terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Kleiderman - Con El Mundo A Mis Pies [1994]


Por Micael Machado

No ano de 1993, os Titãs lançaram Titanomaquia, o disco mais pesado de sua carreira até então. Depois da turnê de promoção ao mesmo, o grupo resolveu "sair de férias", o que abriu espaço para que seus integrantes se dedicassem a atividades paralelas ao grupo, como carreiras solo, escritas de livros ou estudos no exterior. Branco Mello (vocais) e Sérgio Britto (vocais e teclados) uniram forças e montaram um projeto que seguiria mais ou menos a mesma sonoridade que sua banda principal havia adotado naquele citado disco, efetivando assim uma ideia que já havia surgido um tempo antes, mas ainda não havia tido possibilidade de ser colocada em prática. Com Branco no baixo e voz, Sérgio nas guitarras e voz, e a adição da baterista Roberta Parisi (ex-integrante do Volkana), surgiu o Richard Clayderman, nome escolhido de "zoação" em homenagem ao famoso pianista. O trio assinou com o selo Banguela Records (que, vale a pena lembrar, era de propriedade dos próprios Titãs), mudou o nome para Kleiderman para evitar problemas legais (mas manteve o "Richard" na capa do disco, "escondido" debaixo de um band-aid)e lançou em 1994 Con El Mundo A Mis Pies, uma "pérola esquecida" do rock nacional, e um dos melhores lançamentos do estilo na última década do século passado!

A sonoridade do trabalho, como eu já disse, segue mais ou menos a linha adotada pelo então septeto paulista em seu registro do ano anterior. Mas é ainda mais suja, pesada e distorcida que a de Titanomaquia. Algumas faixas tem um pé no punk rock (como "Nem Mãe, Nem Puta", que chegou a ter algum destaque na época, inclusive tendo um clipe divulgado na MTV de então - e que, por algum motivo, não consegui encontrar para disponibilizar como link nesta matéria -, "Let Me Be Your Nightmare", que chega a lembrar o Green Day de Dookie, ou "Roberta", usada para "descrever" as características da baterista do trio: "19 anos, 1 metro e 60, 48 quilos e olhos cor de mel"), outras no dito rock "alternativo" inglês (como "Plastic" ou "Dracula's Tea Bag", que também possui algo de Alice In Chains no refrão), mas a maioria das composições se baseia mesmo em um hard rock pesado, distorcido e quase sempre rápido, como o presente em "O Amor É Uma Coisa Feia" (que abre os trabalhos da bolachinha), "Eu vou ficar dopado" ou "Nojo".

O trio Kleiderman: Branco Mello, Roberta Parisi e Sérgio Britto

Com o disco durando pouco mais de trinta e cinco minutos no total, as músicas de Con El Mundo A Mis Pies são curtas e diretas (apenas uma passa dos três minutos de duração), e, assim como os vocais são divididos entre Branco e Sérgio (por vezes até na mesma composição), também as letras são ora em português, ora em inglês. A temática é variada, indo da quase escatologia de "Lick My Dirt" aos pretensos termos médicos de "Testosterona" (duas canções mais lentas e arrastadas, mas com o peso sempre presente). Dentre as letras que mais me chamam a atenção, estão as de "All Rock Bands" (que declara que "todas as bandas de rock deveriam se separar agora", em uma composição que serve de critica ao rock da época, mas que soa extremamente atual no mundo de hoje) e "Get Me Higher" (que cita vários artistas já falecidos, para então sentenciar: "merda vende, morte vende mais").

Algumas faixas lembram o trabalho da banda principal de Mello e Britto, como "Se Eu Sei Que Me Faz Mal" (que me remete a "Agonizando", do Titanomaquia), "Êxtase" ou a já citada "Nem Mãe, Nem Puta". Mas nenhuma delas é tão "Titãs" quanto "Não Quero Mudar", o grande hit do disco, com clipe em alta rotação na MTV, exposição nas "rádios rock" da época e tudo o mais. Certamente a faixa mais acessível do registro, poderia facilmente ter sido lançada como uma música do septeto paulista e ninguém notaria a diferença. Acessíveis também são duas de minhas faixas favoritas em Con El Mundo A Mis Pies"O Colecionador", um surpreendente tema instrumental com algo de surf rock em seu arranjo, e a própria faixa título, um oásis de calmaria no meio da porradaria sonora que é o disco. Trazendo a melhor intro do álbum (com Britto arrasando na guitarra), ela se transforma em uma "quase balada" regada à doce e suave voz de Roberta, que aqui canta (em espanhol) uma letra que chega perto de ser classificada como "romântica", e que apresenta aquele que talvez seja o melhor refrão de um disco com vários refrões memoráveis!

Contracapa de Con El Mundo A Mis Pies

O trio fez alguns shows pelo país, participou de especiais da MTV em 1995 (como o Carnaval É Legal, onde interpretaram "Está Chegando a Hora", e o Romance MTV, onde fizeram uma cover de "Darlin'", dos Beach Boys) e parou por aí mesmo, com Branco e Sérgio voltando a se dedicar ao seu grupo principal com o lançamento de Domingo naquele mesmo ano. Muitos, como eu, ainda esperam por um novo trabalho da banda, o qual parecia quase impossível um tempo atrás. Mas, com a volta dos Titãs ao "rock pesado" em Nheengatu, do ano passado, quem sabe Mello e Britto não se animam a reviver o Kleiderman, e nos brindar novamente com pérolas do peso musical nacional. Torçamos por isso!

