sexta-feira, 11 de julho de 2014

Drain - Horror Wrestling [1996]


Por Micael Machado



No começo da década de 1990, o mundo da música foi invadido pelo grunge, estilo associado de forma até irresponsável a praticamente qualquer banda que surgisse no estado americano de Washington por aqueles dias, especialmente na capital Seattle a seus arredores. Grupos como Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains e Soundgarden foram alçados ao status de celebridades, e algumas características musicais (tais como andamentos mais lentos, climas melancólicos e riffs pesados, muitos baseados no trabalho do Black Sabbath no começo dos anos 1970) passaram a fazer parte do menu de muitas formações iniciantes. Uma destas seria o Drain, surgido em Estocolmo, na Suécia, no ano de 1993.

O grupo na verdade teve origem na união da guitarrista Flavia Canel e da baterista Martina Axén, que já tocavam juntas desde o começo da década de 1980 em bandas como o Livin' Sacrifice, uma das primeiras formações exclusivamente femininas do país. As duas ainda passariam pelo Aphrodite, onde juntariam forças com a baixista Anna K, mas, após a partida de sua vocalista à época, se viram livres para formar um novo time, montando primeiro o Ragdoll, e, depois, recrutando a guitarrista Maria Sjöholm (que assumiria os vocais da nova empreitada) e formando assim o Drain, que embarcou de cabeça na onda Grunge, assinando um contrato com a gravadora MVG Records em 1994 e lançando o EP Serve the Shame no ano seguinte. A boa repercussão da bolacha levou as meninas à gravação de seu primeiro full lenght, que veria a luz do dia em seu país natal em 1996, e faria o quarteto adotar a alcunha de Drain STH para os lançamentos nos Estados Unidos, devido a questões legais com o nome original (em algo parecido com o que ocorreu com os também suecos do Ghost).

Totalmente baseado no estilo originário de Seattle, Horror Wrestling começa com a pesada "I Don't Mind", que, sem chegar a ser rápida, é até moderna para a época, com riffs repetitivos (e quase ao estilo "pula-pula" que alguns grupos adotariam anos depois), efeitos nos vocais e um excelente refrão. "Crack the Liar's Smile", de começo acústico (chegando a lembrar as composições do Days of the New), possui um belo desempenho vocal de Maria, com um bom refrão (embora não tão marcante quanto outras canções do álbum) e um ritmo que parece adequado para tocar nas "rádios rock" da vida, o que a fez realmente a escolha ideal para primeiro single (o qual ainda possuía uma faixa exclusiva chamada "Without Eyes"), embora eu não a considere dentre as melhores faixas do track list

As meninas do Drain: Flavia Canel, Anna K, Maria Sjöholm e Martina Axén

Estas, para mim, são aquelas que mais trazem à memória o estilo do Alice In Chains, um dos pilares do movimento grunge, e que, ao que parece, foi forte fonte de influências para as suecas. Destas, o maior destaque vai para "Mind Over Body", faixa lenta, com uso constante de vocais dobrados, e que parece ter sido composta pelo próprio Jerry Cantrell (guitarrista do AIC). Arrastada e pesada, "Smile" também remete ao grupo de Seattle, assim como "Mirror's Eyes" (não tão lenta quanto outras composições), "Stench" (outra que chama a atenção, e que tem um pouquinho de velocidade em seu refrão, embora não chegue a ser rápida) e "Unreal", esta de começo sombrio e melodia arrastada.

"Unforgiving Hours", outra que utiliza o recurso do começo acústico, tem um jeitão de balada que é "atrapalhado" pelo clima depressivo da faixa. Já "Crucified" inicia com um riff técnico e quebrado, caindo depois em um peso e lentidão dignos de uma banda de doom metal (apesar de ganhar um pouquinho de velocidade no refrão, com a volta do riff inicial), além dos vocais utilizarem muitos efeitos, em algo que se diferencia do restante do track list, enquanto o riff inicial de "Serve the Shame" me lembra a faixa "Spoonman" do Soundgarden, sendo que depois a música muda para algo mais sombrio, adjetivo que serve muito bem para caracterizar boa parte do álbum, mostrando que as meninas, apesar de lindas e de excelentes instrumentistas, estavam longe de serem "faceiras".

O disco teve diversas versões diferentes, sendo que a edição europeia do mesmo ano lhe acresceu duas faixas bônus, a pesada "Someone", que apresenta um estilo de vocais um pouco diferente das anteriores, e outro refrão que remete ao Alice In Chains (especialmente pelos timbres da guitarra e pela maneira como os backing vocals foram utilizados), e "Klotera", de riff repetitivo e marcante, além de mais uma vez possuir o uso de vocais dobrados e velocidade moderada, características que novamente trazem o grupo de Cantrell à memória. Em 1998, foi lançada uma reedição que, além da capa diferente (em tons laranjas), de uma mudança na ordem das faixas, e de renomear erroneamente "Mirror's Eyes" para "Mirror's Smile", ainda trouxe uma versão acústica de "Serve the Shame" (que ficou bastante diferente da original, sendo que me arrisco a dizer que até melhor), a inédita "(So I Will Burn) Alone" (mais agitada que as outras, embora ainda sombria) e um quase irreconhecível cover para "Ace of Spades", do Motörhead, bem mais lenta que a original, e que, não fosse pela letra, poderia facilmente se passar por uma composição inédita das garotas.

Capa da reedição de 1998

Apesar do estilo não mudar tanto, a sonoridade entre as músicas é bastante diferente, com bastante variações de timbres de guitarra, estilos de vocais e andamentos. Mas, como a versão de 1998 tem quase sessenta e sete minutos, a audiência pode se tornar arrastada mais para o final, o que não me impede de indicar enfaticamente o disco aos fãs do grunge, especialmente os que apreciam os trabalhos do Alice In Chains. Quanto ao Drain, assim como o estilo de Seattle, o quarteto não resistiu ao peso dos holofotes, e, apesar de turnês ao lado de nomes como Type O Negative, Machine Head e Megadeth, e da boa repercussão de seu segundo registro (Freaks of Nature, de 1999, que chegou a ter uma faixa co-escrita por Tony Iommi, lendário riff master do Black Sabbath, com quem as meninas também excursionaram), acabaram por se separar em 2000, com Flavia, Martina e Anna seguindo em frente em diferentes projetos (na maioria das vezes separadamente), porém sem emplacar nenhuma nova tentativa no mundo musical. Já Maria Sjöholm tirou o que muitos acreditariam ser a "sorte grande", pois se casou com o já citado Tony Iommi em 2005, sendo que ambos já dividiam o mesmo teto desde 1999, e merecendo dele linhas muito elogiosas e apaixonadas nas páginas da biografia do guitarrista, intitulada "Iron Man: My Journey through Heaven and Hell with Black Sabbath". O casal vive (aparentemente) contente e feliz até hoje, e, sem haver possibilidades claras de reunião do quarteto para um novo capítulo, a música do Drain permanece viva apenas na lembrança dos fãs do conjunto. Dê uma chance às meninas, pois quem sabe você também não se torna um deles?

