quinta-feira, 13 de junho de 2024

Renaissance - Academy Of Music 1974 [2015]

Por Micael Machado

Há exatamente 50 anos, em 17 de maio de 1974, o grupo inglês Renaissance, formado à época pela cantora Annie Haslam, pelo violonista Michael Dunford, baixista Jon Camp, tecladista John Tout e pelo baterista Terence Sullivan, aportava na opera house The Academy of Music, em Nova Iorque, para duas apresentações em sequência, uma iniciando as oito da noite, a outra as onze e meia, ambas com abertura do também britânico Fairport Convention. O quinteto já havia tocado no mesmo local em março daquele ano, mas esta ocasião seria especial por, pelo menos, dois motivos: estariam apresentando as músicas do então recém lançado Turn of the Cards (ou ainda por lançar, pois Dunford chega a citar, antes de introduzir a canção "Black Flame", que "o novo álbum saiu alguns dias atrás, eu espero!"), e, mais importante que isto, estariam se apresentando ao lado de uma orquestra de 24 músicos, ideia sugerida pelo promotor do concerto, Howard Stein, ainda na apresentação de março. O primeiro dos dois shows foi transmitido pela rádio WNEW, e, depois de ser disponibilizado em vários bootlegs diferentes ao longo dos anos, foi lançado oficialmente em 2015 pela gravadora Purple Pyramid, nos formatos CD e vinil (ambos duplos) com o título bastante genérico de Academy Of Music 1974, e uma arte de capa de gosto "duvidoso", para dizer o mínimo, além de, em 2020, ser incluído na versão expandida (com 3 CDs e um DVD) do citado Turn of the Cards.

Mas, se título e capa deixam a desejar, o conteúdo musical apresentado nas bolachas é extremamente recomendável. Mostrando a confiança do grupo no novo material, cinco das seis faixas de Turn of the Cards fizeram parte do repertório da noite em questão. Ainda que sem maiores diferenças em relação aos arranjos de estúdio, é bastante curioso ouvir futuros clássicos como "Running Hard", "Things I Don't Understand" e, principalmente, "Mother Russia" (onde, na introdução, Dunford pede uma merecida salva de palmas para a orquestra que acompanha o grupo, sendo que, justamente esta faixa, é uma das quais ela possui maior destaque no disco inteiro), serem tocadas em frente a uma plateia que, em sua maioria, estava sendo apresentada a eles naquela noite (sendo que muitos ali, certamente, nunca haviam ouvido tais músicas antes). A já citada "Black Flame" (uma das minhas favoritas na discografia da banda) e a versão do grupo para o "Adagio in G minor" de Albinoni (que, segundo a wikipedia, foi na verdade composto por Remo Giazotto), chamado "Cold Is Being" (onde, na introdução, Dunford diz que "acredito que já tenhamos tocado esta na vez anterior em que estivemos aqui, o que faz com que seja a segunda vez que a interpretamos ao vivo") se tornariam bastante raras em set lists futuros, tornando suas presenças aqui ainda mais especiais.

O Renaissance em 1974: John Tout, Annie Haslam, Terence Sullivan, Jon Camp e Michael Dunford

Aos fãs que a banda já havia conquistado anteriormente, apenas quatro músicas foram apresentadas, mas as escolhas não deixam motivos para nenhum ressentimento. Começando pela maravilhosa abertura com os quase doze minutos de "Can You Understand", passando pela belíssima "Carpet Of The Sun", e culminando em uma fantástica versão de mais de vinte minutos para "Ashes Are Burning" (que conta com a presença do próprio promotor Howard Stein no segundo piano, além da participação, assim como na versão de estúdio, de Andy Powell, do Wishbone Ash, na guitarra elétrica, em uma das raras performances desta faixa com este instrumento durante a versão setentista da banda), a qual, ao lado da citada "Mother Russia", já bastaria para indicar a aquisição deste disco a qualquer fã da banda. O álbum e a apresentação (que totaliza pouco menos de noventa minutos) se encerram com outra magnífica versão, desta vez para "Prologue", onde Annie, no mais impecável ao longo de todo o show, dá um verdadeiro "baile" em muita cantora operística de banda de gothic metal do século XXI com o poder de sua abençoada garganta!

Como escrito na contracapa da versão em LP,  Academy Of Music 1974 encontra o Renaissance em um momento de virada, prestes a atingir a consagração com os álbuns posteriores Scheherazade and Other Stories e Novella, mas ainda desconhecidos o suficiente para estarem com o "sangue nos olhos" de uma banda que ainda tem conquistas a alcançar. Ainda citando a contracapa do LP, "podem haver outros registros ao vivo da banda tão bons quanto este, mas eles são de um momento posterior em sua carreira, com a banda já seguramente encaixada na posição de destaque que alcançaram. Aqui, o Renaissance ainda não havia atingido este status, e isto torna tudo diferente!" E, também, ainda mais especial, acrescento eu, cinquenta anos depois!

Contracapa da versão em vinil de Academy Of Music 1974

Track List (versão em CD):

CD1:

1. Can You Understand

2. Black Flame

3. Carpet Of The Sun

4. Cold Is Being

5. Things I Don't Understand

6. Running Hard

CD2:

1. Ashes Are Burning

2. Mother Russia

3. Prologue

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Resenha de Show: Augusto Licks, Carlos Maltz e Engenheiros Sem CREA (Porto Alegre, 21 de Abril de 2024)

Por Micael Machado

Fazia pelo menos trinta anos que o guitarrista Augusto Licks e o baterista Carlos Maltz não tocavam juntos no mesmo palco, desde a saída do primeiro da mais clássica formação do grupo gaúcho Engenheiros do Hawaii, conjunto que arrecadou milhares de fãs pelo país e (por que não?) pelo mundo. Um deles é o baixista/vocalista/tecladista Sandro Trindade, que desde 2016 mantém na ativa o tributo Engenheiros Sem CREA, tendo ao seu lado o guitarrista Jeff Gomes. O grupo de Sandro e Jeff chegou a tocar, em ocasiões separadas, tanto com Licks quanto com Maltz, até que surgiu a ideia de convidar os dois para tocarem ao mesmo tempo com o tributo de Sandro. Proposta aceita, o show de "reunião" de 2/3 da "formação GLM" dos Engenheiros foi anunciado em fevereiro deste ano, tendo data, hora e local marcados para acontecer: 21 de abril, ás 20h, no Bar Opinião, em produção da Abstratti Produtora. Quando soube da notícia, comprei meu ingresso nas primeiras horas em que os mesmos foram disponibilizados, e fiquei quase dois meses na expectativa de um show que, eu sabia, seria histórico! Sou fã dos EngHaw desde minha adolescência (lá por 1986, 1987), mais precisamente, desde que ouvi "Toda Forma de Poder" na trilha sonora da novela Hipertensão, da Rede Globo. Cheguei a assistir ao grupo ao vivo na fase do disco ¡Tchau Radar!, já sem Licks e Maltz, e assisti Humberto Gessinger em carreira solo algumas vezes, em uma delas até com a presença de Carlos Maltz junto a si, na gravação do que resultaria no CD/DVD Ao Vivo Pra Caramba, A Revolta Dos Dândis 30 Anos (mas, nesta ocasião, o baterista apenas cantou e tocou percussão em uma única música - ainda que a mesma tenha sido repetida duas vezes naquela noite, por problemas técnicos na gravação). Mas ainda não havia assistido Augusto Licks, um dos melhores guitarristas do chamado BROCK nacional, ao vivo sobre um palco, e havia, então, chegado a hora de corrigir esta "falha" no meu "currículo".

