domingo, 28 de julho de 2013

DVD: Santana - In Concert [2012]


Por Micael Machado

Em 1987, a carreira do guitarrista Carlos Santana não andava em seus melhores dias. Seus álbuns mais recentes não haviam tido uma boa recepção tanto por parte da crítica quanto do público, mas a aparição no Live Aid dois anos antes havia recuperado um pouco de seu prestígio. Por isso, ele resolveu dar um tempo em sua carreira solo para reunir a Santana Band e gravar um álbum com uma sonoridade mais próxima de seus primeiros discos, ainda no início dos anos 1970. Com a participação dos antigos chapas Chester Thompson  e Gregg Rolie (teclados), Armando Peraza, Orestes Vilató e Raul Rekow (percussão), mais o monstro do baixo Alphonso Johnson (ex-Weather Report), o baterista Graham Lear (ex-REO Speedwagon) e o competentíssimo Buddy Miles (baterista da Band Of Gypsies, ao lado de Jimi Hendrix e Billy Cox, e com quem Santana já havia gravado em 1972), aqui apenas nos vocais, o grupo lançou o álbum Freedom naquele ano, e saiu em turnê de promoção pelo mundo (menos Gregg, que acabou substituído pelo vocalista e ocasional guitarrista Alex Ligertwood).

Um dos shows da tour, ocorrido no Palast Der Republik, na então Berlin Oriental, a 06 de abril de 1987, é o objeto deste DVD lançado recentemente no mercado brasileiro pela gravadora USA Records. Já bem conhecido dos colecionadores de bootlegs, o disco é uma excelente opção para aqueles que acham que a carreira do guitarrista resume-se a hits como "Maria Maria" ou "Smooth" conhecerem um pouco do seu trabalho anterior, muito mais relevante. Para os fãs de longa data, é uma oportunidade de visitar um período meio nebuloso de sua carreira, mas que, neste show, brilha quase tanto como nos anos 1970.

Carlos Santana em Berlin Oriental, no ano de 1987

Santana, além de atacar como vocalista em "Before We Go", está tocando muito ao longo do show, como se pode conferir nas clássicas "She's Not There" e "Incident At Neshabur". Mas, apesar disso (e da banda levar seu nome), ele não fica o tempo todo sob os holofotes, abrindo espaço para os outros músicos do grupo, como no solo alucinado de Chester Thompson em "One" ou no momento solo de Alphonso Johnson (que, sozinho no palco, se dá ao direito de usar até o pedal Taurus, instrumento muito mais próximo do rock progressivo do que do pop latino da Santana Band - além de também dar um show na já citada "One", e de mandar muito bem na bela "Cavatina", onde leva a música inteira ao Stick, com o acompanhamento de Santana na guitarra). Os nove instrumentistas no palco soam realmente como uma banda, e não como músicos de apoio para o guitarrista, algo que acontece com várias outras feras da guitarra que dão seus nomes aos seus grupos.

Mas, para mim, o maior destaque do DVD é a figuraça chamada Buddy Miles. Escalado como um dos vocalistas principais (além de, eventualmente, atacar alguns instrumentos de percussão), ele arrasa em canções como "Open Invitation" ou "Praise", demonstrando todo o poder de sua voz recheada de soul. No blues "Just Got Back From Texas" e nas suas "Them Changes" e "We Gotta Live Together", ele também mostra habilidade na guitarra, sendo um instrumentista canhoto, assim como seu ex-colega de banda nos anos 70 (porém, obviamente, não tão talentoso quanto Hendrix). Buddy começa o show todo arrumadinho, com terno, gravata e camisa social cheia de babados. Mas, lá pelo meio da apresentação, já está todo desorganizado, com a camisa aberta, o nó da gravata desfeito e o suor tomando conta de seu corpo rechonchudo. Além disso, ver o gorducho Miles "sensualizando" com as fãs da primeira fila durante "Once Its Gotcha" é, involuntariamente, hilário de tão ridículo. Buddy viria a falecer em 2008 de problemas cardíacos, mas seu talento ficou marcado para sempre na história da música, e alguns momentos memoráveis de sua trajetória podem ser encontrados aqui.

Buddy Miles, um dos destaques do DVD

Uma das melhores partes do disco é a sequência "Black Magic Woman" (com citações a "Are You Experienced", de Jimi Hendrix, e onde jogam uma rosa em Buddy, o que faz com que ele se atrapalhe momentaneamente com a letra, para logo se recuperar e fazer graça com a flor), "Gypsy Queen", "Oye Como Va", "Evil Ways" e "Jingo", todos clássicos da primeira fase da Santana Band, e que mostram toda a musicalidade e o talento do grupo, com as percussões "comendo soltas" e o guitarrista "fritando" as cordas de sua guitarra com solos incendiários. Se você nunca ouviu a fase setentista de Carlos Santana, comece por esse trecho, e perceba que passou anos sem conhecer alguns dos melhores momentos que o rock setentista já produziu!

Freedom não conseguiu alavancar novamente a carreira de Santana (algo que ele só conseguiria no final dos anos 1990, com o multi-platinado Supernatural), e, desde então, o guitarrista vive uma constante de altos e baixos na carreira, como aliás já enfrentou em outros tempos. Um destes altos com certeza foi o show registrado aqui, onde a imagem e o som estão bastante aceitáveis, e alguns cortes de edição entre as canções, apesar de "quebrarem" a sequência do show, não chegam a atrapalhar. Uma pena o final estar editado, e o show acabar em um decepcionante fade out, constituindo um dos poucos pontos negativos deste DVD.

