domingo, 14 de dezembro de 2025

Resenha de Show: Dialeto e David Cross (Blues Bossa Jam Session, 30 de Outubro de 2025)



Por Micael Machado

Em 2017, o trio paulistano Dialeto (formado por Nelson Coelho na guitarra, Gabriel Costa no baixo e Fred Barley na bateria - os dois últimos, também com passagens pelo Violeta de Outono) lançou o álbum Bartók In Rock, no qual faziam adaptações "prog rockers" para peças do compositor húngaro Béla Bartók, que viveu entre 1881 e 1945. Para participar do disco, o trio convidou o violinista inglês David Cross, mundialmente conhecido dentre os fãs de rock progressivo por sua passagem pelo King Crimson, entre 1972 e 1974. Os quatro músicos chegaram a fazer alguns shows de divulgação do trabalho, os quais resultaram no álbum ao vivo Dialeto – Live With David Cross, lançado em 2018, o qual foi minha introdução ao trabalho do Dialeto. Pois agora, em 2025, o trio e Cross se uniram novamente para dois shows no Brasil, um acontecido dia 28 de outubro no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo, e outro, dia 31 do mesmo mês, no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre, ambos dentro do projeto Blues Bossa Jam Session.

Com o apoio do Ministério da Cultura do Governo Federal, a ideia do projeto é "celebrar a riqueza do jazz e suas fusões com o blues, a bossa nova, o soul e o rock", e, entre 13 de agosto e 12 de dezembro (em São Paulo, entre 15 de agosto e 17 de novembro) trará (ou já trouxe) nomes nacionais e internacionais aos palcos citados acima, dos quais a união entre o Dialeto e o ex-músico do King Crimson foi a quarta apresentação do projeto na capital gaúcha. Com preços de ingressos bastante acessíveis (a categoria chamada "inteira popular" custava menos de 40 reais), a iniciativa foi uma bela oportunidade para a população da capital gaúcha curtir espetáculos de nomes que, quase nunca ou raramente, vêm até o sul do país, como a cantora Vanessa Moreno ou a reconhecidíssima Banda Black Rio. Infelizmente, na noite mais "prog" do projeto, o público foi bastante reduzido, sendo que aqueles que tinham ingressos para os setores mais "distantes" do palco (chamados "plateia alta" e "mezanino") foram "convidados" pela administração do evento a terem um "upgrade" em suas posições, ficando, desta forma, no setor "plateia baixa" (bem mais perto do palco que os demais setores), o qual, mesmo com esta alteração, não chegou a lotar...

Exatamente na hora marcada (ah, a velha pontualidade britânica), Fred Barley e Gabriel Costa entram no palco, e o show inicia com Gabriel passando uma alavanca de distorção (separada do instrumento) no braço do baixo, num efeito conhecido como "glissando" (algo que Fabio Golfetti, do citado Violeta de Outono, costuma fazer com frequência na guitarra) por alguns minutos, com Nelson Coelho entrando em cena já durante a execução desta introdução, para que a guitarra e a bateria, aos poucos, se juntassem à melodia executada pelo baixo. Cross entra por último no palco, se unido aos outros três na longa e atmosférica introdução de "Roumanian Folk Dances 3", faixa que também abre o disco ao vivo citado acima, e que, nesta noite, só foi ganhar "corpo" depois de uns bons cinco minutos de uma climática construção introdutória. Logo em seguida, os quatro emendam "Roumanian Folk Dances 4", onde Nelson e David executam linhas melódicas "gêmeas" em seus instrumentos, em uma faixa com um clima "oriental" e meio "misterioso", com os dois instrumentistas também "duelando" em solos alternados mais para o final da mesma.

O Dialeto com David Cross no palco do Teatro do Bourbon Country

Nelson vai então ao microfone dar o tradicional "Boa Noite", e dizer que "é muito legal poder estar com o Dialeto em Porto Alegre pela primeira vez, ainda mais em companhia do grande David Cross", para muitos aplausos da plateia, anunciando depois "Mikrokosmos 78", que inicia com Cross sozinho ao violino por uns bons três minutos, antes do Dialeto se unir a ele em mais uma melodia com "ares' orientais, onde a guitarra de Nelson soou um pouco mais "pesada" do que nas músicas anteriores, e onde ele e Cross novamente trocaram "duelos" musicais em seus respectivos instrumentos ao longo da faixa. Terminada a música, Nelson volta ao microfone, e "convoca" Gabriel a "explicar pro pessoal" como funcionam os "mikrokosmos" de Bartok, e o baixista explica então que eles são um conjunto de peças numeradas criadas para serem um "tutorial" de ensino de piano, que começam "bem facinhas" no número um, ficando mais complicadas à medida que a numeração aumenta, dizendo então que iriam tocar "Mikrokosmos 113", que "já não é tão fácil assim, mas vamos tentar fazer aqui". Certamente a faixa mais rápida e "agitada" até então na noite, a música foi um deleite para os apreciadores de técnica e musicalidade dentro do rock (especialmente o progressivo), com Nelson e David se alternando nos momentos de destaque sob os holofotes. Em seguida, outra composição intrincada musicalmente veio na forma de "An Evening in the Village", que, assim como no disco ao vivo, foi seguida pela cadenciada "The Young Bride", outra bela composição, alternando partes mais "melódicas" a passagens mais "pesadas", especialmente da guitarra de Nelson.

Com pouco mais de quarenta minutos de show, Nelson anuncia Fred na bateria e vocais da próxima música, e um ritmo eletrônico pré-gravado é acionado pelo baterista em um "kit" eletrônico ao lado de seu instrumento, com esta marcação servindo de base para um longo e belo improviso de Cross, seguido por outro de Gabriel, o qual, após uma breve pausa do baixista, se transforma nas notas iniciais de "Exiles", a primeira composição do King Crimson apresentada na noite. Ao seu término, David foi pela primeira vez ao microfone, agradeceu pela oportunidade de estar de volta ao Brasil, especialmente ao lado do Dialeto, e disse que "vocês (o público presente) é que são o verdadeiro espetáculo essa noite, e merecem uma salva de palmas", sendo ovacionado com palmas e assovios da plateia. Gabriel, então, assumiu os microfones para cantar "Tonk", faixa da carreira solo de Cross, que passou meio despercebida no meio do repertório da noite (além de ser uma das poucas a ter menos de quatro minutos de duração apresentadas pelo quarteto).

