terça-feira, 13 de maio de 2014

Review Exclusivo: Marky Ramone's Blitzkrieg (Porto Alegre, 08 de maio de 2014)


Por Micael Machado

Foi em 09 de novembro de 1994. Os Ramones tocavam em Porto Alegre pela última vez, no ginásio Gigantinho, em uma noite que ainda tinha a abertura dos então iniciantes Raimundos e de um Sepultura em turnê de divulgação do recente Chaos AD. Foi a única oportunidade que eu tive de assistir ao meu grupo favorito em todos os tempos, pois o quarteto se separaria em 1996 para nunca mais voltar a tocar junto. Vinte anos depois, boa parte das emoções daquela noite inesquecível foram revividas graças ao show do Marky Ramone's Blitzkrieg, projeto organizado pelo ex-baterista do seminal grupo nova-iorquino para servir como um tributo à banda mais importante do movimento punk, e que se apresentou em um Bar Opinião lotado na última quinta feira.

Tudo bem que Marky costuma ser um habituée de nosso país, fazendo tantas turnês pelo Brasil quanto Paul DiAnno ou Deep Purple. Eu mesmo já o havia assistido ao lado do Intruders no mesmo Opinião em 2000, e o baterista até já gravou um DVD no local ao lado da banda gaúcha Tequila Baby, em 2005. Mas esta noite prometia ser diferente, pois o eterno Ramone teria ao seu lado Michale Graves, ex-vocalista dos lendários Misfits, em um set composto apenas por clássicos dos Ramones (os outros dois componentes do projeto não tiveram seus nomes anunciados ou divulgados, mas, pelo que apurei, seriam os argentinos Marcelo Gallo na guitarra e Aleandro V no baixo e backing vocals, informação esta sujeita a confirmação), além de uma ou outra música do ex-grupo do cantor. Cheguei no bar por volta das vinte e uma horas, e a expectativa e ansiedade por uma apresentação histórica eram amenizadas pelos clássicos do punk rock que rolavam no sistema de som, com direito a muito Clash, Ratos de Porão e a execução quase integral (por duas vezes!) do magistral Fresh Fruit For Rotten Vegetables, dos Dead Kennedys! O ambiente estava pronto, faltava apenas a atração principal!

Marky Ramone's Blitzkrieg no palco do Opinião

Sem que houvesse uma banda de abertura, já passava das dez e meia quando a intro "The Good, The Bad, The Ugly" começou a soar no sistema de som da casa (como era costume nos shows dos Ramones), com os músicos entrando no palco próximo ao final da mesma. Juro que pensei que eles emendariam "Durango 95", para fazer tudo ficar ainda mais parecido com um show de verdade do ex-grupo de Marky. Mas, após alguns acordes introdutórios dos instrumentos, Graves anunciou: "Nós somos o Marky Ramone's Blitzkrieg e esta se chama 'Rockway Beach'", começando a festa punk de forma diferente do tradicional, sem que ninguém reclamasse disso. Uma rápida parada para ajustes nos volumes dos amplificadores, com Michale aproveitando para agradecer ao público com um educado "thank you" (praticamente sua única declaração à audiência em toda a noite), e o massacre retornou com "Teenage Lobotomy", seguindo, daí para a frente, uma conhecida "receita" que foi praticamente sempre a mesma pelo resto do show: o baixista gritava "one, two, three, four", e lá vinha um clássico dos Ramones; "one, two, three, four", e outro clássico; "one, two, three, four", e uma um pouco menos clássica ("Havana Affair", "Tomorrow She Goes Away" - a melhor surpresa do repertório, ao menos para mim, e onde a galera acresceu um "ô-ô-ô" nos intervalos entre os versos do refrão que deixou a canção com uma muito bem vinda "cara" de Misfits -, "I Wanna Be Well", "Oh Oh I Love Her So", "Loudmouth"); "one, two, three, four" de novo, e mais uma composição que todos conheciam - várias faixas tiveram suas letras cantadas em uníssono o tempo todo pelo pessoal, como "I Don't Care", "Beat On The Brat", "The KKK Took My Baby Away", "I Wanna Be Sedated" ou "I Believe In Miracles" (onde Graves cantou o refrão de forma diferente da original, alongando mais as palavras, em uma interpretação que ficou bem legal), e as demais tinham, pelo menos, o refrão berrado a todo o pulmão pela galera (com idades variadas, indo desde jovens adolescentes a senhores de cabelos brancos, mostrando a abrangência do som do quarteto de Nova Iorque), que encheu o Opinião de forma como há tempos eu não via acontecer, e, muitas vezes, cantava tão alto que mal dava para escutar a voz de Graves, algo realmente tocante e impressionante. E tudo isso por mais de uma hora, praticamente sem interrupções nem bate papo desnecessário com a audiência.

Em uma das raras paradas entre as músicas, Michale pronunciou (em inglês): "Quando eu morrer, me deixe onde eu estiver, mas não me enterre no Cemitério de Mascotes". Era a senha para "Pet Sematary", música tema do filme de mesmo nome ("Cemitério Maldito", no Brasil), talvez o maior sucesso comercial da carreira dos Ramones, e que fez o Opinião balançar, quase que literalmente. Nesta canção, Graves trocou a frase "follow Victor to the sacred place" por "follow Marky to the sacred place", numa sacada divertida que poucos parecem ter percebido, empolgados que estavam em agitar na imensa roda de pogo que a canção abriu na pista do Opinião, ou então em cantar e agitar ao som da música, no caso dos que estavam nos andares superiores. A casa citada no começo de "Chinese Rock" também voltou a ser a Dee Dee, como na original dos Heartbreakers, e não a de Art, que aparece na versão gravada pelos "brothers" nova-iorquinos, uma das poucas mudanças nas letras que Graves incorporou a estas versões "tributo", cujo repertório, aliás, foi extremamente bem escolhido, com predominância, como já era esperado, de músicas dos três primeiros álbuns dos Ramones, os quais foram, cada um, interpretados quase que em sua totalidade, embora sempre se possa reclamar de que faltou esta ou aquela canção (no meu caso, muitas e muitas, podem acreditar, pois, se este show tivesse três horas de duração, ainda faltariam faixas que eu gostaria de escutar ao vivo, podem ter certeza!).

