domingo, 19 de julho de 2020

The Nice - The Thoughts of Emerlist Davjack [1968]


Por Micael Machado

Todo fã de rock progressivo tem a obrigação de conhecer ao menos de nome o excepcional tecladista Keith Emerson, que ganhou fama como membro do supergrupo Emerson, Lake & Palmer. O que talvez alguns não saibam é que, antes do ELP, Emerson também obteve fama e sucesso ao lado do The Nice, com quem tocou entre 1967 e 1970. Aqueles que não conhecem o som da banda, e resolvam iniciar pelo seu disco de estreia registrado em 1968, com o curioso nome The Thoughts of Emerlist Davjack (algo como "os pensamentos de Emerlist Davjack", em tradução livre), certamente serão surpreendidos pela sonoridade completamente diferentes entre as duas bandas de seu membro mais conhecido...

Mas antes de tratarmos do disco em si, um pouquinho de história. Como disse, o grupo iniciou sua trajetória em 1967, inicialmente como banda de apoio à cantora norte-americana P. P. Arnold, que estava na Inglaterra acompanhando a dupla Ike a Tina Turner em uma excursão pelo país. Quando a turnê acabou, Arnold decidiu continuar no país, mas pediu ao seu manager, Andrew Loog Oldham (também empresário dos Rolling Stones, e co-proprietário da gravadora Immediate Records) que lhe arrumasse um novo grupo como suporte, pois estava descontente com os músicos que lhe acompanhavam então. Emerson foi convidado para a empreitada, e rapidamente se uniu ao baixista Lee Jackson, ao guitarrista David O'List e ao baterista Ian Hague em uma digressão onde também apareciam, apenas os quatro, como "banda de abertura" para a cantora principal. Após uma apresentação de destaque (sem Arnold) no National Jazz and Blues Festival daquele ano, e, com o retorno da cantora a seu país de origem ao final da temporada inglesa, Oldham ofereceu ao grupo (já devidamente denominado como The Nice) um contrato com sua própria gravadora, o que foi logo aceito pelo quarteto, que efetivou Jackson nos vocais (além de continuar no baixo) e substituiu Hague (que estava descontente com os rumos musicais que o grupo queria seguir) pelo baterista Brian Davison, e partindo para a gravação de seu registro de estreia.

Algumas sessões de composição e gravações foram feitas entre o final de 1967 e o início de 1968 (muitas delas aparecendo anos depois na compilação Autumn '67 – Spring '68, que contém versões alternativas para quase todas as faixas do primeiro disco), mas o álbum oficial só sairia em março de 1968. Àquela época, o Nice estava completamente inserido na cena "psicodélica" inglesa (então representada por grupos tão díspares quanto Pink Floyd, Jimi Hendrix Experience, The Crazy World of Arthur Brown, Yardbirds e muitos outros, e que também fazia muito sucesso na costa oeste dos Estados Unidos, especialmente em San Francisco), como pode ser constatado nas faixas "Tantalising Maggie",  "Flower King of Flies", "The Cry of Eugene" ou a própria "The Thoughts of Emerlist Davjack" (sendo que o nome do personagem principal, caso você não tenha percebido, é uma junção dos sobrenomes dos membros do grupo), sendo que as duas últimas, com o benefício do tempo e da história, acabam soando bastante genéricas, e muito parecidas a diversas outras composições do período (o que não contribui, de forma alguma, para diminuir a sua qualidade, que fique bem claro).

The Nice em 1968: Lee Jackson, Brian Davison, Keith Emerson e David O'List

Mas isto não significa que o quarteto estava preso a uma única forma de compor ou a um único estilo. "Bonnie K", por exemplo, tem um pezinho e meio firmemente plantado no blues, enquanto "War and Peace" e partes da citada "The Cry of Eugene" já adiantam o estilo progressivo que Emerson adotaria mais adiante em sua carreira, sendo que a primeira conta com um verdadeiro show do músico em seu instrumento. Mas o grande destaque do álbum ficou, sem dúvidas, para "Rondo", onde, ao longo de mais de oito minutos (um verdadeiro exagero para a época), Emerson faz misérias sobre um arranjo diferente elaborado por ele para a clássica "Blue Rondo à la Turk", do Dave Brubeck Quartet, e inseriu definitivamente seu nome na história da música. A faixa fez um enorme sucesso, levando o Nice a excursionar pela Europa e os Estados Unidos, sendo anos depois incorporada ao repertório do Emerson, Lake & Palmer, onde, amparado pela base mais sólida construída por seus então parceiros, Emerson atingia voos musicais altíssimos na performance de suas teclas ao longo da faixa.