"Once it's gotcha, you'll lose your head in the clouds"

Track List:


01. The Beat of my Drum/Veracruz
02. Primeira Invasion / Open Invitation
03. She's not There / Incident at Neshabur
04. One
05. Samba Pa'ti
06. Songs of Freedom
07. The Healer/Saja
08. Super Bodgie/Hong Kong Blues
09. Just Got Back from Texas (B. Miles - For Indio Blues)
10. Them Changes / We Gotta Live Together
11. Bass Solo (Alphonso Johnson)
12. Cavatina
13. Black Magic Woman / Gypsy Queen
14. Oye Como Va / Evil Ways / Jingo
15. Once its Gotcha
16. Europa
17. Soul sacrifice
18. Aranjuez / El Mar
19. Before We Go
20. Praise
21. Deeper, Dig Deeper

DVD: Bad Company - Live At Wembley [2011]


Por Micael Machado

Nunca fui lá muito fã do Bad Company, mas não reconhecer o talento de seus membros ou a importância do grupo para a música dos anos 70, especialmente, seria um absurdo de minha parte. Formado em 1973, o quarteto foi um dos primeiros "supergrupos" do rock, tendo em suas fileiras o vocalista Paul Rodgers e o baterista Simon Kirke (ambos ex-membros do Free),  ao lado do guitarrista Mick Ralphs (ex-Mott the Hoople) e do baixista Boz Burrell (ex-King Crimson). Auxiliados pelo poderoso empresário Peter Grant (também manager do Led Zeppelin, cuja gravadora, a Swan Song, contratou os rapazes pouco depois de se unirem), fizeram um enorme sucesso com seis discos até 1982, quando a pressão da vida na estrada e os excessos da fama fizeram com que o grupo se separasse. Kirke e Ralphs mantiveram a banda na ativa ao longo das duas décadas seguintes, porém com muito menos sucesso e prestígio, lançando álbuns que não se equiparavam aos seus primeiros trabalhos.

Eis que, em 2008, o trio Rodgers, Kirke e Ralphs (Burrell, infelizmente, faleceu em 2006 devido a um ataque cardíaco) se apresentou nos Estados Unidos em um show que resultaria no CD e DVD Hard Rock Live, em 2010. Daí em diante, mesmo com o vocalista compromissado com o projeto Queen + Paul Rodgers, a banda continuou fazendo apresentações esporádicas, como a acontecida em 11 de abril de 2010, na Wembley Arena de Londres, espetáculo registrado neste excelente DVD, lançado no mercado brasileiro pela gravadora ST2.

Paul Rodgers comandando a banda e o público

Abrindo com a clássica "Can't Get Enough", o show mostra que o trio original continua em excelente forma, acompanhados pelos "novatos" Howard Leese (ex-Heart) na guitarra e Lynn Sorensen no baixo, sujeito que me lembrou muito Geezer Butler, do Black Sabbath, tanto na aparência como na maneira de se portar no palco (embora o som que saia de seu baixo seja muito mais leve). A musicalidade do quinteto é latente, assim como a experiência dos músicos, o que faz com que o conjunto domine facilmente tanto o palco quanto a plateia que lotava a Arena.

O Bad Company é conhecido como uma banda de hard rock, mas seu estilo musical é muito mais "leve" do que o de um Deep Purple, um Cactus ou um Mountain, outros "representantes" do estilo. Para mim, o Bad Co. é puro rock setentista (vide "Movin' On", "Shooting Star", onde diversas imagens de ídolos do rock que já foram para outro plano são apresentadas no telão atrás da banda, ou "Deal With the Preacher", que encerra a apresentação), tendo também um pezinho no country caipira (como em "Honey Child", que não soaria deslocada em um disco do Lynyrd Skynyrd, por exemplo) e a capacidade de compor lindas baladas, visto "Seagull", apenas com Rodgers e Ralphs aos violões, ou a linda "Simple Man", com um jeitão de "épico" em seu arranjo. O grupo também coloca um pé e meio no que viria a ser chamado de AOR, como se confere na semi-pesada "Gone Gone Gone" (dedicada ao saudoso Burrell), na própria "Can't Get Enough" ou na semi-balada "Ready for Love".


A dupla de guitarristas: Howard Leese e Mick Ralphs


Individualmente, Rodgers é o grande destaque, com sua performance de palco ainda compatível com sua fama de ser um dos melhores frontman da história do rock, além de tocar piano (como em "Run With the Pack", que conta com excelentes trechos de guitarra, e na clássica "Bad Company", minha favorita dentre as que conheço das canções do grupo) e violão (na citada "Seagull"), mas Ralphs e Leese também aparecem bastante, com o segundo, apesar de ser um músico "contratado", tendo uma grande participação sob os holofotes, seja por sua jaqueta estilosa (ao estilo de um General da guerra de Secessão), seja por seu talento ao instrumento, chegando inclusive a tocar um mandolin em "Feel Like Makin' Love" (música que conta com Rodgers na harmônica). Kirke, apesar de grande baterista, é meio discreto em seu kit, e a citada semelhança de Sorensen com um dos meus ídolos no instrumento fez com que minha capacidade avaliativa ficasse prejudicada enquanto assistia ao vídeo.

O track list ainda conta com a clássica "Rock and Roll Fantasy" (cuja linha de baixo me lembrou algo de Disco Music - lembrando que a versão original é de 1979), "Young Blood" e "Electric Land", duas canções que não me agradaram muito, além da rockeira "Burnin' Sky", que não está presente na versão em CD lançada junto ao DVD, e que tem um rótulo muito legal, imitando um vinil.

A qualidade de som e imagem é excelente, e o DVD ainda conta com quase vinte minutos de uma entrevista com a banda falando sobre a turnê e o show de Wembley em si, tanto antes quanto depois de estarem no palco, bem como algumas palavras dos fãs que estavam lá para assistir ao concerto. Cabe ressaltar que o forte sotaque britânico da entrevistadora e dos três membros originais (os outros dois são americanos) pode ser um complicador para quem assiste, ainda mais que o DVD não tem opções de legendas em português, apenas em inglês, alemão, francês e espanhol.

Live at Wembley é um item bastante recomendável mesmo para aqueles que, como eu, não são profundos conhecedores da carreira do grupo, mas curtem a sonoridade típica da década de setenta. Se você for fã da "má companhia", então já deve ter o mesmo em sua prateleira, caso contrário, está perdendo um excelente item!

