domingo, 30 de julho de 2017

Nando Reis – Jardim-Pomar [2016]


Por Micael Machado

Jack Endino (produtor e ex-guitarrista do Skin Yard), Barrett Martin (produtor e ex-baterista de grupos como Screaming Trees, R.E.M. e Mad Season, além de vários trabalhos ao lado do próprio Nando Reis), Peter Buck (ex-guitarrista do R.E.M.), Mike McCready (guitarrista do Pearl Jam), as cantoras Pitty, Luiza Possi e Tulipa Ruiz, e vários membros e ex-integrantes do grupo paulista Titãs. Toda esta turma participa, ao lado de mais alguns convidados especiais, do novo disco de Nando Reis, Jardim-Pomar, seu oitavo trabalho de inéditas, e décimo segundo lançamento do cantor, violonista e compositor em sua carreira solo, na qual é acompanhado, já há algum tempo, pela banda de apoio Os Infernais, formada atualmente por Alex Veley (teclados), Walter Villaça (guitarra), Felipe Cambraia (baixo) e Diogo Gameiro (bateria), responsáveis pelas bases da maioria das faixas deste álbum. Registrado em parte na cidade norte-americana de Seattle (com produção de Endino, que já trabalhou, dentre outros, com o Nirvana, Bruce Dickinson, os Titãs e o próprio Nando), e, em outra, na capital do estado de São Paulo (com Martin no comando dos botões) entre julho de 2015 e fevereiro de 2016, o disco foi lançado em novembro daquele ano, de forma totalmente independente (através do selo Relicário, criado por Reis para disponibilizar suas obras ao público), surgindo nos formatos CD, LP (em dois discos separados, ambos em um lindo vinil transparente) e fita K7, todos apresentando uma belíssima arte gráfica, feita, pelo menos ao que parece, inteiramente em papel reciclado, além de apresentar inscrições em braile nas faixas onde estão o nome do registro e das músicas do mesmo.

A balada "Só Posso Dizer" foi a escolhida para ser a primeira música de trabalho (aparecendo no disco em duas versões, registradas uma em cada cidade onde o disco foi gravado). Ao escutá-la, fica fácil perceber o motivo desta opção, pois, apesar de não ser lá grande coisa (a versão de Seattle, por exemplo, é bem melhor que a brasileira, que foi a selecionada para tocar nas rádios e receber um vídeo clipe), é bem popularesca, do jeitão que as rádios e a TV gostam de colocar em suas programações, e tem tudo para agradar ao público mediano consumidor destas mídias, com seu jeito "calmo" e "fofo" e seu refrão grudento. No mesmo estilo, mas bem melhor do que ela, o disco possui "Como Somos", que tem clima semelhante, mas teria sido uma escolha qualitativamente melhor do que a primeira faixa divulgada. Já o segundo single, "Inimitável" (que conta com a presença de Peter Buck, e ganhou um lyric vídeo muito legal)é mais pop, alegre e "para cima", com uma refrão marcante e um contagiante "na-na-na" quase irresistível de não se cantar junto. Outro bom momento aparece em "Pra Onde Foi?", maior faixa do álbum (com mais de seis minutos e meio), que é lenta sem ser balada, apresentando boas partes de guitarra, e contando inclusive com um longo (e excelente) solo de Mike McCready, além da forte presença dos teclados, sendo um um dos destaques do track list de Jardim-Pomar.

Nando Reis e as versões em vinil para Jardim e Pomar (foto retirada do site Scream & Yell)

As canções mais calmas acabam sendo maioria no repertório do álbum, com destaque para "Lobo Preso em Renda" - que começa com um barulho de máquina de escrever, sendo uma balada levada ao violão, com bela participação dos teclados, e pequenas partes mais agitadas aqui e ali, onde, em momentos alternados, as guitarras, o teclado ou o saxofone (a cargo do convidado Skerik) assumem a frente do arranjo - e para "Concórdia", que já havia sido gravada antes por Elza Soares em seu disco Vivo Feliz, de 2003, e é uma música lenta e tocante, conduzida pelo violão e contando com uma bela participação dos teclados e a inclusão de partes orquestradas a cargo do Passenger String Quartet, que também marca presença em "Água Viva", outra faixa mais lenta, mas sem muito destaque no meio das demais. "4 de Março", celebrando o amor pela esposa e a família do compositor, é outro bom momento deste lado mais calmo do disco, que ainda tem "Pra Musa", também conduzida pelos violões e os teclados, mas que muda lá pelo meioganhando um ritmo mais rápido e um marcante solo de guitarra na parte final.

"Azul de Presunto" é suingada, com um interessante "balanço" setentista (graças aos timbres de teclado escolhidos e curtas passagens de sopros), e chama a atenção pelo impressionante time de convidados que apresenta (Pitty, Luiza Possi, Tulipa Ruiz, os ex-colegas de Titãs Arnaldo Antunes, Branco Mello, Sérgio Britto e Paulo Miklos, além dos filhos o cantor, Zoe, Theo e Sebastião Reis, estes dois também integrantes da banda Dois Reis), os quais fazem apenas corais e backing vocals, sem um destaque individual maior no arranjo, sendo até difícil reconhecer todas as vozes no meio do instrumental, fazendo com que pareça que a reunião desta turma acabou sendo uma excelente ideia desperdiçada em uma faixa sem destaque maior. Ao final da audição de Jardim-Pomarfica a constatação que os melhores momentos do disco estão logo no começo, com "Infinito Oito" e "Deus Meu", duas faixas onde a guitarra de Jack Endino se destaca, e nas quais o acento roqueiro do ex-titã marca presença com tudo. É realmente uma pena que Nando não invista mais neste lado de sua personalidade como compositor, preferindo dar mais destaque à sua faceta mais calma e romântica, onde, apesar dos bons resultados, as músicas não são tão boas quanto aquelas forjados pelo aspecto mais "selvagem" do músico.