Foi com esta expectativa que rumei ao Opinião na tarde/noite de domingo, pronto para presenciar um reencontro que tinha tudo para nunca acontecer, se pensarmos na história dos envolvidos. Ainda antes de chegar ao local, um fato curioso: para quem não conhece o Opinião, o bar fica na esquina de duas ruas do bairro Cidade Baixa, na capital dos gaúchos. Pois em ambas as ruas que levavam ao local, no lado de fora mesmo, foram montadas as bancas de merchandising dos produtos do show, com copo (dez reais), pôster (vinte reais, e, "supostamente", autografado pelos músicos) e camiseta (noventa reais - infelizmente, não tinha confecção do meu tamanho) disponíveis para os fãs que iam chegando e rumando para a fila, numa atitude que achei muito interessante, pois permitiu que, quem quisesse garantir sua "lembrança do show", como anunciavam os vendedores, o fizesse sem precisar entrar na casa, enfrentar longas filas já no local do show, e ainda correr o risco de "perder o lugar" para ver ao show enquanto garantia seus itens. Excelente sacada da produtora (ou de quem foi o responsável pela ideia)!

Excelente também foi a organização do evento, com os portões abertos na hora marcada, permitindo às pessoas que estavam na fila (ainda em número pequeno perto de outras que já vi no local) que adentrassem confortavelmente no bar. A Abstratti separou o local em três setores ("pista vip", "pista comum" e "mezanino", algo que, devido ao tamanho do Opinião, sempre me parece algo bastante ridículo, pois a diferença entre um setor e outro não é tão significativa para justificar a diferença cobrada no preço dos valores entre os setores), e eu rumei para a pista comum, da qual tinha comprado ingresso. Pois foi com enorme surpresa que vi, passando ali pelo meio, o primeiro baixista dos Engenheiros, Marcelo Pitz, que circulava praticamente incógnito pelos poucos presentes que já estavam dentro do local. Confesso que não o reconheci de imediato, mas, alertado por alguém, logo o chamei e solicitei uma (hoje quase obrigatória) foto e seu autógrafo na capa do meu vinil de Longe Demais Das Capitais, único álbum da banda do qual ele participa. Ao lhe agradecer a atenção e disponibilidade, recebi de volta um "eu que agradeço a vocês, que ainda mantém a lembrança da gente com vocês!"! Achei muito bacana a atitude e a humildade de Pitz, além de sua imensa simpatia com aqueles que lhe abordaram!

Marcelo Pitz e o "bolha" que lhes escreve

Exatamente na hora marcada, às 20 horas, uma moça (da qual não guardei o nome, peço desculpas pela mancada) subiu ao palco, anunciou o show, agradeceu a presença "de gente do Brasil inteiro aqui esta noite", e disse que, depois do show, os músicos estariam recebendo os presentes para autógrafos e fotos, me fazendo sentir bem por ter levado meus vinis para o Opinião naquela noite. Os oito primeiros discos da banda já haviam tido sua capa autografada por Humberto na turnê do citado ¡Tchau Radar!, e Pitz havia acabado de assinar o primeiro deles. Parecia que eu conseguiria, enfim, "fechar" os demais membros do grupo, e "completar" minha coleção de autógrafos da banda, mas trataremos disso depois.

Primeiro, cabe dizer que, ainda com a "mestre de cerimônias" sobre o palco, Jeff, Sandro, Maltz e Licks subiram ao mesmo, iniciando o show, sem muita enrolação, com "Toda Forma de Poder", sucesso do disco de estreia dos EngHaw, ainda sem Licks, mas presente em toda a trajetória da formação GLM ao longo de sua duração. Já na segunda canção, veio aquela que, possivelmente, fosse a música que eu, particularmente, mais aguardava na noite: "Variações Sobre um Mesmo Tema", que os Engenheiros nunca (ou raramente) tocaram ao vivo, mas que eu já havia visto um vídeo de Licks e o grupo de Sandro tocando ao vivo em certa ocasião no passado. Infelizmente, na terceira parte da música, a qual conta com os vocais de Licks, o microfone do guitarrista falhou, e os dois primeiros versos ficaram sem serem ouvidos pelo público que, nesta altura, já lotava o Opinião (que ficou muito cheio ao longo de toda a noite, mas não ficou "completamente lotado" como em outras ocasiões que já presenciei no mesmo local). Augusto se moveu então para a frente do microfone de Sandro, completando a canção sem maiores transtornos, e, logo em seguida, emendou "A Revolta dos Dândis I", causando um novo alvoroço no pessoal. O final com arranjo mais "bluesístico" desta versão (como no disco Alívio Imediato, cuja capa, inclusive, estampava a camiseta que eu estava usando) trouxe Licks ao teclado, instrumento no qual ele continuou naquela que seria a grande "surpresa" do set list na noite: "Canibal Vegetariano Devora Planta Carnívora", música do álbum Gessinger, Licks & Maltz que foi a única da noite que não teve a letra cantada a plenos pulmões pela imensa maioria dos presentes ao bar, embora tenha sido reconhecida (e cantada) por boa parcela do público!

Um certo "bolha" curtindo o show no meio do público

Sandro direcionou o obrigatório "Boa noite, Porto Alegre!" ao pessoal e, a partir daí, os músicos partiram para o "jogo ganho", e o restante do set list foi só de "hits" enormes dos Engenheiros do Hawaii (talvez "Muros e Grades" ou "Ando Só" sejam "hits menores", na realidade, mas não para mim!). Uma sequência mais "lenta" com Sandro ao piano, englobando "Terra de Gigantes", "Pra Ser Sincero" (novamente com Licks nos teclados) e "Refrão de Bolero" (precedida por Licks tocando um trecho de "Besame Mucho" na guitarra, segundo o que li, algo que já havia sido feito na turnê de Várias Variáveis) "baixou" um pouco a empolgação da galera, mas, convenhamos, não tinha como estas três músicas ficarem de fora da noite (talvez se elas não tivessem sido "agrupadas", mas sim "espalhadas" pelo set list, a minha percepção teria sido diferente). A galera voltou a vibrar com a versão do quarteto para "Alívio Imediato" (outra onde Licks se dedicou às teclas em boa parte da execução), e o  clima de empolgação continuou "lá em cima" até a execução de "O Exército de Um Homem Só I", que, com seu final "apoteótico", parecia que iria  encerrar o show ali mesmo (e confesso que eu, de tanto ouvir Gessinger "emendar" as duas partes da canção em suas apresentações ao vivo, pensei que o quarteto iria fazer o mesmo, algo que, infelizmente, não ocorreu). Mas, logo depois do final da canção, Sandro puxou a faixa título do álbum O Papa é Pop, sendo outra canção deste álbum, a versão "EngHawlística" para "Era um Garoto que como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones", a encarregada de fechar os trabalhos regulares da apresentação!

Claro que o pessoal não arredou pé do Opinião tão fácil assim, e, sem muita enrolação, os quatro voltaram para interpretar outra cover, agora a versão de "Herdeiro da Pampa Pobre", presente no citado disco Várias Variáveis. Também deste álbum, veio em sequência "Piano Bar" (onde Sandro perdeu a oportunidade de cantar que "no táxi que me trouxe até aqui Humberto Gessinger me dava razão", preferindo se manter à letra original, que coloca Julio Iglesias no rádio do carro), com uma nem tão longa versão para "Infinita Highway" finalmente encerrando o show, para alegria e enorme empolgação de todos os presentes!

Em termos de performance, Jeff foi bastante discreto, chegando a sair do palco em certas músicas, deixando apenas o trio restante interpretarem as músicas, e Sandro foi um frontman efetivo, tocando muito bem tanto o baixo quanto os teclados (e até arriscando alguns toques nos bass pedals instalados à sua frente, tal qual Humberto fazia tanto solo quanto com a banda), além de ter um timbre de voz que se assemelha (mas não copia) o do líder dos Engenheiros. Licks e Maltz pareciam estar se divertindo bastante, alegres mas concentrados, e nem um pouco surpresos com a resposta extremamente positiva do pessoal ao reencontro dos dois. Tecnicamente, por parte dos dois músicos, a noite não foi livre de falhas, sendo que Carlos perdeu algumas batidas, e Licks chegou a dar umas "derrapadas" bastante perceptíveis (a maior delas, a meu ver, durante o solo de "Ninguém = Ninguém"). Mas, como Maltz disse a um fã depois da apresentação (quando o mesmo o elogiou pela performance na noite, dizendo que "parecia que ele - Maltz, no caso - nunca havia parado de tocar"), "hoje não era pra tocar tudo certinho, porque a emoção estava muito alta, não tinha como se concentrar para tocar perfeitinho!". Realmente, não teve quem não se emocionasse ao longo do show; um sujeito chegou a berrar, num dos raros intervalos mais prolongados entre as músicas, a frase "eu vivi pra ver esse show!", arrancando aplausos até de Licks, com Sandro lhe respondendo em seguida "nós também"! Depois do show, em rápida conversa com o CEO da Abstratti, quando o elogiei pelo excelente espetáculo que a produtora havia proporcionado a todos nós, o mesmo me falou "e tudo isto com apenas três ensaios. Imagina se eles estivessem mais entrosados"! Foi uma celebração e um clima de nostalgia tão positivo que envolveu a todos, e que, certamente, não será esquecido tão cedo por quem esteve presente ao bar naquele domingo!

