domingo, 4 de agosto de 2024

Neil Young With Crazy Horse – Early Daze [2024]


Por Micael Machado

O bardo canadense Neil Young continua escavando seus arquivos musicais, e saindo de lá com pepitas de alto valor histórico para seus fãs. O mais recente lançamento (pelo menos no momento em que escrevo) saído desta aparentemente interminável mina de tesouros são os primeiros registros do cantor e compositor ao lado do Crazy Horse, grupo que iria ser a sua principal banda de apoio nos últimos 55 anos, desde que se uniram pela primeira vez para as gravações do que viria a ser o álbum Everybody Knows This Is Nowhere, lançado em 1969. As faixas que compõem este Early Daze (lançado em CD e vinil, além das hoje obrigatórias plataformas digitais) foram registradas naquele mesmo ano, com o Cavalo Doido ainda contando com sua formação original, com Billy Talbot no baixo, Ralph Molina na bateria (ambos até hoje ao lado de Young no Crazy Horse) e Danny Whitten nas guitarras, músico que viria a falecer em 1972, sendo que as três primeiras músicas ainda contam com Jack Nitzsche no piano, ele que era parte da primeira formação do Cavalo Doido, mas não chegou a participar do primeiro álbum de Young junto ao grupo.

Embora nenhuma música seja realmente inédita (embora a maioria das versões que aparecem no álbum não tenham sido lançadas anteriormente), algumas poderão soar como novidades aos menos atentos à carreira e à discografia de Young. É o caso de "Everybody's Alone", faixa que parece uma sobra de estúdio do Buffalo Springfield, a banda anterior de Young, e que já havia sido lançada anteriormente (ainda que com uma mixagem diferente) no box Neil Young Archives Volume 1, de 2009, ou de "Look At All The Things", cantada por Whitten, e que já havia sido registrada no autointitulado primeiro álbum "solo" do Crazy Horse, de 1971. Por outro lado, esta versão de "Cinnamon Girl" (aqui em uma versão mono) já havia sido lançada em compacto em 1970, e "Down By The River" tem aqui uma mixagem diferente da que aparece no citado Everybody Knows This Is Nowhere, mas, estruturalmente, não apresenta muitas variações em relação à versão original.

Neil Young with Crazy Horse em 1969: Ralph Molina , Billy Talbot, Danny Whitten,
Neil Young e Jack Nitzsche

As maiores "diferenças" que pude perceber encontram-se em "Wonderin’", faixa que teria um registro oficial apenas em 1983, no controverso álbum Everybody's Rockin', e que aqui aparece quase acústica e bem menos "rockabilly" que a versão daquele disco; "Winterlong", cujo lançamento oficial seria apenas na coletânea Decade, de 1977, e que aqui aparece um pouco mais lenta, com um arranjo vocal diferente e mais solos de guitarra que em sua versão mais conhecida; e "Birds", faixa lançada apenas em 1970 no álbum After the Gold Rush, e que aqui tem o piano trocado pelos violões, além de um novo arranjo que a deixou ainda mais melancólica, contando com a participação de todos os membros da banda (com destaque para a bateria de Molina), o que, a meu ver, a tornou ainda melhor (pois a original contava apenas com Young ao piano e vocais - cabe lembrar que esta versão já havia aparecido, com uma mixagem diferente, no citado box Archives Volume 1). No mais, temos uma versão mais roqueira e menos country de "Dance Dance Dance", faixa que aparece em vários registros ao vivo de Young (e também no já citado primeiro álbum "solo" do Crazy Horse), mas que nunca havia tido um registro de estúdio "oficial" anteriormente; uma versão de estúdio mais crua, mas basicamente igual, de "Come On Baby Let’s Go Downtown", que, além de também aparecer no primeiro registro do Cavalo Doido,  conta com uma versão ao vivo lançada no álbum Tonight's the Night, de 1975; e uma versão com um arranjo instrumental diferente (e, aos meus ouvidos, ainda mais tocante) de "Helpless", cujo registro "oficial" apareceria apenas em 1970 no álbum Deja Vu, do super grupo Crosby, Stills, Nash & Young.

Early Daze é um disco que, para os já iniciados na obra de Young, servirá para que eles, assim como eu, apreciem faixas já conhecidas em versões ainda iniciais, além da sempre bem vinda possibilidade de, mais uma vez, testemunhar o talento de Danny Whitten nas seis cordas e nos vocais, talento este que o mundo da música perdeu tão precocemente, infelizmente. Para aqueles não tão familiarizados assim com a discografia do canadense (especialmente aquela tendo o Crazy Horse como companhia), será apenas um bom álbum de uma grande banda saída diretamente do final dos anos 60, fazendo rock and roll como se fazia naquela época, com talento, garra, suor e tesão, ingredientes muitas vezes em falta na música atual. Em ambos os casos, seguramente, vale a audição!

Contracapa de Early Daze

Track List:

1. Dance Dance Dance

2. Come On Baby Let’s Go Downtown

3. Winterlong

4. Everybody’s Alone

5. Wonderin’

6. Cinnamon Girl

7. Look At All The Things

8. Helpless

9. Birds

10. Down By The River

Linkin Park - Papercuts (Singles Collection 2000–2023) [2024]

Por Micael Machado

Seja através de edições especiais de seus primeiros discos, ou de boatos de um retorno com um novo (ou uma nova) vocalista substituindo Chester Bennington, tragicamente falecido em 2017, o nome do grupo Linkin Park vem se mantendo em evidência na mídia nos últimos tempos. Um dos motivos que contribuíram para isto foi o lançamento, no começo deste 2024, da coletânea Papercuts (Singles Collection 2000–2023), primeira compilação de sucessos da carreira do sexteto norte-americano. Com vinte faixas em pouco mais de uma hora, o disco (lançado nos formatos CD, vinil duplo e K7, além das hoje obrigatórias plataformas digitais) percorre quase toda a carreira do grupo, além de trazer algumas raridades e uma faixa inédita.

Pois é justamente por ela que gostaria de começar minha análise desta compilação. "Friendly Fire", colocada na posição de encerramento da coletânea, é uma sobra do último disco de estúdio da banda, One More Light (de 2017), cuja existência já havia sido revelada pelo vocalista e multi-instrumentista Mike Shinoda durante uma transmissão ao vivo na Twitch em junho de 2020, embora na época ela ainda não estivesse finalizada, nem houvessem planos iminentes para seu lançamento. Na versão deste disco (a qual foi lançada como single em 23 de fevereiro de 2024, recebendo também um clipe oficial), a faixa se revela uma quase balada repleta de elementos eletrônicos, tendendo muito mais para o lado pop da música do grupo do que aquele nu metal dos primeiros anos, aspecto ressaltado pela letra, que trata de um relacionamento se acabando, apesar das duas partes, aparentemente, não desejarem isto! A meu ver, uma faixa apenas mediana, como muitas outras nos últimos discos do grupo.

