domingo, 5 de julho de 2015

Republica - Point Of No Return [2013]


Por Micael Machado


Apesar de estar na ativa desde 1991 e ter lançado dois registros antes deste, a banda paulista Republica não tinha chamado a minha atenção antes de tocar no Rock In Rio de 2013, quando se apresentou ao lado do Dr. Sin no Palco Sunset, tendo "de lambuja" a participação especial do consagrado guitarrista Roy Z (Bruce Dickinson, Rob Halford) em seu set. A curiosidade me fez ir atrás de Point Of No Return, álbum lançado ainda naquele ano em uma bela edição digipack (e em vinil no ano seguinte), e que me surpreendeu positivamente.

Eu associava a sonoridade da banda a um hard rock mais pesado, e credito a isso o fato do poderoso riff stoner da faixa de abertura, "Time To Pay", ter me surpreendido tanto. Tendo o primeiro dos muitos excelentes solos de guitarra do álbum (a cargo do guitarrista Luiz Fernando Vieira), a música ainda traz o vocalista Leo Belling utilizando um tom diferente das demais músicas, mais próximo ao estilo de Phil Anselmo, o que, junto com a melodia, fez com que eu imediatamente associasse a faixa com o Down, grupo do qual o ex-cantor do Pantera faz parte. Esta sensação stoner ainda marca um pouco de presença na faixa seguinte, "Why?" (onde Leo já canta de uma forma diferente, chegando a lembrar o ex-vocalista do Iced Earth, Matthew Barlow, de uma forma que se encaixa muito bem com as músicas do grupo), mas o Republica, sabiamente, consegue alterar estilos nas demais faixas, evitando que a audição se torne monótona ou cansativa.


A bela edição digipack de Point Of No Return

Desta forma, "Life Goes On" (que, mesmo sendo a mais longa do disco, ganhou um vídeo clipe inspirado no livro "A Revolução dos Bichos" de George Orwell) é um pouco mais cadenciada e traz alguns toques orientais em sua melodia, além de algo de Metallica na guitarra com wah wah. Já "Dark Road" é bem veloz, chegando até a lembrar o Motörhead em sua parte inicial (além de apresentar um dos melhores refrões do álbum), enquanto "No Mercy" é uma "balada pesada" (como se dizia nos anos 80), e "Change My Way" tem um toque de hard rock setentista (além de outro belo refrão).

A apresentação ao lado de Roy Z gerou o convite para o guitarrista participar de "Goodbye Asshole", música mais lenta (sem chegar a ser uma balada), mas ainda pesada, e com interessantes trechos de slide nas seis cordas, além de muito wah wah no solo. A rápida "El Diablo" foi a segunda escolhida para receber um clipe, e as agitadas "Fuck Liars" e "The Land of the King" (com letra de temática satânia) completam o track list de um dos melhores registros do rock nacional nos últimos anos.


Republica: Jorge Marinhas, Marco Vieira, Leo Belling, Gabriel Triani e Luiz Fernando Vieira

A produção de Point Of No Return ficou a cargo de Luis Paulo Serafim (com a participação de Thiago Bianchi no trabalho com as vozes), e a masterização foi feita nos Estados Unidos, a cargo de Stephen Marcussen, reconhecido profissional que que já trabalhou com Rolling Stones, Kiss, Black Sabbath, Alice In Chains e Foo Fighters. Tudo isto fez com que a sonoridade do álbum ficasse excelente, ajudando a dar destaque ao trabalho do Republica (que, além de Belling e Vieira, ainda conta com Jorge Marinhas nas guitarras, Marco Vieira no baixo e Gabriel Triani na bateria), e fazendo com que o disco seja altamente recomendável para quem gosta de metal, independente do estilo. Confira!


A edição em vinil de Point Of No Return

 Track List:

1. Time To Pay
2. Why?
3. Life Goes On
4. Change My Way
5. Goodbye Asshole
6. The Land Of The King
7. No Mercy
8. Dark Road
9. Fuck Liars
10. El Diablo

domingo, 10 de maio de 2015

Review Exclusivo: Slash (Porto Alegre, 20 de março de 2015)


Por Micael Machado
(fotos por Juliana Duzzo, retiradas da página oficial da rádio Ipanema FM no facebook)

Pouco menos de dois anos e meio depois de sua primeira passagem por Porto Alegre, o guitarrista britânico Slash retornou ao Pepsi On Stage (novamente acompanhado pelo vocalista Miles Kennedy e o grupo The Conspirators, formado pelo guitarrista Frank Sidoris, o baixista Todd Kerns e o baterista Brent Fitz) para, mais uma vez, executar um belíssimo espetáculo de hard rock para uma multidão de gaúchos (e gente de outros estados também) que lotou o lugar para lhe prestigiar. Ao contrário de muitos músicos que vem a nosso país em um ponto mais "baixo" de suas carreiras, Saul Hudson (o nome real do ex-guitarrista do Guns And Roses) passou pela América do Sul (em onze shows que cobriram Chile, Argentina, Peru, Equador e Brasil, agraciado com seis apresentações) para divulgar seu mais recente trabalho, o álbum World on Fire, lançado em 2014, e que recebeu uma recepção mais do que positiva tanto da crítica quanto do público.

