sábado, 2 de março de 2013

Discografias Comentadas: King Diamond (Parte II)



Por Micael Machado

Os desentendimentos com a gravadora Roadrunner forçaram a King Diamond Band a ficar parada por um tempo, e Andy LaRocque acabou se unindo ao Death para gravar o essencial Individual Thought Patterns em 1993. Com o retorno do Mercyful Fate, a carreira solo de King Diamond também foi retomada, e, devido à sua mudança para os Estados Unidos, o vocalista se uniu aos americanos Herb Simonsen (guitarra), Chris Estes (baixo) e Darrin Anthony (bateria) - também membros do Mindstorm - para, depois de resolver seus problemas legais com o antigo selo, trazer o grupo de volta à ativa cinco anos depois de The Eye!

Confira agora a segunda parte da Discografia Comentada de King Diamond!

The Spider's Lullabye [1995]

Com uma banda quase totalmente revovada em relação à que gravou The Eye (sobrou apenas o velho parceiro Andy LaRocque), este é um dos poucos álbuns da discografia solo de King Diamond que não é totalmente conceitual. The Spider's Lullabye (que, particularmente, considero um dos mais fracos de sua carreira) possui seis faixas que não têm relação liricamente, e outras quatro que contam a história de Harry, um sujeito que sofre de aracnofobia, e procura o estranho Dr. Eastmann em busca de uma cura para o seu medo. Claro que as coisas não saem como ele queria, e o final acaba sendo trágico, como em quase todas as histórias contadas pelo Rei. Apesar da qualidade de canções como "From the Other Side" e "Eastmann's Cure" (ambas com um riff veloz e refrão bastante melodioso), a longa "Room 17" (bastante variada) e "To the Morgue" (com um final bastante marcante), as demais canções não me atraem muito, talvez pela presença excessiva dos teclados (como em "The Poltergeist" ou "Moonlight"), ou apenas porque os riffs não caíram no meu gosto pessoal (como os de "Killer" e "Six Feet Under"). A cadenciada "Dreams" (com um marcante refrão) ganha velocidade nos solos, e a faixa título, apesar de durar quase quatro minutos, a meu ver é apenas uma vinheta de introdução para a história de Harry, marcada por mudanças de tempo, uso excessivo dos teclados e vocalizações que não ficaram muito legais, especialmente no começo e no final. Não diria que é um álbum desprezível, mas com certeza está longe dos melhores registros de King Diamond. Cabe citar que a versão nacional original (lançada pela Castle Brasil) possuía como bônus uma entrevista com o vocalista, a qual é quase impossível de ser ouvida, pois colocaram no áudio, enquanto King fala, algumas passagens de músicas do álbum, as quais muitas vezes se sobrepõem à voz do entrevistado, fazendo com que não se entenda o que ele diz, em uma demonstração incrível de amadorismo, e que serve como um dos exemplos das falhas que levaram a gravadora à falência no país. Assim como outros álbuns, este foi remixado por Andy e relançado em 2009, com uma nova arte gráfica.


The Graveyard [1996] 


Um sujeito inocente é acusado de violentar uma garotinha, e internado em um sanatório. Mentalmente perturbado devido ao "tratamento" recebido no local, ele consegue escapar e se refugia em um cemitério, enquanto planeja sua vingança contra o verdadeiro culpado. Mas, quando coloca seu plano em prática, as coisas acabam saindo um pouco diferentes do que ele queria. Outro álbum que não me atrai muito tanto na parte lírica quanto na musical, The Graveyard tem como destaques as faixas "Black Hill Sanitarium" (com um excelente refrão), a cadenciada "I'm Not a Stranger" e a pesada "Lucy Forever". As demais faixas meio que se equivalem, e, embora funcionem bem para o contexto da história (como a vinheta "Whispers", que serve para mostrar o estado de insanidade da mente do narrador, assim como a angustiante "Up From the Grave", ou a melódica "Daddy", passando perfeitamente o sofrimento da garotinha Lucy), separadas não ficam entre as melhores composições da carreira do Rei Diamante. A quase teatral "Digging Graves" (com seu ritmo macabro reforçado pelos efeitos de teclado) começa bem interessante, mas sua longa duração (sem muitas variações) acaba tornando-a cansativa, assim como "I Am", cuja melodia tem como ponto forte os teclados (a cargo de King) e a interpretação vocal do cantor, que passa bem a ideia de ser um sujeito completamente demente, como é o estado mental do narrador. A levada de bateria no começo de "Waiting" lembra a de "Welcome Home", do álbum Them, e a pesada "Trick or Treat" tem algo em sua melodia que me lembra Judas Priest. A primeira parte de "Heads on the Wall" é bem lenta, com um refrão bem interessante, mas na segunda metade a música fica bastante veloz, tornando-se algo completamente diferente. A mid-tempo "Meet Me at Midnight" também possui um bom refrão, a faixa título é uma vinheta com efeitos assustadores e King dando um show de interpretação no papel do demente narrador da história, e a quase orquestral "Sleep Tight Little Baby" completa o track list, sem muito brilho. Este é um dos álbuns mais bem sucedidos comercialmente na carreira de King Diamond, tendo atingido boas posições nas paradas e um número expressivo de vendas. Mas, como eu disse, não me convence! The Graveyard também foi remixado e relançado em 2009 com uma nova arte gráfica.