O Linkin Park, em foto promocional do lançamento da coletânea: Phoenix, Joe Hahn,
Chester Bennington, Mike Shinoda, Brad Delson e Rob Bourdon

O repertório de Papercuts ainda conta com duas faixas que não são exatamente inéditas, mas que podem ser consideradas como raridades para os fãs da banda. Lançada originalmente no EP LP Underground 6.0 (de 2006, disponibilizado apenas para o fã clube oficial do grupo), "QWERTY" foi gravada durante as sessões que resultariam no disco Minutes to Midnight (de 2007), e representa com precisão a mistura de nu metal com rap que o sexteto costumava fazer no começo da carreira, alternando momentos mais pesados com outros em que o rap de Shinoda fica em evidência. Mais antiga ainda, "Lost" foi composta durante as gravações do segundo álbum, Meteora (de 2003), e lançada em uma versão demo na edição de vigésimo aniversário do disco, em 2023, e é uma faixa que já aponta os rumos mais pop que a banda adotaria em pontos futuros de sua carreira, embora ainda conte com algumas passagens mais pesadas de guitarra aqui e ali. Ainda no campo de "raridades", embora bem mais fácil de ser encontrada, podemos incluir "New Divide", originalmente presente na trilha sonora do filme 'Transformers: Revenge of the Fallen" (de 2009), e cuja versão de estúdio pela primeira vez faz parte de um álbum oficial da banda, visto que uma versão ao vivo já havia sido incluída no disco One More Light Live, de 2017.

O restante do track list, embora não esteja organizado de forma cronológica, parece, pela quantidade de músicas escolhidas para cada álbum, ressaltar o quanto a carreira do Linkin Park foi perdendo qualidade com o passar dos anos. Dos dois primeiros discos (Hybrid Theory e o já citado Meteora, para mim, os melhores da banda), foram selecionadas quatro músicas de cada um. Do terceiro, o também citado Minutes to Midnight, foram incluídas três faixas. De Living Things (2012), o quinto registro, foram incluídas duas músicas, e os demais discos de estúdio contribuíram com apenas uma faixa cada um, com exceção de The Hunting Party, de 2014, penúltimo registro de inéditas (e, para mim, um dos destaques na discografia do grupo, pois foi um álbum onde os músicos abandonaram um pouco o lado mais pop que vinha dominando as canções mais recentes do sexteto para fazer uma espécie de "volta às raízes" mais pesadas dos primeiros discos), o qual, infelizmente, nem chegou a ser representado nesta compilação, que ainda conta com uma faixa retirada de Collision Course, disco lançado em 2004 em parceria com o rapper Jay-Z, onde músicas dos dois artistas foram mixadas em "mashups" para criar faixas inéditas.

Contracapa da versão em CD de Papercuts (Singles Collection 2000–2023) 

Se você for um colecionador bastante dedicado do Linkin Park, Papercuts (Singles Collection 2000–2023) talvez lhe atraia por causa de "Friendly Fire", ou, talvez, de uma das demais "raridades" que apontei no texto. Se você nunca suportou ouvir a música do Linkin Park (ou se afastou do grupo a partir da guinada mais pop ocorrida a partir do terceiro álbum), não vai ser esta coletânea que vai mudar seu pensamento. Mas, se você for um ouvinte casual do grupo, e gosta de alguma faixa que ouviu aqui ou ali em algum lugar, é bem possível que esta música esteja nesta compilação, pois, como reunião de "hits" da banda, o álbum cumpre muito bem seu objetivo. Se este for o seu caso, pode dar uma chance ao registro, pois possivelmente vai encontrar algo de seu agrado!

Track List:

1. Crawling

2. Faint

3. Numb / Encore

4. Papercut

5. Breaking The Habit

6. In The End

7. Bleed It Out

8. Somewhere I Belong

9. Waiting For The End

10. Castle Of Glass

11. One More Light

12. Burn It Down

13. What I've Done

14. QWERTY

15. One Step Closer

16. New Divide

17. Leave Out All The Rest

18. Lost

19. Numb

20. Friendly Fire

sábado, 6 de julho de 2024

Led Zeppelin: Cinco Músicas Injustiçadas

Por Micael Machado

Depois de ter indicado cinco músicas "injustiçadas" do Deep Purple e do Black Sabbath para esta seção, chegou a hora de fechar a "Santíssima Trindade" do hard rock setentista com as músicas que eu considero "injustiçadas" na discografia do Led Zeppelin. Confesso a vocês que, das bandas já escolhidas até aqui para esta seção, o Led foi a que me deu mais trabalho para selecionar faixas que atendessem aos meus critérios para inclusão na lista - que, para recordar, são: as músicas não podem ter sido lançadas como single; não podem constar do track list de álbuns ao vivo oficiais (nem de bootlegs que eu conheça); não podem constar de coletâneas oficiais do grupo tratado (pelo menos, não das mais famosas); não podem ter recebido versões de outros artistas (pelo menos, não ter recebido versões de grande repercussão no meio musical); serem músicas que me agradem mais do que outras bem mais "famosas" do que elas, e que, desta forma, eu julgue que mereciam mais atenção do que receberam por parte tanto da imprensa quanto dos fãs (e, por vezes, da própria banda) - porque são tantas coletâneas, bootlegs, tributos, covers, etc, que é quase impossível "mapear" o grupo no discogs para verificar se tal canção aparece em algum lugar que venha a inviabilizar sua participação. Outro fator que atrapalhou muito minha seleção foi que boa parte das minhas primeiras escolhas estão presentes em No Quarter: Jimmy Page & Robert Plant Unledded, o disco da "volta" do Led lançado em 1994 em parceria com a série "unplugged" da MTV (tratarei mais sobre isto logo adiante). Sendo assim, depois de alguma pesquisa, vamos à minha relação de escolhidas (em ordem cronológica), sendo que estou ciente de que posso, mais adiante, descobrir que alguma delas poderia ter sido inviabilizada por algum dos critérios que adotei, mas ao qual não tive atenção!

1. The Rover (Physical Graffiti - 1975)

Physical Graffiti é um álbum duplo resultante da reunião de algumas faixas inéditas que o Led gravou em 1974 com "sobras" não aproveitadas dos discos anteriores da banda. Tem gente, como meu irmão (e colaborador do site) Mairon Machado que idolatra este disco, mas, para mim, ele sempre soou como uma colcha de retalhos, e um  clássico exemplo de "disco duplo que teria sido melhor se fosse simples" (jogue-me as pedras quem quiser). Muitas de suas quinze músicas nunca me "pegaram", mas não é o caso de "The Rover", um hard rock agitado, com um bom riff de Page, ainda que os vocais de Plant por vezes me soem "agudos" demais, assim como em muitos momentos do início da carreira do grupo (e, segundo a wikipedia, esta faixa foi composta em 1970 e gravada em 1972, ou seja, ainda nos anos iniciais do Zepelin de Chumbo). Não é um dos "pontos altos" da carreira do Led para mim, mas, neste disco, considero uma das que mais se destacam, e nunca teve a atenção que julgo que merecia (ela foi regravada pelo grupo Great White em um disco tributo ao quarteto inglês, mas não levei isto em consideração na hora da escolha desta faixa). 

2. Black Country Woman (Physical Graffiti - 1975)

Sim, pode ser estranho eu escolher duas músicas de um disco que já confessei não gostar tanto, mas é que, no meio da "colcha de retalhos" que citei no parágrafo anterior, esta pequena pérola acústica que parece saída das sessões do terceiro álbum (embora, segundo a wikipedia, tenha sido gravada em 1972 para o álbum Houses of the Holy) não pode ser ignorada, mesmo sendo a penúltima música do track list. Sempre foi uma das minhas favoritas neste álbum, e nunca entendi porque mesmo as pessoas que idolatram o LP não parecem se importar muito com ela, quando penso justamente ao contrário. Enfim, coisas do maravilhoso mundo da música, não é mesmo?