O sucesso de "Rondo" e das apresentações ao vivo do grupo, onde Emerson já tinha o costume de "maltratar" seu teclado, seja o arrastando pelo palco, jogando-o por cima de si ou mesmo atirando adagas no coitado (estas, segundo a Wikipedia, legítimos artigos originais da SS de Hitler, emprestadas ao músico por um de seus roadies, um certo Ian Kilmister, também conhecido como Lemmy -  sim, este mesmo que vocês estão pensando) foi seguido por um novo single, uma versão para a peça "America", de Leonard Bernstein, mas, em setembro daquele ano, o grupo acaba se separando de O'List, sendo que ainda hoje é discutido se o guitarrista saiu voluntariamente por questões particulares e de saúde (como consta, inclusive, nas "liner notes" do relançamento do primeiro disco de 2007), ou se foi expulso por Emerson após alguns desentendimentos entre os outros três membros e o titular das seis cordas. O certo é que a carreira do The Nice seguiria em frente, com o agora trio avançando cada vez mais no terreno do rock progressivo, estilo no qual, a meu ver, atingiu seu ápice no álbum Five Bridges, de 1970, gravado ao lado da orquestra The Sinfonia Of London. Naquele mesmo ano, Keith Emerson chegou à conclusão de que, musicalmente falando, o trio havia atingido o máximo de evolução possível, e decidiu abandonar o barco para formar o já citado ELP. Jackson formou o Jackson Heights, com quem tocou entre 1970 e 1973, e depois se reuniria brevemente com Davison em 1974 no projeto Refugee, onde tocaram ao lado do tecladista Patrick Moraz (que naquele mesmo ano se uniria ao Yes, o que foi o final do trio Jackson, Davison e Moraz). O quarteto "Emerlist Davjack" não tocaria junto de novo, mas o trio Emerson, Jackson e Davison ainda faria uma última excursão em 2002 (que resultou no álbum ao vivo Vivacitas, daquele mesmo ano), antes das mortes de Davison em 2008 e de Emerson em 2016.

Contracapa da versão original de The Thoughts of Emerlist Davjack

The Thoughts of Emerlist Davjack foi relançado várias vezes, com a inclusão de diversas e diferentes faixas bônus registradas naquele período a cada nova versão, como a já citada "America" ou o lado B do single para a faixa título, intitulado "Azrial (Angel of Death)", e permanece ainda hoje como um marco na carreira de um dos músicos mais importantes da história do rock progressivo. Se tiver a oportunidade, procure conhecer este trabalho, que já mostra o talento de Emerson nas teclas, mesmo que ele fosse evoluir ainda mais posteriormente em sua carreira. Só não espere os grandes arroubos instrumentais do músico em sua fase ELP. A banda, aqui, é outra, mas ainda é uma "nice band" (é, não consegui resistir a este infame trocadilho, perdoem-me).

Track List (versão original):

Lado A
1. "Flower King of Flies"
2. "The Thoughts of Emerlist Davjack"
3. "Bonnie K"
4. "Rondo"

Lado B
1. "War and Peace"
2. "Tantalising Maggie"
3. "Dawn"
4. "The Cry of Eugene"

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Rainbow ‎– Long Island 1979 [2015]


Por Micael Machado

Há pouco tempo atrás, abordei aqui no site o álbum ao vivo Boston 1981um dos vários bootlegs do grupo inglês Rainbow "oficializados" no mercado entre 2013 e 2016. Devido à boa repercussão da resenha (agradeço sinceramente aos vários comentários que o texto recebeu e ao engajamento dos nossos leitores com o mesmo), hoje gostaria de abordar outro disco que faz parte deste "pacote" licenciado pelo chefão Ritchie Blackmore à gravadora Purple Pyramid, uma divisão da Cleopatra Records. Trata-se de Long Island 1979 - Down To Earth Tour, registrado a 30 de Novembro de 1979 no Calderone Concert Hall, na cidade de Hempstead, no estado norte-americano de Nova Iorque, apenas dez dias antes do final da turnê americana do grupo naquele ano, e na mesma data do trigésimo quarto aniversário do baixista Roger Glover. A resenha será feita baseada na versão em vinil deste registro, pois o disco, ao que apurei, foi lançado separadamente apenas neste formato (ainda que em diferentes versões nas cores laranja, amarelo e preta), sendo que em CD o mesmo aparece apenas como parte de um box set chamado Down To Earth Tour 1979, que traz a íntegra deste show e do realizado em Denver apenas alguns dias antes (o qual também ganhou uma versão em vinil duplo), além de parte da apresentação em Chicago em outubro daquele ano, não podendo nenhum dos três ser adquirido de forma isolada neste formato de mídia física.

Contando em seu line-upà época, com o baterista Cozy Powell, o tecladista Don Airey e o cantor Graham Bonnet (que havia substituído Ronnie James Dio alguns meses antes, e registrado o disco Down To Earth naquele mesmo ano), além dos citados Blackmore e Glover, e impulsionado pelo sucesso do single da canção "Since You've Been Gone" (sexto lugar na Inglaterra e presente no Top 100 dos Estados Unidos), o grupo fazia sua mais bem sucedida excursão ate então, em termos financeiros e de reconhecimento, nos Estados Unidos (curioso saber que parte dela foi como grupo de abertura do Blue Oyster Cult, o que nos dá uma ideia do "tamanho" do Rainbow no país à época), e o concerto registrado neste disco mostra uma banda já bastante entrosada e adaptada ao material executado, "azeitada" pelo longo período na estrada com seu novo "lead singer". Infelizmente, a qualidade sonora do álbum em questão é bastante ruim, com o som muito baixo e abafado, os pratos de Powell "sibilando" constantemente nas caixas de som (dá a impressão de um rádio FM ligeiramente fora da sintonia ideal, consigo me fazer entender?), a voz de Bonnet "abafada" em meio aos demais instrumentos e o baixo de Glover por vezes quase sumido na mixagem. Seria possível imaginar que Blackmore e a gravadora simplesmente pegaram um dos muitos bootlegs do show existentes por aí, colocaram algumas fotos do guitarrista nas capas externas e internas (à exceção das capas de três singles da época, a imagem do "poderoso chefão" do Rainbow é a única de um membro da banda a aparecer no disco) e "soltaram" o mesmo no mercado em uma versão diferente das anteriores. Mas um detalhe nos faz pensar diferente: em todas as faixas, a guitarra do Sr. “Ricardinho Maispreto” está alta e cristalina, brilhando à frente da massa sonora dos demais instrumentos, o que nos mostra que alguma coisa em termos de mixagem deve ter sido feita antes da "oficialização" do concerto ao público em geral. Claro que, para os colecionadores de verdade, acostumados a bootlegs mal gravados cujo valor histórico é muito maior do que a qualidade cristalina das gravações digitais atuais, esta alegada "falta de qualidade" na gravação não chegará a atrapalhar muito a audição (eu, por exemplo, tenho discos não oficiais em meu acervo muito mais difíceis de ouvir do que estes, e não me furto de escutá-los e apreciá-los com o mesmo entusiasmo que um disco oficial "ao vivo" lançado pelos artistas), e, lá pela terceira ou quarta música do álbum, este fator já não será mais um problema aos ouvidos menos sensíveis.

