Várias de suas músicas tornaram-se clássicos do punk rock mundial, o mítico vinil branco da edição brasileira hipnotizava aqueles que colocavam os olhos sobre ele, e o quase inacessível encarte cheio de colagens e referências (elaborado pelo artista plástico Winston Smith, com sugestões de Jello Biafra) era "sonho de consumo" de muita gente que encontrava o vinil pelos sebos do Brasil, porém, quase sempre desfalcado deste artigo que era uma verdadeira obra de arte. A importância do disco é tamanha, que levou o escritor Alex Ogg a dedicar todo um livro a ele, tratando do período de composição e gravação do registro, assim como dos fatos mais importantes ocorridos com a banda antes de chegar a ele.

A ideia, segundo Ogg explica no prefácio, surgiu quando ele começou a entrevistar os membros da banda (a saber, Jello Biafra nos vocais, East Bay Ray na guitarra, Klaus Flouride no baixo e Ted na bateria) e outras pessoas que conviveram com o grupo na época, entrevistas estas que seriam usadas no encarte da edição de vinte e cinco anos do primeiro álbum do Dead Kennedys. Mas, como não deve ser segredo para quem acompanha o grupo, uma verdadeira batalha judicial acontece até hoje entre os ex-membros do DK, com Biafra de um lado, e Ray e Klaus de outro (Ted saiu do grupo ainda antes do segundo disco). Com isso, as partes envolvidas não conseguiram chegar a um consenso quanto ao uso de suas declarações, sendo que, várias vezes, as versões apresentadas por um lado eram bastante conflitantes em relação ao que o outro lado dizia, e o material acabou abandonado, com a edição especial do álbum sendo lançada de forma bem diferente do imaginado.

Klaus Flouride, Jello Biafra, East Bay Ray e Ted, em uma foto icônica do Dead Kennedys. As circunstâncias da noite onde ela foi tirada são relatadas no livro.

Com muito jogo de cintura, fazendo várias concessões e usando do que chamaríamos por aqui de "jeitinho brasileiro", Ogg conseguiu convencer os componentes do Dead Kennedys a deixá-lo publicar suas entrevistas na forma de um livro, que acabou sendo Fresh Fruit for Rotting Vegetables: Early Years, lançado em 2014, e que ganhou edição brasileira no mesmo ano, a cargo das Edições Ideal (com título traduzido de forma literal, felizmente). Unindo as declarações dos quatro membros originais, além de várias pessoas que, como disse antes, acompanharam este início de carreira do grupo, Ogg acabou obtendo um resultado bastante atraente, e indispensável a quem gostaria de saber um pouco mais sobre a história de uma das mais importantes aglomerações do punk rock norte-americano.

O autor inicia pela formação do Dead Kennedys, com o encontro de Biafra e Bay Ray, que depois se uniriam a Klaus, Ted e o guitarrista 6025 (que sairia antes das gravações de Fresh Fruitna primeira encarnação do conjunto. A partir daí, traça a trajetória ascendente do grupo, apresentando-se pelos bares de sua cidade natal, San Francisco, até ganhar residência no então importante Mabuhay Gardens, onde o quinteto pode desenvolver sua sonoridade e, principalmente, a presença de palco de Biafra, que agitava a plateia (e com ela), além de desafiá-la o tempo todo, e de se entregar "de corpo e alma" em suas apresentações (leia o livro e entenderá o que quero dizer). As dificuldades destes primeiros tempos, os primeiros registros (com os singles "California Über Alles" e "Holidays In Cambodia"), a consagração pelos palcos da Inglaterra, a oferta de lançar seu primeiro disco (pela gravadora britânica Cherry Red) e o período de gravação e divulgação do mesmo são narrados de uma forma que torna a leitura bastante fácil e atraente, com a história sendo contada pelas próprias pessoas que as viveram, e comentários adicionais aqui e ali feitos pelo autor para contextualizar alguns pontos. 

É fácil perceber que, mesmo passado tanto tempo, ainda há uma grande mágoa presente entre Biafra, Ray e Klaus. Não são poucas as oportunidades onde um contradiz o outro ao longo do livro, com Ted por vezes discordando dos dois lados, e apresentando uma terceira visão dos acontecimentos. Ogg fica sempre "em cima do muro" quando das discussões, apresentando sempre que necessário as versões de todas as vertentes envolvidas, sem escolher apenas uma para ser a "verdadeira", deixando isto a cargo do leitor. As divergências são frequentes e constantes, e vão desde a criação e composição das músicas até o fato de quem selecionou tal foto para o encarte ou quem foi o responsável pela escolha dos singles a serem lançados. Apesar destas várias discordâncias, a leitura não se torna maçante em momento nenhum, e tais fatos só servem para provar como um mesmo acontecimento pode ser encarado de formas totalmente diferentes por pessoas diferentes envolvidas com ele (e atingidas por ele).