3. Carouselambra  (In Through the Out Door - 1979)

O título de trabalho desta faixa era "The Epic", ou "O Épico". Dez grandiosos minutos (e mais meio de bônus) de pura genialidade, onde Jones domina com seus teclados em melodias empolgantes, criando linhas grandiosas e passagens que mostram que seu talento com as teclas pode facilmente ser comparável ao com as quatro cordas do baixo (para quem ainda não sabia), fora seu trabalho como arranjador. Page tem uma participação mais discreta em relação a outros momentos da discografia da banda, mas também deixa sua marca, seja em um curto solo ali por três minutos e meio, ou na marcante passagem mais "densa" no meio da faixa, e aquela parte mais "dance music" que surge ali pelos sete minutos e se prolonga até perto do final pode arrepiar os cabelos dos mais puristas até hoje, mas sempre me soou muito agradável! Confesso que foi com certa surpresa que li na wiipedia que esta canção nunca foi tocada ao vivo, pois, para mim, sempre foi o maior destaque de In Through the Out Door, um disco bastante contestado por parte dos fãs, justamente pela "atenção" que os teclados de Jones receberam em relação à "discreta" participação da guitarra de Page ao longo de suas faixas. Para mim, isto não causa problema algum (embora o disco em si esteja longe de ser um dos meus favoritos), especialmente neste clássico, que, a meu ver, é a faixa mais indicada para fazer parte deste seção dentre todas da carreira da banda. Novamente, podem jogar as pedras aqueles que discordarem.

4. Wearing and Tearing  (Coda - 1982)

A última faixa do último disco normalmente é a que encerra a discografia de uma banda. No caso do Led, várias músicas "inéditas" surgiriam nos relançamentos posteriores, mas, se considerarmos Coda como o encerramento da carreira do grupo, ele termina com este agressivo hard rock, gravado ainda nos tempos do álbum In Through the Out Door, e que sempre me soou como um dos maiores destaques desta coletânea de sobras, com suas melodias (especialmente nas partes mais rápidas) demonstrando claramente o poder de fogo que o Led Zeppelin possuía para criar músicas "pesadas" e empolgantes a partir de suas reinterpretações do blues norte-americano. É outra faixa que nunca foi interpretada ao vivo pelo grupo, embora Robert Plant a tenha tocado ao vivo algumas vezes em carreira solo, com destaque para a apresentação no festival de Knebworth de 1990, inclusive tendo Jimmy Page como convidado especial. Mais uma faixa que merecia mais atenção do que possui, e que acabou meio que "esquecida" pelos cantos da discografia do grupo, infelizmente.

5. St. Tristan's Sword (Coda Deluxe Edition - 2015)

Citei no parágrafo anterior algumas "faixas inéditas" surgidas nos relançamentos dos discos do grupo após o seu término (e mesmo em alguns álbuns "ao vivo" oficiais que surgiram depois, como o excelente How The West Was Won ou o altamente recomendável BBC Sessions), e foi a estas que tive de recorrer para completar minha lista. Inicialmente, minha escolha havia sido pela cover de "Travelling Riverside Blues", mas como ela tem uma versão ao vivo "oficial" no citado registro com gravações da BBC, acabei optando por este belo exemplo de rock instrumental ao estilo Led, com Page debulhando a guitarra ao longo de quase todos os quase seis minutos de duração da faixa, Jones segurando o ritmo com precisão, e Bonham "descendo o braço" com vontade na bateria, não se limitando a apenas "marcar" o ritmo, mas criando passagens bastante interessantes de ouvir em sua bateria, como habitualmente fez ao longo se sua carreira. Segundo o site Songfacts, esta faixa foi gravada durante as sessões do terceiro disco, lá em 1970. mas precisou esperar até 2015 para ser revelada oficialmente ao mundo (embora os bootleggers de plantão certamente já a conhecessem bem antes disto) na edição deluxe tripla de Coda, a qual traz várias pérolas "inéditas" aos colecionadores do grupo, como as versões ao vivo de "Four Sticks" (aqui chamada "Four Hands") e "Friends" gravadas por Page e Plant ao lado dos músicos indianos da Bombay Orchestra em 1972. Recomendadíssimo!

Como disse anteriormente, o álbum No Quarter: Jimmy Page & Robert Plant Unledded inviabilizou muitas das minhas primeiras escolhas para esta lista, pois ali estão (seja no CD, no vinil ou no DVD) faixas como "Thank You", "What Is And What Should Never Be", "The Battle of Evermore" (em uma magistral interpretação por parte de Plant e da cantora Najma Akhtar), "Nobody's Fault but Mine" (em uma reinterpretação que nunca me agradou tanto quanto a original) ou "When the Levee Breaks", todas faixas que penso que mereciam um destaque maior do que aquele que tiveram quando a banda estava na ativa. A épica "Achilles Last Stand" está presente em algumas coletâneas e álbuns ao vivo, mas, sendo uma das minhas faixas preferidas na discografia do Led, não poderia deixar de citá-la, pois penso que ela não é tão mencionada quanto devia. Do restante da discografia, ou as músicas já foram muito bem documentadas ao vivo ou em coletâneas, ou não me chamam tanto a atenção a ponto de merecerem serem citadas aqui.

Mas tenho certeza que você também tem suas "injustiçadas" na carreira do Zepellin de Chumbo, certo? Então, deixe elas aí nos comentários, atendendo ou não aos meus critérios, e dê representação àquelas faixas que você gosta tanto, mas para as quais parece que ninguém mais no mundo parece ligar, seguindo (ou não) aos critérios que adotei para esta lista!

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Renaissance - Academy Of Music 1974 [2015]

Por Micael Machado

Há exatamente 50 anos, em 17 de maio de 1974, o grupo inglês Renaissance, formado à época pela cantora Annie Haslam, pelo violonista Michael Dunford, baixista Jon Camp, tecladista John Tout e pelo baterista Terence Sullivan, aportava na opera house The Academy of Music, em Nova Iorque, para duas apresentações em sequência, uma iniciando as oito da noite, a outra as onze e meia, ambas com abertura do também britânico Fairport Convention. O quinteto já havia tocado no mesmo local em março daquele ano, mas esta ocasião seria especial por, pelo menos, dois motivos: estariam apresentando as músicas do então recém lançado Turn of the Cards (ou ainda por lançar, pois Dunford chega a citar, antes de introduzir a canção "Black Flame", que "o novo álbum saiu alguns dias atrás, eu espero!"), e, mais importante que isto, estariam se apresentando ao lado de uma orquestra de 24 músicos, ideia sugerida pelo promotor do concerto, Howard Stein, ainda na apresentação de março. O primeiro dos dois shows foi transmitido pela rádio WNEW, e, depois de ser disponibilizado em vários bootlegs diferentes ao longo dos anos, foi lançado oficialmente em 2015 pela gravadora Purple Pyramid, nos formatos CD e vinil (ambos duplos) com o título bastante genérico de Academy Of Music 1974, e uma arte de capa de gosto "duvidoso", para dizer o mínimo, além de, em 2020, ser incluído na versão expandida (com 3 CDs e um DVD) do citado Turn of the Cards.

