domingo, 26 de outubro de 2025

Mountain - Climbing! [1970]


Por Micael Machado

Apesar de quase nunca aparecer naquelas listas de "melhores" que surgem de vez em quando aqui e ali, Climbing!, do grupo norte-americano Mountain, é, sem sombras de dúvidas, uma das melhores estreias vinílicas de todos os tempos. Embora, para muitos, não seja sequer o primeiro disco da banda...

A história do Mountain pode começar a ser contada a partir de meados dos anos 1960, quando o produtor, compositor e multi-instrumentista Felix Pappalardi começou a ter certo destaque na "cena" da época através de seus trabalhos como produtor ou músico de estúdio de diversas bandas do período, especialmente algumas sediadas na costa leste do país, como The Devil's Anvil, The Youngbloods e a dupla canadense de folk e country Ian e Sylvia. Em meados de 1967, o power trio inglês Cream escolheu Felix para produzir seu segundo registro, Disraeli Gears, lançado em novembro daquele ano. O trabalho de Pappalardi junto ao grupo formado por Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker foi tão bem recebido, que Felix continuaria trabalhando com a banda nos discos seguintes do trio (não apenas como produtor, mas também contribuindo nas composições e como instrumentista no estúdio), além de ser produtor dos dois discos ao vivo lançados entre 1970 e 1972, já depois da separação do grupo britânico.

Pois foi após o final do Cream, em 1969, que Pappalardi foi procurado pelo guitarrista e vocalista nova-iorquino Leslie West, com quem o produtor já havia trabalhado anteriormente, quando o músico ainda integrava os Vagrants (grupo que mantinha junto a seu irmão, o baixista e vocalista Larry West), banda para a qual Felix havia produzido alguns singles entre 1966 e 1967. West havia montado uma nova banda, e gostaria de contar com os serviços de Pappalardi como produtor. Ainda abalado pelo final prematuro do Cream, e louco para descobrir uma banda que continuasse a sonoridade do power trio que ele havia produzido, Felix compareceu a um ensaio da banda de West, e gostou tanto do que ouviu que se ofereceu não só para produzir o grupo, mas também para assumir o baixo da banda, alegando que o baixista original era muito "fraco" para empunhar o instrumento.

Ficou acertado que, ao invés de um novo grupo, o trio (completado pelo baterista N.D. Smart II) registraria um álbum pelo recém fundado selo de Pappalardi, o Windfall Records (na Inglaterra, o disco sairia pelo selo Bell Records), o qual seria lançado como o início da carreira solo de West, e que chegou ao mercado em julho de 1969, sob o nome de Mountain (apelido "carinhoso" dado pelo produtor ao guitarrista, devido ao seu porte físico, digamos, "avantajado") - cabe citar que o álbum conta, em algumas faixas, com a participação de Norman Landsberg nos teclados, ele que era o tal "baixista fraco" do trio original imaginado por West, o qual era completado pelo baterista Ken Janick. Além de gravar e produzir o disco, Felix também saiu em turnê com West e Smart (além do reforço do tecladista Steve Knight), com a banda chegando até mesmo a se apresentar no festival de Woodstock, em agosto daquele ano, naquele que foi, apenas, o quarto show da carreira do grupo.

Com a boa repercussão da apresentação em Woodstock (e do próprio disco solo de West, que levou muitos a considerarem a sonoridade do grupo como uma espécie de "resposta" norte-americana ao som do Cream), Leslie e Pappalardi resolveram "oficializar" de vez a banda sob o nome Mountain, mantendo Knight na formação (segundo declarações de West anos depois, simplesmente porque Felix não queria que a banda soasse excessivamente parecida com o Cream), mas trocando N.D. Smart pelo baterista canadense Corky Laing (que integrava, então, a banda Energy, que já havia sido produzida por Gail Collins, esposa de Felix Pappalardi), o qual, além de arrasar com as baquetas, também se revelaria um compositor de mão cheia, colaborando diretamente para criar alguns dos maiores sucessos do quarteto nos anos futuros.