Momento do show do Marky Ramone's Blitzkrieg

Com Marky mandando ver atrás de seu kit como se ainda estivesse ao lado de seus "irmãos", para Marcelo e Aleandro a instrução parecia ser "nada de passear ou correr pelo palco", tendo os mesmos sua movimentação praticamente limitada a andar para a frente e para trás em linha reta, seguindo à risca a regra implantada pelo saudoso Johnny Ramone ainda nos primórdios do grupo de Nova Iorque. Nesta quase reencarnação dos Ramones no palco do Opinião (Gallo, quando se abaixava com as pernas abertas e a guitarra abaixo dos joelhos, como Johnny costumava fazer, aparentava ser impressionantemente semelhante ao guitarrista), Graves era o ponto destoante, pois, além da voz bastante diferente da de Joey (e quem conseguiria cantar igual ao nosso amado Jeffrey?), sua atitude em cena era o oposto da do cantor original do quarteto, pois, enquanto Joey permanecia parado junto ao pedestal do microfone, Michale pulava e agitava quase o tempo todo, sendo que por vezes ele ainda dançava de modo bastante engraçado, balançando braços e corpo de forma meio descoordenada, de modo que ficava difícil diferenciar se ele estava dançando ou tendo um ataque epilético! Um verdadeiro entertainer, que demonstrou um grande carisma, felicidade por estar no palco e todas as qualidades que um verdadeiro frontman deve possuir, além de cantar "prá cacete" (mesmo que esquecesse umas poucas frases de vez em quando, ou não conseguisse cantá-las devido ao fôlego faltar de tanto que ele agitava), não se limitando a tentar copiar as frases originais de Joey, mas colocando seu próprio estilo e suas interpretações em muitas delas!

"Pinhead" (e um impressionante coro de "Gabba Gabba Hey" por parte da audiência) encerrou a primeira parte da apresentação, com todos deixando o palco pela primeira vez na noite. Após dois longos (para os padrões ramônicos) minutos passados ao som do constante "Hey Ho Let's Go" entoado pela galera, os músicos retornam para o bis, que iniciou com "Do You Remember Rock 'n' Roll Radio?", para a festa da galera, que ainda pode curtir mais algumas músicas, como "She's The One" (uma das minhas favoritas do disco Road To Ruin, que marcou a estreia de Marky nos Ramones), as covers para "California Sun" (Joe Jones), "R.A.M.O.N.E.S." (Motörhead) e uma até certo ponto inesperada "Have You Ever Seen The Rain?" (Creedence Clearwater Revival), todas registradas pelos "brothers" em algum momento de sua carreira, além das festejadas "I Just Want To Have Something To Do", "Cretin Hop" e "Surfin' Bird" (outra cover, desta vez dos Trashmen), fortíssima candidata ao posto de "música mais retardada da história", mas que é sempre divertida e extremamente bem vinda, merecendo por parte de Graves uma interpretação memorável nesta noite, especialmente em sua segunda parte. 

Michale Graves em momento "voz e violão"

Michale fica então sozinho no palco, apanha um violão com os roadies, dedica um "thank you very much" ao público e manda, somente com o acompanhamento do instrumento e das vozes do pessoal, dois clássicos do seu período à frente dos Misfits, a espetacular "Dig Up Her Bones" (que soou bem agradável nesta forma acústica, mas não superou de forma alguma a energia do original) e "Saturday Night", que já tem mesmo um jeitão de balada na versão de estúdio, e se encaixou perfeitamente nesta configuração "voz e violão". Mais uma vez, chamou a atenção a resposta dada pelo público, que cantou as duas canções do início ao fim, e em altíssimo volume, para visível satisfação do cantor, que teve seu nome gritado em uníssono pelo pessoal no breve intervalo feito entre elas!

Os outros músicos retornam então ao palco, com Marky parando no centro para anunciar "Michale Graves, o melhor cantor que o Misfits já teve" (naquele momento, era difícil discordar disso, embora saibamos todos que não era bem verdade), e o show termina com a "quase" inesperada "Life's A Gas" (Michale arruinou a surpresa anunciando a música em entrevista dada dias antes do show), a cover para "What A Wonderful World" (que, mesmo sem ser anunciada, foi entendida por todos como uma homenagem a Joey, que a gravou em seu primeiro disco solo, Don't Worry About Me) e a muito esperada "Blitzkrieg Bop", que arrancou das gargantas de todos os últimos fiapos de voz que ainda restavam ali! Memorável!

Marky Ramone saudando o público do Opinião

Podem chamar de caça-níquel, ou acusar Marky de fazer este tipo de show apenas para manter sua imagem em evidência no cenário, utilizando o nome do grupo que integrou por anos, mas do qual nem era um membro original ou de maior destaque. O fato é que, depois de uma hora e meia de muito Ramones (com um pequeno tempero de Misfits para adicionar sabor à refeição), ninguém ali saiu insatisfeito, e o baterista e seus comparsas entregaram ao público exatamente aquilo que ele queria: diversão, suor e alegria, animados por algumas das mais clássicas músicas do melhor punk rock já produzido! E ainda tem gente que não aceita que os Ramones foram a melhor banda da história! Na saída de um show fantástico e emocionante como este, duvido que algum dos presentes não concordasse com esta afirmação! Pelo local que o abrigou, pelas músicas tocadas (quase todas clássicos de grande porte), pela qualidade cristalina do som (como é normal acontecer no Opinião), pela entrega e devoção do público (emocionante!), e por ser um show dos Ramones (embora sem a presença do grupo), digo que esta apresentação superou com folgas a do Guns and Roses ocorrida em abril, e abocanha dela o título de “show do ano” em Porto Alegre! Haverá algum que o supere até dezembro? Acho difícil!

"One, two, three, four! Hey Ho, Let's Go!"