Contracapa do DVD

"Bad Company, it's the way I play / Bad company, till the day I die"

Track List:

01. Can't Get Enough
02. Honey Child
03. Run With the Pack
04. Burnin' Sky
05. Young Blood
06. Seagull
07. Gone Gone Gone
08. Electric Land
09. Simple Man
10. Feel Like Makin' Love
11. Shooting Star
12. Rock and Roll Fantasy
13. Movin'on
14. Ready for Love
15. Bad Companyk
16. Deal With the Preacher

Blue Öyster Cult - Fire of Unknown Origin [1981]


Por Micael Machado


No início dos anos 80, o quinteto norte americano Blue Öyster Cult já havia passado por momentos melhores em sua carreira. Formado por Eric Bloom (guitarra base e vocais), Donald 'Buck Dharma' Roeser (guitarra solo e vocais), Allen Lanier (teclados e guitarra), Joe Bouchard (baixo e vocais) e seu irmão Albert Bouchard (bateria), o grupo vinha de dois lançamentos com vendas praticamente inexpressivas perto de seu catálogo anterior, o mais comercial Mirrors, de 1979, e Cultösaurus Erectus, de 1980, que falhou na tentativa de ser o retorno da banda à sonoridade mais pesada de seus primeiros lançamentos, mas levou o BÖC (como é conhecido pelos fãs) a excursionar ao lado do então revigorado Black Sabbath (que estreava o vocalista Ronnie James Dio em sua formação) na famigerada Black And Blue Tour, a qual gerou muita confusão e um vídeo até hoje inédito em DVD, que tem o mesmo nome da turnê. Devendo muito dinheiro à gravadora, e vendo seu prestígio decair cada vez mais, eles sabiam que precisavam fazer um novo álbum que resgatasse a imagem e a popularidade do Culto da Ostra Azul (bem como as vendas de outora). Assim sendo, em 1981, gravaram Fire of Unknown Origin, produzido pelo lendário Martin Birch (Iron Maiden e Deep Purple, dentre muitos outros), o disco responsável por trazer de volta os "velhos tempos" de glória, e afastar as preocupações tanto dos músicos quanto dos seguidores do Culto!

Começo a tratar do disco falando de "Veteran of the Psychic Wars", a terceira faixa, que também é uma de suas melhores composições, trazendo de volta o clima "misterioso" dos antigos registros do BÖC, além de um peso evidentemente maior que o das demais canções do track list, evidenciado pela marcação da bateria de Albert Bouchard. Com letra composta pelo consagrado escritor de ficção científica Michael Moorcock (que já havia trabalhado com o grupo anteriormente em faixas como "The Great Sun Jester", de Mirrors, e "Black Blade", de Cultösaurus Erectus), e cantada por Eric Bloom (como a maioria das outras músicas deste play), esta é uma das melhores canções da história do grupo, em muito graças ao clima de tensão criado pelos teclados e pelos excelentes solos de guitarra. Foi lançada em single, atingindo o número 24 da "Billboard Rock Tracks" dos EUA, além de aparecer na trilha sonora do filme de animação "Heavy Metal", também de 1981, para o qual o grupo, ironicamente, escreveu uma canção baseada em um dos subtemas da trama, a interessante "Vengeance (The Pact)", que foi preterida pelos produtores do filme, e acabou abrindo o lado B do disco sobre o qual estamos lendo. Tendo os vocais divididos entre Joe Bouchard e Buck Dharma, esta canção é praticamente separada em duas partes independentes, tendo em seu início uma sonoridade que mostra as influências do então iniciante estilo AOR na nova metodologia de composição do grupo (sempre atenta ao mercado), além de apresentar um dos mais belos solos de guitarra presentes neste registro. Pouco depois deste, após uma parte mais "macabra" executada pelos teclados, ocorre uma guinada, e a faixa ganha peso e velocidade, para depois voltar ao seu ritmo inicial e terminar em alta após mais uma execução do refrão. A pesada, porém não muito rápida, "Heavy Metal: the Black and Silver", escrita por Albert e Eric junto ao seu empresário Sandy Pearlman, e que originalmente fechava o lado A, também foi inspirada pelo mesmo filme citado, e novamente foi deixada de lado pela equipe responsável pela animação.

Allen Lanier, Buck Dharma, Eric Bloom, Albert Bouchard e Joe Bouchard



Iniciando com um interessante tema somente ao piano, "Joan Crawford", apesar dos toques comerciais que carrega, é outro destaque no track list deste álbum. Com um refrão impecável, daqueles que grudam na cabeça por um bom tempo depois de apenas uma audição, e letra inspirada no livro "Mommie Dearest", escrito por Christina Crawford, filha adotiva da personagem que dá título à música (para aqueles que não sabem, uma das maiores estrelas do cinema americano no século XX), a canção tem uma parte totalmente insana lá pelo meio, onde diversos efeitos sonoros são ouvidos, como freadas de carros, telefones tocando, um bebê chorando, sirenes, buzinas e até uma espécie de corneta militar como a dos filmes de cavalaria do velho oeste, além da fantasmagórica voz da falecida atriz chamando por sua filha após voltar do tumulo, como afirma a arrepiante letra, e uma breve citação a "In the Hall of the Mountain King", do compositor norueguês Edvard Grieg. Seu clipe (que aparentemente tem exibição restrita no Brasil em todos os canais da internet) passava com frequência no extinto programa Fúria Metal da MTV, e foi um dos responsáveis por apresentar este que vos escreve à sonoridade do Culto da Ostra Azul (sendo, não só por isso, considerada por mim como a melhor faixa deste lançamento). Lançada em single, ficou apenas na posição 49, o que considero muito pouco para sua qualidade. O final desta faixa é emendado ao início de "Don't Turn Your Back", que fecha o álbum com toques mais comerciais, e que nunca me agradou muito, tendo a presença da cantora Sandy Jean nos backing vocals, e sendo uma das duas canções deste registro onde o vocal principal é feito por Buck Dharma.