Gilby Clarke and The Coverheads no palco do Pepsi On Stage

Infelizmente, parece que a maioria da multidão reunida na agradável noite de sexta feira não estava lá para dar atenção à carreira solo do guitarrista, mas sim para curtir de novo os eternos clássicos de sua ex-banda. Isso ficou claro já no show de abertura, a cargo do também ex-guitarrista do Guns And Roses Gilby Clarke (agora atacando ainda como vocalista), que se apresentou à frente de um trio intitulado The Coverheads, sobre o qual, infelizmente, não tenho maiores informações (assim como ninguém a quem perguntei soube me dizer se houve uma banda local antes desta, pois, graças à imensa fila no lado externo do local, acabei entrando no Pepsi On Stage pouco antes de Clarke subir ao palco). Gilby tem uma consistente carreira solo, que já conta com sete álbuns de estúdio, além de ter gravado ao lado de Slash o disco It's Five O'Clock Somewhere, dSlash's Snakepit, primeiro grupo montado pelo britânico depois de sua passagem pelo Guns. Pois Clarke apresentou um bom resumo destes discos, com destaque para a abertura com "Wasn't Yesterday Great" e para a mais conhecida "Cure Me... Or Kill Me..." (de seu primeiro disco, Pawnshop Guitars, lançado em 1994, e que à época teve boa execução de seu clipe na MTV), além de interpretar um tema de sua primeira banda, a Kill for Thrills (chamado "Motorcycle Cowboys") e um do citado álbum do Snakepit, "Monkey Chow". Mas a galera só levantou mesmo quando ele tocou a clássica "Knockin' on Heaven's Door", original de Bob Dylan que o Guns registrou no Use Your Illusion II, o famoso "disco azul", e que parecia ser a única que a maioria do pessoal reconheceu, tirando, talvez, a cover para "It's Only Rock 'n' Roll (But I Like It)", dos Rolling Stones, outra na qual a plateia também reagiu muito bem. Gilby ainda trouxe ao palco sua filha Frankie Clarke para tocar guitarra em outro cover dos Stones, "Dead Flowers" (que o Guns muito tocou durante sua carreira, como bem documentado em diversos bootlegs por aí), mas a maioria do pessoal, embora tenha respeitado muito o show e até curtido bastante os quase sessenta minutos de Clarke no palco, parece que só "levantou" mesmo naquele "cover do cover" que todos conheciam.

Exatamente na hora marcada (ah, a famosa pontualidade britânica... quanta diferença dos tempos de Gn'R, não é mesmo?), as nove e trinta da noite, uma música circense recepcionou Slash e seus comparsas no palco do Pepsi, e "You're A Lie", faixa de seu primeiro disco completo ao lado de Miles (o também recomendável Apocalyptic Love) deu início ao espetáculo. Ao contrário do show de 2012, desta vez eu resolvi pagar o dobro do preço do ingresso da pista "comum" e encarar um setor elevado do local chamado de "mezanino" (a tal da pista Vip custava ainda mais caro que este). Isto fez com que eu e meu sobrinho Maurício Machado conseguíssemos ficar em uma posição bem melhor em relação à apresentação passada, mas, nem por isso, foi fácil de assistir com conforto ao espetáculo. A empolgação do pessoal, que era razoável nas músicas mais conhecidas do citado Apocalyptic Love e do primeiro álbum solo de Slash (que leva seu nome, e foi lançado em 2010), contrastava com a quase apatia (não confundir com indiferença) com que as músicas mais recentes eram recebidas, mas ia às alturas (sonoras e visuais, traduzidas por pulos e braços, câmeras e celulares jogados para o alto) nas várias canções do Guns And Roses interpretadas na noite. O guitarrista parece ter percebido que seu passado nunca irá lhe abandonar, e, embora tenha dado bastante espaço para World on Fire (do qual foram interpretadas seis canções), colocou no set list da noite ainda mais músicas do Guns and Roses, sendo sete delas desta vez.

Slash em meio a um solo em Porto Alegre

Sobre a parte musical, é desnecessário descrever o talento de todos os envolvidos, inclusive do sempre contestado vocalista Miles Kennedy, o qual, talvez por desta vez ter no repertório várias canções que, originalmente, contam com seu registro em estúdio, acabou me soando bem melhor do que há dois anos e pouco. É claro que nas canções do Guns não dava para esquecermos do cantor original, mas é justo dizer que Kennedy cumpriu seu papel com louvor nesta noite (inclusive assumindo com competência a terceira guitarra durante o solo de Slash em "Anastasia", onde o britânico usou um belíssimo instrumento com dois braços, sendo o superior um violão e o inferior uma guitarra). Só que devo também registrar que bastou o baixista Todd Kerns assumir o microfone para cantar "Doctor Alibi" (que conta com Lemmy Kilmister, do Motörhead, em sua versão de estúdio, e novamente teve Slash nos backing vocals, assim como em 2012) e a clássica "Welcome to the Jungle" (soando maravilhosa como sempre) para aquele sentimento de que Slash tem o vocalista errado em sua banda voltasse com força, pois a voz de Kerns soa bem melhor a meus ouvidos que a do "titular" da "posição". Mas deve ser apenas implicância minha, assim como também deve ser exclusividade deste redator a sensação de que Slash poderia muito bem ter substituído os mais de quinze minutos em que ficou solando durante "Rocket Queen" (logo a minha faixa favorita do repertório do Guns, a qual, por conta disto, passou dos vinte minutos nesta noite!) por mais músicas de seus álbuns, seja de qual fase fossem (ainda sonho ouvir in loco a "By The Sword", que desta vez ficou de fora do repertório da turnê, bem como a "Double Talkin' Jive", esta sim, interpretada algumas vezes durante esta "perna" sul-americana). Esta parte do show é praticamente a única em que Slash assume por longo tempo os holofotes (além de seus solos, claro), visto que, durante o resto da noite, o guitarrista se contenta em ser apenas "mais um" do grupo, deixando para Kennedy o papel de "centro das atenções" do espetáculo, mostrando que vaidade e ego não são coisas que o britânico tenha de forma principal nem elevada (mais uma vez, quanta diferença de seu antigo frontman, hein?).

