domingo, 28 de março de 2021

Pit Passarell - Praticamente Nada [2020]


Por Micael Machado

O músico Pit Passarell fez história no Heavy Metal nacional como fundador, principal compositor, baixista e depois vocalista do grupo paulistano Viper, responsável por alguns dos mais emblemáticos registros do gênero já lançados no país. Mas o artista também possui um lado mais leve, e suas composições de estilo mais próximo ao BRock dos anos 80 vem aparecendo aqui e ali em discos de outros grupos (principalmente o Capital Inicial, aproximação que se aprofundou ainda mais com a entrada do irmão de Pit, o guitarrista Yves Passarell, para a banda de Brasília em 2001) desde o final do século passado, pelo menos, além de compor boa parte do disco Tem pra Todo Mundo, lançado pelo próprio grupo original de Pit em 1996. Pois, em 2020, o ainda integrante do Viper resolveu juntar algumas destas composições a outras ainda inéditas, e lançar seu primeiro registro solo, intitulado Praticamente Nada, em um belo disco de "rock nacional", como atesta uma espécie de "obi" que acompanha a edição em CD lançada pelo selo Encore Music com apoio do site Wikimetal. Nesta empreitada, Pit se dedica apenas aos vocais, tendo a companhia de Flávio Simões no baixo, Wesley Maldonado na bateria, Cris Simões nos teclados e violões (além de assinar a produção do álbum), e conta com a presença dos guitarristas Eduardo Simões, Sílvio Vartan e Augusto Nogueira (além do já citado Yves) se alternando nas guitarras (infelizmente, o encarte não especifica quem toca em qual faixa).

Mais da metade do repertório já apareceu ao longo da carreira do Capital Inicial, sendo certamente as mais conhecidas as faixas "O Mundo" (escolhida como o primeiro single de divulgação de Praticamente Nada, tendo aparecido em Atrás dos Olhos, de 1998, e que na versão do autor soa bastante curiosa sem o característico "tchu ru ru" da introdução, substituído por um interessante fraseado de guitarra) e "Depois da Meia-Noite", inicialmente lançada em Das Kapital, de 2010 (e que aqui ganha um arranjo um pouco mais pesado que a versão do grupo candango). "Algum Dia", que apareceu com destaque no disco Rosas e Vinho Tinto, de 2002, ganha um novo arranjo, com a presença de violões e um vocal mais agressivo por parte de Pit, enquanto "Instinto Selvagem" (que já tinha uma atmosfera quase punk com o Capital, mas que ganha mais "sujeira" aqui, além de um excelente solo de guitarra) e "Seus Olhos" (que se distancia da forma mais pop do registro dos brasilienses, sem se descaracterizar totalmente, e também lançada como single) são duas faixas que apareceram em Gigante!, lançado em 2004. "Vamos Comemorar" (outra de Das Kapital) e "Poucas Horas" (do disco Saturno, de 2012) ganham letras diferentes na versão de seu compositor original, especialmente a segunda, que manteve praticamente apenas o seu refrão marcado pelo característico e repetitivo "tudo vai ficar bem". Para o meu gosto, estas "novas" versões com Pit acabam soando mais agradáveis que as "antigas", pois não possuem um viés tão "pop rock" quanto aquelas registrada pelo grupo de Brasília, além da voz de Pit ser bem mais "roqueira" que a de Dinho Ouro Preto, se encaixando melhor à cara mais "pesada" que o compositor deu às suas próprias versões.

Pit Passarell: o músico que fez história com o Viper lança seu primeiro registro solo, apostando no rock nacional.

Algumas faixas já haviam sido registradas por outros projetos capitaneados por Passarell, como o Metanol (com quem o músico gravou "Revolução na Cidade", que apresenta uma certa pegada punk) e os The Lucratives, banda formada por boa parte dos músicos envolvidos no CD, e com quem Pit lançou, ainda em 2008, além de algumas das faixas que também integram Praticamente Nada citadas no parágrafo acima, a veloz "Veloset", uma das duas únicas faixas deste álbum com versos em inglês (a outra é a semi balada "Love of My Life", única cuja maioria das frases principais são gravados na língua que consagrou a banda principal de Pit). A balançada  "A Minha Vida Vai Ser Bem Melhor" (com algo de rock clássico dos anos 50 no refrão), a faixa título e a cadenciada "Que Seja Eterno o Nosso Amor" (lançada como segundo single de Praticamente Nada) - estas duas, composições que, apesar de também apresentarem algo de punk rock em seu arranjo, não se diferenciam tanto assim de outras músicas compostas por Pit e já registradas anteriormente pelo Capital - são as únicas das quais não consegui encontrar um registro anterior, e servem, assim como as demais faixas do álbum, para mostrar que Passarell tem um dom para compor faixas marcantes não só no heavy metal clássico que o consagrou, mas também na seara do rock nacional de viés mais oitentista (e, cabe dizer, a quantidade de refrões marcantes que este disco apresenta é, sem dúvidas, muito acima da média).

Praticamente Nada não é (nem pretende ser) um disco de Heavy Metal, e, se você for um "metaleiro" com a mente mais fechada a outros estilos, sugiro que fuja da audição deste álbum. Mas, se, como eu, tiver alguma ligação com o BRock dos anos 80, ou for fã do estilo musical do próprio Capital Inicial, certamente encontrará aqui um álbum bastante agradável de ouvir. Confira!

