quinta-feira, 4 de junho de 2026

Datas Especiais: 40 Anos de Animal Boy, dos Ramones


Por Micael Machado

Segundo de uma série de três discos gravados pelos Ramones junto ao baterista Richie Ramone (e o único dos três a ainda não ter um texto próprio aqui no site, embora o dedicado ao primeiro deles, Too Tough to Die, tenha sido perdido no famoso e lamentável "incidente UOL" anos atrás)Animal Boy completa 40 anos de lançamento neste 19 de maio de 2026 (mesmo dia em que o vocalista Joey Ramone estaria completando 75 anos, caso ainda estivesse vivo), ainda como um disco, a meu ver, injustiçado não só por parte da imprensa como pelos próprios fãs do quarteto nova iorquino (completado à época, para quem porventura ainda não souber, pelo guitarrista Johnny Ramone e pelo baixista Dee Dee Ramone), visto ser, na minha opinião (e nunca encontrei alguém que concordasse comigo) o melhor registro da longa discografia do grupo, gravado durante a melhor fase da banda em sua carreira.

Gravação esta que não foi nada fácil. Afinal, como é bem conhecido hoje em dia, Joey e Johnny não se falavam direito há anos, e, à época, Johnny e Dee Dee também estavam com a relação entre si bastante estremecida. Já Richie, apesar de estar na banda desde 1983, já ter tocado em um álbum (onde, inclusive, atuou como compositor em algumas faixas) e feito várias turnês com os "brothers", não era considerado um membro "efetivo" por quase ninguém do staff da banda, sendo tratado muitas vezes apenas como "mais uma peça" da grande engrenagem que mantinha os Ramones girando. Além de tudo isto, Joey estava bastante inclinado a deixar o grupo e gravar um álbum solo, por não aguentar mais os conflitos e situações desagradáveis do dia a dia da turma, e mesmo Dee Dee já andava tendo ideias de abandonar o barco e partir para uma carreira solo. A escolha do ex-baixista dos Plasmatics Jean Beauvoir para a produção (Jean também era contratado do empresário dos Ramones à época, Gary Kurfirst, e foi, de certa forma, "imposto" ao grupo por ele e pela gravadora) também não ajudou muito. Beauvoir já tinha composto, produzido e tocado com o guitarrista Little Steven e com o Kiss (dentre outros), mas a banda achou que seu estilo não funcionou direito com o que os Ramones buscavam para o seu álbum.

Dando sequência ao que haviam feito em Too Tough to Die (onde Johnny queria mostrar que os "irmãos" podiam ser tão ou mais agressivos que seus "sucessores", uma geração mais nova de bandas de Nova Iorque - muitas delas, inspiradas pelos próprios Ramones -, as quais faziam uma música mais rápida e agressiva que a do grupo do guitarrista), Animal Boy tem diversas faixas mais próximas ao hardcore veloz e "sujo" que estava em alta na época do que ao punk leve e feliz dos primeiros discos da banda. Faixas como "Freak Of Nature", "Eat That Rat" (cantada por Dee Dee) ou "Apeman Hop" (um pouco mais lenta que as outras duas, e contando com um engraçado diálogo no início simulando uma língua africana, e que eu, pessoalmente, nunca consegui saber do que se trata, efetivamente) são bem mais rápidas e agressivas do que o normal nas fases da banda em que outros bateristas usavam as baquetas do grupo (além de, juntas, ultrapassarem os cinco minutos por apenas 11 segundos). A própria faixa título (única composta em parceria entre Dee Dee e Johnny neste álbum) é uma das mais agressivas do disco (e sou só eu que acho o riff de abertura desta faixa muito parecido com o de "Papai Noel Velho Batuta", dos Garotos Podres? - sendo que a música do quarteto paulista foi lançada um ano antes da dos americanos, vale lembrar), assim como a faixa de abertura "Somebody Put Something In My Drink", composta por Richie, e que chegou a ser lado B na versão espanhola do single de "Something To Believe In", sendo, para muitos, um dos destaques do track list deste álbum, e um dos clássicos da carreira da banda.

Os Ramones no encarte de Animal Boy: Richie e Joey (acima), Dee Dee e Johnny (abaixo)

Também bastante pesada, mas mais liricamente do que musicalmente, é "Mental Hell", onde Joey escancara o seu estado mental à época e sua vontade de deixar tudo para trás e partir para buscar novos ares ("Frustração, repugnância, irritação, repugnância, inferno mental... Eu não me sinto muito bem" relata o vocalista na letra). Dee Dee também expõe suas frustrações na "alegrinha" "Crummy Stuff", com seu refrão repetitivo e infantil (coloco "infantil" aqui não no sentido divertido e engraçado de algumas das primeiras composições do grupo, mas mais parecido com um pirralho chato e irritante que você já não suporta mais depois de alguns minutos), onde a letra diz que seu compositor "já teve o suficiente dessa coisa ruim". Esta foi outra composição lançada em single, embora seja uma das que eu menos gosto no álbum, ao lado de "Hair Of The Dog", um pop punk "alegrinho" demais, que sempre me pareceu um pouco deslocado em relação às outras faixas do álbum.

"Deslocada" (mas muito melhor que a anterior) também seria um belo adjetivo para a baladaça "She Belongs To Me", que, mesmo com o excesso de sintetizadores (instrumento que, aliás, marca uma presença muito maior aqui do que em outros registros do quarteto), ainda é uma das minhas favoritas do estilo na carreira da banda. O que sempre achei curioso é ela ter sido composta por Dee Dee, e não por Joey, que, normalmente, era o "encarregado" dessas faixas mais "românticas" nos discos dos "brothers". Vindo, portanto, do baixista e não do vocalista, a letra de "She Belongs To Me" não tem nada de "romântica", descrevendo o protagonista ameaçando um sujeito que parece interessado por sua namorada ("Fique longe dela, porque eu estou ficando com raiva... Você vai se arrepender se nós tivermos que brigar"), culminando em um refrão extremamente misógino, que, certamente, faria a banda ser "cancelada" nos tempos de "politicamente correto" que vivemos hoje ("Não me diga como devo amar minha garota, ela pertence a mim"). Outra faixa que não tem nada de "romântica" é "Love Kills" (talvez a mais próxima do estilo "tradicional" dos Ramones em todo o disco), inspirada no filme "Sid and Nancy: Love Kills", do diretor Alex Cox, também de 1986, sobre o relacionamento entre Sid Vicious (baixista dos Sex Pistols) e Nancy Spungen, que culminou com o músico sendo acusado da morte de sua namorada (li em algum lugar que Dee Dee teria composto esta faixa com a intenção de que ela fizesse parte da trilha sonora do filme, tendo ela sido recusada pelos produtores da película, algo que não sei confirmar. Quero também lembrar que esta foi a canção escolhida para Dee Dee cantar, como convidado, no último show da banda, em Los Angeles, registrado no disco ao vivo We're Outta Here, de 1997. Dee Dee subiu ao palco, esqueceu a letra, mandou um "é assim que eu sou", e saiu ovacionado do mesmo jeito!)

