domingo, 30 de março de 2014

Discografia Comentada: Violeta de Outono


Por Micael Machado


Após saírem do grupo paulista Zero, o vocalista e guitarrista Fábio Golfetti e o baterista Claudio Souza formam o Violeta de Outono em 1984, junto ao baixista Angelo Pastorello, tendo por objetivo executarem uma música que unisse suas influências de pós-punk inglês, rock progressivo e sons da psicodelia inglesa da segunda metade da década de 1960, tendo o Pink Floyd de Syd Barrett à frente. Após gravarem uma demo tape em 1985, lançam no ano seguinte, pela loja de discos Wop-Bop, seu primeiro EP, chamado Reflexos da Noite, o qual continha três músicas e levou o trio a assinar com a gravadora RCA, fazendo parte do então iniciante selo Plug, por onde a companhia lançou diversas bandas importantes do chamado BRock dos anos 80 (este EP seria relançado em CD no ano 2000, com oito faixas bônus). Começava então a trajetória de um dos mais importantes grupos psicodélicos/progressivos do Brasil, cuja discografia você confere a seguir:

Violeta de Outono [1987]

Para mim, é muito difícil ser imparcial com relação ao disco de estreia do Violeta de Outono, pois o considero um dos clássicos do rock oitentista brasileiro, com uma atmosfera psicodélica (e algo de pós-punk, como na instrumental "Retorno") que o faz soar como um disco gravado na Inglaterra do final dos anos sessenta e escondido do mundo por quase vinte anos. Gosto de todas as composições da versão original em vinil, sendo, no entanto, impossível não destacar "Dia Eterno", talvez o maior clássico da carreira do grupo (e um dos maiores do período conhecido como BRock, além de ser o primeiro clipe do trio), e a versão para "Tomorrow Never Knows", dos Beatles, ainda hoje a melhor cover para uma canção dos Fab Four que eu já tive o prazer de escutar. Se "Outono" (que já havia aparecido no primeiro EP) soa como uma bela representante do rock brasileiro de meados dos anos 1980, a face psicodélica do grupo é escancarada em "Declínio de Maio", "Faces" (com melodia conduzida pelo violão), "Luz" (com uma melodia que lembra "Set The Controls For The Heart Of The Sun", do Pink Floyd) e na instrumental "Sombras Flutuantes". "Noturno Deserto" completa o track list original, e apresenta algumas percussões no começo (que chegam a lembrar o disco Larks' Tongues In Aspic, do King Crimson), algo que seria utilizado de maneira mais ampla no disco seguinte. Em 2008, foi lançada uma versão remasterizada em formato mini-vinil que acresceu quatro faixas bônus gravadas em 1987, sendo três instrumentais e um cover para "2000 Light Years From Home", dos Rolling Stones. Já em 1988, foi lançado apenas em fita K7 o EP The Early Years, com quatro regravações de bandas que influenciaram o Violeta (Rolling Stones, Pink Floyd, Gong e Beatles), sendo que o mesmo seria relançado em CD no ano de 2000 (com o acréscimo de um medley de "Echoes", do Pink Floyd, e "No Quarter", do Led Zeppelin), e ganharia ainda uma terceira versão em 2004, chamada Early Years Complete, com um total de quatorze faixas.

Em Toda Parte [1989] 

No seu segundo registro, o Violeta investiu em uma sonoridade um pouco mais "étnica", caracterizada pelo uso de percussão (por vezes eletrônica) em boa parte das faixas, a qual em certos casos soa muito bem (como na viajante "Outra Manhã", um dos destaques do track list), mas em outras se faz desnecessária dentro do arranjo das faixas (como é o caso da interessante "Vênus" ou da floydiana "Ilhas", que ficaria bem melhor sem este recurso, como se ouve nas versões ao vivo). Apesar de não ser um dos meus discos favoritos, posso citar como destaques, além da citada "Outra Manhã", a acústica "Terra Distante", com interessantes partes de teclado no seu arranjo, a instrumental "Dança" (bem calma, levada por violão e piano), a viajante "Lunática" e as duas faixas iniciais, "Rinoceronte Na Montanha De Geléia" e "Em Toda Parte", que na verdade fazem parte de uma mesma jam, lançada na íntegra na reedição do EP de estreia. Completa o track list da versão em vinil a psicodélica "Aqui & Agora" (meio repetitiva), sendo que a versão remasterizada em CD (também lançada em formato mini-vinil em 2008) ganhou ainda duas faixas bônus.

A formação original: Angelo Pastorello, Claudio Souza e Fábio Golfetti

Mulher Na Montanha [1999]

Devido à pouca repercussão de Em Toda Parte e ao fim do selo Plug da RCA, o trio acabou trilhando caminhos diferentes, com Fábio editando um flexi disc sob o nome de Opera Invisível (com a faixa "Numa Pessoa Só", um dos bônus da reedição em CD do segundo registro), e montando depois o Invisible Opera of Tibet, grupo ao qual se dedica até hoje. Em 1995, a formação original se reúne para ensaios visando a gravação de um novo álbum, mas acabou vendo apenas o lançamento do disco ao vivo Eclipse, com gravações do show de lançamento do primeiro EP da banda em 1986, ocorrido no teatro do SESC Pompéia em São Paulo, além de trazer as quatro faixas da fita K7 The Early Years como bônus. Finalmente, em 1999, é lançado Mulher na Montanha, composto de gravações inéditas que foram registradas durante aqueles ensaios de 1995. Mais voltado à sonoridade do primeiro disco, suas três faixas iniciais (a título, que é o maior destaque deste CD, "Lírio de Vidro", mais calma, e "Outro Lado", cuja melodia lembra a de "Em Toda Parte") foram gravadas para compor um single que nunca foi editado. "Trópico" e "Reflexos da Noite" já haviam aparecido no primeiro EP, e a interessante versão para "Astronomy Dominé", do Pink Floyd, serve para reforçar a influência dos ingleses na sonoridade do Violeta, algo que também se pode confirmar em "Espelhos Planos", que parece saída do primeiro LP do grupo de Syd Barrett. Esta e as demais oito canções que compõem o álbum foram registradas durante ensaios para o registro de uma demo tape, que acabou se tornando o novo disco do grupo, lançado pela gravadora inglesa Voiceprint. Dentre faixas mais agitadas (como "Total Silêncio", que possui trechos com o uso de cítara em seu arranjo, ou "Lágrimas Do Dragão", toda em clima de jam session, e um dos destaques), temos composições que parecem saídas do primeiro disco (como "Creme Gelado, Desculpe", que repete a letra de "Vênus", do disco anterior, porém com um arranjo bem diferente, dando ênfase ao baixo, e "Sonho", no estilo tradicional do grupo) e outras mais viajantes, como a instrumental "Duna" (que se une a "Flutuando", quase como se fossem uma única canção) e uma regravação para "Terra Distante", com trechos onde a cítara se destaca, e partes levadas pelo violão, instrumento que comanda a variada "Ilusão", que completa o track list deste que é um dos meus álbuns favoritos do grupo. No ano seguinte, sairia Live at Rio ArtRock Festival '97, com a íntegra do show do Violeta De Outono no Rio ArtRock Festival de 1997, que teve a participação especial do tecladista Fabio Ribeiro (Blezqui Zatzaz, Angra, Shaman).