Contracapa de Praticamente Nada 


Track List:

1. Veloset

2. Algum Dia

3. Praticamente Nada

4. O Mundo

5. Seus Olhos

6. Instinto Selvagem

7. Poucas Horas

8. Vamos Comemorar

9. Revolução na Cidade

10. Que Seja Eterno o Nosso Amor

11. Depois da Meia-Noite

12. A Minha Vida Vai Ser Bem Melhor

13. Love of My Life

domingo, 21 de fevereiro de 2021

The Doors - Live at London Fog 1966 [2016]


Por Micael Machado

Considerado o mais antigo registro do The Doors sobre um palco, o disco Live at London Fog 1966 foi lançado em 2016 para coincidir com as celebrações pelos 50 anos da estreia fonográfica da banda, em uma luxuosa (e limitada) embalagem contendo um vinil de 10", um CD e vários itens de memorabilia do grupo, sendo que apenas em 2019 foi receber uma nova edição, desta vez em um CD digipack, com um encarte mais simples do que o original e sem os "mimos" da caixa anterior (além, claro, das hoje obrigatórias plataformas digitais). Gravado em maio de 1966 no bar de Los Angeles que lhe dá nome, pelo espectador Nettie Peña, que declara no encarte ser amigo de Jim Morrison (vocais) e Ray Manzarek (teclado e vocais - se alguém ainda não sabe, completavam o grupo o guitarrista Robby Krieger e o baterista John Densmore) desde os tempos da faculdade de cinema (Peña também foi responsável pelas fotos que aparecem no encarte), o álbum mostra, em pouco mais de trinta minutos, um grupo ainda embrionário, se adaptando ao palco (a estreia da banda no local havia sido em fevereiro daquele ano), e longe do "monstro" que se tornaria apenas poucos meses depois.

Curiosamente, nenhuma faixa do autointitulado primeiro álbum (lançado em janeiro de 1967) aparece no repertório, embora Peña escreva no encarte que chegou a gravar, em uma fita de rolo diferente da que deu origem a este disco, uma versão de quinze minutos "épica" para "The End", considerada por ele "absolutamente genial", e John Densmore tenha dito em uma entrevista à revista Billboard quando do lançamento de Live at London Fog 1966 que "o que se ouve no disco é apenas metade da apresentação daquela noite", e que, certamente, uma versão inicial de "Light My Fire" teria sido executada naquele show. Das sete faixas do disco (duas outras são "ajustes de equipamentos" e conversas entre os músicos no intervalo das canções), cinco são covers para standards do blues como "Baby, Please Don't Go", de Joe Williams, e "I'm Your Hoochie Coochie Man", de Willie Dixon (esta com Ray Manzarek no vocal principal e Jim na harmônica), e apenas duas são originais dos conjunto, versões embrionárias para "Strange Days", que seria a faixa título do segundo registro do quarteto, e "You Make Me Real", que, curiosamente, só receberia uma versão oficial de estúdio em 1970, no álbum Morrison Hotel.

O Doors no palco do bar London Fog, em foto presente no encarte: Ray Manzarek, John Densmore, Jim Morrison e Robby Krieger

O The Doors surge ainda "verde" nestas gravações, embora o trio instrumental já demonstre o entrosamento e a força que conquistariam milhares de fãs ao longo da curta trajetória do conjunto, e Morrison apareça cantando em um tom um pouco mais agudo que o normal, ainda não apresentando o vocal de barítono que arrebatou multidões antes e depois de sua precoce morte. A gravação está em um nível bastante aceitável, sendo muito melhor que a de um bootleg "comum", mas longe da qualidade de outros registros oficias do grupo disponíveis por aí (e, claramente, não era esta a intenção de Peña quando fez as gravações), e certamente irão agradar aos fãs do grupo que tiverem acesso ao CD.

E parece ser para estes já convertidos devotos de Morrison e companhia que o álbum é indicado. Aqueles que, porventura, não estejam tão familiarizados com a obra do conjunto, não encontrarão aqui a melhor porta de entrada para a sonoridade do grupo. Já os fãs de longa data certamente terão muito a aproveitar aqui, pela possibilidade de conferirem o quarteto em um estágio ainda inicial, mesmo há poucos meses do lançamento de sua autointitulada estreia (que o transformaria em um dos maiores expoentes musicais da história), demonstrando mais uma vez que poucos gênios nascem prontos, e a maioria, como é o caso aqui, precisa de um período de aperfeiçoamento e evolução para atingir o seu máximo. É exatamente neste período embrionário que Live at London Fog 1966 foi registrado, e o resultado é, após a audição, bastante satisfatório. Confiram!