A outra é "Burnin' for You", a grande responsável pelo sucesso estrondoso do disco. Com letra escrita pelo crítico musical Richard Meltzer, e musicada por Buck, a canção seria inicialmente utilizada no álbum solo em que o guitarrista estava trabalhando na época (e que viria a ser Flat Out, lançado em 1982). Mas o grupo lhe convenceu de que ela poderia ser o single que recuperaria a credibilidade do BÖC junto a seus fãs, o que, de fato, aconteceu. Embora bem mais leve do que outras músicas lançadas anteriormente pelo quinteto, ela caiu no gosto do pessoal ligado ao rock daquele início de década, com sua sonoridade pegajosa, refrão fácil e teclados e guitarras bem encaixados. O single atingiu o número 1 da mesma parada citada anteriormente, e levou o álbum a receber o certificado de platina nos EUA. Uma bela forma de recuperar o prestígio perdido em algum lugar do passado.

Tendo os vocais de Eric, a faixa título (cuja letra foi escrita pela cantora e poetisa Patti Smith, à época namorada de Allen Lanier) abre o álbum apresentando riffs pesados e teclados climáticos em seu início, caindo depois em um desinteressante clima mais "balançado", que contrasta com o excelente refrão e a bela sessão de solos de guitarra no meio da canção (aliás, solos excelentes de guitarra são uma constante não só neste, mas em outros lançamentos da carreira do BÖC). A veloz "After Dark" dá destaque ao baixo de Joe Bouchard e aos teclados de Allen (além de possuir um interessante riff e outro solo magistral de Buck), mas não chega a ser um grande destaque perto das demais canções, assim como "Sole Survivor", que considero muito comercial e melosa, e que tem a presença da cantora e atriz Karla DeVito nos backing vocals. A capa criada pelo artista gráfico Greg Scott resgata o clima "misterioso" que a banda carregava em seus primeiros álbuns, com a presença do que parecem ser os "seguidores" do Culto da Ostra Azul, vestidos como druidas (o que está mais à frente exibe em seu manto o símbolo do quinteto, presente de alguma forma em todas as capas do grupo), com uma expressão vidrada como se tomados pelo fanatismo religioso, e segurando, cada qual, a sua própria ostra azul. Um clássico, e possivelmente a melhor arte já exibida em um disco da banda.

Contracapa de Fire of Unknown Origin

A turnê resultante ficou registrada no duplo ao vivo Extraterrestrial Live, de 1982, além de marcar a demissão do baterista Albert Bouchard, substituído por Rick Downey, ex-roadie e técnico de iluminação do próprio grupo. O BÖC havia novamente voltado ao topo do rock mundial, mas, infelizmente, não conseguiu manter a posição tão arduamente conquistada. Seus próximos lançamentos (o mais recente é Curse of the Hidden Mirror, de 2001) não conseguiram manter a popularidade adquirida, e as contantes trocas de membros e direcionamento musical também não ajudaram em nada ao conjunto. Eric Bloom e Buck Dharma continuam excursionando e mantendo o nome da banda vivo, embora seu significado mais importante esteja, inevitavelmente, ligado a um tempo que ficou para trás, e do qual Fire of Unknown Origin pode ser considerado como o último momento de brilho. O que, para um grupo de tal relevância, é lamentável.

I've been living on the edge so long, and far too old to see

Track List:

1. "Fire of Unknown Origin"
2. "Burnin' for You"
3. "Veteran of the Psychic Wars"
4. "Sole Survivor"
5. "Heavy Metal: the Black and Silver"
6. "Vengeance (The Pact)"
7. "After Dark"
8. "Joan Crawford"
9. "Don't Turn Your Back"

domingo, 16 de junho de 2013

Alice In Chains - The Devil Put Dinosaurs Here [2013]


Por Micael Machado

Quando o vocalista Layne Staley faleceu, em 2002, parecia que seria o fim do Alice in Chains. O guitarrista Jerry Cantrell engrenou uma reconhecida carreira solo (em certos momentos acompanhado do baterista Sean Kinney e do baixista Mike Inez, os outros componentes do grupo), e todos pensavam que a trajetória de um dos maiores ícones do movimento grunge estava acabada. Mas, em 2006, o guitarrista e vocalista William DuVall juntou-se aos antigos membros, e o quarteto de Seattle renasceu das cinzas, lançando em 2009 o excelente Black Gives Way to Blue, que dignamente deu continuidade à carreira da "Alice Acorrentada".

Quatro anos depois, chega o momento do segundo álbum com William, aquele que pode indicar a validade ou não deste retorno. Para os fãs da banda, após a audição de The Devil Put Dinosaurs Here, só deve restar uma certeza: o Alice in Chains voltou para ficar, e reclamando o seu lugar no pódio do rock mundial!

Alice in Chains 2013: Mike Inez, William DuVall, Jerry Cantrell e Sean Kinney

Sem grandes mudanças de estilo em relação ao que já foi feito antes na carreira dos americanos, a faixa "Hollow" (primeiro single liberado na internet) abre os trabalhos com um sabor conhecido daqueles que acompanham o grupo desde a década de 1990. O ritmo semi-arrastado, o timbre e o peso da guitarra de Jerry, e as vozes em dueto deste e de DuVall deixam claro que o quarteto ainda é o mesmo. Como que reafirmando esta constatação, "Pretty Done" dá continuidade ao track list, soando como algo saído do auto-intitulado terceiro disco, e apresentando um marcante refrão, característica aliás que aparece com frequência ao longo das outras faixas deste álbum.