Mas, se título e capa deixam a desejar, o conteúdo musical apresentado nas bolachas é extremamente recomendável. Mostrando a confiança do grupo no novo material, cinco das seis faixas de Turn of the Cards fizeram parte do repertório da noite em questão. Ainda que sem maiores diferenças em relação aos arranjos de estúdio, é bastante curioso ouvir futuros clássicos como "Running Hard", "Things I Don't Understand" e, principalmente, "Mother Russia" (onde, na introdução, Dunford pede uma merecida salva de palmas para a orquestra que acompanha o grupo, sendo que, justamente esta faixa, é uma das quais ela possui maior destaque no disco inteiro), serem tocadas em frente a uma plateia que, em sua maioria, estava sendo apresentada a eles naquela noite (sendo que muitos ali, certamente, nunca haviam ouvido tais músicas antes). A já citada "Black Flame" (uma das minhas favoritas na discografia da banda) e a versão do grupo para o "Adagio in G minor" de Albinoni (que, segundo a wikipedia, foi na verdade composto por Remo Giazotto), chamado "Cold Is Being" (onde, na introdução, Dunford diz que "acredito que já tenhamos tocado esta na vez anterior em que estivemos aqui, o que faz com que seja a segunda vez que a interpretamos ao vivo") se tornariam bastante raras em set lists futuros, tornando suas presenças aqui ainda mais especiais.

O Renaissance em 1974: John Tout, Annie Haslam, Terence Sullivan, Jon Camp e Michael Dunford

Aos fãs que a banda já havia conquistado anteriormente, apenas quatro músicas foram apresentadas, mas as escolhas não deixam motivos para nenhum ressentimento. Começando pela maravilhosa abertura com os quase doze minutos de "Can You Understand", passando pela belíssima "Carpet Of The Sun", e culminando em uma fantástica versão de mais de vinte minutos para "Ashes Are Burning" (que conta com a presença do próprio promotor Howard Stein no segundo piano, além da participação, assim como na versão de estúdio, de Andy Powell, do Wishbone Ash, na guitarra elétrica, em uma das raras performances desta faixa com este instrumento durante a versão setentista da banda), a qual, ao lado da citada "Mother Russia", já bastaria para indicar a aquisição deste disco a qualquer fã da banda. O álbum e a apresentação (que totaliza pouco menos de noventa minutos) se encerram com outra magnífica versão, desta vez para "Prologue", onde Annie, no mais impecável ao longo de todo o show, dá um verdadeiro "baile" em muita cantora operística de banda de gothic metal do século XXI com o poder de sua abençoada garganta!

Como escrito na contracapa da versão em LP,  Academy Of Music 1974 encontra o Renaissance em um momento de virada, prestes a atingir a consagração com os álbuns posteriores Scheherazade and Other Stories e Novella, mas ainda desconhecidos o suficiente para estarem com o "sangue nos olhos" de uma banda que ainda tem conquistas a alcançar. Ainda citando a contracapa do LP, "podem haver outros registros ao vivo da banda tão bons quanto este, mas eles são de um momento posterior em sua carreira, com a banda já seguramente encaixada na posição de destaque que alcançaram. Aqui, o Renaissance ainda não havia atingido este status, e isto torna tudo diferente!" E, também, ainda mais especial, acrescento eu, cinquenta anos depois!

Contracapa da versão em vinil de Academy Of Music 1974

Track List (versão em CD):

CD1:

1. Can You Understand

2. Black Flame

3. Carpet Of The Sun

4. Cold Is Being

5. Things I Don't Understand

6. Running Hard

CD2:

1. Ashes Are Burning

2. Mother Russia

3. Prologue

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Resenha de Show: Augusto Licks, Carlos Maltz e Engenheiros Sem CREA (Porto Alegre, 21 de Abril de 2024)

Por Micael Machado

Fazia pelo menos trinta anos que o guitarrista Augusto Licks e o baterista Carlos Maltz não tocavam juntos no mesmo palco, desde a saída do primeiro da mais clássica formação do grupo gaúcho Engenheiros do Hawaii, conjunto que arrecadou milhares de fãs pelo país e (por que não?) pelo mundo. Um deles é o baixista/vocalista/tecladista Sandro Trindade, que desde 2016 mantém na ativa o tributo Engenheiros Sem CREA, tendo ao seu lado o guitarrista Jeff Gomes. O grupo de Sandro e Jeff chegou a tocar, em ocasiões separadas, tanto com Licks quanto com Maltz, até que surgiu a ideia de convidar os dois para tocarem ao mesmo tempo com o tributo de Sandro. Proposta aceita, o show de "reunião" de 2/3 da "formação GLM" dos Engenheiros foi anunciado em fevereiro deste ano, tendo data, hora e local marcados para acontecer: 21 de abril, ás 20h, no Bar Opinião, em produção da Abstratti Produtora. Quando soube da notícia, comprei meu ingresso nas primeiras horas em que os mesmos foram disponibilizados, e fiquei quase dois meses na expectativa de um show que, eu sabia, seria histórico! Sou fã dos EngHaw desde minha adolescência (lá por 1986, 1987), mais precisamente, desde que ouvi "Toda Forma de Poder" na trilha sonora da novela Hipertensão, da Rede Globo. Cheguei a assistir ao grupo ao vivo na fase do disco ¡Tchau Radar!, já sem Licks e Maltz, e assisti Humberto Gessinger em carreira solo algumas vezes, em uma delas até com a presença de Carlos Maltz junto a si, na gravação do que resultaria no CD/DVD Ao Vivo Pra Caramba, A Revolta Dos Dândis 30 Anos (mas, nesta ocasião, o baterista apenas cantou e tocou percussão em uma única música - ainda que a mesma tenha sido repetida duas vezes naquela noite, por problemas técnicos na gravação). Mas ainda não havia assistido Augusto Licks, um dos melhores guitarristas do chamado BROCK nacional, ao vivo sobre um palco, e havia, então, chegado a hora de corrigir esta "falha" no meu "currículo".

Foi com esta expectativa que rumei ao Opinião na tarde/noite de domingo, pronto para presenciar um reencontro que tinha tudo para nunca acontecer, se pensarmos na história dos envolvidos. Ainda antes de chegar ao local, um fato curioso: para quem não conhece o Opinião, o bar fica na esquina de duas ruas do bairro Cidade Baixa, na capital dos gaúchos. Pois em ambas as ruas que levavam ao local, no lado de fora mesmo, foram montadas as bancas de merchandising dos produtos do show, com copo (dez reais), pôster (vinte reais, e, "supostamente", autografado pelos músicos) e camiseta (noventa reais - infelizmente, não tinha confecção do meu tamanho) disponíveis para os fãs que iam chegando e rumando para a fila, numa atitude que achei muito interessante, pois permitiu que, quem quisesse garantir sua "lembrança do show", como anunciavam os vendedores, o fizesse sem precisar entrar na casa, enfrentar longas filas já no local do show, e ainda correr o risco de "perder o lugar" para ver ao show enquanto garantia seus itens. Excelente sacada da produtora (ou de quem foi o responsável pela ideia)!

Excelente também foi a organização do evento, com os portões abertos na hora marcada, permitindo às pessoas que estavam na fila (ainda em número pequeno perto de outras que já vi no local) que adentrassem confortavelmente no bar. A Abstratti separou o local em três setores ("pista vip", "pista comum" e "mezanino", algo que, devido ao tamanho do Opinião, sempre me parece algo bastante ridículo, pois a diferença entre um setor e outro não é tão significativa para justificar a diferença cobrada no preço dos valores entre os setores), e eu rumei para a pista comum, da qual tinha comprado ingresso. Pois foi com enorme surpresa que vi, passando ali pelo meio, o primeiro baixista dos Engenheiros, Marcelo Pitz, que circulava praticamente incógnito pelos poucos presentes que já estavam dentro do local. Confesso que não o reconheci de imediato, mas, alertado por alguém, logo o chamei e solicitei uma (hoje quase obrigatória) foto e seu autógrafo na capa do meu vinil de Longe Demais Das Capitais, único álbum da banda do qual ele participa. Ao lhe agradecer a atenção e disponibilidade, recebi de volta um "eu que agradeço a vocês, que ainda mantém a lembrança da gente com vocês!"! Achei muito bacana a atitude e a humildade de Pitz, além de sua imensa simpatia com aqueles que lhe abordaram!