Com Gabriel voltando a usar a alavanca no braço de seu baixo, e Fred "atacando" os itens de seu kit com as palmas da mão, os dois músicos criaram uma "base" onde, aos poucos, Gabriel começou a executar uma melodia repetitiva, sobre as quais Nelson e Cross surgiram com uma melodia facilmente reconhecida pelos fãs do King Crimson como sendo o início de "The Talking Drum", a qual, entre muitos improvisos de Cross (acompanhado pela guitarra de Nelson) levou pelo menos uns quatro minutos antes de chegar em sua parte mais "agitada" na sua seção intermediária. Assim como no disco de estúdio do KC, "...Drum" foi emendada com a segunda parte de "Larks' Tongues in Aspic", ainda que a transição entre as duas não tenha sido com as "microfonias" da versão do Rei Escarlate, mas sim com alguns gritos e vocalizações dos quatro instrumentistas. Nesta, confesso que senti falta de um pouco de peso e distorção na guitarra de Nelson (que, para usar um termo frequentemente associado à tonalidade de Robert Fripp, não estava tão "esquizóide" quanto o timbre que o mestre das seis cordas do Rei Escarlate costuma usar). Mesmo assim, "Larks'..." foi um arregaço, e algo emocionante de se ver e ouvir, ainda mais quando, na parte em que a guitarra e o baixo fazem uma melodia "dobrada" ao mesmo tempo, Cross veio com um dos melhores solos da noite, quase atonal, em uma "barulheira" digna dos tempos em que tocava ao lado de Fripp e companhia. Fantástico!

Outro momento do show do Dialeto com David Cross no Teatro do Bourbon Country

Como, desde "An Evening in the Village", o quarteto vinha seguindo a ordem do disco ao vivo na apresentação, sentei e relaxei aguardando ouvir a versão da turma para a fantástica "Starless". Porém, fui surpreendido pelo início de "Easy Money", onde Fred assumiu, mais uma vez, os vocais, e Cross chegou a sair do palco na primeira parte, voltando após a segunda citação do nome da música (e um longo solo de Nelson) para realizar mais um belo (e longo) improviso em seu violino, antes do retorno da parte cantada e o final da faixa (infelizmente, sem as risadas "malucas" da versão de estúdio). Nelson apresentou novamente a banda e fez os agradecimentos "de praxe" em shows como este, antes do quarteto, finalmente (para mim, ao menos) iniciar sua versão para "Starless", a meu ver, a maior "maravilha do mundo prog" já registrada pelo King Crimson. Aparentemente, não era apenas eu o fã da canção presente ao teatro, pois foi, de longe, a faixa que recebeu a maior ovação do público em seus primeiros acordes, sendo, penso eu, aquela que o pessoal "reconheceu" mais facilmente quando iniciou. Ainda que os vocais de Fred ficassem longe da potência e alcance daqueles registrados por Wetton nos anos 70 (e, afinal, quem conseguiria chegar perto?), ouvir esta suíte ali, ao vivo, "na minha cara", pela primeira vez "em todos esses anos nesta indústria vital", foi de levar às lágrimas qualquer verdadeiro fã do King Crimson presente ao teatro naquela noite.

Assim como na carreira do Rei Escarlate na década de 1970, depois desta faixa, não havia nada mais a ser feito que pudesse superar a grandiosidade daquilo que havia sido executado no palco naquela noite, e o quarteto se uniu na frente do palco para se despedir do público com um "obrigado pessoal, obrigado Porto Alegre" de Nelson, sendo que a plateia, aos gritos de "mais um, mais um", "conseguiu" trazer os quatro músicos de volta ao palco, com Nelson anunciando que fariam mais uma canção para encerrar a noite, e Cross agradecendo mais uma vez ao público, dizendo ter sido uma honra estar presente em Porto Alegre naquela data (ele que pareceu, ao longo de toda a apresentação, estar super à vontade no palco, "regendo" entradas e saídas dos companheiros durante as músicas, e chegando a executar algumas "dancinhas" meio desengonçadas de vez em quando, e, pelo menos por duas vezes, ficando bem perto de se atrapalhar com as próprias "acrobacias" e quase levar um tombo épico - algo que, felizmente, não chegou a acontecer). Quando o quarteto se posicionou para iniciar o bis, confesso que fiquei aguardando por "21st Century Schizoid Man", música da qual Cross não participa da versão de estúdio, mas foi muito executada por ele durante seus anos ao lado de Fripp e companhia. Mas o que ouvi, para minha surpresa, foram os acordes iniciais de "The Great Deceiver", faixa que abre o álbum Starless and Bible Black, e que nem o King Crimson costumava executar com tanta frequência ao longo dos anos 1970. Novamente com Fred nos vocais (tendo a ajuda de Nelson e Gabriel nos refrãos), a faixa ficou bem próxima da versão original, e seu final levou àquela que foi, para mim, a maior (e melhor) surpresa da noite: a execução de "Red", minha faixa favorita na discografia do Rei Escarlate, e que não conta com Cross em sua versão de estúdio. Mesmo assim, ele conseguiu "encaixar" seu violino ao lado da guitarra de Nelson, em uma interpretação magistral deste clássico que, acredito, tão cedo não sairá da minha memória.

David Cross, o "bolha" que vos escreve, Fred Barley, Gabriel Costa e Nelson Coelho

Ainda houve tempo para encontrarmos os músicos no pós-show, onde tive a oportunidade de autografar alguns itens e agradecer a um extremamente simpático e receptivo David Cross por toda a boa música que ele me proporcionou escutar ao longo dos anos, além de trocar uma ideia e pegar alguns autógrafos com o pessoal do Dialeto, além de falar um pouco com Gabriel e Fred sobre o tempo que eles passaram ao lado do Violeta de Outono (que, infelizmente, eu ainda não tive a oportunidade de assistir ao vivo, embora seja um grande fã desde a década de 1980). Todos foram muito simpáticos e atenciosos não só comigo, mas como todos que estavam ali para lhes agradecer por uma noite fantástica de rock progressivo em Porto Alegre. Pelo menos até aqui, certamente, foi o show do ano na capital gaúcha. Mas ainda temos dois meses pela frente até 2026, então...

Set List:

1. Roumanian Folk Dances 3
2. Roumanian Folk Dances 4
3. Mikrokosmos 78
4. Mikrokosmos 113
5. An Evening in the Village
6. The Young Bride
7. Exiles
8. Tonk
9. The Talking Drum
10. Larks' Tongues in Aspic, Part Two
11. Easy Money
12. Starless
13. The Great Deceiver
14. Red

Body Count - Merciless [2024]


Por Micael Machado

"Tentaram me matar com tiros / Tentaram me matar de fome / Tentaram me infectar com muitos tipos de vírus / Mas falharam em me eliminar / Falharam em me destruir" canta Ice T em "Live Forever", sexta faixa de Merciless, oitavo disco de estúdio do Body Count, lançado em novembro de 2024 (lá fora, pela gravadora Century Media, nos formatos CD, Vinil - em várias cores diferentes - e um "Deluxe Box" com um CD extra com as versões instrumentais das faixas, além de "brindes" como bandana e munhequeira; enquanto, aqui no Brasil, foi lançado pela gravadora Shinigami, apenas no formato CD Digipak), o quarto registro onde a banda é formada, além de Ice nos vocais, por Ernie C. nas guitarras, Sean E. Sean nos samplers e backing vocals (estes dois, os únicos sobreviventes da formação original, ao lado, claro, do "chefão" Ice T), Juan Of The Dead nas guitarras, Vincent Price no baixo, e Ill Will na bateria, além do vocalista de apoio Little Ice e do produtor Will Putney, que também atua como guitarrista adicional e participa da composição em praticamente todas as faixas do registro (ele que também é guitarrista da banda Fit for an Autopsy). Com doze faixas em pouco mais de quarenta e um minutos, Ice e sua turma mantém a mistura de rap com metal que tornou o Body Count famoso lá no começo da década de 1990, mas parecem levar a sonoridade do grupo alguns passos adiante nas direções mais "pesadas" do estilo.