Ilhas [2005] 

Gravado durante 2002 a 2004, este é o único disco a ter Gregor Izidro na bateria, além de contar novamente com o tecladista Fábio Ribeiro, que tem bastante destaque em todas as composições. Embora as viagens psicodélicas ainda estejam presentes (vide a parte instrumental de "Eclipse" ou a regravação de "Dança", que já havia aparecido no segundo disco, mas aqui ganha toques orientais dados pela cítara e a viola), esta presença mais forte das teclas levou a sonoridade do grupo para um lado mais progressivo, como se ouve na calma "Estrelas" e na instrumental "Línguas De Gato Em Gelatina" (e vai me dizer que esse nome não é herdeiro direto de Larks' Tongues In Aspic, do King Crimson?), onde, apesar das interessantes linhas de teclado, é a guitarra de Fábio Golfetti quem comanda a melodia. Como a reforçar este lado prog, "Blues" é quase uma cover de "Money", do Pink Floyd (compare as linhas de baixo e bateria), com um toque de "One Of These Days", também dos ingleses, e onde a letra é a mesma de "Numa Pessoa Só", que saiu na reedição do segundo disco (e de partes de "Lírio de Vidro", do álbum anterior). Se "Ecos", "Cartas" e "Transe" parecem saídas do primeiro LP, a instrumental "Supernova" retoma as experiências com percussão do segundo registro (embora aqui as mesmas não sejam eletrônicas, e estejam a cargo do percussionista convidado João Parahyba, que já passou pelo Trio Mocotó e possui uma respeitada carreira solo), enquanto "Azul" e "Mahavishnu" são baladas com toques setentistas, sendo que a segunda apresenta boas linhas de violão e momentos de muita viagem progressiva através dos teclados de Fábio Ribeiro, além de uma citação à letra de "Thank You", do Led Zeppelin, em seu trecho final. "Júpiter" é outra balada, porém mais viajante, e a sessentista e (também) viajante "Moon Princess" (com a participação especial da vocalista Naide Patapas) encerra o track list, retomando a melodia de "Lunática", que também encerra o segundo LP. Ilhas é considerado um disco de transição do lado psicodélico para o lado progressivo que apareceria com força a partir do próximo registro de estúdio, mas eu o considero bem equilibrado entre os dois "mundos" por onde o Violeta sempre navegou. Em 2006, já com Cláudio Souza de volta à bateria, saiu o DVD Violeta de Outono & Orquestra, gravado ao vivo no Teatro do SESI, de São Paulo, em Novembro de 2004, e que traz o trio acompanhado de uma orquestra de câmara de 20 integrantes, uma seção de cordas (violinos, viola, violoncelo e contrabaixo) e metais (trompete, trompa e trombone), além de um set de percussão, em um resultado interessantíssimo, que vale a pena ser conferido.

O grupo tocando com orquestra em 2004, em show registrado em DVD

Volume 7 [2007]

Com a entrada dos novos integrantes Fernando Cardoso (teclados) e Gabriel Costa (baixo, em substituição a Angelo Pastorello), neste álbum (que viria a ser o último registro com o baterista Claudio Souza) o Violeta pendeu de vez para uma sonoridade mais progressiva (vide a faixa de abertura, "Além do Sol", onde, apesar do belo solo de Golfetti, o destaque é total para o Hammond de Fernando), embora não tenha abandonado totalmente o psicodelismo, como se nota em "Em Cada Instante" (cuja segunda parte parece saída diretamente do verão do amor californiano, além de trazer trechos que emulam os Beatles no início e no final) ou na quase totalmente instrumental "Pequenos Seres Errantes" (com teclados que remetem diretamente ao Pink Floyd da fase Meddle). A sessentista "Broken Legs" tem letra em inglês, assim como a linda balada "Eyes Like Butterflies", que já havia aparecido no DVD anterior, mas cuja presença de Fernando nesta versão de estúdio só fez engrandecer a música. Outras canções mais calmas são "Ponto de Transição" (levada pelo piano) e "Caravana", sendo que a longa faixa de encerramento, "Fronteira", tem uma espécie de jazz prog no início onde todos se destacam, tornando-se depois uma excelente e variada faixa progressiva. Um belo registro, que foi melhor detalhado neste texto publicado no site Consultoria do Rock, e que possui uma sonoridade familiar aos fãs, embora diferente dos anteriores, além de ter chamado a atenção de muitos que nunca tinham dedicado seu tempo e seus ouvidos ao grupo. Na sequência, foram lançados dois DVDs: Seventh Brings Return - A Tribute to Syd Barrett (de 2009, mas gravado em 2006), onde o Violeta escancara sua influência de Pink Floyd e de Barrett, tocando treze músicas da fase em que este liderava o conjunto britânico (mais uma de sua carreira solo); e Theatro Municipal, São Paulo, 3 de maio de 2009 (2011), com show registrado conforme o título, onde o quarteto interpretou o primeiro disco na íntegra, além de outras músicas gravadas em meados dos anos 80, e que saíram no primeiro EP do grupo (DVD este que, infelizmente, tem alguns problemas técnicos na imagem durante as primeiras músicas, o que atrapalha um pouco àqueles mais exigentes numa era onde tudo tem de ser em "alta definição" - como se nunca tivessem assistido às velhas fitas VHS em suas vidas).