Capa da versão em fita K7 de Jardim-Pomar

Apesar de manter certa familiaridade com Sei, o registro anterior, por privilegiar o lado mais calmo e romântico do compositor Nando Reis, mas ter seus maiores destaques naquelas canções mais rápidas e "roqueiras", Jardim-Pomar é um disco de audição mais prazerosa do que seu antecessor, e do qual é mais fácil se gostar já nas primeiras audições, mas que, apesar da qualidade, dificilmente agregará novos clássicos à carreira do Ruivão (como o cantor também é conhecido por seus fãs), a não ser, é claro, a extremamente popularesca "Só Posso Dizer", que, como não poderia deixar de ser, já caiu no gosto e na boca do público mais mediano, o qual se interessa apenas superficialmente pela carreira de Nando, e, ao se prender apenas às faixas mais populares, perde a oportunidade de conhecer outras grandes músicas deste que é um dos maiores hitmakers e compositores do país atualmente. Uma pena!

"Se vamos todos morrer / Então vamos tratar de viver"

Contracapa da versão em CD de Jardim-Pomar

Track List:

01. Infinito 8
02. Deus Meu
03. Inimitável
04. 4 de Março
05. Só Posso Dizer (Versão São Paulo)
06. Concórdia
07. Azul de Presunto
08. Lobo Preso em Renda
09. Pra Onde Foi?
10. Como Somos
11. Agua-Viva
12. Pra Musa
13. Só Posso Dizer (Versão Seattle)

domingo, 9 de julho de 2017

O Terno - Melhor do que Parece [2016]


Por Micael Machado

O Brasil tem o seu novo Los Hermanos. E ele soa como Os Mutantes!

Melhor do que Parece, terceiro registro do grupo paulistano O Terno (primeiro com o baterista Gabriel Basile, que se juntou ao vocalista/guitarrista/tecladista Tim Bernardes e ao baixista Guilherme "Peixe" d’Almeida durante a turnê de divulgação do disco anterior) é o lançamento mais maduro do trio, e, possivelmente, o melhor. Se na estreia, com a álbum 66, de 2012, o conjunto se aproximava da jovem guarda em alguns momentos, e no autointitulado segundo registro (de 2014) a melancolia e a introspecção tomavam conta dos arranjos, desta vez é a Tropicália quem acaba guiando o rumo da maioria das canções, graças a arrojadas participações de instrumentos típicos de orquestras, como saxofones, violinos, flautas, trompetes e até harpas em boa parte das canções, aproximando as mesmas daquelas gravadas sob a produção do genial maestro Rogério Duprat, responsável direto pelo disco Tropicalia ou Panis et Circencis, de 1968, e por boa parte dos melhores momentos do início da discografia dos Mutantes.

É com este outro trio paulistano que podemos facilmente encontrar paralelos entre as músicas de Melhor do que Parece, vide, por exemplo, a abertura de "Não Espero Mais", facilmente associável ao som de Rita Lee e dos irmãos Dias Baptista, ou o timbre de guitarra imediatamente associado ao do instrumento de Sérgio Dias, e que aparece com mais destaque em "Vamos Assumir" e no solo ao final de "Culpa" (primeiro single e vídeo do álbum, e, no mais, apenas uma simples canção pop que tenta soar engraçadinha, apesar da inteligente letra). A curta e melancólica "A Historia Mais Velha do Mundo" soa intencionalmente como algo gravado na década de 1920 (ou 1930), e, de certo modo, me remete à versão "mutante" para "Chão de Estrelas", onde os Mutas davam uma nova cara para algo antigo, como O Terno parece fazer aqui e em "Nó", onde a orquestração nos remete a um tempo que já ficou no passado, mas os teclados parecem saídos diretamente do disco Lóki? (1974), registro solo de Arnaldo Baptista, mas que conta com a participação da "cozinha" dos Mutantes, além da presença do já citado maestro Duprat.

O Terno: Guilherme "Peixe" d’Almeida, Tim Bernardes e Gabriel Basile

Mas é claro que O Terno não se baseou apenas em um grupo para compor seu novo registro (e, óbvio, este não é apenas uma "cópia" dos Mutantes). "O Orgulho e o Perdão", por exemplo, é um sambão escancarado e escrachado, enquanto a calma "Minas Gerais", talvez pelo título, ou pelos timbres utilizados, me remete ao Clube da Esquina, formado por alguns dos melhores músicos mineiros da década de 1960. O grupo também não abandonou suas "origens" musicais, pois "Deixa Fugir", por exemplo, não faria feio no meio do track list do registro de estreia, enquanto "Depois Que a Dor Passar" e "Volta" trazem de volta muito da melancolia do álbum anterior.

Para mim, os melhores momentos se encontram em "Lua Cheia" (cuja primeira parte soa bem próximo ao que chamaríamos de "musica brega", mas a segunda metade é pura psicodelia, levada pela guitarra alucinada de Tim, que mais uma vez remete ao timbre característico de Sérgio Dias) e na excepcional faixa título, cujo hipnótico e repetitivo final certamente ficará ecoando na sua mente por alguns dias. A reclamar, apenas o fato do trio não ter incluído no disco a inédita "Diretos", que vem sendo executada exclusivamente nos muitos shows de divulgação do registro que o trio tem feito pelo país (com uma breve passagem pelo velho continente, onde se apresentaram em Portugal). Fica a esperança que a mesma apareça como bônus da prometida edição em vinil (amarelo!) a ser lançada pela revista Noize através do seu Noize Record Club, ou que seja lançada como single mais para frente (como já ocorreu em 2013 com a impactante "Tic-Tac").