Contracapa de Live at London Fog 1966 


Track List:

Lado A

1. Tuning (I)

2. Rock Me Baby

3. Baby, Please Don't Go

4. You Make Me Real

Lado B

1. Tuning (II)

2. Don't Fight It

3. I'm Your Hoochie Coochie Man

4. Strange Days

5. Lucille

sábado, 12 de dezembro de 2020

Dois Reis - Dois Reis [2017]


Por Micael Machado

Sebastião Reis (voz, violão e guitarra) e Theo Reis (voz), filhos do cantor e compositor Nando Reis, começaram o projeto 2 Reis em 2012, com a intenção de levar para o palco músicas que o pai havia composto mas, por um motivo ou outro, não costumava apresentar em seus shows. Aos poucos, a dupla foi inserindo em seu repertório canções autorais, e, em 2017, reuniu oito delas no seu álbum de estreia, autointitulado, lançado pelo selo independente Relicário e produzido por Fernando Nunes, conhecido por trabalhar ao lado de artistas como Cássia Eller e Zeca Baleiro. Para o disco, que teve a capa desenhada pela irmã dos rapazes, Zoé Reis, a dupla foi acompanhada por uma banda formada por Victor Barreto (guitarras), Pedro de Lahóz (teclados), Gabriel Gariba (baixo) e Rafinha Wer (bateria).

O "paizão" Nando compôs (ao lado de Sebastião e de Fernando Nunes) apenas uma música, "Seja Como For", mas várias faixas do álbum poderiam muito bem estar espalhadas por sua discografia solo. Tanto "A Sombra do Futuro" (que ganhou um clipe de divulgação), quanto "Repartir", "Abri As Portas" (com destaque para as teclas de Pedro de Lahóz) ou "O Sexo Mais Forte" (que conta com um dueto entre Theo e a cantora Luiza Lian) parecem saídas dos discos do Reis mais velho, seja por causa dos timbres escolhidos para os instrumentos, seja pela semelhança das vozes do pai com a de seus filhos, ou ainda pela forte presença do violão e do Hammond nos arranjos das canções.

Theo e Sebastião, a dupla Dois reis

O reggae "Se Prepare" já havia sido gravado pela banda anterior de Theo, o Zafenate, e a balançada "Curva dos 30" conta com uma participação do trombone de Willian "Bica" em seu arranjo. Mas o maior destaque, para mim, é o encerramento com "O Tempo", faixa mais longa do registro (e única a passar dos cinco minutos), com uma atmosfera hippie que lembra um pouco o que se costumou chamar de "rock rural" no Brasil, além de algo de psicodelismo em seu arranjo e uma levada que lembra a parte dos versos de "Mantra", canção escrita pelo pai da dupla.

Difícil dizer qual caminho Theo e Sebastião adotarão em um próximo registro, e se conseguirão ou não se afastar da "sombra" do pai em suas composições. Mas, para um disco de estreia, Dois Reis se sai muito bem, ainda que vá agradar, primordialmente, àqueles já convertidos à sonoridade e à poesia da carreira solo de Nando Reis. Vamos aguardar o que o futuro trará!

Contracapa do álbum Dois Reis

Track List:

1. Abri As Portas

2. Seja Como For

3. Se Prepare

4. Curva dos 30

5. A Sombra do Futuro

6. Repartir

7. O Sexo Mais Forte

8. O Tempo

domingo, 29 de novembro de 2020

Blues Pills - Holy Moly! [2020]

Por Micael Machado

Quando o Blues Pills lançou sua estreia em 2014, chamou a atenção do mundo devido em muito ao talento de Elin Larsson, uma loiraça sueca cuja voz carregada de soul fez muita gente chamá-la de "nova Janis Joplin", um certo exagero na minha opinião, apesar do fato de que a moça era realmente um sopro de renovação no meio de tantas cantoras de vozes mais tímidas/contidas ou voltadas para o lado lírico/operístico que infestavam a cena à época. Mas a banda contava também com o jovem guitarrista francês Dorian Sorriaux, então com apenas 16 anos, e que conquistou muitos fãs com seu talento e inventividade no instrumento. Por isso, quando Dorian anunciou sua saída do grupo em novembro de 2018, os seguidores do quarteto ficaram apreensivos quanto ao futuro da trupe, que imediatamente anunciou que o baixista Zack Anderson assumiria as seis cordas do conjunto, com Kristoffer Schander sendo anunciado como novo baixista em outubro de 2019 (sendo que o baterista André Kvarnström completa o time), embora o novo integrante não tenha efetivamente participado das gravações do novo disco, Holy Moly!, terceiro registro completo de estúdio da turma, lançado no final de agosto de 2020, e que, felizmente, afasta todas as preocupações dos fãs quanto ao futuro e o direcionamento musical da banda!

O trio que registrou Holy Moly!André Kvarnström, Elin Larsson e Zack Anderson

Isto porque Anderson (que, além das guitarras e baixo, também cuidou da engenharia de som e - ao lado de Elin e André - da produção, além de assumir o papel de principal compositor e letrista, nesta função novamente ao lado de Elin) conseguiu manter o estilo adotado pelo Blues Pills em seus primeiros anos, além de incorporar novas sonoridades à temática setentista do grupo. Se, nos primeiros discos, a música dos Pills parecia presa em algum ponto entre 1972 e 1974, desta vez a mesma avançou um pouco mais para o final da década, resultando no álbum mais variado do grupo até aqui: tem velocidade (em "Low Road", um dos destaques), hard rocks poderosos (como o manifesto feminista "Proud Woman", o ritmo "quebrado" de "Dreaming My Life Away" ou a agitada "Rhythm In The Blood"), groove em "Bye Bye Birdy", uma certa "malemolência" em "Kiss My Past Goodbye", baladas menos ("Dust") ou mais emotivas ("California" e, principalmente, "Wish I'd Known", com um belo coral no final) e até toques de psicodelismo presentes no solo de guitarra de "Song from A Mourning Dove", a mais longa do disco, sendo a única a passar dos cinco minutos, além do final com "Longest Lasting Friend", contando apenas com a guitarra limpa de Zack Anderson e a voz poderosa de Elin, que, ao longo do disco, assume novamente seu papel de destaque dentro da banda, com variações vocais desde tons mais suaves a graves marcantes, além de alternar volumes e tonalidades com maestria, fazendo com que seu canto não soe repetitivo ao longo das faixas.