"I don't mind I don't care, I can't feel my soul down here..."

Track List (versão original):

1. "I Don't Mind"

2. "Smile"

3. "Serve the Shame"

4. "Mirror's Eyes"

5. "Crucified"

6. "Stench"

7. "Crack the Liar's Smile"

8. "Mind Over Body"

9. "Unforgiving Hours"

10. "Unreal"

Misfits - Dea.d. Alive! [2013]


Por Micael Machado


Qual o sentido de lançar um disco ao vivo hoje em dia? Ainda mais em versão simples, com apenas quarenta minutos, e sem um encarte atraente? Talvez seja somente arrancar alguns trocados a mais dos fãs através de um produto que possui um baixo custo de produção, ou apenas registrar um momento especial de uma banda. No caso de Dea.d. Alive!, mais recente live album do grupo norte-americano Misfits, a coisa fica ainda mais confusa, pois não consta no track list nenhuma canção "clássica" do conjunto, ou seja, uma daquelas registradas na época em que Glenn Danzig era o vocalista do quarteto, ao lado do único remanescente atual, o baixista Jerry Only (agora também vocalista), seu irmão Doyle Wolfgang von Frankenstein e qualquer um dos muitos que empunharam as baquetas durante os anos em que os outros três dividiram os palcos, sendo que, convenhamos, estas são as músicas que os seguidores do horror punk dos "desajustados" mais têm preferência por ouvir (o curioso é que, ao que consta, esta ausência se deu por opção de Only e sua turma, e não por algum impedimento legal ou contratual).

Registrado nas duas últimas noites de outubro de 2011 no país natal do agora trio (que conta, além de Jerry, com o lendário guitarrista Dez Cadena, ex-membro do Black Flag, e com o baterista Eric "Chupacabra" Arce, ex-Murphy's Law, e à época recém integrado à trupe) - não por acaso, 31 de outubro é o dia das bruxas, só para lembrar - o álbum é, mais do que tudo, um testemunho de que o grupo conseguiu, mesmo que a duras penas, sobreviver à ausência de seu mais carismático membro (alçando Only ao seu lugar, tanto que é seu nome que é gritado pelos fãs no início do CD, e não o da banda), além de servir como um tributo ao mais recente disco de estúdio, Devil's Rain, de 2011. Sete das quatorze faixas de Dea.d. Alive! são deste registro, e as demais provém dos dois discos gravados com o excepcional Michale Graves nos vocais (American Psycho, de 1997, e Famous Monsters, de 1999), além da cover para "Science Fiction / Double Feature" (do musical "The Rocky Horror Picture Show"), que o grupo executa há anos em suas apresentações, mas ainda não havia recebido um registro adequado em um álbum do Misfits.

O Misfits ao vivo: Jerry Only, Eric "Chupacabra" Arce e Dez Cadena

As músicas de Devil's Rain acabam soando sem grandes variações em relação às versões de estúdio, até porque não são canções assim tão cheias de melodias e variações que permitam grandes arroubos de criatividade em seus arranjos. Faixas como "Land of the Dead", "Curse of the Mummy's Hand" ou "Death Ray" (esta com os vocais a cargo de Dez) causam uma boa diversão, mas estão ainda distantes de se tornarem clássicos obrigatórios do repertório dos americanos. Coisa que algumas das faixas registradas originalmente por Graves já conseguiram, como "American Psycho" (que infelizmente não aparece precedida pela intro "Abominable Dr. Phibes", e que aqui soa ainda mais veloz do que em estúdio) ou "Dig Up Her Bones" (minha faixa favorita da carreira do grupo, infelizmente registrada na versão acelerada e meio descaracterizada que Only e seus asseclas interpretam sobre os palcos já há alguns anos). "Helena" e "Shining" sempre agradam aos fãs, e a faixa de encerramento, "Saturday Night", apesar de totalmente diferente do restante do repertório (com seu jeitão de balada dos anos 1950), foi muito bem aceita pelo público que frequenta os shows do trio, o qual chega a pedir por ela nos concertos, e sempre se realiza quando a faixa é apresentada.

Only é um showman nato, como quem já pode conferir o Misfits ao vivo sabe muito bem, e vem evoluindo cada vez mais na função de cantor. Neste disco, seu vocal soa, caricatamente, mais alto que os demais instrumentos, assim como seu baixo, que chega a superar os riffs de Cadena em muitos momentos. Este, um excepcional guitarrista de punk rock, acaba meio que apagado no meio da "barulheira sônica" provocada pela velocidade das canções do conjunto, mas não deixa de ser interessante como ele mantém a pegada e o ritmo mesmo tocando quase sempre em "alta rotação". Chupacabra sempre foi alvo de muitas críticas dos fãs, até porque está no lugar de pelo menos outras duas lendas do punk mundial, Robo (outro ex-Black Flag) e Marky Ramone, ele mesmo, que fez fama e (talvez) fortuna ao lado dos Ramones. Mas, aqui, o novato baterista segura a barra (e o ritmo) sem direito a reclamações, embora não arrisque nada mais arrojado do que lhe é exigido pelas versões de estúdio (com exceção da citada "American Psycho", onde desce a mão sem dó nem piedade nas peles e pratos). O trio mostra-se entrosado, e, visto que ainda continuam juntos em 2014 (algo raro de acontecer desde que a banda "renasceu" em 1995), deixa a impressão de que ainda podemos esperar alguns anos de boas músicas vindos desta mesma fonte.

Contracapa de Dea.d. Alive!