A prometida versão em vinil amarelo a ser lançada pela revista Noize

Por falar nos shows do Terno, é neles que se vê o quanto a popularidade do trio vem aumentando a cada lançamento. Tive a oportunidade de comparecer à apresentação de Porto Alegre, que aconteceu poucas semanas depois do lançamento do disco em 2016, no sempre recomendável Bar Opinião. Apesar do pouco tempo para se  acostumar às novas canções, a grande quantidade de público presente ao local (o maior que o grupo já reuniu na capital gaúcha, em sua terceira passagem pela cidade) cantou praticamente todas as músicas novas do início ao fim, além de ir ao delírio nas poucas faixas antigas apresentadas naquela noite, em fenômeno que só vi ter paralelo nos cariocas do Los Hermanos,  cujos lançamentos possuíam a mesma capacidade de cativar seus súditos pouquíssimo tempo depois de serem divulgados (como para ratificar esta "aproximação", o trio andou fazendo alguns shows acompanhado por um trio de metais, parecido com aquele que acompanhou os cariocas durante toda a sua carreira). Certamente, se continuar neste ritmo e com esta qualidade, O Terno tem tudo para alcançar (ou talvez até mesmo superar) o patamar de popularidade que o grupo dos "barbudos" conseguiu, embora os detratores das duas bandas continuem sem entender como este tipo de música consegue cativar tanta gente diferente. A explicação simples, mas que eles não parecem compreender, está ligada à qualidade da mesma, a qual exige alguma disposição dos ouvintes e que os mesmos tenham ouvidos mais "abertos" a sonoridades diferentes, mas, nem por isto, bastante apreciáveis. Lhes dê uma chance, e é quase certo que você também será cativado por elas!

Tudo está melhor do que parece / Eu olho e vejo tudo errado / Faz tempo que está tudo certo

Contracapa de Melhor do que Parece

Track List:

01. Culpa
02. Nó
03. Não Espero Mais
04. Depois Que a Dor Passar
05. Lua Cheia
06. O Orgulho e o Perdão
07. Volta
08. Minas Gerais
09. Deixa Fugir
10. Vamos Assumir
11. A Historia Mais Velha do Mundo
12. Melhor do que Parece

domingo, 18 de junho de 2017

Belgrado - Obraz [2016]


Por Micael Machado

Em uma das muitas matérias que o site UOL Host fez o "desfavor" de excluir, certa vez eu escrevi sobre a banda espanhola de pós-punk Belgrado (formada pelos venezuelanos Renzo Narvaez no baixo, Fergu Marquez na guitarra, e Jonathan Sirit na bateria, além da polonesa Patrycja Proniewska - Pat para os íntimos - nos vocais), que à época divulgava seu segundo LP, Siglo XXI, lançado em 2013. Três anos depois, o quarteto lança seu terceiro registro, Obraz, novamente pela gravadora independente espanhola La Vida Es Un Mus, e, mais uma vez, com edição apenas em vinil. O resultado, como no disco anterior, tem tudo para agradar os admiradores do estilo adotado pela banda.

Ao contrário de outros ícones do pós-punk, a música do Belgrado não é lenta, arrastada, tristonha e sorumbática. Os músicos, sediados em Barcelona, optam por uma versão mais rápida e agitada do estilo, mantendo o baixo à frente das composições, a bateria seca e marcada e a guitarra com mais licks e efeitos do que riffs e solos memoráveis. Neste disco, belas amostras desta "fórmula" podem ser encontradas nas faixas "Wiatr", "Dalej" (que abre o LP com muitos efeitos na guitarra e uso de eco na bateria), "Kulminacja Oddzielenia", "Raz Dwa" (um dos destaques), "Nierealne Realne Społeczeństwo" e "Fragmenty Świata", a faixa de encerramento. Mas nem tudo é "mais do mesmo" quando tratamos de Obraz. "Na Ten Czas", por exemplo, é um pouco mais lenta que o usual do grupo, com melodias de guitarra um tanto "incomuns" ao estilo de suas companheiras de track list. "Pasaż" e "Krajobraz" são instrumentais, a primeira guiada pela guitarra de Fergu, e a segunda usando e abusando de elementos eletrônicos e efeitos de som, em uma faixa que foge bastante daquilo que se espera das composições do grupo. Já "1000 Spektakli" traz um acento de reggae no baixo de Renzo, além de alguns efeitos de guitarra típicos do dub style jamaicano, em uma composição que foge completamente ao padrão das demais faixas da carreira do Belgrado, mas que serve para mostrar que o grupo não se deixa acomodar em uma mesma "receita" para compor suas obras.


Belgrado ao vivo em 2016: Fergu, Jonathan, Pat e Renzo

Outra mudança em relação a Siglo XXI está nos vocais de Pat. Ela continua soando como uma espécie de versão loira de Siouxsie Sioux (cantora do Siouxsie & the Banshees), mas desta vez abriu mão dos gritinhos e interjeições que colocava frequentemente em meio aos arranjos, e que, sejamos honestos, por vezes soavam bastante irritantes. Neste novo registro (que apresenta, apenas no encarte, o subtitulo "w dziesięciu konstrukcjach", que significa "em dez construções"), Pat se limita a representar as letras usando apenas alguns efeitos na voz, sem exagerar na interpretação. É também nas letras que se percebe outra grande mudança em relação aos primeiros registros: como o leitor mais atento já deve ter percebido, desta vez o inglês, o espanhol e o catalão foram totalmente excluídos da parte lírica, a qual se limitou ao polonês, prejudicando bastante a compreensão dos temas abordados pelo Belgrado, ainda mais que, ao contrário do que ocorre no álbum anterior, desta vez não há um encarte extra com as traduções para o inglês, e a parte gráfica, em formato de livreto, apesar de bastante interessante, usa praticamente apenas a língua natal de Patrycja em sua composição. 

