domingo, 17 de agosto de 2014

Box Set: King Crimson - The Road to Red [2013]



Por Micael Machado

Para os fãs da "fase elétrica" do King Crimson (o período entre 1972 e 1974, o qual compreende a trilogia composta pelos discos Larks' Tongues in Aspic, Starless And Bible Black e Red, quando a banda era composta pelo guitarrista Robert Fripp, que também operava o mellotron, o baixista e vocalista John Wetton, o baterista e percussionista Bill Bruford, o violinista David Cross, outro que também atacava as teclas do mellotron, e o percussionista e baterista Jamie Muir, que tocou apenas no primeiro disco da trilogia), havia no mercado poucas opções para ouvir gravações ao vivo e com qualidade que mostrassem o poder que tinha sobre um palco o quarteto resultante da saída de Jamie Muir ainda em 1973 (visto que bootlegs desta época rolam aos montes por aí nos sites da internet). Há o subestimado álbum USA (gravado em sua maioria a 28 de junho de 1974 em Asbury Park, New Jersey, e que conta com a participação do violinista Eddie Jobson em três faixas, em overdubs de estúdio adicionados posteriormente); o duplo The Night Watch, gravado em 1973 na Holanda; alguns poucos lançamentos do Collectors Club da banda (sempre difíceis de se adquirir); e o box set The Great Deceiver, com quatro CDs que traçam um belo paralelo do grupo ao vivo ao longo dos anos de 1973 e 1974, mas que virou uma grande raridade nos mercados da vida, sendo mais facilmente encontrada em sua versão com dois CDs duplos relançada em 1998, a qual que não possui o mesmo charme da edição original. Para suprir esta carência de material "live" de um dos melhores períodos de um dos mais importantes grupos do progressivo inglês, surgiu em 2013 o super box set The Road To Red, que reúne, ao longo de 21 CDs, um DVD e dois blu-rays (infelizmente, não há imagens nestas mídias), dezesseis apresentações do quarteto entre 28 de abril e primeiro de julho de 1974. A quantidade e qualidade do material apresentado aqui é tamanha que, confesso, minha vontade é analisar faixa a faixa de cada disco nesta resenha, mas, sabendo que o texto ficaria enorme e de difícil leitura, tentarei ser o mais sucinto possível em minha análise do pacote.

Mesmo com a grande qualidade técnica de seus integrantes, assim como ocorria a outros gigantes do estilo, o Rei Escarlate não era lá muito afeito a executar no palco grandes variações em relação às versões oficiais "de estúdio" de suas composições (as aspas se justificam porque muito do material dos três discos desta fase foi registrado ao vivo, com retoques de estúdio posteriores). Desta forma, com repertórios bastante parecidos entre os CDs (basicamente, quase todo Larks' Tongues In Aspic e umas poucas faixas de Starless And Bible Black, além da então inédita "Starless", que só viria a aparecer oficialmente em Red, com um arranjo e instrumentos diferentes), e sem que existam muitas diferenças consideráveis de execução entre elas, o que acaba atraindo mais a nossa atenção são os praticamente onipresentes improvisos registrados em cada CD. Ainda que apareçam quase sempre em pontos específicos (normalmente antes de "Exiles" ou "The Talking Drum"), todos são diferentes entre si, e mostram várias facetas da criatura chamada King Crimson à época. Variando entre dois a seis minutos de duração (com raras exceções), podem ser calmos e etéreos (como a maioria dos que antecedem "Exiles"), ou por vezes sombrios e assustadores (como alguns dos que vem antes de "... Drum"), porém são, quase sempre, muito interessantes de ouvir, ainda mais para aqueles não familiarizados com a sonoridade de palco desta encarnação do grupo.