Apesar de garantir bons momentos de diversão, e de fazer você se sentir como se atropelado por um locomotiva punk ao final de sua audição, Dea.d. Alive! não é um disco representativo de um verdadeiro show dos Misfits, que inclusive tocaram no Brasil recentemente (leia uma resenha do show de Porto Alegre publicada pelo site Rock Fan aqui). É um disco ruim? Não, até porque seria bem difícil um compilado de canções do grupo em versões ao vivo e cheias de adrenalina não soar atraente. Mas seria muito mais útil Only resolver seus problemas com Danzig e seu irmão e lançar um material que realmente esteja à altura de uma verdadeira apresentação do Misfits (e, de preferência, em DVD, visto que o grupo proíbe filmagens em seus shows, o que torna raro aos fãs das cidades por onde eles não passam acompanhar mais do que poucas canções mal registradas no youtube para terem ideia de como é uma apresentação do grupo). Dea.d. Alive! é um bom divertimento, mas, devido ao curto tempo e às faixas selecionadas, fica muito longe da "coisa real", esta sim, altamente recomendável!

Track list:

1. "The Devil's Rain"

2. "Vivid Red"

3. "Land of the Dead"

4. "Curse of the Mummy's Hand"

5. "Cold in Hell"

6. "Dark Shadows"

7. "Death Ray"

8. "Shining"

9. "American Psycho"

10. "Dig Up Her Bones"

11. "Scream!"

12. "Helena"

13. "Science Fiction/Double Feature"

14. "Saturday Night"

Silverchair - Frogstomp [1995]


Por Micael Machado


O que você fazia para se divertir quando tinha doze anos de idade? E quando tinha quinze? Os membros do trio australiano Silverchair (Daniel Johns, vocal e guitarra, Chris Joannou, baixo, e Ben Gillies, bateria) montaram a primeira "encarnação" do grupo com apenas uma dúzia de primaveras, e, na idade de "debutarem", já tinham um disco lançado e na primeira posição das paradas de seu país natal e da vizinha Nova Zelândia (além de ser top 10 nos EUA, o que não é pouca coisa). E fazendo música de gente grande, e não meras canções pop ou infantis!

Johns e Gillies começaram a tocar juntos ainda na escola primária do subúrbio de Merewether, na Austrália. Ao passarem para o ensino médio, em 1992, conheceram Joannou e montaram o Innocent Criminals, tendo Tobin Finane na segunda guitarra. Já como trio, participaram de uma competição nacional de bandas de colégio, ficando em primeiro lugar. Animados, gravaram algumas demos, e uma delas, da música "Tomorrow", acabou vencendo outra competição nacional, o que deu direito ao grupo de fazer um vídeo de divulgação para a faixa, o qual foi transmitido em rede nacional, com os garotos já adotando o definitivo nome Silverchair, inspirado pela crônica de mesmo nome presente no livro "As Crônicas de Nárnia".

Os garotos do Silverchair na época de  FrogstompDaniel Johns, Ben Gillies e Chris Joannou

O vídeo e as demos dos rapazes despertaram o interesse de muitas gravadoras locais, mas foi a Sony, através de sua subsidiária Murmur Records, que lançaria o disco de estreia dos rapazes em 1995. Frogstomp, o álbum em questão, pode ser considerado como uma das consequências do "fenômeno grunge" que se espalhou pelo mundo no começo dos anos 1990, com os vocais de Daniel soando por vezes quase como uma cópia dos de Eddie Vedder (cantor do Pearl Jam), assim como o instrumental do trio não deixa dúvida alguma de que os principais grupos de Seattle serviram de enorme fonte de inspiração aos adolescentes. Gravado em apenas nove dias, e tendo como produtor o renomado Kevin Shirley, o registro alcançaria o topo das paradas da Austrália, e espalharia o nome do grupo ao redor do mundo.

Muito desta fama se deve à música que fez o grupo acontecer. "Tomorrow", que já havia aparecido no primeiro EP do grupo em 1994 (para o qual foi gravado um novo vídeo clipe), poderia a princípio ser confundida com uma composição do Pearl Jam, ou mesmo do Soundgarden, não fosse a voz de adolescente de Daniel. Misturando sonoridades limpas de guitarra em seus versos a um peso arrastado no refrão, a canção agradou às rádios, principalmente nos Estados Unidos, onde ficou em primeiro lugar em duas paradas da Billboard, a Modern Rock Tracks e a Album Rock Tracks. Outro grande destaque do track list, e que ajudou o álbum a "estourar", é a faixa de abertura chamada "Israel's Son" (outra que lembra o Soundgarden), que inicia com um poderoso riff de baixo, e vai ganhando peso e velocidade à medida que progride, terminando de forma rápida o bastante para satisfazer qualquer fã de hardcore. Esta canção iria trazer bastante incômodo ao grupo em 1996, quando dois rapazes acusados de assassinar os pais e o irmão mais novo de um deles declararam no tribunal que foram influenciados pelos versos da música. O empresário da banda deu uma declaração de que o grupo não tolerava nem incentivava tais casos de violência, e a corte acabou, após a apresentação das provas, afastando a possibilidade da faixa ter servido de inspiração aos jovens, que teriam cometido os crimes visando roubar dinheiro e pertences do casal.

O encarte de Frogstomp

Outros destaques de Frogstomp ficam para as faixas "Pure Massacre", que possui bastante peso e a tradicional falta de velocidade de certos grupos surgidos em Seattle, "Suicidal Dream", uma balada bastante densa com trechos mais pesados ao final (e onde Johns "encarna" Eddie Vedder em sua forma de cantar), e a mistura de thrash com punk chamada "Madman", praticamente toda instrumental, a não ser por um "Uh!" lá no meio que encheria Tom Warrior (do Celtic Frost) de orgulho, e pela verbalização do nome da canção mais ao final (uma versão com letras chegou a ser lançada na coletânea The Best of Volume 1, mas eu prefiro a original). "Findaway" é outra canção que mostra traços de punk rock (chegando a lembrar algumas coisas do Green Day), e "Faultline" pode até parecer uma balada no início, mas depois muda seu andamento para uma sonoridade mais pesada e veloz, terminando sua duração em meio a bastante peso.

"Leave Me Out" é pesada e meio arrastada, também lembrando bastante o Soundgarden, e possuindo um solo de guitarra muito ruim, o que passa a impressão de que os rapazes ainda não tinham pleno conhecimento e destreza com seus instrumentos à época das gravações, algo que a audição das demais faixas não confirma. O peso e as melodias arrastadas também aparecem no começo de "Undecided", que fica mais rápida no refrão. Já "Shade" é uma balada com clima tristonho e letra depressiva, ao contrário de "Cicada", com um jeitão quase alegre, e que lembra algumas coisas do Pearl Jam (especialmente pela forma com que Daniel canta e pelo timbre da caixa da bateria), e é uma composição que soa bem diferente em comparação às outras faixas do disco. A versão em vinil, limitada a apenas 3000 cópias, além de ser na cor verde, ainda possuía uma faixa extra, chamada "Blind", que apareceria em 1996 na trilha sonora do filme "O Pentelho" ("Cable Guy", no original), o qual tinha Jim Carrey no papel principal. 