Assim como Too Tough to Die tinha duas faixas bastante "pops" a "acessíveis" no meio de outras mais agressivas (me refiro a "Chasing the Night" e  "Howling at the Moon (Sha-La-La)"), Animal Boy também possui, abrindo e fechando o lado B, duas composições bem mais acessíveis que o restante do track list (ambas também lançadas como singles), as quais são, desde sempre, as minhas composições favoritas da carreira do grupo. A primeira é "My Brain Is Hanging Upside Down (Bonzo Goes to Bitburg)", uma das poucas faixas com letras abertamente políticas na carreira do grupo, e onde Joey e Dee Dee (em sua única composição em parceria no disco) criticam a visita do então presidente norte americano Ronald Reagan a um cemitério militar alemão em Bitburg,  na então Alemanha Ocidental, em maio de 1985. A música já havia sido lançada como single na Inglaterra em junho do mesmo ano em que tal visita ocorreu (quase onze meses antes de aparecer em Animal Boyportanto) sob o título de "Bonzo Goes to Bitburg" (sendo que "Bonzo" era um apelido pejorativo para o então Presidente, referindo-se a um chimpanzé de "Bedtime for Bonzo", um filme de comédia de 1951 estrelado pelo então ator Ronald Reagan), mas, para o álbum, teve o título alterado a pedido de Johnny, que não concordava com a letra, visto ser partidário de Reagan, a quem, certa vez, se referiu como "seu presidente favorito de toda a sua vida".

Capa do single Bonzo Goes to Bitburg

A outra é a faixa de encerramento, "Something To Believe In", também uma das melhores letras de Dee Dee em sua carreira, e cujo vídeo clipe (único gravado para promover Animal Boy) é uma paródia das campanhas beneficentes da época, como o Live Aid e a campanha Hands Across America, criando assim a Ramones Aid. A primeira vez que assisti a este vídeo foi em um VHS (pirata) do famoso documentário Lifestyles of the Ramones, e, ao ver tantos artistas juntos (participaram do clipe músicos como Debbie Harry, Weird Al Yankovic e Afrika Bambaataa, além de membros de bandas como X, The B-52's e Spinal Tape, dentre muitos outros) promovendo uma campanha de auxílio a algo (que não fica exatamente claro no vídeo, visto que todos pedem apenas para "darem a mão"), achei que era uma campanha real, e só anos depois vim a saber que se tratava de uma zoeira do grupo com os "bem intencionados" artistas de então que participavam voluntariamente (ou não) destes movimentos.

Os três singles do disco possuem, principalmente em suas versões de 12 polegadas, alguns dos melhores "lados B" da carreira do grupo. O lado B da versão 12″ do single “Bonzo Goes To Bitburg” tinha “Go Home Ann” (outra música cuja letra, certamente, seria considerada misógina hoje em dia, mas que, para mim, é uma das melhores composições do grupo nesta fase com Richie na bateria); o lado B da versão 12″ do single “Crummy Stuff” tinha a sombria (e magistral) “(And) I Don’t Wanna Live This Life” (que depois foi renomeada para “I Don’t Want To Live This Life (Anymore)” na coletânea All the Stuff (And More) Volume 2); e o lado B da versão 12″ do single “Something To Believe In” tinha “(You) Can’t Say Anything Nice” (das três, talvez a que eu menos aprecie). Todas elas, a meu ver, seriam escolhas melhores para o álbum do que faixas como "Hair Of The Dog" ou a própria “Crummy Stuff”. Infelizmente, quis o destino (e a banda) que não ocorresse assim, e essas faixas ficaram relegadas ao conhecimento apenas dos verdadeiros fãs da banda, que buscam além do óbvio.

Contracapa da versão nacional em CD de Animal Boy

Segundo o Discogs, Animal Boy chegou a ser lançado em vinil no Brasil à época (eu, particularmente, tenho uma história de certa forma bem engraçada com a minha cópia importada do disco, como já contei quando participei da seção Na Caverna da Consultoria), mas só teve uma edição oficial em CD no ano de 2024, por iniciativa conjunta dos selos Wikimetal Music e Oporto Da Música (lançada junto às edições dos outros dois discos deste período da banda). Infelizmente, esta edição não agregou ao track list os lados B citados acima, por motivos que desconheço, nem outras versões facilmente encontradas na internet ou em bootlegs para demos e faixas alternativas, como a versão de "Freak of Nature" com os vocais de Dee Dee. Mesmo podendo ter sido ainda melhor do que saiu (e tendo duas faixas ali pelo meio que nunca me atraíram muito), continua sendo, como disse, meu disco favorito da minha banda favorita, e duvido muito que isto venha a mudar um dia! Já a carreira do grupo continuou, ainda que Richie saísse  da banda após a gravação de Halfway To Sanity para dar lugar à volta de Marky, o qual permaneceria no posto até o final, em 1996! Mas isto é papo para outro momento!

"I'm looking for something to believe in / And I don't know where to begin..."

Track List

1. Somebody Put Something In My Drink
2. Animal Boy
3. Love Kills
4. Apeman Hop
5. She Belongs To Me
6. Crummy Stuff
7. My Brain Is Hanging Upside Down (Bonzo Goes To Bitburg)
8. Mental Hell
9. Eat That Rat
10. Freak Of Nature
11. Hair Of The Dog
12. Something To Believe In

Pink Floyd – Wish You Were Here 50 [2025]


Por Micael Machado

Lançado originalmente em setembro de 1975, o álbum Wish You Were Here se tornou, com o tempo, não só um dos mais importantes registros da carreira do grupo britânico Pink Floyd - composto à época, para quem ainda não sabe, por Roger Waters nos vocais e baixo (e sintetizadores, no caso deste disco), David Gilmour nos vocais e guitarras (neste álbum, também baixo e sintetizadores), Richard Wright (vocais e teclados) e Nick Mason (bateria e percussão) -, como em um dos mais importantes álbuns do rock progressivo em geral. Com quatro faixas em pouco mais de quarenta e quatro minutos (uma delas, uma suíte com mais de vinte e cinco minutos, dividida em nove partes, que é uma verdadeira maravilha do mundo prog), o registro serve tanto como uma homenagem a Syd Barrett, o guitarrista e vocalista que serviu como líder do grupo em seu início, mas acabou afastado da banda devido a problemas mentais ligados ao abuso de "substâncias" (e lamento informar que, se você não conhece a triste história de Syd, talvez esteja na postagem errada), quanto como uma crítica à própria indústria musical da época, que, na visão do grupo (ou de Waters, ao menos), tratava os músicos como meros "produtos", e não como "pessoas" (algo que frases como "qual de vocês é o Pink?" ou "podemos transformar isto em um monstro", de "Have a Cigar", ou "nós lhe diremos o que sonhar", de "Welcome To The Machine", parecem deixar claro), e alcançou a primeira posição das paradas em diversas partes do mundo, vendendo mais de vinte milhões de cópias, de acordo com a wikipedia. Em 2011, o álbum já havia sido relançado em uma versão chamada "Experience Edition", com dois CDs, e em um box set da série "Immersion", este com dois CDs, dois DVDs e um blu-ray. No final de 2025, chegou ao mercado uma nova edição da obra, comemorando os cinquenta anos do lançamento original, e batizada como Wish You Were Here 50, a qual foi disponibilizada em alguns formatos diferentes.