Capa interna e discos de uma das versões de Long Island 1979

E, por falar em "valor histórico", o deste registro em questão é bastante relevante, Apesar de não contar com a tradicional abertura com a fala de Dorothy no filme do Mágico de Oz e a banda tocando um trecho da canção "Somewhere Over The Rainbow" (ambos citados no texto da capa externa, mas ausentes da versão final do disco), substituídos por alguns "sons eletrônicos" dos teclados de Airey, quando estes revelam os primeiros acordes de "Eyes Of The World" a senha está dada para um belo álbum ao vivo do Rainbow. Seguida pela mais cadenciada "Love's No Friend", as duas canções possuem alguns dos melhores solos de Blackmore no disco, e tem na sequência (intercaladas por pequenos trechos instrumentais da citada "Somewhere Over The Rainbow" e da clássica composição de Beethoven "Für Elise") os dois maiores "hits" de Down To Earth, "Since You've Been Gone" e "All Night Long", que completam o primeiro disco da versão em vinil duplo. Ao final da última, Bonnet anuncia o aniversário de Glover à audiência, e Airey puxa um "Parabéns a Você" cantado entusiasticamente pelo público americano, fazendo o baixista "corar um pouco debaixo de seu tradicional chapéu", segundo o texto da capa interna.

Os quase vinte e sete minutos de "Lost In Hollywood" ocupam todo o lado C do vinil, e são maiores do que a soma de dois de quaisquer outros lados do disco. Claro que a faixa é um espaço para improvisos, solos e passagens dos músicos por trechos de outras composições. Um dos muitos bootlegs do show encontrados no mercado, chamado Roger's Birthday Party, lista estes trechos separadamente em seu track list, sendo eles "Lost In Hollywood - Part I", um trecho de "Beethovens Ninth" (em versão mais lenta, mas com arranjo semelhante, àquela registrada como faixa título do álbum Difficult to Cure), "Keyboard Solo", "Drum Solo", "1812 Overture" e "Lost In Hollywood - Part II". Como visto, a faixa dá espaço para quase todos brilharem individualmente, além de já apontar os caminhos que o Rainbow seguiria logo em seguida em seus próximos registros.

Na última parte do concerto temos uma volta ao passado do grupo e de seu líder. Iniciando com um breve improviso de Blackmore à guitarra (chamado de "Richi's Tune" no bootleg citado acima) e um curto trecho instrumental de "Lazy", um dos muitos clássicos do Deep Purple (banda que contava, cabe alertar aos desavisados de plantão, com Ritchie e Roger em suas fileiras), canção citada com entusiasmo na capa interna como "tendo trazido suspiros extras às hordas presentes na beira do palco", apesar de durar apenas alguns segundos, a "volta no tempo" continua com a vinheta "Blues", passagem instrumental que Ritchie já executava nos palcos desde seus tempos no Púrpura Profundo, que aparece separando as clássicas "Man On The Silver Mountain" e "Long Live Rock 'N' Roll", ambas remetendo aos tempos em que o baixinho Ronnie James Dio empunhava o microfone do Rainbow, e nas quais a performance de Graham Bonnet, apesar de compreensivelmente inferior à do fantástico cantor anterior, não soa nada decepcionante, pois, mesmo com estilos bastante diferentes entre eles, Graham consegue colocar sua personalidade nas faixas, ao contrário do que ocorreria com seu substituto, como escrevi na resenha do show de Boston citado no começo deste texto. As duas faixas aparecem no lado D do vinil, completando um show que, apesar de contar oficialmente com apenas sete canções, tem mais de uma hora de duração, e deve agradar aos verdadeiros fãs da banda, principalmente Àqueles que conseguirem superar mais facilmente a falta de uma qualidade sonora mais cristalina ressaltada acima.

Contracapa de Long Island 1979

Menos de nove meses depois, o Rainbow se apresentaria no Monsters Of Rock Festival em Castle Donington, na Inglaterra, naquele que seria o último show de Bonnet e Powell com o grupo, abrindo caminho para uma nova e exitosa (financeiramente falando) fase com Bob Rondinelli na bateria e Joe Lynn Turner nos vocais. O show do Monsters também teve seu lançamento oficializado neste "pacote" de discos, mas isto é conversa para um outro momento...