A rara e limitada versão em vinil verde

O sucesso do registro de estreia parece ter mexido com a cabeça dos rapazes, que mudariam bastante sua música já no disco seguinte, Freak Show, indo em direção a uma sonoridade mais pop e mainstream, que culminaria no single "Ana's Song (Open Fire)", baladinha insossa presente no terceiro álbum, Neon Ballroom, e que arrancou lágrimas de muitas adolescentes da época. Apesar de ainda possuir algumas faixas bastante "audíveis" espalhadas nestes dois discos, o estilo da estreia raramente apareceria de novo na obra do Silverchair, que acabou por se separar em 2003, após lançar o registro intitulado Diorama no ano anterior. O hiato se prolongou até 2006, com o trio lançando o álbum Young Modern no ano seguinte, e excursionando novamente pelo mundo até 2011, quando houve uma segunda separação, desta vez, aparentemente, de forma definitiva. Ficaram algumas canções que marcaram forte presença na história musical de muitos adolescentes da última década do século XX e da primeira década deste século, dentre as quais as melhores podem ser encontradas, sem dúvidas, neste Frogstomp!

"You gonna wait till, fat boy, fat boy, wait until tomorrow..."

Contracapa de Frogstomp

Track List:

1. Israel's Son 
2. Tomorrow
3. Faultline 
4. Pure Massacre 
5. Shade  
6. Leave me out 
7. Suicidal Dream 
8. Madman 
9. Undecided
10. Cicada 
11. Findaway

domingo, 15 de junho de 2014

Box Set: Joy Division - Heart and Soul [1997]



Por Micael Machado


Apesar da reduzida discografia, o Joy Division é, ainda hoje, objeto de culto dos seguidores musicais do grupo, muitos deles sequer nascidos quando o conjunto acabou em 1980. Surgido sob o nome Warsaw na cidade inglesa de Manchester, em 1976, o quarteto formado pelo vocalista e ocasional guitarrista Ian Curtis, pelo guitarrista e ocasional tecladista Bernard “Barney” Sumner, pelo baixista Peter Hook e pelo baterista Stephen Morris se tornou um dos pilares do chamado pós-punk britânico, estilo que serviria de base para o surgimento do gothic rock, da new wave norte-americana e de muito do pop e do rock influenciados por instrumentos eletrônicos na década de 1980. Se os fãs não se cansam de ouvir e re-ouvir a obra deixada por Curtis e seus asseclas, a melhor porta de entrada ao universo musical da banda para os não iniciados na sonoridade do grupo ainda é o box set Heart and Soul, lançado lá fora em 1997, e ainda a espera de uma edição nacional. Reunindo praticamente todas as gravações de estúdio feitas pelo grupo, boa parte das faixas ao vivo disponíveis no mercado até então e raridades exclusivas como demos e faixas retiradas de bootlegs e raras e quase esquecidas fitas cassetes, a caixa de quatro CDs é um verdadeiro "must" para aqueles que possuem curiosidade em se aprofundar na sonoridade quase sempre soturna e melancólica dos ingleses, bem como conhecer as letras e poesias de Ian Curtis, considerado um "poeta atormentado" por seus seguidores, e um dos grandes letristas de sua geração.

Unknown Pleasures, a estreia do Joy Division

No primeiro CD, temos a íntegra do álbum Unknown Pleasures, de 1979 (a estreia da turma), além de faixas presentes na compilação Still, lançada em 1981, e outras retiradas de EPs e singles lançados entre 1978 e 1979. Nas vinte e uma canções espalhadas por setenta e sete minutos, temos um belo panorama da evolução do grupo, partindo de um punk rock pouco mais do que tosco ("Ice Age", "The Kill" e "Interzone") até chegar a um dos pilares do que viria a ser conhecido como gothic rock na década seguinte (aquelas músicas belas e melancólicas onde a alegria nas melodias passa longe de aparecer), em faixas como "New Dawn Fades", "Day of the Lords", "Candidate", "I Remember Nothing" e "Autosuggestion". Mas a maior parte do disco é composta por perfeitos exemplos do pós-punk inglês, onde o baixo tem, por vezes, um destaque maior do que a guitarra, e a bateria normalmente é seca e marcada (sendo os vocais lúgubres e graves de Ian a cereja do bolo para tornar a banda um símbolo do movimento). Canções como "Insight" (um dos muitos destaques), "Wilderness", "Exercise One" ou "The Only Mistake" parecem ter sido compostas com a "cartilha" do estilo debaixo do braço dos músicos, mas os maiores destaques vão, paradoxalmente, para aquelas faixas que conseguem colocar um toque "dançante" e "alegre" à notável seriedade dos arranjos, como "Digital", "Disorder", "Shadowplay", "Transmission" e "She's Lost Control", as quais, não por acaso, viraram "hinos" da curta discografia do grupo, ficando sempre dentre as citadas como "preferidas" pelos fãs dos ingleses.

Closer, o segundo e último álbum de estúdio

O disco dois reúne, ao longo de dezessete músicas em setenta e seis minutos, a íntegra do disco Closer, de 1980, que seria o último registro de inéditas lançado sob o nome Joy Division. Comparecem também outras composições presentes na compilação Still, além de faixas retiradas de singles lançados no mesmo ano de 1980. Em seu segundo registro, o grupo cravou seu nome dentre os principais representantes do pós-punk, em clássicos do estilo como "A Means to an End", "Heart and Soul" (que dá nome ao box set), "Twenty Four Hours" e "Colony", além de pela primeira vez dar destaque aos teclados de Barney (em "Isolation", na tristonha "Decades" e na linda "The Eternal", duas das faixas mais melancólicas de um disco nem um pouco alegre). A seleção incluída na bolachinha deste box ainda reúne as faixas do single Licht und Blindheit, a mais "dançante" "Dead Souls" e a beleza lúgubre de "Atmosphere", duas composições que se tornaram clássicos da discografia do Joy Division, além de incluir uma regravação mais "animada" para "She's Lost Control". Mas nenhuma das canções citadas conseguiu superar "Love Will Tear Us Apart", penúltima faixa deste segundo CD, e que foi lançada em single em junho de 1980 (pouco mais de um mês depois da morte de Ian), levando o nome do grupo para as massas, sendo que a imensa maioria daqueles que nunca ouviram com atenção a discografia do Joy Division costumam associá-lo a esta canção, a qual, de forma bastante irônica, é muito mais ensolarada e alegre do que todo o restante do catálogo do grupo. Sem dúvidas, chega a ser até engraçado uma formação tão lúgubre ter ficado marcada por sua canção mais alegre, mas, assim é o mercado.