Gilby Clarke foi chamado ao palco para uma bela redenção de "Mr. Brownstone", e "Sweet Child O' Mine", claro, quase fez o mezanino onde eu estava desabar de tanta gente pulando ao mesmo tempo sobre ele. A conhecida "Slither", de outro projeto pós-Guns de Slash (o Velvet Revolver), foi a escolhida para fechar a parte regular da apresentação, mas todos sabiam que haveria um bis, e até qual seria a escolhida para ele. E "Paradise City" não decepcionou ninguém, com direito a chuva de papel picado (sobre a galera da pista Vip, claro) e um longo solo de Slash, fazendo com que todos saíssemos do Pepsi On Stage saciados de nossa fome de rock and roll, depois de pouco mais de duas horas de mais um espetáculo memorável acontecido na capital gaúcha. Vendo tanta gente reunida mais uma vez para prestigiar Slash e seus asseclas, não é difícil supor que Porto Alegre estará na rota do "guitarrista da cartola" da próxima vez que ele vier ao nosso continente. Estarei esperando, e tomara que não demore!

Miles Kennedy e Slash no palco do Pepsi On Stage

"I think it's time to set this world on fire , it may never be this good again..."

Set List:

1. You're a Lie 
2. Nightrain 
3. Standing in the Sun 
4. Ghost 
5. Back from Cali 
6. Wicked Stone 
7. Too Far Gone 
8. Mr. Brownstone 
9. You Could Be Mine 
10. Doctor Alibi 
11. Welcome to the Jungle 
12. The Dissident 
13. Beneath the Savage Sun 
14. Rocket Queen 
15. Bent to Fly 
16. World on Fire 
17. Anastasia 
18. Sweet Child O' Mine 
19. Slither 

Bis:

20. Paradise City 

Neil Young & Crazy Horse - Psychedelic Pill [2012]


Por Micael Machado

No começo de sua Autobiografia, o músico canadense Neil Young escreve que "quero reunir o pessoal (os músicos da Crazy Horse, sua principal banda de apoio ao longo de sua longa discografia solo) na minha fazenda e gravar, deixar o equipamento funcionando... até termos um grande álbum". Esta reunião, que, para o leitor, dá a impressão de ter acontecido durante o período em que o livro foi escrito por Neil, acabou gerando não apenas um "grande álbum", mas dois, ambos lançados em 2012: Americana, onde Young e seus comparsas Billy Talbot (baixo, vocais), Ralph Molina (bateria e vocais) e Frank "Poncho" Sampedro (guitarra e vocais) revisitam músicas do cancioneiro tradicional dos Estados Unidos, e este Psychedelic Pill, primeiro álbum duplo de estúdio do bardo canadense, e seu mais longo registro de inéditas até aqui. Com oito canções (o track list aponta nove porque uma delas aparece duas vezes) em quase uma hora e meia, ...Pill é o primeiro registro de músicas novas feitas por Neil com a Horse desde Greendale, de 2003 (ou, se formos ser mais exatos, desde Broken Arrow, de 1996, pois Poncho não participou das gravações de Greendale), e é um disco que guarda muitas semelhanças com outros registros do quarteto, como Ragged Glory, de 1990, ou o já citado Broken Arrow.

Assim como aqueles álbuns, a força de Psychedelic Pill reside em longas jams onde a guitarra de Young é a força principal, em solos desbundantes e "longos trechos instrumentais" que, como ele escreve em seu livro, "apenas a Horse consegue acompanhar". Só que, aqui, Neil parecerá, ao ouvinte comum, ter exagerado um pouco na receita, visto que, das três principais faixas (ou "jams") do disco, nenhuma tem menos de quinze minutos, sendo que a maior delas, "Driftin' Back" (logo a faixa de abertura!), passa dos vinte e sete. O que pode soar cansativo para quem não é familiarizado com a obra do canadense, com certeza causará arrepios de prazer em seus seguidores.

Ainda que parecidas na fórmula, as três canções são bem diferentes entre si, tanto musical quanto tematicamente. A citada "Driftin' Back" inicia apenas com a voz de Young acompanhada de seu violão, para, depois de um minuto e vinte segundos, ganhar o acompanhamento elétrico da Crazy Horse e então levar o ouvinte a uma viagem onde a guitarra do bardo parece tão contemplativa e reflexiva quanto sua letra, com Neil relembrando passagens de sua vida e expondo seus pensamentos sobre o mundo, em uma composição que parece ter sido diretamente influenciada pelas reflexões que fez enquanto escrevia seu livro. Um pouco mais "retos" e "duros" (características marcantes da "cozinha" da Crazy Horse, diga-se de passagem), os quase dezessete minutos de "Ramada Inn" acabam soando mais "familiares" aos fãs de Young, abrindo já com quase um minuto de sua guitarra em um belo solo, e tendo por tema um casal cujo relacionamento é marcado pelo alcoolismo. 