Track List:

Lado A

1. Eyes Of The World
2. Love's No Friend

Lado B

1. Since You've Been Gone
2. All Night Long

Lado C

1. Lost In Hollywood

Lado D

1. Man On The Silver Mountain
2. Long Live Rock 'N' Roll

sábado, 18 de abril de 2020

Ministry ‎– Live Necronomicon [2017]


Por Micael Machado

Houve uma época em que o Ministry era um dos maiores grupos de heavy metal do mundo, sendo possivelmente o nome mais destacado do chamado "industrial metal" no começo da década de 1990. Isto ocorreu graças a dois álbuns de qualidade excepcional, The Mind Is A Terrible Thing To Taste, de 1989, e ΚΕΦΑΛΗΞΘ (popularmente conhecido como Psalm 69: The Way to Succeed and the Way to Suck Eggs), de 1992, os quais consolidaram o nome da banda mundialmente. Pois foi justamente entre estes dois registros que o Ministry colocou no mercado seu primeiro álbum ao vivo oficial (também lançado em vídeo), In Case You Didn't Feel Like Showing Up (Live), de 1990, gravado a 22 de fevereiro daquele ano em Merrillville, no estado norte-americano de Indiana, e que, apesar de conter menos de quarenta minutos e apenas seis faixas da apresentação daquela noite, conseguiu reconhecimento como um dos melhores discos ao vivo dos anos 90, ganhando imediatamente a simpatia e aprovação unânimes dos fãs da banda (particularmente falando, uma das primeiras camisetas "de banda" que comprei lá pelos meus 17, 18 anos, trazia a capa do disco estampada, o que deve servir para demostrar meu apreço pela obra). Vinte e sete anos depois, em 2017, um acordo com a gravadora Cleopatra Records colocou no mercado em edições tanto em CD como em vinil (ambos duplos), e também nas hoje obrigatórias plataformas digitais, uma versão ampliada daquele registro, chamada Live Necronomicon, e que, apesar de não contar com a íntegra do show executado naquela data, serve para mostrar um lado até então quase desconhecido da carreira da banda de Chicago.

O Ministry, à época, era formado em sua versão de estúdio pela dupla Alain "Al" Jourgensen (vocais, guitarra, programações) e Paul Barker (baixo, teclados, programações). Mas, ao vivo, além de tocar por trás de uma cerca de arame (repetidamente derrubada pelos fãs ao final das apresentações), a banda se transformava em um combo de dez pessoas, agregando às suas fileiras o recentemente falecido Bill Rieflin (à época, também membro do Revolting Cocks, do Pigface e do Lard, e futuramente integrante de grupos como KMFDM, Swans, R.E.M. e King Crimson) e o ex-PIL Martin Atkins (que depois faria parte do Nine Inch Nails) em duas baterias, um quarteto de guitarras formado pelo ex-Rigor Mortis Mike Scaccia (parceiro de Al tanto no Ministry quanto em diversos projetos paralelos até sua morte, em 2012), o ex-U.K. Subs Terry Roberts, o também membro do Pigface William Tucker, e o líder do Skinny Puppy Nivek Ogre (também responsável por teclados e vocais), além do tecladista e vocalista Chris Connelly (também do Revolting Cocks e do Pigface) e de Joe Kelly nos backing vocals. Nesta noite em particular, este aglomerado ainda contou com a participação especial de Jello Biafra (ex-Dead Kennedys, e parceiro de Al e Paul no Lard), e são as músicas de vários destes grupos "paralelos" citados aqui que tornam Live Necronomicon tão interessante.

In Case You Didn't Feel Like Showing Up (Live), a "versão original" do show lançado em Live Necronomicon

Isto porque, das quatorze faixas do disco, apenas oito são originais do Ministry, concentrado-se apenas nos álbuns The Land of Rape and Honey (de 1988) e o já citado The Mind Is A Terrible Thing To Taste, pois já naquela época Al renegava seus dois primeiros registros, With Sympathy (de 1983) e Twitch (de 1986), mais próximos do synth-pop que do industrial que a banda praticava então. As seis faixas de In Case You Didn't Feel Like Showing Up (Live) aparecem aqui em versões mais cruas, em certos casos ampliadas, e, de acordo com alguns artigos que li, sem os "overdubs" presentes na versão de 1990 (coisa que, honestamente, não sei afirmar, pois a música do Ministry é tão cheia de samplers e efeitos que é difícil dizer o que é pré-gravado e o que é efetivamente executado ao vivo), com destaques, ao menos para mim, para os hipnotizantes mais de onze minutos de "So What" e para aquela que talvez seja a minha música favorita da discografia da banda, a sensacional "Stigmata". As outras duas faixas originais do grupo aparecem na abertura (com uma longa versão para "Breathe") e no final do disco (uma pesada e apocalíptica redenção da faixa título de The Land of Rape and Honey, que parece se estender por bem mais que seus cinco minutos e meio, e que, no vídeo, conta com uma performance artística "especial" de Biafra).