"Acuerdade de mi, siempre así: con el mundo a mis pies"

Track List:

01. O Amor É Uma Coisa Feia
02. Let Me Be Your Nightmare
03. Nem Mãe, Nem Puta
04. All Rock Bands
05. Dracula's Tea Bag
06. Con El Mundo A Mis Pies
07. Eu Vou Ficar Dopado
08. O Colecionador
09. Testosterona
10. Roberta
11. Plastic
12. Não Quero Mudar
13. Lick My Dirt
14. Se Eu Sei Que Me Faz Mal
15. Êxtase
16. Nojo
17. Get Me Higher

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Discografias Comentadas: Änglagård


Por Micael Machado


Criado pelos músicos Tord Lindman (guitarras e vocais) e Johan Högberg (baixo) no verão de 1991, o grupo sueco Änglagård (termo inventado pelo guitarrista, que pode ser traduzido como "Jardim de Anjos", ou "Lugar de Anjos") começou a tomar forma com a chegada, ainda no mesmo ano, de Thomas Johnson (piano, mellotron e sintetizadores), Jonas Engdegård (guitarras) e Mattias Olsson (bateria e percussão). No ano seguinte, Anna Holmgren (flauta e saxofone) se uniu aos rapazes, e estava estabelecida a formação definitiva do sexteto. Uma demo tape registrada em 1992 lhes garantiu um contrato com a gravadora Mellotronen, e no mesmo ano o conjunto lançaria seu registro de estreia, o qual foi mundialmente aclamado, ajudando a reacender o interesse no rock progressivo, estilo que estava em baixa no início da década de 1990, período dominado musicalmente pelo "grunge" vindo de Seattle.

Acompanhe agora nossa análise da curta, porém muito reconhecida, discografia destes talentosos suecos.

Hybris [1992]


Aclamado tanto pela crítica quanto pelos fãs do estilo, Hybris é frequentemente apontado como um dos melhores discos de rock progressivo da última década do século passado. A faixa "Jordrök" abre o registro com um início sombrio, que cede espaço para mais de onze minutos instrumentais de muitas variações, com todos os instrumentos (mellotron, violão, flauta, guitarra, teclados, bateria) encontrando aqui e ali um momento de destaque ante os demais, mas atingindo um grande brilho quando unidos na mesma melodia. Lá pelos cinco minutos, uma passagem ao órgão de igreja (que remete às composições de Rick Wakeman na década de 1970) abre espaço para um "duelo" entre guitarra e teclados que é um dos melhores momentos do álbum (e é interessante perceber nesta faixa como o grupo sabe mesclar trechos agitados e barulhentos com outros calmos e silenciosos de forma bastante harmoniosa). A segunda faixa, "Vandringar i Vilsenhet", abre com um trecho de flauta que remete à primeira fase do King Crimson, mas logo assume uma tonalidade meio sombria/meio "divina", a qual, após um pequeno trecho de agitação, nos entrega as primeiras frases cantadas do álbum, em um ritmo mais frenético do que a música possuía até então, caindo depois em uma sequência "quebrada" e complexa digna dos maiores nomes do rock progressivo setentista e que, quase doze minutos depois do início, vai desaguar em um final angustiante e com um clima "macabro", graças ao mellotron e às flautas. Na sequência temos "Ifrån Klarhet Till Klarhet", a mais curta de todas (pouco mais de oito minutos), mas que já começa com um trecho frenético de guitarras e teclados para tirar o fôlego do mais apaixonado fã de Yes. Essa passagem não é muito longa, e um trecho mais calmo (e com vocais) vem "baixar" um pouco a empolgação inicial. Mas uma bela passagem de flauta logo nos conduz a novas variações rítmicas, com a faixa encerrando abruptamente e nos deixando aquela característica sensação de "quero mais" típica das boas emoções. Finalmente, os mais de treze minutos de "Kung Bore" iniciam com teclados, baixo e bateria continuando a "quebradeira" do meio da faixa anterior, a qual cede lugar para uma calma e encantadora passagem de violão e flauta, que vem desaguar em mais um dos poucos trechos cantados do registro. Mas, nestas alturas, o ouvinte mais atento já sabe que uma nova virada rítmica acontecerá, e, embora não  tão brusca quanto outras guinadas anteriores, novamente a música ganha velocidade, e, após muitas outras mudanças de direção, um curto trecho de flauta encerra o álbum e nos deixa com aquela vontade de voltar e ouvir tudo de novo. Uma edição remasterizada lançada em 2000 trouxe a faixa bônus "Gånglåt Från Knapptibble", a qual aparenta ser a versão demo de "Skogsranden", presente no segundo disco, Epilog. Cabe ainda citar que, no site Prog Archives, Hybris já foi apontado como o décimo-sétimo melhor disco de todos os tempos, o que dá um bela ideia de seu apreço por parte dos fãs de progressivo!


A formação clássica do Änglagård: Anna Holmgren, Jonas EngdegårdJohan Högberg e Thomas Johnson (em pé), Mattias Olsson e Tord Lindman (abaixados)

Epilog [1994] 

Não que fosse novidade no mundo da música em geral, mas causou certa surpresa o segundo disco do Änglagård ser totalmente instrumental. Desta vez haviam apenas três longas faixas, juntamente a três vinhetas (uma calma e tranquila introdução intitulada "Prolog", conduzida pelo mellotron; um "interlúdio" de 14 segundos de "barulhinhos" praticamente inaudíveis intitulado "Rösten"; e a plácida "outro" "Saknadens Fullhet", conduzida pelo piano), as quais bastaram para manter o nome do grupo em evidência na comunidade progressiva mundial. "Höstsejd", a primeira faixa "de fato", é uma das melhores composições destes suecos, mostrando bem o lado "esquizofrênico" da banda através de suas múltiplas variações ao longo dos mais de quinze minutos de duração da música, com destaque para os longos trechos de mellotron e flauta, e para a agressividade da guitarra, que desfila solos com um estilo similar ao que Robert Fripp utiliza no seu King Crimson, além da "cozinha" se impor em certos trechos, executando "quebradeiras" quase "impossíveis" de serem reproduzidas! Ainda há espaço para um longo trecho mais calmo e contemplativo na seção central da suíte, mas o que acaba prevalecendo são as melodias "quebradas" e as mudanças de direção que tanto agradam aos fãs deste estilo musical. "Skogsranden" tem um início bem calmo, destacando a flauta e o piano, mas não demora muito para tudo ficar agitado e "esquizofrênico", como parece reger o "manual de composição" do grupo. Interessantes passagens do mellotron (intercaladas por sintetizadores) marcam esta segunda fase da canção, e é Thomas Johnson quem guiará a melodia da composição durante quase a totalidade dos perto de onze minutos de sua duração (boa parte deles tornando-se os mais contemplativos deste registro), contando ainda com o precioso apoio do baixo de Johan Högberg, com a guitarra e a flauta obtendo algum destaque apenas mais próximo ao final, pouco antes de nova mudança de direção e de nova "agitação sonora" atingir os nossos sentidos e silenciar brusca e inesperadamente. Antes do encerramento com a "outro" citada, ainda temos "Sista Somrar", a última faixa "de fato", e que se tornaria um "clássico" na discografia do Änglagård. Um perfeito resumo do "modelo de composição" do sexteto, ela começa calma e sombria, embarcando depois em uma verdadeira "montanha russa" de ritmos que, por mais de treze minutos, servirão como exemplo da capacidade técnica e criativa destes músicos excepcionais (confira com especial atenção um trecho que se inicia lá pelos sete minutos e lembra uma espécie de "marcha macabra" executada em uníssono por guitarra, baixo e percussão, com o teclado dando um "molho" sombrio ao fundo - de arrepiar!). Em 2010, a própria banda lançou uma edição remasterizada deste álbum, a qual vem com um CD bônus contendo apenas uma faixa, a qual parece ser a versão "completa" da vinheta "Rösten" (visto ter o mesmo nome), embora seja completamente diferente desta.