Com pouco mais de quarenta minutos de duração, o CD saiu no Brasil pela Shinigami Records, mas lá fora foi lançado pela Nuclear Blast também em vinil (em diversas cores diferentes), em uma edição em CD duplo com uma reedição do EP Bliss, de 2012,  como bônus, e até mesmo em um box com o CD e o vinil de 12 polegadas de Holy Moly!, além de uma edição em vinil de 10 polegadas do citado EP. Se você já curtia o som do Blues Pills, pode conferir este novo álbum sem medo, e, se não conhece ainda, mas curte a sonoridade setentista do hard rock do período (que aqui, felizmente, foge da saturada cena de imitadores do Black Sabbath para buscar outras fontes de inspiração para sua música), então este disco é altamente recomendável, Confira!

Contracapa de Holy Moly!

Track List:

1. Proud Woman

2. Low Road

3. Dreaming My Life Away

4. California

5. Rhythm In The Blood

6. Dust

7. Kiss My Past Goodbye

8. Wish I´d Known

9. Bye Bye Birdy

10. Song From A Mourning Dove

11. Longest Lasting Friend

domingo, 4 de outubro de 2020

Datas Especiais - 35 anos do renascimento do The Cure


Por Micael Machado

O final do ano de 1984 não foi fácil para o guitarrista e vocalista Robert Smith, principal compositor do grupo inglês The Cure. Por motivos de saúde (física e mental), ele havia se forçado a sair do Siouxsie and the Banshees, onde atuava como um "simples" guitarrista, em uma busca de fugir da pressão e das responsabilidades de seu grupo principal. Este, por sua vez, apesar de ter acabado de lançar um álbum ao vivo (intitulado Concert), chegava esfacelado aquele final de ano, apos a demissão do baterista Andy Anderson (que, depois de muitas desavenças com outros membros do grupo, quebrou completamente um quarto de hotel no Japão e foi demitido ainda antes do final da turnê de divulgação do mais recente álbum de estúdio até então, The Top, também de 1984) e a saída voluntária do baixista e produtor Phil Thornalley (que, segundo suas próprias palavras, descobriu durante a excursão que "fazer turnês não é para os fracos de coração", e que se adaptava muito melhor aos ambientes fechados do estúdio do que à vida ao ar livre da estrada). Além disso, o guitarrista Porl Thompson (velho amigo de Robert, e que havia participado de uma das  primeiras formações do grupo) havia participado da turnê apenas com o status de "músico convidado", não fazendo realmente parte da formação do The Cure, que tinha em seu outro membro fundador, o tecladista Lol Tolhurst, um sujeito que passava mais tempo brigando com seus demônios pessoais (especialmente o álcool) do que contribuindo ativamente para a musicalidade da banda.

A entrada do baterista Boris Williams (ex-membro dos Thompson Twins) para completar a excursão acabou solucionando a parte percussiva do problema, mas faltava ainda resolver a questão da outra metade da seção rítmica do grupo. Um roadie da banda, Gary Biddles, acabou intermediando uma reunião entre Smith e Simon Gallup, ex-baixista do próprio Cure, com o qual havia gravado os discos mais bem sucedidos do conjunto até então (a "trilogia negra" formada pelos álbuns Seventeen Seconds, Faith, e Pornography), e que havia saído da banda após desentendimentos com Robert que chegaram até as "vias de fato" durante a última excursão de que o baixista participou. Segundo Biddles, os dois se encontraram perto de sua casa, foram até um bar e, "algumas cervejas depois, estavam conversando de novo". Smith fez então o convite para o retorno, Gallup aceitou, e as quatro cordas da banda ganhavam seu dono permanente desde então. Bastava apenas que Robert oficializasse a posição de Thompson como responsável pelas guitarras do grupo, e a entidade The Cure estava então pronta para renascer.