O Set List da noite (ou o que sobrou dele)

Mas a noite ainda não havia acabado. Depois de muito insistir com os roadies para conseguir uma cópia do set list (que ficou um pouco rasgada, mas, tudo bem), rumei para o local indicado para o encontro com a dupla principal da noite. Na saída da área de backstage do Opinião, foi montado uma espécie de "cercadinho" à frente da porta de saída do bar, tendo esta em um extremo, e a van da banda no outro. Sendo assim, o pessoal se colocou, sem ordem alguma, em ambos os lados que sobravam da área delimitada. A longa espera de quase uma hora, pelo menos, serviu, pelo lado bom, para diminuir um pouco a quantidade de gente que aguardava a vinda dos músicos (pois a fila dobrava a esquina do bar logo depois de encerrada a apresentação), e também para conversar com alguns fãs que haviam vindo de longe especificamente para ver este show, como o sujeito de Fortaleza que possui quatro tatuagens com desenhos que remetem às capas de alguns discos do grupo espalhadas pelo corpo, ou o simpático trio de Maceió, ou ainda o senhor de Manaus que sofria com o "frio" gaúcho - agradáveis vinte e poucos graus - protegido por uma grossa jaqueta de couro e luvas, ou mesmo o casal que tinha passagem marcada para voltar a Miami na semana do show, mas trocou a data de embarque só por causa desta apresentação - cabe citar que, pelo que ouvi, havia gente de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Paraná, pelo menos, espalhados pelas dependências do bar naquela noite. Já passava das onze da noite quando Sandro, Licks e Maltz vieram encontrar o pessoal, começando pelo canto oposto ao que eu estava, o que causou a movimentação do pessoal que estava mais para trás no lado em que eu me encontrava para o ponto onde os artistas estavam, algo que, felizmente, não chegou a gerar um tumulto maior, mas acabou atrasando ainda mais o atendimento do pessoal por parte dos músicos. Quase duas horas depois do final da apresentação, finalmente, consegui ficar frente a frente com Maltz, e, depois de pedir seu autógrafo no livro "O último rei do rock", de sua autoria, praticamente "joguei" em suas mãos as capas dos oito vinis que havia levado, e soltei um "se você tiver paciência..." meio constrangido, ao qual Maltz respondeu com um largo sorriso, assinando pacientemente todos os itens logo depois. Mais um tempo se passou, e consegui chegar em Augusto Licks, repetindo a tática já usada com o baterista, iniciando a "sessão de autógrafos" com a entrega se sua autobiografia para ele assinar, e lhe entregando depois as capas dos sete discos nos quais ele tocou (deixei o primeiro de fora) e repetindo a frase "se você tiver paciência...", a qual ele respondeu com uma careta que deixou claro seu desgosto, sem, no entanto, se furtar de assinar todos os álbuns, um deles, inclusive, duas vezes! Como ainda havia muita gente por ali, e já estava quase passando da meia noite, não quis pedir para tirar as "famosas" fotos com os músicos, pois as "lembranças" desta noite memorável já estavam garantidas, e rumei então para casa, feliz e satisfeito, com a discografia da banda (em vinil), finalmente, autografada pelos quatro músicos que, em épocas diferentes, passaram pelos EngHaw naquele período! Pare ser melhor, só se esta noite se repetir algum dia no futuro, e, se não for pedir demais, com a presença de Humberto Gessinger novamente junto à dupla Carlos Maltz e Augusto Licks, dois sujeitos que, neste domingo de abril, proporcionaram um momento, sem dúvidas, histórico para seus fãs! Que os deuses da música (e o reticente 1berto) assim o queiram!

Um certo "bolha" tentando pegar alguns autógrafos de Carlos Maltz...

... e aguardando enquanto Augusto Licks autografa alguns LPs.

A discografia em vinil dos Engenheiros, finalmente, com os autógrafos de todos os envolvidos

Set List:

1. Toda Forma de Poder

2. Variações Sobre um Mesmo Tema

3. A Revolta dos Dândis I

4. Canibal Vegetariano Devora Planta Carnívora

5. Muros e Grades

6. Ninguém = Ninguém

Somos Quem Podemos Ser

7. Terra de Gigantes

8. Pra Ser Sincero

9. Refrão de Bolero

10. Alívio Imediato

11. Nau à Deriva

12. Ando Só

13. O Exército de Um Homem Só

14. O Papa é Pop

15. Era um Garoto que como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones

Bis:

16. Herdeiro da Pampa Pobre

17. Piano Bar

18. Infinita Highway

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Resenha de Show: Rick Wakeman (Porto Alegre, 11 de Abril de 2024)

 Por Micael Machado

* Nota: As fotos que ilustram esta matéria foram encontradas nas redes sociais. Se você for o autor ou publicou alguma delas, entre em contato pelos comentários para lhe darmos o devido crédito!

Jogos de luzes, pirotecnia, telões enormes de alta definição, instrumentos de vários tipos e cores diferentes, fumaça pelo palco, plataformas elevadas, e muitos outros tipos de "truques" são, frequentemente, usados em espetáculos musicais para "amplificar" a experiência de se assistir a um concerto, causando uma sensação de euforia e encantamento aos espectadores na plateia. Mas as mesmas sensações, vez por outra, podem ser causadas com um mínimo de iluminação, um palco sem nenhum ornamento para servir de enfeite, ocupado apenas por um piano de cauda, um pedestal segurando alguns teclados sobrepostos (no caso, do ângulo onde eu estava, eram aparentemente apenas dois, mas confesso que podiam ser três) e um único músico extremamente carismático e, acima disto, exuberantemente talentoso em sua arte, no caso, extrair música dos instrumentos citados acima. Pois um destes músicos, cada vez mais raros de encontrar, esteve no Salão de Atos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) no último dia 11 de abril, iniciando a parte brasileira de sua "Final Solo Tour" (alegadamente, a "turnê de despedida" do músico dos palcos mundiais), e presenteando aos ocupantes das cadeiras do local (que estava cheio, mas não lotado) com uma hora e meia de puro talento e muita musicalidade, sem o suporte de nenhum outro aparato que não seus instrumentos e seu dom para tocá-los!

Entrando no teatro, fiquei um tanto surpreso de ver apenas o piano e os dois teclados posicionados no palco. Sabia que o show seria no formato "solo", mas, para quem já presenciou Wakeman se apresentar com pelo menos uma dúzia de instrumentos o rodeando durante seus shows, achei "muito pouco" "apenas" dois teclados para o show inteiro. Pois, confesso, mesmo prestes a completar 75 anos de idade, Rick não precisou de mais do que isto para encantar a todos! Precisamente às 21 horas em que o show estava marcado para começar (ah, a "famosa" pontualidade britânica), um tema instrumental começou a tocar no sistema de som do Salão de Atos, com o músico adentrando o palco poucos segundos depois, acenando brevemente para a plateia, sentando-se aos teclados, e acompanhando as últimas notas do tema introdutório. Depois de alguns segundos improvisando sobre as teclas, iniciou "Jane Seymour", abrindo a noite com uma bela redenção de um tema presente em um de seus mais famosos discos em carreira solo. Ao final, Rick caminhou até o centro do palco, agradeceu as palmas, desculpou-se pelo seu "português terrível" ("frangôu frita", "Pelé", disse, em um sotaque forçadamente engraçado, antes de emendar "that's about it, really!") e anunciar que a música anterior havia sido feita para uma das esposas de Henrique VIII ("Henry teve seis esposas, eu só tive quatro", declarou, para risos do pessoal), e que a próxima música seria para outra das esposas de Henrique, voltando ao teclado para interpretar "Catherine Howard".