Infelizmente, o ambiente dentro do grupo já não andava lá muito bom durante as gravações de Epilog, e, pouco depois de uma apresentação no Progfest de 1994 (ocorrido na cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, e que seria lançado em CD sob o título Buried Alive no ano de 1996), o sexteto anunciou o final de suas atividades. Entre 2002 e 2003, o grupo (sem a presença de Tord Lindman) fez algumas apresentações pela Europa e EUA (onde participam do tradicional festival progressivo NEARfest), mas questões pessoais e familiares levam a uma nova parada nas atividades do Änglagård, as quais só seriam retomadas em 2011, quando o quinteto remanescente (Lindman novamente ficou ausente da reunião) fez algumas poucas apresentações (com destaque para o retorno ao NEARfest no ano seguinte), além de iniciar as gravações do que viria a ser seu terceiro álbum, o qual finalmente viu a luz do dia em 2012.


O grupo em 2011: Thomas Johnson, Anna Holmgren, Johan BrandMattias Olsson e Jonas Engdegård

Viljans Öga [2012]

Assim como a estreia, o terceiro disco do Änglagård trazia apenas quatro longas faixas, as quais, mesmo soando mais calmas e contemplativas do que as registradas no passado do grupo, mantiveram a qualidade e boa parte das características presentes nos álbuns anteriores dos suecos. Os quase dezesseis minutos de "Ur Vilande" trazem em seu início esta nova característica mais calma e "controlada", mas, depois de quatro minutos, a guitarra ganha distorção e o ritmo se intensifica, sem no entanto chegar a se tornar aquele "caos sonoro" que os registros anteriores por vezes apresentavam. Belos trechos de mellotron e flauta ainda aparecem no desenrolar da canção, a qual, surpreendentemente, consegue se manter plácida e lânguida por quase toda a sua duração (embora eu seja forçado a admitir que certos trechos soem repetitivos em demasiado). "Sorgmantel" também se inicia de forma calma (embora um pouco mais sombria), mas seus mais de doze minutos possuem vários momentos de agitação, além de alguns trechos mais "pesados" e distorcidos da guitarra de Jonas Engdegård e até um mini-solo do baixo de Johan (que passou a adotar o sobrenome Brand desde a abortada reunião da banda em 2002). "Snårdom" inicia como a mais agitada e "esquizofrênica" faixa de Viljans Öga até então, embora a "quebradeira" seja bem menor que a de discos anteriores. Mesmo assim, após mais de dezesseis minutos de uma verdadeira "montanha russa" sonora, posso indicar esta como a melhor faixa deste terceiro registro do Änglagård, possivelmente por ser a que mais lembra o "passado glorioso" do agora quinteto. Por fim, temos a instrumental "Längtans Klocka", que inicia lembrando muito o King Crimson de Islands (devido à flauta e ao piano), mas logo ganha uma "cara" mais parecida com suas companheiras de track list, mantendo o clima "contemplativo" por aproximadamente cinco minutos, até uma guitarra rascante e barulhos "inusitados" de percussão "quebrarem" o ritmo da canção, mantendo a audição imprevisível (flauta, guitarra e piano se alternam no "comando" das ações por um bom trecho, com o baixo e a bateria dando um verdadeiro show ao fundo) entre a quebradeira e a calmaria até próximo de seu final, quando o andamento passa a lembrar uma composição circense, ou algo inspirado na década de 1920 (até pelos instrumentos utilizados), em um encerramento bastante "estranho" se comparado aos demais momentos da discografia do grupo. De todo modo, um bom álbum, apenas (por ser "calmo" e "contemplativo" demais) não seria aquele que eu indicaria para quem quiser começar a conhecer a sonoridade do Änglagård.

Ainda em 2012, o grupo anunciou o retorno do membro fundador Tord Lindman, mas, infelizmente, ocorreram as saídas de Thomas Johnson, Jonas Engdegård e Mattias Olsson. Johan, Tord  e Anna recrutaram Linus Kåse (teclados, saxofone) e Erik Hammarström (bateria, percussão, ex-The Flower Kings) e continuaram a excursionar, chegando até mesmo a lançar um segundo registro ao vivo, Prog På Svenska: Live in Japan, que, como o nome indica, foi gravado no Japão entre 15 e 17 de março de 2013, e chegou no mercado no ano seguinte.


Foto promocional da formação do Änglagård em 2014 (ainda como quinteto): Anna Holmgren, Johan Brand, Tord Lindman, Erik Hammarström e Linus Kåse

Em 2014, foi anunciado o retorno do guitarrista Jonas Engdegård, com o (novamente) sexteto continuando a excursionar pela Europa e América do Norte, sem previsão (ainda) de que um quarto álbum venha a ser lançado. Mesmo assim, ficamos todos na expectativa de que a saga destes suecos ainda não tenha sido encerrada, e que novas composições venham a surgir no futuro para deleite de nossos ouvidos. Que assim seja!