Mas não é esse mero "detalhe" da incompreensão das letras que nos impede de ouvir e apreciar esta bela "obra" feita pelo quarteto (que pode ser escutada na íntegra pelo youtube através deste link), a qual pode não ser tão direta e atraente quanto seu antecessor, mas mantém o nome do grupo como um dos principais representantes do pós-punk em plena atividade neste século XXI. Se você curte este estilo musical, dê uma chance para a banda, e garanto que não irá se arrepender.


Contracapa do álbum Obraz

Track List:

01. Dalej 
02. 1000 Spektakli 
03. Wiatr 
04. Kulminacja Oddzielenia 
05. Krajobraz 
06. Raz Dwa 
07. Nierealne Realne Społeczeństwo 
08. Na Ten Czas 
09. Pasaż 

10. Fragmenty Świata 

domingo, 21 de maio de 2017

Body Count – Bloodlust [2017]


Por Micael Machado

Com seu autointitulado disco de estreia. de 1992, o quinteto californiano Body Count chamou a atenção por vários fatores, como: misturar rap com metal (algo bastante incomum na época), ter o conhecido rapper Ice T nos vocais, ser formado apenas por músicos negros, e, principalmente, pela violenta "Cop Killer", cuja letra criticava os excessos da polícia de Los Angeles (especialmente os de contexto racista), e defendia que era melhor matar um policial do que ser morto por ele (a faixa acabou censurada, sendo retirada das versões posteriores do registro, e substituída por um discurso lido por Jello Biafra, ex-Dead Kennedys. Como represália, a banda distribuiu gratuitamente para o público singles com a música nos seus shows da época). A polêmica deu combustível para que o grupo mantivesse o interesse em seu segundo registro, Born Dead, de 1994, mas o mesmo já havia arrefecido bastante quando saiu Violent Demise: The Last Days, o terceiro disco, de 1997. A morte de três integrantes da banda (o baterista Beatmaster V, que teve leucemia, o guitarrista D-Roc, que foi vítima de um linfoma, e o baixista Mooseman, morto em um até hoje mal explicado tiroteio em uma rua de Los Angeles) forçou uma parada para o Body Count, que, com novos integrantes, tentou um retorno em 2006, com o álbum Murder 4 Hire, o qual, apesar da qualidade, acabou não dando em nada.

Ice T se envolveu com o cinema e a televisão (conseguindo um papel de destaque na série Law And Order: Special Victims Unit), mas, em 2013, reagrupou o Body Count com o guitarrista original Ernie C, o baixista Vincent Price, o guitarrista Juan of the Dead e o baterista Ill Will, além da presença de Sean E Sean nos samplers e backing vocals. Com este time, o grupo lançou em 2014 Manslaughter, que conseguiu alguma repercussão graças à nova versão para a clássica "Institutionalized", do Suicidal Tendencies. A mesma formação se manteve junta, e lança agora em 2017 Bloodlust, disco que tem tudo para recuperar o respeito e o prestígio que o Body Count conquistou em seus primeiros anos.

Body Count em 2017: Ill Will (ao fundo), Juan of the Dead e Ernie CVincent Price e Sean E Sean (mais à frente), Ice T (em primeiro plano)

Já nos primeiros segundos da faixa de abertura, "Civil War", temos a voz de Dave Mustaine, do Megadeth, em um discurso do tipo "utilidade pública", que termina anunciando: "a America agora está empenhada em uma guerra civil"! Sem ser arrastada, a música se desenvolve em um ritmo mais lento, tendo um veloz solo de guitarra mais próximo ao final que soa bem ao estilo de Mustaine, embora eu não tenha informações de que foi ele realmente quem fez o registro do mesmo. Outro convidado especial é Max Cavalera (Soulfly, Cavalera Conspiracy, ex-Nailbomb e Sepultura), que participa nos vocais da brutal "All Love Is Lost" (onde Ice T deixa transparecer muita raiva em sua voz), mas a participação mais destacada acaba sendo a de Randy Blythe, do Lamb of God, que divide os vocais de "Walk With Me…", que, ao alternar partes velozes com outras cadenciadas, acaba sendo um dos maiores destaques do track list. Também foi registrada uma homenagem ao Slayer (citada por Ice T como uma das maiores influências do grupo em uma falsa entrevista registrada no começo da faixa), com as covers para as clássicas "Raining In Blood" e "Postmortem", feitas com competência, embora o rapper sofra para conseguir cantar as velozes linhas vocais da segunda.

Nas demais faixas, o grupo alterna músicas mais cadenciadas mixadas a partes "pula-pula" (como a faixa título e "This Is Why We Ride", com todas as características típicas de uma composição do Body Count), faixas mais sombrias ("Here I Go Again", com Ice rapeando ao invés de cantar) e composições que alternam velocidade e partes cadenciadas (como a interessante "Black Hoodie", a nervosa "The Ski Mask Way", um dos destaques do disco, e que traz uma vinheta no início, lembrando as faixas do primeiro disco, algo que também acontece em "No Lives Matter". Não por acaso, as três receberam vídeos promocionais para divulgação), com a vinheta "God, Please Believe Me" (onde o destaque vai para a linha de guitarra de Ernie C) fechando o track list do álbum.