Espectro [2012] 

Marcando a estreia de José Luiz Dinóla na bateria (em substituição a Fred Barley, que entrou após a saída de Claudio, e não chegou a deixar nenhum registro oficial) ao lado de Fábio, Fernando e Gabriel, Espectro pode ser considerado a sequência natural do disco anterior, mantendo a atmosfera progressiva daquele registro, como atestam a faixa de abertura, "Formas-Pensamento" (uma das mais longas composições já registradas pelo Violeta, e que reaparece no final em uma versão demo intitulada "News from Heaven"), "Montanhas da Mente" (que possui uma marcante mudança de andamento no meio), "Algum Lugar" e a longa "Ondas Leves" (com uma parte mais acelerada ao final e uma alternância de solos entre o Hammond de Fernando e a guitarra de Fábio). O lado psicodélico aparece na vinheta que dá título ao CD e na faixa "Anos-Luz", que também apresenta características de progressivo. "Claro Escuro" e "Solstício" possuem uma atmosfera que lembra o primeiro disco, quebrada um pouco pelo teclado, sendo que a bela balada "Dia Azul" completa o track list, em uma composição semelhante a outras do estilo presentes em discos anteriores. Até aqui o mais recente registro do quarteto, é, sem sombras de dúvidas, um dos melhores de sua carreira, e foi colocado por este que vos escreve dentre os dez melhores discos lançados em 2012 em votação aqui no site. Ainda não me arrependi de minha escolha!

Cartaz de show da época de Espectro, Na foto, Fred Barley, Fernando Cardoso, Fábio Golfetti e Gabriel Costa

O grupo segue firme e forte realizando apresentações pelo Brasil (principalmente na região sudeste), sendo que o líder Fábio Golfetti também mantém na ativa o Invisible Opera of Tibet, além de ser o guitarrista da formação atual do Gong, grupo que sempre lhe inspirou e que é liderado pelo mestre Daevid Allen. Que o Violeta de Outono continue a brilhar por muito tempo, e nos delicie com muitas outras sonoridades especiais como tem feito desde o seu início!

quinta-feira, 27 de março de 2014

New Model Army - Thunder and Consolation [1989]


Por Micael Machado


Formado na Inglaterra em 1980, na onda do pós-punk britânico da época, o New Model Army já tinha lançado três álbuns e composto seu próprio "hino" (a polêmica "51st State", que protesta contra a relação de dependência política da Inglaterra junto aos EUA) quando lançou Thunder And Consolation, em 1989. Mas este é o disco que trouxe o reconhecimento do grande público para o grupo, sendo até hoje o seu álbum mais bem sucedido nas paradas e em termos de vendas.

Produzido pelo grupo junto ao lendário Tom Dowd (Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, Cream, Derek and the Dominos e muitos outros), o som do então trio formado pelo líder Justin Sullivan nos vocais, guitarras e teclados, Robert Heaton na bateria (além de backing vocals e ocasionais guitarra e baixo), e Jason Harris no baixo (e teclados e guitarras, o qual sairia do NMA logo após a turnê de promoção) ganhou neste registro um toque mais folk e melódico, principalmente pela participação do violinista Ed Alleyne-Johnson, o que criou uma dimensão completamente nova para a música do grupo, afastando-a do estilo original da banda em direção a uma sonoridade mais ligada ao folk e ao som "pastoril" da Inglaterra.

Thunder And Consolation já começa bem, com a sombria e pesada "I Love the World", um dos destaques do track list e presença constante nos shows do grupo dali em diante. O mesmo caminho tomaria a faixa seguinte, "Stupid Questions", onde as raízes pós-punk do Novo Exército Modelo se fazem presentes, apesar da presença marcante do violão. "Vagabonds", com seu toque folk, e, principalmente, "Green and Grey" também se tornariam clássicos do NMA com o passar dos anos, sendo esta última, praticamente toda acústica ao longo de sua duração, a minha faixa preferida em toda a discografia dos ingleses. É nestas duas faixas (principalmente na primeira) que o violino de Ed aparece com mais destaque, tornando-as completamente diferentes do estilo dos primeiros registros da trupe, e apontando uma direção musical a ser seguida em futuros lançamentos.

O New Model Army em 1989: Jason Harris, Justin Sullivan e Robert Heaton

Se "225" e "Ballad of Bodmin Pill" são basicamente simples faixas pós-punk (apesar do belo refrão da primeira e de uma velocidade até certo ponto inesperada na segunda), a surpreendente "Inheritance" é quase um rap, sendo seu instrumental conduzido apenas por voz e bateria, com esparsas participações do teclado e letra discutindo um relacionamento familiar, assunto que também apareceria mais adiante em "Family" (que possui uma melodia de violino meio oriental lá pelo meio) e na acústica "Family Life" (levada apenas por voz e violão), ambas aparecendo em sequência no track list original do vinil.

Neste formato, a faixa de encerramento era a angustiada "Archway Towers" (outra que representa bem o lado pós-punk do grupo), mas, no lançamento original em cassete, havia uma faixa extra, "125 MPH", assim como a versão em CD original continha três faixas bônus, retiradas do EP New Model Army, de 1987. Em 2005, houve o lançamento de uma versão em CD duplo, onde no primeiro disco era re-estabelecida a ordem e quantidade de faixas do vinil original, e, no segundo, havia o acréscimo das faixas bônus das outras edições, bem como de outras retiradas de lados B, gravações ao vivo e versões de demos. 