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Suicidal Tendencies - How Will I Laugh Tomorrow... When I Can't Even Smile Today [1988]


Por Micael Machado

O Suicidal Tendencies surgiu em 1981 como uma das principais bandas de punk/hardcore da cidade de Los Angeles, mas, com a entrada do guitarrista Rocky George a partir do segundo disco, a música do grupo se aproximou bastante do heavy metal, fazendo com que o ST fosse apontado como um dos primeiros grupos de crossover dos EUA. Influenciado por esta nova sonoridade, o eterno líder Mike Muir (vocais) transformou o agrupamento em um quinteto, trazendo para o line-up o guitarrista Mike Clark, colega do cantor em seu projeto paralelo chamado No Mercy (completavam o time o baterista R.J. Herrera e o baixista Bob Heathcote, outro estreante na formação do Suicidal). Clark se integrou muito bem aos parceiros, assumindo inclusive boa parte do trabalho de composição daquele que viria a ser o terceiro disco dos californianos, lançado em 1988 e intitulado How Will I Laugh Tomorrow... When I Can't Even Smile Today, talvez o mais pesado registro da história destes skatistas de Venice Beach!

Faixas como "Hearing Voices" (que lembra o Metallica de Ride The Lightning), "If I Don't Wake Up" e "The Feeling's Back" aproximavam de vez a sonoridade do ST da então emergente cena do thrash metal dos EUA, enquanto as guitarras melódicas de "The Miracle" (que, em certo trecho, ganha velocidade e peso equivalentes aos de um Slayer fase Reign In Blood), "One Too Many Times" e "Sorry?!" (a qual, arrisco a dizer, não faria feio no track list de um dos primeiros álbuns do Iron Maiden com Bruce Dickinson nos vocais) causavam arrepios de terror nos fãs do hardcore presente no registro de estreia do agrupamento de Mike Muir. Os admiradores desta fase encontravam apenas no CD uma faixa que lembrasse os primórdios da banda, a qual era intitulada "Suicyco Mania", a qual não estava presente na edição em vinil, ficando de fora até mesmo da versão em K7!

Suicidal Tendencies em 1988: Mike Clark, Bob Heathcote, Mike Muir, R.J. Herrera e Rocky George

Sempre gostei muito da abertura do lado B do vinil (a faixa "Surf And Slam", praticamente toda instrumental, e que, apesar de rápida, conta com guitarras limpas e bastante melodia em seu arranjo, com solos que lembram as músicas da época da surf music durante quase toda sua curta duração) e de "Pledge Your Allegiance", mais cadenciada e ainda mais pesada que outras canções citadas acima (e com um coro de "ST, ST" em seu início que, tenho quase certeza, influenciou e muito ao rapper Ice T quando da criação de seu grupo Body Count, o qual adotou como tema um canto de "BC, BC" muito semelhante ao entoado pelo Suicidal nesta faixa).

Mas How Will I Laugh Tomorrow... acabou gravando mesmo na história do grupo as duas músicas que seriam lançadas como single e que viriam a receber vídeo clipes de divulgação: "Trip At The Brain", porrada metálica que abria os trabalhos com direito até a um curto solo de baixo lá pelo meio, e, principalmente, a faixa título, um dos principais temas do heavy metal oitentista, e, paradoxalmente, uma das mais "leves" e melódicas canções deste registro (apesar de, em sua segunda metade, trazer algumas partes que chegam a lembrar as origens punk do grupo). O vídeo desta canção, infelizmente, acabou encurtando em muito sua duração original, inclusive deixando de fora (em um verdadeiro absurdo, na minha opinião) uma de suas melhores partes, o característico refrão com a repetição do nome da faixa. Mesmo mutilada nesta "versão para divulgação", a canção ainda mantinha sua força, e ajudou o registro a atingir a posição de número 111 na parada norte-americana, permanecendo no chart da Billboard por onze semanas, uma conquista para um grupo do porte do Suicidal.

Contracapa da edição em vinil de How Will I Laugh Tomorrow... When I Can't Even Smile Today

O próximo registro da banda (a união de dois EPs diferentes intitulada Controlled by Hatred/Feel Like Shit... Déjà Vu) marcaria a estreia do baixista Stymee, o qual, após abandonar o apelido e adotar seu nome de batismo (Robert Trujillo), traria para a sonoridade do Suicidal Tendencies elementos de groove e funk que ajudariam a tornar o grupo um dos principais nomes do heavy metal do início da década de 1990. Mas isto já é papo para um outro post...

"Find no hope in nothing new and I never had a dream come true... Does anyone even care at all?"

Track List (versão do CD):

1. Trip at the Brain

2. Hearing Voices 

3. Pledge Your Allegiance 

4. How Will I Laugh Tomorrow 

5. The Miracle 

6. Suicyco Mania

7. Surf and Slam 

8. If I Don't Wake Up 

9. Sorry?! 

10. One Too Many Times 

11. The Feeling's Back

domingo, 16 de agosto de 2015

Wander Wildner - Existe Alguém Aí? [2015]


Por Micael Machado


Depois de dois discos mais voltados a sonoridades mais acústicas e folk (Caminando y Cantando, de 2010, e Mocochinchi Folksom, de 2013) e de uma temporada morando na Europa, o lendário "punk-brega" Wander Wildner (eternamente lembrado como tendo sido o ex-vocalista d'Os Replicantes) retoma sonoridades "guitarrísticas" em Existe Alguém Aí?, seu oitavo disco solo de inéditas (se não contarmos a compilação Rodando El Mundo, de 2013) e o primeiro que o músico considera como sendo "conceitual", onde as letras são usadas para tecer críticas contra a sociedade atual e a maneira de viver das pessoas em uma metrópole como a capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Wander, responsável pelos vocais e guitarras, ganha neste álbum o acompanhamento de Gustavo Chaise (baixo) e Cesar Castro (bateria), além de alguns convidados mais do que especiais, que se revezam ao longo das dez faixas da bolachinha para dar amparo ao power trio responsável pelas bases.

Após a tristonha introdução dos teclados do maestro Arthur de Faria, um som de chuva e trovões leva à "Réquiem Para Uma Cidade", que usa guitarras a la Jesus And Mary Chain para traçar as mazelas de um dia em que "chove, chove, chove em Porto Alegre", deixando "as ruas todas alagadas" e "os bueiros todos entupidos", em um clima meio depressivo que vai se espalhar pelas demais letras, e é coroado pela apocalíptica repetição do verso final "o sol nunca mais apareceu".