O conteúdo da caixa Heart and Soul

Nos setenta e oito minutos do disco três, começam a surgir as primeiras atrações para os fãs de longa data do conjunto, afinal quatorze das vinte e quatro faixas da bolachinha são exclusivas deste box set. Dentre demos ("Shadowplay", "Transmission", "Ice Age"), versões alternativas para faixas já conhecidas ("Dead Souls", "Something Must Break") e gravações exclusivas para rádios ("These Days", "Candidate", "The Only Mistake" e uma versão inicial de "Atmosphere" intitulada "Chance"), temos um olhar mais "cru" sobre faixas que seriam depois lapidadas no disco de estreia e nos primeiros compactos dos ingleses, mostrando que clássicos não nascem prontos, precisando ser burilados e aparados no decorrer do processo de composição. Há também faixas retiradas de singles (a instrumental "As You Said", cheia de elementos eletrônicos), da coletânea Still ("Walked in Line", que apareceria remixada na compilação), ou ainda das famosas "Peel Sessions" que os grupos britânicos gravavam com frequência para a rádio BBC de Londres ("Exercise One", "Colony" e o hino maior "Love Will Tear Us Apart"), e, até mesmo, nas quatro faixas iniciais, a íntegra do primeiro EP do Joy Division, intitulado An Ideal for Living e lançado em 1978, o qual traz uma sonoridade muito diferente da que a banda adotaria um ano depois, ainda muito próxima do punk (e sem muita preocupação com as melodias), com a voz de Curtis quase irreconhecível (longe do seu grave característico), e praticamente sem apresentar traços da melancolia e do pós-punk presentes no registro de estreia. É também neste terceiro CD que encontramos as demos para "Ceremony" e "In a Lonely Place (Detail)", a quais, em 1981, seriam regravadas para compor o primeiro single do New Order (mais sobre este grupo logo ali abaixo no texto), as quais são as últimas composições a contar com a participação de Curtis na curta carreira do Joy Division.

Joy Division ao vivo: Bernard Sumner, Ian Curtis, Stephen Morris e Peter Hook

O CD 4 traz, em setenta e seis minutos, quatorze faixas gravadas ao vivo ao longo de 1979 (e mais outras cinco registradas em 1980), todas inéditas até então, sendo as mais atraentes as dez primeiras, registradas a 13 de julho de 1979 na sede da gravadora Factory, em Manchester (as quais seriam relançadas, acrescidas de outras duas ausentes deste box, como disco bônus da edição remasterizada de Unknown Pleasures, em 2007). Ficaram de fora de Heart and Soul algumas gravações ao vivo lançadas oficialmente (dentre elas um cover para "Sister Ray", do Velvet Underground, presente na compilação Still, e outras onze faixas gravadas na Birmingham University em 02 de maio de 1980, as quais foram lançadas oficialmente no mesmo disco), além das demos gravadas ainda sob o nome Warsaw (e que apareceriam no auto-intitulado álbum lançado em 1994), bem como a íntegra dos registros póstumos Preston 28 February 1980 (de 1999) e Les Bains Douches 18 December 1979 (de 2001) - ambos depois reunidos na caixa Fractured Box - e dos discos bônus das reedições remasterizadas de Closer e Still lançadas em 2007. Mas isto não inviabiliza de forma alguma o valor desta compilação, que ainda conta com um livreto de oitenta e quatro páginas com muitas fotos, textos sobre a carreira e a importância do Joy Division, as letras de todas as músicas presentes nos CDs e uma completíssima relação de discos, livros e vídeos relacionados ao grupo e que tiveram lançamento oficial até aquela data, colocados junto aos CDs em uma embalagem extremamente atraente a quem se interessar em adquirir este box.

Visão da caixa Heart and Soul aberta

Em 18 de maio de 1980, na véspera de uma excursão americana que poderia levar o nome do grupo a se tornar ainda maior, Ian, que tinha diversos problemas pessoais (retratados de forma magistral no filme "Control", de 2007, dirigido por Anton Corbijn), se enforcou em sua casa, acabando também com a banda da qual era o vocalista. Mesmo abalados pela perda do amigo, os três músicos remanescentes decidiram seguir em frente, chamando Gillian Gilbert (esposa de Stephen Morris) para os teclados, e, com Barney assumindo a posição de cantor no novo quarteto, surge então o New Order, que viria a se tornar um dos maiores nomes do mundo da música, com sua mistura de rock, dance music e experimentos eletrônicos. Mas isto já é história para uma outra matéria...

Track List:

CD 1:

1. Digital
2. Glass
3. Disorder
4. Day Of The Lords
5. Candidate
6. Insight
7. New Dawn Fades
8. She's Lost Control
9. Shadowplay
10. Wilderness
11. Interzone
12. I Remember Nothing
13. Ice Age
14. Exercise One
15. Transmission
16. Novelty
17. The Kill
18. The Only Mistake
19. Something Must Break
20. Autosuggestion
21. From Safety To Where...?

CD 2:

1. She's Lost Control (12" version)
2. Sound Of Music
3. Atmosphere
4. Dead Souls
5. Komakino
6. Incubation
7. Atrocity Exhibition
8. Isolation
9. Passover
10. Colony
11. Means To An End
12. Heart And Soul
13. Twenty Four Hours
14. The Eternal
15. Decades
16. Love Will Tear Us Apart
17. These Days

CD 3:

1. Warsaw
2. No Love Lost
3. Leaders Of Men
4. Failures
5. The Drawback
6. Interzone
7. Shadowplay
8. Exercise One
9. Insight
10. Glass
11. Transmission
12. Dead Souls
13. Something Must Break
14. Ice Age
15. Walked In Line
16. These Days
17. Candidate
18. The Only Mistake
19. Chance (Atmosphere)
20. Love Will Tear Us Apart
21. Colony
22. As You Said
23. Ceremony
24. In A Lonely Place (detail)

CD 4:

1. Dead Souls
2. The Only Mistake
3. Insight
4. Candidate
5. Wilderness
6. She's Lost Control
7. Disorder
8. Interzone
9. Atrocity Exhibition
10. Novelty
11. Autosuggestion
12. I Remember Nothing
13. Colony
14. These Days
15. Incubation
16. The Eternal
17. Heart And Soul
18. Isolation
19. She's Lost Control

terça-feira, 13 de maio de 2014

Review Exclusivo: Marky Ramone's Blitzkrieg (Porto Alegre, 08 de maio de 2014)


Por Micael Machado

Foi em 09 de novembro de 1994. Os Ramones tocavam em Porto Alegre pela última vez, no ginásio Gigantinho, em uma noite que ainda tinha a abertura dos então iniciantes Raimundos e de um Sepultura em turnê de divulgação do recente Chaos AD. Foi a única oportunidade que eu tive de assistir ao meu grupo favorito em todos os tempos, pois o quarteto se separaria em 1996 para nunca mais voltar a tocar junto. Vinte anos depois, boa parte das emoções daquela noite inesquecível foram revividas graças ao show do Marky Ramone's Blitzkrieg, projeto organizado pelo ex-baterista do seminal grupo nova-iorquino para servir como um tributo à banda mais importante do movimento punk, e que se apresentou em um Bar Opinião lotado na última quinta feira.

Tudo bem que Marky costuma ser um habituée de nosso país, fazendo tantas turnês pelo Brasil quanto Paul DiAnno ou Deep Purple. Eu mesmo já o havia assistido ao lado do Intruders no mesmo Opinião em 2000, e o baterista até já gravou um DVD no local ao lado da banda gaúcha Tequila Baby, em 2005. Mas esta noite prometia ser diferente, pois o eterno Ramone teria ao seu lado Michale Graves, ex-vocalista dos lendários Misfits, em um set composto apenas por clássicos dos Ramones (os outros dois componentes do projeto não tiveram seus nomes anunciados ou divulgados, mas, pelo que apurei, seriam os argentinos Marcelo Gallo na guitarra e Aleandro V no baixo e backing vocals, informação esta sujeita a confirmação), além de uma ou outra música do ex-grupo do cantor. Cheguei no bar por volta das vinte e uma horas, e a expectativa e ansiedade por uma apresentação histórica eram amenizadas pelos clássicos do punk rock que rolavam no sistema de som, com direito a muito Clash, Ratos de Porão e a execução quase integral (por duas vezes!) do magistral Fresh Fruit For Rotten Vegetables, dos Dead Kennedys! O ambiente estava pronto, faltava apenas a atração principal!

Marky Ramone's Blitzkrieg no palco do Opinião

Sem que houvesse uma banda de abertura, já passava das dez e meia quando a intro "The Good, The Bad, The Ugly" começou a soar no sistema de som da casa (como era costume nos shows dos Ramones), com os músicos entrando no palco próximo ao final da mesma. Juro que pensei que eles emendariam "Durango 95", para fazer tudo ficar ainda mais parecido com um show de verdade do ex-grupo de Marky. Mas, após alguns acordes introdutórios dos instrumentos, Graves anunciou: "Nós somos o Marky Ramone's Blitzkrieg e esta se chama 'Rockway Beach'", começando a festa punk de forma diferente do tradicional, sem que ninguém reclamasse disso. Uma rápida parada para ajustes nos volumes dos amplificadores, com Michale aproveitando para agradecer ao público com um educado "thank you" (praticamente sua única declaração à audiência em toda a noite), e o massacre retornou com "Teenage Lobotomy", seguindo, daí para a frente, uma conhecida "receita" que foi praticamente sempre a mesma pelo resto do show: o baixista gritava "one, two, three, four", e lá vinha um clássico dos Ramones; "one, two, three, four", e outro clássico; "one, two, three, four", e uma um pouco menos clássica ("Havana Affair", "Tomorrow She Goes Away" - a melhor surpresa do repertório, ao menos para mim, e onde a galera acresceu um "ô-ô-ô" nos intervalos entre os versos do refrão que deixou a canção com uma muito bem vinda "cara" de Misfits -, "I Wanna Be Well", "Oh Oh I Love Her So", "Loudmouth"); "one, two, three, four" de novo, e mais uma composição que todos conheciam - várias faixas tiveram suas letras cantadas em uníssono o tempo todo pelo pessoal, como "I Don't Care", "Beat On The Brat", "The KKK Took My Baby Away", "I Wanna Be Sedated" ou "I Believe In Miracles" (onde Graves cantou o refrão de forma diferente da original, alongando mais as palavras, em uma interpretação que ficou bem legal), e as demais tinham, pelo menos, o refrão berrado a todo o pulmão pela galera (com idades variadas, indo desde jovens adolescentes a senhores de cabelos brancos, mostrando a abrangência do som do quarteto de Nova Iorque), que encheu o Opinião de forma como há tempos eu não via acontecer, e, muitas vezes, cantava tão alto que mal dava para escutar a voz de Graves, algo realmente tocante e impressionante. E tudo isso por mais de uma hora, praticamente sem interrupções nem bate papo desnecessário com a audiência.

Em uma das raras paradas entre as músicas, Michale pronunciou (em inglês): "Quando eu morrer, me deixe onde eu estiver, mas não me enterre no Cemitério de Mascotes". Era a senha para "Pet Sematary", música tema do filme de mesmo nome ("Cemitério Maldito", no Brasil), talvez o maior sucesso comercial da carreira dos Ramones, e que fez o Opinião balançar, quase que literalmente. Nesta canção, Graves trocou a frase "follow Victor to the sacred place" por "follow Marky to the sacred place", numa sacada divertida que poucos parecem ter percebido, empolgados que estavam em agitar na imensa roda de pogo que a canção abriu na pista do Opinião, ou então em cantar e agitar ao som da música, no caso dos que estavam nos andares superiores. A casa citada no começo de "Chinese Rock" também voltou a ser a Dee Dee, como na original dos Heartbreakers, e não a de Art, que aparece na versão gravada pelos "brothers" nova-iorquinos, uma das poucas mudanças nas letras que Graves incorporou a estas versões "tributo", cujo repertório, aliás, foi extremamente bem escolhido, com predominância, como já era esperado, de músicas dos três primeiros álbuns dos Ramones, os quais foram, cada um, interpretados quase que em sua totalidade, embora sempre se possa reclamar de que faltou esta ou aquela canção (no meu caso, muitas e muitas, podem acreditar, pois, se este show tivesse três horas de duração, ainda faltariam faixas que eu gostaria de escutar ao vivo, podem ter certeza!).