Set List:

1. Intro (The Good, The Bad, The Ugly)

2. Rockway Beach

3. Teenage Lobotomy

4. Psycho Therapy

5. Do You Wanna Dance?

6. I Don't Care

7. Sheena Is A Punk Rocker

8. Havana Affair

9. Tomorrow She Goes Away

10. Commando

11. I Wanna Be Well

12. Beat On The Brat

13. 53rd & 3rd

14. Now I Wanna Sniff Some Glue

15. Gimme Gimme Shock Treatment

16. Rock And Roll High School

17. Oh Oh I Love Her So

18. Judy Is A Punk

19. I Believe In Miracles

20. The KKK Took My Baby Away

21. Pet Sematary

22. Chinese Rock

23. I Wanna Be Sedated

24. Loudmouth

25. I Don't Wanna Walk Around With You

26. Pinhead

27. Do You Remember Rock 'n' Roll Radio?

28. I Just Want To Have Something To Do

29. She's The One

30. California Sun

31. Have You Ever Seen The Rain?

32. Cretin Hop

33. Surfin' Bird

34. R.A.M.O.N.E.S.

35. Dig Up Her Bones

36. Saturday Night

37. Life's A Gas

38. What A Wonderful World

39. Blitzkrieg Bop

sábado, 10 de maio de 2014

Wolfmother - Wolfmother [2005]


Por Micael Machado

Qual o melhor disco do século XXI? Estamos apenas nos aproximando da metade da segunda década do mesmo, mas, até aqui, a resposta para esta questão é, a meu ver, simplesmente óbvia: nestes quatorze anos, nenhum álbum conseguiu me cativar mais do que Wolfmother, a estreia da homônima banda australiana capitaneada pelo vocalista e guitarrista Andrew Stockdale, lançada em 2005 no país natal do então trio, para depois conhecer o mundo ao longo do ano seguinte, com um track list rearranjado e a inclusão de uma faixa extra para o mercado internacional. Há tempos um álbum de uma banda nova não me empolgava tanto desde a primeira audição, e, até aqui, nenhum outro conseguiu a mesma façanha.

Surgido em 2000 na cidade de Sydney, e tendo Chris Ross (baixo e teclados) e Myles Heskett (bateria) como colegas do chefão Andrew, o grupo começou a obter mais destaque em 2004, ao assinar com a gravadora Modular Recordings, sediada em seu país natal. Em setembro daquele ano, sairia seu primeiro EP, também intitulado Wolfmother, com quatro canções que depois seriam regravadas para o disco de estreia do grupo, gravado em apenas duas semanas no famoso estúdio Sound City, em Los Angeles, sob a produção de Dave Sardy (que já havia trabalhado com grupos como Slayer, Jet e Oasis), e lançado na Austrália a 30 de outubro de 2005, aparecendo no mercado mundial no decorrer de 2006, em datas diversas dependendo do país de lançamento.

Nas treze faixas da versão "estrangeira" de Wolfmother (cuja linda capa deriva da obra The Sea Witch, do artista Frank Frazetta), o trio se mostra claramente influenciado pelo melhor do hard rock setentista, como comprovam a suingada "Witchcraft" e seu belo solo de flauta (executado pelo músico convidado Dan Higgins, mas que poderia muito bem ter sido gravado por um Thijs Van Leer ou um Ian Anderson, para não citar seu empolgante refrão), a acústica "Vagabond", que parece saída das sessões de Led Zeppelin III, ou a agitada "Dimension", que possui um trecho mais lento no meio que não soaria deslocado em um dos primeiros discos do Black Sabbath - tudo isso sem mencionar "Where Eagles Have Been", que chega a parecer um tributo à carreira do Led Zeppelin ao longo de seus variados cinco minutos e meio. O grupo também apresenta neste debut forte influência do psicodelismo inglês da década de 1960, como se pode confirmar no final de "White Unicorn" ou na viajante "Mind's Eye".

O Wolfmother em 2005: Myles Heskett, Andrew Stockdale e Chris Ross

"Joker & the Thief", um dos seis singles retirados do registro, e também um de seus maiores destaques, reúne perfeitamente estes dois lados dos australianos, o que não impede que composições mais simples como a pesada e monolítica "Colossal" (que, ainda por cima, ganha uma parte extremamente veloz mais perto do final), "Apple Tree" (que soa como uma sobra de algum álbum dos White Stripes) ou "Woman" (que fez parte da trilha do jogo Guitar Hero II, e possui um solo de teclado totalmente maluco na sua parte intermediária) consigam seu próprio destaque em meio a faixas tão empolgantes. O mesmo acontece com a suingada "Love Train", a "faixa extra" exclusiva para o mercado internacional, e que sempre me lembrou um pouco o início do T. Rex, não sei bem por quê.

A fascinante "Pyramid" possui um riff repetitivo e bastante pesado, reforçado pela distorção aplicada ao baixo, e uma melodia de guitarra que transpassa a música quase substituindo o vocal em certos momentos, com o track list sendo então completado por "Tales", que não é uma versão para a música de mesmo nome registrada pelo Uriah Heep, mas sim uma bela composição que reúne com perfeição o lado viajante e o lado hard setentista do trio australiano. A título de registro, cabe citar que existem ainda duas outras versões do álbum, ambas norte-americanas: uma que acrescenta "Colossal", em versão ao vivo no festival Big Day Out, e outra que possui remixes para "Woman" e "Love Train", totalizando assim quinze faixas.

Infelizmente, a altíssima qualidade do álbum não foi sinônimo de uma carreira de sucesso para o Wolfmother, e, após a turnê de divulgação do mesmo, Ross e Heskett deixaram Andrew sozinho com o nome do grupo, devido a divergências musicais e pessoais. O compositor não se intimidou, remontou a banda como um quarteto, e lançou em 2009 o regular Cosmig Egg, que, apesar de inferior à estreia, também renderá boas audições a quem se dispuser a ouvi-lo. Esta segunda encarnação também não durou muito, com Stockdale partindo para uma carreira solo (iniciada pelo irregular, mas interessante, Keep Moving, de 2013, composto por faixas que deveriam estar no terceiro disco do Wolfmother), a qual foi logo abortada para ver surgir uma terceira encarnação do grupo do qual o vocalista e guitarrista é, por mérito e direito, o dono da bola, desta vez com a volta do baixista Ian Peres (que esteve na segunda versão) e a chegada do baterista Vin Steele, completando assim uma nova formação em trio para os australianos.

Contracapa da versão internacional de Wolfmother

Que Andrew Stockdale consiga resolver seus problemas com os músicos que lhe acompanham, e siga registrando mais discos de qualidade como tem feito ao longo dos anos (como o recente New Crown, de março deste 2014). Mesmo que nenhum deles chegue a superar sua maravilhosa estreia (algo bastante improvável, a meu ver), com certeza renderão vários bons momentos auditivos. Ao menos, é no que acredito.