Contracapa de Bloodlust

Como disse antes, Bloodlust tem tudo para reconquistar um papel de destaque para os californianos, pois, efetivamente, é um registro superior aos seus últimos discos. Resta saber se o público de metal dos tempos atuais (onde o streaming toma conta das "playlists" e a importância do artista em relação ao que se ouve é cada vez menor) continua interessado na música do quinteto, a qual, tanto em relação aos riffs e melodias, quanto às letras raivosas e expositivas, continua atual e necessária como sempre. Que o grupo recupere seu lugar de direito, e continue lançando álbuns desta qualidade.

Track List:

01. Civil War (ft. Dave Mustaine)
02. The Ski Mask Way
03. This Is Why We Ride
04. All Love Is Lost (ft. Max Cavalera)
05. Raining In Blood / Postmortem
06. God, Please Believe Me
07. Walk With Me… (ft. Randy Blythe)
08. Here I Go Again
09. No Lives Matter
10. Bloodlust
11. Black Hoodie

domingo, 23 de abril de 2017

Midnight Oil - Diesel and Dust [1987]


Por Micael Machado

Corria o ano de 1987, e a Atlântida FM, a única "rádio rock" a chegar até a pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul onde eu morava então (e que permanece no ar até hoje, embora com um perfil já diferente) foi dominada por uma música introduzida por uma melodia onde várias vozes entoavam ao mesmo tempo algo como "tchu-ru-tchu-ru-tchu-ru-ru" repetidas vezes. Pouco tempo depois (ou antes, já não recordo), outra música do mesmo grupo invadiu as ondas daquela estação, desta vez questionando "como podemos dormir enquanto nossas camas queimam?". Do alto dos meus treze anos, eu nunca havia ouvido falar daquela banda (e de muitas outras, sejamos honestos),  mas, assim que descobri se chamar Midnight Oil, e que o disco que continha as duas faixas (a primeira chamada "The Dead Heart", e a segunda "Beds Are Burning") possuía como título Diesel and Dust, aproveitei a primeira oportunidade que tive de ir até uma cidade vizinha onde havia uma boa loja de discos e adquirir aquela bolachona (uma das primeiras que tive), em uma das decisões mais acertadas que já tomei, e que causou um caso de paixão por esta obra que permanece intacto mesmo passados quase trinta anos daquela ocasião.

Ao contrário do que eu pensava então, Diesel and Dust estava longe de ser a estreia do Midnight Oil. Sexto registro completo do grupo australiano formado em 1976 e composto, à época, por Peter Garrett nos vocais, Martin Rotsey e Jim Moginie nas guitarras (com o segundo também se dedicando aos teclados), Peter Gifford no baixo (o qual deixaria a banda ainda antes do lançamento do disco, sendo substituído por Bones Hillman) Robert Hirst na bateria, o álbum foi o responsável por consolidar o nome do quinteto nas paradas mundiais, mas eles estavam longe de ser meros desconhecidos, especialmente em seu país natal, onde sua popularidade já era bastante destacada. Tanto que, ao longo de boa parte do ano de 1986, o grupo se dedicou a uma turnê intitulada "Blackfella/Whitefella", onde percorreu os confins da Austrália ao lado das bandas Gondwanaland e Warumpi Band, dois grupos formados por músicos de origem aborígene (a população indígena original do país), e que serviu para divulgar as dificuldades que esta população enfrentava para conseguir sobreviver em seu país natal (como ocorre com muitos indígenas em todo o continente americano).

Midnight Oil em 1987, posando no meio do deserto australiano

A turnê foi crucial para o conceito das letras do próximo registro do Midnight Oil (o mesmo disco do qual estamos tratando aqui), as quais servem para chamar a atenção não só dos australianos, mas do mundo inteiro para as agruras de toda uma raça, a começar pela própria "The Dead Heart" (quarto lugar nas paradas da Austrália, e décimo-primeiro lugar na "Billboard Mainstream Rock Tracks" dos Estados Unidos), cujo título é uma expressão tradicional que faz referência ao imenso deserto que domina boa parte do continente australiano, e onde a maioria da população aborígene reside. A preocupação com a causa indígena continua na roqueira "Warakurna", minha faixa favorita no álbum (cujo título faz referência a uma pequena comunidade aborígene visitada pela banda durante a turnê "Blackfella/Whitefella"), na rápida "Bullroarer" (nome de um instrumento típico daquela comunidade, e que foi utilizado nesta faixa), na própria "Beds Are Burning" (que chegou ao sexto lugar das paradas australianas, inglesa e norte-americana, e que pede a devolução de terras da Austrália para sua população original), na tipicamente oitentista "Sell My Soul" (que trata dos aborígenes que deixam suas comunidades originais para conviver nas cidades dos "homens brancos"), na empolgante "Gunbarrel Highway" (que acabou censurada nos Estados Unidos, e não faz parte das versões em vinil e cassete da obra, infelizmente, visto ser melhor que algumas faixas da versão "oficial" de Diesel and Duste na sinistra (e meio gótica) "Whoah", onde os aborígenes se voltam à religião dos "colonizadores", a qual não lhes dá a atenção necessária.