"Stone", o segundo single do play, abre com um marcante riff de Inez, logo seguido pela timbragem tradicional das guitarras de Cantrell e DuVall. O vocalista (que cada vez mais divide esta posição com Jerry) continua soando, pelo menos em estúdio, muito parecido com o antigo cantor do grupo, o que só tende a deixar as composições ainda mais familiares aos fãs do Alice in Chains, especialmente aqueles que sempre gostaram dos duetos característicos do quarteto, e que aparecem em profusão ao longo deste disco.

Detalhes do CD e da arte do encarte, com as inicias AIC feitas em ossos

Os momentos acústicos que marcaram presença em diversos momentos ao longo da carreira da banda aparecem pela primeira vez em "Voices", que soa como uma sobra do EP Jar of Flies, de 1994. Esta característica surge também na melódica "Scalpel" e em "Choke", faixa que encerra o disco, como que para reafirmar que o Alice in Chains ainda é a mesma banda da época em que o Grunge dominava as paradas. Algo que também fica claro na faixa título (forte candidata a melhor música deste trabalho, e cujo início lembra muito a clássica "Love, Hate, Love", do primeiro disco, Facelift, de 1990) e em "Lab Monkey", que possui um trecho onde Cantrell usa o pedal wah-wah com maestria.

"Low Ceiling" é um dos primeiros sopros de "novidade" no disco, com uma sonoridade meio sessentista que quase soa alegre, apostando mais na melodia que no peso. "Breath on a Window" e "Phantom Limb" (cujo riff lembra bastante o Black Sabbath) colocam um pouco mais de velocidade no cardápio musical da banda (claro que ao estilo do Alice in Chains, ou seja, perto de qualquer banda de metal melódio estas canções seriam consideradas 'lentonas"), mas "Hung on a Wire" recoloca a melancolia e a depressão em primeiro plano novamente, com DuVall (ou seria Cantrell?) fugindo um pouco do estilo "cópia de Layne" nos versos iniciais.

 A capa do álbum e suas figuras "escondidas"

The Devil Put Dinosaurs Here (cuja capa apresenta uma arte onde um segundo crânio de dinossauro, invertido em relação ao principal, pode ser visto quando observado pelo ângulo correto, e cuja intersecção dos dois forma uma figura onde alguns enxergam uma referência ao demônio do título) não é nenhuma ruptura com o passado da banda, e pode até ser considerado "mais do mesmo" por aqueles que não estiverem tão familiarizados assim com a carreira do quarteto. Mas, para mim, é suficiente para colocá-lo dentre os melhores álbuns do ano até aqui, fácil, fácil!

"Come to me... All planned out... Offering a wonderful peace of mind worth buying"

Track list:

1. "Hollow"
2. "Pretty Done"
3. "Stone"
4. "Voices"
5. "The Devil Put Dinosaurs Here"
6. "Lab Monkey"
7. "Low Ceiling"
8. "Breath on a Window"
9. "Scalpel"
10. "Phantom Limb"
11. "Hung on a Hook"
12. "Choke"

sábado, 8 de junho de 2013

DVD: Pixies - loudQUIETloud [2006]


Por Micael Machado

"Os Pixies surgiram em Boston em 1986, e fizeram algum sucesso. Seis anos depois, se separaram em meio a raiva e ressentimentos. Desde então, mesmo com seus integrantes quase não se falando, tornou-se uma das mais influentes bandas de todos os tempos. Em 2004, os Pixies voltaram!"

E é a história deste retorno que você acompanha neste DVD, do qual a citação acima foi retirada (e que tem o subtítulo "a film about the Pixies"). Em mais ou menos 75 minutos, a reunião de Black Francis (Charles para os íntimos, vocais e guitarra), Kim Deal (baixo e backing vocals), Joey Santiago (guitarra solo) e David Lovering (bateria) é mostrada em forma de documentário, desde o primeiro ensaio até o último show da turnê de 2004. O título é uma expressão empregada certa vez para descrever a música do grupo, calma ("quiet") em suas estrofes, mas alta e feroz ("loud") nos refrões, em uma estrutura que influenciou fortemente Kurt Cobain, do Nirvana, só para citar um de seus seguidores. O resultado após assistirmos ao filme é, para os fãs da banda, fascinante e revelador!

O grupo brindando ao retorno, em cena do documentário

Se, após a separação, Kim havia obtido sucesso com o Breeders, e Charles manteve uma bela carreira solo sob a alcunha de Frank Black, David e Joey estavam na pior, o primeiro vivendo de shows de mágica e dos minguados royalties que recebia de seus tempos como um pixie, e o segundo (com uma esposa grávida à época do retorno) trabalhando com trilhas sonoras e shows como músico de apoio, além de ter dirigido um documentário inacabado quando do início das filmagens (e cuja trilha contaria com a contribuição de seus colegas de banda, como vemos no decorrer do filme). Para eles, o retorno veio em boa hora, mas para os dois principais membros do grupo (cujas desavenças levaram à separação em 1992), nem tudo foi assim tão fácil, algo que o filme deixa bastante claro.

Se, fora do palco, os quatro mal se falam (Kim chega a viajar em um ônibus separado do restante da banda, sempre ao lado de sua irmã Kelley Deal, guitarrista dos Breeders, e que acompanhou a turnê inteira a pedido da baixista), quando entram em cena e as músicas começam a ser apresentadas (poucas, é verdade, mas todas com legendas em inglês e muitas em versões completas, como "U-Mass", "Gouge Away", "In Heaven", "Cactus" e "Monkey Gone To Heaven"), é impossível não ser contagiado pelo talento da banda. Ainda que sem tocar juntos há anos, o entrosamento é perfeito, tanto que Charles declara, logo no começo do filme, que "parece que nunca nos separamos" para descrever como estava sendo o retorno. 