She's a woman, you know what I mean... She's gonna set you free!

Track List (versão internacional):

1. "Dimension"
2. "White Unicorn"
3. "Woman"
4. "Where Eagles Have Been"
5. "Apple Tree"
6. "Joker & the Thief"
7. "Colossal"
8. "Mind's Eye"
9. "Pyramid"
10. "Witchcraft"
11. "Tales"
12. "Love Train"
13. "Vagabond"

domingo, 27 de abril de 2014

Review Exclusivo: Focus (Porto Alegre, 18 de abril de 2014)


Por Micael Machado
Fotos por Mairon Machado *

Sexta-feira Santa. Para os cristãos, dia de meditação e reflexão sobre o sacrifício que Jesus Cristo fez pela humanidade. Para os fãs de rock progressivo do Rio Grande do Sul, dia de se dirigir ao excelente Teatro do CIEE, na capital gaúcha, para conferir a apresentação do grupo Focus, a melhor e mais importante banda do estilo já surgida na Holanda (que me perdoem os apreciadores do Golden Earring). Pela terceira vez em Porto Alegre (trazidos pela Abstratti Produtora), o quarteto atualmente formado por Thijs van Leer (teclados, flauta, vocalizações), Pierre van der Linden (bateria), Bobby Jacobs (baixo) e o novato Menno Gootjes (guitarra) vinha apresentar as músicas de seu mais recente disco, Focus X (um dos melhores lançamentos de 2012, na opinião deste que vos escreve), além daquelas composições clássicas acumuladas ao longo de quase quarenta e cinco anos de carreira. Este foi o sétimo de oito shows programados para a turnê brasileira deste ano, sendo que o grupo já vinha de outras apresentações na América do Sul, realizadas na Argentina e no Chile.

O grupo holandês Focus no Teatro do CIEE

Passados pouco mais de cinco minutos das dez horas da noite (horário estipulado para o início do espetáculo), as cortinas do teatro se abriram e a apresentação começou com "Focus I", do álbum de estreia, Focus Plays Focus (também conhecido como In and Out of Focus), onde van Leer fez uma mistura das versões instrumental e vocal deste clássico. Ao final, o quarteto emendou um pequeno trecho de “Anonymous”, do mesmo disco, e ali, com menos de cinco minutos de show, já ficava claro que a grande estrela da noite seria Pierre van der Linden, com sua técnica absurda e uma "mão esquerda" fenomenal. Nos pequenos solos entre frases desta canção, e em outros momentos de destaque ao longo da noite, o ex-baterista do Trace (presente na fase clássica do Focus nos anos 1970, e que retornou ao grupo em 2004) demonstrou que idade não é documento quando se tem um talento tão grande quanto o deste monstro das baquetas!

A animada "House Of The King" foi a primeira canção a agitar o pessoal em suas cadeiras, tendo seu ritmo acompanhado com palmas por parte do público. "Aya-Yuppie-Hippie-Yee", uma das poucas composições registradas já no século XXI escolhidas para integrar o set list (e que aqui recebeu diversos improvisos ao longo de sua duração, o que a tornou muito mais longa que a versão de estúdio), serviu para demonstrar que Menno Gootjes é digno de honrar as seis cordas do Focus, caso Focus X ainda não tenha convencido os fãs do grupo. Seu timbre e estilo são um pouco mais pesados que o dos guitarristas anteriores do conjunto (especialmente Jan Dumée e o inigualável Jan Akkerman, para muitos, até hoje, o único músico digno do posto), mas ele sabe muito bem colocar coração e melodia nas faixas onde isto se faz necessário, mostrando-se uma boa escolha para o posto. 

Menno Gootjes, Pierre van der Linden e Bobby Jacobs

A inesperada "Focus V" foi seguida pela clássica e variada "Eruption", que se estendeu por vinte e um minutos embasbacantes, onde todos os músicos tiveram oportunidade de demonstrar sua enorme técnica, e na qual van Leer pode, pela primeira vez na noite, fazer um solo mais longo em sua flauta (um momento sempre emocionante para qualquer fã de rock progressivo, especialmente pela forma peculiar de tocar deste gênio holandês, um dos poucos flautistas do "mundo do rock" facilmente reconhecível logo aos primeiros acordes), além de realizar uma brincadeira vocal com os espectadores, onde ele cantava um trecho e pedia para a audiência repetir, e que, é claro, terminou com Thijs cantando algumas frases no tradicional estilo yodel, característica que lhe acompanha há tempos. A apresentação então teve sequência com outro momento de empolgação para o público, a popular "Sylvia", um dos grandes hits da carreira dos holandeses, precedida por uma espécie de "improviso" por parte dos músicos que não foi nenhuma surpresa para quem acompanha as apresentações ao vivo do Focus nestes últimos anos (onde, felizmente, os holandeses costumam vir com frequência ao nosso país).

Chegava então a hora de "apresentar" o disco novo aos gaúchos, e "Birds Come Fly Over (Le Tango)" (onde a voz de Ivan Lins foi substituída por trechos instrumentais tocados por van Leer na escaleta) e "All Hens on Deck" (na qual Gootjes foi obrigado a tocar mais da metade da composição sem uma das cordas da guitarra, quebrada logo após o primeiro solo) foram dignas representantes de Focus X. Thijs então improvisou um solo de teclado enquanto Menno consertava a corda quebrada, e continuou com uma linda e longa versão para "La Cathedrale de Strasbourg", a qual, pessoalmente, achei inferior à apresentada no mesmo local em 2010. Esta foi emendada a outra composição do disco Hamburger Concerto (de 1974), a agitada "Harem Scarem", que também recebeu uma injeção de improvisos (inclusive um longo solo de baixo, onde Jacobs também se mostrou digno de ocupar o posto de baixista desta lendária instituição holandesa, algo que aqueles que não pararam no tempo e continuam acompanhando o Focus já sabem há tempos) que fez com que a faixa chegasse aos dez minutos de duração. Maravilhoso!