Esta edição, já fora de catálogo, é muito procurada pelos fãs da banda, que a consideram, com razão, a "versão definitiva" de Thunder And Consolation, o álbum que eles apontam, quase unanimemente, como o melhor da discografia da banda, que seguiu lançando registros com certa regularidade (além de ver o líder Justin embarcar uma carreira solo paralela), porém sem nunca conseguir superar o brilho de seu quarto álbum, até hoje o ponto máximo de sua trajetória!

Contracapa da versão original em vinil

"And tomorrow brings another train, another young brave steals away"

Track List (segundo a versão original em vinil):

1. "I Love the World"
2. "Stupid Questions"
3. "225"
4. "Inheritance"
5. "Green and Grey"
6. "Ballad of Bodmin Pill"
7. "Family"
8. "Family Life"
9. "Vagabonds"
10. "Archway Towers"

sábado, 22 de março de 2014

Raimundos - Cantigas de Roda [2014]


Por Micael Machado


Neste 2014 se completarão treze anos desde que o vocalista Rodolfo Abrantes deixou o grupo brasiliense Raimundos. De lá para cá, o quarteto lançou um disco que era pouco mais que um amontoado de covers dos Ramones gravados com a participação do ex-baterista do grupo, Marky Ramone (Éramos Quatro, de 2001), um disco de inéditas que não teve tanta repercussão quanto os anteriores (Kavookavala, de 2002), um EP virtual que rendeu menos ainda (Pt Qq cOisAh, de 2005), um CD e DVD ao vivo que mostrava o quanto a ausência do ex-vocalista ainda era sentida (Roda Viva, de 2011) e um split ao lado do Ultraje A Rigor, onde o grupo de Brasília interpretava músicas registradas originalmente pelos paulistas, e vice-versa (Ultraje a Rigor X Raimundos, de 2012). O guitarrista Digão assumiu também os vocais, Marquinho (ex-Peter Perfeito, agora atendendo por Marquim) chegou para dar uma força nas guitarras, o baixista Canisso saiu e voltou, o baterista Fred foi embora de vez, sendo substituído pelo ex-Dr. Madeira Caio, e o grupo, bem ou mal, nunca deixou de fazer shows e lotar os locais por onde passou, apesar das reclamações das "viúvas" de Rodolfo (como eu, admito), que pareciam não aceitar que o grupo continuasse sem seu carismático cantor.

Em 2013, o grupo foi inovador ao lançar pela internet um crowd funding (projeto de arrecadação de fundos através da rede mundial) para a gravação de um novo disco em Los Angeles, nos Estados Unidos, com produção de Billy Graziadei, líder do grupo nova-iorquino Biohazard. Pelo projeto, apenas aqueles que colaborassem financeiramente antes da gravação do álbum teriam direito ao mesmo, sendo oferecidas várias opções de participação, com "recompensas" diferentes de acordo com o valor investido. Quase cinquenta dias antes do prazo final estimado, o quarteto já havia arrecadado o valor necessário para as gravações, e terminaria o dead line com mais que o dobro do valor estipulado!

O baixista Canisso em cena do vídeo de anúncio do crowd funding 

Com a grana no bolso, os brasilienses se mandaram para Los Angeles (não sem antes terem de conviver com um problema na liberação para o visto de entrada nos EUA de Canisso, o que atrasou o início dos trabalhos), e, no dia cinco de fevereiro deste ano, os colaboradores finalmente receberam um link para download antecipado do aguardado oitavo disco de estúdio dos Raimundos, intitulado Cantigas de Roda. Apesar do e-mail enviado deixar claro um pedido de não compartilhamento do álbum com aqueles que não participaram do crowd funding (está lá: "... este álbum é de vocês por direito, vocês que o financiaram. Então, pedimos que não disponibilizem o álbum para terceiros..."), no dia seguinte já era possível baixar o mesmo em diversos sites da internet, e, na data de 21 de fevereiro, já era possível encontrar na rede vídeos para cada uma das canções do álbum, aparentemente feitos com a participação de pessoas que contribuíram com o processo de arrecadação de fundos para o disco.

E, pelo que se ouve neste novo registro, a choradeira daqueles que ainda sentem falta de Rodolfo Abrantes tem tudo para acabar. Cantigas de Roda é um discaço, recuperando plenamente a tradição e o estilo que o grupo ostentava na época de seu ex-vocalista, e, apesar de não trazer muita coisa de novo ao universo musical do quarteto (quase todas as canções lembram algo já feito pelos brasilienses, e não serei eu quem vai deixar de apontar estas semelhanças aqui), mostra em pouco mais de trinta e sete minutos que os Raimundos ainda têm força e qualidade para honrar o posto de uma das melhores bandas surgidas no Brasil durante a década de 1990!

Canisso, Digão, Marquim e Caio

O hardcore rápido e pesado de "Cachorrinha" (com sua letra quase escatológica, e participação de Frango, vocalista do grupo brasiliense Galinha Preta) abre os trabalhos mostrando que o pessoal não está nada a fim de minimizar a porradaria de suas composições, algo que também fica claro em "Rafael" (com um refrão um pouco mais cadenciado, e que me lembra "Nêga Jurema", do disco de estreia do grupo), "Descendo na Banguela" (um pouco menos veloz) e "Nó Suíno" (uma das mais "pegadas"). "Importada do Interior" já tem uma pegada mais metal, mesmo com o refrão bem acessível, e "Baculejo" é um poppy punk típico da banda, meio na linha de "Mato Véio" (do disco Só no Forévis), porém sem tanta velocidade.

Pesada e mais lenta, "BOP" lembra "Andar na Pedra" (de Lapadas do Povo), e tem em seu refrão algo que parece uma declaração de intenções de Digão e sua turma: "Enquanto os doido pedir, vamos continuar", peso este que também aparece em "Politics", que já havia sido disponibilizada nas redes sociais e na rádio 89FM a oito de junho do ano passado, e que, na versão do novo disco, ganha participação especial do rapper Marcio Cipriano e do próprio produtor Billy Graziadei. Já "Gato da Rosinha" é uma típica composição do sanfoneiro Zenilton, lembrando assim o disco de estreia do quarteto (que possui algumas músicas escritas por ele, assim como o segundo álbum, Lavô Tá Novo), e tendo o formato de um forró-core pegado (com direito até à volta do triângulo no meio da porradaria do grupo!), com a esperada letra de duplo sentido das composições do nordestino.