Jimi Joe, Gustavo Chaise, Cesar Castro e Wander Wildner ao vivo

A partir daí, as canções acompanham as mazelas das vidas dos personagens desta cidade escura e alagada, passando pela garota que "percebeu que a maioria não queria o que ela queria" em "Naquela Noite Ela Chorou" (inspirada pela derrota de Olívio Dutra para Lasier Martins nas eleições para o senado do Rio Grande do Sul em 2014, e que conta com a guitarra de Jimi Joe, parceiro de longa data do cantor), pela moça que "quer respirar mas não consegue" em "Uma Angústia Presa na Garganta" (abrilhantada pelos teclados de Rust Costa), pelo sujeito que "vive só, consigo mesmo, o tempo inteiro" na pesada "Sua Própria Companhia", e por aquela que "saiu de casa numa noite fria...porque sua vida merecia ser bem melhor que a da sua tia" em "Vivendo 100% Cada Momento" (um excelente pop punk). Ainda sobra espaço para criticar o estilo de vida e de se alimentar da população urbana atual ("agora é a hora de fazer, pensar em coisas bacanas, se alimentar de comidas orgânicas") em "Plantar, Colher e Depois Dançar" (com alguns teclados mariachis a cargo de Flávio "Flu" Santos, ex-baixista do Defalla, e que ganhou um clipe com imagens registradas no festival Morrostock de 2014 e uma versão instrumental diferente daquela presente no álbum) e para um toque de melancolia na baladaça "Saudade", que encerra o disco soando como uma singela declaração de amor, a qual, segundo o autor declarou em uma entrevista, não é dirigida para uma mulher, mas sim para uma Porto Alegre mais simples e feliz que ficou apenas no passado do cantor.

Apesar da grande identificação das letras com a capital gaúcha (o "riacho Ipiranga" citado em "Réquiem Para Uma Cidade" é o Arroio Dilúvio, que corta uma das principais avenidas da cidade, e a "redenção" por onde vai correr a personagem de "Uma Angústia Presa na Garganta" não é a sensação de atingir a glória e a liberdade espiritual, mas sim o apelido do Parque Farroupilha, no centro da metrópole), a temporada europeia de Wander não foi totalmente esquecida. "Numa Ilha Qualquer", primeira canção de trabalho divulgada (um excelente pop que tem os teclados - novamente a cargo de Arthur de Faria - remetendo à sonoridade do Echo And The Bunnymen), teve seu clipe registrado em Portugal, país citado indiretamente em "Sobrevoando As Ruas da Cidade" (que conta com a slide guitar de Maurício Chaise e é uma das mais punks do registro), e uma experiência vivida em Berlim serviu de inspiração para a longa "Ela é Uma Phoenix", uma das melhores faixas do trabalho.

Contracapa de Existe Alguém Aí?

Mesmo com o tom intimista e depressivo de algumas letras, no final quase todos os personagens acabam superando e resolvendo seus conflitos, assim como Wander mostra ter feito com a aparente aversão às sonoridades mais pesadas e recheadas de guitarras que o compositor pareceu ter desenvolvido em seus últimos registros. Sorte nossa, pois Existe Alguém Aí? é, facilmente, o melhor disco nacional lançado este ano até aqui. Confira você mesmo!

O tempo vai, o tempo vem, e tudo volta pro começo...

Track List:

01. Réquiem Para Uma Cidade
02. Naquela Noite Ela Chorou
03. Numa Ilha Qualquer
04. Uma Angústia Presa na Garganta
05. Sua Própria Companhia
06. Vivendo 100% Cada Momento
07. Plantar, Colher e Depois Dançar
08. Ela é Uma Phoenix
09. Sobrevoando As Ruas da Cidade
10. Saudade

domingo, 5 de julho de 2015

Republica - Point Of No Return [2013]


Por Micael Machado


Apesar de estar na ativa desde 1991 e ter lançado dois registros antes deste, a banda paulista Republica não tinha chamado a minha atenção antes de tocar no Rock In Rio de 2013, quando se apresentou ao lado do Dr. Sin no Palco Sunset, tendo "de lambuja" a participação especial do consagrado guitarrista Roy Z (Bruce Dickinson, Rob Halford) em seu set. A curiosidade me fez ir atrás de Point Of No Return, álbum lançado ainda naquele ano em uma bela edição digipack (e em vinil no ano seguinte), e que me surpreendeu positivamente.

Eu associava a sonoridade da banda a um hard rock mais pesado, e credito a isso o fato do poderoso riff stoner da faixa de abertura, "Time To Pay", ter me surpreendido tanto. Tendo o primeiro dos muitos excelentes solos de guitarra do álbum (a cargo do guitarrista Luiz Fernando Vieira), a música ainda traz o vocalista Leo Belling utilizando um tom diferente das demais músicas, mais próximo ao estilo de Phil Anselmo, o que, junto com a melodia, fez com que eu imediatamente associasse a faixa com o Down, grupo do qual o ex-cantor do Pantera faz parte. Esta sensação stoner ainda marca um pouco de presença na faixa seguinte, "Why?" (onde Leo já canta de uma forma diferente, chegando a lembrar o ex-vocalista do Iced Earth, Matthew Barlow, de uma forma que se encaixa muito bem com as músicas do grupo), mas o Republica, sabiamente, consegue alterar estilos nas demais faixas, evitando que a audição se torne monótona ou cansativa.


A bela edição digipack de Point Of No Return

Desta forma, "Life Goes On" (que, mesmo sendo a mais longa do disco, ganhou um vídeo clipe inspirado no livro "A Revolução dos Bichos" de George Orwell) é um pouco mais cadenciada e traz alguns toques orientais em sua melodia, além de algo de Metallica na guitarra com wah wah. Já "Dark Road" é bem veloz, chegando até a lembrar o Motörhead em sua parte inicial (além de apresentar um dos melhores refrões do álbum), enquanto "No Mercy" é uma "balada pesada" (como se dizia nos anos 80), e "Change My Way" tem um toque de hard rock setentista (além de outro belo refrão).

A apresentação ao lado de Roy Z gerou o convite para o guitarrista participar de "Goodbye Asshole", música mais lenta (sem chegar a ser uma balada), mas ainda pesada, e com interessantes trechos de slide nas seis cordas, além de muito wah wah no solo. A rápida "El Diablo" foi a segunda escolhida para receber um clipe, e as agitadas "Fuck Liars" e "The Land of the King" (com letra de temática satânia) completam o track list de um dos melhores registros do rock nacional nos últimos anos.