Faixas como a veloz "Psychopath" (primeiro single de divulgação do álbum, e que conta com os vocais do músico convidado Joe Badolato, também do Fit for an Autopsy) e a brutal "The Purge" (com letra inspirada pela série de filmes de mesmo nome, e que conta nos vocais com a participação de George "Corpsegrinder" Fisher, do Cannibal Corpse) parecem saídas de alguns dos álbuns mais extremos do Slayer, enquanto a vinheta de abertura "Interrogation Interlude" aproxima a sonoridade do Body Count ao metal industrial de uma banda como o Ministry, por exemplo. A citada "Live Forever" (com participação nos vocais do cantor Howard Jones, ex-Killswitch Engage, atual Light the Torch) tem, além de um dos melhores refrões do disco, alguns trechos que se aproximam do Death Metal Melódico (apesar dos vocais de Ice não terem nada a ver com o estilo), e a veloz "Drug Lords" (com uma rápida participação de Max Cavalera - vocês sabem quem - em um curto trecho falado em português) parece saída de algum dos primeiros discos do Soulfly (ainda que sem a percussão característica da banda - aliás, o encarte não especifica quem canta nesta faixa, mas eu arriscaria dizer que as vozes ficaram a cargo do baixista Vincent Price, porque, certamente, não é Ice quem está cantando aqui).

Body Count: Ill Will, Vincent Price e Sean E. Sean (atrás), Ernie C., Ice T e Juan Of The Dead (mais à frente)

"Do or Die" tem algumas partes que poderiam ser consideradas como o chamado "pula pula" do nu metal, enquanto "World War" parece saída de algum disco antigo do Biohazard, e composições como a faixa título, "Fuck What You Heard", "Mic Contract" (todas com bastante destaque para o baixo) ou "Lying Motherfucka" já se aproximam mais do estilo "tradicional" do grupo,  apostando no peso em demérito da velocidade, e onde Ice atua mais como rapper do que como cantor.   

A parte lírica também sofreu algumas alterações desde os primeiros discos, afinal, se "Mic Contract", "Do or Die" (que prega contra o crescente armamento da população dos EUA como forma de autodefesa, mas onde Ice diz que "se você vier pra cima de mim com uma automática, eu não vou me defender apenas com uma faca" e que ele não é "nenhum filha da puta pró-armas", mas sim "pró manter-se vivo") ou a própria "Merciless" ainda tratam da dificuldade da vida nas cada vez mais violentas ruas da Los Angeles natal do grupo (ou de qualquer outra cidade grande no mundo), "World War" alerta para o fato de que a humanidade está cada vez mais próxima de um conflito mundial em larga escala, tema que também permeia "Drug Lords", onde Ice fala sobre quem realmente "manda" na política do planeta. "The Purge" e "Psychopath" foram inspiradas por filmes que Ice T assistiu durante a pandemia de Covid 19, enquanto "Lying Motherfucka" é um ataque direto a Donald Trump ("Você tem pessoas que continuam a lhe apoiar / ainda que as merdas que você diz já tenham se provadas falsas / Você mente para o mundo inteiro / e ainda planeja se candidatar novamente para Presidente"), e "Fuck What You Heard" é uma crítica ao sistema político norte americano como um todo ("Esquerda e Direita são asas de uma mesma ave / Eles querem nos separar / Nos manter lutando uns contra os outros /Enquanto roubam o trem"). Já a surpreendente recriação da clássica "Comfortably Numb" (aquela mesma, que, aqui, chega até a contar com a própria participação do compositor David Gilmour na reinvenção de um dos mais emblemáticos solos de guitarra da história do rock, na única faixa do disco que passa dos quatro minutos de duração) trata da alienação da população, que fica imersa nas "redes sociais" o tempo todo, e acaba alienada (ou "confortavelmente entorpecida", como diz o título da música) do que realmente está acontecendo atualmente no mundo, sendo "informada" constantemente por Fake News e notícias "manipuladas" pelo governo ou pelos verdadeiros donos do poder no planeta.

Contracapa da versão nacional de Merciless

Merciless é um passo adiante na carreira da banda, com músicas fortes e letras ainda mais impactantes e abrangentes do que alguns dos registros anteriores. Como Ice canta em "Fuck What You Heard", "Body Count's in tha buildin' " mais uma vez, e, ao que parece, não vai sair tão cedo. Ainda bem!

"I refuse to give up / I refuse to shut up / You can try to stop me / You can try to kill me / But my voice will live forever"

Track List:

1. Interrogation Interlude

2. Merciless

3. The Purge

4. Psychopath

5. Fuck What You Heard

6. Live Forever

7. Do or Die

8. Comfortably Numb

9. Lying Motherfucka

10. Drug Lords

11. World War

12. Mic Contract

domingo, 26 de outubro de 2025

Mountain - Climbing! [1970]


Por Micael Machado

Apesar de quase nunca aparecer naquelas listas de "melhores" que surgem de vez em quando aqui e ali, Climbing!, do grupo norte-americano Mountain, é, sem sombras de dúvidas, uma das melhores estreias vinílicas de todos os tempos. Embora, para muitos, não seja sequer o primeiro disco da banda...

A história do Mountain pode começar a ser contada a partir de meados dos anos 1960, quando o produtor, compositor e multi-instrumentista Felix Pappalardi começou a ter certo destaque na "cena" da época através de seus trabalhos como produtor ou músico de estúdio de diversas bandas do período, especialmente algumas sediadas na costa leste do país, como The Devil's Anvil, The Youngbloods e a dupla canadense de folk e country Ian e Sylvia. Em meados de 1967, o power trio inglês Cream escolheu Felix para produzir seu segundo registro, Disraeli Gears, lançado em novembro daquele ano. O trabalho de Pappalardi junto ao grupo formado por Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker foi tão bem recebido, que Felix continuaria trabalhando com a banda nos discos seguintes do trio (não apenas como produtor, mas também contribuindo nas composições e como instrumentista no estúdio), além de ser produtor dos dois discos ao vivo lançados entre 1970 e 1972, já depois da separação do grupo britânico.