Billy Talbot, Frank Sampedro, Ralph Molina e Neil Young ao vivo durante a turnê de Psychedelic Pill

"Walk Like a Giant", a menor das três jams ("não chega nem a dezesseis minutos e meio", como se isso fosse pouco!), acaba sendo também a melhor, com uma "grudenta" frase feita pelos assovios de Young e Talbot, além do melhor refrão de todo o disco, uma letra onde o compositor se mostra preocupado com o destino do planeta e de seus habitantes, bem como o descaso de sua (e da nossa) geração com o tema (algo relativamente comum em sua discografia) e, claro, longos solos de Neil em sua guitarra. Na turnê de promoção do álbum, "...Giant" ganhava uma longa e barulhenta coda, o que fazia com que sua duração variasse em algo entre os vinte e cinco e os trinta minutos de duração! Pensa que alguém reclamava? Cabe citar ainda que o álbum não possuiu uma quarta longa jam em seu track list por decisão puramente pessoal de Young, visto que haveria espaço no segundo CD para os quase trinta e sete minutos e meio de Horse Back”, que começa lembrando a faixa “F*!#in’ Up”, do citado Ragged Glory, e embarca em uma "viagem guitarrística" de mais de dezoito minutos até desaguar em uma maravilhosa redenção de quase vinte minutos para a clássica "Cortez The Killer", registrada no álbum Zuma, de 1975, e minha faixa predileta dentre todas as escritas por Young. “Horse Back” (que é citada, sem que eu tenha conseguido comprovar esta afirmação, como sendo o primeiro registro feito durante aquelas sessões de reunião citadas lá no início) saiu oficialmente apenas como bônus da versão em blu-ray de Psychedelic Pill, privando assim o ouvinte "comum" de apreciar sua beleza!

"She's Always Dancing", outra faixa que pode ser considerada "longa" (passa dos oito minutos e meio), é uma espécie de "versão reduzida" das anteriores, também recheada de solos de guitarra e com a marcação "reta" da cozinha. A faixa título, a quinta composição "roqueira" do disco, tem um marcante riff, que traz à mente ecos da clássica “Cinnamon Girl”, de Everybody Knows This Is Nowhere (primeiro registro de Young com a Crazy Horse, lançado em 1969), mas que é originário das sessões de gravações de Le Noise, de 2010 (mais precisamente, daquele registrado na faixa “Sign Of Love”). "Psychedelic Pill", a música, recebeu um efeito chamado de "phaser" tanto na guitarra quanto na voz, o que a tornou um tanto quanto "psicodélica" (e deve ter sido esta a intenção de seu autor), mas que a faria cansativa e "chata" não fosse ela tão curta (pouco menos de três minutos e meio). Felizmente, há no final uma "mixagem alternativa" sem o efeito, a título de "faixa bônus", e que soa, pelo menos para mim, muito melhor, revelando finalmente a força da canção, que havia ficado soterrada debaixo dos ecos e da "sujeira" da "original". Uma segunda mixagem alternativa também aparece como bônus da versão em blu-ray, mas, como não consegui de forma alguma acesso a esta versão, me eximirei de comentar sobre ela (cabe ainda citar que a versão em vinil do álbum, embora tripla, possui gravações somente em cinco lados, sendo que o sexto tem apenas uma arte incrustada no disco).

Mudando um pouco a "fórmula" das faixas anteriores, "Twisted Road" traz algo de country em seu arranjo, estilo que não é de forma nenhuma incomum à carreira de Neil, e que também aparece em "Born in Ontario", que também mostra o compositor contemplativo e relembrando seu passado, em mais uma faixa talvez influenciada pelas reflexões causadas por sua biografia. A bela "For the Love of Man", que completa o track list, é reflexiva e contemplativa, e segue uma fórmula de reaproveitamento de antigas ideias que Neil adota frequentemente em sua carreira (desta feita, rearranjando uma faixa conhecida anteriormente como “I Wonder Why”, cujas primeiras demos conhecidas datam de 1981, ano em que Young lançou re-ac-tor, também ao lado da Crazy Horse), e acaba sendo um oceano de delicadeza e leveza no meio dos exageros guitarrísticos de suas colegas de álbum.


Capa traseira de Psychedelic Pill

Sempre inquieto, Neil Young já lançou dois discos desde que Psychedelic Pill entrou no mercado, sendo um deles em colaboração com o incensado músico Jack White (A Letter Home, com doze covers acústicos registrados de forma totalmente analógica em uma cabine de gravação datada de 1947, de propriedade do ex-cantor do duo White Stripes) e outro que possui versões orquestrais e para uma big band (em sua edição especial deluxede dez canções originais do bardo canadense, que, apesar da idade, parece ainda longe da aposentadoria! Que os anos e a saúde permitam a Young continuar nos presenteando com boa música, algo que ele tem feito com frequência há quase cinquenta anos! Long live Neil!

