sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Review Exclusivo: Ratos de Porão (Porto Alegre, 11 de novembro de 2013)


Por Micael Machado

Pouco mais de um ano depois de sua mais recente aparição na cidade, o quarteto paulista Ratos de Porão retornou a Porto Alegre para participar da edição de novembro da "segunda maluca", festa que rola uma vez por mês no Bar Opinião, sempre às segundas-feiras, como o nome alude. Assim como em 2012, novamente o dia foi de uma chuva torrencial na cidade, causando alagamentos e transtornos de diversos tipos aos moradores da capital do Rio Grande do Sul. Talvez por isso, o público que compareceu ao local não tenha sido em número muito elevado, mas a vibração e a energia que rolava na imensa roda de pogo no meio da pista faziam parecer que a casa estava lotada!

Com o show marcado para as 23:15, a casa exibiria antes um espetáculo protagonizado pela atriz María Antonieta de las Nieves, que interpreta a Chiquinha do seriado Chaves, e o contraste entre o pessoal que saía da apresentação da  mexicana e o que chegava para o show do Ratos era bastante curioso de se ver. Com a casa liberada pelos fãs do famoso programa televisivo, a banda Tijolo Seis Furos (vinda de Santa Maria, no interior do estado) fez o "esquenta" do pessoal, em pouco mais de vinte minutos de um hardcore veloz e furioso, com destaque para o vocalista Homero, que frequentemente descia do palco chegando junto à grade que separava o pessoal, chegando até a pular a mesma e ir cantar e pogar no meio da pista, junto ao pessoal! Na estrada desde 1995, o quinteto já possui duas demos e um CD independente em seu currículo, e, mesmo no pouco tempo que lhe foi reservado, mostrou que tem condições de alçar voos mais altos no cenário hardcore nacional! 

Tijolo Seis Furos no palco do Opinião

Passava um pouco das 23:30 quando o telão à frente do palco se ergueu revelando Jão (guitarra), Juninho (baixo) e Boka (bateria) já a postos, com João Gordo (vocais) entrando em cena logo depois, para iniciar a apresentação com "Igreja Universal", cantada em coro pelo pessoal! A partir daí, o que se viu foi uma sucessão de "porradas" do hardcore nacional, interpretadas quase sem intervalos por uma das principais bandas do estilo no país. Nas poucas vezes em que se dirigiu ao público, João aproveitou para agradecer o pessoal que compareceu "mesmo debaixo de toda essa chuvarada" (no dia anterior, uma apresentação do grupo na cidade serrana de Caxias do Sul teve de ser interrompida pouco depois de iniciada devido à queda de parte do telhado do local do show, causada pela intensa chuva que caiu na serra gaúcha), lembrou que o grupo "faz som de tiozinho, todo mundo aqui é pai de família, menos o Juninho, que é pai de um cachorro" (a uma garota que gritou que lhe amava, Gordo rebateu: "eu tenho idade para ser teu pai, menina"), declarou preocupação quanto ao futuro de seus filhos e de todas as crianças (antes de cantar "Testemunhas do Apocalipse"), criticou a classe politica nacional ("lugar de político corrupto é no caixão, mas não por assassinato, por intervenção divina, tem de sofrer de câncer de próstata, ataque cardíaco", antes de "Suposicollor", ou "vamos todo mundo votar nulo, não sustente parasitas", antes de "Velhus Decrepitus"), e declarou que "a banda hoje tem mais de trinta anos, e já foi acusada de muita coisa, mas nunca perdeu a dignidade". 

Como as músicas do Ratos são, em sua maioria, bastante curtas, e a maneira de cantar de João por vezes torna as letras ininteligíveis, mais uma vez, foi impossível apurar um set list correto da apresentação, visto que, muitas vezes, quando eu estava tentando reconhecer uma canção, a próxima já havia começado! Sei é que boa parte dos "crássicos" dos mais de trinta anos de carreira foram tocados com garra de iniciantes nesta noite! "Beber Até Morrer", "Sofrer", "Morte Ao Rei", "Paranoia Nuclear", "AIDS, Pop, Repressão", "Mad Society", todas tiveram sua vez ao longo da apresentação, e até mesmo algumas "surpresas" surgiram no repertório escolhido, como "Amazônia Nunca Mais", "Máquina Militar", "Sentir Ódio e Nada Mais" e "Realidades da Guerra". Ainda houve espaço para "O Dotadão Deve Morrer", cover dos Cascavelletes registrada no disco Feijoada Acidente - Brasil, que acaba de ser relançado pelo selo do próprio João Gordo, o Bruak Records, pelo qual já está prometido o novo álbum de estúdio do grupo, a se chamar Século Sinistro, e do qual eu achei que o grupo tocaria alguma composição nesta noite, algo que não aconteceu, assim como ficou ausente o "momento couve" do espetáculo (onde o Ratos interpreta covers de outros grupos), ficando o mesmo restrito à citada "Dotadão" e a "Work For Never", original do Extreme Noise Terror, mas cuja versão dos paulistas já merece ser considerada um "crássico" do conjunto!

Jão, Gordo, Boka e Juninho no palco do Opinião

Depois de pouco mais de cinquenta minutos, "Crise Geral" encerrou a apresentação, mas o quarteto logo voltou para um bis recheado de dez minutos de pancadaria pura, onde executaram "Agressão/Repressão", "Obrigado A Obedecer", a esperada "Crucificados Pelo Sistema", "Pobreza", "Caos" e a surpreendente "F.M.I.", se eu estiver correto na ordem que apurei. Foi o que bastou para acabar com as energias do pessoal que estava na pista, e nos mandar a todos para casa com um enorme sorriso aberto!

Show do Ratos é certeza de bom divertimento, "porradaria" musical e satisfação garantida! Se você gosta de hardcore, e tiver a oportunidade de comparecer a uma apresentação deste lendário grupo, não deixe a chance passar, ou poderá se arrepender amargamente!

Foto do final da apresentação, retirada do facebook oficial do grupo. Este que lhes escreve aparece ao fundo, entre João e Jão, com a camiseta do disco Anarkophobia

"Viver feliz é ilusão e nada mais! Será?"

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