Completando o track list de Live Necronomicon, temos seis covers de bandas e projetos dos músicos presentes no palco, algo que o Ministry raramente (ou nunca mais) faria em suas turnês posteriores, configurando assim o tal "lado desconhecido" que citei lá no início, pois, eu pelo menos, não tinha conhecimento desta faceta de "banda cover" que o grupo assumia ao vivo. As versões iniciam com as músicas "Man Should Surrender" e "No Bunny", ambas do Pailhead, projeto de Al e Paul ao lado de Ian MacKaye, membro do Minor Threat e do Fugazi (e que também contou com Bill Rieflin na bateria), duas faixas que, com um pouco mais de "sujeira", passariam fácil por composições originais do Ministry, e que, graças à ausência de maiores dados na ficha técnica, não tenho como dizer qual dos membros da banda está nos vocais, mas arrisco a dizer que não é Al. A coisa muda de estilo nas versões para "Smothered Hope", do Skinny Puppy (com  Nivek Ogre nos vocais) e "Public Image", do PIL, ambas trazendo um certo clima "punk" para o álbum, especialmente a segunda, onde o vocalista (mais uma vez não sei dizer quem) emula quase a perfeição o estilo de John Lydon. Fechando com chave de ouro, temos a presença de Jello Biafra na execução de duas faixas do Lard, "The Power Of Lard" (que começa como um funk pesado, com destaque para o baixo de Barker, e descamba em um furioso hardcore) e "Hellfudge", que, de alguma forma, sempre me lembrou o estilo adotado pelo Dead Kennedys em seus dois últimos álbuns.

Contracapa da versão em vinil de Live Necronomicon

Tendo algumas edições limitadas em vinil colorido vermelho, branco e azul (além do tradicional preto), Live Necronomicon deixou de fora algumas faixas executadas naquela noite, como um interlúdio chamado "Country Interlude", uma cover para "Stainless Steel Providers", do Revolting Cocks (outro dos muitos projetos de Al e Paul) e dois discursos (chamado em inglês de "spoken words") de Jello, "Message from our Sponsor" e "Pledge of Allegiance". Mesmo assim, é um álbum obrigatório para os fãs da banda e do estilo, pois eleva em muito o nível apresentado em In Case You Didn't Feel Like Showing Up (Live), além de capturar o Ministry no auge de sua forma, a qual ainda se manteria na excursão seguinte, mas nunca mais atingiria este mesmo patamar nos anos futuros. Confira!

Track List:

CD 1

1. Breathe
2. The Missing
3. Deity
4. Man Should Surrender
5. No Bunny
6. Smothered Hope
7. So What
8. Burning Inside

CD 2

1. Thieves
2. Stigmata
3. Public Image
4. The Power Of Lard
5. Hellfudge
6. The Land Of Rape & Honey

domingo, 5 de abril de 2020

Gorilla - Treecreeper [2019]


Por Micael Machado

Confesso que, apesar de ser admirador do chamado estilo Stoner, nunca tinha ouvido falar do trio inglês Gorilla, hoje formado por Johnny Gorilla nos vocais e guitarras, Sarah Jane no baixo e Ryan Matthews na bateria, mesmo o pessoal estando na estrada desde o início da década de 1990, e já tendo lançado três registros antes deste Treecreeper. O fato deste ser seu primeiro full-length desde 2007 talvez contribua para isto, mas a verdade é que, quando o registro caiu em minhas mãos, não nutria grandes expectativas quanto à sua audição, apesar do mesmo vir muito bem recomendado a mim por pessoas nas quais confiro.

E, aos meus ouvidos, realmente os conselhos foram sábios. O grupo investe no chamado "stoner rock", e, apesar de ter algumas partes mais lentas em suas músicas, sabiamente foge quase por completo da definição de "imitadores do Black Sabbath" que tantas outras bandas sob o amplo rótulo "stoner" carregam (a não ser por uma pequena escorregadela em "Terror Trip", onde uma parte mais rápida no meio da faixa lembra e muito "Electric Funeral", do disco Paranoid, dos mestres de Birmingham), apostando em canções mais velozes e "rock and roll", quase uma mistura de Motörhead (especialmente por causa dos vocais de Johnny) com as bandas de hard rock do início da década de 1970, como Buffalo ou Dust (para entender melhor, confira "Ringo Dingo", com o baterista Matthews nos vocais principais, ou "Gorilla Time Rock N Roll", onde algum ouvinte mais incauto pode jurar que está ouvindo o eternamente saudoso Lemmy Kilmister ao microfone, e uma inusitada harmônica surge para fazer o solo principal da canção).

O trio Gorilla: Ryan Matthews, Johnny Gorilla e Sarah Jane

"Scum Of The Earth" e "Killer Gorilla" seguem bem esta fórmula, mas é quando o trio investe na psicodelia que consegue os resultados mais agradáveis, na minha opinião. Apesar de uma certa "fórmula pronta" adotada a cada composição (início mais lento, solos lisérgicos e partes mais aceleradas e "aditivadas" no meio ou no final da faixa), músicas como "Last In Line" ou a faixa-título (onde suaves sons de passarinhos aparecem no início tentando nos enganar quanto à potência da sonoridade da banda) mostram que a banda consegue ser bastante criativa e arranjar soluções diferentes para que seus registros não soem maçantes ou muito similares entre si. Neste mesmo estilo "psicodélico com partes agitadas", a épica "Cyclops" (em seus mais de seis minutos) acaba sendo o grande destaque do registro para mim, ao lado de "Mad Dog", com uma longa e interessante intro (repetida ao final) e um contagiante ritmo quebrado.

Lançado em CD e em algumas versões diferentes de vinil (amarelo, laranja, preto e uma limitada edição splatter), além das inevitáveis plataformas digitais que hoje dominam o streaming de música, Treecreeper, em seus pouco mais de quarenta e sete minutos, é uma bela pedia aos fãs de Stoner Rock, mas também é muito recomendado aos saudosos admiradores da sonoridade do Motörhead e de um rock and roll pegado e furioso, com um pezinho no metal sim, mas o outro firmemente plantado na psicodelia e na "aura setentista" de alguns dos melhores grupos da história. Confira!