Os mais "simples" são as versões em CD duplo e vinil triplo, as quais trazem, em parte do primeiro CD e no primeiro LP, o álbum original remixado, além de três faixas que já haviam aparecido tanto na versão "Experience" quanto na "Immersion" lançadas em 2011. São elas: "Wine Glasses" (de pouco mais de dois minutos, a qual pode ser considerada a versão inicial da introdução da suíte "Shine On You Crazy Diamond", tendo sido composta como parte do projeto conhecido como "Household Objects", no qual o Pink Floyd trabalhou em diferentes momentos entre os discos Ummagumma e Dark Side of The Moon, abandonando a ideia pouco antes de começar os trabalhos para o que viria a ser o Wish You Were Here); uma versão alternativa de "Have A Cigar" (com Gilmour e Waters dividindo os vocais - que, na versão final, ficaram a cargo do músico convidado Roy Harper, como se sabe - e um final mais extenso do que o apresentado no álbum original); e a versão de "Wish You Were Here" com a presença do violinista Stéphane Grappelli, que foi chamado para participar das gravações do disco, mas acabou tendo sua participação "reduzida" na mixagem final porque a banda considerou que sua contribuição era "inadequada" para a faixa. De fato, ouvindo a canção desta edição, o instrumento de Grappelli acaba trazendo um toque de "country music" à faixa, o qual parece "apagar" um pouco a "magia" e o "brilho" que a versão do lançamento original possui (cabe citar ainda que esta versão com o violino tem um início com um solo diferente do violão, além de uma passagem instrumental a mais após o final do primeiro verso, e a bateria entrando em uma parte diferente da música, no início do segundo verso, e não no final do primeiro, como na versão finalizada). Estas três faixas completam o primeiro CD da versão dupla, e compõem o lado C da versão em vinil.

Roger Waters (ao fundo) e David Gilmour (à frente) trabalhando em estúdio ao lado do engenheiro de som Brian Humphries, em foto presente no encarte de Wish You Were Here 50 (não sei quem é o sujeito lendo um jornal ao fundo, infelizmente)

Nos lados D e E do vinil (e em boa parte do segundo CD), temos mais versões alternativas para faixas do disco, começando por uma "Early Instrumental Version, Rough Mix" ("mixagem crua para uma versão instrumental inicial", em tradução livre) de quase dezenove minutos para as partes 3 a 8 de "Shine On You Crazy Diamond", que inicia no crescendo da bateria que leva à parte 3, e não apresenta nem o saxofone da versão finalizada, nem o "famoso" "Syd's Theme", a sequência de quatro notas tocadas por Gilmour na guitarra que se tornou um dos trechos mais reconhecidos não só desta obra, como de todo o mundo do rock (aliás, a participação da guitarra nesta versão inicial da faixa é bastante reduzida, com boa parte dos solos ainda ausentes, além de algumas linhas de teclado estarem perceptivelmente diferentes, com destaque para o solo "alternativo" do instrumento durante a parte seis). Na sequência, dois rascunhos iniciais do que viria a ser "Welcome to the Machine", intitulados "The Machine Song (Roger's Demo)", onde Waters, sozinho ao violão e sintetizadores, interpreta o que seria a "versão inicial" da faixa (com partes de violão que não chegaram á forma final da canção, e alguns versos a menos do que aqueles que constam da versão finalizada - sendo os presentes aqui cantados por Roger em um ritmo bem mais veloz do que o da versão que conhecemos), e "The Machine Song (Demo #2, Revisited)", esta já mais próxima da versão "definitiva", mas com Waters cantando, agora, em um ritmo mais lento (além de acrescer alguns efeitos de eco e reverb na voz), e uma passagem que parece contar com um efeito "talk box" na guitarra de Gilmour. Completando o lado E da versão em vinil, temos duas versões iniciais de "Wish You Were Here", uma intitulada "Wish You Were Here (Take 1)" (a qual também apresenta um solo de violão na introdução diferente daquele da versão finalizada da faixa, e distinto, também, daquele presente na versão do primeiro CD, da qual manteve a passagem instrumental "extra" após o final do primeiro verso, e a entrada de bateria no mesmo ponto daquela faixa, além de ter, a meus ouvidos, os vocais mais "crus" de todas as alternativas apresentadas neste lançamento), e a outra chamada de "Wish You Were Here (Pedal Steel Instrumental Mix)", que, como o nome já diz, apresenta uma versão instrumental com a presença de uma "pedal steel guitar" no arranjo da faixa, acrescendo, novamente, um toque quase "country" à melodia, além de fazer um belo solo antes do que seria o refrão, e praticamente tomando conta do arranjo na parte final da canção.

Fechando o segundo CD, e ocupando totalmente o lado F da versão em vinil, temos uma nova mixagem em estéreo para as nove partes da suíte "Shine On You Crazy Diamond", "unificadas" oficialmente pela primeira vez em uma única faixa, a qual, embora já amplamente conhecida por todo apreciador da banda, ainda causa um impacto enorme quando ouvida "em uma tacada só". A transição entre as partes 5 e 6 (que aparecem separadas no vinil original) ficou bastante orgânica, e tornou muito mais fácil ouvir esta obra prima na íntegra, sem precisar programar o CD Player ou fazer algum "malabarismo" no seu reprodutor digital de músicas favorito (nem levantar e virar o disco no momento certo quando a faixa estiver sendo ouvida na versão em vinil).

Visão geral do conteúdo da versão "Deluxe Boxset" de Wish You Were Here 50

Há ainda uma versão "Deluxe Boxset" deste lançamento, a qual traz, além dos dois CDs e três vinis tratados acima, um quarto vinil com as faixas "Shine on You Crazy Diamond" e "You’ve Got To Be Crazy" (a versão inicial de "Dogs", que seria gravada oficialmente apenas no álbum seguinte, Animals, de 1977) registradas em um show de 1974 na Empire Pool Arena em Wembley, na Inglaterra (ambas as canções já haviam aparecido antes nas versões "Experience" e "Immersion" de 2011); uma réplica em vinil de sete polegadas para o single japonês de "Have A Cigar" (com esta faixa no lado A e "Welcome To The Machine" no lado B); um livro de capa dura com fotos inéditas da banda durante a criação do álbum; um programa de turnê (na versão em quadrinhos) da tour de 1975; uma réplica do pôster do Festival de Knebworth do mesmo ano, onde o Pink Floyd foi a atração principal; e um blu-ray com todo o material de áudio já citado acima (menos as faixas do show de 1974) - sendo que o álbum original aparece em várias mixagens diferentes -, dos vídeos com os "Concert Screen Films" para "Shine On You Crazy Diamond" e "Welcome To The Machine" e de um curta metragem de seis minutos feito por Storm Thorgerson em 2000 (vídeos estes também já disponibilizados na edição "Immersion" de 2011, e aos quais eu não assisti, não podendo, portanto, discorrer sobre eles), e do áudio de um show completo gravado na Los Angeles Sports Arena em 26 de Abril de 1975, retirado de um bootleg registrado pelo renomado "bootlegger" Mike Millard, cujo áudio original foi restaurado e remasterizado pelo aclamado produtor e músico Steven Wilson. Este mesmo show de Los Angeles também foi lançado em formato digital em 2025, e, no Record Store Day deste 2026, ganhou uma versão em vinil quádruplo e CD duplo que é, simplesmente, obrigatória aos fãs do grupo, afinal, seu track list compreende nada mais, nada menos, que as nove partes de "Shine on You Crazy Diamond" (intercaladas, entre as partes 5 e 6, por uma bela rendição de "Have a Cigar"), a íntegra do álbum Dark Side of the Moon, as versões iniciais de "Sheep" (ainda chamada "Raving And Drooling") e "Dogs" (na época, ainda conhecida como "You’ve Got To Be Crazy", como escrito acima), e um bis com a íntegra da suíte "Echoes". Um pacote para não se desperdiçar!