Republica: Jorge Marinhas, Marco Vieira, Leo Belling, Gabriel Triani e Luiz Fernando Vieira

A produção de Point Of No Return ficou a cargo de Luis Paulo Serafim (com a participação de Thiago Bianchi no trabalho com as vozes), e a masterização foi feita nos Estados Unidos, a cargo de Stephen Marcussen, reconhecido profissional que que já trabalhou com Rolling Stones, Kiss, Black Sabbath, Alice In Chains e Foo Fighters. Tudo isto fez com que a sonoridade do álbum ficasse excelente, ajudando a dar destaque ao trabalho do Republica (que, além de Belling e Vieira, ainda conta com Jorge Marinhas nas guitarras, Marco Vieira no baixo e Gabriel Triani na bateria), e fazendo com que o disco seja altamente recomendável para quem gosta de metal, independente do estilo. Confira!


A edição em vinil de Point Of No Return

 Track List:

1. Time To Pay
2. Why?
3. Life Goes On
4. Change My Way
5. Goodbye Asshole
6. The Land Of The King
7. No Mercy
8. Dark Road
9. Fuck Liars
10. El Diablo

domingo, 10 de maio de 2015

Review Exclusivo: Slash (Porto Alegre, 20 de março de 2015)


Por Micael Machado
(fotos por Juliana Duzzo, retiradas da página oficial da rádio Ipanema FM no facebook)

Pouco menos de dois anos e meio depois de sua primeira passagem por Porto Alegre, o guitarrista britânico Slash retornou ao Pepsi On Stage (novamente acompanhado pelo vocalista Miles Kennedy e o grupo The Conspirators, formado pelo guitarrista Frank Sidoris, o baixista Todd Kerns e o baterista Brent Fitz) para, mais uma vez, executar um belíssimo espetáculo de hard rock para uma multidão de gaúchos (e gente de outros estados também) que lotou o lugar para lhe prestigiar. Ao contrário de muitos músicos que vem a nosso país em um ponto mais "baixo" de suas carreiras, Saul Hudson (o nome real do ex-guitarrista do Guns And Roses) passou pela América do Sul (em onze shows que cobriram Chile, Argentina, Peru, Equador e Brasil, agraciado com seis apresentações) para divulgar seu mais recente trabalho, o álbum World on Fire, lançado em 2014, e que recebeu uma recepção mais do que positiva tanto da crítica quanto do público.

Gilby Clarke and The Coverheads no palco do Pepsi On Stage

Infelizmente, parece que a maioria da multidão reunida na agradável noite de sexta feira não estava lá para dar atenção à carreira solo do guitarrista, mas sim para curtir de novo os eternos clássicos de sua ex-banda. Isso ficou claro já no show de abertura, a cargo do também ex-guitarrista do Guns And Roses Gilby Clarke (agora atacando ainda como vocalista), que se apresentou à frente de um trio intitulado The Coverheads, sobre o qual, infelizmente, não tenho maiores informações (assim como ninguém a quem perguntei soube me dizer se houve uma banda local antes desta, pois, graças à imensa fila no lado externo do local, acabei entrando no Pepsi On Stage pouco antes de Clarke subir ao palco). Gilby tem uma consistente carreira solo, que já conta com sete álbuns de estúdio, além de ter gravado ao lado de Slash o disco It's Five O'Clock Somewhere, dSlash's Snakepit, primeiro grupo montado pelo britânico depois de sua passagem pelo Guns. Pois Clarke apresentou um bom resumo destes discos, com destaque para a abertura com "Wasn't Yesterday Great" e para a mais conhecida "Cure Me... Or Kill Me..." (de seu primeiro disco, Pawnshop Guitars, lançado em 1994, e que à época teve boa execução de seu clipe na MTV), além de interpretar um tema de sua primeira banda, a Kill for Thrills (chamado "Motorcycle Cowboys") e um do citado álbum do Snakepit, "Monkey Chow". Mas a galera só levantou mesmo quando ele tocou a clássica "Knockin' on Heaven's Door", original de Bob Dylan que o Guns registrou no Use Your Illusion II, o famoso "disco azul", e que parecia ser a única que a maioria do pessoal reconheceu, tirando, talvez, a cover para "It's Only Rock 'n' Roll (But I Like It)", dos Rolling Stones, outra na qual a plateia também reagiu muito bem. Gilby ainda trouxe ao palco sua filha Frankie Clarke para tocar guitarra em outro cover dos Stones, "Dead Flowers" (que o Guns muito tocou durante sua carreira, como bem documentado em diversos bootlegs por aí), mas a maioria do pessoal, embora tenha respeitado muito o show e até curtido bastante os quase sessenta minutos de Clarke no palco, parece que só "levantou" mesmo naquele "cover do cover" que todos conheciam.

Exatamente na hora marcada (ah, a famosa pontualidade britânica... quanta diferença dos tempos de Gn'R, não é mesmo?), as nove e trinta da noite, uma música circense recepcionou Slash e seus comparsas no palco do Pepsi, e "You're A Lie", faixa de seu primeiro disco completo ao lado de Miles (o também recomendável Apocalyptic Love) deu início ao espetáculo. Ao contrário do show de 2012, desta vez eu resolvi pagar o dobro do preço do ingresso da pista "comum" e encarar um setor elevado do local chamado de "mezanino" (a tal da pista Vip custava ainda mais caro que este). Isto fez com que eu e meu sobrinho Maurício Machado conseguíssemos ficar em uma posição bem melhor em relação à apresentação passada, mas, nem por isso, foi fácil de assistir com conforto ao espetáculo. A empolgação do pessoal, que era razoável nas músicas mais conhecidas do citado Apocalyptic Love e do primeiro álbum solo de Slash (que leva seu nome, e foi lançado em 2010), contrastava com a quase apatia (não confundir com indiferença) com que as músicas mais recentes eram recebidas, mas ia às alturas (sonoras e visuais, traduzidas por pulos e braços, câmeras e celulares jogados para o alto) nas várias canções do Guns And Roses interpretadas na noite. O guitarrista parece ter percebido que seu passado nunca irá lhe abandonar, e, embora tenha dado bastante espaço para World on Fire (do qual foram interpretadas seis canções), colocou no set list da noite ainda mais músicas do Guns and Roses, sendo sete delas desta vez.