A versão em capa dura da edição brasileira

O livro ainda conta com várias ilustrações a cargo do designer original do grupo, Winston Smith (o qual ganha um capítulo a parte tratando sobre a importância de seu trabalho), além de declarações de muitos músicos e personalidades influenciadas pela obra dos Dead Kennedys. Na versão lançada pela Edições Ideal (traduzida com competência por Alexandre Saldanha, e que ganhou uma bela versão especial em capa dura), consta ainda um emocionante texto escrito por Marcelo Viegas, responsável pela edição nacional da obra, e que destaca o impacto do disco para a juventude brasileira da época em que foi lançado (e, por que não, da que veio depois daquele tempo), em tom saudosista e de homenagem a um álbum de importância atemporal.

A obra acaba quando da saída de Ted, no final de 1980, e com o afastamento do Dead Kennedys da gravadora Cherry Red, ocorrido no ano seguinte, sem se alongar mais na biografia de uma das principais formações do hardore norte-americano. Mas, apesar de ficarmos com vontade de saber do restante da história após a leitura do livroFresh Fruit for Rotting Vegetables: Os Primeiros Anos é leitura obrigatória aos fãs não só dos Dead Kennedys, mas do punk rock em geral, e altamente recomendada a quem quer saber mais sobre o estilo, que tem no disco, como citei no início, um de seus principais representantes. Pode conferir!

terça-feira, 24 de maio de 2016

Livro: Tocando A Distância - Ian Curtis e Joy Division


Por Micael Machado

Quase trinta e seis anos depois de sua morte, a figura de Ian Curtis, letrista e vocalista do Joy Division, continua a encantar uma multidão de fãs da banda, muitos dos quais ainda se questionam sobre os motivos que levaram o músico a a se suicidar a 18 de maio de 1980, na casa em que morava na cidade de Macclesfield, na Inglaterra. Algumas das respostas poderiam estar no livro Tocando A Distância - Ian Curtis e Joy Division, escrito pela viúva de Ian, Deborah Curtis, e lançado lá fora em 1995, mas que recebeu uma edição nacional apenas em 2014, a cargo da editora Edições Ideal (inclusive em uma bela e luxuosa versão com capa dura). Infelizmente, não é bem isso o que se encontra após a leitura da obra.

Deborah e Ian Curtis, em foto presente no livro

Deborah se casou com Ian quando tinha dezoito anos (e ele dezenove), e teve com ele uma filha, Natalie, nascida em 1979. Mas também teve uma vida muito difícil, passando por grandes dificuldades financeiras (apesar do sucesso em escala cada vez maior da banda do marido), sofrendo com o ciúme doentio de Ian (que o fez se afastar dos amigos e, por um tempo, de sua própria família), com sua personalidade distante e não muito atenciosa (ou carinhosa), e, sobretudo, com a epilepsia do cantor, doença que mudou radicalmente a vida do casal quando foi diagnosticada, tornando o convívio íntimo em algo beirando o insuportável. Além disso, Ian ainda cometeu dois pecados extremamente graves, pelo menos na visão de Deborah: arrumou tempo para ter uma amante (a belga Annik Honoré, que inclusive chegou a acompanhar a banda em uma turnê pela Europa, e manteve seu caso com o músico até a data da morte deste) e, o maior de todos, tirou a própria vida em um momento onde a convivência do casal já estava extremamente abalada, com Deborah inclusive já tendo iniciado o processo do divórcio, apesar do amor que sentia pelo distante e ausente marido.

Sendo assim, não chega a ser uma surpresa constatar que o livro foi escrito do ponto de vista de uma pessoa que, por mais que quisesse bem a Ian Curtis, guarda ainda uma grande mágoa do ex-marido e das circunstâncias em que ele morreu. Desta forma, o retrato que Deborah pinta de Ian é de alguém distraído, distante, que parecia não se interessar pelos amigos e família, que "criava" diferentes personagens para diferentes setores de sua vida (a esposa, os pais, os sogros, a banda, os conhecidos e os fãs), e interpretava estes papéis conforme a situação precisava. A vida pessoal dos dois, da forma como Deborah relata, nos leva a questionar o porquê de ela ter mantido sua união com Ian até próximo de sua morte, pois fica claro que nenhum dos dois conseguiu ser feliz com o casamento, um pouco por causa da doença do músico, mas em muito por causa da banda.