Momento do show do Marky Ramone's Blitzkrieg

Com Marky mandando ver atrás de seu kit como se ainda estivesse ao lado de seus "irmãos", para Marcelo e Aleandro a instrução parecia ser "nada de passear ou correr pelo palco", tendo os mesmos sua movimentação praticamente limitada a andar para a frente e para trás em linha reta, seguindo à risca a regra implantada pelo saudoso Johnny Ramone ainda nos primórdios do grupo de Nova Iorque. Nesta quase reencarnação dos Ramones no palco do Opinião (Gallo, quando se abaixava com as pernas abertas e a guitarra abaixo dos joelhos, como Johnny costumava fazer, aparentava ser impressionantemente semelhante ao guitarrista), Graves era o ponto destoante, pois, além da voz bastante diferente da de Joey (e quem conseguiria cantar igual ao nosso amado Jeffrey?), sua atitude em cena era o oposto da do cantor original do quarteto, pois, enquanto Joey permanecia parado junto ao pedestal do microfone, Michale pulava e agitava quase o tempo todo, sendo que por vezes ele ainda dançava de modo bastante engraçado, balançando braços e corpo de forma meio descoordenada, de modo que ficava difícil diferenciar se ele estava dançando ou tendo um ataque epilético! Um verdadeiro entertainer, que demonstrou um grande carisma, felicidade por estar no palco e todas as qualidades que um verdadeiro frontman deve possuir, além de cantar "prá cacete" (mesmo que esquecesse umas poucas frases de vez em quando, ou não conseguisse cantá-las devido ao fôlego faltar de tanto que ele agitava), não se limitando a tentar copiar as frases originais de Joey, mas colocando seu próprio estilo e suas interpretações em muitas delas!

"Pinhead" (e um impressionante coro de "Gabba Gabba Hey" por parte da audiência) encerrou a primeira parte da apresentação, com todos deixando o palco pela primeira vez na noite. Após dois longos (para os padrões ramônicos) minutos passados ao som do constante "Hey Ho Let's Go" entoado pela galera, os músicos retornam para o bis, que iniciou com "Do You Remember Rock 'n' Roll Radio?", para a festa da galera, que ainda pode curtir mais algumas músicas, como "She's The One" (uma das minhas favoritas do disco Road To Ruin, que marcou a estreia de Marky nos Ramones), as covers para "California Sun" (Joe Jones), "R.A.M.O.N.E.S." (Motörhead) e uma até certo ponto inesperada "Have You Ever Seen The Rain?" (Creedence Clearwater Revival), todas registradas pelos "brothers" em algum momento de sua carreira, além das festejadas "I Just Want To Have Something To Do", "Cretin Hop" e "Surfin' Bird" (outra cover, desta vez dos Trashmen), fortíssima candidata ao posto de "música mais retardada da história", mas que é sempre divertida e extremamente bem vinda, merecendo por parte de Graves uma interpretação memorável nesta noite, especialmente em sua segunda parte. 

Michale Graves em momento "voz e violão"

Michale fica então sozinho no palco, apanha um violão com os roadies, dedica um "thank you very much" ao público e manda, somente com o acompanhamento do instrumento e das vozes do pessoal, dois clássicos do seu período à frente dos Misfits, a espetacular "Dig Up Her Bones" (que soou bem agradável nesta forma acústica, mas não superou de forma alguma a energia do original) e "Saturday Night", que já tem mesmo um jeitão de balada na versão de estúdio, e se encaixou perfeitamente nesta configuração "voz e violão". Mais uma vez, chamou a atenção a resposta dada pelo público, que cantou as duas canções do início ao fim, e em altíssimo volume, para visível satisfação do cantor, que teve seu nome gritado em uníssono pelo pessoal no breve intervalo feito entre elas!

Os outros músicos retornam então ao palco, com Marky parando no centro para anunciar "Michale Graves, o melhor cantor que o Misfits já teve" (naquele momento, era difícil discordar disso, embora saibamos todos que não era bem verdade), e o show termina com a "quase" inesperada "Life's A Gas" (Michale arruinou a surpresa anunciando a música em entrevista dada dias antes do show), a cover para "What A Wonderful World" (que, mesmo sem ser anunciada, foi entendida por todos como uma homenagem a Joey, que a gravou em seu primeiro disco solo, Don't Worry About Me) e a muito esperada "Blitzkrieg Bop", que arrancou das gargantas de todos os últimos fiapos de voz que ainda restavam ali! Memorável!

Marky Ramone saudando o público do Opinião

Podem chamar de caça-níquel, ou acusar Marky de fazer este tipo de show apenas para manter sua imagem em evidência no cenário, utilizando o nome do grupo que integrou por anos, mas do qual nem era um membro original ou de maior destaque. O fato é que, depois de uma hora e meia de muito Ramones (com um pequeno tempero de Misfits para adicionar sabor à refeição), ninguém ali saiu insatisfeito, e o baterista e seus comparsas entregaram ao público exatamente aquilo que ele queria: diversão, suor e alegria, animados por algumas das mais clássicas músicas do melhor punk rock já produzido! E ainda tem gente que não aceita que os Ramones foram a melhor banda da história! Na saída de um show fantástico e emocionante como este, duvido que algum dos presentes não concordasse com esta afirmação! Pelo local que o abrigou, pelas músicas tocadas (quase todas clássicos de grande porte), pela qualidade cristalina do som (como é normal acontecer no Opinião), pela entrega e devoção do público (emocionante!), e por ser um show dos Ramones (embora sem a presença do grupo), digo que esta apresentação superou com folgas a do Guns and Roses ocorrida em abril, e abocanha dela o título de “show do ano” em Porto Alegre! Haverá algum que o supere até dezembro? Acho difícil!

"One, two, three, four! Hey Ho, Let's Go!"