Slash em meio a um solo em Porto Alegre

Sobre a parte musical, é desnecessário descrever o talento de todos os envolvidos, inclusive do sempre contestado vocalista Miles Kennedy, o qual, talvez por desta vez ter no repertório várias canções que, originalmente, contam com seu registro em estúdio, acabou me soando bem melhor do que há dois anos e pouco. É claro que nas canções do Guns não dava para esquecermos do cantor original, mas é justo dizer que Kennedy cumpriu seu papel com louvor nesta noite (inclusive assumindo com competência a terceira guitarra durante o solo de Slash em "Anastasia", onde o britânico usou um belíssimo instrumento com dois braços, sendo o superior um violão e o inferior uma guitarra). Só que devo também registrar que bastou o baixista Todd Kerns assumir o microfone para cantar "Doctor Alibi" (que conta com Lemmy Kilmister, do Motörhead, em sua versão de estúdio, e novamente teve Slash nos backing vocals, assim como em 2012) e a clássica "Welcome to the Jungle" (soando maravilhosa como sempre) para aquele sentimento de que Slash tem o vocalista errado em sua banda voltasse com força, pois a voz de Kerns soa bem melhor a meus ouvidos que a do "titular" da "posição". Mas deve ser apenas implicância minha, assim como também deve ser exclusividade deste redator a sensação de que Slash poderia muito bem ter substituído os mais de quinze minutos em que ficou solando durante "Rocket Queen" (logo a minha faixa favorita do repertório do Guns, a qual, por conta disto, passou dos vinte minutos nesta noite!) por mais músicas de seus álbuns, seja de qual fase fossem (ainda sonho ouvir in loco a "By The Sword", que desta vez ficou de fora do repertório da turnê, bem como a "Double Talkin' Jive", esta sim, interpretada algumas vezes durante esta "perna" sul-americana). Esta parte do show é praticamente a única em que Slash assume por longo tempo os holofotes (além de seus solos, claro), visto que, durante o resto da noite, o guitarrista se contenta em ser apenas "mais um" do grupo, deixando para Kennedy o papel de "centro das atenções" do espetáculo, mostrando que vaidade e ego não são coisas que o britânico tenha de forma principal nem elevada (mais uma vez, quanta diferença de seu antigo frontman, hein?).

Gilby Clarke foi chamado ao palco para uma bela redenção de "Mr. Brownstone", e "Sweet Child O' Mine", claro, quase fez o mezanino onde eu estava desabar de tanta gente pulando ao mesmo tempo sobre ele. A conhecida "Slither", de outro projeto pós-Guns de Slash (o Velvet Revolver), foi a escolhida para fechar a parte regular da apresentação, mas todos sabiam que haveria um bis, e até qual seria a escolhida para ele. E "Paradise City" não decepcionou ninguém, com direito a chuva de papel picado (sobre a galera da pista Vip, claro) e um longo solo de Slash, fazendo com que todos saíssemos do Pepsi On Stage saciados de nossa fome de rock and roll, depois de pouco mais de duas horas de mais um espetáculo memorável acontecido na capital gaúcha. Vendo tanta gente reunida mais uma vez para prestigiar Slash e seus asseclas, não é difícil supor que Porto Alegre estará na rota do "guitarrista da cartola" da próxima vez que ele vier ao nosso continente. Estarei esperando, e tomara que não demore!

Miles Kennedy e Slash no palco do Pepsi On Stage

"I think it's time to set this world on fire , it may never be this good again..."

Set List:

1. You're a Lie 
2. Nightrain 
3. Standing in the Sun 
4. Ghost 
5. Back from Cali 
6. Wicked Stone 
7. Too Far Gone 
8. Mr. Brownstone 
9. You Could Be Mine 
10. Doctor Alibi 
11. Welcome to the Jungle 
12. The Dissident 
13. Beneath the Savage Sun 
14. Rocket Queen 
15. Bent to Fly 
16. World on Fire 
17. Anastasia 
18. Sweet Child O' Mine 
19. Slither 

Bis:

20. Paradise City 

Neil Young & Crazy Horse - Psychedelic Pill [2012]


Por Micael Machado

No começo de sua Autobiografia, o músico canadense Neil Young escreve que "quero reunir o pessoal (os músicos da Crazy Horse, sua principal banda de apoio ao longo de sua longa discografia solo) na minha fazenda e gravar, deixar o equipamento funcionando... até termos um grande álbum". Esta reunião, que, para o leitor, dá a impressão de ter acontecido durante o período em que o livro foi escrito por Neil, acabou gerando não apenas um "grande álbum", mas dois, ambos lançados em 2012: Americana, onde Young e seus comparsas Billy Talbot (baixo, vocais), Ralph Molina (bateria e vocais) e Frank "Poncho" Sampedro (guitarra e vocais) revisitam músicas do cancioneiro tradicional dos Estados Unidos, e este Psychedelic Pill, primeiro álbum duplo de estúdio do bardo canadense, e seu mais longo registro de inéditas até aqui. Com oito canções (o track list aponta nove porque uma delas aparece duas vezes) em quase uma hora e meia, ...Pill é o primeiro registro de músicas novas feitas por Neil com a Horse desde Greendale, de 2003 (ou, se formos ser mais exatos, desde Broken Arrow, de 1996, pois Poncho não participou das gravações de Greendale), e é um disco que guarda muitas semelhanças com outros registros do quarteto, como Ragged Glory, de 1990, ou o já citado Broken Arrow.

Assim como aqueles álbuns, a força de Psychedelic Pill reside em longas jams onde a guitarra de Young é a força principal, em solos desbundantes e "longos trechos instrumentais" que, como ele escreve em seu livro, "apenas a Horse consegue acompanhar". Só que, aqui, Neil parecerá, ao ouvinte comum, ter exagerado um pouco na receita, visto que, das três principais faixas (ou "jams") do disco, nenhuma tem menos de quinze minutos, sendo que a maior delas, "Driftin' Back" (logo a faixa de abertura!), passa dos vinte e sete. O que pode soar cansativo para quem não é familiarizado com a obra do canadense, com certeza causará arrepios de prazer em seus seguidores.