O Mountain na arte da capa interna do vinil de Climbing!: Corky Laing, Leslie West (atrás), Steve Knight e Felix Pappalardi (à frente)

O primeiro registro desta turma, lançado em março de 1970, é justamente o citado Climbing!, que, se na teoria é o álbum de estreia do Mountain, na prática, para muita gente (inclusive este que vos escreve), é considerado como o segundo registro da banda, visto que West e Papallardi estavam juntos na gravação do disco solo de West. Seja ele o início ou não da trajetória do Mountain, o que não se pode discutir é que Climbing! é um dos grandes álbuns da década de 1960 (que, nunca esqueçamos, terminou justamente em 1970), desde a sua abertura com a hoje clássica "Mississippi Queen", composição de Laing não aproveitada pelo Energy, a qual foi rearranjada por West, e se tornou a música mais conhecida da carreira da banda, sendo regravada posteriormente por grupos como Bachman-Turner Overdrive, Ted Nugent (ao lado do Molly Hatchet), W.A.S.P. e Ozzy Osbourne (que contou com a participação especial do próprio Leslie West nas guitarras da sua versão). Na mesma linha musical da primeira faixa, outra composição que se tornou um "clássico" deste registro é "Never in My Life", cujo riff é um dos mais reconhecidos da discografia do grupo, e que surgiu de uma jam feita de improviso entre West e Laing, após Felix já ter ido para casa ao final de uma das muitas sessões diárias de ensaios (as quais chegavam a durar até dez horas, com a "mão de ferro" do produtor e baixista Papallardi comandando os músicos "de perto") feitas pelo grupo, com Corky ficando responsável pelas letras de mais este destaque do álbum.

Entre estas duas faixas mais "roqueiras", temos a calma (e linda) versão do Mountain para "Theme for an Imaginary Western", composição de Pete Brown e Jack Bruce registrada pelo ex-baixista do Cream em seu primeiro disco solo, Songs for a Tailor, lançado em 1969. Cantada por Papallardi, a faixa é uma das mais tocantes e melódicas da carreira do grupo, e se tornaria um destaque ao longo dos anos nos shows feitos pelo Mountain. Felix também assume os vocais principais em "The Laird", outra faixa de ritmo mais lento, onde a guitarra de West soa quase como uma cítara em certas partes, além de dividir o microfone com Leslie no encerramento do álbum, com a variada "Boys In the Band" (que mescla partes lentas e alternadas, além de dar destaque para o mellotron de Knight), na homenagem da banda ao festival de Woodstock na forma da balada "For Yasgur's Farm" (outra composição que se tornou um clássico da carreira do grupo, e que também dá bastante destaque para os teclados de Steve, além de apresentar outro solo maravilhoso de West - a "fazenda de Yasgur" foi o local onde o festival aconteceu, que, à época, era de propriedade do fazendeiro Max Yasgur) e na faixa que encerra o lado A do vinil original, a agitada e "estradeira" "Silver Paper", outra composição que se tornou bastante apreciada pelos fãs dentre as músicas gravadas pela banda em sua carreira.

"Sittin' On a Rainbow" é uma faixa "típica" de sua época, e poderia, facilmente, ser confundida com uma canção do já citado Bachman-Turner Overdrive ou de outros grupos do estilo na época, não fossem os vocais e a guitarra de West. Fechando o track list da versão original, temos a instrumental acústica "To My Friend", onde o violão de Leslie vai, como escreveu o jornalista Robert Christgau em seu livro "Christgau's Record Guide: Rock Albums of the Seventies", "do raga ao flamenco". Algumas versões posteriores em CD ainda trazem uma versão ao vivo de "For Yasgur's Farm" como bônus, além de "liner notes" escritas tanto por West quanto por Laing falando sobre o disco.

Contracapa da versão em vinil de Climbing!

Com pouco mais de trinta e dois minutos e arte gráfica a cargo da já citada Gail Collins, Climbing! chegou à décima sétima posição nas paradas dos Estados Unidos na época, com o single de "Mississippi Queen" chegando ao número 21 da parada da Billboard (o single de "For Yasgur's Farm" parou na posição 107, enquanto o de "Silver Paper" não chegou a figurar nas paradas). Infelizmente, a banda teria apenas mais dois anos de auge, com Papallardi se afastando do grupo devido a problemas de audição desenvolvidos graças ao altíssimo volume das apresentações ao vivo da turma. West e Laing formariam então o power trio West, Bruce and Laing ao lado do baixista e vocalista Jack Bruce, antes de retornarem com o Mountain para um último disco ao lado de Felix em 1974, o também recomendável Avalanche. Com a separação definitiva do Mountain após um show de despedida no Felt Forum de Nova Iorque em 31 de dezembro daquele ano, Papallardi foi trabalhar com o grupo japonês Creation, além de lançar um álbum solo em 1979 (intitulado Don't Worry, Ma), com West e Laing continuando juntos por um tempo na recém formada The Leslie West Band, antes de os dois saírem em carreiras individuais no final da década de 1970. O guitarrista e o baterista ainda tentariam algumas "voltas" do Mountain entre 1984 e 2007, gravando alguns álbuns que não conseguiram alcançar as glórias e os méritos daqueles registrados entre 1969 e 1974, sendo que estes discos, infelizmente, não puderam contar com a participação de Papallardi, assassinado com um tiro no pescoço dado por sua própria esposa em 17 de abril de 1983. West viria a falecer de um ataque cardíaco em 21 de dezembro de 2020, enquanto Laing continua a excursionar com sua própria banda ainda hoje, mantendo vivo, de certa forma, o nome do Mountain, grupo que, para mim e muitos outros, atingiu seu auge logo em sua estreia vinílica, o qual, segundo alguns, é o segundo disco da banda...