Pois foi após o final do Cream, em 1969, que Pappalardi foi procurado pelo guitarrista e vocalista nova-iorquino Leslie West, com quem o produtor já havia trabalhado anteriormente, quando o músico ainda integrava os Vagrants (grupo que mantinha junto a seu irmão, o baixista e vocalista Larry West), banda para a qual Felix havia produzido alguns singles entre 1966 e 1967. West havia montado uma nova banda, e gostaria de contar com os serviços de Pappalardi como produtor. Ainda abalado pelo final prematuro do Cream, e louco para descobrir uma banda que continuasse a sonoridade do power trio que ele havia produzido, Felix compareceu a um ensaio da banda de West, e gostou tanto do que ouviu que se ofereceu não só para produzir o grupo, mas também para assumir o baixo da banda, alegando que o baixista original era muito "fraco" para empunhar o instrumento.

Ficou acertado que, ao invés de um novo grupo, o trio (completado pelo baterista N.D. Smart II) registraria um álbum pelo recém fundado selo de Pappalardi, o Windfall Records (na Inglaterra, o disco sairia pelo selo Bell Records), o qual seria lançado como o início da carreira solo de West, e que chegou ao mercado em julho de 1969, sob o nome de Mountain (apelido "carinhoso" dado pelo produtor ao guitarrista, devido ao seu porte físico, digamos, "avantajado") - cabe citar que o álbum conta, em algumas faixas, com a participação de Norman Landsberg nos teclados, ele que era o tal "baixista fraco" do trio original imaginado por West, o qual era completado pelo baterista Ken Janick. Além de gravar e produzir o disco, Felix também saiu em turnê com West e Smart (além do reforço do tecladista Steve Knight), com a banda chegando até mesmo a se apresentar no festival de Woodstock, em agosto daquele ano, naquele que foi, apenas, o quarto show da carreira do grupo.

Com a boa repercussão da apresentação em Woodstock (e do próprio disco solo de West, que levou muitos a considerarem a sonoridade do grupo como uma espécie de "resposta" norte-americana ao som do Cream), Leslie e Pappalardi resolveram "oficializar" de vez a banda sob o nome Mountain, mantendo Knight na formação (segundo declarações de West anos depois, simplesmente porque Felix não queria que a banda soasse excessivamente parecida com o Cream), mas trocando N.D. Smart pelo baterista canadense Corky Laing (que integrava, então, a banda Energy, que já havia sido produzida por Gail Collins, esposa de Felix Pappalardi), o qual, além de arrasar com as baquetas, também se revelaria um compositor de mão cheia, colaborando diretamente para criar alguns dos maiores sucessos do quarteto nos anos futuros.

O Mountain na arte da capa interna do vinil de Climbing!: Corky Laing, Leslie West (atrás), Steve Knight e Felix Pappalardi (à frente)

O primeiro registro desta turma, lançado em março de 1970, é justamente o citado Climbing!, que, se na teoria é o álbum de estreia do Mountain, na prática, para muita gente (inclusive este que vos escreve), é considerado como o segundo registro da banda, visto que West e Papallardi estavam juntos na gravação do disco solo de West. Seja ele o início ou não da trajetória do Mountain, o que não se pode discutir é que Climbing! é um dos grandes álbuns da década de 1960 (que, nunca esqueçamos, terminou justamente em 1970), desde a sua abertura com a hoje clássica "Mississippi Queen", composição de Laing não aproveitada pelo Energy, a qual foi rearranjada por West, e se tornou a música mais conhecida da carreira da banda, sendo regravada posteriormente por grupos como Bachman-Turner Overdrive, Ted Nugent (ao lado do Molly Hatchet), W.A.S.P. e Ozzy Osbourne (que contou com a participação especial do próprio Leslie West nas guitarras da sua versão). Na mesma linha musical da primeira faixa, outra composição que se tornou um "clássico" deste registro é "Never in My Life", cujo riff é um dos mais reconhecidos da discografia do grupo, e que surgiu de uma jam feita de improviso entre West e Laing, após Felix já ter ido para casa ao final de uma das muitas sessões diárias de ensaios (as quais chegavam a durar até dez horas, com a "mão de ferro" do produtor e baixista Papallardi comandando os músicos "de perto") feitas pelo grupo, com Corky ficando responsável pelas letras de mais este destaque do álbum.

Entre estas duas faixas mais "roqueiras", temos a calma (e linda) versão do Mountain para "Theme for an Imaginary Western", composição de Pete Brown e Jack Bruce registrada pelo ex-baixista do Cream em seu primeiro disco solo, Songs for a Tailor, lançado em 1969. Cantada por Papallardi, a faixa é uma das mais tocantes e melódicas da carreira do grupo, e se tornaria um destaque ao longo dos anos nos shows feitos pelo Mountain. Felix também assume os vocais principais em "The Laird", outra faixa de ritmo mais lento, onde a guitarra de West soa quase como uma cítara em certas partes, além de dividir o microfone com Leslie no encerramento do álbum, com a variada "Boys In the Band" (que mescla partes lentas e alternadas, além de dar destaque para o mellotron de Knight), na homenagem da banda ao festival de Woodstock na forma da balada "For Yasgur's Farm" (outra composição que se tornou um clássico da carreira do grupo, e que também dá bastante destaque para os teclados de Steve, além de apresentar outro solo maravilhoso de West - a "fazenda de Yasgur" foi o local onde o festival aconteceu, que, à época, era de propriedade do fazendeiro Max Yasgur) e na faixa que encerra o lado A do vinil original, a agitada e "estradeira" "Silver Paper", outra composição que se tornou bastante apreciada pelos fãs dentre as músicas gravadas pela banda em sua carreira.

"Sittin' On a Rainbow" é uma faixa "típica" de sua época, e poderia, facilmente, ser confundida com uma canção do já citado Bachman-Turner Overdrive ou de outros grupos do estilo na época, não fossem os vocais e a guitarra de West. Fechando o track list da versão original, temos a instrumental acústica "To My Friend", onde o violão de Leslie vai, como escreveu o jornalista Robert Christgau em seu livro "Christgau's Record Guide: Rock Albums of the Seventies", "do raga ao flamenco". Algumas versões posteriores em CD ainda trazem uma versão ao vivo de "For Yasgur's Farm" como bônus, além de "liner notes" escritas tanto por West quanto por Laing falando sobre o disco.

Contracapa da versão em vinil de Climbing!