Rick Wakeman ao piano

Terminada a parte dedicada ao disco The Six Wives of Henry VIII, Rick voltou ao centro do palco para dizer que "eu já toquei em muitos discos, alguns melhores do que outros, e com muitas pessoas diferentes... e arruinei alguns discos de muitas pessoas, também. Mas a pessoa com quem mais gostei de tocar foi David Bowie, a quem amo muito". Com isto, anunciou que tocaria duas músicas de Bowie, "Space Oddity" e "Life on Mars?", interpretadas uma em sequência da outra no piano, para delírio do pessoal. Ao final, Wakeman caminha novamente pelo palco para dizer que, "em 1975, quando eu era muito pequeno (fazendo o gesto de uma pessoa baixinha com a mão), eu gravei um disco chamado King Arthur and the Knights of the Round Table, e o gravei com uma enorme orquestra, um enorme coro, uma enorme banda e muitos cantores. Hoje, sou apenas eu e...", apontando para os teclados de forma triste e cabisbaixa (além de tudo, o sujeito é um grande ator, tenho de reconhecer), anunciando logo depois um medley de músicas daquele disco, que passou por "Arthur", "Guinevere", "Merlin the Magician" e "The Last Battle". Depois dos quase vinte minutos dedicados à saga do Rei Arthur, Rick volta a pegar o microfone, desta vez para anunciar que iria tocar uma música sobre cavalos-marinhos, gravada em um álbum chamado Rhapsodies, "uma música que vocês provavelmente não conhecem, não é algo muito conhecido. Portanto, se eu cometer algum erro, vocês nem vão notar", voltando na sequência aos teclados para executar "Sea Horses"  (a qual eu, como ele já havia previsto, realmente não conhecia).

Com pouco mais de quarenta e cinco minutos de espetáculo, Wakeman sentou-se ao piano para dizer que "pensei que gostaria, nesta turnê, de tocar algumas músicas do Yes, mas seria complicado tocar muitas músicas completas sozinho, então, peguei muitos dos principais temas de algumas músicas que toquei com a banda, e os coloquei todos juntos em uma única composição! Espero que vocês reconheçam várias das canções, tem quase trinta delas nesta peça, a qual é muito longa, com cerca de três horas de duração!", emendando na sequência, "não, não é tão ruim assim!", para risos do pessoal. "Espero que vocês reconheçam algumas das melodias, eu chamo isto de 'Yessonata'!", disse, antes de iniciar uma medley de cerca de vinte minutos de trechos de clássicos de sua ex-banda, passando, dentre muitas que não reconheci, por "Close To The Edge", "Roundabout", "Wonderous Stories", "Awaken", "South Side Of The Sky", e encerrando com um trechinho de "And You And I" (confesso que não fiquei surpreso de não ter reconhecido nenhum trecho de alguma música do disco Tales from Topographic Oceans, álbum que, notoriamente, não é do agrado de Rick). Voltando ao centro do palco, após a imensa aclamação da plateia ao que havia acabado de testemunhar, Wakeman anuncia que gostaria de encerrar o show com duas composições que ele não havia escrito: "uma de John Lennon, que compôs 'Help', a qual eu tentarei tocar ao estilo do compositor francês Samson" (se é que eu entendi bem, e que, se minha pesquisa estiver correta, deve se referir ao pianista e compositor Samson Pascal François, o qual confesso não conhecer), "e 'Eleanor Rigby', a qual tentarei interpretar ao estilo do compositor russo Prokofiev" (este eu sabia a quem o músico se referia, por causa de suas composições para "Romeu e Julieta" e "Pedro e o Lobo").

Rick Wakeman falando com o público de Porto Alegre

Os dois temas dos Beatles interpretados em sequência nos teclados fecharam oficialmente a noite, mas é claro que o público queria mais de Wakeman. Sem muita enrolação para voltar para o bis, Rick agradeceu aos presentes, e disse que "em 1974, antes de vocês nascerem - mais uma tremenda ironia do músico, pois a maioria dos presentes já havia até passado da adolescência naquele ano-, eu escrevi uma peça musical para o livro de Júlio Verne 'Jornada ao Centro da Terra'. Eu a gravei com uma enorme orquestra, um enorme coro, uma enorme banda e muitos cantores, mas a escrevi inteira no piano, e foi assim que eu compus esta peça!", interpretando assim pouco menos de doze minutos dos principais trechos do disco Journey to the Centre of the Earth! Ao final, Rick acenou para a plateia, a aplaudiu, e saiu consagrado, mostrando que talento e genialidade musical dispensam aparatos tecnológicos ou alegóricos para encantar uma audiência.

Infelizmente, não houve sessão de autógrafos depois do espetáculo (segundo o pessoal da produtora, Wakeman estava com a saúde um pouco debilitada, além de precisar embarcar muito cedo no dia seguinte para São Paulo, onde se apresentaria no dia seguinte), na primeira vez em que algo assim ocorre em um show do simpático músico inglês a que estive presente. Finalizando, posso dizer que já assisti Wakeman acompanhado "apenas" de sua banda, junto com orquestra e coro, e agora "solo" no palco, e que o formato do espetáculo desta "última turnê" não deixou nada a dever aos anteriores. Coloco "última turnê" entre aspas porque, na camiseta vendida na banca de merchandising antes do show (e que não tinha muitos itens disponíveis, segundo a atendente, porque a maioria já havia sido vendida nos shows anteriores desta turnê latino-americana, que já havia passado por México, Chile e Argentina antes de chegar ao Brasil), a turnê era anunciada como "The Final Solo Tour - Part I", o que deixa um restinho de esperança de que uma eventual "Part II" traga este gênio novamente a estas terras! Vamos aguardar!

Set List:

1. Jane Seymour

2. Catherine Howard

3. Space Oddity / Life on Mars?

4. Arthur / Guinevere / Merlin the Magician / The Last Battle

5. Sea Horses

6. Yessonata

7. Help! / Eleanor Rigby

Bis:

8. Journey Medley

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Queen: Cinco Músicas Injustiçadas


Por Micael Machado

Confesso a vocês que, por muitos anos, a discografia da banda inglesa Queen só me atraía até o primeiro disco ao vivo, o magistral Live Killers, de 1979. Mas, com as sucessivas promoções feitas pelo site da Universal, principalmente ao longo do ano passado, tive a oportunidade de adquirir praticamente toda a coleção da banda, e dar uma "segunda chance" aos álbuns posteriores, os quais "menosprezei" por muitas décadas (embora conhecesse seus hits, é claro). Os registros pós Live at Wembley '86 ainda não encontraram lugares de destaque em meus ouvidos, mas os álbuns de estúdio entre estes dois discos ao vivo acabaram por me revelar algumas pérolas, as quais eu não tinha dado a devida atenção anteriormente, e que, aparentemente, outras pessoas também não, pois são músicas que, a meu ver, se encaixam bem no adjetivo que dá nome a esta coluna. Sendo assim, resolvi elencar cinco faixas que, a meu ver, deveriam ser mais escutadas/comentadas/destacadas na discografia de um dos grupos mais importantes da música na segunda metade do século passado, e, talvez, levar você a conhecer ou relembrar estas "joias escondidas". Lembrando que meus critérios para a seleção das faixas foram: as músicas não podem ter sido lançadas como single; não podem constar do track list de álbuns ao vivo oficiais (nem de bootlegs que eu conheça); não podem constar de coletâneas oficiais do grupo (pelo menos, não das mais famosas); não podem ter recebido versões de outros artistas (pelo menos, não ter recebido versões de grande repercussão no meio musical); serem músicas que me agradem mais do que outras bem mais "famosas" do que elase que, desta forma, eu julgue que mereciam mais atenção do que receberam por parte tanto da imprensa quanto dos fãs (e, por vezes, da própria banda). Sendo assim, vamos à minha relação (em ordem cronológica), e, se puder, deixe a sua nos comentários!