Thijs van Leer e Pierre van der Linden, os membros remanescentes dos anos 1970

Os músicos então se retiraram do palco, deixando apenas Thijs van Leer sob os holofotes, que nos presenteou com um longo solo de flauta, onde passeou pelo palco, cumprimentando os presentes sem, em nenhum momento, parar de tocar. Quem já viu alguma apresentação anterior do grupo sabia que, logo após, chegaria um dos ápices da noite, e a aguardada "Hocus Pocus" foi então iniciada pelo tecladista. Há tempos que van Leer não consegue mais alcançar os altíssimos agudos da versão de estúdio, deixado os mesmos para a guitarra e o público, mas isso não impediu ninguém de se divertir neste que é o clássico maior da discografia dos holandeses. Inesperadamente, não houve a tradicional apresentação dos músicos no último verso, e a canção acabou de forma até um pouco abrupta, com os músicos se reunindo no centro do palco para agradecer ao bom número de presentes que compareceram para lhes prestigiar.

A noite estava chegando ao final, mas, após pouco mais de uma hora e quarenta e cinco minutos, ainda houve tempo para um único bis, que se constituiu em uma linda versão de "Focus III", a qual, enfim, encerrou uma apresentação que, embora não tão marcante quanto as duas anteriores em Porto Alegre (pelo menos no meu entender), compensou plenamente quem decidiu adiar a saída para o feriadão visando escutar belas composições de rock progressivo em um local perfeitamente adaptado para tal. O objetivo destes foi, graças ao Focus, plenamente atingido, ainda mais para aqueles que se dispuseram a esperar alguns minutos depois do final do show, os quais tiveram a oportunidade de encontrar com os músicos para uma sessão de autógrafos no hall do teatro! Se for para nos prestigiar com mais músicas deste naipe, e com a simpatia de Van Leer e seus comparsas, que voltem logo ao Brasil, e à Porto Alegre, mais uma vez!

"Oy-ororôe-ororôe-ororôe-ororôe-ororôe-ororô-pó-pó"

Momento da apresentação do Focus no Teatro do CIEE

Set list:

1. Focus I / Anonymous (trecho)
2. House Of The King
3. Aya-Yuppie-Hippie-Yee
4. Focus V
5. Eruption
6. Sylvia
7. Birds Come Fly Over (Le Tango)
8. All Hens on Deck
9. La Cathedrale de Strasbourg
10. Harem Scarem 
11. Flute Solo
12. Hocus Pocus 

Bis

13. Focus III

* Com agradecimentos ao pessoal da Abstratti pela atenção e cadastramento para a apresentação!

Discografia Comentada: Hellfueled


Por Micael Machado

O álbum No More Tears, lançado em 1991 por Ozzy Osbourne, é considerado um dos melhores trabalhos da carreira solo do lendário cantor inglês, além de ter consolidado a reputação de Zakk Wylde como um dos grandes guitarristas dos anos 1990, e servir de influência para muitos aspirantes a músicos em todo o mundo.

Quatro destes rapazes com certeza são os garotos suecos que formaram, em 1998, o Below, que depois mudaria de nome para Firebug. Com a formação estabilizada em Andy Alkman (vocal), Jocke Lundgren (guitarra), Henke Lönn (baixo) e Kent Svensson (bateria), o grupo gravou algumas demos e mudou novamente de alcunha (para Hellfueled, com o qual ficariam conhecidos daí por diante) antes de assinar com a gravadora Black Lodge e lançar seu primeiro disco em 2004. Chamando a atenção dos fãs de metal por causa da incrível semelhança da voz de Andy com a do Madman, e pelo estilo de Lundgren ser muito influenciado por Wylde, o grupo alcançou grande repercussão em sua estreia, e construiu uma carreira bastante interessante desde então.

Confira agora uma análise dos quatro lançamentos dos garotos originários da cidade de Huskvarna!

Volume One [2004]

Se este fosse um álbum da carreira solo de Ozzy Osbourne, com certeza seria um de seus melhores trabalhos. A abertura (com a veloz "Let Me Out") já deixa isso claro, com a guitarra soando ao melhor estilo Zakk Wylde (cheia dos bends e vibratos característicos do americano) e os vocais muito semelhantes aos de Ozzy (além de um pouco de órgão Hammond na melodia para deixar tudo ainda melhor - instrumento que ficou a cargo do renomado Fredrik Nordstrom, que ficou responsável pela produção do trabalho e ainda executa um solo de guitarra em "Eternal"). Faixas como "Someone Lives Inside", a citada "Eternal" (com um trecho mais "viajante" lá pelo meio), "Rock´N´Roll" (um pouco mais cadenciada), "Hunt Me Down" (e seu fantástico riff) ou "Mindbreaker" poderiam estar em qualquer disco do Madman pós-No More Tears, e certamente seriam apontadas como destaques de tais álbuns. "Live My Life" (cujo riff inicial lembra "Rat Salad"), "Midnight Lady" (que ganhou um interessante vídeo clipe) e boa parte de "Break Free", apesar de rápidas, soam mais ao estilo dos primeiros discos do Black Sabbath, sendo que a segunda ainda gerou um EP que contém duas faixas inéditas e exclusivas (intituladas "Endless Work" e "Big Fat Eight"). Não fosse pela voz, a pesada (apesar de mais calma) "Sunrise" seria a que menos lembraria as composições da carreira solo do famoso comedor de morcegos, e o track list se completa com "Second Deal", que possui um riff repetitivo e muito atraente. Muitos não dão tanta atenção a este disco, acusando-o de ser uma mera cópia dos trabalhos do Madman pós-Sabbath, mas eu afirmo que este é justamente o maior atrativo deste play. Ouça e confira você mesmo!