Marcelo Pitz e o "bolha" que lhes escreve

Exatamente na hora marcada, às 20 horas, uma moça (da qual não guardei o nome, peço desculpas pela mancada) subiu ao palco, anunciou o show, agradeceu a presença "de gente do Brasil inteiro aqui esta noite", e disse que, depois do show, os músicos estariam recebendo os presentes para autógrafos e fotos, me fazendo sentir bem por ter levado meus vinis para o Opinião naquela noite. Os oito primeiros discos da banda já haviam tido sua capa autografada por Humberto na turnê do citado ¡Tchau Radar!, e Pitz havia acabado de assinar o primeiro deles. Parecia que eu conseguiria, enfim, "fechar" os demais membros do grupo, e "completar" minha coleção de autógrafos da banda, mas trataremos disso depois.

Primeiro, cabe dizer que, ainda com a "mestre de cerimônias" sobre o palco, Jeff, Sandro, Maltz e Licks subiram ao mesmo, iniciando o show, sem muita enrolação, com "Toda Forma de Poder", sucesso do disco de estreia dos EngHaw, ainda sem Licks, mas presente em toda a trajetória da formação GLM ao longo de sua duração. Já na segunda canção, veio aquela que, possivelmente, fosse a música que eu, particularmente, mais aguardava na noite: "Variações Sobre um Mesmo Tema", que os Engenheiros nunca (ou raramente) tocaram ao vivo, mas que eu já havia visto um vídeo de Licks e o grupo de Sandro tocando ao vivo em certa ocasião no passado. Infelizmente, na terceira parte da música, a qual conta com os vocais de Licks, o microfone do guitarrista falhou, e os dois primeiros versos ficaram sem serem ouvidos pelo público que, nesta altura, já lotava o Opinião (que ficou muito cheio ao longo de toda a noite, mas não ficou "completamente lotado" como em outras ocasiões que já presenciei no mesmo local). Augusto se moveu então para a frente do microfone de Sandro, completando a canção sem maiores transtornos, e, logo em seguida, emendou "A Revolta dos Dândis I", causando um novo alvoroço no pessoal. O final com arranjo mais "bluesístico" desta versão (como no disco Alívio Imediato, cuja capa, inclusive, estampava a camiseta que eu estava usando) trouxe Licks ao teclado, instrumento no qual ele continuou naquela que seria a grande "surpresa" do set list na noite: "Canibal Vegetariano Devora Planta Carnívora", música do álbum Gessinger, Licks & Maltz que foi a única da noite que não teve a letra cantada a plenos pulmões pela imensa maioria dos presentes ao bar, embora tenha sido reconhecida (e cantada) por boa parcela do público!

Um certo "bolha" curtindo o show no meio do público

Sandro direcionou o obrigatório "Boa noite, Porto Alegre!" ao pessoal e, a partir daí, os músicos partiram para o "jogo ganho", e o restante do set list foi só de "hits" enormes dos Engenheiros do Hawaii (talvez "Muros e Grades" ou "Ando Só" sejam "hits menores", na realidade, mas não para mim!). Uma sequência mais "lenta" com Sandro ao piano, englobando "Terra de Gigantes", "Pra Ser Sincero" (novamente com Licks nos teclados) e "Refrão de Bolero" (precedida por Licks tocando um trecho de "Besame Mucho" na guitarra, segundo o que li, algo que já havia sido feito na turnê de Várias Variáveis) "baixou" um pouco a empolgação da galera, mas, convenhamos, não tinha como estas três músicas ficarem de fora da noite (talvez se elas não tivessem sido "agrupadas", mas sim "espalhadas" pelo set list, a minha percepção teria sido diferente). A galera voltou a vibrar com a versão do quarteto para "Alívio Imediato" (outra onde Licks se dedicou às teclas em boa parte da execução), e o  clima de empolgação continuou "lá em cima" até a execução de "O Exército de Um Homem Só I", que, com seu final "apoteótico", parecia que iria  encerrar o show ali mesmo (e confesso que eu, de tanto ouvir Gessinger "emendar" as duas partes da canção em suas apresentações ao vivo, pensei que o quarteto iria fazer o mesmo, algo que, infelizmente, não ocorreu). Mas, logo depois do final da canção, Sandro puxou a faixa título do álbum O Papa é Pop, sendo outra canção deste álbum, a versão "EngHawlística" para "Era um Garoto que como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones", a encarregada de fechar os trabalhos regulares da apresentação!

Claro que o pessoal não arredou pé do Opinião tão fácil assim, e, sem muita enrolação, os quatro voltaram para interpretar outra cover, agora a versão de "Herdeiro da Pampa Pobre", presente no citado disco Várias Variáveis. Também deste álbum, veio em sequência "Piano Bar" (onde Sandro perdeu a oportunidade de cantar que "no táxi que me trouxe até aqui Humberto Gessinger me dava razão", preferindo se manter à letra original, que coloca Julio Iglesias no rádio do carro), com uma nem tão longa versão para "Infinita Highway" finalmente encerrando o show, para alegria e enorme empolgação de todos os presentes!

Em termos de performance, Jeff foi bastante discreto, chegando a sair do palco em certas músicas, deixando apenas o trio restante interpretarem as músicas, e Sandro foi um frontman efetivo, tocando muito bem tanto o baixo quanto os teclados (e até arriscando alguns toques nos bass pedals instalados à sua frente, tal qual Humberto fazia tanto solo quanto com a banda), além de ter um timbre de voz que se assemelha (mas não copia) o do líder dos Engenheiros. Licks e Maltz pareciam estar se divertindo bastante, alegres mas concentrados, e nem um pouco surpresos com a resposta extremamente positiva do pessoal ao reencontro dos dois. Tecnicamente, por parte dos dois músicos, a noite não foi livre de falhas, sendo que Carlos perdeu algumas batidas, e Licks chegou a dar umas "derrapadas" bastante perceptíveis (a maior delas, a meu ver, durante o solo de "Ninguém = Ninguém"). Mas, como Maltz disse a um fã depois da apresentação (quando o mesmo o elogiou pela performance na noite, dizendo que "parecia que ele - Maltz, no caso - nunca havia parado de tocar"), "hoje não era pra tocar tudo certinho, porque a emoção estava muito alta, não tinha como se concentrar para tocar perfeitinho!". Realmente, não teve quem não se emocionasse ao longo do show; um sujeito chegou a berrar, num dos raros intervalos mais prolongados entre as músicas, a frase "eu vivi pra ver esse show!", arrancando aplausos até de Licks, com Sandro lhe respondendo em seguida "nós também"! Depois do show, em rápida conversa com o CEO da Abstratti, quando o elogiei pelo excelente espetáculo que a produtora havia proporcionado a todos nós, o mesmo me falou "e tudo isto com apenas três ensaios. Imagina se eles estivessem mais entrosados"! Foi uma celebração e um clima de nostalgia tão positivo que envolveu a todos, e que, certamente, não será esquecido tão cedo por quem esteve presente ao bar naquele domingo!