Páginas com fotos presentes em Tocando A Distância - Ian Curtis e Joy Division

Esse ressentimento da autora com o Joy Division é algo que também se torna facilmente perceptível após a leitura. Sem a permissão de Ian para acompanhar o quarteto em seus shows (ou simplesmente assisti-los), especialmente depois que o cantor passou a levar a amante aos mesmos, e sem ter um convívio de amizade com os demais membros do grupo (os quais aparecem apenas superficialmente ao longo das páginas do livro), é muito pouco o que Deborah tem a dizer a respeito da banda, ou de sua convivência interna e criativa.  A autora chega a citar que Ian dizia aos membros do conjunto (e àqueles que conviviam com este) que a convivência entre os dois era insuportável, e que seu casamento era apenas "de fachada", mesmo quando ele ainda dormia todas as noites na casa do casal e quando ela ficou grávida da única filha dos dois, e que este seria um dos motivos pelo qual os amigos e companheiros do músico a teriam excluído do convívio deles. Desta forma, algumas críticas de apresentações são reproduzidas aqui e ali, e curtos comentários da própria escritora sobre alguns poucos shows a que esteve presente também são registrados nas páginas da obra (e servem para indicar que ela também não gostava da música do grupo), mas a participação do quarteto ao longo das páginas do livro é ínfima, decepcionando quem gostaria de saber mais sobre o período em que os ingleses estiveram na ativa em sua encarnação original (lembrando que, após a morte de Ian, os membros restantes "reencarnaram" na forma de uma nova banda, o New Order, seguindo em frente com suas carreiras e suas vidas).

Sobram então pouco mais de 170 páginas de muita mágoa, rancor e amargura destiladas por Deborah em relação a seu finado marido, além de algumas poucas páginas com fotos (a maioria da vida pessoal do cantor, e uma ou outra relacionadas á sua vida profissional), a relação de todos os shows feitos pelo Joy Division, uma extensa e bastante completa discografia do grupo, alguns escritos inacabados de Ian e, talvez o maior tesouro deste livro, todas as letras compostas pelo cantor para a banda (algumas delas inéditas), as quais foram traduzidas com competência na edição nacional pelo jornalista José Julio do Espirito Santo, também responsável pela tradução do texto, o que faz com que o volume fique com um total de 322 páginas, sendo curioso notarmos que pouco mais da metade apenas é dedicada realmente à trajetória do cantor homenageado no título (cuja versão original em inglês, Touching From a Distance, é retirada de um verso de uma das letras que ele compôs, assim como os títulos dos capítulos da obra).

Contracapa de Tocando A Distância - Ian Curtis e Joy Division

Ian Curtis pode até ter tido uma existência tão sofrida, melancólica, miserável e dolorosa quanto Deborah parece passar com este livro, e tornado a vida de sua esposa tão insuportável quanto parece ter sido após lermos a obra, mas isso não é motivo para perdermos tempo com a destilação do rancor da ex-esposa pela perda de seu marido (primeiro para a indústria musical, depois para a amante, e, finalmente, para a vida). Infelizmente, Tocando A Distância - Ian Curtis e Joy Division não é uma obra que justifique sua existência (apesar de ter servido como base para o excelente filme Control, o qual tratou da vida do cantor com resultados muito melhores do que aqueles obtidos por este livro), ainda mais se você está procurando saber mais sobre a banda ou o músico do qual o caro leitor é fã. Se for este o caso, honestamente, passe longe desta obra. Ela não vai lhe acrescentar nada de bom.

Antibanda - Antibanda [2014]


Por Micael Machado

Às vezes, sair de casa para ir a um show pode lhe causar surpresas positivas. No final do ano passado, fui conferir o "Festival Som de Peso", evento ocorrido em duas noites na cidade de Porto Alegre (onde resido), a primeira dedicada ao punk rock, e a segunda ao heavy metal. No início da primeira data, após uma bela apresentação dos gaúchos da Punkzilla, eis que sobem ao palco uma menina com jeito de pin up dos anos 50, e um sujeito de bermuda e boné, com uma tremenda cara de maluco! A menina foi para a bateria, o "maluco" pegou uma guitarra, e os dois mandaram ver em um excelente set de street punk que, embora menos virtuoso, me lembrou muito o Toy Dolls, uma de minhas bandas favoritas em todos os tempos. E, ainda por cima, cantado em espanhol, visto o casal que se apresentava ser uruguaio! Com o queixo no chão, depois da apresentação tive a chance de bater um rápido papo com o simpaticíssimo sujeito que há pouco agitava a todos lá no palco, e receber das mãos dele uma cópia do primeiro disco de sua banda, ou melhor, de sua Antibanda!