A formação de Voodoo: King Diamond,

John Luke Hébert, Chris Estes, Herb Simonsen e Andy LaRocque



Voodoo [1998]

O casal Lafayette (com a esposa Sarah grávida) e o "vovô" se mudam para uma mansão na Louisiana para recomeçar a vida. Próximo ao local existe um cemitério vodu, e as cerimônias realizadas ali perturbam o casal. Quando este decide destruir o cemitério, seu mordomo, um membro do culto vodu, se une a outros seguidores para impedir que isto ocorra, claro que não de uma forma pacífica, e, mais uma vez, as coisas não saem da forma que todos esperavam. Com os mesmos músicos que gravaram The Graveyard (à exceção da bateria, agora a cargo de John Luke Hébert), Voodoo é outro álbum onde as músicas funcionam bem no contexto da história, mas não possuem muita força isoladamente. A excelente faixa de abertura "'LOA' House" (cuja letra cita o álbum Abigail ao falar da gravidez de Sarah Lafayette, afirmando que desta vez a história será diferente, e este bebê sobreviverá), a agressiva e pesada "A Secret", que possui um excelente riff, além de um interessante refrão (com destaque para o teclado), a complexa e variada "Sending of Dead" e "The Exorcist" (mais direta e com outro riff matador) poderiam ser apontadas como os destaques, mas não chegam nem perto dos clássicos da carreira de King. Algumas faixas são guiadas pelo teclado, como "Life After Death", "Sarah's Night" e a vinheta "Unclean Spirits", que narra a tentativa de exorcismo de Sarah. Apesar de alguns momentos de velocidade, "Cross of Baron Samedi" é a mais cadenciada do álbum, e "One Down Two to Go" mistura suaves partes acústicas com outras velozes e elétricas ao longo de seu arranjo. A vinheta "If They Only Knew" conta apenas com efeitos de teclados e a vocalização de King, que inclusive é bastante variada em "Salem", que me lembra os tempos de Fatal Portrait. A sonoridade dos tambores de vodu marca forte presença tanto na intro "Louisiana Darkness" (vinheta que tem sua melodia repetida na outro "Aftermath") quanto na faixa título, que tem a presença de Dimebag Darrell, já falecido guitarrista do Pantera, no solo principal. A edição europeia possui uma faixa escondida após "Aftermath", a qual é basicamente "Unclean Spirits" tocada de trás para frente. A história é bastante interessante, mas, musicalmente, este disco fica abaixo dos melhores momentos de King Diamond. Este foi outro álbum remixado e relançado em 2009.

House of God [2000] 