O Set List da noite (ou o que sobrou dele)

Mas a noite ainda não havia acabado. Depois de muito insistir com os roadies para conseguir uma cópia do set list (que ficou um pouco rasgada, mas, tudo bem), rumei para o local indicado para o encontro com a dupla principal da noite. Na saída da área de backstage do Opinião, foi montado uma espécie de "cercadinho" à frente da porta de saída do bar, tendo esta em um extremo, e a van da banda no outro. Sendo assim, o pessoal se colocou, sem ordem alguma, em ambos os lados que sobravam da área delimitada. A longa espera de quase uma hora, pelo menos, serviu, pelo lado bom, para diminuir um pouco a quantidade de gente que aguardava a vinda dos músicos (pois a fila dobrava a esquina do bar logo depois de encerrada a apresentação), e também para conversar com alguns fãs que haviam vindo de longe especificamente para ver este show, como o sujeito de Fortaleza que possui quatro tatuagens com desenhos que remetem às capas de alguns discos do grupo espalhadas pelo corpo, ou o simpático trio de Maceió, ou ainda o senhor de Manaus que sofria com o "frio" gaúcho - agradáveis vinte e poucos graus - protegido por uma grossa jaqueta de couro e luvas, ou mesmo o casal que tinha passagem marcada para voltar a Miami na semana do show, mas trocou a data de embarque só por causa desta apresentação - cabe citar que, pelo que ouvi, havia gente de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Paraná, pelo menos, espalhados pelas dependências do bar naquela noite. Já passava das onze da noite quando Sandro, Licks e Maltz vieram encontrar o pessoal, começando pelo canto oposto ao que eu estava, o que causou a movimentação do pessoal que estava mais para trás no lado em que eu me encontrava para o ponto onde os artistas estavam, algo que, felizmente, não chegou a gerar um tumulto maior, mas acabou atrasando ainda mais o atendimento do pessoal por parte dos músicos. Quase duas horas depois do final da apresentação, finalmente, consegui ficar frente a frente com Maltz, e, depois de pedir seu autógrafo no livro "O último rei do rock", de sua autoria, praticamente "joguei" em suas mãos as capas dos oito vinis que havia levado, e soltei um "se você tiver paciência..." meio constrangido, ao qual Maltz respondeu com um largo sorriso, assinando pacientemente todos os itens logo depois. Mais um tempo se passou, e consegui chegar em Augusto Licks, repetindo a tática já usada com o baterista, iniciando a "sessão de autógrafos" com a entrega se sua autobiografia para ele assinar, e lhe entregando depois as capas dos sete discos nos quais ele tocou (deixei o primeiro de fora) e repetindo a frase "se você tiver paciência...", a qual ele respondeu com uma careta que deixou claro seu desgosto, sem, no entanto, se furtar de assinar todos os álbuns, um deles, inclusive, duas vezes! Como ainda havia muita gente por ali, e já estava quase passando da meia noite, não quis pedir para tirar as "famosas" fotos com os músicos, pois as "lembranças" desta noite memorável já estavam garantidas, e rumei então para casa, feliz e satisfeito, com a discografia da banda (em vinil), finalmente, autografada pelos quatro músicos que, em épocas diferentes, passaram pelos EngHaw naquele período! Pare ser melhor, só se esta noite se repetir algum dia no futuro, e, se não for pedir demais, com a presença de Humberto Gessinger novamente junto à dupla Carlos Maltz e Augusto Licks, dois sujeitos que, neste domingo de abril, proporcionaram um momento, sem dúvidas, histórico para seus fãs! Que os deuses da música (e o reticente 1berto) assim o queiram!

Um certo "bolha" tentando pegar alguns autógrafos de Carlos Maltz...

... e aguardando enquanto Augusto Licks autografa alguns LPs.

A discografia em vinil dos Engenheiros, finalmente, com os autógrafos de todos os envolvidos

Set List:

1. Toda Forma de Poder

2. Variações Sobre um Mesmo Tema

3. A Revolta dos Dândis I

4. Canibal Vegetariano Devora Planta Carnívora

5. Muros e Grades

6. Ninguém = Ninguém

Somos Quem Podemos Ser

7. Terra de Gigantes

8. Pra Ser Sincero

9. Refrão de Bolero

10. Alívio Imediato

11. Nau à Deriva

12. Ando Só

13. O Exército de Um Homem Só

14. O Papa é Pop

15. Era um Garoto que como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones

Bis:

16. Herdeiro da Pampa Pobre

17. Piano Bar

18. Infinita Highway

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Resenha de Show: Rick Wakeman (Porto Alegre, 11 de Abril de 2024)

 Por Micael Machado

* Nota: As fotos que ilustram esta matéria foram encontradas nas redes sociais. Se você for o autor ou publicou alguma delas, entre em contato pelos comentários para lhe darmos o devido crédito!

Jogos de luzes, pirotecnia, telões enormes de alta definição, instrumentos de vários tipos e cores diferentes, fumaça pelo palco, plataformas elevadas, e muitos outros tipos de "truques" são, frequentemente, usados em espetáculos musicais para "amplificar" a experiência de se assistir a um concerto, causando uma sensação de euforia e encantamento aos espectadores na plateia. Mas as mesmas sensações, vez por outra, podem ser causadas com um mínimo de iluminação, um palco sem nenhum ornamento para servir de enfeite, ocupado apenas por um piano de cauda, um pedestal segurando alguns teclados sobrepostos (no caso, do ângulo onde eu estava, eram aparentemente apenas dois, mas confesso que podiam ser três) e um único músico extremamente carismático e, acima disto, exuberantemente talentoso em sua arte, no caso, extrair música dos instrumentos citados acima. Pois um destes músicos, cada vez mais raros de encontrar, esteve no Salão de Atos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) no último dia 11 de abril, iniciando a parte brasileira de sua "Final Solo Tour" (alegadamente, a "turnê de despedida" do músico dos palcos mundiais), e presenteando aos ocupantes das cadeiras do local (que estava cheio, mas não lotado) com uma hora e meia de puro talento e muita musicalidade, sem o suporte de nenhum outro aparato que não seus instrumentos e seu dom para tocá-los!

Entrando no teatro, fiquei um tanto surpreso de ver apenas o piano e os dois teclados posicionados no palco. Sabia que o show seria no formato "solo", mas, para quem já presenciou Wakeman se apresentar com pelo menos uma dúzia de instrumentos o rodeando durante seus shows, achei "muito pouco" "apenas" dois teclados para o show inteiro. Pois, confesso, mesmo prestes a completar 75 anos de idade, Rick não precisou de mais do que isto para encantar a todos! Precisamente às 21 horas em que o show estava marcado para começar (ah, a "famosa" pontualidade britânica), um tema instrumental começou a tocar no sistema de som do Salão de Atos, com o músico adentrando o palco poucos segundos depois, acenando brevemente para a plateia, sentando-se aos teclados, e acompanhando as últimas notas do tema introdutório. Depois de alguns segundos improvisando sobre as teclas, iniciou "Jane Seymour", abrindo a noite com uma bela redenção de um tema presente em um de seus mais famosos discos em carreira solo. Ao final, Rick caminhou até o centro do palco, agradeceu as palmas, desculpou-se pelo seu "português terrível" ("frangôu frita", "Pelé", disse, em um sotaque forçadamente engraçado, antes de emendar "that's about it, really!") e anunciar que a música anterior havia sido feita para uma das esposas de Henrique VIII ("Henry teve seis esposas, eu só tive quatro", declarou, para risos do pessoal), e que a próxima música seria para outra das esposas de Henrique, voltando ao teclado para interpretar "Catherine Howard".