Em fevereiro de 1985, a nova formação em quinteto se reuniu no F2 Studios, na Inglaterra, onde Smith mostrou aos outros algumas ideias musicais que havia registrado sozinho, e que, desenvolvidas ao longo do primeiro semestre daquele ano, resultariam em The Head on the Door, lançado a 26 de agosto daquele ano, e que mudaria para sempre a história e o status do The Cure no mundo da música. Pela primeira vez, todas as faixas tiveram Robert como compositor exclusivo, sem a participação dos outros membros. "Bob" Smith já declarou que sua intenção era "gravar músicas sombrias e músicas pop e colocá-las no mesmo álbum", músicas que "criassem um tipo de tensão ao casar letras levemente amargas a melodias realmente doces". Um belo exemplo disso pode ser encontrado em "In Between Days", primeiro single lançado (ainda em julho) e faixa que abre o disco, com sua melodia alegre e divertida (conduzida pelo violão, algo raro na discografia da banda até então) emoldurada por uma letra onde Robert lamenta a perda de sua companheira e implora sua volta. A canção recebeu um icônico vídeo clipe dirigido por Tim Pope, que foi muito bem aceito na MTV dos Estados Unidos, e ajudou a catapultar o nome do grupo naquele país, com o sucesso apenas aumentando após o lançamento do segundo single (e clipe, do mesmo diretor), "Close to Me", outra canção pop e alegre, cujos versos dariam origem ao nome do álbum, e que, segundo Smith (em uma das várias repostas que ele deu ao longo dos anos tentando explicar este título, e que está presente no encarte da reedição de 2006), veio de um "pesadelo recorrente de infância, onde uma cabeça sem corpo me encarava de cima da porta de meu quarto"... dá para perceber que, apesar de tudo, Smith não estava tão alegre assim à época.

The Cure em 1985: Porl Thompson, Lol Tolhurst, Boris Williams, Robert Smith e Simon Gallup

Mas o lado "pop" de The Head on the Door não se resumia apenas a estas duas faixas. "Six Different Ways" tem uma leve a agradável melodia quase infantil, conduzida pelos teclados (que, aliás, foram quase todos tocados por Smith e Thompson, visto que Tolhurst passava efetivamente mais tempo embriagado do que tocando com o grupo), e "Push", uma das minhas favoritas na longa discografia do grupo, tocou (e ainda toca) muito nas rádios mundo afora, apesar de não ter sido lançada como single. "Screw" tem uma melodia que acaba soando estranha (mas ao mesmo tempo agradável) aos ouvidos, enquanto "The Baby Screams" traz de volta os experimentos eletrônicos da época em que o Cure era uma dupla formada por Bob e Lol, especialmente os contidos no single The Walk, de 1983 (aliás, não seria exagero dizer que os "experimentos" feitos pelo duo nesta época em busca de fórmulas mais "pops" para o som do Cure foram o que permitiram que The Head on the Door acabasse tendo a sonoridade que obteve ao final).

Mas é claro que, em se tratando de um álbum do The Cure, um lado sombrio, tristonho e depressivo acabaria eventualmente aparecendo. Este lado é representado por "Kyoto Song", onde melodias orientais aparecem no arranjo, pelos violões flamencos de "The Blood" (onde Smith clama estar paralisado pelo "Sangue de Cristo", que nada mais era do que uma variação de "Lágrimas de Cristo", nome de um fortíssimo vinho do Porto com o qual ele havia se embriagado na casa de Steven Severin, baixista e ex-colega de Bob tanto no Siouxsie and the Banshees quanto no The Glove), e, principalmente, na faixa que encerra o álbum "Sinking", onde Bob avalia a passagem do tempo e o avanço da idade em uma das mais memoráveis canções da história da banda. O track list se completa com a balada "A Night Like This", que casa perfeitamente o lado alegre e o lado sombrio do Cure em uma única faixa, e ainda tem um solo de saxofone gravado pelo músico convidado Ron Howe, que havia participado da banda Fools Dance, o grupo que Simon montou ao deixar o Cure em 1983.

Como já citei acima, em 2006, junto com os outros discos da discografia do grupo até 1987, foi lançada uma reedição "deluxe" de The Head on the Door, que veio com um CD bônus contendo as tais demos caseiras que Bob mostrou aos seus companheiros em fevereiro de 1985, outras demos gravadas pelo grupo em estúdio, e algumas faixas ao vivo. Neste CD aparecem versões alternativas para todas as músicas do álbum, além das quatro lançadas como B-sides à época e outras quatro inéditas até então, as instrumentais "Inwood" e "Innsbruck" (registradas apenas por Smith, com predominância dos teclados e arranjos bastante sombrios) e as mais alegres "Mansolidgone" (que lembra as faixas do Cure como dupla) e "Lime Time" (que traz versos que depois acabariam formando parte das letras de "In Between Days" e de "Six Different Ways"), gravadas pela banda inteira já no F2 Studios.

Contracapa de The Head on the Door

Como disse, o disco e (principalmente) os clipes acabaram fazendo muito sucesso nos Estados Unidos, levando o grupo para sua primeira grande excursão pelo país. O sucesso do Cure na América fez com que o resto do mundo abrisse os olhos para a banda, e o nome do quinteto atingiu um patamar até então sequer sonhado por seus membros, especialmente depois que a gravadora lançou, no ano seguinte, a coletânea de singles Standing on a Beach (chamada Staring at the Sea na versão em CD, sendo as duas frases os versos de abertura de "Killing an Arab", primeiro single do grupo, lançado em 1978), que reunia todos os "Lados A" da banda até então, com a versão em cassete original contando ainda com quase todos os respectivos "B-Sides", além de existir ainda uma versão em VHS com todos os vídeos oficiais, chamada Staring at the Sea: The Images, e o mesmo track list da versão em CD, que possui quatro faixas extras. Ao final da turnê promocional para The Head on the Door, o Cure fez dois shows no Théâtre antique d'Orange, na França (a 9 e 10 de agosto de 1986), que ficaram eternizados no VHS The Cure in Orange (lançado em 1987), na minha opinião ainda o melhor registro em vídeo do grupo, sendo que um lançamento oficial em DVD já foi anunciado muitas vezes, mas, infelizmente, nunca se efetivou. A turnê acabava com o The Cure em um nível de popularidade elevadíssimo, com seus membros (Smith principalmente) transformados em rock stars, e prontos para abraçar o estrelato daí em diante, posição da qual o grupo nunca mais sairia, mantendo o respeito e o apoio dos fãs do mundo todo até os dias de hoje, graças ao seu "renascimento" trinta e cinco anos atrás.