Track List:

1. Mississippi Queen
2. Theme For An Imaginary Western
3. Never In My Life
4. Silver Paper
5. For Yasgur's Farm
6. To My Friend
7. The Laird
8. Sittin' On A Rainbow
9. Boys In The Band

domingo, 12 de outubro de 2025

The Completers – The Completers [2025]


Por Micael Machado

Depois de dois compactos e um EP lançados entre 2017 e 2020, o quarteto gaúcho de pós-punk The Completers, formado por Felipe Vicente (vocal, guitarra e sintetizador), Jonas Dalacorte (guitarra), Lucas Richter (baixo) e Guilherme Chiarelli Gonçalves (bateria e pads), finalmente chega ao seu full lenght de estreia. Lançado em março deste ano pelo selo Yeah You! (nas versões CD, vinil - numa bela edição na cor vermelha - e K7, além de disponível nas hoje obrigatórias plataformas digitais), o disco, autointitulado, foi gravado entre janeiro de 2023 e agosto de 2024 (à exceção das baterias, gravadas ainda em 2019), com produção da própria banda, tendo a mixagem sido feita pelo guitarrista Jonas Dalacorte e a masterização ficado a cargo do estadunidense Carl Saff, que já trabalhou com nomes como Sonic Youth, Mudhoney e Fu Manchu. 

Nos pouco menos de quarenta minutos do álbum, o grupo apresenta várias das características típicas do pós-punk, como baterias secas (por vezes, soando quase como um instrumento eletrônico), linhas de baixo graves (que, muitas vezes, "guiam' as músicas, tomando a frente dos outros instrumentos), e guitarras mais preocupadas em criar "climas" para as canções do que em executar linhas e riffs mais impactantes (além de quase não haver solos do instrumento ao longo das composições). Os vocais não são tão graves quanto os de outros expoentes do estilo (e, certamente, menos derivativos do timbre adotado por Ian Curtis, do Joy Division, quanto aqueles usados em alguns lançamentos anteriores da banda), e as composições do quarteto geralmente fogem daquela linha "arrastada e depressiva" tradicional do pós-punk, incorporando algumas passagens mais velozes e "agitadas" do que o normalmente encontrado na "cartilha" do estilo, lembrando em muito algo feito em certas canções do já citado Joy Division, ou as composições do início da carreira do The Cure (sendo Wire e The Sound outras bandas citadas como influências pelo pessoal do grupo). As letras são mais pessoais e introspectivas, como mostram versos como "Nada resta dentro de mim/E, no final, nunca conseguimos o que merecemos", "Há uma cicatriz em meu coração/E sou o único que consegue senti-la", "Por todas as noites que passei sozinho/E os momentos em que percebi que não tinha ninguém além de mim", "As memórias de nós dois estão desaparecendo/E as imagens das risadas e dos choros já não existem mais" ou "Eu não pertenço a esta estrada que percorro", algo que, novamente, lembra os textos de Ian Curtis e do Joy Division.

The Completers: Felipe Vicente, Lucas Richter, Guilherme Chiarelli Gonçalves e Jonas Dalacorte

Das dez faixas do registro, duas já haviam aparecido nos lançamentos anteriores (as "rápidas" "End", que abre os trabalhos do disco, e já havia sido lado A do compacto de 2020, e "Silence", faixa título do compacto de 2017), as quais são destaques dentre o track list da estreia do The Completers, ao lado da longa "Hypnosis" (com mais de sete minutos quase todos instrumentais, e que, para mim, apresenta os melhores trabalhos de guitarra do álbum), da mais lenta "Bag Of Bones" (que apresenta um vocal um pouco mais grave que as demais composições do álbum) e de "Innocent Boy", uma composição mais "marcada", que vai construindo um angustiante clima em "crescendo" que, infelizmente, não chega a "explodir" como promete fazer ao longo de seus pouco mais de dois minutos e meio. "Past Year", outra faixa mais rápida que o usual no mandamento do pós-punk, foi escolhida como primeira faixa de trabalho do álbum, ganhando inclusive um vídeo clipe, dirigido pelo cineasta Theo Tajes.