John Wetton, Robert Fripp, David Cross e Bill Bruford retratados nas capas de quatro dos CDs do box set The Road To Red

Aqueles que já ouviram algum dos discos ao vivo citados lá no início, sabem que a qualidade do grupo nesta época era algo que beirava o absurdo. Com uma cozinha possante e extremamente entrosada (formada por dois dos melhores músicos que o rock progressivo já produziu em seus respectivos instrumentos), Fripp se dividindo entre guitarras, efeitos e mellotrons, e David Cross se repartindo entre seu violino e o mellotron (além de ocasionalmente encarar até mesmo a função de flautista), o grupo executa os temas selecionados com uma capacidade e habilidade acima da média, com aquele talento que os já convertidos à musicalidade do Rei Escarlate conhecem tão bem. Como disse, as versões não possuem grandes mudanças em relação às "oficiais" constantes nos álbuns regulares, porém, é sempre possível encontrar um solo diferente de violino ou guitarra aqui e ali, uma interpretação mais emocionante ou visceral de Wetton dentre uma versão e outra da mesma canção, ou até mesmo um trechinho que parece improvisado em meio a frases instrumentais com as quais já estamos acostumados há tempos. Ouvir cada show destes CDs é como desbravar um pouco a personalidade de um grupo estranho, incomum, mas que consegue cativar àqueles que deixarem os ouvidos abertos à sua sonoridade.

Alguns poucos dos improvisos citados antes receberam nomes individuais, como se fossem novas composições, a exemplo de "Improv: Daniel Dust" e "Improv: Bartley Butsford", no CD 2, "Improv: Wilton Carpet", do disco 3, os quase doze minutos de "Improv: The Golden Walnut", no disco 11, os dez minutos de "Improv: Clueless And Slightly Slack", no CD 12, "Improv: Is There Life Out There?" e "Improv: It Is For You, But Not For Us" no disco 17, ou ainda "Improv: A Voyage To The Centre Of The Cosmos" no CD 18, sendo que todos eles já haviam aparecido antes no box The Great Deceiver. Ainda há, no disco 20, "Improv: Cerberus", gravado no Central Park, em New York, no dia primeiro de julho de 1974 (último concerto de David Cross com o grupo), e que faz parte do disco do Collectors Club dedicado a este show, e, ainda "Improv: Asbury Park" no disco 16, este que está incluído no track list de USA, bem como boa parte das demais faixas da apresentação registrada nesse CD. Além, é claro, de "Improv: Providence", presente neste box no CD 18, e que, depois de abreviado e modificado em estúdio, viria ser a faixa de abertura do lado B de Red. Uma curiosidade é a presença, apenas no CD 3, de uma redenção para a rara "Doctor Diamond", faixa que aparece em alguns bootlegs desta época, mas que nunca recebeu uma adequada versão "oficial" por parte da banda, estando presente, que eu saiba, apenas nos discos 15 e 29 do Collectors Club, ambos gravados na Alemanha em março de 1974.

A qualidade de áudio em geral é excelente, retirada de gravações profissionais feitas durante a turnê ou de registros gravados junto à mesa de som dos locais onde o grupo se apresentava (apenas um CD, o de número 20, foi retirado de um bootleg feito a partir da audiência), com pouquíssimas exceções, como o início e o final do show de Fort Worth a 6 de junho (presente no CD 5), onde foi utilizado o áudio de um bootleg gravado da audiência em partes de "Easy Money" e na totalidade de "21st Century Schizoid Man" (única música das encarnações anteriores da banda presente ao longo do box, aparecendo no set list de oito diferentes shows). Há também uma certa "falcatrua" no CD 6, onde foi inserido um trecho do áudio presente no CD 5 para completar uma falha em "The Talking Drum", em uma parte na qual a fita de gravação acabou no meio da canção. Mas a inserção foi tão bem feita que, se não tivesse sido creditada, duvido alguém perceber! Já em outros discos, como nos CDs 7 ("Starless", onde falta a parte central), 10 (onde não temos o início de "Easy Money") ou no CD 8 ("The Talking Drum", sem o final), as faixas aparecem incompletas mesmo, e não foi feito nenhum tipo de "conserto", como na situação anterior, sendo que diversas vezes a faixa de abertura ou encerramento de um CD também inicia ou termina lá pelo meio, em algo que acaba frustrando um pouco o ouvinte mais exigente.