Rick Wakeman ao piano

Terminada a parte dedicada ao disco The Six Wives of Henry VIII, Rick voltou ao centro do palco para dizer que "eu já toquei em muitos discos, alguns melhores do que outros, e com muitas pessoas diferentes... e arruinei alguns discos de muitas pessoas, também. Mas a pessoa com quem mais gostei de tocar foi David Bowie, a quem amo muito". Com isto, anunciou que tocaria duas músicas de Bowie, "Space Oddity" e "Life on Mars?", interpretadas uma em sequência da outra no piano, para delírio do pessoal. Ao final, Wakeman caminha novamente pelo palco para dizer que, "em 1975, quando eu era muito pequeno (fazendo o gesto de uma pessoa baixinha com a mão), eu gravei um disco chamado King Arthur and the Knights of the Round Table, e o gravei com uma enorme orquestra, um enorme coro, uma enorme banda e muitos cantores. Hoje, sou apenas eu e...", apontando para os teclados de forma triste e cabisbaixa (além de tudo, o sujeito é um grande ator, tenho de reconhecer), anunciando logo depois um medley de músicas daquele disco, que passou por "Arthur", "Guinevere", "Merlin the Magician" e "The Last Battle". Depois dos quase vinte minutos dedicados à saga do Rei Arthur, Rick volta a pegar o microfone, desta vez para anunciar que iria tocar uma música sobre cavalos-marinhos, gravada em um álbum chamado Rhapsodies, "uma música que vocês provavelmente não conhecem, não é algo muito conhecido. Portanto, se eu cometer algum erro, vocês nem vão notar", voltando na sequência aos teclados para executar "Sea Horses"  (a qual eu, como ele já havia previsto, realmente não conhecia).

Com pouco mais de quarenta e cinco minutos de espetáculo, Wakeman sentou-se ao piano para dizer que "pensei que gostaria, nesta turnê, de tocar algumas músicas do Yes, mas seria complicado tocar muitas músicas completas sozinho, então, peguei muitos dos principais temas de algumas músicas que toquei com a banda, e os coloquei todos juntos em uma única composição! Espero que vocês reconheçam várias das canções, tem quase trinta delas nesta peça, a qual é muito longa, com cerca de três horas de duração!", emendando na sequência, "não, não é tão ruim assim!", para risos do pessoal. "Espero que vocês reconheçam algumas das melodias, eu chamo isto de 'Yessonata'!", disse, antes de iniciar uma medley de cerca de vinte minutos de trechos de clássicos de sua ex-banda, passando, dentre muitas que não reconheci, por "Close To The Edge", "Roundabout", "Wonderous Stories", "Awaken", "South Side Of The Sky", e encerrando com um trechinho de "And You And I" (confesso que não fiquei surpreso de não ter reconhecido nenhum trecho de alguma música do disco Tales from Topographic Oceans, álbum que, notoriamente, não é do agrado de Rick). Voltando ao centro do palco, após a imensa aclamação da plateia ao que havia acabado de testemunhar, Wakeman anuncia que gostaria de encerrar o show com duas composições que ele não havia escrito: "uma de John Lennon, que compôs 'Help', a qual eu tentarei tocar ao estilo do compositor francês Samson" (se é que eu entendi bem, e que, se minha pesquisa estiver correta, deve se referir ao pianista e compositor Samson Pascal François, o qual confesso não conhecer), "e 'Eleanor Rigby', a qual tentarei interpretar ao estilo do compositor russo Prokofiev" (este eu sabia a quem o músico se referia, por causa de suas composições para "Romeu e Julieta" e "Pedro e o Lobo").

Rick Wakeman falando com o público de Porto Alegre

Os dois temas dos Beatles interpretados em sequência nos teclados fecharam oficialmente a noite, mas é claro que o público queria mais de Wakeman. Sem muita enrolação para voltar para o bis, Rick agradeceu aos presentes, e disse que "em 1974, antes de vocês nascerem - mais uma tremenda ironia do músico, pois a maioria dos presentes já havia até passado da adolescência naquele ano-, eu escrevi uma peça musical para o livro de Júlio Verne 'Jornada ao Centro da Terra'. Eu a gravei com uma enorme orquestra, um enorme coro, uma enorme banda e muitos cantores, mas a escrevi inteira no piano, e foi assim que eu compus esta peça!", interpretando assim pouco menos de doze minutos dos principais trechos do disco Journey to the Centre of the Earth! Ao final, Rick acenou para a plateia, a aplaudiu, e saiu consagrado, mostrando que talento e genialidade musical dispensam aparatos tecnológicos ou alegóricos para encantar uma audiência.

Infelizmente, não houve sessão de autógrafos depois do espetáculo (segundo o pessoal da produtora, Wakeman estava com a saúde um pouco debilitada, além de precisar embarcar muito cedo no dia seguinte para São Paulo, onde se apresentaria no dia seguinte), na primeira vez em que algo assim ocorre em um show do simpático músico inglês a que estive presente. Finalizando, posso dizer que já assisti Wakeman acompanhado "apenas" de sua banda, junto com orquestra e coro, e agora "solo" no palco, e que o formato do espetáculo desta "última turnê" não deixou nada a dever aos anteriores. Coloco "última turnê" entre aspas porque, na camiseta vendida na banca de merchandising antes do show (e que não tinha muitos itens disponíveis, segundo a atendente, porque a maioria já havia sido vendida nos shows anteriores desta turnê latino-americana, que já havia passado por México, Chile e Argentina antes de chegar ao Brasil), a turnê era anunciada como "The Final Solo Tour - Part I", o que deixa um restinho de esperança de que uma eventual "Part II" traga este gênio novamente a estas terras! Vamos aguardar!

Set List:

1. Jane Seymour

2. Catherine Howard

3. Space Oddity / Life on Mars?

4. Arthur / Guinevere / Merlin the Magician / The Last Battle

5. Sea Horses

6. Yessonata

7. Help! / Eleanor Rigby

Bis:

8. Journey Medley

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Queen: Cinco Músicas Injustiçadas


Por Micael Machado

Confesso a vocês que, por muitos anos, a discografia da banda inglesa Queen só me atraía até o primeiro disco ao vivo, o magistral Live Killers, de 1979. Mas, com as sucessivas promoções feitas pelo site da Universal, principalmente ao longo do ano passado, tive a oportunidade de adquirir praticamente toda a coleção da banda, e dar uma "segunda chance" aos álbuns posteriores, os quais "menosprezei" por muitas décadas (embora conhecesse seus hits, é claro). Os registros pós Live at Wembley '86 ainda não encontraram lugares de destaque em meus ouvidos, mas os álbuns de estúdio entre estes dois discos ao vivo acabaram por me revelar algumas pérolas, as quais eu não tinha dado a devida atenção anteriormente, e que, aparentemente, outras pessoas também não, pois são músicas que, a meu ver, se encaixam bem no adjetivo que dá nome a esta coluna. Sendo assim, resolvi elencar cinco faixas que, a meu ver, deveriam ser mais escutadas/comentadas/destacadas na discografia de um dos grupos mais importantes da música na segunda metade do século passado, e, talvez, levar você a conhecer ou relembrar estas "joias escondidas". Lembrando que meus critérios para a seleção das faixas foram: as músicas não podem ter sido lançadas como single; não podem constar do track list de álbuns ao vivo oficiais (nem de bootlegs que eu conheça); não podem constar de coletâneas oficiais do grupo (pelo menos, não das mais famosas); não podem ter recebido versões de outros artistas (pelo menos, não ter recebido versões de grande repercussão no meio musical); serem músicas que me agradem mais do que outras bem mais "famosas" do que elas, e que, desta forma, eu julgue que mereciam mais atenção do que receberam por parte tanto da imprensa quanto dos fãs (e, por vezes, da própria banda). Sendo assim, vamos à minha relação (em ordem cronológica), e, se puder, deixe a sua nos comentários!