Um sujeito perdido em uma floresta francesa é salvo por um estranho lobo, e levado por ele a uma igreja um tanto "diferente". Ao entrar, o lobo se transforma em uma belíssima mulher, e, após uma noite de amor, ela lhe revela ter sido amaldiçoada e forçada a tomar conta do local, sendo que, se não arrumar alguém para lhe substituir, irá morrer em breve. Por amor, o sujeito toma seu lugar, e passa a guardar a igreja, que esconde um terrível segredo: é o local onde está enterrado o corpo de Jesus Cristo, que teria escapado vivo da crucificação e ido para a França junto com Maria Madalena. Tal descoberta trará trágicas mudanças na vida do protagonista da história! Parcialmente baseada em uma lenda local (a igreja da história existe realmente, embora não se tenha provas do que é guardado em suas catacumbas), este é, para mim, o melhor disco desde o retorno da banda após o álbum The Eye, sendo a minha faixa favorita a variada "The Trees Have Eyes", com marcantes passagens de guitarra e um refrão que fica na cabeça após poucas audições. No geral, as músicas são mais rápidas e diretas do que nos discos mais recentes, como ocorre em "Black Devil" (que possui um riff inicial matador), "Catacomb" (outra com um refrão marcante), "Just a Shadow" ou "The Pact", embora "This Place Is Terrible" seja mais cadenciada, e "Follow the Wolf" alterne partes pesadas com outras lentas e suaves. A faixa título (outro destaque) é a mais melódica, com bastante destaque aos teclados em seu arranjo, e "Help!!!" conta com um riff marcante, que fica se repetindo, dando um toque de metal industrial à canção. A suave instrumental "Peace of Mind" fecha o álbum, cujo track list é completado pelas vinhetas "Upon the Cross" (que tem na letra o mote do disco, ou seja, que Jesus não morreu na cruz), "Goodbye" (de melodia bastante tristonha) e "Passage to Hell", que conta com alguns efeitos assustadores. Um disco excelente, que marcou as estreias de Glen Drover nas guitarras (ao lado de Andy) e de David Harbour no baixo (John Luke Hébert se manteve na bateria), e iniciou uma espécie de "recuperação" para a carreira de King, pelo menos no meu modo de ver, sendo o primeiro de  uma sequência muito boa de lançamentos. Em 2009 este álbum também foi remixado e relançado.

Abigail II: The Revenge [2002]

A continuação da história contada no álbum Abigail acontece dezoito anos depois dos fatos relatados naquele disco. O bebê Abigail não foi morto pelos Black Horsemen, e cresceu para virar uma bela mulher, que retorna por acaso à mansão de sua família, onde encontra Jonathan La'Fey ainda vivo, embora tendo de usar uma cadeira de rodas e necessitando dos cuidados do mordomo Brandon Henry (personagem inspirado em um empregado de King), e Little One, o fantasma da natimorta Abigail do primeiro disco. Jonathan pensa que Abigail é Miriam, e acaba estuprando-a, fazendo com que a jovem prometa se vingar dele, ainda mais depois de descobrir o que aconteceu com a primeira Abigail. Mas, como sempre, as coisas não saem exatamente da maneira como ela planejou... Sem conseguir sequer se igualar à qualidade da primeira parte, Abigail II: The Revenge é mais um álbum onde as músicas funcionam bem no contexto da história, mas não se destacam muito separadamente. As que mais chamam a atenção são aquelas mais rápidas, como "Mansion in Sorrow", "The Wheelchair", "Spirits" e "Miriam" (com um riff no início que me lembra o de "Black Devil", do disco anterior, e diversas variações ao longo de sua duração). O álbum conta com vários efeitos sonoros em suas faixas para caracterizar os acontecimentos do conto elaborado por King, como o som da tempestade no início de "The Storm", os vidros quebrados em "Broken Glass" (onde os teclados têm papel importante na melodia) ou o choro de Abigail ao final de "Slippery Stairs" e seus risos na curta "More Than Pain". King também usou a voz de uma garotinha chamada Alyssa Biesenberger (filha de um amigo do produtor do álbum), que interpreta Little One na música que leva seu nome (que mescla partes mais marcadas com outras bem velozes), na vinheta "Sorry Dear" e na marcada e quase teatral "Mommy". A vinheta "Spare This Life" e a variada "The Crypt" completam o track list de um álbum que marcou a estreia do guitarrista Mike Wead (também do Mercyful Fate) e do baterista Matt Thompson, além do retorno de Hal Patino ao baixo (Andy LaRocque seguia firme na outra guitarra, em uma formação que seguiria junta nos próximos lançamentos), e que não chega a ser um equívoco, mas passou longe de se tornar um clássico, como a primeira parte conseguiu.