Born II Rock [2005] 


Após tocar em grandes festivais europeus e abrirem para o Europe na turnê de reunião deste ícone do rock sueco, era hora de lançar o segundo disco da carreira do Hellfueled. Como em time que está ganhando não se mexe, Born II Rock repete o produtor Fredrik Nordstrom, e vem na mesma pegada da estreia do quarteto, como fica claro em um de seus maiores destaques, a faixa de abertura "Can't Get Enough" (que tem a bateria a cargo do engenheiro e co-produtor Patrik J Sten, que já havia executado percussão e backing vocals no registro anterior, além das mesmas funções técnicas), ou em canções como "Look Out" (que parece saída dos discos gravados pelo Madman na década de 1980, além de ter recebido um clipe promocional), "Friend" (que possui um trecho acústico em seu arranjo, com um violão flamenco a cargo do músico convidado Emil Pernblad, e nova participação de Nordstrom no órgão Hammond) ou a veloz "Old" (que possui um trecho mais cadenciado lá pelo meio). O peso e o timbre das guitarras em "Regain Your Cromn" e "Make It Home" chegam a lembrar algumas coisas do Black Label Society, assim como o riff inicial da faixa título e partes de "Girls Girls" e "Angel". "On The Run" é uma das faixas mais velozes da carreira dos suecos, e o track list é completado pela também veloz "I Don't Care", onde a guitarra de Lundgren (assim como em quase todo o álbum) é o destaque, apesar de soar como se executada por Zakk Wylde. Born II Rock é a sequência natural de Volume One, e as acusações de que o Hellfueled era pouco mais que uma mera cópia da carreira solo de Ozzy Osbourne não diminuíram nem um pouco por causa deste registro, sendo que, a meu ver, isso não constitui nenhum problema!

Hellfueled: Jocke Lundgren, Henke Lönn, Andy Alkman e Kent Svensson

Memories In Black [2007]

Parece que as constantes acusações (nem um pouco infundadas) citadas na última linha do texto acima começaram a incomodar os membros do Hellfueled após o segundo disco. Ao menos, é esta a impressão que se tem após ouvir seu terceiro registro, onde o conjunto se afasta um pouco do estilo "Madman" de compor, pisa um pouco no freio e injeta muitas doses de melodias nas doze faixas do play (que novamente contou com Fredrik Nordström na produção). A abertura com "Rewinding Time" chega a ser até um pouco chocante, pois mesmo a característica voz de Andy soa diferente (um pouco mais grave), não parecendo mais uma simples imitação do estilo do ex-cantor do Black Sabbath. As linhas de guitarra também não parecem mais tão derivadas de Zakk Wylde (embora o peso ainda seja digno de um Black Label Society), e o órgão Hammond (desta vez a cargo do músico convidado Mattias Bladh, que também executa o instrumento em outras músicas do disco) tem uma presença marcante. A viajante e psicodélica "Again" (que novamente apresenta o engenheiro/co-produtor Patrik J Sten nos backing vocals), apesar de alguns trechos mais pesados no refrão, nem parece ter sido gravada pela mesma banda dos discos anteriores, assim como a pesada "Queen Of Fire" (bastante "arrastada" para os padrões dos suecos) ou a oitentista "Down" (e seu marcante refrão). Lembrando muito a primeira fase do Sabbath com Ozzy (apesar do vocal não apresentar tanta semelhança quanto antes), "Sky Walker" se encaixa muito bem sob o rótulo de stoner metal, estilo que também dá as caras em "Face Your Demon" (outra composição com destaque para o Hammond) e na excelente "Master Of Night", onde os vocais de Andy apresentam alguns efeitos bastante interessantes (confira uma versão ao vivo desta faixa aqui). É claro que alguns resquícios do passado ainda dão as caras no álbum, principalmente nos riffs de "Warzone", "Slow Down" ou da agitada "Search Goes On" (que poderiam facilmente estar em um disco do Black Label Society), assim como em partes da veloz "Right Now", que contém na letra a frase que dá título ao play, ou ainda em trechos de "Monster" (cuja condução é bem "marcada"), música que conta com o consagrado Snowy Shaw (Mercyful Fate, Dream Evil, Therion) nos backing vocals. Algumas edições, como a versão nacional (distribuída no país pela Hellion Records, assim como os registros anteriores), apresentam ainda duas faixas bônus, a agitada "Song For You" (que também tem uma pegada Stoner em seu arranjo) e "5 am", talvez a que mais se pareça com a carreira solo de Ozzy no disco (até a voz de Andy soa diferente das demais canções, aqui ficando mais próxima do registro do Madman). Um disco diferente dos anteriores, mas não menos interessante. (nota do redator: não consegui encontrar links adequados para as faixas deste álbum, mas você pode ouvir um pequeno trecho de cada canção aqui, se desejar)

Emission Of Sins  [2009] 


Apesar da troca de produtor (quem assume os botões agora é Rikard Löfgren), este disco continua do mesmo ponto onde o anterior parou. Se o vocal volta a apresentar muitas semelhanças com o do nosso amado comedor de morcegos (como na "quase" faixa título "A Remission Of My Sins", outra que parece saída da carreira solo do Madman, ou na marcante "Where Angels Die", que abre os trabalhos e se configura em um dos destaques do track list), Lundgren continua, em boa parte o tempo, se afastando da pecha de "cópia" de Zakk Wylde, acrescendo ainda mais melodia a suas linhas de guitarra, sem, no entanto, se esquecer do peso. São assim "Am I Blind", "Save Me" (que possui um belo refrão), "For My Family And Satan" (com uma linha vocal bem "viajante"), "Stone By Stone" (com um riff bem marcante) e "End Of The Road", talvez a mais melódica de todas, e que possui um dos melhores solos de guitarra deste registro. "In Anger" (que ganhou um vídeo clipe) tem um inegável apelo radiofônico, onde a voz de Andy apresenta uma mistura do estilo dos primeiros discos com o do registro anterior, dependendo do trecho da canção, enquanto "I Am The Crucifix" (outra que mereceu um clipe) possui um breve trecho de canto gregoriano em sua introdução e muito peso nos riffs (que voltam a remeter ao Black Label Society, assim como o começo de "Lost Forever", que depois ganha um tom mais melódico em seu arranjo), com o track list sendo encerrado pela instrumental "Moving On", onde o destaque vai todo para a guitarra de Jocke Lundgren. É interessante notar que algumas músicas possuem um vocal "narrado" e meio sombrio em certos trechos, mas, como este álbum não teve lançamento nacional e não consegui encontrar maiores informações a este respeito, não posso confirmar quem é o autor dos mesmos. Um disco no mínimo do nível do anterior, e que merecia mais reconhecimento por parte dos fãs do grupo.