"When I think about how good it feels, I wanna walk like a giant on the land"

Track List:

CD 1:

1. Driftin' Back
2. Psychedelic Pill
3. Ramada Inn
4. Born in Ontario

CD 2:

1. Twisted Road
2. She's Always Dancing
3. For the Love of Man
4. Walk Like a Giant
5. Psychedelic Pill" (Alternate Mix)

Bônus da versão em Blu-Ray:

1. Horse Back
2. Psychedelic Pill (Alternate Mix 2)

domingo, 1 de março de 2015

Livro: Max Cavalera - My Bloody Roots [2013]


Por Micael Machado

"A minha história precisa ser contada, com verdade e precisão", é o que está escrito na contracapa de My Bloody Roots: Toda a Verdade Sobre a Maior Lenda do Heavy Metal Brasileiro, versão nacional para a autobiografia do músico brasileiro Max Cavalera  (Soulfly, Nailbomb, Cavalera Conspiracy e Killer Be Killed, além de, eternamente, ser um ex-membro do Sepultura), escrita pelo próprio com ajuda de Joel McIver, jornalista britânico que já colaborou para revistas como Metal Hammer, Classic Rock e Rolling Stone (além de ter escrito livros sobre Black Sabbath, Metallica, Slayer e Queens Of The Stone Age, dentre outros). Em pouco mais de duzentas páginas, Max conta a sua vida desde a infância em meio à alta sociedade paulistana (graças à situação financeira do pai, que trabalhava na embaixada italiana em São Paulo), até os primeiros trabalhos para um projeto que viria a se tornar o Killer Be Killed (que lançou seu álbum autointitulado em 2014, um ano depois da publicação do livro), passando, claro, por seu período à frente do Sepultura e sua carreira como líder do Soulfly.

A trajetória de vida do cantor e guitarrista (não só a parte ligada diretamente à música) é contada pelo artista em uma linguagem de fácil leitura, clara e direta, a qual é um pouco atrapalhada pela tradução, que usa termos que soam "estranhos" para quem é acostumado a ler/ouvir entrevistas com Max, como se fosse difícil acreditar que o músico escolheria certas palavras para descrever determinadas situações, algo compreensível visto o livro ter sido escrito claramente para o mercado norte-americano (visto a maneira como o autor se esforça para descrever lugares e artistas bem conhecidos no Brasil, mas cita quase como "de passagem" locais e pessoas que, acredito, são familiares aos leitores dos Estados Unidos, mas dos quais não sabemos muito em nosso país), e, portanto, o trabalho de tradução (por Roberto Muggiati) ter sofrido desta necessidade de "adaptação" para a nossa realidade, algo que não foi levado em conta quando da escrita do texto original.

O que não impede que My Bloody Roots seja bastante informativo e interessante mesmo para quem já percorreu outras biografias ou documentários sobre o Sepultura ou o Soulfly. As opiniões e percepções de Max sobre os acontecimentos com suas bandas (e seus diversos componentes) são, por vezes, bastante peculiares, e a visão de alguém "de dentro" ajuda a esclarecer alguns fatos sobre a carreira dos grupos por onde passou, especialmente nos episódios de separação do Sepultura (para o qual ele tem uma explicação bastante diferente daquela conhecida pelo "senso comum"), criação e posterior "aniquilação" do Nailbomb (cuja intencionalmente curta história é relatada com impressionante riqueza de detalhes) e a constante troca de integrantes no Soulfly, o qual, Max admite, é a "sua" banda, independente de quem estiver lhe acompanhando no momento.

Algumas das fotos presentes no livro

Com prefácio escrito de forma devotada e apaixonada por Dave Grohl (do Foo Fighters, que se mostra um grande fã de Max, com quem trabalhou no projeto Probot), um dos aspectos que mais enriquece o livro são os depoimentos que surgem durante o texto feitos pelos diversos músicos, produtores, empresários e jornalistas que trabalharam ou conviveram com o brasileiro ao longo de sua carreira, assim como participações importantes de sua esposa Gloria (sua empresária desde a época de Sepultura) ou dos filhos dela, todos sempre com palavras e declarações extremamente elogiosas para com a pessoa e o artista Max Cavalera, enaltecendo sua integridade, dedicação e generosidade, e desmistificando um pouco a imagem de "arrogante" que se construiu sobre o músico aqui no Brasil, especialmente depois de sua saída do Sepultura, fato que, convenhamos, nunca foi bem digerido nem pela imprensa nem pela maioria dos fãs de heavy metal em nosso país!

Aparentemente de forma bastante honesta, Max descreve, com um bom nível de detalhes, os períodos de gravações e turnês de todos os seus discos e projetos, tentando quase sempre justificar ou explicar os caminhos musicais "diferentes" pelos quais já se arriscou (como gravar com os índios brasileiros para o álbum Roots, do Sepultura, ou procurar músicos da Sérvia, Rússia, Jamaica ou Turquia para colaborarem em discos do Soulfly), bem como não se esquiva em nenhum momento de tratar de assuntos "espinhentos" como a traumática morte do pai, ainda na adolescência (a qual lhe marcou profundamente, e nunca foi totalmente superada), o assassinato do enteado Dana Wells (filho de Gloria), a morte de seu "neto" Moses (filho de sua enteada Christina) e, principalmente, sua luta contra o vício em álcool e analgésicos, que o levou a uma internação em um centro da reabilitação, e sobre o qual ele trata de forma direta e objetiva, sem rodeios ou auto-condescendências, como, aliás, tudo o mais descrito ao longo do livro.

Capa, contracapa e "orelhas" de My Bloody Roots

Apesar de surpreendentemente curto devido à quantidade de informações e de conteúdos interessantes que possui, My Bloody Roots (que possui ainda vinte e quatro páginas com fotos de Max desde a mais tenra idade até o período da escrita do livro) é leitura obrigatória não só para os fãs de Max Cavalera (mesmo que em apenas alguma época de sua carreira), mas para todos aqueles interessados na história do heavy metal em nosso país, estilo do qual Max é, sem sombra de dúvidas, o nome de maior prestígio e importância em nível mundial que o Brasil já teve (e dificilmente algum artista chegará a superá-lo algum dia). Se tiver a chance de conferir esta obra, faça um favor a si mesmo, e não a desperdice!