Com cara de hit, "Cera Quente" vem naquela linha de "A Mais Pedida" (também de Só no Forévis), sendo capaz de agradar aos roqueiros menos "radicais" que sejam fãs do grupo, além de muitas das meninas que gostam de suas músicas mais "calmas", e de refrões fáceis como o desta faixa (que gruda nos ouvidos logo nas primeiras audições), além de sua letra sacana parecer ser dedicada especialmente para as fãs dos brasilienses. Já "Dubmundos" (com participação de Sen Dog, do Cypress Hill, nos vocais, e Stu Ranier, do Urban Classics, no baixo) e "Gordelícia" (que lembra "Opa! Peraí, Caceta", de Lavô Tá Novo) adotam o estilo ska, que já havia aparecido em outras composições dos brasilienses, sendo que ambas têm participação especial nos metais de Ulises Bella (do Ozomatli) e de Sheffer Bruton. 

Digão e Sen Dog, que participa de Cantigas de Roda

Cabe citar que, no momento em que escrevo estas linhas, as mídias físicas de Cantigas de Roda (seja em CD ou em vinil) ainda não foram enviadas a quem participou do projeto de arrecadação de fundos, sendo a previsão de entrega para o longo deste primeiro semestre de 2014, e permanece a ideia de não disponibilizar o mesmo para venda a quem não contribuiu com as gravações (algo que eu, honestamente, duvido muito que ocorra). Para os que nunca curtiram muito os Raimundos, ou para aqueles que não desistem de chorar pela ausência de Rodolfo, este pode ser considerado um disco "mais do mesmo", mas, para mim, como fã e apoiador do projeto de crowd funding, é a comprovação de que o quarteto de Brasília ainda tem relevância e importância no atual cenário do rock nacional, tão ameaçado por bandinhas insignificantes que não têm competência para sequer segurar os instrumentos destes veteranos. Que Digão e seus comparsas continuem por muito tempo na estrada, e, se possível, nos brindando mais seguidamente com álbuns tão bons quanto este daqui!

"De altos e baixos, tem mal que vem para uma evolução... seguindo firme nessa roda até os dedo queimar"

Track List:

1. "Cachorrinha"
2. "BOP"
3. "Baculejo"
4. "Gato da Rosinha"
5. "Cera Quente"
6. "Rafael"
7. "Descendo na Banguela"
8. "Dubmundos"
9. "Nó Suíno"
10. "Importada do Interior"
11. "Gordelícia"
12. "Politics" 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Melhores de 2013: por Micael Machado


Por Micael Machado

Em termos de lançamentos, o ano de 2013 foi o melhor da década até aqui, pelo menos na minha opinião. Se em outros anos era difícil selecionar os discos para compor a lista final, seja pela quantidade ou qualidade dos álbuns colocados no mercado, desta vez foi bastante complicado escolher apenas dez, visto o grande número de releases atraentes ao longo deste 2013. Isto que, é óbvio, eu nem consegui ouvir TODOS os lançamentos, já que a quantidade de discos colocados no mercado a cada mês é imensa, apesar da alegada morte da indústria musical, o que certamente fará com que ao longo de 2014 eu venha a descobrir outras pérolas que deveriam estar listadas aqui. De qualquer forma, após muita análise e uma "peneira" das boas, acabaram restando na minha listagem os seguintes discos:


Álbuns do ano

Black Sabbath - 13

O novo álbum de estúdio do quarteto de Birmingham já mereceria lugar de destaque nesta lista apenas pelo fato de existir, e pela importância que ele tem para o heavy metal e para a música pesada de todos os estilos! Mas o desgraçado ainda é bom pacas! Parecendo uma coleção de sobras dos anos 1970 (nitidamente os mais gloriosos da banda), trouxe em suas faixas exatamente aquilo que nós, fãs, queríamos ouvir, e até um pouco mais. Até Ozzy está cantando bem nas faixas do disco, provando mais uma vez que, a despeito da qualidade dos vários nomes que passaram pelo microfone do Sabbath, é dele a voz ideal para este quarteto "maldito"! E os caras ainda vieram ao Brasil e fizeram um show matador em Porto Alegre, realizando um sonho de muita gente por aqui! Não tem como, este foi o ano do Sabbath! Merecidamente!


Alice in Chains - The Devil Put Dinosaurs Here

Minhas opiniões sobre este discos já foram descritas aqui, mas posso resumi-las assim: a continuidade da carreira do AIC é dada com um álbum fantástico, que traz poucas novidades, e reafirma o estilo musical do grupo, em faixas que, com certeza, agradarão aos fãs de longa data, além de ter potencial para angariar novos ouvintes. Outro grupo que passou pela capital gaúcha para uma apresentação marcante, que mostrou que o quarteto de Seattle ainda tem gás para muitos anos de carreira pela frente. Se for para continuar lançando discos tão bons quanto este, que não parem tão cedo!


Spiritual Beggars - Earth Blues

O disco anterior do quinteto sueco, Return To Zero, trouxe a estreia do vocalista grego Apollo Papathanasio, e chamou a atenção de muita gente que até ali nunca tinha ouvido o stoner rock de responsa praticado pelo grupo desde 1994. Curiosamente, foi o álbum onde a banda mais se afastou de seu estilo tradicional, indo ao encontro de um rock clássico aos moldes setentistas de um Rainbow ou um Uriah Heep. Estas características se mantiveram neste Earth Blues, embora a psicodelia que sempre acompanhou a sonoridade dos vagabundos apareça novamente com destaque ao longo das faixas. Difícil destacar alguma canção dentre tantas faixas de qualidade, mas recomendo a audição de "Wise as a Serpent", "Turn the Tide" ou "Kingmaker" para se ter uma ideia da força deste belo álbum, cuja versão especial ainda traz de bônus o disco gravado ao vivo no Loud Park japonês no ano de 2010, e que antes só havia saído no mercado daquele país, com Apollo provando que tem sim competência para encarar os antigos clássicos da discografia do quinteto. Ou seja, duas vezes melhor!