Kent Svensson, Henke Lönn, Jocke Lundgren e Andy Alkman

Não encontrei nenhum registro que afirme que a banda tenha encerrado suas atividades, mas o certo é que o site do conjunto se encontra fora do ar, e a própria página oficial do Hellfueled no facebook já há algum tempo tem dedicado seu espaço ao Firegod Mountain, grupo que Andy Alkman e Jocke Lundgren integram desde 2012, e que se prepara para lançar seu primeiro registro (sendo que algumas faixas já estão disponíveis para audição no youtube). Resta saber se os dois principais destaques desta quarteto sueco vão se dedicar exclusivamente a esta nova empreitada daqui em diante, ou se ainda teremos chances de ver o Hellfueled no palco e nos estúdios em um momento futuro. Isso, só eles mesmos podem responder!

Cinco discos para conhecer: Matt Cameron


Por Micael Machado

Matthew David Cameron nasceu em San Diego, California, a 28 de novembro de 1962, e começou a tocar bateria muito cedo na infância, chegando a integrar uma banda de covers do Kiss quando tinha apenas treze anos. Em 1983, mudou-se para Seattle, onde passou a integrar o Skin Yard (ao lado do hoje famoso produtor Jack Endino), uma das primeiras bandas a executar uma sonoridade próxima ao que depois viria a ser chamado de grunge. Pouco após o lançamento do primeiro álbum do grupo, em 1987, saiu para juntar-se ao Soundgarden, onde permanece até hoje, o que não o impediu de realizar alguns trabalhos paralelos e até ser membro permanente de outro ícone da cena de Seattle.

Conheça agora cinco indicações para iniciar-se na arte e na musicalidade deste excelente baterista, Matt Cameron!

Soundgarden - Badmotorfinger [1991]

Podem haver outros discos do Soundgarden onde o desempenho de Cameron seja mais versátil ou influente, mas não vou me furtar de citar o meu álbum favorito do conjunto nesta matéria. Afinal, é aqui que se encontram clássicos do porte de "Rusty Cage", "Outshined", "Jesus Christ Pose" e "Searching with My Good Eye Closed" (as quais certamente estão nas listas de "favoritas" de qualquer fã do quarteto de Seattle), além da pesada "Slaves & Bulldozers", da quase punk "Face Pollution" e da marcada "Holy Water". A estreia do baixista Ben Shepherd trouxe uma sonoridade mais pesada e arrastada para o grupo, diferente do estilo menos direcionado e mais improvisado de seus primeiros registros. Neste disco, que ficou entre os 100 mais vendidos do ano de 1992, Matt Cameron é co-autor da citada "Jesus Christ Pose", de "New Damage" e de "Room a Thousand Years Wide" (primeira faixa gravada por Ben junto ao grupo), além de ter composto a agitada "Drawing Flies", uma das duas a apresentar trechos tocados ao saxofone no disco, junto com a anterior. Um dos melhores registros já lançados sob o rótulo do "grunge", e uma excelente porta de entrada para conhecer tanto o Soundgarden como a carreira de seu baterista!

1. "Rusty Cage" 
2. "Outshined" 
3. "Slaves & Bulldozers" 
4. "Jesus Christ Pose" 
5. "Face Pollution" 
6. "Somewhere"
7. "Searching with My Good Eye Closed" 
8. "Room a Thousand Years Wide"
9. "Mind Riot"  
10. "Drawing Flies" 
11. "Holy Water"  
12. "New Damage" 

Temple of the Dog - Temple of the Dog [1991]  

O guitarrista Stone Gossard e o baixista Jeff Ament eram membros do Mother Love Bone, grupo cujo vocalista, o carismático Andrew Wood, viria a falecer vítima de uma overdose. O vocalista do Soundgarden, Chris Cornell, que dividia um apartamento com Wood, tomou a decisão de gravar algumas de suas composições em tributo ao falecido amigo, chamando para a empreitada os citados ex-membros do antigo grupo do cantor, que estavam à época trabalhando em um novo projeto ao lado do guitarrista Mike McCready, também convidado a participar do álbum. Matt Cameron também se juntou à turma, visto que já tocava com Cornell no Soundgarden, e havia ajudado os outros três na gravação da demo instrumental de sua nova banda (a qual chegaria às mãos do surfista Eddie Vedder na distante San Diego, e acabaria por colocá-lo como vocalista da nova empreitada de Gossard e Ament). Tendo a maioria das composições a cargo de Cornell, o disco resultante desta união de colegas pesarosos acabou se tornando um clássico do então iniciante "grunge", ajudando a consolidar este estilo musical, associado sem muitos critérios à quase todas as bandas de Seattle surgidas no começo da década de 1990, além de marcar um dos melhores desempenhos vocais de Chris Cornell em toda a sua carreira. Vedder, recém chegado à chuvosa Seattle, participa de apenas uma música, "Hunger Strike", o maior destaque no track list, ao lado da tristonha "Say Hello 2 Heaven", da empolgante "Pushin Forward Back" e da longa e pesada "Reach Down". O restante das composições tem um ritmo mais lento e até depressivo, como não poderia deixar de ser visto a tragédia que levou à concepção do disco. Uma curiosidade é que a faixa "Times of Trouble" possui a mesma melodia de "Footsteps", um B-Side gravado pelo Pearl Jam, mas com letra e métricas vocais completamente diferentes. O Temple of the Dog é um dos projetos paralelos mais lembrados pelos fãs de música, e seu único disco acabou virando um item cultuado pelos fãs das bandas de Seattle, além de funcionar como uma espécie de pontapé inicial para a carreira do Pearl Jam, que conseguiria o sucesso já na sua estreia, lançada no mesmo ano!

1. "Say Hello 2 Heaven"
2. "Reach Down"
3. "Hunger Strike"
4. "Pushin Forward Back"
5. "Call Me a Dog"
6. "Times of Trouble"
7. "Wooden Jesus"
8. "Your Saviour"
9. "Four Walled World"
10. "All Night Thing"

 Geddy Lee - My Favorite Headache [2000]