Com pouco mais de trinta e dois minutos e arte gráfica a cargo da já citada Gail Collins, Climbing! chegou à décima sétima posição nas paradas dos Estados Unidos na época, com o single de "Mississippi Queen" chegando ao número 21 da parada da Billboard (o single de "For Yasgur's Farm" parou na posição 107, enquanto o de "Silver Paper" não chegou a figurar nas paradas). Infelizmente, a banda teria apenas mais dois anos de auge, com Papallardi se afastando do grupo devido a problemas de audição desenvolvidos graças ao altíssimo volume das apresentações ao vivo da turma. West e Laing formariam então o power trio West, Bruce and Laing ao lado do baixista e vocalista Jack Bruce, antes de retornarem com o Mountain para um último disco ao lado de Felix em 1974, o também recomendável Avalanche. Com a separação definitiva do Mountain após um show de despedida no Felt Forum de Nova Iorque em 31 de dezembro daquele ano, Papallardi foi trabalhar com o grupo japonês Creation, além de lançar um álbum solo em 1979 (intitulado Don't Worry, Ma), com West e Laing continuando juntos por um tempo na recém formada The Leslie West Band, antes de os dois saírem em carreiras individuais no final da década de 1970. O guitarrista e o baterista ainda tentariam algumas "voltas" do Mountain entre 1984 e 2007, gravando alguns álbuns que não conseguiram alcançar as glórias e os méritos daqueles registrados entre 1969 e 1974, sendo que estes discos, infelizmente, não puderam contar com a participação de Papallardi, assassinado com um tiro no pescoço dado por sua própria esposa em 17 de abril de 1983. West viria a falecer de um ataque cardíaco em 21 de dezembro de 2020, enquanto Laing continua a excursionar com sua própria banda ainda hoje, mantendo vivo, de certa forma, o nome do Mountain, grupo que, para mim e muitos outros, atingiu seu auge logo em sua estreia vinílica, o qual, segundo alguns, é o segundo disco da banda...

Track List:

1. Mississippi Queen
2. Theme For An Imaginary Western
3. Never In My Life
4. Silver Paper
5. For Yasgur's Farm
6. To My Friend
7. The Laird
8. Sittin' On A Rainbow
9. Boys In The Band

domingo, 12 de outubro de 2025

The Completers – The Completers [2025]


Por Micael Machado

Depois de dois compactos e um EP lançados entre 2017 e 2020, o quarteto gaúcho de pós-punk The Completers, formado por Felipe Vicente (vocal, guitarra e sintetizador), Jonas Dalacorte (guitarra), Lucas Richter (baixo) e Guilherme Chiarelli Gonçalves (bateria e pads), finalmente chega ao seu full lenght de estreia. Lançado em março deste ano pelo selo Yeah You! (nas versões CD, vinil - numa bela edição na cor vermelha - e K7, além de disponível nas hoje obrigatórias plataformas digitais), o disco, autointitulado, foi gravado entre janeiro de 2023 e agosto de 2024 (à exceção das baterias, gravadas ainda em 2019), com produção da própria banda, tendo a mixagem sido feita pelo guitarrista Jonas Dalacorte e a masterização ficado a cargo do estadunidense Carl Saff, que já trabalhou com nomes como Sonic Youth, Mudhoney e Fu Manchu. 

Nos pouco menos de quarenta minutos do álbum, o grupo apresenta várias das características típicas do pós-punk, como baterias secas (por vezes, soando quase como um instrumento eletrônico), linhas de baixo graves (que, muitas vezes, "guiam' as músicas, tomando a frente dos outros instrumentos), e guitarras mais preocupadas em criar "climas" para as canções do que em executar linhas e riffs mais impactantes (além de quase não haver solos do instrumento ao longo das composições). Os vocais não são tão graves quanto os de outros expoentes do estilo (e, certamente, menos derivativos do timbre adotado por Ian Curtis, do Joy Division, quanto aqueles usados em alguns lançamentos anteriores da banda), e as composições do quarteto geralmente fogem daquela linha "arrastada e depressiva" tradicional do pós-punk, incorporando algumas passagens mais velozes e "agitadas" do que o normalmente encontrado na "cartilha" do estilo, lembrando em muito algo feito em certas canções do já citado Joy Division, ou as composições do início da carreira do The Cure (sendo Wire e The Sound outras bandas citadas como influências pelo pessoal do grupo). As letras são mais pessoais e introspectivas, como mostram versos como "Nada resta dentro de mim/E, no final, nunca conseguimos o que merecemos", "Há uma cicatriz em meu coração/E sou o único que consegue senti-la", "Por todas as noites que passei sozinho/E os momentos em que percebi que não tinha ninguém além de mim", "As memórias de nós dois estão desaparecendo/E as imagens das risadas e dos choros já não existem mais" ou "Eu não pertenço a esta estrada que percorro", algo que, novamente, lembra os textos de Ian Curtis e do Joy Division.

The Completers: Felipe Vicente, Lucas Richter, Guilherme Chiarelli Gonçalves e Jonas Dalacorte

Das dez faixas do registro, duas já haviam aparecido nos lançamentos anteriores (as "rápidas" "End", que abre os trabalhos do disco, e já havia sido lado A do compacto de 2020, e "Silence", faixa título do compacto de 2017), as quais são destaques dentre o track list da estreia do The Completers, ao lado da longa "Hypnosis" (com mais de sete minutos quase todos instrumentais, e que, para mim, apresenta os melhores trabalhos de guitarra do álbum), da mais lenta "Bag Of Bones" (que apresenta um vocal um pouco mais grave que as demais composições do álbum) e de "Innocent Boy", uma composição mais "marcada", que vai construindo um angustiante clima em "crescendo" que, infelizmente, não chega a "explodir" como promete fazer ao longo de seus pouco mais de dois minutos e meio. "Past Year", outra faixa mais rápida que o usual no mandamento do pós-punk, foi escolhida como primeira faixa de trabalho do álbum, ganhando inclusive um vídeo clipe, dirigido pelo cineasta Theo Tajes.

A mais cadenciada "Please Me" tem um violão como destaque ao longo de sua duração, enquanto o uso dos teclados e sintetizadores, ao contrário do que ocorreu nas composições do EP Unspoken Signals, acabou bastante restrito neste álbum de estreia, sendo utilizado mais para criar "climas" em algumas poucas faixas, e alcançando um destaque maior apenas na marcada "Symptôma", em partes da citada "Hypnosis" e mais ao final da faixa de encerramento, "Mirage", que, com quase seis minutos, é a única (ao lado de "Hypnosis") a ultrapassar os cinco minutos, sendo que apenas a citada "End" e a lenta "Chemicals" (que lembra algo dos primeiros registros do Cure com Simon Gallup na formação) passam dos quatro minutos, com as demais ficando entre os dois minutos e meio e uma duração pouco maior que os três minutos. 

Contracapa da versão em vinil de The Completers

The Completers é uma bela estreia para o grupo porto-alegrense, que completou dez anos de existência neste 2025, e vem a somar bastante em um estilo musical que já não anda mais tão em alta no país quanto em décadas passadas, mas que ainda insiste em permanecer ativo e atuante, ainda que muitas vezes em bandas sem tanta divulgação e mais voltadas ao underground. Que um segundo registro completo não demore tanto quanto o primeiro, e que a carreira do quarteto ainda traga mais melodias para iluminar (ou escurecer de vez) as almas dos fãs do pós-punk pelo país. Aguardemos!