Camily (bateria e vocais) e Kbza (vocais e guitarra, na época conhecido como "Kbza de Ultimo") faziam parte do trio cisplatino Green Gay, que chegou a lançar um disco em 2011, chamado Roba Corazones. Com a saída do baixista Kbza Punk em 2013, o duo restante se rebatizou como Antibanda, comprou uma van, e saiu a viajar e se apresentar pela América Latina, tocando em qualquer lugar onde lhe oferecerem "uma bateria e um amplificador", segundo Kbza declarou em uma entrevista de 2014, além, claro, de comida e um lugar para dormir! Com a ajuda de amigos conhecidos na estrada, gravaram alguns clipes para suas composições, e seu primeiro registro, autointitulado, o qual foi disponibilizado para audição no youtube e para download no mediafire. Quem se arriscar a conferir não irá se arrepender, posso afirmar com toda a certeza.

Camily e Kbza, a Antibanda!

A opção pelo street punk (também conhecido como "OI!") se mostra bastante acertada, pois todas as músicas passam aquela alegria e animação do estilo, além de contar com os inevitáveis e característicos backing vocals do gênero. Composições como "Punks y Skins", "Piñata, Fútbol y Cerveza", "Borracho y Orgulloso" ou "Espen de Nait" tem tudo para agradar aos fãs do punk rock "safra 77" de bandas inglesas como Sham 69, Cockney Rejects, Cock Sparrer ou os citados Toy Dolls, além destes títulos (e outros como "La Enfermedad", "La Adicción" ou "Yo Te Canto Con El Corazón") já serem suficientes para se perceber que a temática das letras não tem nada da política de extrema direita, algo que acontece com frequência em muitas bandas ligadas ao OI!, sendo, segundo o que disse Kbza na mesma entrevista citada acima, "retratos" de moradores e situações que ocorrem no bairro onde a dupla mora, meras "histórias do cotidiano" da vida dos dois músicos. Até há, sim, um pouco de protesto contra o governo e as instituições aqui e ali (afinal, trata-se de um disco punk), mas a temática básica da dupla, em geral, passa bem longe da política. 

Como quase todo bom grupo punk que se preze, é claro que há lugar no som da Antibanda para um pouco de ska (presente aqui na faixa "El Holgazán", que ainda tem uma breve citação aos Sex Pistols no final) e algo de romantismo, que aparece no disco na forma de sua maior faixa, "Todo Es Tan Gris", a única a ultrapassar os três minutos (e cuja letra trata da dor de um sujeito preso há quinze anos, distante de sua amada). Cabe citar também que todas as faixas do álbum contam com o som de um baixo (que chega a se destacar em alguns momentos), mas o encarte não especifica quem o gravou, embora eu acredite que tenha sido Kbza Punk, pois li em alguns lugares que este disco deveria ser o segundo do Green Gay, e o antigo membro do trio apareça nos primeiros clipes liberados no youtube, para a já citada "Punks y Skins", "El Patovica" e as faixas "Huracán Pedrito" e "El Turbina" (cujo vídeo foi gravado em Porto Alegre!), as quais, junto com "Hacha y Tiza", "Las Ladillas", "El Punky" e "Yo Te Canto Con El Corazón" (que mencionei acima) aparecem como bônus no disco. Já ao se apresentar ao vivo, como coloquei acima, Camily e Kbza se viram sem o grave das quatro cordas, e, apesar de ser um admirador da sonoridade do instrumento, sou forçado a reconhecer que o baixo acaba não fazendo falta na sonoridade e na empolgação causada pela música da dupla quando em ação on stage!

Camily e Kbza em cena do clipe de "Gargantas", gravado no estádio municipal de Santo André

A Antibanda já disponibilizou no youtube (e também para download) uma prévia de seu novo álbum, o qual estava previsto para ser lançado em março de 2016 (e já conta com um clipe promocional, para a faixa "Gilipolla Records"). Mas, como seus lançamentos são independentes (e feitos "na raça" por eles mesmos, tanto que a cópia do disco que Kbza me passou era um CD-R com a gravação, embalado em um saquinho plástico e com apenas a capa e um encarte de folha simples, sem conter uma contracapa, acredito que por questões de custo), e a única forma de encontrá-los é nos shows do duo (junto a vários artigos de merchandise elaborados e fabricados pela própria Camily), terei de esperar um novo concerto destes uruguaios em Porto Alegre para conferir este novo lançamento. Que não demore muito!

Track List:

01- Punks y Skins 
02- Piñata, Fútbol y Cerveza 
03- El Holgazán 
04- El Patovica 
05- Borracho y Orgulloso 
06- Gargantas 
07- La Enfermedad 
08- Todo Es Tan Gris 
09- Laeneolao 
10- Washington 
11- Espen de Nait 
12- La Adicción 
14- Hacha y Tiza 
15- Hueracan Pedrito 
16- El Turbina 
17- Las Ladillas 
18- Yo Te Canto Con El Corazón 
19- El Punky