O conteúdo do box set The Road To Red

O box se completa com diversos "mimos" que se provarão interessantíssimos para os fãs do grupo. Há duas litografias reproduzindo a capa e a contracapa de Red e de USA, uma reprodução do itinerário da banda em abril daquele 1974 (indicando quatorze apresentações em vinte dias), um texto da época promovendo o disco Red, outro sobre o álbum USA e a dissolução do conjunto, uma reprodução de um manuscrito (feito em um papel timbrado do Holiday Inn de Baltimore) da letra de "Starless" (ainda intitulada "Starless And Bible Black"), um envelope que reproduz a fita de gravação de Red, e que contém fotos individuais dos membros da banda, uma reprodução do cartaz de promoção do show de Asbury Park, e um número variado de set lists manuscritos das apresentações do grupo naquela turnê (já encontrei edições com um número que variava entre um e nove manuscritos). Completando o pacote, há um livreto de quarenta páginas com um texto atual (contando com as impressões dos membros da banda) sobre o King Crimson daquela época, um relato do produtor David Singleton sobre como foi reunir e restaurar as fitas de áudio que deram origem aos CDs, diversas fotos interessantíssimas (muitas delas inéditas) e o diário de turnê de Robert Fripp registrado ao longo da turnê de 1974, onde o guitarrista quase sempre aparece reclamando de alguma coisa, especialmente da vida na estrada, dos membros do grupo e de sua insatisfação com os concertos feitos pelo King Crimson (além de demonstrar praticamente desde o início da digressão sua vontade de acabar com aquela encarnação do Rei Escarlate, algo que efetivamente viria a fazer ainda antes do lançamento de Red). Curioso é que, após os registros de Fripp em algumas das apresentações, são apresentadas opiniões registradas na época atual de pessoas presentes aos mesmos (inclusive um então jovem Pat Mastelotto, que anos depois viria a se tornar baterista do grupo, em um certo período até mesmo atuando ao lado de Bruford), as quais enaltecem espetáculos que, em seus escritos, o guitarrista faz questão de criticar entusiasticamente, provando que o perfeccionismo (e a "chatice") do eterno líder do Rei Escarlate não é nenhuma lenda.

Mesmo que apenas seis dos 21 CDs ultrapassem os cinquenta minutos de duração, infelizmente The Road To Red não contempla todas as faixas do box The Great Deceiver, pois faltam as gravações dos shows de Glasgow em outubro de 1973, e de Zurique, na Suíça, em novembro do mesmo ano, e que estão presentes naquele lançamento. Também não aparece aqui a parte de vídeo da edição de quadragésimo aniversário da banda feita para Red lançada em 2009 (com uma apresentação do quarteto na TV francesa), assim como estão presentes, nesta nova caixa, apenas em um dos Blu-Rays as faixas bônus daquela versão (as "Trio Version" para "Red" e "Fallen Angel"), estando estas ausentes da versão com o mix de 2013 para o disco original presente no CD 21 e no DVD de áudio. Sendo assim, apesar da quantidade de material apresentado, essa caixa ainda não é a "edição definitiva" desta época do reinado do King Crimson, algo que é de certo modo frustrante devido à grande quantidade de espaço que sobra em certos discos (especialmente os CDs de número 8, com meros 37 minutos, e de número 19, com um minuto a menos e apenas três músicas), os quais poderiam ser melhor "acomodados" para incluir este material, algo que, certamente, seria valioso para o fãs do conjunto. Mas viva a regra do mercado, certo, Sr. Fripp? Venda a mesma coisa várias vezes ao seu público fiel (ainda que ligeiramente diferente para justificar a compra), mas não deixe de lucrar o máximo possível. The Road to Red justifica com sobras o pesado investimento a ser feito, e o que se tem aqui já está de excelente tamanho, mas, sem dúvidas, poderia ser ainda melhor.

A parte de trás do box set The Road To Red

"Just making easy money..."

(Nota: Como listar cada música de cada CD tomaria um espaço muito grande neste texto, sugiro que o caro leitor acesse aqui ou aqui para ter uma descrição mais precisa do conteúdo de cada disco. Boa viagem!).

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