Outras causas defendidas pelo grupo ao longo de sua carreira aparecem também nas letras das demais faixas do disco, como a preocupação com o meio-ambiente e o futuro do planeta (em "Arctic World", que tem a melodia conduzida por violões e um sentimento mais tristonho ao longo de sua audição), os direitos dos trabalhadores ("Sometimes", onde os operários são explorados por "canibais de terno e gravata", e que apresenta melodias que remetem à surf music), questões políticas de seu país natal (na animada "Dreamworld", que foi lançada em single e ganhou um vídeo) e tópicos pacifistas e anti-guerras  (em "Put Down That Weapon", um rock mais marcado, com destaque para a linha de baixo, além de um belo refrão onde os teclados assumem a frente da melodia, também lançada como single e recebendo um vídeo de divulgação). O curioso é que, mesmo as letras sendo tão importantes para o contexto geral do álbum, no encarte original era bastante difícil compreendê-las e entender seus significados (especialmente quando se tem apenas treze anos e não existe algo como a internet para lhe ajudar a buscar todas estas informações, as quais só vim a descobrir muitos anos depois), visto que a arte do mesmo foi toda feita de modo a parecer que os textos foram escritos no papel com um óleo bastante viscoso, que "escorre"e "pinga" aqui e ali, e torna tudo bastante difícil de ser lido.

Detalhe do encarte original de Diesel and Dust, cuja arte dificulta a leitura das letras

Como disse, felizmente anos depois a internet deixou tudo mais fácil, e hoje é bastante fácil termos acesso ao conteúdo dos textos de Diesel and Dust, suas traduções e significados, e darmos ainda mais importância a esta verdadeira obra prima do rock australiano, que em 1989 foi considerado pela prestigiada revista Rolling Stone como o décimo-terceiro melhor disco da década de 1980, e listado como "número um" no livro "100 Best Australian Albums", lançado em 2010, e que em 2008 ganhou uma "Legacy Edition" que vem com um DVD de bônus, o qual contém os vídeo clipes de "The Dead Heart" e "Beds are Burning", além de um documentário sobre a citada turnê "Blackfella/Whitefella". Já o Midnight Oil continuou acumulando hits e prestígio até 2002, quando anunciou sua separação, vindo o vocalista Peter Garrett a se dedicar à política de seu país natal, chegando a ser eleito para um cargo equivalente ao de Senador na Austrália, e depois assumindo a pasta de ministro do meio ambiente do país.

Para surpresa geral, em 2016 o quinteto anunciou seu retorno, com uma excursão mundial que iniciará com cinco datas no Brasil entre abril e maio deste ano, da qual a primeira data será dia 25 deste mês na cidade de Porto Alegre, onde certamente estarei presente, cantando, a plenos pulmões, não só os grandes clássicos da carreira da banda, mas também (espero eu) muitas faixas de Diesel and Dust, um dos primeiros discos a chamar minha atenção ainda na adolescência, e que permanece no meu coração até hoje! Que este dia chegue logo, para que eu e muitos outros fãs possamos novamente cantar de forma emocionada o tão conhecido "tchu-ru-tchu-ru-tchu-ru-ru" de uma das grandes faixas da década de 1980! Há de ser épico!

Contracapa da versão original em vinil, sem a faixa "Gunbarrel Highway"

Track List:

1. Beds Are Burning
2. Put Down That Weapon 
3. Dreamworld 
4. Arctic World
5. Warakurna
6. The Dead Heart
7. Whoah
8. Bullroarer
9. Sell My Soul
10. Sometimes 
11. Gunbarrel Highway

Ramones Too Tough To Die [1984]


Por Micael Machado

As coisas não andavam lá muito boas para os Ramones em 1983. Seus últimos álbuns não tinham se saído muito bem em termos de vendas, o baterista Marky Ramone havia sido afastado devido a seus problemas com o álcool, bandas confessamente influenciadas pelos brothers de Nova Iorque começavam a chamar a atenção e ultrapassar comercialmente seus inspiradores com sua interpretação mais vigorosa do punk rock conhecida como hardcore (assim como as primeiras bandas de thrash metal também estavam despontando pelo mundo), e, para piorar tudo, o guitarrista Johnny Ramone havia sido espancado por um sujeito (ao que consta, chamado Seth Macklin, membro da banda Sub-Zero Construction) na madrugada de quatorze de agosto daquele ano, e acabou parando no hospital com uma fratura no crânio, sendo submetido a uma operação e ficando com sua vida seriamente arriscada. Três meses depois, com a cabeça raspada e usando um capacete de beisebol como proteção, Johnny estava de volta à ativa, e decidido a provar que o seu grupo também podia competir com talento e competência no mesmo campo dos novos grupos que se espalhavam pela Grande Maçã, como a cidade natal da banda é conhecida.

A dupla de produtores Ed Stasium e Thomas Erdelyi (Tommy Ramone, primeiro baterista do grupo, recentemente falecido), que já haviam comandado os trabalhos no disco Road To Ruin, de 1978, foi chamada de volta para coordenar as gravações do novo álbum, o qual marcaria a estreia em estúdio do novo baterista, Richie Ramone (Richard Reinhardt, também conhecido como Richard Beau, ex-membro dos Velveteens). Com Johnny ainda se recuperando de seu trauma, e o vocalista Joey Ramone entrando e saindo de hospitais por causa de sua saúde (que nunca foi muito boa ao longo de toda a carreira do quarteto, mas na época andava um pouco pior), a maior parte do trabalho de composição acabou caindo sobre Dee Dee Ramone, e o baixista, é claro, não decepcionou!