Track List:

1. End
2. Past Year
3. Symptôma
4. Chemicals
5. Hypnosis
6. Please Me
7. Silence
8. Bag Of Bones
9. Innocent Boy
10. Mirage

Os Replicantes – Os Replicantes 40 Anos [2025]

Por Micael Machado

No ano de 2024, o grupo de punk rock gaúcho Os Replicantes completou quatro décadas de atividades sobre os palcos. Para celebrar a ocasião, um show da banda foi marcado para o dia 16 de maio daquele ano no Bar Opinião, em Porto Alegre, exatamente quarenta anos depois da primeira apresentação "oficial" da turma, ocorrida em 16 de maio de 1984 no seminal Bar Ocidente, na capital gaúcha. Infelizmente, a tragédia climática que se abateu sobre o Rio Grande do Sul no começo daquele maio de 2024 (causando, dentre outras tragédias, a maior enchente da história do Estado) fez com que a apresentação fosse postergada, com a "festa punk" ocorrendo somente no dia 15 de agosto daquele ano, em um Opinião completamente lotado para celebrar junto à banda este aniversário tão marcante. Parte da apresentação d'Os Replicantes naquela noite foi lançada oficialmente agora em julho de 2025 no disco Os Replicantes 40 Anos, através de uma parceria dos selos independentes E-Discos.net e Made In Soul Records.  Com edição apenas em vinil (numa belíssima versão na cor preta esfumaçada, com capa gatefold e um encarte repleto de fotos e com a ficha técnica completa do show, tendo produção, mixagem e masterização a cargo de Lucas Hanke, da produtora Marquise 51), a bolachona traz alguns dos maiores clássicos da banda, além de algumas "surpresas" para os fãs de longa data.

Para esta apresentação especial, a banda reuniu, pela primeira sobre um palco, todos os integrantes que já passaram por seus diferentes "line ups" (eu mesmo já cheguei a assistir shows do grupo com as presenças de alguns músicos de formações anteriores em participações em ocasiões especiais, mas não com a totalidade dos oito membros e ex-integrantes da turma sobre o mesmo palco, na mesma noite). Desta forma, o disco (e a apresentação) começa com os integrantes da formação atual Cláudio Heinz (guitarras), seu irmão Heron Heinz (baixo) - ambos membros fundadores dos "Repli" - e a vocalista Julia Barth (no grupo desde 2006) junto ao baterista original Carlos Gerbase, que segurou as baquetas do quarteto desde sua fundação até 1989. Logo na segunda música, Julia cede lugar ao cantor original da turma, o "punk brega" Wander Wildner, que comanda o microfone nas próximas duas músicas, marcando a reunião da formação inicial dos Replicantes em uma apresentação ao vivo sei lá eu quantos anos depois da última vez de Wander, Cláudio, Heron e Carlos juntos sobre um palco em suas funções originais (talvez desde 1989?), antes do cantor passar o posto de "front man" para Gerbase, como já havia ocorrido antes na história do grupo, quando Carlos saiu de trás da bateria para se tornar a voz principal do grupo. Assim como ocorreu no passado, junto à troca de funções de Gerbase também chegam ao palco (e, metaforicamente, à própria banda) o baterista Cleber Andrade e a tecladista e cantora de apoio Luciana Tomasi (neste show, restrita apenas ao microfone). Neste disco, Gerbase permanece no posto por três canções, tendo, em uma delas, a companhia do saxofonista Ricardo "King Jim" Cordeiro, ex-integrante dos Garotos da Rua (outra importantíssima banda gaúcha no cenário do rock and roll), e que chegou a integrar os "Repli" na formação que gravou e divulgou o disco Andróides Sonham com Guitarras Elétricas, de 1990. Com a saída de Gerbase, Luciana e King Jim do palco (e, como ocorreu no passado, da própria banda), Wander volta ao microfone para cantar "Astronauta", representando sua segunda passagem pelo grupo, ocorrida entre 2002 e 2006, antes de sair novamente (do palco e da banda), dando lugar a Julia, que assume o microfone nas cinco primeiras músicas do Lado B, onde temos então a presença apenas da formação atual do quarteto (Julia, Cláudio, Heron e Cleber), com o LP terminando com as duas faixas do bis daquela noite, as clássicas "Surfista Calhorda" e "Festa Punk", onde os versos são divididos pelos três vocalistas que já ocuparam esta função na banda, além das presenças de Luciana e King Jim nos backings.

Detalhe da bela edição em vinil preto esfumação, além do encarte e contracapa do disco Os Replicantes 40 Anos

A gravação do show, mesmo feita de forma independente, ficou muito acima da média (só achei a guitarra meio "magrinha" em certos momentos, mas nada que estrague a experiência), e o repertório escolhido para o disco, mesmo que não traga a íntegra do que aconteceu no Opinião naquela noite (um vídeo amador, facilmente encontrável no Youtube no momento em que escrevo, mostra um repertório de vinte e cinco músicas interpretadas na ocasião, contra as quatorze que constam da bolachona), serve como uma excelente representação dos momentos mais importantes da carreira dos Replicantes, ainda que muito focado nos dois primeiros discos (na minha opinião, os melhores e mais importantes da trajetória dos Repli), sendo que a faixa mais "lado B" seja, possivelmente, "Tom & Jerry", que não costuma aparecer com muita frequência nos set lists da banda (e que sempre foi uma das minhas favoritas dentre a carreira da turma), ainda que o repertório completo da noite tenha contado com várias outras canções mais "obscuras" dentro da discografia do grupo.

Em certo ponto do disco, em uma das poucas interações entre banda e plateia mantidas na versão final do vinil (no citado vídeo, elas acontecem com frequência bem maior), Julia anuncia que a apresentação estava sendo filmada. Resta aguardar que estas imagens sejam liberadas oficialmente algum dia, bem como o restante das músicas interpretadas naquela marcante noite de agosto de 2024, talvez em um "volume dois" deste disco que já é, desde seu lançamento, um marco histórico do movimento punk no Rio Grande do Sul. Afinal, quarenta anos não são quarenta dias, e os Replicantes não são uma banda qualquer no cenário gaúcho! Que muitos anos mais ainda venham a manter o grupo sobre os palcos e pelos estúdios, nos presenteando com mais "festas punks" como a registrada neste vinil. Obrigatório!