Seja na versão "completa" do "Deluxe Boxset", ou nas versões mais "simples" em CD ou vinil, Wish You Were Here 50 é uma bela homenagem aos cinquenta anos desta obra prima da música mundial, e tem tudo para agradar aos fãs dos britânicos, que já amam o disco há tanto tempo, mas que, agora, terão a oportunidade de ouvir novas formas de suas faixas favoritas, mesmo depois de anos ou décadas de devoção à elas! Aproveitem!

Contracapa da versão em CD de Wish You Were Here 50

Track List (versão em vinil):

LP 1: Original Album
A1. Shine On You Crazy Diamond (1-5)
A2. Welcome To The Machine

B1. Have A Cigar
B2. Wish You Were Here
B3. Shine On You Crazy Diamond (6-9)

LP 2: Rarities 1
C1. Wine Glasses
C2. Have A Cigar (Alternate Version)
C3. Wish You Were Here (Featuring Stéphane Grappelli)

D1. Shine On You Crazy Diamond (Early Instrumental Version, Rough Mix)
D2. The Machine Song (Roger's Demo)

LP 3: Rarities 2

E1. The Machine Song (Demo #2, Revisited)
E2. Wish You Were Here (Take 1)
E3. Wish You Were Here (Pedal Steel Instrumental Mix)

F1. Shine On You Crazy Diamond (Pts. 1-9, New Stereo Mix)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dream Theater – Live in Tokyo, 2010 [2026]

Por Micael Machado

De maneira bastante resumida e genérica, pode-se dizer que a série de discos "Lost Not Forgotten Archives", do Dream Theater, foi criada para disponibilizar mundialmente, através do selo Inside Out Music, a "Official Bootleg Series", uma série de 25 lançamentos (segundo o Discogs, entre CDs e DVDs) liberados pela banda entre 2003 e 2009 pelo seu próprio selo, o Ytsejam Records, reunindo apresentações ao vivo, demos e sessões de gravações de praticamente toda a história da banda desde quando ainda se chamava Majesty, em 1985, até as demos do disco Train Of Thought, de 2003. Com uma apresentação gráfica bem mais simples (geralmente os CDs são no formato digipak, sem encartes ou muitas informações técnicas) do que os da série anterior, os títulos da "Lost Not Forgotten Archives" acabam se tornando atraentes por disponibilizar estes discos também em vinil, muitos pela primeira vez, fazendo a festa dos colecionadores da banda. Desde que foi lançada, esta nova leva de discos também agregou novos tesouros retirados dos arquivos do grupo, muitos deles já com Mike Mangini na bateria, músico que passou a integrar o Dream Theater no final de 2010, portanto, depois de todos os registros da série original já terem sido lançados.

Com a volta de Mike Portnoy ao posto de baterista do grupo em 2023 (sendo a formação do quinteto completa, para quem ainda não sabe, por John Petrucci nas guitarras, John Myung no baixo, James LaBrie nos vocais e Jordan Rudess nos teclados), era natural que novos registros da época da primeira passagem do baterista pela banda viessem a ser lançados oficialmente. O primeiro deles foi Live At Madison Square Garden 2010, disponibilizado no mercado já em 2023, o qual traz a íntegra de um show gravado em julho de 2010 na famosa casa de espetáculos de Nova Iorque, onde o Dream Theater atuou como banda de abertura para o Iron Maiden. Um outro show deste mesmo ano, gravado em 8 de agosto no Summer Sonic Festival, na capital japonesa, foi lançado agora em março deste 2026, sob o título meio genérico de Live In Tokyo, 2010, nos formatos CD e vinil (em várias cores diferentes - isto lá fora, claro, pois, aqui no Brasil, o álbum foi lançado apenas em CD, no formato digisleeve, pelo selo Shinigami Records, sendo, salvo engano, o primeiro disco desta série - a "Lost Not Forgotten Archives" - a ganhar uma edição nacional - e que outros venham na sequência, peço eu!), compreendendo a apresentação completa do grupo naquela data, em pouco mais de 75 minutos de um disco que, a primeira vista, pode não ser tão interessante assim para o fã mais "ocasional" da banda (e existe alguém assim, ou somos todos fanáticos pelo grupo?).

Detalhe do "encarte" da versão importada de Live In Tokyo, 2010

Afinal, ao olharmos o track list, vemos que o mesmo compreende apenas seis faixas, e apenas uma delas pode ser considerada um "clássico" da banda, o qual apresenta parte de uma das músicas favoritas dos fãs interpretada, ainda por cima, de forma incompleta, "misturada" a outra das principais faixas da discografia do Dream Theater (me refiro ao medley "Pull Me Under / Metropolis", que fecha o show, já no bis). Mas, analisando melhor a listagem das músicas, vemos que quatro delas fazem parte do disco que estava sendo divulgado então pelo grupo (o excelente Black Clouds & Silver Linings, de 2009, e um dos meus favoritos na carreira do quinteto), sendo que, das quatro, apenas uma possui uma versão ao vivo "oficial" com Portnoy na bateria disponibilizada em um outro disco ao vivo da turma ("A Rite Of Passage", também presente no citado Live At Madison Square Garden 2010, sendo a única a aparecer nos dois registros, junto com "Pull Me Under", que, naquele disco, aparece em sua versão completa). Duas outras faixas ("A Nightmare To Remember", que abre os trabalhos, e os mais de vinte minutos da excepcional "The Count Of Tuscany", para mim, o ponto alto deste show, e uma das melhores da carreira dos americanos, que encerra a apresentação antes do citado medley presente no bis) já haviam tido versões "ao vivo" lançadas oficialmente nesta mesma série de discos, porém, ambas contavam com o sucessor Mike Mangini na bateria (e fazem diferença a presença dos vocais "guturais" de Portnoy perto do final da execução da primeira, como na versão de estúdio, os quais nunca mais foram reproduzidos nas versões ao vivo com Mangini na bateria), e não com o músico que as gravou em estúdio. A quarta faixa do disco divulgado presente neste CD, a baladaça "Wither", aparece oficialmente pela primeira vez em um disco ao vivo da banda, assim como "Prophets Of War", faixa do disco Systematic Chaos, de 2007, que foi executada pelo grupo em alguns poucos shows entre 2009 e 2010, sendo esta a sua mais recente aparição ao vivo, segundo o site setlist.fm.