Set List:

1. Intro (The Good, The Bad, The Ugly)

2. Rockway Beach

3. Teenage Lobotomy

4. Psycho Therapy

5. Do You Wanna Dance?

6. I Don't Care

7. Sheena Is A Punk Rocker

8. Havana Affair

9. Tomorrow She Goes Away

10. Commando

11. I Wanna Be Well

12. Beat On The Brat

13. 53rd & 3rd

14. Now I Wanna Sniff Some Glue

15. Gimme Gimme Shock Treatment

16. Rock And Roll High School

17. Oh Oh I Love Her So

18. Judy Is A Punk

19. I Believe In Miracles

20. The KKK Took My Baby Away

21. Pet Sematary

22. Chinese Rock

23. I Wanna Be Sedated

24. Loudmouth

25. I Don't Wanna Walk Around With You

26. Pinhead

27. Do You Remember Rock 'n' Roll Radio?

28. I Just Want To Have Something To Do

29. She's The One

30. California Sun

31. Have You Ever Seen The Rain?

32. Cretin Hop

33. Surfin' Bird

34. R.A.M.O.N.E.S.

35. Dig Up Her Bones

36. Saturday Night

37. Life's A Gas

38. What A Wonderful World

39. Blitzkrieg Bop

sábado, 10 de maio de 2014

Wolfmother - Wolfmother [2005]


Por Micael Machado

Qual o melhor disco do século XXI? Estamos apenas nos aproximando da metade da segunda década do mesmo, mas, até aqui, a resposta para esta questão é, a meu ver, simplesmente óbvia: nestes quatorze anos, nenhum álbum conseguiu me cativar mais do que Wolfmother, a estreia da homônima banda australiana capitaneada pelo vocalista e guitarrista Andrew Stockdale, lançada em 2005 no país natal do então trio, para depois conhecer o mundo ao longo do ano seguinte, com um track list rearranjado e a inclusão de uma faixa extra para o mercado internacional. Há tempos um álbum de uma banda nova não me empolgava tanto desde a primeira audição, e, até aqui, nenhum outro conseguiu a mesma façanha.

Surgido em 2000 na cidade de Sydney, e tendo Chris Ross (baixo e teclados) e Myles Heskett (bateria) como colegas do chefão Andrew, o grupo começou a obter mais destaque em 2004, ao assinar com a gravadora Modular Recordings, sediada em seu país natal. Em setembro daquele ano, sairia seu primeiro EP, também intitulado Wolfmother, com quatro canções que depois seriam regravadas para o disco de estreia do grupo, gravado em apenas duas semanas no famoso estúdio Sound City, em Los Angeles, sob a produção de Dave Sardy (que já havia trabalhado com grupos como Slayer, Jet e Oasis), e lançado na Austrália a 30 de outubro de 2005, aparecendo no mercado mundial no decorrer de 2006, em datas diversas dependendo do país de lançamento.

Nas treze faixas da versão "estrangeira" de Wolfmother (cuja linda capa deriva da obra The Sea Witch, do artista Frank Frazetta), o trio se mostra claramente influenciado pelo melhor do hard rock setentista, como comprovam a suingada "Witchcraft" e seu belo solo de flauta (executado pelo músico convidado Dan Higgins, mas que poderia muito bem ter sido gravado por um Thijs Van Leer ou um Ian Anderson, para não citar seu empolgante refrão), a acústica "Vagabond", que parece saída das sessões de Led Zeppelin III, ou a agitada "Dimension", que possui um trecho mais lento no meio que não soaria deslocado em um dos primeiros discos do Black Sabbath - tudo isso sem mencionar "Where Eagles Have Been", que chega a parecer um tributo à carreira do Led Zeppelin ao longo de seus variados cinco minutos e meio. O grupo também apresenta neste debut forte influência do psicodelismo inglês da década de 1960, como se pode confirmar no final de "White Unicorn" ou na viajante "Mind's Eye".

Wolfmother em 2005: Myles HeskettAndrew Stockdale e Chris Ross

"Joker & the Thief", um dos seis singles retirados do registro, e também um de seus maiores destaques, reúne perfeitamente estes dois lados dos australianos, o que não impede que composições mais simples como a pesada e monolítica "Colossal" (que, ainda por cima, ganha uma parte extremamente veloz mais perto do final), "Apple Tree" (que soa como uma sobra de algum álbum dos White Stripes) ou "Woman" (que fez parte da trilha do jogo Guitar Hero II, e possui um solo de teclado totalmente maluco na sua parte intermediária) consigam seu próprio destaque em meio a faixas tão empolgantes. O mesmo acontece com a suingada "Love Train", a "faixa extra" exclusiva para o mercado internacional, e que sempre me lembrou um pouco o início do T. Rex, não sei bem por quê.

A fascinante "Pyramid" possui um riff repetitivo e bastante pesado, reforçado pela distorção aplicada ao baixo, e uma melodia de guitarra que transpassa a música quase substituindo o vocal em certos momentos, com o track list sendo então completado por "Tales", que não é uma versão para a música de mesmo nome registrada pelo Uriah Heep, mas sim uma bela composição que reúne com perfeição o lado viajante e o lado hard setentista do trio australiano. A título de registro, cabe citar que existem ainda duas outras versões do álbum, ambas norte-americanas: uma que acrescenta "Colossal", em versão ao vivo no festival Big Day Out, e outra que possui remixes para "Woman" e "Love Train", totalizando assim quinze faixas.

Infelizmente, a altíssima qualidade do álbum não foi sinônimo de uma carreira de sucesso para o Wolfmother, e, após a turnê de divulgação do mesmo, Ross e Heskett deixaram Andrew sozinho com o nome do grupo, devido a divergências musicais e pessoais. O compositor não se intimidou, remontou a banda como um quarteto, e lançou em 2009 o regular Cosmig Egg, que, apesar de inferior à estreia, também renderá boas audições a quem se dispuser a ouvi-lo. Esta segunda encarnação também não durou muito, com Stockdale partindo para uma carreira solo (iniciada pelo irregular, mas interessante, Keep Moving, de 2013, composto por faixas que deveriam estar no terceiro disco do Wolfmother), a qual foi logo abortada para ver surgir uma terceira encarnação do grupo do qual o vocalista e guitarrista é, por mérito e direito, o dono da bola, desta vez com a volta do baixista Ian Peres (que esteve na segunda versão) e a chegada do baterista Vin Steele, completando assim uma nova formação em trio para os australianos.

Contracapa da versão internacional de Wolfmother

Que Andrew Stockdale consiga resolver seus problemas com os músicos que lhe acompanham, e siga registrando mais discos de qualidade como tem feito ao longo dos anos (como o recente New Crown, de março deste 2014). Mesmo que nenhum deles chegue a superar sua maravilhosa estreia (algo bastante improvável, a meu ver), com certeza renderão vários bons momentos auditivos. Ao menos, é no que acredito.

She's a woman, you know what I mean... She's gonna set you free!

Track List (versão internacional):

1. "Dimension"
2. "White Unicorn"
3. "Woman"
4. "Where Eagles Have Been"
5. "Apple Tree"
6. "Joker & the Thief"
7. "Colossal"
8. "Mind's Eye"
9. "Pyramid"
10. "Witchcraft"
11. "Tales"
12. "Love Train"
13. "Vagabond"