1. Sweet Lady (A Night at the Opera - 1975)

A Night at the Opera sempre foi meu disco favorito do Queen. Recheado de clássicos, possui em suas faixas algumas músicas que não chegaram a atingir tanto destaque quanto seus grandes hits, mas que não devem nada em qualidade em relação a eles. Uma destas canções "menores" é "Sweet Lady", faixa que o jornalista André Forastieri certa vez classificou como "a coisa mais Kiss que o Kiss não fez" na sua resenha do disco para a seção Discoteca Básica da saudosa Revista Bizz (edição número 84, publicada em julho de 1992). Pouco mais de 4 minutos de um hard rock pesado (para os padrões da banda) e nem tão rápido assim (exceto no final), mas extremamente divertido e agradável de ouvir. Segundo o Discogs, apareceu em uma edição dupla da coletânea Greatest Hits publicada apenas na Bulgária, e, aparentemente, foi tocada ao vivo em poucas ocasiões entre 1975 e 1976 (uma delas no show do Hyde Park de 1976, que chegou a ser gravado, mas nunca foi lançado oficialmente na íntegra). Sendo assim, pelos meus critérios, isto não a inviabiliza de constar desta lista, e foi um dos principais motivos que me levaram a escrevê-la!

2. Sail Away Sweet Sister (The Game - 1980)

Com o subtítulo "(To The Sister I Never Had)", é uma espécie de "homenagem" que Brian May, filho único, faz a "irmã que nunca teve", e que, segundo declarações que encontrei na internet, o guitarrista considera que sempre foi uma grande ausência em sua vida. Composição com todo o jeitão "épico" de outras faixas da banda, e um refrão excelente (e muito grudento!), incompreensivelmente (para mim, ao menos) nunca foi executada ao vivo pelo Queen, embora Brian a tenha interpretado em sua carreira solo, e o Guns and Roses a tenha incluído em seus shows da turnê dos Illusions - inclusive, ela aparece na edição deluxe do segundo Use Your Illusion, o que, pelos critérios, a impossibilitaria de estar aqui. Mas, como a versão do Guns consta apenas de Axl cantando a capella um curto trecho da faixa (normalmente, como uma espécie de "intro" para "Sweet Child O' Mine", como pode ser visto no DVD do show de Tóquio de 1992), eu não considero esta uma "cover" verdadeira, então, a desconsiderei para poder elencar esta verdadeira "pérola esquecida" do repertório dos ingleses em minha lista, já pedindo antecipadamente minhas excusas a quem não concordar com a "acomodação" feita pelo autor deste texto!

3. Don't Try Suicide (The Game - 1980)

Esta é outra faixa de The Game, e entra nesta lista nem tanto por sua parte musical (que, honestamente, nem me atrai tanto assim), mas sim pela temática anti-suicídio de sua letra, que implora para que alguém (não especificado) não cometa tal ato, elencando razões para que o mesmo não se concretize, embora de um jeito até certo ponto controverso, por deixar meio implícita uma interpretação de que "ninguém se importa" se você tentar se matar (através da frase "Nobody gives a damn" em certo ponto da letra), sendo que não é esta a interpretação que eu faço de sua temática. Uma parte mais rápida, onde Freddie canta "você precisa de ajuda, você precisa viver" ("you need help... you need life"), musicalmente, é melhor que o restante da composição, e reaparece como base durante o solo de Brian, executado de um jeito característico e único deste genial guitarrista, além da letra nesta parte específica parecer enfatizar a interpretação que tenho de que a temática da faixa afirma que viver a vida vale mais que acabar com ela por sua própria vontade. Está nesta lista, como expliquei, devido à sua temática, pois foi grande minha surpresa ao constatar que o Queen, cujas letras não costumavam abortar temas tão "controversos" quanto este (pelo menos, não tão controversos a este nível), ter escrito uma faixa com esta temática ainda nos anos 1980, e de ela, também para minha surpresa, ser tão pouco explorada (no sentido de "falada", "comentada") mesmo hoje em dia. Nunca foi tocada ao vivo, segundo a wikipedia, mas saiu como lado B de um single americano para "Another One Bites the Dust", lá em 1992, ou seja, doze anos depois do lançamento inicial do disco, o que, convenhamos, não a inclui nos critérios que a excluiriam desta lista, certo?

4. Football Fight (Flash Gordon - 1980)

Vamos combinar que a trilha sonora do filme do Flash Gordon rendeu muitos momentos "menores" à discografia da banda, com seus temas curtos entupidos de sintetizadores, e que não faziam muito sentido fora das telas. Não conheço quem defenda este disco, o colocando em uma posição "alta" no ranking de preferências da discografia, e, a meu ver, com exceção de "The Hero" e de "Flash's Theme" (ainda melhor em sua versão single), pouca coisa se salva neste álbum. "Battle Theme" é um destes momentos, mas, como a faixa pouco mais é do que uma reinterpretação do tema de Flash na guitarra (acrescida de um bom tema com sintetizadores "roubado" de "Flash To The Rescue", outra faixa desta mesma trilha sonora), sobra então "Football Fight", que, embora levada pelos sintetizadores, tem um ritmo bem agradável e atraente, com boa participação da bateria de Taylor e da guitarra de May (ainda que esta apareça em menos quantidade do que eu gostaria). O EP bônus da edição de 2011 traz uma "versão inicial" mais longa (e ainda melhor) que a oficial, com os sintetizadores substituídos pelo piano de Freddie, e mais com "cara" de uma música do Queen do que a que aparece no disco. Apesar de curta, uma faixa que, a meu ver, poderia ter sido mais explorada pelo grupo, mas que acabou relegada a "mais uma" de um disco quase totalmente esquecível! Uma pena!

5. Man On The Prowl (The Works - 1984)

Quando eu pensava no Queen tocando algo próximo do rockabilly, sempre pensei em "Crazy Little Thing Called Love" como o grande exemplo deste estilo na discografia da banda. Foi portanto com certa surpresa que encontrei esta pérola no track list de The Works, um disco do qual só conhecia os grandes hits, mas que guarda esta faixa meio que "escondida" lá no finalzinho do lado A do vinil. Conduzida pelo piano, é uma  faixa relativamente curta (pouco mais de três minutos e meio), que chegou a ser planejada, segundo a wikipedia, para ser lançada como single, mas acabou relegada ao lado B do EP Thank God It's Christmas (onde ganhou uma "versão estendida" na versão de 12 polegadas), e não achei registros de que tenha sido tocada ao vivo pela banda emalgum momento. Outra faixa que merecia um destino melhor!

Como já coloquei, os discos pós 1986 não são lá muito atraentes para mim, e encontrar nos discos pré 1979 faixas que não tenham sido registradas ao vivo, ou incluídas em coletâneas, ou "coverizadas" por bandas reconhecidas (como o fizeram, por exemplo, o Metallica e o Dream Theater), e das quais eu realmente gostasse, se tornou mais complicado do que eu pensava, portanto, diferentemente do que aconteceu com o Deep Purple, ficou complicado de indicar aqui mais músicas que poderiam ter aparecido nesta lista sem descumprir aos critérios que adotei. Sendo assim, fique á vontade para deixar você as suas indicadas como músicas "injustiçadas" na carreira do Queen nos comentários deste texto, seguindo ou não aos critérios adotados, e "dê voz" às suas músicas "desconhecidas" pela maioria do pessoal! Topam o desafio?

domingo, 3 de março de 2024

Datas Especiais: 50 anos da apresentação do Secos & Molhados no Maracanãzinho

Por Micael Machado

Há exatos cinquenta anos, em 10 de fevereiro de 1974, uma banda nacional se apresentava pela primeira vez como uma atração "solo" (sem o suporte de outras atrações ou de artistas convidados para "ajudar" a "chamar" ao público) no Ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Até então mais utilizado, em termos musicais, para finais de festivais (com diversas atrações diferentes ao longo das noites, e, por vezes, nomes internacionais para atrair mais atenção), uma apresentação única de apenas um artista no local parecia, para a época, algo muito ousado, e, sem dúvidas, um tanto arriscado, tanto financeiramente quanto artisticamente. Financeiramente, a dúvida era: conseguiria uma única atração levar pelo menos trinta mil pessoas para o estádio, capacidade estimada então para o local, e, assim, lotar o mesmo (algo inédito até então para os artistas brasileiros)? Já do lado artístico, a dúvida era em como conseguir, com as condições tecnológicas da época, "entregar" um espetáculo visual e auditivo compatível com as dimensões exageradas da edificação, fazendo com que o público pudesse ver e ouvir à apresentação com, pelo menos, um mínimo de qualidade? 