1. Sweet Lady (A Night at the Opera - 1975)

A Night at the Opera sempre foi meu disco favorito do Queen. Recheado de clássicos, possui em suas faixas algumas músicas que não chegaram a atingir tanto destaque quanto seus grandes hits, mas que não devem nada em qualidade em relação a eles. Uma destas canções "menores" é "Sweet Lady", faixa que o jornalista André Forastieri certa vez classificou como "a coisa mais Kiss que o Kiss não fez" na sua resenha do disco para a seção Discoteca Básica da saudosa Revista Bizz (edição número 84, publicada em julho de 1992). Pouco mais de 4 minutos de um hard rock pesado (para os padrões da banda) e nem tão rápido assim (exceto no final), mas extremamente divertido e agradável de ouvir. Segundo o Discogs, apareceu em uma edição dupla da coletânea Greatest Hits publicada apenas na Bulgária, e, aparentemente, foi tocada ao vivo em poucas ocasiões entre 1975 e 1976 (uma delas no show do Hyde Park de 1976, que chegou a ser gravado, mas nunca foi lançado oficialmente na íntegra). Sendo assim, pelos meus critérios, isto não a inviabiliza de constar desta lista, e foi um dos principais motivos que me levaram a escrevê-la!

2. Sail Away Sweet Sister (The Game - 1980)

Com o subtítulo "(To The Sister I Never Had)", é uma espécie de "homenagem" que Brian May, filho único, faz a "irmã que nunca teve", e que, segundo declarações que encontrei na internet, o guitarrista considera que sempre foi uma grande ausência em sua vida. Composição com todo o jeitão "épico" de outras faixas da banda, e um refrão excelente (e muito grudento!), incompreensivelmente (para mim, ao menos) nunca foi executada ao vivo pelo Queen, embora Brian a tenha interpretado em sua carreira solo, e o Guns and Roses a tenha incluído em seus shows da turnê dos Illusions - inclusive, ela aparece na edição deluxe do segundo Use Your Illusion, o que, pelos critérios, a impossibilitaria de estar aqui. Mas, como a versão do Guns consta apenas de Axl cantando a capella um curto trecho da faixa (normalmente, como uma espécie de "intro" para "Sweet Child O' Mine", como pode ser visto no DVD do show de Tóquio de 1992), eu não considero esta uma "cover" verdadeira, então, a desconsiderei para poder elencar esta verdadeira "pérola esquecida" do repertório dos ingleses em minha lista, já pedindo antecipadamente minhas excusas a quem não concordar com a "acomodação" feita pelo autor deste texto!

3. Don't Try Suicide (The Game - 1980)

Esta é outra faixa de The Game, e entra nesta lista nem tanto por sua parte musical (que, honestamente, nem me atrai tanto assim), mas sim pela temática anti-suicídio de sua letra, que implora para que alguém (não especificado) não cometa tal ato, elencando razões para que o mesmo não se concretize, embora de um jeito até certo ponto controverso, por deixar meio implícita uma interpretação de que "ninguém se importa" se você tentar se matar (através da frase "Nobody gives a damn" em certo ponto da letra), sendo que não é esta a interpretação que eu faço de sua temática. Uma parte mais rápida, onde Freddie canta "você precisa de ajuda, você precisa viver" ("you need help... you need life"), musicalmente, é melhor que o restante da composição, e reaparece como base durante o solo de Brian, executado de um jeito característico e único deste genial guitarrista, além da letra nesta parte específica parecer enfatizar a interpretação que tenho de que a temática da faixa afirma que viver a vida vale mais que acabar com ela por sua própria vontade. Está nesta lista, como expliquei, devido à sua temática, pois foi grande minha surpresa ao constatar que o Queen, cujas letras não costumavam abortar temas tão "controversos" quanto este (pelo menos, não tão controversos a este nível), ter escrito uma faixa com esta temática ainda nos anos 1980, e de ela, também para minha surpresa, ser tão pouco explorada (no sentido de "falada", "comentada") mesmo hoje em dia. Nunca foi tocada ao vivo, segundo a wikipedia, mas saiu como lado B de um single americano para "Another One Bites the Dust", lá em 1992, ou seja, doze anos depois do lançamento inicial do disco, o que, convenhamos, não a inclui nos critérios que a excluiriam desta lista, certo?

4. Football Fight (Flash Gordon - 1980)

Vamos combinar que a trilha sonora do filme do Flash Gordon rendeu muitos momentos "menores" à discografia da banda, com seus temas curtos entupidos de sintetizadores, e que não faziam muito sentido fora das telas. Não conheço quem defenda este disco, o colocando em uma posição "alta" no ranking de preferências da discografia, e, a meu ver, com exceção de "The Hero" e de "Flash's Theme" (ainda melhor em sua versão single), pouca coisa se salva neste álbum. "Battle Theme" é um destes momentos, mas, como a faixa pouco mais é do que uma reinterpretação do tema de Flash na guitarra (acrescida de um bom tema com sintetizadores "roubado" de "Flash To The Rescue", outra faixa desta mesma trilha sonora), sobra então "Football Fight", que, embora levada pelos sintetizadores, tem um ritmo bem agradável e atraente, com boa participação da bateria de Taylor e da guitarra de May (ainda que esta apareça em menos quantidade do que eu gostaria). O EP bônus da edição de 2011 traz uma "versão inicial" mais longa (e ainda melhor) que a oficial, com os sintetizadores substituídos pelo piano de Freddie, e mais com "cara" de uma música do Queen do que a que aparece no disco. Apesar de curta, uma faixa que, a meu ver, poderia ter sido mais explorada pelo grupo, mas que acabou relegada a "mais uma" de um disco quase totalmente esquecível! Uma pena!

5. Man On The Prowl (The Works - 1984)

Quando eu pensava no Queen tocando algo próximo do rockabilly, sempre pensei em "Crazy Little Thing Called Love" como o grande exemplo deste estilo na discografia da banda. Foi portanto com certa surpresa que encontrei esta pérola no track list de The Works, um disco do qual só conhecia os grandes hits, mas que guarda esta faixa meio que "escondida" lá no finalzinho do lado A do vinil. Conduzida pelo piano, é uma  faixa relativamente curta (pouco mais de três minutos e meio), que chegou a ser planejada, segundo a wikipedia, para ser lançada como single, mas acabou relegada ao lado B do EP Thank God It's Christmas (onde ganhou uma "versão estendida" na versão de 12 polegadas), e não achei registros de que tenha sido tocada ao vivo pela banda emalgum momento. Outra faixa que merecia um destino melhor!

Como já coloquei, os discos pós 1986 não são lá muito atraentes para mim, e encontrar nos discos pré 1979 faixas que não tenham sido registradas ao vivo, ou incluídas em coletâneas, ou "coverizadas" por bandas reconhecidas (como o fizeram, por exemplo, o Metallica e o Dream Theater), e das quais eu realmente gostasse, se tornou mais complicado do que eu pensava, portanto, diferentemente do que aconteceu com o Deep Purple, ficou complicado de indicar aqui mais músicas que poderiam ter aparecido nesta lista sem descumprir aos critérios que adotei. Sendo assim, fique á vontade para deixar você as suas indicadas como músicas "injustiçadas" na carreira do Queen nos comentários deste texto, seguindo ou não aos critérios adotados, e "dê voz" às suas músicas "desconhecidas" pela maioria do pessoal! Topam o desafio?