Como já é de conhecimento dos fãs da banda, pelo menos desde a entrada de Jordan Rudess o espaço para improvisos no meio das músicas não é tão extenso como em outras encarnações do Dream Theater. O que não significa que eles estejam ausentes por completo, e, aqui, estas "fugas do roteiro" ocorrem em um curto solo de teclados do próprio Rudess antes do início de "Prophets Of War", em algumas passagens instrumentais de Petrucci na parte mais lenta de "The Count Of Tuscany", e em uma espécie de "duelo" entre estes dois instrumentistas na parte instrumental de "Metropolis", em algo que me lembrou a versão disponibilizada em outro registro da série "Official Bootleg Series", o álbum When Dream And Day Reunite, de 2005, que apresenta um show gravado em Los Angeles no ano anterior. Mas esta falta de "novidades" na execução das músicas não serve, a meu ver, como um fator de desabono à qualidade da apresentação, afinal, a complexidade musical da maioria das faixas e a capacidade dos músicos de as reproduzirem fielmente sobre o palco é o que atrai muitos dos fãs para os shows do quinteto, assim como acontece (ou acontecia) com muitos "gigantes" do rock progressivo que já andaram sobre a terra, especialmente na década de 1970.

Contracapa da versão nacional de Live In Tokyo, 2010

Um outro fator que torna Live In Tokyo, 2010 um disco "especial" dentro desta série (além de, particularmente, a bolachinha servir como uma lembrança da primeira vez que vi o quinteto ao vivo, justamente naquele ano de 2010, em uma apresentação em Porto Alegre, felizmente, bem mais longa que a presente neste CD) é que ele registra a data final desta turnê de divulgação do disco Black Clouds & Silver Linings (como LaBrie anuncia antes do início de "Wither"), marcando também aquela que seria a última apresentação de Portnoy ao lado do Dream Theater até o seu já citado retorno ao grupo, em 2023. Foram, para os fãs, treze longos anos de espera, até a volta do baterista ao seu lugar "de pertencimento", o lançamento do álbum Parasomnia, em 2025, e a turnê de quarenta anos do grupo, realizada entre o final de 2024 e o começo deste 2026. Daqui a alguns dias, em oito de abril, o grupo inicia no México uma turnê de divulgação do citado Parasomnia (que também celebrará o 30º aniversário do EP A Change Of Seasons), passando depois pela América Central e por alguns países da América do Sul, antes de chegar ao Brasil para uma série de seis shows, começando por Porto Alegre, no dia 03 de maio (meu ingresso para esta data já está garantido há meses), e terminando em Belo Horizonte, no dia 12 do mesmo mês. Dificilmente, alguma das músicas presentes em Live In Tokyo, 2010 fará parte do repertório de uma destas noites, mas, certamente, será uma apresentação inesquecível. Como o povo diz, "quem viver, verá"! Até lá, temos mais um belo disco ao vivo para ir "esquentando os trabalhos" antes de reencontrarmos o grupo sob as luzes dos holofotes em um palco, novamente!

Track List:

1. A Nightmare To Remember

2. A Rite Of Passage

3. Prophets Of War

4. Wither

5. The Count Of Tuscany

6. Pull Me Under / Metropolis

domingo, 29 de março de 2026

Neil Young - Archives Vol. III – Takes [2024]

Por Micael Machado

Em setembro de 2024, o músico canadense Neil Young lançou a terceira parte de seus "arquivos", uma série de box sets compreendendo, como o nome sugere, faixas "arquivadas" da carreira do músico, muitas delas inéditas e desconhecidas do grande público, ao lado de outras já lançadas anteriormente na longa discografia do cantor e compositor. Este terceiro volume consiste em um total de 198 faixas ao longo de 17 CDs (121 delas não lançadas previamente), além de 5 Blu-rays, trazendo raridades da carreira de Young entre 1976 e 1987. Para quem comprasse o box na pré-venda, foi disponibilizada uma espécie de "aperitivo" do conteúdo da caixa na forma de um CD extra com 16 faixas (sendo uma representante de cada CD do box set, à exceção do décimo sexto, que não forneceu nenhuma gravação para a compilação) intitulado Takes, o qual, após o box completo ficar disponível para venda geral, foi lançado também em uma versão em vinil duplo, que é aquela sobre a qual trato neste texto.

Apesar da grande quantidade de músicas inéditas constantes do box completo, dentre as dezesseis escolhidas para esta compilação apenas três podem ser consideradas realmente "novidades" para os fãs do bardo canadense: "Lady Wingshot", faixa de pegada mais country gravada em 1977, e que poderia muito bem se encaixar no álbum American Stars 'n Bars, lançado naquele ano (apesar de, aqui, ainda soar como uma demo inacabada); a roqueira "Bright Sunny Day", gravada ao lado do Crazy Horse em 1978, e que poderia fazer parte do lado B de Rust Never Sleeps, de 1979, apesar de também soar como uma demo ainda inacabada; e outra composição ao estilo country na forma de "Winter Winds", datada de 1980. As faixas restantes trazem diversos estilos pelos quais Young "perambulou" ao longo de sua carreira, como: faixas acústicas apenas com voz e violão (e uma ocasional harmônica aqui e ali), como uma versão diferente da clássica "Comes a Time" (que depois apareceria na versão em vinil de Oceanside Countryside, lançada em 2025); a mesma versão de "Hitchhiker" que daria título ao "álbum perdido" lançado em 2017; uma gravação ao vivo de "Thrasher" registrada em 1978, e outra de "Let It Shine" gravada no famoso Budokan de Tóquio em 1976 (e que não faz parte do track list do álbum Odeon Budokan, de 2023, o qual traz gravações no mesmo local e do mesmo período); e uma versão alternativa para "Hey Babe" (cuja original aparece no já citado American Stars 'n Bars), que, aqui, conta com os vocais das cantoras Nicolette Larson e Linda Ronstadt; faixas mais "roqueiras", com destaque para as guitarras, como uma versão inédita de "If You Got Love" (diferente daquela que ficou de fora da seleção final incluída no álbum Trans, apesar de incluída na lista de músicas da contracapa) e as versões ao vivo de "Drive Back" e "Barstool Blues" registradas ao lado do Crazy Horse em 1976 e 1984, respectivamente; faixas ao estilo "country music", como a versão de "Sail Away", que aparece aqui em um raro registro de estúdio do projeto The Ducks, grupo de curta duração que Young integrou em 1977, ou a versão ao vivo de "This Old House" gravada em 1985, composição que seria depois gravada pelo supergrupo Crosby, Stills, Nash & Young em seu álbum American Dream, de 1988; e faixas com um toque mais "eletrônico", com Young dando mais atenção ao sintetizador Synclavier do que às guitarras, como na versão original de "Razor Love" (gravada em 1984, faixa que reapareceria completamente retrabalhada, em uma versão acústica ao violão, no álbum Silver & Gold, lançado no ano 2000) ou a balada com jeitão de "hino" "Last of His Kind", de 1987, faixa que fecha o box original, se desconsiderarmos uma faixa falada de quatorze segundos intitulada "Rap (Outro)" (não incluída nesta compilação), e que já havia sido disponibilizada anteriormente na seção de "arquivos" do site oficial do canadense.