Pois foram estes desafios que o Secos & Molhados, incentivados por seu empresário da época, o jornalista e produtor musical Moracy do Val, toparam enfrentar naquele começo de ano. Este artigo não pretende relatar fielmente o que ocorreu naquela noite (até porque registros em vídeo da apresentação são raros de encontrar, e este escriba sequer tinha nascido na data em que tudo ocorreu), mas sim marcar esta data histórica para a música nacional, afinal, foi a partir deste show que os ginásios de esportes ao longo do país começaram a ser verdadeiramente considerados como "viáveis" para shows individuais de artistas nacionais, e, se hoje temos apresentações de artistas consagrados (tanto nacionais quanto internacionais) em estádio de futebol ou em palcos gigantes como o dos mega festivais, tenho convicção de que muito se deve ao que ocorreu naquela noite e naquele local cinquenta anos atrás.

Segundo o livro Primavera nos Dentes, do escritor Miguel de Almeida, foi Moracy quem deu a ideia da apresentação do grupo no Maracanãzinho. Até então, fazia pouco mais de seis meses que o disco de estreia da banda havia sido lançado no mercado, e já estava "estourado" em todo o país, com o álbum vendendo mais de um milhão de cópias em pouco tempo, "batendo todos os recordes de vendagens de discos e público", segundo a wikipedia. O sucesso do disco se refletiu nos shows, cujo número de presentes nas apresentações vinha aumentando gradativamente, saindo das iniciais 50 ou cem pessoas nos shows do começo de carreira para números que ultrapassavam os seis mil pagantes em lugares como Brasília, Recife, Salvador e outras do interior do estado de São Paulo. Foi a presença do grupo nos ginásios esportivos destes municípios (únicos locais com capacidade para suportar a quantidade de gente que queria ver a banda ao vivo na época) que convenceu Moracy de que seria possível lotar o Maracanãzinho apenas com o público do Secos & Molhados, sem precisar de outras atrações. Com a aceitação dos demais membros do grupo (a saber, Ney Matogrosso na voz, João Ricardo na voz, violões e harmônica, e Gérson Conrad na voz e no violões), começou então a empreitada para fazer a coisa "acontecer" de verdade.

Secos e Molhados no show do Maracanãzinho, 1974. Fonte: Revista TRIP

João Ricardo e Moracy do Val se reuniram com José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então diretor geral da Rede Globo, já à época a emissora mais poderosa do país, e que, meses antes, havia sido peça importante da história da banda ao impulsionar seu nome para todo o Brasil através da exibição dos clipes de "Sangue Latino" e "O Vira" no programa "Fantástico", em uma marcante noite de domingo de setembro de 1973. Boni duvidou do sucesso da empreitada proposta pelos dois, mas aceitou promover o show em troca da gravação do espetáculo, que, aparentemente, chegou sim a ser filmado, mesmo que poucos registros (ainda com imagens em preto e branco) tenham sobrevivido até hoje, e que eu não tenha conseguido nenhuma evidência de que algum especial tenha sido exibido à época (ou depois) pela Rede Globo. O áudio da apresentação existe, mas falaremos dele mais adiante.

Outro obstáculo para a realização do show foi o medo dos bombeiros cariocas com relação à segurança e integridade do público. A preocupação da corporação exigiu, segundo o já citado livro Primavera nos Dentes, maiores distâncias do que o inicialmente previsto separando palco e plateia, maiores divisões nas arquibancadas, novas posições para grades de proteção, e a criação de mais saídas de emergência. Com tudo isso, a capacidade do local foi reduzida para vinte mil pessoas, ainda assim, um número imenso de presentes perto do que reuniam os shows dos artistas nacionais na época. Todos os ingressos foram vendidos, e estima-se que milhares de não-pagantes ficaram do lado de fora do ginásio (na wikipedia, há a citação de que 90 mil pessoas teriam ficado nas cercanias do local, número que me parece exagerado, mas que não duvido ter sido possível).

Mesmo com a qualidade do som não sendo lá "essas coisas", o Secos & Molhados, composto então, ao que consegui averiguar, além dos três membros principais, por Emilio Carrera no piano e no órgão, John Flavin na guitarra, Marcelo Frias na bateria e percussão, Sergio Rosadas na flauta e Willy Verdaguer no baixo, subiu ao palco pouco depois das nove horas da noite, e, também segundo o citado livro, fez uma apresentação de pouco mais de uma hora, com duas músicas no bis: "Mulher Barriguda" e "Sangue Latino". No início do espetáculo, houve um momento de tensão, quando as pessoas tentaram se aproximar do palco, mas foram contidos por um cordão policial, que começou a empurrar o pessoal de volta para as arquibancadas. Incomodado com a situação, Ney parou de cantar, sendo imediatamente seguido pela banda, que ficou em silêncio até os policiais "aliviarem" e permitirem uma maior liberdade de movimentação do público pelo local, que pôde então se aproximar mais de seus ídolos no palco.

A reedição da Polysom para o vinil com a gravação do show

Mesmo com tantos problemas de organização e execução, o show foi considerado um sucesso, sendo até então o recorde absoluto de público para um grupo nacional no país. Seis anos depois, já com o trio principal afastado, a gravadora Continental lançou um registro em vinil com pouco mais de meia hora de áudios gravados naquela noite. Por anos ouvi que este seria "extremamente mal gravado", "sem boa definição sonora", e um registro "apenas para colecionadores". Como o vinil original se tornou uma raridade muito buscada pelos apreciadores dos bolachões (que, para o terem em suas coleções, sempre tiveram de estar dispostos a investir pequenas fortunas na aquisição de uma cópia do mesmo), nunca cheguei a ouvir a edição original (pelo menos, não que me lembre), mas uma reedição do ano passado feita pela Polysom me permitiu adquirir uma cópia do mesmo, e perceber que, pelo menos neste relançamento, o áudio não é tão "desgracento" assim como a lenda dizia (tenho bootlegs de bandas bem maiores gravados em condições muito piores), servindo, ao menos, para que se possa ter uma ideia da sonoridade da banda naquela noite. As nove canções presentes no registro são apenas um aperitivo para os fãs do grupo, mas não são de forma alguma "desprezíveis", como muitas vezes vi as pessoas se referirem a este álbum (a própria Polysom colocou no encarte da reedição que o registro "apresenta algumas imperfeições técnicas", mas que "o valor documental e a raridade desta obra justificam esse relançamento"). Minha maior reclamação é a "mutilação" efetuada na faixa final, "O Vira" (da qual apenas uma pequena parte aparece no vinil), e a ausência da versão em espanhol para "Sangue Latino", presente em um vídeo de oito minutos facilmente encontrável no youtube quando escrevo este texto.

É na contracapa deste disco de 1980 que um texto de Gérson Conrad coloca que a noite teve "tantos detalhes, como gente que gritava emocionada, que chorava, que desmaiava, que agredia, que atirava flores, que xingava... tudo isso era tão forte e mágico que, quando saímos de cena, não acreditávamos ter conseguido". Pois conseguiram, e realizaram algo tão marcante que, como escrevi antes, mudaria para sempre o cenário musical do país, e possibilitaria que os espetáculos artísticos no Brasil viessem a nos proporcionar emoções múltiplas e variadas nos cinquenta anos que se passaram desde aquela noite, no mínimo, histórica, passada em um Maracanãzinho lotado!