Carcass - Surgical Steel

Outro retorno muito aguardado pelos fãs de rock pesado, e novamente protagonizado por um grupo inglês! Dezessete anos depois do controverso Swansong, Bill Steer e Jeff Walker se uniram em estúdio para dar continuidade à carreira deste monstro do death metal, sem a presença do guitarrista Michael Amott (líder do grupo aí de cima) e do baterista Daniel Erlandsson, que completavam a formação durante a turnê de reunião há alguns anos, mas trazendo o excelente Dan Wilding espancando pratos e peles com vigor e precisão. Da abertura com a vinheta de "1985" até as últimas notas de "Mount of Execution", que encerra a versão regular do disco, temos a confirmação de que o Carcass é extremamente relevante para o mundo do rock pesado, em um lançamento de tanta qualidade quanto o aclamado Heartwork, e que torna o quarteto de Liverpool como um dos maiores nomes do heavy metal atual! Merecidamente, diga-se de passagem!


Ghost - Infestissuman

Outro disco sobre o qual já tratei aqui no site, e que, apesar de não ser tão impactante quanto a estreia dos suecos, trouxe mais faixas de qualidade para o deleite de nossos ouvidos. Agregando novas influências à sua sonoridade setentista (como a surf music e a psicodelia), o sexteto mascarado acertou no alvo mais uma vez, e se manteve em alta no mundo do heavy metal atual. Chegou até a tocar no Brasil, em shows abrindo para Slayer e Iron Maiden, e até no Rock In Rio, onde alguns babacas parecem não ter entendido a proposta do grupo, vaiando sua excelente apresentação e ignorando a força de suas composições. Não faça você o mesmo, e dê uma chance a este grupo que se destaca por fazer extremamente bem feito algo que não chega a ser novidade, mas que agradará aos ouvidos de todos aqueles que lhe der oportunidade!


Deep Purple - Now What?!

Mais um grupo inglês que retornou aos estúdios neste ano, de forma até inesperada, pois os integrantes do Púrpura Profundo deram várias declarações de que um novo álbum nestes moldes não estava nos seus planos. Pois Now What?! veio mostrar que os velhinhos ainda têm muita lenha para queimar, para alegria de seus muitos fãs e desespero de seus detratores! Como pude escrever aqui, este é um registro que fica longe da qualidade dos clássicos dos anos setenta, mas que se deixa ouvir sem nenhum problema maior, sendo um dos melhores lançamentos depois da entrada do guitarrista Steve Morse no grupo, e aquele onde o tecladista Don Airey finalmente parece ter encontrado seu lugar na banda, sendo ele o maior destaque ao longo do track list deste álbum. Um retorno digno, que merece ser ouvido sem preconceitos, pois poderá agradar tanto a antigos quanto a novos fãs do jurássico quinteto!


Dream Theater - Dream Theater

Para desespero das viúvas de Mike Portnoy, o Dream Theater continua sua carreira, lançando seu décimo segundo álbum de estúdio, o segundo com o baterista Mike Mangini. Também pude escrever sobre este registro aqui no site, e, embora prefira o lançamento anterior, chamado A Dramatic Turn of Events, este disco dá continuidade à carreira do DT de forma basante digna. Concordo com aqueles que dizem que este lançamento auto-intitulado lembra o período dos álbuns Six Degrees of Inner Turbulence e Train of Thought, especialmente pelo sentimento mais "sombrio" de algumas passagens. O que não é demérito algum, e não impede que este seja mais um álbum de audição recomendadíssima não apenas aos fãs do quinteto. Confira!

Pearl Jam - Lightining Bolt

Sou muito fã do quinteto de Seattle, mas reconheço que o grupo vem devendo um grande álbum de estúdio há tempos. Lightining Bolt ainda não é o lançamento que superará os discos iniciais do grupo, mas deixa clara a sua qualidade logo após as primeiras audições. Aquele que seria o "lado A" da versão em vinil, em especial, está dentre os melhores já lançados pelo Pearl Jam, com faixas de destaque como a título, "Mind Your Manners", "Sirens" ou "Getaway" provando que o ícone do grunge continua relevante, e produzindo música da mais alta qualidade. O "lado B" é mais experimental e calmo (trazendo até algumas surpreendentes influências do folk e da country music norte-americana), causando uma "caída" no resultado final, mas que não é suficiente para desmerecer a qualidade do disco. Que voltem logo ao país, para mais apresentações tão marcantes quanto as muitas que já realizaram por aqui!


Sepultura - The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart

Cada disco lançado pelo Sepultura ultimamente é tratado pela imprensa especializada como "o melhor desde Roots", algo totalmente desnecessário e que causa a impressão de uma constante comparação da "banda de Derrick" com a "banda de Max", sendo que o vocalista norte-americano já tem uma longa discografia ao lado dos brasileiros. Este álbum de título quilométrico (e capa ridícula), baseado no filme "Metropolis", de 1927, me soou inferior ao anterior, Kairos, mas é um dos melhores registros do grupo ao lado do vocalista norte-americano. Ainda necessito de mais algumas audições para indicar os destaques maiores do track list, mas a qualidade das composições (que se voltam, em sua maioria, ao passado do grupo, ao invés de experimentalismos como em alguns dos registros mais recentes) já me faz colocá-lo nesta lista. E com sobras!

Soulfly - Savages

Mais uma banda que aportou por Porto Alegre para uma apresentação marcante, e que eu não tinha esperanças de ver ao vivo tão cedo. No show da capital gaúcha foi apresentada "Bloodshed", faixa que abre este belo registro, que dá continuidade à carreira de Max Cavalera trazendo um pouco daquela sensação de "mais do mesmo", por não fugir muito do estilo dos registros mais recentes do grupo. Mesmo assim, a qualidade de suas composições é suficiente para colocá-lo nesta lista, e indicar sua audição a todos os leitores! Longa vida a Max Cavalera, e que ele siga lançando discos tão bons quanto estes que vem nos apresentando!