Neil Young e uma das versões do box set Archives Vol. III 

Ainda temos uma surpreendente versão de quase dez minutos para "Hey Hey, My My (Into the Black)" gravada por Young ao lado da banda Devo em 1978, inclusive com os vocais a cargo de Mark Mothersbaugh (vocalista do Devo), ao invés de Neil, e que soa bem diferente da clássica versão elétrica registrada ao lado do Crazy Horse no citado álbum Rust Never Sleeps (a história seria que esta faixa foi gravada para o filme "Human Highway", dirigido por Young, o qual foi gravado ao longo de quatro anos, com o lançamento ocorrendo apenas em 1982, e que conta com os membros do Devo participando como atores. A frase "rust never sleeps", cantada por Mothersbaugh nesta canção, teria servido como inspiração para o título do álbum do canadense, lançado no ano seguinte). Esta faixa, para mim, acaba sendo o maior atrativo desta compilação (mesmo com as três músicas inéditas incluídas), a qual apresenta um track list em ordem "quase" cronológica ao longo dos quatro lados do vinil, e que eu considero recomendável apenas para os fãs mais "die hard" do bardo canadense, pois, para o ouvinte ocasional, vai acabar não agregando tanto assim, nem representando uma era mais atraente da longa carreira do músico (afinal, é bem sabido e divulgado que, no período entre 1980 e 1988, estão alguns dos piores registros da discografia de Young, tanto que ele chegou a ser processado pela sua gravadora à época, a Geffen Records, por "gravar discos que não soam como Neil Young"). 

Para quem curte a música de Neil Young, mas não tem condições de adquirir o box completo (com o maior motivo, acredito eu, sendo o alto custo financeiro do mesmo, que, além de tudo, não teve lançamento em versão nacional), esta coletânea acaba não sendo tão atraente, também, pois acaba trazendo poucas faixas realmente "novas", sendo a maioria versões diferentes de músicas já lançadas em outros momentos da discografia do canadense (chegando ao ponto de incluir faixas que se encontram em lançamentos regulares, como as citadas "Hitchhiker" e "Comes a Time"). Com a quantidade de faixas interessantes presentes no box completo, Takes poderia ter um track list bem mais atraente, mas, infelizmente, não foi o que aconteceu. Uma pena!

Contracapa da versão em vinil de Takes

Track List (versão em vinil):

Lado A

1. "Hey Babe"

2. "Drive Back"

3. "Hitchhiker"

4. "Let It Shine"

Lado B

5. "Sail Away"

6. "Comes a Time"

7. "Lady Wingshot"

8. "Thrasher"

Lado C

9. "Hey Hey, My My (Into the Black)"

10. "Bright Sunny Day"

11. "Winter Winds"

12. "If You Got Love"

Lado D

13. "Razor Love"

14. "This Old House"

15. "Barstool Blues"

16. "Last of His Kind"

domingo, 14 de dezembro de 2025

Resenha de Show: Dialeto e David Cross (Blues Bossa Jam Session, 30 de Outubro de 2025)



Por Micael Machado

Em 2017, o trio paulistano Dialeto (formado por Nelson Coelho na guitarra, Gabriel Costa no baixo e Fred Barley na bateria - os dois últimos, também com passagens pelo Violeta de Outono) lançou o álbum Bartók In Rock, no qual faziam adaptações "prog rockers" para peças do compositor húngaro Béla Bartók, que viveu entre 1881 e 1945. Para participar do disco, o trio convidou o violinista inglês David Cross, mundialmente conhecido dentre os fãs de rock progressivo por sua passagem pelo King Crimson, entre 1972 e 1974. Os quatro músicos chegaram a fazer alguns shows de divulgação do trabalho, os quais resultaram no álbum ao vivo Dialeto – Live With David Cross, lançado em 2018, o qual foi minha introdução ao trabalho do Dialeto. Pois agora, em 2025, o trio e Cross se uniram novamente para dois shows no Brasil, um acontecido dia 28 de outubro no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo, e outro, dia 31 do mesmo mês, no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre, ambos dentro do projeto Blues Bossa Jam Session.

Com o apoio do Ministério da Cultura do Governo Federal, a ideia do projeto é "celebrar a riqueza do jazz e suas fusões com o blues, a bossa nova, o soul e o rock", e, entre 13 de agosto e 12 de dezembro (em São Paulo, entre 15 de agosto e 17 de novembro) trará (ou já trouxe) nomes nacionais e internacionais aos palcos citados acima, dos quais a união entre o Dialeto e o ex-músico do King Crimson foi a quarta apresentação do projeto na capital gaúcha. Com preços de ingressos bastante acessíveis (a categoria chamada "inteira popular" custava menos de 40 reais), a iniciativa foi uma bela oportunidade para a população da capital gaúcha curtir espetáculos de nomes que, quase nunca ou raramente, vêm até o sul do país, como a cantora Vanessa Moreno ou a reconhecidíssima Banda Black Rio. Infelizmente, na noite mais "prog" do projeto, o público foi bastante reduzido, sendo que aqueles que tinham ingressos para os setores mais "distantes" do palco (chamados "plateia alta" e "mezanino") foram "convidados" pela administração do evento a terem um "upgrade" em suas posições, ficando, desta forma, no setor "plateia baixa" (bem mais perto do palco que os demais setores), o qual, mesmo com esta alteração, não chegou a lotar...

Exatamente na hora marcada (ah, a velha pontualidade britânica), Fred Barley e Gabriel Costa entram no palco, e o show inicia com Gabriel passando uma alavanca de distorção (separada do instrumento) no braço do baixo, num efeito conhecido como "glissando" (algo que Fabio Golfetti, do citado Violeta de Outono, costuma fazer com frequência na guitarra) por alguns minutos, com Nelson Coelho entrando em cena já durante a execução desta introdução, para que a guitarra e a bateria, aos poucos, se juntassem à melodia executada pelo baixo. Cross entra por último no palco, se unido aos outros três na longa e atmosférica introdução de "Roumanian Folk Dances 3", faixa que também abre o disco ao vivo citado acima, e que, nesta noite, só foi ganhar "corpo" depois de uns bons cinco minutos de uma climática construção introdutória. Logo em seguida, os quatro emendam "Roumanian Folk Dances 4", onde Nelson e David executam linhas melódicas "gêmeas" em seus instrumentos, em uma faixa com um clima "oriental" e meio "misterioso", com os dois instrumentistas também "duelando" em solos alternados mais para o final da mesma.

O Dialeto com David Cross no palco do Teatro do Bourbon Country

Nelson vai então ao microfone dar o tradicional "Boa Noite", e dizer que "é muito legal poder estar com o Dialeto em Porto Alegre pela primeira vez, ainda mais em companhia do grande David Cross", para muitos aplausos da plateia, anunciando depois "Mikrokosmos 78", que inicia com Cross sozinho ao violino por uns bons três minutos, antes do Dialeto se unir a ele em mais uma melodia com "ares' orientais, onde a guitarra de Nelson soou um pouco mais "pesada" do que nas músicas anteriores, e onde ele e Cross novamente trocaram "duelos" musicais em seus respectivos instrumentos ao longo da faixa. Terminada a música, Nelson volta ao microfone, e "convoca" Gabriel a "explicar pro pessoal" como funcionam os "mikrokosmos" de Bartok, e o baixista explica então que eles são um conjunto de peças numeradas criadas para serem um "tutorial" de ensino de piano, que começam "bem facinhas" no número um, ficando mais complicadas à medida que a numeração aumenta, dizendo então que iriam tocar "Mikrokosmos 113", que "já não é tão fácil assim, mas vamos tentar fazer aqui". Certamente a faixa mais rápida e "agitada" até então na noite, a música foi um deleite para os apreciadores de técnica e musicalidade dentro do rock (especialmente o progressivo), com Nelson e David se alternando nos momentos de destaque sob os holofotes. Em seguida, outra composição intrincada musicalmente veio na forma de "An Evening in the Village", que, assim como no disco ao vivo, foi seguida pela cadenciada "The Young Bride", outra bela composição, alternando partes mais "melódicas" a passagens mais "pesadas", especialmente da guitarra de Nelson.