Track List (versão original):

Lado A:

1. "In Between Days"
2. "Kyoto Song"
3. "The Blood"
4. "Six Different Ways"
5. "Push"

Lado B:

1. "The Baby Screams"
2. "Close to Me"
3. "A Night Like This"
4. "Screw"
5. "Sinking"

Track List (CD bônus da reedição de 2006):

1. "In Between Days (RS Instrumental Home Demo 12/84)"
2. "Inwood (RS Instrumental Home Demo 12/84)"
3. "Push (RS Instrumental Home Demo 12/84)"
4. "Innsbruck (RS Instrumental Home Demo 12/84)"
5. "Stop Dead (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
6. "Mansolidgone (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
7. "Screw (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
8. "Lime Time (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
9. "Kyoto Song (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
10. "A Few Hours After This ... (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
11. "Six Different Ways (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
12. "A Man Inside My Mouth (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
13. "A Night Like This (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
14. "The Exploding Boy (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
15. "Close to Me (Fitz/F2 Studios Demo 2/85)"
16. "The Baby Screams (Live Bootleg Bercy Paris 12/85)"
17. "The Blood (Live Bootleg Bercy Paris 12/85)"
18. "Sinking (Live Bootleg Bercy Paris 12/85)"

Eluveitie - Live At Masters Of Rock [2019]


Por Micael Machado

Poucas são as bandas que conseguem sobreviver à saída de um ou mais membros importantes de sua formação. Mas o grupo suíço de folk metal Eluveitie, liderado pelo vocalista e multi-instrumentista Chrigel Glanzmann, tem convivido com este tipo de percalço praticamente desde sua fundação, ainda em 2002. Sendo assim, depois das traumáticas partidas do baterista Merlin Sutter, do guitarrista Ivo Henzi e da vocalista Anna Murphy (esta também responsável pelo hurdy-gurdy, ou viola de roda, como é conhecido no Brasil) em 2016 (trio hoje reunido no Cellar Darling), o grupo se remontou com a chegada de Alain Ackermann para a bateria, Jonas Wolf para as seis cordas, Michalina Malisz para o hurdy-gurdy e Fabienne Erni para os vocais e harpa, além de trazer de volta a violinista Nicole Ansperger, que, junto com o guitarrista Rafael Salzmann, o baixista Kay Brem e o responsável pelos instrumentos de sopro Matteo Sisti, transformaram o conjunto num exército de nove peças pronto para retomar seu lugar no mundo metálico, primeiro com a gravação de um álbum acústico chamado Evocation II: Pantheon (que serviu como uma espécie de "respiro" para dar fôlego ao que estava por vir), em 2017, e depois com um de seus melhores registros de estúdio na carreira, Ategnatos, de 2019. Foi na turnê de promoção deste disco que o grupo tocou no festival Masters Of Rock, na República Tcheca, no dia 11 de julo de 2019, onde foi registrado o segundo disco ao vivo da extensa carreira da banda (descontados aqueles que vieram como bônus em edições especiais de alguns álbuns anteriores ou até mesmo um registro lançado como brinde da revista alemã Legacy em 2014).

Em um set de uma hora e quinze minutos de duração, é claro que muitas músicas marcantes acabaram ficando de fora da apresentação, mas o grupo conseguiu reunir no seu show, além de um solo de bateria (que, felizmente, não é muito extenso, possuindo pouco menos de três minutos e meio, mas que poderia, para o meu gosto, ter sido substituído por uma música "de verdade" dentre tantas que faltaram), cinco faixas de seu então novo disco (com destaque para a abertura com a faixa título, a agressiva "Deathwalker" e a variada "Rebirth", já no bis) junto a algumas faixas um pouco mais antigas (como "Helvetios" ou "Havoc") aquelas "favoritas de sempre" que já se tornaram obrigatórias nas apresentações dos suíços, como "Thousandfold", "A Rose For Epona",  "The Call Of The Mountains" ou "King", estas duas, apesar de mais recentes, já consideradas clássicas pelos fãs.

Foto da banda presente no encarte de Live At Masters Of Rock

Fãs estes que, tenho certeza, tinham como curiosidade principal saber como Fabienne Erni  conseguiria se sair ao desempenhar seu papel no palco. Pois (visto que ainda não tive, infelizmente, a oportunidade de assistir ao vivo a esta formação do grupo para formar uma opinião através de minhas próprias observações "in loco") se os vídeos disponíveis no youtube mostram que Fabienne ainda terá que evoluir muito para chegar ao nível de presença de palco, carisma e empatia que Anna Murphy possuía, pelo menos a parte vocal do grupo está garantida sem ressalvas, como comprovam aquelas composições que exigem um destaque maior da cantora, como as citadas "The Call Of The Mountains" e "A Rose For Epona", ou as mais novas "Epona" e "Artio", esta, especialmente, quase um "número solo" talhado para a vocalista mostrar toda sua extensão vocal e sua bela voz.