Ainda que parecidas na fórmula, as três canções são bem diferentes entre si, tanto musical quanto tematicamente. A citada "Driftin' Back" inicia apenas com a voz de Young acompanhada de seu violão, para, depois de um minuto e vinte segundos, ganhar o acompanhamento elétrico da Crazy Horse e então levar o ouvinte a uma viagem onde a guitarra do bardo parece tão contemplativa e reflexiva quanto sua letra, com Neil relembrando passagens de sua vida e expondo seus pensamentos sobre o mundo, em uma composição que parece ter sido diretamente influenciada pelas reflexões que fez enquanto escrevia seu livro. Um pouco mais "retos" e "duros" (características marcantes da "cozinha" da Crazy Horse, diga-se de passagem), os quase dezessete minutos de "Ramada Inn" acabam soando mais "familiares" aos fãs de Young, abrindo já com quase um minuto de sua guitarra em um belo solo, e tendo por tema um casal cujo relacionamento é marcado pelo alcoolismo. 


Billy Talbot, Frank Sampedro, Ralph Molina e Neil Young ao vivo durante a turnê de Psychedelic Pill

"Walk Like a Giant", a menor das três jams ("não chega nem a dezesseis minutos e meio", como se isso fosse pouco!), acaba sendo também a melhor, com uma "grudenta" frase feita pelos assovios de Young e Talbot, além do melhor refrão de todo o disco, uma letra onde o compositor se mostra preocupado com o destino do planeta e de seus habitantes, bem como o descaso de sua (e da nossa) geração com o tema (algo relativamente comum em sua discografia) e, claro, longos solos de Neil em sua guitarra. Na turnê de promoção do álbum, "...Giant" ganhava uma longa e barulhenta coda, o que fazia com que sua duração variasse em algo entre os vinte e cinco e os trinta minutos de duração! Pensa que alguém reclamava? Cabe citar ainda que o álbum não possuiu uma quarta longa jam em seu track list por decisão puramente pessoal de Young, visto que haveria espaço no segundo CD para os quase trinta e sete minutos e meio de Horse Back”, que começa lembrando a faixa “F*!#in’ Up”, do citado Ragged Glory, e embarca em uma "viagem guitarrística" de mais de dezoito minutos até desaguar em uma maravilhosa redenção de quase vinte minutos para a clássica "Cortez The Killer", registrada no álbum Zuma, de 1975, e minha faixa predileta dentre todas as escritas por Young. “Horse Back” (que é citada, sem que eu tenha conseguido comprovar esta afirmação, como sendo o primeiro registro feito durante aquelas sessões de reunião citadas lá no início) saiu oficialmente apenas como bônus da versão em blu-ray de Psychedelic Pill, privando assim o ouvinte "comum" de apreciar sua beleza!

"She's Always Dancing", outra faixa que pode ser considerada "longa" (passa dos oito minutos e meio), é uma espécie de "versão reduzida" das anteriores, também recheada de solos de guitarra e com a marcação "reta" da cozinha. A faixa título, a quinta composição "roqueira" do disco, tem um marcante riff, que traz à mente ecos da clássica “Cinnamon Girl”, de Everybody Knows This Is Nowhere (primeiro registro de Young com a Crazy Horse, lançado em 1969), mas que é originário das sessões de gravações de Le Noise, de 2010 (mais precisamente, daquele registrado na faixa “Sign Of Love”). "Psychedelic Pill", a música, recebeu um efeito chamado de "phaser" tanto na guitarra quanto na voz, o que a tornou um tanto quanto "psicodélica" (e deve ter sido esta a intenção de seu autor), mas que a faria cansativa e "chata" não fosse ela tão curta (pouco menos de três minutos e meio). Felizmente, há no final uma "mixagem alternativa" sem o efeito, a título de "faixa bônus", e que soa, pelo menos para mim, muito melhor, revelando finalmente a força da canção, que havia ficado soterrada debaixo dos ecos e da "sujeira" da "original". Uma segunda mixagem alternativa também aparece como bônus da versão em blu-ray, mas, como não consegui de forma alguma acesso a esta versão, me eximirei de comentar sobre ela (cabe ainda citar que a versão em vinil do álbum, embora tripla, possui gravações somente em cinco lados, sendo que o sexto tem apenas uma arte incrustada no disco).

Mudando um pouco a "fórmula" das faixas anteriores, "Twisted Road" traz algo de country em seu arranjo, estilo que não é de forma nenhuma incomum à carreira de Neil, e que também aparece em "Born in Ontario", que também mostra o compositor contemplativo e relembrando seu passado, em mais uma faixa talvez influenciada pelas reflexões causadas por sua biografia. A bela "For the Love of Man", que completa o track list, é reflexiva e contemplativa, e segue uma fórmula de reaproveitamento de antigas ideias que Neil adota frequentemente em sua carreira (desta feita, rearranjando uma faixa conhecida anteriormente como “I Wonder Why”, cujas primeiras demos conhecidas datam de 1981, ano em que Young lançou re-ac-tor, também ao lado da Crazy Horse), e acaba sendo um oceano de delicadeza e leveza no meio dos exageros guitarrísticos de suas colegas de álbum.


Capa traseira de Psychedelic Pill

Sempre inquieto, Neil Young já lançou dois discos desde que Psychedelic Pill entrou no mercado, sendo um deles em colaboração com o incensado músico Jack White (A Letter Home, com doze covers acústicos registrados de forma totalmente analógica em uma cabine de gravação datada de 1947, de propriedade do ex-cantor do duo White Stripes) e outro que possui versões orquestrais e para uma big band (em sua edição especial deluxede dez canções originais do bardo canadense, que, apesar da idade, parece ainda longe da aposentadoria! Que os anos e a saúde permitam a Young continuar nos presenteando com boa música, algo que ele tem feito com frequência há quase cinquenta anos! Long live Neil!

"When I think about how good it feels, I wanna walk like a giant on the land"

Track List:

CD 1:

1. Driftin' Back
2. Psychedelic Pill
3. Ramada Inn
4. Born in Ontario

CD 2:

1. Twisted Road
2. She's Always Dancing
3. For the Love of Man
4. Walk Like a Giant
5. Psychedelic Pill" (Alternate Mix)

Bônus da versão em Blu-Ray:

1. Horse Back
2. Psychedelic Pill (Alternate Mix 2)