Com pouco mais de quarenta minutos de show, Nelson anuncia Fred na bateria e vocais da próxima música, e um ritmo eletrônico pré-gravado é acionado pelo baterista em um "kit" eletrônico ao lado de seu instrumento, com esta marcação servindo de base para um longo e belo improviso de Cross, seguido por outro de Gabriel, o qual, após uma breve pausa do baixista, se transforma nas notas iniciais de "Exiles", a primeira composição do King Crimson apresentada na noite. Ao seu término, David foi pela primeira vez ao microfone, agradeceu pela oportunidade de estar de volta ao Brasil, especialmente ao lado do Dialeto, e disse que "vocês (o público presente) é que são o verdadeiro espetáculo essa noite, e merecem uma salva de palmas", sendo ovacionado com palmas e assovios da plateia. Gabriel, então, assumiu os microfones para cantar "Tonk", faixa da carreira solo de Cross, que passou meio despercebida no meio do repertório da noite (além de ser uma das poucas a ter menos de quatro minutos de duração apresentadas pelo quarteto).

Com Gabriel voltando a usar a alavanca no braço de seu baixo, e Fred "atacando" os itens de seu kit com as palmas da mão, os dois músicos criaram uma "base" onde, aos poucos, Gabriel começou a executar uma melodia repetitiva, sobre as quais Nelson e Cross surgiram com uma melodia facilmente reconhecida pelos fãs do King Crimson como sendo o início de "The Talking Drum", a qual, entre muitos improvisos de Cross (acompanhado pela guitarra de Nelson) levou pelo menos uns quatro minutos antes de chegar em sua parte mais "agitada" na sua seção intermediária. Assim como no disco de estúdio do KC, "...Drum" foi emendada com a segunda parte de "Larks' Tongues in Aspic", ainda que a transição entre as duas não tenha sido com as "microfonias" da versão do Rei Escarlate, mas sim com alguns gritos e vocalizações dos quatro instrumentistas. Nesta, confesso que senti falta de um pouco de peso e distorção na guitarra de Nelson (que, para usar um termo frequentemente associado à tonalidade de Robert Fripp, não estava tão "esquizóide" quanto o timbre que o mestre das seis cordas do Rei Escarlate costuma usar). Mesmo assim, "Larks'..." foi um arregaço, e algo emocionante de se ver e ouvir, ainda mais quando, na parte em que a guitarra e o baixo fazem uma melodia "dobrada" ao mesmo tempo, Cross veio com um dos melhores solos da noite, quase atonal, em uma "barulheira" digna dos tempos em que tocava ao lado de Fripp e companhia. Fantástico!

Outro momento do show do Dialeto com David Cross no Teatro do Bourbon Country

Como, desde "An Evening in the Village", o quarteto vinha seguindo a ordem do disco ao vivo na apresentação, sentei e relaxei aguardando ouvir a versão da turma para a fantástica "Starless". Porém, fui surpreendido pelo início de "Easy Money", onde Fred assumiu, mais uma vez, os vocais, e Cross chegou a sair do palco na primeira parte, voltando após a segunda citação do nome da música (e um longo solo de Nelson) para realizar mais um belo (e longo) improviso em seu violino, antes do retorno da parte cantada e o final da faixa (infelizmente, sem as risadas "malucas" da versão de estúdio). Nelson apresentou novamente a banda e fez os agradecimentos "de praxe" em shows como este, antes do quarteto, finalmente (para mim, ao menos) iniciar sua versão para "Starless", a meu ver, a maior "maravilha do mundo prog" já registrada pelo King Crimson. Aparentemente, não era apenas eu o fã da canção presente ao teatro, pois foi, de longe, a faixa que recebeu a maior ovação do público em seus primeiros acordes, sendo, penso eu, aquela que o pessoal "reconheceu" mais facilmente quando iniciou. Ainda que os vocais de Fred ficassem longe da potência e alcance daqueles registrados por Wetton nos anos 70 (e, afinal, quem conseguiria chegar perto?), ouvir esta suíte ali, ao vivo, "na minha cara", pela primeira vez "em todos esses anos nesta indústria vital", foi de levar às lágrimas qualquer verdadeiro fã do King Crimson presente ao teatro naquela noite.

Assim como na carreira do Rei Escarlate na década de 1970, depois desta faixa, não havia nada mais a ser feito que pudesse superar a grandiosidade daquilo que havia sido executado no palco naquela noite, e o quarteto se uniu na frente do palco para se despedir do público com um "obrigado pessoal, obrigado Porto Alegre" de Nelson, sendo que a plateia, aos gritos de "mais um, mais um", "conseguiu" trazer os quatro músicos de volta ao palco, com Nelson anunciando que fariam mais uma canção para encerrar a noite, e Cross agradecendo mais uma vez ao público, dizendo ter sido uma honra estar presente em Porto Alegre naquela data (ele que pareceu, ao longo de toda a apresentação, estar super à vontade no palco, "regendo" entradas e saídas dos companheiros durante as músicas, e chegando a executar algumas "dancinhas" meio desengonçadas de vez em quando, e, pelo menos por duas vezes, ficando bem perto de se atrapalhar com as próprias "acrobacias" e quase levar um tombo épico - algo que, felizmente, não chegou a acontecer). Quando o quarteto se posicionou para iniciar o bis, confesso que fiquei aguardando por "21st Century Schizoid Man", música da qual Cross não participa da versão de estúdio, mas foi muito executada por ele durante seus anos ao lado de Fripp e companhia. Mas o que ouvi, para minha surpresa, foram os acordes iniciais de "The Great Deceiver", faixa que abre o álbum Starless and Bible Black, e que nem o King Crimson costumava executar com tanta frequência ao longo dos anos 1970. Novamente com Fred nos vocais (tendo a ajuda de Nelson e Gabriel nos refrãos), a faixa ficou bem próxima da versão original, e seu final levou àquela que foi, para mim, a maior (e melhor) surpresa da noite: a execução de "Red", minha faixa favorita na discografia do Rei Escarlate, e que não conta com Cross em sua versão de estúdio. Mesmo assim, ele conseguiu "encaixar" seu violino ao lado da guitarra de Nelson, em uma interpretação magistral deste clássico que, acredito, tão cedo não sairá da minha memória.