Pixies ao vivo

Mas o foco aqui não é a música, e sim o dia a dia de quatro pessoas que significam muito para tantas pessoas, mas parecem ter enormes dificuldades em carregar este fardo. A tensão da vida na estrada não é fácil para eles, e os diretores Steven Cantor e Mathew Galkin não se furtaram de mostrar este lado dos bastidores. Assim, podemos ver Joey chorando pela saudade dos filhos (o menor nascido em meio à turnê), Kim lutando contra as drogas e o álcool (substâncias com as quais David se envolve de cabeça, além de ter que lidar com a doença e a morte do pai em meio à parte europeia da excursão, com ele sem poder estar próximo de sua família), enquanto Charles tenta manter uma atitude "não estou nem aí para nada", quando na verdade também tem de lidar com seus próprios demônios, como a busca de uma gravadora para lançar seu disco solo (gravado em meio à excursão, e o qual acredito que viria a ser Honeycomb, de 2005) e a descoberta da gravidez de sua esposa.

Todos os shows da turnê tiveram ingressos esgotados muito rapidamente (a banda chega a ganhar um quadro com os dizeres "o show com os ingressos vendidos mais rápido na história da Brixton Academy" em uma das cenas), e percorreu a Europa e os EUA durante o ano de 2004. O público mostrado é sempre fanático pelos Pixies, e a atenção devotada por eles é retribuída pelo grupo, que aparece várias vezes autografando itens e mais itens e tirando fotos com fãs de todas as idades, todos sempre com uma palavra de incentivo e agradecimento pelo retorno, que, felizmente, não se resumiu a esta turnê. Como o filme explica, apenas seis meses depois do último show na cidade de Nova Iorque, o grupo voltou a se apresentar regularmente, e, embora ainda não tenha registrado nenhum disco inédito (apenas o single digital “Bam Thwok” viu a luz do dia), continua na ativa, sempre atraindo muitos seguidores por onde passa.

Joey Santiago, Kim Deal, David Lovering e Black Francis, em sessão de fotos mostrada no filme

Nos extras, quase meia hora de cenas deletadas, que mergulham ainda mais na intimidade dos membros da banda, além da possibilidade de assistir ao documentário com os comentários dos quatro músicos, estes, infelizmente, sem legendas!

Lançado no Brasil pela gravadora Coqueiro Verde, loudQUIETloud é um belo filme para quem gosta do estilo musical do grupo, e uma obra que deve ser obrigatoriamente assistida pelos fãs do Pixies. Se tiver a oportunidade, não desperdice!

"In heaven, everything is fine..."

domingo, 19 de maio de 2013

Somos Tão Jovens, o filme sobre Renato Russo


Por Micael Machado


Antes de existirem Renato Russo e a Legião Urbana, existiu Renato Manfredini Júnior, nascido carioca mas morador de Brasilia, professor de inglês, astrólogo, escritor e sonhador, dentre outras coisas. É dele que trata Somos Tão Jovens, filme dirigido por Antonio Carlos da Fontoura que estreou neste dia 03 de maio em todo o país, e que tem tudo para agradar aos fãs daquela que foi, ao menos para mim, a maior e melhor banda do rock brasileiro em todos os tempos.

Começando pela descoberta da epifisiólise de Renato (doença óssea que lhe deixaria de cama por meses, fazendo com que ele se apaixonasse perdidamente por música e literatura, além de aprender a tocar violão, e que poderia ter sido melhor explorada pelo roteiro, a meu ver), o filme acompanha a juventude do personagem, mostrando sua trajetória deste ponto até as vésperas da primeira viagem da Legião ao Rio de Janeiro, onde tocariam no Circo Voador, conseguiriam um contrato com a gravadora EMI e se tornariam um dos maiores fenômenos da música brasileira.


Os atores que interpretam os músicos do Aborto Elétrico e da Plebe Rude, as primeiras bandas punk de Brasília

Os conflitos existenciais e sexuais de Renato, seu sonho de ser reconhecido (seja como músico, seja como escritor, ou até mesmo como cineasta, como ele imagina em uma divertida auto-entrevista na banheira), os primeiros ensaios com o Aborto Elétrico (ao lado do baterista Fê Lemos, interpretado pelo ator Bruno Torres, e do guitarrista sul-africano Andre Pretorius, creditado no filme como Petrus, sei lá por quê, e interpretado por Sérgio Dalcia), a época da segunda formação do grupo, com Renato na guitarra e Flávio Lemos no baixo (o ator Daniel Passi), a fase como Trovador Solitário, e a formação da Legião Urbana ao lado de Marcelo Bonfá (Conrado Godoy), são retratados de uma forma que conseguirá (acredito eu) agradar mesmo àqueles que não conhecem com riqueza de detalhes a trajetória de Juninho, como sua família lhe tratava. Aos fanáticos pelo grupo (meu caso), então, pouco restará a criticar (talvez apenas duas ou três incongruências que só chatos perfeccionistas como eu perceberiam), e muitos serão os momentos emocionantes que surgirão na tela diante de nossos olhos.


Aninha (Laila Zaid) e Renato (Thiago Mendonça)

A interpretação de Thiago Mendonça (conhecido por ter representado o Luciano no filme "Dois Filhos de Francisco") no papel de Renato é impressionante. O ator parece ter "incorporado" o músico, de forma extremamente convincente (embora por vezes um tanto caricata), lembrando o ocorrido com Val Kilmer no filme sobre os The Doors dirigido por Oliver Stone. Tocando e cantando ele mesmo as partes que seriam originalmente de Júnior, Thiago consegue convencer totalmente a quem assiste à película, com um timbre por vezes bem próximo ao de Russo, especialmente mais ao final do filme. Além dele, também se destaca no elenco a atriz Laila Zaid, no papel de Aninha, personagem fictícia que representa algumas meninas importantes na vida de Renato (a amiga com quem ele perde a virgindade, a confidente que foi a única a quem ele teve coragem de confessar seus desejos homossexuais, aquela para quem ele compôs "Ainda É Cedo", dentre outras tantas), e serve como contraponto sentimental à fúria adolescente do personagem principal. Além disso, as músicas incidentais do filme são, em sua maioria, versões instrumentais de clássicos da Legião, arranjadas pelo tecladista e produtor Carlos Trilha, que colaborou com o grupo no final da carreira e com Renato Russo em seus dois discos solo.