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Machinaria - Sacred Revolutions / Profane Revelations [2014]


Por Micael Machado

O interior do Rio Grande do Sul já revelou diversas bandas importantes para o cenário da música nacional de diversos estilos, sendo que, no heavy metal em particular, o maior exemplo com certeza é o Krisiun, que saiu da cidade de Ijuí para conquistar os palcos do mundo inteiro. Pois o Machinaria, surgido na localidade de Bagé, na campanha gaúcha, é mais uma formação que começa a traçar sua caminhada em relação a um reconhecimento maior por parte de quem gosta do estilo, através de seu debut, intitulado Sacred Revolutions / Profane Revelations, disponibilizado no mercado de forma independente em 2014.

Com três singles lançados desde seu surgimento em 2011, o quinteto, formado atualmente por Luciano Ferraz (vocal), Matheus Leal (guitarra solo), Alan Quintana (guitarra base), Luiz Mário Moraes (Baixo) e Bruno "Porta" Dachi (Bateria), estreia com um álbum conceitual com pouco mais de quarenta e sete minutos de um thrash metal moderno, que não se restringe apenas à velocidade em suas composições, apresentando também bastante "groove" e partes mais cadenciadas ao longo das faixas, além de algumas melodias que remetem a um heavy mais "tradicional". O disco é conceitual, e a temática das letras (todas a cargo do vocalista Luciano Ferraz) trata, de forma bastante interessante, do período da Inquisição Católica durante a idade média, e, embora sem contar uma história com começo, meio e fim, utiliza os textos para criticar as incongruências e exageros do período, bem como a postura da religião desde aqueles tempos até os dias atuais.

Machinaria: Luiz Mário Moraes (Baixo), Alan Quintana (guitarra base), Luciano Ferraz (vocal), Bruno "Porta" Dachi (Bateria) e Matheus Leal (guitarra solo)

Assim como as composições não se limitam a uma única fórmula pré definida (há muitas variações mesmo dentro de cada faixa, indo desde momentos mais velozes como os apresentados em "Scapegoat", "Act Of Justice" e "New Eyes, Old Lies", passando por aquele "thrashão" tradicional, que pode ser ouvido em "Shallow Grave", e chegando até partes bastante cadenciadas como as de "Holy Office", que tem um trecho bem lento no meio e foi escolhida, com todos os méritos, para ser o primeiro vídeo clipe oficial do conjunto), também os vocais de Ferraz se mostram bastante variados, indo desde um gutural a la John Tardy (vocalista do Obituary) na faixa de abertura (intitulada "Iconoclast", um dos destaques do álbum) até uma agradável voz limpa (na faixa título, uma das que apresentam mais melodia, especialmente em seu início), passando por um "rasgado" que lembra Phil Anselmo (do Down, ex-Pantera) em "Pictures Of The Dark" e até alguns agudos bem executados (e sem exageros) vez por outra. O tamanho das músicas também se mostra adequado, variando entre os quatro e os seis minutos de duração, sem aquela "encheção de linguiça" que por vezes encontramos em outros álbuns do estilo. Tudo isso ajuda a não tornar o álbum cansativo, e as oito faixas do track list regular se deixam ouvir facilmente, tendo tudo para agradar aos fãs do estilo.

Gravado no estúdio PortaHousemetal, na cidade natal do grupo, e com mixagem e masterização a cargo do baterista Bruno Dachi, a produção (executada pelo próprio quinteto) acabou ficando muito boa, deixando todos os instrumentos bem audíveis (até mesmo o baixo, normalmente mais "sumido" em produções do estilo, e que aqui chega a conseguir o "papel principal" sob os holofotes em músicas como as citadas "Act Of Justice" ou "Sacred Revolutions / Profane Revelations", onde tem direito até mesmo a um solo!), pecando apenas no timbre da guitarra de Matheus Leal em seus solos, o qual soa muito "magro" em relação ao peso dos demais componentes da sonoridade da banda, sendo este apenas um quesito "menor" no trabalho, sem chegar a comprometer o resultado final da audição.

Detalhe do CD

Como bônus, completa o disco a faixa "Burning My Soul", retirada do primeiro single do conjunto (que tinha o mesmo nome, e foi lançado em 2013), a qual apresenta algumas partes de uma entrevista com o famoso assassino Charles Manson realizada em 1987, e que ajuda a compor um interessante registro de estreia de uma banda que tem tudo para trilhar um caminho de sucesso no mundo do heavy metal nacional, assim como seus conterrâneos de estado citados lá no início desde texto. Potencial para isto, com certeza, o Machinaria possui.

Track List:

1. Iconoclast
2. Scapegoat
3. Act Of Justice
4. Holy Office
5. Pictures Of The Dark
6. Sacred Revolutions, Profane Revelations
7. New Eyes, Old Lies
8. Shallow Grave
9. Burning My Soul (Bonus Track)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Livro: Black Sabbath - A Biografia [2013]


Por Micael Machado

A Biografia da banda inglesa Black Sabbath não é o primeiro livro do jornalista, radialista e escritor (também britânico) Mick Wall que eu leio, mas, ao contrário do que acontece com o excelente Led Zeppelin: Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra, desta vez a leitura das mais de 330 páginas da obra em questão deixará um sabor quase agridoce ao fã que se aventurar por suas linhas.