David Cross, o "bolha" que vos escreve, Fred Barley, Gabriel Costa e Nelson Coelho

Ainda houve tempo para encontrarmos os músicos no pós-show, onde tive a oportunidade de autografar alguns itens e agradecer a um extremamente simpático e receptivo David Cross por toda a boa música que ele me proporcionou escutar ao longo dos anos, além de trocar uma ideia e pegar alguns autógrafos com o pessoal do Dialeto, além de falar um pouco com Gabriel e Fred sobre o tempo que eles passaram ao lado do Violeta de Outono (que, infelizmente, eu ainda não tive a oportunidade de assistir ao vivo, embora seja um grande fã desde a década de 1980). Todos foram muito simpáticos e atenciosos não só comigo, mas como todos que estavam ali para lhes agradecer por uma noite fantástica de rock progressivo em Porto Alegre. Pelo menos até aqui, certamente, foi o show do ano na capital gaúcha. Mas ainda temos dois meses pela frente até 2026, então...

Set List:

1. Roumanian Folk Dances 3
2. Roumanian Folk Dances 4
3. Mikrokosmos 78
4. Mikrokosmos 113
5. An Evening in the Village
6. The Young Bride
7. Exiles
8. Tonk
9. The Talking Drum
10. Larks' Tongues in Aspic, Part Two
11. Easy Money
12. Starless
13. The Great Deceiver
14. Red

Body Count - Merciless [2024]


Por Micael Machado

"Tentaram me matar com tiros / Tentaram me matar de fome / Tentaram me infectar com muitos tipos de vírus / Mas falharam em me eliminar / Falharam em me destruir" canta Ice T em "Live Forever", sexta faixa de Merciless, oitavo disco de estúdio do Body Count, lançado em novembro de 2024 (lá fora, pela gravadora Century Media, nos formatos CD, Vinil - em várias cores diferentes - e um "Deluxe Box" com um CD extra com as versões instrumentais das faixas, além de "brindes" como bandana e munhequeira; enquanto, aqui no Brasil, foi lançado pela gravadora Shinigami, apenas no formato CD Digipak), o quarto registro onde a banda é formada, além de Ice nos vocais, por Ernie C. nas guitarras, Sean E. Sean nos samplers e backing vocals (estes dois, os únicos sobreviventes da formação original, ao lado, claro, do "chefão" Ice T), Juan Of The Dead nas guitarras, Vincent Price no baixo, e Ill Will na bateria, além do vocalista de apoio Little Ice e do produtor Will Putney, que também atua como guitarrista adicional e participa da composição em praticamente todas as faixas do registro (ele que também é guitarrista da banda Fit for an Autopsy). Com doze faixas em pouco mais de quarenta e um minutos, Ice e sua turma mantém a mistura de rap com metal que tornou o Body Count famoso lá no começo da década de 1990, mas parecem levar a sonoridade do grupo alguns passos adiante nas direções mais "pesadas" do estilo.

Faixas como a veloz "Psychopath" (primeiro single de divulgação do álbum, e que conta com os vocais do músico convidado Joe Badolato, também do Fit for an Autopsy) e a brutal "The Purge" (com letra inspirada pela série de filmes de mesmo nome, e que conta nos vocais com a participação de George "Corpsegrinder" Fisher, do Cannibal Corpse) parecem saídas de alguns dos álbuns mais extremos do Slayer, enquanto a vinheta de abertura "Interrogation Interlude" aproxima a sonoridade do Body Count ao metal industrial de uma banda como o Ministry, por exemplo. A citada "Live Forever" (com participação nos vocais do cantor Howard Jones, ex-Killswitch Engage, atual Light the Torch) tem, além de um dos melhores refrões do disco, alguns trechos que se aproximam do Death Metal Melódico (apesar dos vocais de Ice não terem nada a ver com o estilo), e a veloz "Drug Lords" (com uma rápida participação de Max Cavalera - vocês sabem quem - em um curto trecho falado em português) parece saída de algum dos primeiros discos do Soulfly (ainda que sem a percussão característica da banda - aliás, o encarte não especifica quem canta nesta faixa, mas eu arriscaria dizer que as vozes ficaram a cargo do baixista Vincent Price, porque, certamente, não é Ice quem está cantando aqui).

Body Count: Ill Will, Vincent Price e Sean E. Sean (atrás), Ernie C., Ice T e Juan Of The Dead (mais à frente)

"Do or Die" tem algumas partes que poderiam ser consideradas como o chamado "pula pula" do nu metal, enquanto "World War" parece saída de algum disco antigo do Biohazard, e composições como a faixa título, "Fuck What You Heard", "Mic Contract" (todas com bastante destaque para o baixo) ou "Lying Motherfucka" já se aproximam mais do estilo "tradicional" do grupo,  apostando no peso em demérito da velocidade, e onde Ice atua mais como rapper do que como cantor.   

A parte lírica também sofreu algumas alterações desde os primeiros discos, afinal, se "Mic Contract", "Do or Die" (que prega contra o crescente armamento da população dos EUA como forma de autodefesa, mas onde Ice diz que "se você vier pra cima de mim com uma automática, eu não vou me defender apenas com uma faca" e que ele não é "nenhum filha da puta pró-armas", mas sim "pró manter-se vivo") ou a própria "Merciless" ainda tratam da dificuldade da vida nas cada vez mais violentas ruas da Los Angeles natal do grupo (ou de qualquer outra cidade grande no mundo), "World War" alerta para o fato de que a humanidade está cada vez mais próxima de um conflito mundial em larga escala, tema que também permeia "Drug Lords", onde Ice fala sobre quem realmente "manda" na política do planeta. "The Purge" e "Psychopath" foram inspiradas por filmes que Ice T assistiu durante a pandemia de Covid 19, enquanto "Lying Motherfucka" é um ataque direto a Donald Trump ("Você tem pessoas que continuam a lhe apoiar / ainda que as merdas que você diz já tenham se provadas falsas / Você mente para o mundo inteiro / e ainda planeja se candidatar novamente para Presidente"), e "Fuck What You Heard" é uma crítica ao sistema político norte americano como um todo ("Esquerda e Direita são asas de uma mesma ave / Eles querem nos separar / Nos manter lutando uns contra os outros /Enquanto roubam o trem"). Já a surpreendente recriação da clássica "Comfortably Numb" (aquela mesma, que, aqui, chega até a contar com a própria participação do compositor David Gilmour na reinvenção de um dos mais emblemáticos solos de guitarra da história do rock, na única faixa do disco que passa dos quatro minutos de duração) trata da alienação da população, que fica imersa nas "redes sociais" o tempo todo, e acaba alienada (ou "confortavelmente entorpecida", como diz o título da música) do que realmente está acontecendo atualmente no mundo, sendo "informada" constantemente por Fake News e notícias "manipuladas" pelo governo ou pelos verdadeiros donos do poder no planeta.

Contracapa da versão nacional de Merciless

Merciless é um passo adiante na carreira da banda, com músicas fortes e letras ainda mais impactantes e abrangentes do que alguns dos registros anteriores. Como Ice canta em "Fuck What You Heard", "Body Count's in tha buildin' " mais uma vez, e, ao que parece, não vai sair tão cedo. Ainda bem!

"I refuse to give up / I refuse to shut up / You can try to stop me / You can try to kill me / But my voice will live forever"

Track List:

1. Interrogation Interlude

2. Merciless

3. The Purge

4. Psychopath

5. Fuck What You Heard

6. Live Forever

7. Do or Die

8. Comfortably Numb

9. Lying Motherfucka

10. Drug Lords

11. World War

12. Mic Contract