Fica difícil recomendar uma ou outra faixa para o ouvinte ocasional que pretenda conhecer o Eluveitie através deste álbum, devido ao largo espectro musical do grupo, indo de momentos quase death metal (como parte da abertura de "Worship") a momentos onde parecemos ser transportados às tavernas de filmes medievais (como em partes de "Thousandfold" ou da citada "Epona"), passando por temas que remetem às tantas bandas de gothic metal com vocais femininos que temos por aí (como em partes de "Breathe"), momentos quase pop (em "The Call Of The Mountains", aqui apresentada com sua letra em inglês, sendo que Anna frequentemente a cantava em sua versão com letras em alemão, uma das várias versões em que a faixa chegou a ser registrada) ou temas mais introspectivos e belos como "A Rose For Epona". Mas é claro que, neste disco e na extensa discografia da banda, um dos maiores destaques sempre será "Inis Mona", há anos escolhida para o encerramento dos shows da banda, e que aqui, mantendo a tradição, fecha tanto o bis quanto o álbum.

Contracapa da versão em vinil de Live At Masters Of Rock

Disponível, é claro, nas muitas versões em formato digital obrigatórias nos dias atuais, Live At Masters Of Rock foi lançado lá fora em vinil duplo e CD simples, sendo que a versão nacional (disponível apenas neste segundo formato, pela gravadora Shinigami Records) traz um adesivo indicando ser uma edição limitada a trezentas cópias (não numeradas, infelizmente). Sendo assim, se você curte a complexa sonoridade desta quase orquestra musical de folk metal, não perca a oportunidade de garantir sua cópia do álbum, pois a satisfação será garantida. Com a pandemia que assola o mundo e as incertezas para o futuro que ela traz, fica difícil prever o futuro desta formação do Eluveitie, mas, se depender do mostrado neste registro, ele tem tudo para ser tão ou mais brilhante que a estrada que o grupo já percorreu com seus antigos membros. Quem sobreviver à "gripezinha", verá!

Track List:

1. Ategnatos
2. King
3. The Call Of The Mountains
4. Deathwalker
5. Worship
6. Artio
7. Epona
8. A Rose For Epona
9. Thousandfold
10. Ambiramus
11. Drumsolo
12. Havoc
13. Breathe
14. Helvetios
15. Rebirth
16. Inis Mona

domingo, 19 de julho de 2020

The Nice - The Thoughts of Emerlist Davjack [1968]


Por Micael Machado

Todo fã de rock progressivo tem a obrigação de conhecer ao menos de nome o excepcional tecladista Keith Emerson, que ganhou fama como membro do supergrupo Emerson, Lake & Palmer. O que talvez alguns não saibam é que, antes do ELP, Emerson também obteve fama e sucesso ao lado do The Nice, com quem tocou entre 1967 e 1970. Aqueles que não conhecem o som da banda, e resolvam iniciar pelo seu disco de estreia registrado em 1968, com o curioso nome The Thoughts of Emerlist Davjack (algo como "os pensamentos de Emerlist Davjack", em tradução livre), certamente serão surpreendidos pela sonoridade completamente diferentes entre as duas bandas de seu membro mais conhecido...

Mas antes de tratarmos do disco em si, um pouquinho de história. Como disse, o grupo iniciou sua trajetória em 1967, inicialmente como banda de apoio à cantora norte-americana P. P. Arnold, que estava na Inglaterra acompanhando a dupla Ike a Tina Turner em uma excursão pelo país. Quando a turnê acabou, Arnold decidiu continuar no país, mas pediu ao seu manager, Andrew Loog Oldham (também empresário dos Rolling Stones, e co-proprietário da gravadora Immediate Records) que lhe arrumasse um novo grupo como suporte, pois estava descontente com os músicos que lhe acompanhavam então. Emerson foi convidado para a empreitada, e rapidamente se uniu ao baixista Lee Jackson, ao guitarrista David O'List e ao baterista Ian Hague em uma digressão onde também apareciam, apenas os quatro, como "banda de abertura" para a cantora principal. Após uma apresentação de destaque (sem Arnold) no National Jazz and Blues Festival daquele ano, e, com o retorno da cantora a seu país de origem ao final da temporada inglesa, Oldham ofereceu ao grupo (já devidamente denominado como The Nice) um contrato com sua própria gravadora, o que foi logo aceito pelo quarteto, que efetivou Jackson nos vocais (além de continuar no baixo) e substituiu Hague (que estava descontente com os rumos musicais que o grupo queria seguir) pelo baterista Brian Davison, e partindo para a gravação de seu registro de estreia.