Contracapa do vinil Os Replicantes 40 Anos

Track List

Lado A

1. Nicotina

2. Sandina

3 O Futuro É Vortex

4. Boy Do Subterrâneo

5. Hippie Punk Rajneesh

6. Só Mais Uma Chance (Pin Up)

7. Astronauta

Lado B

1. Tom & Jerry

2. Motel Da Esquina

3. Punk De Boutique

4. Libertá

5. Maria Lacerda

6. Surfista Calhorda

7. Festa Punk

sábado, 23 de agosto de 2025

Ministry – Hopiumforthemasses [2024]


Por Micael Machado

Três anos depois de Moral HygieneAl Jourgensen e seus asseclas estão de volta com um novo álbum do Ministry, o qual, arrisco a dizer, corre grande risco de ser o melhor disco da banda desde Houses Of The Molé, de 2004. Além de ter mais riffs marcantes e músicas interessantes do que seus últimos lançamentos (que estavam longe de serem ruins, mas, honestamente, ficavam um nível abaixo do "padrão de qualidade" que a banda nos acostumou durante a década de 1990), o "chefão" Al parece ter ouvido os discos antigos do grupo e resgatou deles o uso de samplers com vozes e citações retiradas de filmes, discursos políticos e programas e noticiários de TV, os quais se integram nas músicas e acabam se tornando parte das letras das mesmas, embora não constem nos textos do encarte. Estes samplers aparecem com ênfase nas duas primeiras faixas, a pesada e arrastada "B.D.E." (iniciais de "Big Dick Energie", cuja letra critica aquilo que, aqui no Brasil ficou conhecido como "cultura Red Pill") e a rápida (e altamente indicada para quem gosta do estilo Metal Industrial praticado pelo Ministry) "Goddamn White Trash", que conta com participação de Pepper Keenan, do Corrosion Of Conformity, nos vocais, e cuja letra se posiciona contra os supremacistas brancos que assolam os Estados Unidos atualmente, além destes efeitos também terem destaque em "TV Song 1/6 Edition", uma das faixas mais rápidas do disco, e, possivelmente, a que mais lembra os "bons tempos" de discos como The Mind Is A Terrible Thing To Taste ou Psalm 69.

Outra que parece saída de um destes dois álbuns é "Just Stop Oil", quase uma "nova versão" da clássica "Just One Fix", e cuja letra alerta (mais uma vez) para os perigos do aquecimento global. Já "New Religion", que tem um dos melhores riffs do álbum, parece vinda de uma fase um pouco posterior, da época do citado Houses Of The Molé ou de seu anterior, Animositisomina. "Aryan Embarrassment" é marcada e pesada, além de trazer novamente a participação especial de Jello Biafra (ex-vocalista dos Dead Kennedys) nos vocais, além de possuir uma das letras mais fortes do disco, com Jello novamente criticando os supremacistas brancos norteamericanos sem nenhuma papa na língua, em frases como "Como as pessoas podem concordar com isto? A democracia se transforma em poeira, em uma guerra ao voto que faz a América odiar novamente. É tudo tão estúpido!".

Alguns dos músicos que participaram das gravações de HopiumforthemassesMonte Pittman (guitarras/baixo), John Bechdel (teclados), Paul D'Amour (baixo), Al Jourgensen (vocais, guitarras e programações), Roy Mayorga (bateria) e Cesar Soto (guitarras/baixo)

Como nos álbuns mais recentes, as letras das músicas são muito importantes para passar a visão que Al tem do mundo atual, a qual pode ser resumida em frases como "Esta é nossa realidade/Este é o fim de nossa sociedade/Parece ser o fim dos tempos/E não é bonito", que ele canta em "It's Not Pretty", outra faixa veloz (com mais um riff bastante interessante), mas que começa de forma leve e acústica, quase confundindo os mais desinformados na carreira do grupo. Quase todas as faixas tem um alvo específico, os quais, além dos já citados acima, também atacam a extrema direita que toma conta da política mundial (em "TV Song 1/6 Edition"), o mercado de capitais que guia os verdadeiros rumos do mundo (em "New Religion") e até contra a guerra Rússia x Ucrânia, em "Cult of Suffering", que traz os vocais de Eugene Hütz, do Gogol Bordello, em uma faixa com trechos cantados em ucraniano, e cuja letra no encarte estampa a frase "Ministry apoia a Ucrânia" na página onde ela aparece.

Assim como no disco anterior, Al Jourgensen (que, aqui, além da produção e dos vocais, também se ocupa de guitarras, baixo, teclados e programações) optou por não ter uma formação fixa para o seu Ministry, embora a maioria dos músicos envolvidos na gravação de Hopiumforthemasses também tenham participado de Moral HygieneMichael Rozon (responsável pelas programações e alguns teclados) e o guitarrista e baixista Cesar Soto ainda são os "parceiros de crime" mais constantes ao longo das faixas, mas desta vez, Cesar divide as funções quase igualmente com Monte Pittman, guitarrista que já tocou com Prong, Body Count e até com a diva Madonna (ela mesma). Roy Mayorga volta a empunhar as baquetas do Ministry (desta vez em três faixas), assim como Paul D'Amour se ocupa do baixo em uma música (e da guitarra em outra) e John Bechdel se encarrega dos teclados em outra. Além dos convidados já citados nos vocais, também temos as participações (em diferentes faixas) do guitarrista Billy Morrison, do tecladista Charlie Clouser, além de vocais adicionais de músicos como Atticus Pittman, Liz Walton, Victoria Espinoza, Dez Cuchiara e Joshua Ray.

Contracapa de Hopiumforthemasses

A citada "Cult of Suffering" é, musicalmente, uma das faixas mais "diferentes" do disco, com um ritmo mais leve e até algum suingue, em uma composição que dá destaque ao que parece soar como um órgão Hammond (tocado, seguindo o encarte, pelo próprio Jourgensen) e que soa quase como uma inofensiva composição pop, e que só não é mais "estranha" no contexto do disco do que a faixa de encerramento, "Ricky's Hand", cover do cantor britânico Fad Gadget (do qual, confesso, eu nunca tinha ouvido falar anteriormente) totalmente eletrônico, com um ritmo quase dançante (e praticamente sem a participação das guitarras) que remete à fase inicial da carreira do Ministry, onde o grupo se dedicava muito mais o synth-pop da época (início dos anos 1980) do que ao metal industrial que adotaria no final daquela década e início da seguinte. Esta fase, inclusive, foi "revisitada" em The Squirrely Years Revisited, álbum de regravações lançado no início deste 2025, o qual, infelizmente, ainda não teve edição nacional. Ainda em 2024, Jourgensen declarou que o próximo álbum de inéditas seria o último da carreira do grupo, além de marcar o retorno do baixista Paul Barker, que fez parte da formação da banda entre 1986 e 2003, e foi o principal parceiro de composições de Al nos "tempos áureos" do grupo. Nem uma coisa nem outra foram confirmadas enquanto escrevo este texto, mas o fato é que, com o retorno de Donald Trump (antigo desafeto de Jourgensen) à Casa Branca e com o mundo cada vez mais pendendo para o lado da extrema direita, duvido que o líder do Minstry vá abandonar sua principal plataforma de comunicação. Afinal, como ele mesmo canta em "Just Stop Oil", "Nós temos algo a dizer, e não há mais como adiar"! Afinal, o mundo, certamente, ainda precisa das letras (e das músicas) do Ministry para tentar acordar!