Livia Zita e King Diamond

The Puppet Master [2003] 

Um sujeito vai assistir a um show de marionetes em Budapeste, na Hungria, e acaba conhecendo Victoria, uma mulher fascinante pela qual se apaixona. Mas ela some pouco depois, o que se transforma em um mistério para o rapaz. Um ano depois, ele volta ao mesmo local disposto a descobrir o que aconteceu com sua amada, mas o que irá descobrir é tão terrível que está além de qualquer um de seus pensamentos mais tenebrosos, além de mudar tragicamente sua vida para sempre. Ao lado de House of God, este é um dos meus álbuns favoritos desta "segunda fase" da carreira de King Diamond. No geral mais melódico que os dois anteriores, conta com um uso maior dos teclados nos arranjos das faixas (e não apenas para "efeitos sonoros", como ocorre em outros discos do cantor), com se comprova em "Blue Eyes", na teatral "No More Me" (com sua melodia quase demente) e na excelente "Magic" (um dos destaques, ao lado da faixa título, da rápida "Blood to Walk" e da variada "Christmas", que conta com trechos da tradicional canção natalina "The Little Drummer Boy"). King conheceu a cantora Livia Zita durante uma entrevista que ele lhe deu quando ela trabalhava para a revista Metal Hammer da Hungria. Encantado por sua voz (e por sua beleza), o vocalista a convidou para participar do seu próximo disco, fazendo as vozes dos personagens femininos. A bela voz de Livia se destaca na citada "Magic", em "Emerencia", na balada "So Sad"  (uma das músicas mais tristes que King já compôs) e na cadenciada "Darkness" (uma das mais pesadas deste disco). Pouco tempo depois, os dois se casariam, estando juntos ainda hoje. A vinheta "Midnight" e as velozes "The Ritual" e "Living Dead" (que encerra o álbum com uma triste melodia ao violão) completam o track list da versão regular, sendo que existe uma edição especial que vem com um DVD de bônus, mostrando apenas King Diamond em sua casa (completamente caracterizado, e sentado à uma mesa com diversos objetos ritualísticos), onde o cantor explica as faixas de seu novo trabalho à medida que vai contando a história que ouviremos no disco. É bem interessante, mas pode ser cansativo para aqueles menos "fanáticos", especialmente se eles não entenderem o idioma britânico, pois, pelo menos na edição nacional, não há nenhum tipo de legendas. A turnê de divulgação rendeu o duplo ao vivo Deadly Lullabyes em 2004, com foco nas duas partes de Abigail, porém sem esquecer outros momentos da carreira solo.

Give Me Your Soul...Please [2007]

As almas de uma garota e de seu irmão estão esperando seu destino final no além. Enquanto a dela está destinada para a luz, a dele irá para as trevas. A menina resolve então conseguir uma alma para substituir a do irmão, para que a do garoto possa ir com ela para a luz. Ela consegue ir até a casa onde King mora, e, após assombrá-lo, o músico usa de magia para entrar em contato com a aparição. A menina (retratada na sangrenta capa do álbum) pede que King lhe entregue sua alma, mas, ao verificar que a dele é ainda mais "suja" que a do irmão, desiste do cantor, e decide ir procurar em outra casa, supostamente, aquela na qual está a pessoa que ouve o disco. O até agora mais recente lançamento da carreira solo de King Diamond é outro disco que não me agrada muito, quebrando a sequência de bons álbuns que o grupo vinha tendo desde House Of God. King inova mais uma vez, e, baseado na série 24 horas, compôs uma história que se desenvolve "em tempo real" ao longo do play, ou seja, os eventos vão acontecendo ao mesmo tempo em que você vai escutando as músicas, algo que funcionou muito bem em termos conceituais, mas não foi ajudado pelas composições, um tanto genéricas na carreira do vocalista, e que pouco lhe acrescentam após a audição. Apesar da qualidade da veloz "Never Ending Hill" (que chegou a ser indicada ao Grammy de "Melhor Performance de Metal", perdendo para "Final Six", do Slayer), ou das interessantes melodias de "The Girl in the Bloody Dress" (com ênfase nos teclados), "Black of Night" (com King dando um show de interpretação, mais uma vez) e "The Cellar", as outras músicas se perdem em riffs repetitivos e padrões já explorados em álbuns anteriores do vocalista. Há canções mais rápidas como "Mirror Mirror" ou "The Floating Head", e outras mais cadenciadas como "Cold as Ice" e "Is Anybody Here?" (uma das mais pesadas), mas não há aquele "candidato a clássico" que outros discos possuíam. A participação de Livia Zita é menor do que em The Puppet Master, sendo mais notada apenas na vinheta "Pictures in Red", nas citadas "Black of Night" e "The Girl in the Bloody Dress" e no começo da faixa título, que ganhou um vídeo de divulgação. A melodia maluca de "Shapes of Black" e a vinheta de abertura "The Dead" completam o track list, que se encerra com a semi-balada "Moving On", com começo acústico e belos teclados em sua melodia, além do dueto de King e Livia, em uma canção que lembra "So Sad", do disco anterior, porém não tão bonita, e que em sua parte intermediária ganha bastante velocidade e peso, voltando ao tema calmo inicial mais perto do final. Um álbum interessante, mas não muito mais que isso.