Contracapa da versão em vinil de Treecreeper

Track List:

01. Scum Of The Earth
02. Cyclops
03. Gorilla Time Rock N Roll
04. Treecreeper
05. Mad Dog
06. Ringo Dingo
07. Terror Trip
08. Last In Line
09. Killer Gorilla

domingo, 22 de março de 2020

Stick Men - Midori [2016]


Por Micael Machado

Não é a primeira vez que escrevo para o site sobre o Stick Men, trio formado pelo multi-instrumentista Tony Levin (responsável aqui pelo stick e pelas vozes principais), pelo percussionista Pat Mastelotto (ambos membros de antigas e da atual formação do King Crimson) e por outro multi-instrumentista, Markus Reuter, que neste registro fica responsável pela touch guitar, os "soundscaps" e os teclados (para aqueles que estão se perguntando o que seriam stick, touch guitar e soundscaps, sugiro audições sucessivas da obra do King Crimson a partir da década de 1990 para maiores compreensões). Seus lançamentos sempre foram bastante difíceis de encontrar no mercado nacional, por isso, foi com uma agradável surpresa que encontrei alguns de seus discos à venda em sites virtuais em edições brasileiras, especialmente este disco duplo ao vivo chamado Midori, que registra dois shows da curta turnê japonesa do grupo em 2015, onde foram acompanhados pelo também ex-membro do King Crimson David Cross, encarregado do violino e dos teclados nestas gravações.

Registrado a 10 de abril de 2015 na cidade de Tóquio, no Japão, cada CD traz, como dito, a íntegra de uma apresentação do Stick Men para a plateia japonesa, tendo no CD 1 a apresentação vespertina do trio, e no CD 2 a noturna. O bom é que, ao contrário do que ocorre com nomes mais consagrados da música mundial, o repertório de ambos os shows repete pouquíssimas músicas, fazendo com que o conjunto da obra seja ainda mais atraente aos fãs da sonoridade adotada pelo trio (temporariamente transformado em quarteto, pois Cross está presente em todas as músicas, ao invés de fazer participação especial em algumas partes selecionadas, como se poderia supor).

Infelizmente, cabe dizer que, para aqueles curiosos que gostariam de utilizar o registro como "porta de entrada" para a discografia do trio, este será de uso bastante limitado, isto porque o número de composições próprias presentes nas duas apresentações são muito reduzidas. As instrumentais "Hide The Trees" e "Cusp" (com Cross nos teclados) são as únicas presentes no primeiro CD, enquanto "Crack In The Sky" (com Levin nos vocais, e que lembra um pouco as baladas do King Crimson registradas nos discos dos anos 90) é a representante solitária da obra original do Stick Men na segunda bolachinha. Boa parte do registro é composta de improvisações feitas na hora pelos músicos, sem preparação anterior, como muitas e muitas vezes o King Crimson fez durante sua trajetória, especialmente na época em que Levin e Mastelotto faziam parte da formação (seja tocando juntos ou em momentos separados).

Stick Men ao vivo no Japão: Markus Reuter, o convidado David Cross, Pat Mastelotto e Tony Levin

Estes improvisos podem soar bastante desafiadores (para dizer o mínimo) àqueles não tão familiarizados com a sonoridade proposta pelo grupo (ou, sou obrigado a citar mais uma vez, àquela adotada pela banda de origem de dois de seus membros, especialmente a partir da década de 1990). Dos quatro registros espalhados pelos CDs, "Moth" lembra  bastante os improvisos feitos pelo King Crimson na década de 1970, especialmente pela participação do violino de Cross, músico que também se destaca em "Midori", onde seu instrumento cria climas bastante interessantes. "Moon" é mais lento, com um belo trabalho de Levin no Stick, e "Blacklight", precedido por uma vinheta introdutória composta pelos "soundscaps" tão adotados pelo Rei Escarlate a partir da década de 1980 (algo que também ocorre com o citado "Midori"), serve apenas para comprovar que a técnica e a inventividade destes músicos está realmente muito acima da média normal encontrada no mundo da música atualmente.

Claro que, com três membros com passagens pelas fileiras do grupo liderado por Robert Fripp, seria quase impossível que alguma composição desta banda não aparecesse nos shows. Pois alguns dos momentos mais interessantes destes shows ocorrem justamente nestas covers, que, a bem da verdade, soam aqui muito mais como "recriações" do que simples versões, como é o caso de "Industry", cuja faixa de estúdio original nunca foi muito de meu agrado, mas aqui ganha pelo menos cinco minutos a mais em sua duração, e a presença do violino de Cross dividindo improvisos com a touch guitar de Reuter, ou de "Sartori In Tangier" (esta, uma das minhas favoritas dentre os registros da chamada "trilogia das cores" lançada pelo Rei Escarlate na década de 1980), onde o acréscimo do violino às passagens originais leva a composição para novas paisagens sonoras. 