Track List:

1. B.D.E.
2. Goddamn White Trash
3. Just Stop Oil
4. Aryan Embarrassment
5. TV Song 1/6 Edition
6. New Religion
7. It's Not Pretty
8. Cult Of Suffering
9. Ricky's Hand

Monster Magnet – 25............TAB [1991]

Por Micael Machado

Existem certos discos que exigem uma "dedicação" maior de quem se dispõe a lhes escutar, pois a audição dos mesmos pode ser bastante "complicada" e "difícil" para este corajoso ouvinte. Metal Machine Music, de Lou Reed, e Arc, de Neil Young, se encaixariam nessa categoria, pois são, basicamente, ruídos de feedback e distorções de instrumentos reunidos em uma "canção" contínua composta, basicamente, apenas de "barulhos"... Certamente, há outros exemplos de álbuns com estas características, e um deles foi gravado pela banda norte-americana Monster Magnet em 1991, mas foi lançado no país de origem do grupo apenas em 1993...

Tendo lançado duas demos como um trio ainda no ano de sua fundação, em 1989, o Monster Magnet registrou um single de estreia para a gravadora Circuit Records no ano seguinte (já como quarteto), e um EP de seis faixas também em 1990 pela gravadora alemã Glitterhouse Records, antes de assinar com o selo Caroline Records (na época, estabelecido nos Estados Unidos), o qual lançou o single "Murder/Tractor" pela sua subsidiária Primo Scree também em 1990. Com a boa repercussão do single, a Caroline autorizou a banda a entrar no estúdio para gravar seu primeiro álbum, mas as três faixas resultantes (totalizando mais de 48 minutos) acabaram rejeitadas pela gravadora, fazendo com que o quarteto (formado, então, por Dave Wyndorf nas guitarras e vocais, John McBain na guitarra solo, Tim Cronin no baixo e Jon Kleiman na bateria) voltasse ao estúdio (não sem antes repor Cronin, que passou a cuidar da parte de luzes dos shows ao vivo, pelo baixista Joe Calandra) para gravar novas composições (além de regravar duas faixas de seu primeiro EP e registrar uma cover para "Sin's A Good Man's Brother", do Grand Funk Railroad) e lançar, já em 1991, seu álbum de estreia, chamado Spine of God. Uma turnê pelos EUA em suporte ao Soundgarden para divulgação do primeiro disco completo do Monster Magnet chamou a atenção da gravadora A&M Records, que assinaria com a banda em 1992 e lançaria seu segundo full lenghtchamado Superjudge, no começo de 1993.

A melhor divulgação da major A&M e a boa recepção do público ao segundo álbum do Monster Magnet acabaram levando o nome da banda a plateias maiores, fazendo o grupo ser considerado um "sucesso menor" nos EUA, e um dos precursores do Stoner Metal no país. Quando viu o quarteto em alta nas paradas, aparentemente, a gravadora Caroline "se lembrou" daquelas faixas rejeitadas de 1991, e decidiu lançar as mesmas nos Estados Unidos, no formato de um EP de três faixas chamado 25............TAB, naquele mesmo 1993. O mini-álbum já havia sido lançado na Alemanha pela citada Glitterhouse Records ainda em 1991, mas foi somente com a versão da Caroline (a qual, inclusive, conta com uma capa diferente da versão européia original) que a bolachinha acabou chegando de vez ao grande público.

Capa da versão alemã original de 25............TAB

Se você conhece o Monster Magnet pelos álbuns gravados após este EP, não espere encontrar aqui quase nada do que está acostumado. Se, após Spine of God, o Imã de Monstros se tornaria um dos pilares do Stoner Rock norte-americano, aqui o quarteto ainda era uma banda muito mais voltada a uma sonoridade "psicodélica" e "viajante". No encarte de uma das muitas reedições posteriores, Wyndorf escreveu nas "liner notes" que o grupo "estava ouvindo muito Hawkwind, Amon Duul II, Alice Cooper e Skullflower quando compomos este disco". Os pouco mais de quatro minutos de "Lord 13", a menor faixa do EP, são possivelmente a coisa mais "acessível" do álbum, embora passem longe do estilo que a banda adotaria depois (soando quase como algo das bandas psicodélicas de San Francisco do final dos anos 60, com sua percussão e sonoridade quase acústicas). Já os mais de doze minutos de "25/Longhair" são divididos em uma faixa rápida e mais focada na guitarra durante "25" (que ocupa aproximadamente os oito primeiros minutos da canção) e um pouco mais cadenciada em "Longhair", uma jam instrumental que talvez seja a música deste EP com o estilo mais próximo da sonoridade que o grupo iria adotar em seus lançamentos posteriores, e que, infelizmente, termina com um "fade out" que nos deixa com vontade de escutar mais desta canção.

Embora  "25" tenha algumas "viagens lisérgicas" ali pelo meio, acredito que nada prepare o ouvinte para o que ele irá escutar nos mais de trinta e dois minutos da faixa de abertura, intitulada "Tab". Sobre uma sólida e repetitiva base formada pelo baixo e pela bateria, guitarras "viajantes" se misturam a efeitos eletrônicos e distorções diversas, além de vocalizações quase orientais e falas diversas (e distorcidas por efeitos sonoros variados, como ecos e repetições), formando uma das faixas mais abstratas e "psicodélicas" que eu já ouvi de uma banda (supostamente) de hard rock, e a qual é impossível descrever em detalhes aqui. No mesmo encarte citado antes, Wyndorf explica que " 'Tab' foi uma das primeiras coisas que fizemos como banda. Há uma versão realmente crua dela em nossa primeira demo, e (para a versão que saiu no EP) foi feita apenas uma mixagem dela, devida à sua duração e porque não tínhamos muito dinheiro para gravar". Ainda nessas "liner notes", o vocalista explica que o EP "foi a última coisa que Tim (Cronin) gravou antes de passar para a parte de iluminação", e que "não tocamos muita coisa desse álbum ao vivo (depois de gravá-lo), acho que fizemos '25' umas duas vezes, e foi só".

Contracapa da versão americana de 25............TAB

Como escrevi acima, o EP chegou a ser lançado na Alemanha (em vinil e CD) ainda em 1991 (dois anos antes de seu lançamento oficial nos EUA, portanto). Ele foi relançado pelo selo Steamhammer em 2006, também na Alemanha, com uma versão ao vivo da faixa "Spine Of God" como bônus (a mesma versão seria relançada em 2017 pela Napalm Records tanto na Europa quanto nos EUA), sendo que existe ainda uma versão da Caroline Records (presumidamente de 1994) que agregou o single "Murder/Tractor" às três faixas originais, embora as faixas do compacto apareçam como "hidden tracks" na versão em CD (que, particularmente, é a que possuo). Seja em qual edição for, tenho certeza que nada irá lhe preparar para o estranhamento de ouvir algo como "Tab". Encare por sua própria conta e risco, e, caso enfrente o desafio, tenha uma boa "viagem sonora". Afinal, como diz uma nota no encarte de Spine of God, "it's a satanic drug thing... you wouldn't understand" (deixo a tradução para vocês...).

Track List:

1. Tab

2. 25 / Longhair

3. Lord 13