Quase todos os fatos importantes da trajetória do adolescente Renato Manfredini Júnior são retratados com bastante fidelidade, pelo menos de acordo com o que foi informado no excelente livro "Renato Russo: O filho da Revolução", do jornalista Carlos Marcelo Carvalho, que serviu de base para o roteiro do filme. Senti falta de uma menção à presença da Plebe Rude (citada com destaque em determinados momentos da película) quando da primeira apresentação da Legião em um festival na cidade de Patos de Minas (com Eduardo Paraná na guitarra e Paulo Paulista nos teclados), que acabou com todos os músicos presos pelos militares que governavam o país na época, outro acontecimento que não é citado (curioso o fato de que Philippe Seabra, cantor e guitarrista da Plebe, representa o prefeito da cidade nesta parte). A ausência de uma citação à passagem de Ico Ouro Preto pelo grupo (ele aparece apenas como guitarrista do Aborto Elétrico pós-Renato, algo que realmente aconteceu) e a falta da famosa frase "faz barulhinho que tá bom" dita por Renato para Dado Villa-Lobos (interpretado por seu filho Nicolau) quando da execução de "Ainda É Cedo" no primeiro show deste com a banda (um momento importante do filme) também me marcaram, assim como o fato de Júnior ter atuado como ator, jornalista e radialista ainda antes do Aborto Elétrico também passar longe do roteiro.


Thiago representando a fase Trovador Solitário de Renato Russo

Mas, como disse, estes são aspectos que só pessoas tão fanáticas pelo cantor quanto eu lamentariam, e não impedem que o filme seja muito bem feito, tratando o "mito" Renato Russo com dignidade, e o "ser humano" Renato Manfredini Júnior com respeito e até uma certa dose de devoção, algo que seus colegas da "tchurma" de Brasília sempre lhe dedicaram. Recomendo fortemente a todos aqueles interessados em algum nível pela trajetória daquele que considero o maior poeta da língua portuguesa da minha geração, e, aos fãs da Legião, digo que é, simplesmente, obrigatório!

Força Sempre!

Somos Tão Jovens!

Review Exclusivo: Andre Matos (Porto Alegre, 03 de maio de 2013)

Por Micael Machado
Fotos por Brenda Waltemann


Pouco menos de um ano depois de se apresentar com o Viper no Teatro do Ciee, o maestro, tecladista e cantor Andre Matos voltou ao mesmo local nesta sexta feira, desta vez para um show ao lado de sua banda solo, como parte da turnê de divulgação de seu mais recente disco, Turn Of The Lights (2012), em um espetáculo que prometia a execução na íntegra do álbum Angels Cry, que marcou a estreia da ex-banda do vocalista, o Angra, em comemoração aos vinte anos de seu lançamento, ocorrido em 1993. Com os ingressos esgotados há semanas, a expectativa era grande para mais uma apresentação deste ícone do metal nacional em Porto Alegre!

Graças à "eficiência" do transporte público da capital gaúcha (que me fez esperar cinquenta minutos por um ônibus que me levasse até próximo ao local do show), perdi grande parte da apresentação da King of Bones, competente banda paulista responsável pelo show de abertura, que abria a turnê de divulgação de sua estreia com o álbum We Are The Law. Do pouco que ouvi, percebi um hard rock bastante pesado, mas não rápido o suficiente para ser caracterizado como heavy metal. Me soou como um meio termo entre o som setentista de um Mountain ou um Buffalo e o peso mais lento de um Metallica fase Black Album. Destaco a excelente "Broken Dreams" e o cover para "Perry Mason", de Ozzy Osbourne (onde o guitarrista Rene Matela teve de lidar com a quebra de uma corda, que ficou pendurada no braço durante quase toda a música), que fechou a apresentação do grupo com boa resposta por parte dos presentes ao teatro!


A banda King of Bones no palco do Teatro do Ciee

Pouco mais de meia hora e as luzes se apagaram, com os músicos da atração principal entrando no palco ao som da introdução instrumental (que era a mesma música executada durante o ritual de fertilidade pagão do qual o personagem de Tom Cruise participa no filme "De Olhos Bem Fechados"), exceto o vocalista, que entrou em cena em cima da hora de cantar os primeiros versos de "Liberty", primeira faixa do disco novo, e que também abriu esta apresentação! Com o público na mão desde o início, Andre deu o seu "Boa Noite" a Porto Alegre e continuou com "I Will Return" (única do disco Mentalize a ser apresentada) e "Course of Life", também do Turn Of The Lights, demonstrando sua conhecida e impressionante capacidade vocal e sua excelente performance de palco!

Após esta, o cantor se dirigiu ao público pela primeira vez, agradecendo a presença de todos e ao fato de os ingressos estarem esgotados já há um bom tempo, deu uma indireta a quem disse que 'não tem público para bandas nacionais no Brasil" e que "o público do Sul é uma merda" (sem citar nomes, sendo que todos ali sabiam a quem ele se referia), lembrou o show com o Viper no mesmo teatro no ano passado (que vai ter imagens em um futuro DVD, assim como o show desta noite, segundo ele prometeu) e a tragédia ocorrida em Santa Maria no início do ano, dizendo que naquele local todos estavam em total segurança, a não ser por causa dele mesmo, que uma vez quase colocou fogo em um teatro (ainda na época do Viper, como imortalizado no DVD 20 years), e esbanjou carisma e simpatia com o público, praticamente no único momento em que ficou um tempo maior sem cantar.