Tendo entrevistado os membros do grupo (em suas várias encarnações) ao longo dos anos (fossem eles integrantes efetivos ou ex-colaboradores quando de suas conversas), assistido a diversos shows e inclusive trabalhado como relações públicas para a banda durante a primeira passagem do vocalista Ronnie James Dio pelo Sabbath (e depois durante a carreira solo do cantor, assim como exerceu a mesma função na carreira solo de Ozzy Osbourne a certa altura), Wall tinha tudo para escrever o compêndio definitivo sobre um dos grupos mais importantes do hard rock setentista, considerado um dos pais do heavy metal e um dos membros da Santíssima Trindade do rock pesado (ao lado do citado Led Zeppelin e dos também ingleses do Deep Purple). Mas, infelizmente, o jornalista resolveu dedicar atenção especial apenas às fases do grupo pela qual ele nutre um assumido apreço e interesse musical, dedicando apenas umas poucas linhas para os períodos que ele considerou como "de baixa" na história do quarteto (fases que, em geral, têm a mesma consideração também por parte dos fãs do grupo).

Algumas das fotos presentes no livro

Desta forma, se a infância/adolescência dos membros originais do Sabbath são destrinchadas quase que cirurgicamente pelo autor (assim como o período entre o primeiro disco e o álbum Sabbath Bloody Sabbath, de 1973), Mick Wall também dedica uma atenção especial à primeira fase de Dio com o grupo (à qual ele acompanhou "de dentro", como citei), ao período em que o cantor Ian Gillan esteve à frente do quarteto (o que rendeu o lançamento do disco Born Again, em 1983) e ao retorno de Dio em 1992, bem como coloca em evidência a importância e a colaboração do eterno "tecladista escondido" Geoff Nicholls para o Sabbath (ele que, apesar de algumas críticas que sofre por parte do escritor, é citado como fundamental para que o grupo continuasse na ativa depois da saída de Ozzy, ajudando Iommi a compor e sempre apoiando o guitarrista durante as várias mudanças de formação que o grupo enfrentou durante a década de 1980). Estranhamente, há também várias páginas dedicadas à primeira fase da carreira solo de Ozzy, quando tinha ao seu lado o fantástico guitarrista Randy Rhoads, em trechos que, embora bastante interessantes (e até emocionantes por vezes), acabam soando um pouco deslocados, visto o livro ser sobre o Sabbath, não sobre seus membros (há também, para ser justo, várias referências à carreira solo de Dio, embora em menor número).

Porém, o período final da primeira fase com Ozzy (que rendeu dois discos considerados como "desastrosos" pelo autor, Technical Ecstasy e Never Say Die) rende páginas e mais páginas quase que apenas denegrindo a imagem do grupo (e de seu vocalista) na época. Já as fases com Glenn Hughes, Ray Gillen e Tony Martin ao microfone (sete anos e quatro discos, se considerarmos apenas a primeira passagem deste último pelo quarteto) ocupam apenas vinte e quatro páginas (os dois primeiros anos de Dio com o grupo renderam quarenta, para terem ideia), enquanto o período entre os shows gravados no disco Reunion (de 1998) e as gravações de 13, durante os anos de 2012 e 2013 (quando ocorreram várias turnês encabeçando o festival Ozzfest, e pelo menos duas tentativas de concluir um novo álbum de estúdio), também não chegam a despertar maiores interesses por parte do autor, e, apesar de bem catalogados e de não deixarem de trazer informações interessantes mesmo ao mais dedicado fã da banda, acabam deixando no leitor a impressão de que poderiam ter sido melhor explorados, ainda que, para isso, o número total de folhas do compêndio tivesse de ser aumentado em mais algumas dezenas de páginas.

Capa e contracapa da versão nacional de Black Sabbath - A Biografia

O livro se encerra quando do lançamento do álbum 13 (em 2013), e, mesmo com algumas (poucas) falhas, como as citadas, e um certo gosto de "quero mais" ao final da leitura, ainda consegue ser bastante recomendável, até porque o talento de Mick Wall como escritor é inegável (sua escrita é ágil e direta, proporcionando uma leitura bastante agradável), e a tradução para o português (a cargo de Marcelo Barbão) parece ter sido feita por quem "entende do riscado", evitando vários equívocos que alguém "de fora" do meio musical comete frequentemente, como se vê em outras obras por aí. Black Sabbath - A Biografia (que ainda possui vinte e quatro páginas com fotos de diversas fases da carreira do grupo) pode não ser, ainda, a obra definitiva da história dos ingleses de Birmingham, mas está de bom tamanho para quem quiser saber um pouco mais sobre um dos mais importantes nomes do heavy metal de todos os tempos. Confira!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Leviæthan - Disturbed Mind [1992]


Por Micael Machado

Quando eu me mudei do interior do Rio Grande do Sul para a região metropolitana de Porto Alegre, a rádio Ipanema FM (ainda hoje a "rádio rock" mais importante da capital gaúcha) foi essencial para me apresentar bandas e sonoridades que, até então, eu só conhecia através de revistas e jornais (lembrando que, na época, a internet ainda não era tão popularizada quanto hoje). E foi através das ondas sonoras desta emissora que descobri as músicas do álbum Disturbed Mind, do grupo gaúcho Leviæthan, e fui surpreendido e conquistado por suas qualidades!