Ao olhar o track list pela primeira vez, pensei que "Shades Of Starless" (uma das poucas músicas que se repetem nos dois shows) se trataria de alguma variação de "Starless", a obra prima que encerra o disco Red (vocês devem saber de quem, certo?), mas a faixa é quase um improviso, onde durante boa parte do tempo a condução é o item que mais se assemelha à faixa setentista original, sendo que, no primeiro disco, apenas depois da metade de seus oito minutos o violino enfim emenda a melodia original de abertura da prima-irmã mais clássica, sendo que mesmo esta é "desvirtuada" por improvisos e pela participação da touch guitar de Reuter, resultando em uma quase completa recriação da obra original, sendo que cabe destacar que as versões presentes nos CDs são bem diferentes entre si, tanto em duração quanto em arranjo, pois no segundo disco a participação de Cross se inicia mais cedo, e é mais presente que naquela apresentada no primeiro show. Encerrando os dois registros, a dobradinha "The Talking Drum"/"Lark's Tongues In Aspic, part II", fora alguns improvisos aqui e ali, soa bastante fiel às versões setentistas interpretadas pelo King Crimson (pois as formações da banda nas décadas seguintes, sem a presença do violino, também tinham suas próprias interpretações para estas faixas, que, obviamente, acabavam soando bem diferentes), especialmente graças à presença de Cross, cujo violino também comparece nas composições originais registradas no disco Lark's Tongues In Aspic.

Capa da versão sul-americana de Midori

Completando o registro, o segundo show ainda traz uma versão "quase' fiel para "Breathless", canção registrada originalmente por Robert Fripp em seu álbum solo Exposure, de 1979 (o qual conta com Levin no baixo), e uma bela interpretação para parte da obra "Firebird Suite", do compositor russo Igor Stravinsky, famosa por ser o tema de abertura dos shows do Yes nos anos setenta do século passado. Os dez minutos desta música beiram o divino, sendo valorizados aqui pelo trabalho do violino, com a parte final, justamente aquela mais conhecida, soando mais agressiva do que a interpretação com orquestra a que o ouvinte do Yes está acostumado, em muito graças aos timbres utilizados pela touch guitar e pelos teclados de Cross.

Produzido pelo próprio Markus Reuter, Midori foi lançado originalmente apenas no mercado japonês, mas, como citei, uma edição sul-americana (que incluiu uma versão para o mercado nacional) foi disponibilizada em 2018, graças a um acordo entre as gravadoras MoonJune Records, Iapetus e Unsung Productions. Sorte a nossa, que temos à disposição por um preço bastante acessível uma obra que mostra que o rock progressivo não precisa ser sonolento e melodioso como muitos não-iniciados podem pensar, mas sim ser cerebral, criativo e genial quando submetido ao talento de músicos tão gabaritados quanto estes. Confira!



Contracapas das versões sul-americana e japonesa de Midori

Track List:

CD 1:

1. Opening Soundscape - Gaudy
2. Improv - Blacklight
3. Hide The Trees
4. Improv - Moth
5. Industry
6. Cusp
7. Shades Of Starless
8. The Talking Drum
9. Larks' Tongues In Aspic, Part 2

CD 2:

1. Opening Soundscape - Cyan
2. Improv - Midori
3. Breathless
4. Improv - Moon
5. Sartori In Tangier
6. Crack In The Sky
7. Shades Of Starless
8. Firebird Suite
9. The Talking Drum
10. Larks' Tongues In Aspic, Part 2

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Rainbow ‎– Boston 1981 [2016]


Por Micael Machado

Entre 2013 e 2016, a banda Rainbow teve vários bootlegs "oficializados" no mercado, passando por pelo menos três fases de sua existência (aquelas onde os vocalistas Graham Bonnet, Joe Lynn Turner e Doogie White empunharam o microfone do grupo liderado pelo sempre marrento, mas genial, guitarrista Ritchie Blackmore), sendo estes, coincidentemente ou não, interrompidos quando do anúncio do "retorno" da turma (em uma nova formação, mantendo apenas o chefão Blackmore de algum dos antigos line-ups) para alguns poucos shows na Europa em 2016 (os quais renderam, por si só,  outros três registros ao vivo, pelo menos até agora). 

Um destes "lançamentos" que chegaram ao mercado foi Boston 1981, cuja versão oficial chegou ao mercado poucos meses antes dos shows de "retorno" de 2016. Registrado no Orpheum Theatre de Boston em 07 de maio de 1981, o disco, lançado tanto em CD quanto em vinil duplo, captura o grupo no meio de sua primeira excursão com Turner à frente, sendo a formação completada então por Roger Glover no baixo, Don Airey nos teclados, Bob Rondinelli na bateria e o big boss Blackmore nas seis cordas, e, pelo menos para mim, pode ser considerado um dos mais fracos "ao vivo" da carreira da banda, muito disto, em parte, pelo repertório escolhido para o show.

Detalhe do encarte da versão em vinil de Boston 1981

Na época, o Rainbow já havia abandonado sua sonoridade "hard rock" de origem europeia em favor de outra mais "comercial", "americanizada" e "pasteurizada" (processo que começou, a bem da verdade, já na formação anterior, com a entrada de Graham Bonnet em 1979). A chegada de Turner levou a mudança ainda mais adiante, e os anos que viriam mostrariam uma descaracterização ainda maior do som "tradicional" do grupo, aproximando-o do chamado AOR e gerando discos horrorosos como Bent Out of Shape, de 1983, último lançamento antes da separação oficial. Neste show de 1981, músicas das formações anteriores do grupo ainda são presença constante (formando mais da metade do repertório do disco), e é aí que o bicho pega, pois fica impossível não comparar estas versões com aquelas registradas pelas encarnações anteriores do Rainbow (e que contavam com músicos como Ronnie James Dio, Cozy Powell, Jimmy Bain e Tony Carey, para citar apenas alguns). E aí, o bicho pega de verdade...