Criado ao lado do guitarrista Ben Mink (que chegou a participar como convidado em algumas gravações do grupo Rush), o primeiro (e até agora único) álbum solo do vocalista, baixista e tecladista do trio canadense não trouxe uma sonoridade tão diferente assim de sua banda original (principalmente nos álbuns gravados após o ao vivo A Show Of Hands), até por manter a formação que executa as músicas em um formato de trio, completado (exceto em uma faixa, "Home on the Strange", onde as baquetas ficaram a cargo de Jeremy Taggart) pela excelente bateria de Cameron, que pode aqui mostrar um lado mais progressivo de sua técnica. Se os holofotes se voltam todos ao "dono da bola" Geddy, Matt, por sua vez, executa um trabalho seguro, sem querer copiar Neil Peart (o mestre das baquetas do grupo principal de Lee), mas mostrando bastante coesão e capacidade de variação de estilos. Confira a faixa título, "The Present Tense" (que não tem nada a ver com a faixa de mesmo nome gravada pelo Pearl Jam), "Working at Perfekt", "Moving to Bohemia" ou "Slipping" e veja como Matt consegue se adaptar perfeitamente a composições bem diferentes do estilo do Pearl Jam ou do Soundgarden. Agora, se você não gosta destas bandas, mas é fã de Rush, não deixe de conferir o disco inteiro, pois a capacidade criativa de Geddy estava elevada, e o álbum chega a ser melhor que muitos registros do consagrado trio canadense, sem soar "estranho" aos já cativos de sua sonoridade. Altamente recomendado!

1. "My Favorite Headache"
2. "The Present Tense"
3. "Window to the World"
4. "Working at Perfekt"
5. "Runaway Train"
6. "The Angels' Share"
7. "Moving to Bohemia"
8. "Home on the Strange"
9. "Slipping"
10. "Still"
11. "Grace to Grace"

Wellwater Conspiracy - The Scroll And Its Combinations [2001] 

O Wellwater Conspiracy talvez seja o projeto onde Cameron mais demonstrou seu lado "músico" na carreira. Atuando como compositor e vocalista principal, ele aparece nos discos do duo trocando instrumentos o tempo todo com seu colega John McBain (ex-guitarrista do Monster Magnet). Neste terceiro registro da dupla, Matt, além dos vocais e da bateria, ainda responde por guitarras e teclados em faixas como os covers garageiros das obscuras bandas Q65 ("I Got Nightmares", cuja melodia vocal lembra "Boris the Spider", do The Who) e Morgen ("Of Dreams"), esta última um dos destaques do track list, ao lado de "Felicity's Surprise" (que poderia muito bem se passar por uma faixa do Pearl Jam, até porque conta com a voz do cantor do grupo, Eddie Vedder, aqui creditado como Wes C. Addle, por questões legais), a agitada "What Becomes Of The Clock" (que tem nos vocais o produtor Gerry Amandes) e "Tidepool Telegraph", que tem um pouco da psicodelia do antigo grupo de McBain misturado com algo de Queens of the Stone Age. O baixista do Soundgarden, Ben Shepherd (que era o vocalista original do Wellwater Conspiracy) participa da instrumental "Keppy's Lament", e o guitarrista Kim Thayil (também do Soundgarden) aparece em duas composições, a "estranha" balada "C, Myself and Eye", que tem algo do citado grupo de Seattle em seu arranjo, e "The Scroll", mais psicodélica. "Tick Tock 3 o'clock" (que me lembra o Pink Floyd de Sid Barrett) conta com várias participações especiais em instrumentos como saxofone, cello e viola (tocada pela esposa de Matt, April Cameron), e o track list é completado pela esquizofrênica "Now, Invisibly", com seu ritmo quebrado, e pela instrumental (e "estranha") "Brotherhood Of Electric". Um álbum que mostra um lado bastante diferente de Cameron, e que merece uma conferida.

1. "Tidepool Telegraph"
2. "I Got Nightmares"
3. "C, Myself and Eye"
4. "Tick Tock 3 O'Clock"
5. "What Becomes of the Clock"
6. "Felicity's Surprise"
7. "Now, Invisibly"
8. "Of Dreams"
9. "Brotherhood of Electric"
10. "The Scroll"
11. "Keppy's Lament"  

 Pearl Jam - Riot Act [2002]

Apesar de meu álbum favorito do PJ com Cameron ser o de estreia do baterista no grupo (Binaural, de 2000), Riot Act é aquele que conta com a participação mais efetiva de Matt na carreira do quinteto, assumindo aqui grande parte dos backing vocals (função que exerceria cada vez mais nos discos e apresentações da banda nos anos futuros) e até algumas partes de guitarra ritmica, além de contribuir como compositor de três faixas ("Cropduster", "You Are" e "Get Right") e de ser co-autor de "Save You", uma das mais lembradas pelos fãs do grupo de Seattle neste registro, ao lado de "I Am Mine", "Love Boat Captain" e "Green Disease". Com uma sonoridade mais calma em muitas das composições, este não é um dos discos preferidos de muita gente, mas é um trabalho de bastante qualidade, chegando a ficar no primeiro lugar das paradas australianas e em segundo na Itália. Matt também sugeriu o produtor Adam Kasper, que já havia trabalhado com ele tanto no Soundgarden quanto no Wellwater Conspiracy, o que provou ser uma boa escolha para o álbum e para o grupo, tanto que ele produziria também o auto-intitulado registro de 2006 (o popular "disco do abacate"). Além disso, Riot Act é o primeiro registro do grupo a apresentar o tecladista Kenneth "Boom" Gaspar, o qual se mantém na formação até hoje!

1. "Can't Keep"
2. "Save You"
3. "Love Boat Captain"
4. "Cropduster"
5. "Ghost"
6. "I Am Mine"
7. "Thumbing My Way"
8. "You Are"
9. "Get Right"
10. "Green Disease"
11. "Help Help"
12. "Bu$hleaguer" 
13. "½ Full"
14. "Arc"
15. "All or None" 


Além das bandas e projetos citados, Matt Cameron ainda trabalhou com os grupos Tone Dogs e Harrybu McCage (dois projetos com sonoridades influenciadas pelo jazz, o que dá uma ideia da dimensão da musicalidade do baterista), além do "garageiro" Hater (onde atua ao lado do baixista Ben Shepherd). Ele ainda participou de gravações de muitos outros grupos, como Queens of the Stone Age (do qual chegou a ser baterista por um show), Smashing Pumplins (nas sessões para o álbum Adore, embora apenas "For Martha" conte com sua contribuição na seleção final escolhida para o track list), Prodigy, Tony Iommi, Peter Frampton e Chris Cornell, sempre como convidado, tendo também contribuído para a trilha sonora do filme "Homem Aranha", de 2002 (com Tobey Maguire no papel principal). Uma carreira impressionante, de um baterista com um talento maior ainda!