Um dos registros feitos durante a sessão de fotos para a capa. Aqui, a banda aparece visível: Joey, Richie, Dee Dee e Johnny

Se a ideia era mostrar que os Ramones sabiam fazer música pesada tão bem quanto os "novatos" de sua vizinhança, a faixa de abertura, "Mama's Boy" (de Johnny, Dee Dee e Tommy), servia perfeitamente de exemplo, assim com a faixa título, cujo nome foi inspirado pelo incidente pelo qual o guitarrista havia passado, mas também servia para provar a determinação do grupo em não desistir, apesar dos fracassos recentes e da falta de um maior sucesso comercial. Já composições como "Wart Hog" (cuja letra, cantada por Dee Dee, não era citada no encarte original, sendo substituída por um grande ponto de interrogação), "Endless Vacation" (uma das coisas mais velozes gravadas pelos brothers em sua carreira, e também vociferada pelo baixista) e até mesmo a instrumental "Durango 95" (única do tipo na discografia do grupo, e que teve seu título inspirado por um restaurante frequentado pela banda, o qual, por sua vez, se inspirou no carro dirigido por Malcolm McDowell no filme "Laranja Mecânica", de 1971) provavam claramente que o quarteto também era capaz de tocar um punk rock tão rápido e agressivo quanto qualquer agrupamento novato de Nova Iorque. Os discos seguintes deixariam isto ainda mais evidente, mas estas cinco faixas já bastavam para que Johnny provasse o seu ponto quanto à relevância e ao lugar dos Ramones no cenário da musica à época. Cabe citar que as três últimas faixas citadas foram aquelas deste álbum que contaram com a colaboração do guitarrista em sua composição (as duas primeiras ao lado de Dee Dee), assim como a de abertura e "Danger Zone", outra faixa rápida e veloz, porém não tão próxima do hardcore quanto as demais contribuições de Johnny para o disco.

Parte do encarte original de Too Tough to Die. Bem acima à direita, o ponto de interrogação que substituía a letra de "Wart Hog"

Duas composições exclusivas de Dee Dee, "I'm Not Afraid of Life" e "Planet Earth 1988", são bem mais sombrias do que o restante do material, tanto musical quanto liricamente. Elas passam um sentimento de pessimismo quanto ao futuro do planeta e de seus habitantes, assim como a única contribuição de Richie para o repertório, "Humankind", a qual, apesar de se encaixar perfeitamente no conceito de punk rock (embora um pouco mais pesada que o padrão, conforme o conceito de Johnny para o álbum), está longe de ser uma faixa alegre e divertida, especialmente quando prestamos atenção à sua letra. Joey, apesar de não estar em sua melhor forma em termos de saúde, também arranjou espaço para contribuir, escrevendo o exemplo perfeito de poppy punk chamado "Daytime Dilemma (Dangers of Love)" ao lado do guitarrista Daniel Rey, e a quase rockabilly "No Go", que emanava o bubblegum da década de 1950 no encerramento do lado B do disco.

Duas composições totalmente fora do contexto "hardcore" de Too Tough to Die acabaram também se incluindo dentre seus pontos mais altos. Fechando o lado A, a descaradamente pop "Chasing the Night" (uma parceria de Joey e Dee Dee, com a ajuda do baixista Busta Cherry Jones, que tocou, entre outros, com Gang Of Four e Talking Heads) soava completamente deslocada quando comparada ao restante do track list, além de apresentar os teclados e sintetizadores de Jerry Harrison, também dos Talking Heads. Mas, curiosamente, esta faixa encontrava parceria na primeira música do lado B, "Howling at the Moon (Sha-La-La)", único single e vídeo retirado do álbum, e que teve o envolvimento, em sua produção, do músico Dave Stewart, da banda Eurythmics, agenciada pela mesma equipe de gerenciamento dos Ramones, e sugerido pelo empresário dos brothers à época, Gary Kurfirst. Foi Stewart quem trouxe o tecladista do Tom Petty and the Heartbreakers, Ben Tench, para tocar na faixa, que atingiu a modesta posição de número 85 na parada britânica (o single não foi lançado nos Estados Unidos). Já o álbum, cuja capa teve seu conceito inspirado pelo mesmo filme "Laranja Mecânica" que deu nome para "Durango 95", e que apresenta apenas a sombra dos músicos em frente a um fundo azul, em um "erro" causado por uma falha dos flashes durante o registro das fotos para as capas (em outras fotografias daquela sessão a banda é perfeitamente visível), apesar de sua qualidade, conseguiu naufragar nas paradas ainda mais do que seus antecessores, não passando da posição 171 da Billboard.

Contracapa da versão original em vinil de Too Tough to Die

Em 2002, a gravadora Rhino lançou uma edição "expandida e remasterizada" do disco, que acrescentou outras doze faixas às treze composições originais. Dentre elas, o excelente cover para "Street Fighting Man", dos Rolling Stones, e a poppy punk "Smash You" (outra composição de Richie), ambas "lados B" da versão de doze polegadas do single para "Howling at the Moon (Sha-La-La)". Há também as inéditas "Out Of Here" (música em mid tempo onde a voz de Joey, infelizmente, ficou muito baixa na mixagem final) e "I'm Not an Answer", mais veloz e selvagem do que a versão que aparece no relançamento de Pleasant Dreams, e que, aqui, conta com vocais a cargo de Dee Dee, assim como as versões demo de "Planet Earth 1988", "Danger Zone" e "Too Tough to Die", que mostram que o baixista era perfeitamente capaz de encarar os microfones neste novo estilo musical que os Ramones estavam abraçando. As demais faixas desta edição são demos para musicas que acabaram integrando o track list original de Too Tough to Die, e, apesar de interessantes (especialmente "Howling at the Moon", totalmente descaracterizada sem a presença dos teclados, e "Endless Vacation", com Dee Dee entoando repetidamente "Deutschland" ao seu final), não consigo apontar destaque maior para nenhuma delas em relação às versões "oficiais".