A mais cadenciada "Please Me" tem um violão como destaque ao longo de sua duração, enquanto o uso dos teclados e sintetizadores, ao contrário do que ocorreu nas composições do EP Unspoken Signals, acabou bastante restrito neste álbum de estreia, sendo utilizado mais para criar "climas" em algumas poucas faixas, e alcançando um destaque maior apenas na marcada "Symptôma", em partes da citada "Hypnosis" e mais ao final da faixa de encerramento, "Mirage", que, com quase seis minutos, é a única (ao lado de "Hypnosis") a ultrapassar os cinco minutos, sendo que apenas a citada "End" e a lenta "Chemicals" (que lembra algo dos primeiros registros do Cure com Simon Gallup na formação) passam dos quatro minutos, com as demais ficando entre os dois minutos e meio e uma duração pouco maior que os três minutos. 

Contracapa da versão em vinil de The Completers

The Completers é uma bela estreia para o grupo porto-alegrense, que completou dez anos de existência neste 2025, e vem a somar bastante em um estilo musical que já não anda mais tão em alta no país quanto em décadas passadas, mas que ainda insiste em permanecer ativo e atuante, ainda que muitas vezes em bandas sem tanta divulgação e mais voltadas ao underground. Que um segundo registro completo não demore tanto quanto o primeiro, e que a carreira do quarteto ainda traga mais melodias para iluminar (ou escurecer de vez) as almas dos fãs do pós-punk pelo país. Aguardemos!

Track List:

1. End
2. Past Year
3. Symptôma
4. Chemicals
5. Hypnosis
6. Please Me
7. Silence
8. Bag Of Bones
9. Innocent Boy
10. Mirage

Os Replicantes – Os Replicantes 40 Anos [2025]

Por Micael Machado

No ano de 2024, o grupo de punk rock gaúcho Os Replicantes completou quatro décadas de atividades sobre os palcos. Para celebrar a ocasião, um show da banda foi marcado para o dia 16 de maio daquele ano no Bar Opinião, em Porto Alegre, exatamente quarenta anos depois da primeira apresentação "oficial" da turma, ocorrida em 16 de maio de 1984 no seminal Bar Ocidente, na capital gaúcha. Infelizmente, a tragédia climática que se abateu sobre o Rio Grande do Sul no começo daquele maio de 2024 (causando, dentre outras tragédias, a maior enchente da história do Estado) fez com que a apresentação fosse postergada, com a "festa punk" ocorrendo somente no dia 15 de agosto daquele ano, em um Opinião completamente lotado para celebrar junto à banda este aniversário tão marcante. Parte da apresentação d'Os Replicantes naquela noite foi lançada oficialmente agora em julho de 2025 no disco Os Replicantes 40 Anos, através de uma parceria dos selos independentes E-Discos.net e Made In Soul Records.  Com edição apenas em vinil (numa belíssima versão na cor preta esfumaçada, com capa gatefold e um encarte repleto de fotos e com a ficha técnica completa do show, tendo produção, mixagem e masterização a cargo de Lucas Hanke, da produtora Marquise 51), a bolachona traz alguns dos maiores clássicos da banda, além de algumas "surpresas" para os fãs de longa data.