Formado em 1983, o Leviæthan chegou a participar da lendária coletânea Rock Garagem no ano seguinte, ainda como um trio e compondo em português. Após uma troca de bateristas, registraram a demo Thrash Your Brain, a qual lhes rendeu um contrato com a gravadora Rock Brigade Records, por onde lançariam, em 1990, seu álbum de estreia, intitulado Smile, já com a formação estabilizada no quarteto Carlos "Lots" Henrique e Alexandre Colletti (guitarras), Danilo Pizzato (bateria) e Flávio Soares (vocal e baixo), este uma verdadeira "lenda viva" do metal gaúcho, já tendo sido apresentador da própria Ipanema FM, produtor de shows e um dos proprietários da saudosa Madhouse, loja ligada ao rock pesado que marcou época em Porto Alegre. A excelente recepção do disco os levou a registrar Disturbed Mind em 1992, mostrando uma evolução absurda em um álbum espetacular, bem mais trabalhado e melhor gravado (e produzido) que o trabalho de estreia.

Leviæthan em 1992: Alexandre Colletti, Flávio Soares, Carlos "Lots" Henrique e Danilo Pizzato

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção no som do grupo, quando o ouvi pela primeira vez há muito tempo atrás na citada rádio, foi a presença do violão no meio da porradaria, não como um instrumento de "introdução" às músicas (como eu já havia escutado em álbuns do Metallica ou do Sepultura), mas com frases e até solos encaixados em meio ao trabalhado thrash metal executado pelos gaúchos. Esta característica aparece com ênfase na faixa de abertura "Seeds of Violence", e, em menor escala, em "In Search Of Life" e na faixa título, mostrando que o quarteto não tinha medo de ousar para atingir seus objetivos musicais. Isto para não citar "Facing Reality", onde se pode perceber o uso de um instrumento que, a menos que muito me engane, soa perfeitamente igual a um cavaquinho (!).

É difícil apontar destaques em um track list tão regular, mas acredito que os fãs do estilo encontrarão muitas qualidades durante a audição de faixas como "Drinkin' Death" (que possui algo de Megadeth em seu arranjo), "Visions of a Distorted Path" (cuja intro lembra muito o Sepultura da época de Schizophrenia), "The Evil Within" (que, por ser um pouco mais cadenciada que as demais, curiosamente lembra algumas coisas que o Slayer viria a registrar na década de 1990) ou "Time For Lies". Apesar das bandas "para referência" que citei acima, não seria errado dizer que o thrash metal dos gaúchos, movido a riffs poderosos, se baseia muito na escola germânica do estilo, principalmente nos registros antigos dos grupos Destruction e Kreator (confira o estilo dos solos, principalmente os executados por Colletti, talentoso guitarrista que, infelizmente, viria a falecer em 1994, vítima de um acidente de trânsito). Ou seja, como o leitor mais atento já percebeu, a bolachinha é "coisa fina" para quem curte este tipo de som!

Outra característica que chama a atenção neste disco do Leviæthan são as letras de suas composições.  Em sua maioria a cargo do baterista Danilo Pizzato (assim como no registro anterior), elas fogem um pouco dos "clichês" líricos da época, abordando temas como preocupações ecológicas e com o futuro da humanidade ("In Search Of Life", "Visions of a Distorted Path"), loucura ("Disturbed Mind"), os perigos e danos de se entregar ao álcool ("Drinkin' Death") e até um raivoso lamento pelo assassinato do gato de estimação do narrador de "My Cat" (sendo que "Philip VII", curta composição que quase pode ser taxada como vinheta, não chega a ter uma letra propriamente dita, apenas sons ininteligíveis balbuciados por Fábio, além de, erroneamente, estar grafada como "Philip IIV" na contracapa). Tudo isto acentuado pela excelente pronúncia e vocalização de Soares, que lembra bastante um Schmier, do Destruction, ou, mais evidentemente, os registros do jovem Tom Araya (confira a parte mais cadenciada no meio de "Facing Reality" e perceba se não tenho razão).

Flávio Soares, um dos maiores batalhadores do heavy metal gaúcho

Talvez seja devido à memória afetiva que eu tenho com o disco, mas Disturbed Mind é, em minha opinião, o melhor álbum de thrash metal já registrado no Rio Grande do Sul (ao lado de Best Before End, da Panic, curiosamente lançado no mesmo ano de 1992). Graças à iniciativa pessoal de Flávio Soares, a bolachinha foi relançada em CD neste ano de 2014 (apresentando uma arte um pouco diferente, em tons mais escuros), com o apoio da gravadora e distribuidora True Metal Records & Distro e da Thrash S/A, trazendo como bônus três faixas da demo Thrash Your Brain, que depois seriam retrabalhadas e regravadas para aparecer no disco de estreia, dentre elas a vinheta "Pimponetta", uma das favoritas dos fãs nas apresentações ao vivo do conjunto, que, com uma formação renovada (mas estabilizada desde 2010), continua se apresentando pelo país, alem de trabalhar intensamente nas gravações de seu terceiro registro (previamente intitulado D-Evil in Me), sempre tendo à frente seu marcante baixista e vocalista, uma das figuras mais importantes do heavy metal do Rio Grande do Sul. Longa vida ao "monstruoso" Leviæthan gaúcho!

Track List:

1. Seeds of Violence
2. Facing Reality
3. Drinkin' Death
4. In Search Of Life
5. My Cat
6. Visions of a Distorted Path
7. The Evil Within
8. Philip VII
9. Time For Lies
10. Disturbed Mind

Faixas bônus da reedição em CD:

11. Bred To Die
12. The Last Supper
13. Pimponetta