Too Tough to Die (que também conta com a presença do guitarrista Walter Lure, dos Heartbreakers, como músico de apoio em algumas faixas) marcaria o início da colaboração de Richie Ramone com o quarteto de Nova Iorque, na minha opinião (e parece que apenas para mim) o melhor período dos brothers, onde a influência do hardcore foi primordial para a criação dos meus dois discos favoritos na carreira do grupo, Animal Boy, de 1986, e Halfway to Sanity, de 1987, embora, assim como no disco de 1984, o grupo também mostrasse outras facetas de sua sonoridade ao longo dos sulcos destes três vinis, os quais, infelizmente, ainda carecem de um maior apreço e compreensão por parte do fãs do conjunto. Um fato, a meu ver, incompreensível!

"On my last leg, just gettin' by, halo round my head, too tough to die..."

Contracapa da versão expandida de Too Tough to Die

Track List:

1. Mama's Boy

2. I'm Not Afraid of Life

3. Too Tough to Die

4. Durango 95

5. Wart Hog

6. Danger Zone

7. Chasing the Night

8. Howling at the Moon (Sha-La-La)

9. Daytime Dilemma (Dangers of Love)

10. Planet Earth 1988

11. Humankind

12. Endless Vacation

13. No Go

Faixas Bônus da edição expandida de 2002:

14. Street Fighting Man

15. Smash You

16. Howling at the Moon (Sha-La-La) (Demo Version)

17. Planet Earth 1988 (Dee Dee vocal version)

18. Daytime Dilemma (Dangers of Love) (Demo Version)

19. Endless Vacation (Demo Version)

20. Danger Zone (Dee Dee vocal version)

21. Out of Here

22. Mama's Boy (Demo Version)

23. I'm Not an Answer

24. Too Tough to Die (Dee Dee vocal version)

25. No Go (Demo Version)

domingo, 2 de abril de 2017

Plebe Rude - Nação Daltônica [2014]


Por Micael Machado

Depois de oito anos sem apresentar um registro de inéditas, a Plebe Rude lançou em 2014 seu sexto disco, Nação Daltônica, uma mostra da relevância e da importância do quarteto originado em Brasília para o rock nacional. Os fundadores Philippe Seabra (guitarra e vocais) e André X (baixo e vocais) se fizeram acompanhar pelo guitarrista e vocalista Clemente Nascimento (também membro dos Inocentes, na banda desde 2004) e pelo estreante baterista Marcelo Capucci (que se uniu ao grupo em 2011), e gravaram um disco que reafirma a essência do som da Plebe.

Considerada uma das primeiras formações punk do país (ao lado do Aborto Elétrico), a música do quarteto sempre foi mais do que o estilo delimita, incorporando elementos do pós-punk, do pop rock e do folk ao longo de sua trajetória. Nação Daltônica traz um pouco de tudo isso em suas dez faixas (que perfazem pouco menos de trinta e seis minutos), mostrando a integridade de Philippe, o principal compositor da banda. Até mesmo a capa, que intencionalmente remete a Nunca Fomos Tão Brasileiros (segundo disco do grupo, de 1987), parece querer reafirmar que, mesmo passados tantos anos, a Plebe ainda é a mesma, desde o som até a temática contestadora das letras, como se percebe em "Anos de Luta", que critica a apatia da atual geração de "roqueiros" do país, onde a música não é o mais importante, mas sim a fama e o sucesso instantâneo, ainda que para isso seja preciso aceitar as "regras do jogo" impostas pela TV e pelas rádios, e onde tudo vira apenas "entretenimento no final" (em uma mensagem parecida com a de "Minha Renda", do EP de estreia do grupo).

A Plebe Rude atual: Clemente Nascimento, André X, Philippe Seabra e Marcelo Capucci

Com o baixo guiando a melodia, a agitada "Que Te Fez Você" é um dos destaques do track list, ao lado de "Mais Um Ano Você" (versão em português para "Will You Stay Tonight?", da banda inglesa de The Comsat Angels, e que, ao expurgar os chatos teclados eletrônicos da versão original, acabou ficando bem mais interessante do que esta), da legitimamente pós-punk "Rude Resiliência" e de "Tudo Que Poderia Ser", composição que traz em seu arranjo todas as características típicas da Plebe Rude, e que ganha aqui sua versão "oficial" de estúdio, visto já ter aparecido antes no ao vivo Rachando Concreto, de 2011.

Se a semi-balada "(Go Ahead) Without Me" (com letras em inglês) teve todos os instrumentos tocados exclusivamente por Philippe, a linda "Sua História" contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Praga, enriquecendo ainda mais o arranjo de uma das melhores faixas do disco. "Retaliação", a faixa de abertura, tem um ritmo mais cadenciado, quase marcial, enquanto "Quem Pode Culpá-lo?" lembra algumas bandas da cena "alternativa" atual (e poderia facilmente marcar presença nas rádios, caso estas se interessassem em tocar música de qualidade em sua programação) e "Três Passos", que fecha o trabalho, é a única deste registro a contar com os vocais de Clemente em dueto com Seabra.

Contracapa de Nação Daltônica

Nação Daltônica nos faz lembrar de um tempo onde o rock brasileiro era contestador, instigante e relevante, e não dominado por aglomerações "indie" com tendências "modernosas" e sonoridade derivativa e enfadonha! Que saudades!

Track List:

01. Retaliação
02. Anos de Luta
03. Mais Um Ano Você
04. Que Te Fez Você
05. Sua História
06. Rude Resiliência
07. Quem Pode Culpá-lo?
08. Tudo Que Poderia Ser
09. (Go Ahead) Without Me
10. Três Passos