Outros destaques que merecem audição (em ordem alfabética):

- Andrew Stockdale (ex-wolfmother) - Keep Moving
- Iggy And The Stooges - Ready To Die
- Monster Magnet - Last Patrol;
- Mutantes - Fool Metal Jack
- New Model Army - Between Dog And Wolf
- Renaissance - Grandine Il Vento
- Tarja - Coulours In The Dark




Melhor notícia: O grande número de discos lançados no país

Como citei lá no começo, fazia tempos que eu não via tantos discos bons serem lançados no mesmo ano, com muitas bandas novas se destacando e outras consagradas voltando do limbo para nos presentear com novas composições. Se a indústria musical está morrendo, parece que esqueceram de avisar às bandas e fãs do bom e velho rock and roll, pois os lançamentos do estilo vieram em grande número ao longo do ano, muitos deles com grande qualidade. Assim como merece destaque o número de shows no país, que se manteve elevado (como no ano passado), provando que o Brasil está definitivamente incluído na rota das grandes bandas. Pena que nem todas aportaram em Porto Alegre (vide The Cure, Slayer, Iron Maiden, Ghost e tantos outros), mas a simples vinda deles ao país já é um alento! Que continue assim!


Pior notícia: A grande quantidade de ídolos que se foram!

Alvin Lee, Chorão, Clive Burr, Trevor Bolder, Jeff Hanneman, Ray Manzarek, JJ Cale, Champignon e Lou Reed são apenas alguns dos nossos ídolos que partiram este ano para se juntar aos grupos que executam suas canções nos palcos celestiais. Eu sei que todos iremos embora um dia, mas é sempre triste se despedir de um ídolo, e o vazio que ele deixa dificilmente é preenchido! Que fiquem todos em paz, e que os conjuntos formados lá "nas alturas" parem de recrutar tantos talentos assim por um tempo!

Este ano, não saberia indicar uma surpresa e uma decepção. O novo disco do Deep Purple talvez tenha sido algo bastante inesperado para mim, mas não posso considerá-lo "a surpresa". E o disco Cavalo, lançado por Rodrigo Amarante, seria a minha indicação para "decepção", mas repetidas audições do mesmo me fizeram mudar de ideia, visto que é preciso se acostumar com o estilo adotado pelo músico ao longo de suas faixas, diferente do que se esperaria a princípio, mas nem por isso tão "ruim" quanto eu achei após escutá-lo poucas vezes. Deixo a vocês o julgamento final, mas não chego a considerá-lo a maior decepção de 2013!



De resto, um bom 2014 a todos nós, e que sigamos juntos em nossa trajetória musical! Afinal, it's only rock and roll, but I like it!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Review Exclusivo: Planet Hemp (Porto Alegre, 04 e 05 de dezembro de 2013)


Por Micael Machado

O que era para ser apenas uma apresentação no circo voador (RJ) em 2012 virou uma excursão de onze datas aumentada para mais de vinte, ampliada pouco tempo depois, e que ainda parece longe de acabar. Desta forma, a "turnê de reunião" do Planet Hemp voltou a Porto Alegre pouco mais de um ano depois da lendária passagem pelo Pepsi on Stage naquele mesmo ano, para duas noites em celebração aos trinta anos do Bar Opinião, uma das casas de espetáculo mais importantes da capital gaúcha, as quais serviram como pré-lançamento da tour do DVD O Ritmo e a Raiva, gravado na cidade de  São Paulo em julho deste 2013, e com previsão de lançamento para abril de 2014. Apesar do repertório similar ao que conferimos ano passado, estes shows, a meu ver, foram bem diferentes daqueles.

A começar pelo cenário, mais parecido com os que o Planet utilizava antes do seu recesso no início dos anos 2000, sem o telão que chamava a atenção nos primeiros shows da excursão, mas com as cadeiras de praia de volta ao centro do palco (sendo que as mesmas foram bastante utilizadas pelo cantor Marcelo D2 nas duas noites, especialmente na metade final do show, onde elas serviam para o vocalista recuperar o fôlego, que pareceu ficar por um fio diversas vezes). Outra mudança importante foi a ausência do guitarrista Rafael, que, segundo BNegão (o outro cantor da banda), não teve condições de embarcar para Porto Alegre a tempo de fazer os shows, e acabou substituído pelo gaúcho Jackson, que já havia tocado anteriormente com os cariocas, e que, apesar do pouco tempo que teve para reaprender o repertório (pouco mais de vinte e quatro horas, ainda segundo Bê), deu conta do recado com sobras.


Visão do Opinião lotado na primeira noite, em foto retirada da página do facebook do grupo

Sem os vídeos de introdução apresentados nos primeiros shows, as duas apresentações iniciaram com o playback da canção "Erva Proibida", registrada pelo falecido sambista Bezerra da Silva, a qual serviu de intro para a primeira parte de "Não Compre Plante", seguida como de costume por "Legalize Já", que colocou o público em ebulição logo aos primeiros acordes. Com a formação completada pelo baixista Formigão e o baterista (também gaúcho) Pedrinho, o show continuou com "Dig Dig Dig (Hempa)", "Planet Hemp" e "Fazendo a Cabeça", seguindo uma sequência similar à do espetáculo de 2012, mas com o grupo parecendo mais solto no palco, especialmente na primeira noite, onde o clima geral parecia de uma grande jam session no palco.

Algo que ficou mais evidente quando D2 enalteceu a ligação do grupo com Porto Alegre, com o Opinião e com a cena musical da cidade, especialmente com o conjunto Defalla, segundo ele, uma das maiores influências do Planet. Era a senha para chamar ao palco o vocalista Edu K, cantor desta verdadeira lenda do rock gaúcho, que, junto ao quinteto, interpretou a sua "Repelente" com muita garra, a qual seguiu por improvisos e citações a clássicos do rap e do funk norte-americano, antes de acabar com Edu abraçando a todos no palco. O vocalista ainda continuou em cena para fazer os backing vocals de "Queimando Tudo", a qual, na primeira noite, também contou com a presença de Tonho Crocco (vocalista da Ultramen, outra banda importantíssima do rock gaúcho dos anos 1990, e também parceiros do grupo carioca) nos vocais.