Deep Purple: Cinco Músicas Injustiçadas

Por Micael Machado

Seguindo a ideia do nosso colega André Kaminski, que, há poucos meses, elencou cinco músicas do Iron Maiden que, na sua opinião, seriam "injustiçadas", venho listar aqui cinco canções do seminal grupo Deep Purple que considero que podem ser "encaixadas" na mesma categoria. Os critérios que segui ao selecionar as faixas foram: as músicas não podem ter sido lançadas como single; não podem constar do track list de álbuns ao vivo oficiais (nem de bootlegs que eu conheça); não podem constar de coletâneas oficiais do grupo (pelo menos, não das mais famosas); não podem ter recebido versões de outros artistas (pelo menos, não ter recebido versões de grande repercussão no meio musical); serem músicas que me agradem mais do que outras bem mais "famosas" do que elas (o que, no caso de Deep Purple, nem é tão difícil assim, pois tem muito hit da banda que nem chega a chamar minha atenção), e que, desta forma, eu julgue que mereciam mais atenção do que receberam por parte tanto da imprensa quanto dos fãs (e, por vezes, da própria banda). Sendo assim, vamos à minha relação (em ordem cronológica), e, se puder, deixe a sua nos comentários!

1. The Painter (Deep Purple - 1969)

O terceiro registro da MKI foi o que levei mais tempo para obter uma versão em vinil (embora tenha conseguido uma cópia em CD ainda na década de 1990), e sempre foi o meu favorito desta fase. Uma das faixas de maior destaque do disco, para mim, é "The Painter", onde, em pouco menos de quatro minutos, a banda antecipa a sonoridade da MKII alguns meses antes de oficializar a troca de seus integrantes. Com um ritmo que me remete à "Black Night" (tendo também algo de "Hush" ali no começo), a última faixa do lado A (que vinha emendada à "estranha" "Fault Line") dá espaço tanto para Blackmore quanto para Jon Lord deixarem solos marcantes, ainda que curtos para os padrões que o grupo adotaria pouco tempo depois. Segundo o Discogs, a faixa apareceu em uma coletânea chamada The Best Of Deep Purple em 1972, numa edição lançada apenas nos Estados Unidos. Como eu nem sabia da existência desta compilação, e como ele não foi lançado mundialmente, vou "burlar" a regra que diz que a música não pode constar de lançamentos deste tipo, e incluir esta faixa que, a meu ver, deveria ser mais ouvida e comentada pelos fãs do grupo!

2. Flight Of The Rat (Deep Purple In Rock- 1969)

In Rock foi um dos primeiros discos do Purple que ouvi, sendo, ainda hoje, o meu favorito em sua discografia. "Flight Of The Rat" é, possivelmente, a minha faixa favorita não só deste disco, como de toda a carreira da banda, e, que eu saiba, nunca foi interpretada ao vivo pelo grupo (nos discos ao vivo que conheço da turnê do álbum, tanto oficiais quanto bootlegs - e olha que são vários -, ela nunca apareceu, pelo menos). Uma das poucas faixas do grupo com solos (ainda que curtos) de quase todos os instrumentistas (apenas Glover não tem seu momento "solitário"), além de uma excelente performance vocal por parte de Gillan, nunca entendi porque ninguém parece considerar os quase oito minutos desta faixa no mesmo nível de excelência que eu! Novamente, segundo o Discogs, ela chegou a ser lançada como single na Nova Zelândia, e fazer parte da coletânea tripla The Platinum Collection, de 2005. Como no caso anterior, vou fingir que não sabia desta informação, e incluir esta pérola (que, para mim, é a mais injustiçada desta lista) nesta relação! Espero que compreendam...

3. 'A' 200 (Burn - 1974)

Esta faixa sempre chamou minha atenção não só por ter sido um dos primeiros temas instrumentais do grupo que ouvi (Burn foi um dos primeiros álbuns da banda que conheci), mas, principalmente, pelo trabalho de Jon Lord ao longo de sua duração. O músico, sempre mais lembrado por mim por suas mágicas "peripécias" no órgão Hammond, aqui brinca e (se) diverte com diversos sintetizadores, numa faixa onde a marcação quase "marcial" da cozinha deixa espaço para ele brilhar como poucas vezes na carreira da banda. E o que é o solo de Blackmore na parte final? Nunca entendi porque ela não constava das apresentações ao vivo do Purple, e nem mesmo Glenn Hughes, que, nos últimos anos, tem feito shows "especiais" em tributo ao seu tempo no grupo e a este álbum específico, se dedicou a incluí-la nos repertórios de suas apresentações. Se é para reclamar de algo nesta faixa, é apenas do "fade out" no final, que parece ter nos privado de mais alguns segundos (ou minutos) nesta viagem musical que encerra o melhor álbum da MKIII.

4. Comin' Home (Come Taste the Band - 1975)

Come Taste the Band, o único registro em estúdio da MKIV, é um álbum que levei anos para realmente entender e gostar. Muita gente o acusa de ser muito bom, mas não se parecer com um "disco do Deep Purple". Seja lá o motivo desta afirmação, ela certamente não pode se aplicar à sua faixa de abertura. Hard rock direto, pesado e sem muitas variações, com um piano muito bem colocado por Lord e partes de guitarra mais "pesadas" do que o restante do disco, "Comin' Home" foi, ao que consta, executada pouquíssimas vezes pela banda durante a turnê de divulgação do álbum, e não aparece em nenhum dos discos ao vivo desta época. Pelos meus critérios iniciais, não poderia constar aqui, pois, novamente segundo o Discogs, aparece na coletânea The Collection de 1997 (além de ter sido lado B do single para "You Keep On Moving" no Japão, de ser faixa bônus em algumas edições do The Purple Album, do Whitesnake, e de fazer parte de outra coletânea, Purple Hits - The Best Of Deep Purple, lançada na Finlândia em 2003). Mas, quer saber, não tinha como eu deixar esta faixa de fora desta lista, então, pro espaço (mais uma vez) com as regras!

5. The Spanish Archer (The House of Blue Light - 1987)

Na minha opinião, The House of Blue Light é um dos piores registros da carreira do Deep Purple. Pouca coisa se salva de seus sulcos, e, deste pouco, boa parte está nos quase cinco minutos desta faixa. Para mim, a melhor participação de Blackmore neste retorno da MKII (que inclui o disco anterior, Perfect Strangers), com passagens de música clássica no refrão, e solos e mais solos do "homem de preto", que parece estar participando, nesta faixa, em um disco do "seu" Rainbow, e não do de uma banda "coletiva" como o Purple sempre foi. O que o genioso (e genial) guitarrista faz ao longo da duração desta faixa é digno de figurar bem alto nos melhores momentos de sua carreira. Mesmo assim, ela não aparece no álbum ao vivo oficial da turnê (o também fraquíssimo Nobody's Perfect, de 1988), e, que eu saiba, nem chegou a ser executada ao vivo. Novamente me valendo do Discogs, vi que esta faixa aparece na coletânea The Universal Masters Collection - Classic Deep Purple, de 2003, e em uma outra chamada The Deep Purple Collection, lançada na Alemanha, Áustria e Suíça em 2011. Mais uma vez, fiz de conta que não sabia disso, porque simplesmente tinha de incluir "The Spanish Archer" nesta relação.

Não incluí nenhuma música da fase Steve Morse (seja com Lord ou Airey nos teclados) na lista, pois há muitos discos ao vivo desta época, e quase todas as músicas que eu considero realmente boas gravadas pelo Purple com este guitarrista podem ser encontradas em algum destes registros (embora uma das melhores, "The Aviator", só conste em um deles, ao que eu saiba - o bastante recomendável Live In London 2002, de 2021). Slaves and Masters não merecia sequer ter o nome Deep Purple na capa, que dirá ter uma música nesta lista, e a Mark IX, com o guitarrista Simon McBride, ainda não lançou nenhum álbum oficial, portanto, não se "habilitou" a ter algo na lista.