Andre Matos

A apresentação continuou com "Rio", que representou o álbum Time to Be Free, de 2007 (sua estreia solo) e chegou à já clássica "Fairy Tale" (de Ritual, disco de estreia do Shaman, outra ex-banda de Andre), que foi cantada em coro por todo os presentes, e que demorou a iniciar devido a um problema com a gravação do coral que serve de introdução à canção, gerando um divertido momento onde Andre disse "Galera, falhou o playback", e pediu para o guitarrista Hugo Mariutti cantar essa parte, causando risos em boa parte do pessoal (aliás, cabe citar que o uso constante de playbacks com corais e teclados foi meio frustrante ao longo do show, mas é algo compreensível devido às características "épicas" de certas faixas da carreira do cantor). Mais uma faixa nova, "Stop!", abriu caminho para "Lisbon", do terceiro disco do Angra, Fireworks, e que simplesmente enlouqueceu o pessoal, que cantava sua letra a plenos pulmões! 


Um curto solo do competente baterista Rodrigo Silveira antecedeu a também nova "On Your Own" (minha favorita no disco mais recente), e abriu caminho para o encerramento da primeira parte da apresentação com uma versão de quinze minutos para a clássica "Living For The Night", da primeira banda de Andre! Na parte mais lenta do início, o cantor entregou o microfone a um rapaz na primeira fila, pedindo para ele passar à pessoa ao seu lado logo depois, e assim o instrumento foi percorrendo a fileira da frente até parar nas mãos de uma menina (já lá pelos versos "I have no other life..."), que realmente cantou muito bem, merecendo palmas do próprio Andre. Durante esta canção, após a primeira parte instrumental, o vocalista declarou que "ela nunca deveria sair do repertório, pois é um dos clássicos do metal nacional", e que, em um teatro como aquele, "o som é simplesmente perfeito", permitindo que ocorra "tudo que a gente deseja, que é passar o melhor da gente aqui em cima do palco para vocês". Matos também apresentou os músicos de sua banda, que são, além dos citados Rodrigo e Hugo (bem mais solto do que no show do ano passado, diga-se de passagem, agitando muito e comandando a galera em certos momentos, apesar de sempre manter um ar meio tímido e fechadão durante a apresentação), o baixista Bruno Ladislau e o guitarrista André Hernandes, anunciado como "aquele que foi e sempre será um membro da primeira formação do Angra".

Após o final da música, as luzes se acenderam e deram lugar a trechos de música clássica, com muita gente aproveitando para ir ao banheiro ou ao bar do teatro. Ainda com as luzes acesas, a intro "Unfinished Allegro" começou a tocar no PA, surpreendendo a muitos, e marcando o início de um momento memorável, com a execução na íntegra daquele que é, ao menos para mim, um dos melhores álbuns de heavy metal já lançados por uma banda brasileira, só ficando atrás de Chaos AD, do Sepultura, e Theatre of Fate, do Viper! A trinca inicial, com as clássicas "Carry on", "Time" e "Angels Cry" foi simplesmente perfeita, e, se faltaram os memoráveis backing vocals das mesmas, a performance da banda de Andre compensou com sobras qualquer decepção, ficando o mais próximo possível dos arranjos originais, sem descaracterizar nenhuma das faixas ao longo desta segunda parte, em uma decisão bastante acertada por parte dos músicos.


Hugo Mariutti e Andre Matos


A linda "Stand Away" deu uma baixada na adrenalina do pessoal, e foi seguida pelo baião mais pesado de todos os tempos, a também marcante "Never Understand", que voltou a incendiar os presentes. Ao final desta, tivemos um solo de André Hernandes, onde o músico esbanjou talento e competência nas seis cordas de sua guitarra. Hernandes chamou Hugo ao palco e, quando pensei que teríamos um dos clássicos "duelos" de guitarra, Mariutti surpreendeu a todos executando os riffs iniciais de "Black Magic", do Slayer, em uma clara (apesar de não citada) homenagem a Jeff Hanneman, falecido no dia anterior. O público reagiu muito bem, e Hugo ainda executou mais algumas passagens da música, acompanhado por Hernandes, em um momento que ficará marcado na mente de todos e que serviu de forma excelente a seu propósito! Um barulho de ventania começou então a tocar no sistema de PA, anunciando a aguardada "Wuthering Heights", onde Andre Matos deu um show de interpretação, em uma canção dificílima, mas que parecia fácil devido a seu enorme talento, calando completamente alguns detratores que garantem que sua voz já não é mais a mesma! Bullshit! A música teve acompanhamento de boa parte dos presentes em seu refrão final, com Andre apenas assistindo e deixando o público levar sozinho esta parte, para delírio do pessoal!


A pesada "Streets of Tomorrow" foi precedida por outra homenagem a Hanneman, na forma dos riffs iniciais de "Dead Skin Mask", também executados por Hugo, e as excelentes (porém nem tão lembradas) "Evil Warning" e "Lasting Child" encerraram a apresentação, com Andre agradecendo novamente aos presentes, e os músicos saindo rapidamente do palco, para voltarem um a um e cumprimentarem as pessoas presentes na primeira fileira, ao som de um instrumental com a melodia de "Fairy Tale", e fazendo o tradicional cumprimento de despedida de todos os artistas em todos os shows, indo à frente do palco e reverenciando o público! Era o final de mais uma noite inesquecível para os fãs de metal de Porto Alegre, que puderam conferir de perto um dos maiores talentos do estilo já surgidos no país, em mais uma iniciativa acertada da produtora Abstratti! Agora, é aguardar pela próxima, mantendo na memória as cenas desta noite especial!

Visão geral do palco


"Angels crying / Can't take no more


Angels dying / Capture their fall"


Set List:


Primeira parte:

1. Intro
2. Liberty
3. I Will Return
4. Course of Life
5. Rio
6. Fairy Tale
7. Stop!
8. Lisbon
9. Drum Solo
10. On Your Own
11. Living for the Night

Segunda parte - Angels Cry:

1. Unfinished Allegro
2. Carry on
3. Time
4. Angels Cry
5. Stand Away
6. Never Understand
7. Guitar Solo
8.Wuthering Heights
9. Streets of Tomorrow
10. Evil Warning
11. Lasting Child