A formação mais recente: Andy LaRocque, Hal Patino, King Diamond,
Matt Thompson e Mike Wead

Existem duas coletâneas do Rei no mercado: Nightmare in the Nineties, de 2001, apenas com músicas da década de 1990 (ou seja, de The Spider's Lullabye a House of God) e The Best of King Diamond, de 2003, lançada pela gravadora Roadrunner e apenas com músicas da época de King no selo (ou seja, de Fatal Portrait a The Eye). Há também o raro box Decade of Horror, em edição limitada a mil cópias e contendo quatro picture-discs de vinil. King também participou do projeto Probot em 2004, álbum capitaneado por Dave Grohl, do Foo Fighters (ex-membro do Nirvana) que reúne diversos vocalistas e instrumentistas em um dos melhores discos lançados naquela década (o Rei canta na música "Sweet Dreams", ao lado de Grohl e Kim Thayil, do Soundgarden), e também atuou como convidado nos álbuns Necronemesis, do Usurper, e Nymphetamine, do Cradle Of Filth (apenas em sua versão digipack lançada em 2005). Já Andy fez parte do IllWill (ao lado de Snowy Shaw e Sharlee D'Angelo) e do X-World/5, além de participar como convidado em diversos álbuns de bandas como Evergrey, Falconer e Witchery. Em 2001, foi lançado King Diamond & Black Rose 20 Years Ago (A Night of Rehearsal), que registra uma noite de ensaios do Rei Diamante ao lado de sua ex-banda Black Rose, registrado em fita K7 a 30 de setembro de 1980. O som é bem diferente do desenvolvido pelo Mercyful Fate ou por King em sua carreira solo, e vale a pena ser "descoberto" por seus fãs!

Em 2010, King passou por problemas cardíacos que o levaram a uma cirurgia, além de já estar sofrendo há algum tempo por sérios problemas na coluna. Tudo isso fez com que o cantor se afastasse dos palcos para recuperar plenamente sua saúde, mas, aos poucos, ele vai retomando sua rotina, tendo participado do show em comemoração aos trinta anos do Metallica em 2011, e feito uma aclamada apresentação no Sweden Rock Festival em 2012, além d ealguns outros festivais europeus. Um novo contrato para três discos com a Metal Blade foi assinado recentemente, e novos álbuns e turnês devem vir pela frente em breve. Que o Rei Diamante se recupere plenamente, e volte logo a nos encantar com suas macabras melodias de ninar! All hail the King! Long live the King!

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Discografias Comentadas: King Diamond (Parte I)


Por Micael Machado

O dinamarquês Kim Bendix Petersen nasceu em 14 de Junho de 1956 na cidade de Copenhagen. Até os 21 anos de idade, se dedicou inteiramente ao futebol, jogando pelo Hvidovre IF, da cidade de mesmo nome. Mas, depois, a paixão pela música falou mais alto, e ele integrou o Brainstorm (onde "adquiriu" seu nome artístico, King Diamond, e no qual atuava como guitarrista), o Black Rose (quando passou a ser apenas vocalista) e o Brats, que, após ter alguns de seus músicos (King entre eles) envolvidos com o projeto Danger Zone, daria origem ao Mercyful Fate. Após dois álbuns e um EP com o grupo, divergências musicais levaram o vocalista a montar um novo grupo, acompanhado pelos ex-colegas Michael Denner (guitarras) e Timi Hansen (baixo). Com a formação completa pelos suecos Mikkey Dee (baterista) e Andy LaRocque (guitarrista que se tornaria o "braço direito" do vocalista ao longo dos anos, sendo o único membro de sua banda a participar de todos os discos), escolheram dar o nome de seu vocalista para o novo conjunto, devido à fama que o mesmo já possuía.

Nascia assim a King Diamond Band, que estreou em 1985 com o single No Presents For Christmas, que trazia no lado B a canção "Charon". Era o início da trajetória solo do Rei Diamante, a qual você acompanha a partir de agora nesta Discografia Comentada.