Havia algumas faixas que eu gostaria muito de ter incluído aqui, mas os critérios que adotei me impediram. Por exemplo:

- Da MKI, "Listen, Learn, Read On" ou "Shield" foram minhas escolhas iniciais, mas a primeira chegou a ser lançada como single (além de aparecer em algumas coletâneas), e a segunda aparece nas bem conhecidas coletâneas Anthology, de 1991, e Purple Passages, de 1972, o que as desqualificou;

- Da primeira fase da MKII, "Rat Bat Blue" sempre foi uma faixa que penso que merecia mais atenção do que recebe. Mas, como ela aparece na famosa coletânea A Fire In The Sky, de 2017 (além de ter sido "lado A" de EP na Tailândia, e "lado B" do single para "Woman From Tokyo", segundo o Discogs), acabou desqualificada para aparecer na lista;

- A segunda versão da MKII, nos anos 1980, deixou uma espetacular  faixa instrumental chamada Son of Alerik, que pouca gente ouviu, infelizmente. Eu a conheci na coletânea Knocking at Your Back Door: The Best of Deep Purple in the 80's, de 1992, mas, segundo o Discogs, ela foi lado B tanto do compacto para "Knocking at Your Back Door" quanto para o de "Perfect Strangers". Sendo assim, não preencheu os requisitos necessários para estar nesta lista, embora tenha qualidades para tal;

- A lindíssima "Holy Man" poderia muito bem representar a MKIII nesta lista, mas, como ela aparece em várias coletâneas (segundo o Discogs), e foi regravada pelo Whitesnake no já citado The Purple Album, acabou ficando de fora;

"Drifter" ou "Love Child" poderiam ser as representantes da MKIV na lista, pois são tão pouco lembradas quanto a que escolhi. Mas ambas tem versões ao vivo oficiais nos discos que registram a passagem de Tommy Bolin pelo grupo, além de aparecerem aqui e ali em coletâneas do grupo, o que acabou as afastando da lista final (embora para ser honesto, "Comin' Home" sempre tenha sido minha escolhida para representar esta fase).

Como bem escreveu o André na sua lista de "injustiçadas" do Iron Maiden, tenho certeza que o caro leitor também tem as suas faixas favoritas que nem a banda, nem a imprensa e nem outros fãs do Purple dão tanta atenção e dedicação quanto você. Fique a vontade para comentar as minhas escolhas e, claro, colocar as suas também no campo de comentários abaixo. Seguindo os critérios que estabeleci, ou não! Topam o desafio?

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Bodom After Midnight – Paint The Sky With Blood [2021]

Por Micael Machado

Em novembro de 2019, o grupo finlandês Children Of Bodom anunciou que os membros fundadores Henkka Seppälä (baixo), Janne Wirman (teclados) e Jaska Raatikainen (bateria) estavam deixando a banda em função das famosas "divergências musicais" com o guitarrista, vocalista, compositor e "líder-da-porra-toda" Alexi Laiho, o qual ficaria apenas com seu companheiro de seis cordas Daniel Freyberg ao seu lado no line-up do time remanescente. Os dois rapidamente se movimentaram para arregimentar uma nova formação para o quinteto, mas um acordo entre Laiho e os membros dissidentes não permitia que o guitarrista continuasse usando o nome Children Of Bodom em seus futuros projetos. Sendo assim, surgiu o Bodom After Midnight (usando o nome de uma das mais famosas composições da extinta banda de Alexi), onde os dois guitarristas teriam a companhia de baixista Mitja Toivonen (ex-Santa Cruz) e do baterista Waltteri Väyrynen (também do Paradise Lost, além de outros grupos). A banda chegou a fazer alguns poucos shows no final de 2020, mas, em 29 de dezembro daquele ano, Laiho viria a falecer de doenças no fígado e pâncreas causadas pelo consumo excessivo de álcool. Sendo assim, parecia que a trajetória musical do novo grupo estava encerrada ali, mas a gravadora Napalm Records, como acontece frequentemente nestes casos, parece ter pensado diferente, e, em fevereiro de 2021, anunciou, junto aos membros remanescentes, que um EP seria disponibilizado ainda naquele ano, o que veio a ocorrer a 23 de abril, segundo a Wikipedia.

Acontece que Laiho e seus novos parceiros estavam iniciando os trabalhos de gravação de seu álbum de estreia quando a morte do líder ocorreu. Três músicas já estavam prontas (gravadas nos estúdios Finnvox na Finlândia, ao lado do produtor e engenheiro Joonas Parkkonen), e foram mixadas por Mikko Karmila e masterizadas por Mika Jussila (dois antigos colabores de Alexi de seus tempos com o Children Of Bodom) para fazerem parte de Paint The Sky With Blood, o único lançamento oficial do Bodom After Midnight, e o epitáfio musical de um dos melhores guitarristas de sua geração.

Bodom After Midnight: Mitja Toivonen, Waltteri Väyrynen, Alexi Laiho e Daniel Freyberg

Duas destas canções são composições originais de Laiho, a faixa título (que, inclusive, chegou a ganhar um vídeoclipe, filmado alguns dias antes da morte do vocalista) e "Payback's a Bitch". Tendo sido compostas, tanto em sua parte musical quanto lírica, por Alexi, é óbvio que estilo das duas não iria se afastar muito daquele usado por ele no COB, mas há algumas diferenças claras, como, por exemplo, o pouco espaço dado aos teclados (que, em estúdio, foram tocados pelo músico convidado Vili Itäpelto).

"Paint the Sky with Blood", a música, é a mais "agressiva" das duas, bastante veloz, e remete aos primórdios da banda anterior do guitarrista, com aquelas "paradinhas" para a guitarra base ter algum destaque e algumas "quebras" de andamento ao longo da execução que eram já tradicionais nas faixas do COB. A letra faz alusão às figuras da mitologia grega das três Erínias (que, na mitologia romana e também na língua inglesa, são chamadas de "fúrias", nome mais adequado a seu "papel" na letra desta composição), que seriam a personificação da vingança, mostrando, talvez, o desejo do músico de se "vingar" de seus ex-companheiros através da continuação de sua carreira de sucesso (algo que, infelizmente, não chegou a acontecer). Já a segunda, apesar de rápida, não é tão veloz quanto a faixa título, mas, ainda assim, apesar de ser mais melódica, consegue ser bastante agressiva. Com um teclado aparecendo menos discretamente que na anterior (mas, ainda assim, com bem menos destaque do que aquele dado ao instrumento na época do COB), tem um solo mais interessante que sua companheira de registro, e se encaixaria bem nos álbuns finais da carreira da banda anterior do líder do grupo. Fecha o EP uma cover para "Where Dead Angels Lie" (gravada originalmente pelo grupo sueco Dissection), a qual é a mais "lenta" das três, mas ainda carrega aquele sentimento "evil" das composições de Laiho ao longo de sua carreira, além de soar relativamente fiel à original, embora as óbvias diferenças entre os vocais de Alexi e de Jon Nödtveidt, e da versão do Bodom After Midnight apresentar menos dissonâncias da guitarra em relação a versão original do Dissection.

Contracapa de Paint The Sky With Blood

Com uma qualidade sonora de produção e gravação bem acima do que eu esperava para as circunstâncias em que foram registradas (ou seja, ainda na fase inicial de um processo que levaria ao álbum completo, e no qual, possivelmente, estas faixas ainda fossem aprimoradas ao longo das etapas de produção do disco), os pouco menos de quinze minutos do EP Paint The Sky With Blood (que ganhou versões em CD e em vinil de 10 polegadas, esta em várias edições limitadas com cores diferentes, além das hoje obrigatórias "versões digitais" em várias plataformas, e de um box set especial, também limitado, com o CD e vários "mimos" para os colecionadores) acabam sendo um registro digno do epitáfio da carreira de Alexi Laiho, um nome a ser lembrado não só pelos fãs do COB ou do Death Metal Melódico, mas por todos aqueles que gostam de um heavy metal bem tocado e de escutar um guitarrista bastante virtuoso e inventivo, que, como já escrevi, foi, para mim, um dos melhores de sua geração. Rest In Peace, Alexi "Wildchild" Laiho! We all will miss you!

Track List:

1. Paint The Sky With Blood

2. Payback’s A Bitch

3. Where Dead Angels Lie