Algumas sessões de composição e gravações foram feitas entre o final de 1967 e o início de 1968 (muitas delas aparecendo anos depois na compilação Autumn '67 – Spring '68, que contém versões alternativas para quase todas as faixas do primeiro disco), mas o álbum oficial só sairia em março de 1968. Àquela época, o Nice estava completamente inserido na cena "psicodélica" inglesa (então representada por grupos tão díspares quanto Pink Floyd, Jimi Hendrix Experience, The Crazy World of Arthur Brown, Yardbirds e muitos outros, e que também fazia muito sucesso na costa oeste dos Estados Unidos, especialmente em San Francisco), como pode ser constatado nas faixas "Tantalising Maggie",  "Flower King of Flies", "The Cry of Eugene" ou a própria "The Thoughts of Emerlist Davjack" (sendo que o nome do personagem principal, caso você não tenha percebido, é uma junção dos sobrenomes dos membros do grupo), sendo que as duas últimas, com o benefício do tempo e da história, acabam soando bastante genéricas, e muito parecidas a diversas outras composições do período (o que não contribui, de forma alguma, para diminuir a sua qualidade, que fique bem claro).

The Nice em 1968: Lee Jackson, Brian Davison, Keith Emerson e David O'List

Mas isto não significa que o quarteto estava preso a uma única forma de compor ou a um único estilo. "Bonnie K", por exemplo, tem um pezinho e meio firmemente plantado no blues, enquanto "War and Peace" e partes da citada "The Cry of Eugene" já adiantam o estilo progressivo que Emerson adotaria mais adiante em sua carreira, sendo que a primeira conta com um verdadeiro show do músico em seu instrumento. Mas o grande destaque do álbum ficou, sem dúvidas, para "Rondo", onde, ao longo de mais de oito minutos (um verdadeiro exagero para a época), Emerson faz misérias sobre um arranjo diferente elaborado por ele para a clássica "Blue Rondo à la Turk", do Dave Brubeck Quartet, e inseriu definitivamente seu nome na história da música. A faixa fez um enorme sucesso, levando o Nice a excursionar pela Europa e os Estados Unidos, sendo anos depois incorporada ao repertório do Emerson, Lake & Palmer, onde, amparado pela base mais sólida construída por seus então parceiros, Emerson atingia voos musicais altíssimos na performance de suas teclas ao longo da faixa.

O sucesso de "Rondo" e das apresentações ao vivo do grupo, onde Emerson já tinha o costume de "maltratar" seu teclado, seja o arrastando pelo palco, jogando-o por cima de si ou mesmo atirando adagas no coitado (estas, segundo a Wikipedia, legítimos artigos originais da SS de Hitler, emprestadas ao músico por um de seus roadies, um certo Ian Kilmister, também conhecido como Lemmy -  sim, este mesmo que vocês estão pensando) foi seguido por um novo single, uma versão para a peça "America", de Leonard Bernstein, mas, em setembro daquele ano, o grupo acaba se separando de O'List, sendo que ainda hoje é discutido se o guitarrista saiu voluntariamente por questões particulares e de saúde (como consta, inclusive, nas "liner notes" do relançamento do primeiro disco de 2007), ou se foi expulso por Emerson após alguns desentendimentos entre os outros três membros e o titular das seis cordas. O certo é que a carreira do The Nice seguiria em frente, com o agora trio avançando cada vez mais no terreno do rock progressivo, estilo no qual, a meu ver, atingiu seu ápice no álbum Five Bridges, de 1970, gravado ao lado da orquestra The Sinfonia Of London. Naquele mesmo ano, Keith Emerson chegou à conclusão de que, musicalmente falando, o trio havia atingido o máximo de evolução possível, e decidiu abandonar o barco para formar o já citado ELP. Jackson formou o Jackson Heights, com quem tocou entre 1970 e 1973, e depois se reuniria brevemente com Davison em 1974 no projeto Refugee, onde tocaram ao lado do tecladista Patrick Moraz (que naquele mesmo ano se uniria ao Yes, o que foi o final do trio Jackson, Davison e Moraz). O quarteto "Emerlist Davjack" não tocaria junto de novo, mas o trio Emerson, Jackson e Davison ainda faria uma última excursão em 2002 (que resultou no álbum ao vivo Vivacitas, daquele mesmo ano), antes das mortes de Davison em 2008 e de Emerson em 2016.

Contracapa da versão original de The Thoughts of Emerlist Davjack

The Thoughts of Emerlist Davjack foi relançado várias vezes, com a inclusão de diversas e diferentes faixas bônus registradas naquele período a cada nova versão, como a já citada "America" ou o lado B do single para a faixa título, intitulado "Azrial (Angel of Death)", e permanece ainda hoje como um marco na carreira de um dos músicos mais importantes da história do rock progressivo. Se tiver a oportunidade, procure conhecer este trabalho, que já mostra o talento de Emerson nas teclas, mesmo que ele fosse evoluir ainda mais posteriormente em sua carreira. Só não espere os grandes arroubos instrumentais do músico em sua fase ELP. A banda, aqui, é outra, mas ainda é uma "nice band" (é, não consegui resistir a este infame trocadilho, perdoem-me).

Track List (versão original):

Lado A
1. "Flower King of Flies"
2. "The Thoughts of Emerlist Davjack"
3. "Bonnie K"
4. "Rondo"

Lado B
1. "War and Peace"
2. "Tantalising Maggie"
3. "Dawn"
4. "The Cry of Eugene"