Planet Hemp no palco do Opinião, na segunda noite de apresentações

"Quem Tem Seda" deu uma acalmada no pessoal, mas o bicho voltou a pegar com a "sessão hardcore" de "Seus Amigos". Na segunda noite, logo no início desta, D2 (que por algumas vezes reclamava de cansaço antes de cada música mais agitada, sem nenhuma conotação de brincadeira) pulou de forma espetacular no meio do público, demorando alguns minutos para voltar ao palco. Quem é que estava cansado então, hein? Este estilo mais "pegado" ainda seria representado por "100% Hardcore" e "Procedência CD", sendo que esta, já mais ao final do set list, quase foi abortada por D2 devido ao cansaço, mas, ainda assim, foi apresentada com garra por todos, e ovacionada pelo público presente ao bar.

Ainda mantendo a estrutura do espetáculo divida em três "atos" (uma para cada disco de estúdio do grupo), "Ex-quadrilha da Fumaça" deu início à parte ligada ao disco A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, a qual trouxe ainda "Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga", "Stab" e "Contexto", esta última, especialmente, com seu refrão e boa parte da letra cantada em uníssono por quase todos os presentes, apesar da falha no playback da introdução durante a segunda apresentação. "Samba Makossa" serviu como homenagem a Chico Science e Chorão, na primeira noite, e a Nelson Mandela na segunda, ele que havia falecido poucas horas antes do espetáculo, com "Mantenha o Respeito" encerrando tudo, como sempre, com Marcelo D2 anunciando que "não tem bis não" e o grupo ameaçando se retirar de cena logo em seguida.

Apesar de haver um bis planejado, na primeira noite pareceu improvisado quando BNegão impediu a saída dos músicos do palco e os reuniu para tocar "mais uma para o pessoal, que eles merecem". Assim, houve espaço para a repetição de "Dig Dig Dig" (com uma parte mais "malemolente" no início), que, na segunda noite, ainda foi seguida por "A Culpa É de Quem?", a qual, segundo BNegão, "os maconheiros esqueceram de tocar" no dia anterior, e que finalmente encerrou uma sequência de duas datas que, se não foram tão impactantes quanto a apresentação de 2012 (até porque, aquela, vinha precedida por um hiato de mais de dez anos), certamente não verão reclamações por parte de quem esteve presente agora.


Final da segunda noite, em foto retirada da página do facebook do grupo

Para encerrar, gostaria de colocar que o jogo de luzes desta parte da excursão chamou bastante a minha atenção, criando climas e desenhos bastante interessantes, quase suprindo a ausência do telão da primeira parte da turnê; que é sempre um prazer assistir a Formigão no palco, um dos melhores em seu instrumento na sua geração, apesar de ficar quase o tempo todo paradão lá no fundo e do estilo discreto de tocar (como quase todo bom baixista, diga-se de passagem); que Pedrinho segura tudo lá atrás, tanto nas partes mais "porradas" quanto nas mais calmas, mantendo o ritmo da banda sempre "em cima"; que BNegão e D2, apesar deste reclamar constantemente do cansaço (e do forte calor da primeira noite, o qual, segundo o vocalista, "parece o de Fortaleza" - estava muito quente mesmo!), são dois grandes frontmen, chamando para si as atenções do espetáculo e tendo o público nas mãos o tempo todo, além de aparentarem que as antigas rusgas entre eles ficaram de vez no passado. Cabe citar, ainda, que Jackson, apesar de ter feito um trabalho "de responsa" e de ter assumido a bronca e dado conta do recado com sobras, como exaltado por BNegão (sendo o principal responsável pelo show acontecer, segundo o vocalista), tem um estilo de tocar totalmente diferente do de Rafael, pois este usa e abusa de seus pedais de efeitos para criar uma verdadeira usina de sons ao longo das canções e de seus solos, e Jackson tem um estilo mais "simples", utilizando principalmente a distorção e o wah-wah como principais efeitos. Isto alterou bastante a estrutura das canções, embora a maioria do pessoal pareça não ter dado muita atenção a este fato. Realmente, nenhuma canção ficou descaracterizada (talvez apenas o início de "Phunky Buddha", que a mim soou completamente diferente), mas, para quem já assistiu ao grupo com o verdadeiro dono da guitarra da banda por trás das seis cordas, a diferença foi perceptível. Nada que atrapalhasse a festa, no entanto, a qual parece que, contrário às primeiras expectativas, não irá acabar tão cedo. Será que ano que vem teremos "a banda mais maconheira do Brasil" de volta à terras gaúchas? Tomara que sim!

"Quem é que joga fumaça pro alto, chega na cena e toma de assalto?"


Set list das duas apresentações

Set list:

Primeiro ato: o usuário e a luta pela legalização da maconha

1. Não Compre Plante (Intro)
2. Legalize já   
3. Dig Dig Dig (Hempa)
4. Planet Hemp 
5. Fazendo a Cabeça
6. Deisdazseis
7. Phunky Buddha
8. Mary Jane
9. Futuro do País

Segundo ato: os cães ladram mas a caravana não para

10. Zerovinteum / Repelente
11. Queimando Tudo
12. Quem Tem Seda?
13. Seus Amigos
14. Hip Hop Rio
15. Adoled (The Ocean)
16. 100% Hardcore 

Terceiro ato: a invasão do sagaz homem fumaça

17. Ex-quadrilha da Fumaça
18. Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga
19. Stab
20. Contexto
21. Procedência C.D.
22. Samba Makossa
23. Mantenha o Respeito

Bis

24. Dig Dig Dig (Hempa)
25. A Culpa É de Quem? (apenas no dia 05/12)