Bob Rondinelli, por exemplo, é um baterista bastante seguro e pesado, conseguindo manter bem o ritmo e a fluidez de seu instrumento. Mas, quando comparado a seu antecessor na banda (o já citado Powell, que na época já tinha uma carreira consagrada, especialmente por sua passagem no grupo de Jeff Beck, e que depois só iria aumentar seu currículo e fama ao lado de formações como Michael Schenker Group, Whitesnake, Black Sabbath e Emerson, Lake & Powell, dentre muitos outros), soa muito "quadrado" e "reto", algo facilmente perceptível nas músicas onde Cozy era o instrumentista original. Roger Glover, ex-colega (e desafeto) de Blackmore no Deep Purple, tem aqui um repertório bem menos exigente que o de seu antigo grupo, e faz o seu "feijão com arroz" bem temperadinho ao longo do show, sem muitos arroubos ou momentos de glória, o que chega a ser pouco para um músico tão tarimbado quanto ele.

Os teclados sempre foram um instrumento importante na sonoridade do Rainbow desde seus primeiros anos, e o excepcional Don Airey (que, anos depois, se uniria a Glover em uma nova encarnação do Purple), não deixa a bola cair em momento algum. Apesar de seus "momentos de brilho" serem menores que os de seus antecessores em épocas passadas da banda, a "cama" para os solos e riffs do chefão do grupo é sempre precisa, e os próprios solos do teclado (como os que aparecem em "Difficult To Cure", "I Surrender" ou já na abertura com "Spotlight Kid") são invariavelmente talentossísimos e agradáveis de ouvir, embora, no geral, o músico acabe ficando meio que "à sombra" do "dono da porra toda", o Sr. "Ricardinho Maispreto", que não precisa se esforçar tanto aqui como na sonoridade da primeira fase de sua banda, e, sem ninguém para competir consigo pelas luzes do estrelato, acaba nos entregando uma penca de solos com sua legítima assinatura, como em "Love's No Friend", na já citada instrumental "Difficult To Cure" (sua interpretação própria para a nona sinfonia de Beethoven), no momento "quebra tudo" que antecede o solo final de "Lost In Hollywood" ou em uma surpreendente versão de "Smoke On The Water", visto que as encarnações anteriores do Rainbow sempre passavam longe dos clássicos da antiga banda de seu patrão.

Contracapa e encarte da versão em vinil de Boston 1981

Já Joe Lynn Turner se sai muito bem nas músicas que registrou em estúdio, pois possui uma voz perfeitamente adequada ao estilo que a banda adotava na época.  Mas, mesmo nas canções da "fase Bonnet", já se nota alguma falta de identificação do cantor com as melodias. Naquelas originalmente cantadas por Dio, então, a coisa se aproxima bastante da chamada "vergonha alheia, e sua voz é a grande responsável por tornar maravilhas como "Man On The Silver Mountain", "Long Live Rock N Roll" ou (principalmente) a fantástica "Catch The Rainbow" em canções pouco mais que comuns, ao invés do status de "clássicos" que o baixinho mais talentoso que já empunhou o microfone da banda conseguia lhes conferir. Por isso digo que o repertório não favorece este disco, pois, em excursões futuras (onde Turner já tinha mais material próprio registrado ao lado de Blackmore e seus asseclas), as músicas de formações anteriores foram gradualmente sendo substituídas a outras mais adequadas à voz e ao estilo do cantor, tornando a coisa toda mais "palatável" a quem frequentava os shows do Rainbow, e não expondo tanto seu front man a dificuldades (vale lembrar que, mais à frente no tempo, Turner iria reencontrar Ritchie e Roger em uma das mais controversas formações do Deep Purple, responsável pelo contestadíssimo Slaves and Masters, de 1990).

Acusado por alguns de possuir grandes edições em comparação às versões "não oficiais" disponíveis no mercado anteriormente (algo que, infelizmente, não posso confirmar ou negar, pois não conheço tais versões), Boston 1981 possui um belíssimo trabalho gráfico, completado por um longo encarte (em forma de livro na versão em vinil, lançado nas versões preto, azul, verde e vermelho) onde as fotos predominam sobre o texto, em uma embalagem bastante atraente, mas cujo conteúdo, infelizmente, vai depender muito da relação do ouvinte com a voz de Joe Lynn Turner para ter sua qualidade avaliada. Eu, posso confessar, nunca fui muito fã deste cantor, e, embora tenha encontrado bons momentos ao longo da audição, me senti bastante desconfortável em outros tantos, especialmente aqueles onde o saudoso Ronnie James Dio já havia mostrado como fazer aquele trabalho com muito mais qualidade. De toda forma, ouça por si mesmo, e tenha certeza que, se a voz de Turner nunca lhe perturbou, não será o restante do material contido neste disco que irá fazê-lo. Afinal, ainda não foi nesta época que Ritchie Blackmore iria fazer algo que não orgulharia seus seguidores... mas isto é papo para outra matéria, deixemos assim...

Contracapa da versão em CD de Boston 1981

Track List:

01. Spotlight Kid
02. Love's No Friend
03. I Surrender
04. Man On The Silver Mountain
05. Catch The Rainbow
06. Can't Happen Here
07. Lost In Hollywood
08. Difficult To Cure
09. Long Live Rock N Roll
10. Smoke On The Water