Para esta apresentação especial, a banda reuniu, pela primeira sobre um palco, todos os integrantes que já passaram por seus diferentes "line ups" (eu mesmo já cheguei a assistir shows do grupo com as presenças de alguns músicos de formações anteriores em participações em ocasiões especiais, mas não com a totalidade dos oito membros e ex-integrantes da turma sobre o mesmo palco, na mesma noite). Desta forma, o disco (e a apresentação) começa com os integrantes da formação atual Cláudio Heinz (guitarras), seu irmão Heron Heinz (baixo) - ambos membros fundadores dos "Repli" - e a vocalista Julia Barth (no grupo desde 2006) junto ao baterista original Carlos Gerbase, que segurou as baquetas do quarteto desde sua fundação até 1989. Logo na segunda música, Julia cede lugar ao cantor original da turma, o "punk brega" Wander Wildner, que comanda o microfone nas próximas duas músicas, marcando a reunião da formação inicial dos Replicantes em uma apresentação ao vivo sei lá eu quantos anos depois da última vez de Wander, Cláudio, Heron e Carlos juntos sobre um palco em suas funções originais (talvez desde 1989?), antes do cantor passar o posto de "front man" para Gerbase, como já havia ocorrido antes na história do grupo, quando Carlos saiu de trás da bateria para se tornar a voz principal do grupo. Assim como ocorreu no passado, junto à troca de funções de Gerbase também chegam ao palco (e, metaforicamente, à própria banda) o baterista Cleber Andrade e a tecladista e cantora de apoio Luciana Tomasi (neste show, restrita apenas ao microfone). Neste disco, Gerbase permanece no posto por três canções, tendo, em uma delas, a companhia do saxofonista Ricardo "King Jim" Cordeiro, ex-integrante dos Garotos da Rua (outra importantíssima banda gaúcha no cenário do rock and roll), e que chegou a integrar os "Repli" na formação que gravou e divulgou o disco Andróides Sonham com Guitarras Elétricas, de 1990. Com a saída de Gerbase, Luciana e King Jim do palco (e, como ocorreu no passado, da própria banda), Wander volta ao microfone para cantar "Astronauta", representando sua segunda passagem pelo grupo, ocorrida entre 2002 e 2006, antes de sair novamente (do palco e da banda), dando lugar a Julia, que assume o microfone nas cinco primeiras músicas do Lado B, onde temos então a presença apenas da formação atual do quarteto (Julia, Cláudio, Heron e Cleber), com o LP terminando com as duas faixas do bis daquela noite, as clássicas "Surfista Calhorda" e "Festa Punk", onde os versos são divididos pelos três vocalistas que já ocuparam esta função na banda, além das presenças de Luciana e King Jim nos backings.

Detalhe da bela edição em vinil preto esfumação, além do encarte e contracapa do disco Os Replicantes 40 Anos

A gravação do show, mesmo feita de forma independente, ficou muito acima da média (só achei a guitarra meio "magrinha" em certos momentos, mas nada que estrague a experiência), e o repertório escolhido para o disco, mesmo que não traga a íntegra do que aconteceu no Opinião naquela noite (um vídeo amador, facilmente encontrável no Youtube no momento em que escrevo, mostra um repertório de vinte e cinco músicas interpretadas na ocasião, contra as quatorze que constam da bolachona), serve como uma excelente representação dos momentos mais importantes da carreira dos Replicantes, ainda que muito focado nos dois primeiros discos (na minha opinião, os melhores e mais importantes da trajetória dos Repli), sendo que a faixa mais "lado B" seja, possivelmente, "Tom & Jerry", que não costuma aparecer com muita frequência nos set lists da banda (e que sempre foi uma das minhas favoritas dentre a carreira da turma), ainda que o repertório completo da noite tenha contado com várias outras canções mais "obscuras" dentro da discografia do grupo.

Em certo ponto do disco, em uma das poucas interações entre banda e plateia mantidas na versão final do vinil (no citado vídeo, elas acontecem com frequência bem maior), Julia anuncia que a apresentação estava sendo filmada. Resta aguardar que estas imagens sejam liberadas oficialmente algum dia, bem como o restante das músicas interpretadas naquela marcante noite de agosto de 2024, talvez em um "volume dois" deste disco que já é, desde seu lançamento, um marco histórico do movimento punk no Rio Grande do Sul. Afinal, quarenta anos não são quarenta dias, e os Replicantes não são uma banda qualquer no cenário gaúcho! Que muitos anos mais ainda venham a manter o grupo sobre os palcos e pelos estúdios, nos presenteando com mais "festas punks" como a registrada neste vinil. Obrigatório!

Contracapa do vinil Os Replicantes 40 Anos

Track List

Lado A

1. Nicotina

2. Sandina

3 O Futuro É Vortex

4. Boy Do Subterrâneo

5. Hippie Punk Rajneesh

6. Só Mais Uma Chance (Pin Up)

7. Astronauta

Lado B

1. Tom & Jerry

2. Motel Da Esquina

3. Punk De Boutique

4. Libertá

5. Maria Lacerda

6. Surfista Calhorda

7. Festa Punk