Fatal Portrait [1986]

O álbum de estreia da King Diamond Band é um daqueles discos fundamentais na coleção de quem gosta de Heavy Metal. Um de seus poucos álbuns que não são totalmente conceituais, possui cinco faixas que contam a história de Molly, uma garotinha cuja alma foi aprisionada em uma pintura por sua mãe ciumenta. A excelente "The Candle" (com sua longa e macabra introdução) abre o álbum, seguida pela clássica "The Jonah" (mais cadenciada), "The Portrait" (outra excelente composição, com uma linha de baixo matadora) e "Dressed in White" (que, apesar do excelente refrão, é a mais fraca das músicas relacionadas à história). O conto termina na faixa de encerramento do disco, "Haunted", a mais melódica das cinco. No geral, King usa o estilo agudo de vocais mais frequentemente do que usava no Mercyful Fate durante estas músicas, até para tentar reproduzir o que seria a voz de Molly, já dando uma ideia de sua enorme capacidade de interpretação para os diversos personagens de suas histórias, algo que aprimoraria ainda mais nos álbuns seguintes. Nas canções que não tem relação com o conto, "Charon" (que trata da lenda de Caronte, responsável por levar as almas para o "outro lado" através do rio Estige - Styx em inglês) é a que mais lembra os tempos de Mercyful Fate, enquanto "Halloween" se tornou um clássico da carreira do Rei.  A agitada instrumental "Voices from the Past" (com interessantes partes de teclado) e a mais cadenciada "Lurking in the Dark" completam o track list, que, na reedição em CD, teve o acréscimo de "No Presents for Christmas" e "The Lake", um outtake do álbum original. Clássico, mas ainda não era o ponto alto da carreira de King Diamond.

Abigail [1987] 

Um jovem casal (Jonathan La'Fey e Miriam Natias) se muda para uma velha mansão que Jonathan herdou. Ao chegarem ao local, são avisados por um grupo de Cavaleiros Negros para não ficarem na casa, ou algo muito ruim irá acontecer. Sem dar bola ao aviso, os dois se estabelecem, mas, durante a primeira noite na mansão, o rapaz descobre que ela é assombrada pelo fantasma de um antepassado seu, o Conde La'Fey. Este conta a Jonathan sobre um fato ocorrido há muito tempo, e que uma maldição irá atingir o casal caso o marido  não mate Miriam para impedir que todos morram! Terá ele coragem de matar a esposa para poupar a própria vida e a de outros? E quem eram os estranhos cavaleiros? Essa é a trama central de Abigail, o primeiro álbum totalmente conceitual da carreira de King Diamond, e onde ele começou sua colaboração com o produtor Roberto Falcao, que por anos trabalharia ao lado de King em suas gravações. Embora a sonoridade geral seja mais "leve" em relação aos dois primeiros registros do Mercyful Fate, o disco é puro heavy metal, tornando-se um dos clássicos do estilo ao longo dos anos e o favorito da carreira solo para muitos fãs. "The Family Ghost" é a música mais lembrada ao falarmos deste álbum, em muito por causa de seu vídeo de divulgação, mas deve-se destacar também as excelentes "A Mansion in Darkness" (bastante veloz), "The 7th Day of July 1777" (cuja intro acústica é só para enganar, pois a música é uma paulada!), "Black Horsemen" (uma das que mais lembra o antigo grupo de King) e a faixa título, que possui um ritmo "quebrado" e alguns toques orientais em sua melodia. "The Possession" é mais cadenciada que as outras, ao contrário da veloz "Arrival". A intro "Funeral" lembra bastante o início de "The Candle", do disco anterior, e a faixa "Omens" completa o track list. Em 1997, houve um relançamento com quatro faixas bônus: o B-side "Shrine", que não entrou em Abigail por sua letra não ter relação com o resto da história, e os "Rough Mix" para outras três músicas do álbum, sendo que existe ainda uma edição de 2005, que vem com um DVD de bônus. Em 1990, foi lançado o álbum In Concert 1987: Abigail, que registra um dos shows da turnê de promoção, já com Mike Moon nas guitarras no lugar de Michael Denner, que deixou o grupo para poder se dedicar mais à família.


Andy LaRocque, Timi Hansen, King Diamond, Mikkey Dee e Michael Denner


Them [1988]

King (um personagem da história, não o vocalista), sua mãe e sua irmã  (Missy) recebem a avó de volta à sua casa, ela que havia ficado longe em "longas férias", segundo o garoto (na verdade, ela estava internada em um asilo para doentes mentais após ter matado o avô das crianças, como sabemos em uma carta presente no encarte da versão original em vinil). O rapaz logo percebe que algo muito estranho ocorre no sótão onde sua avó dorme, e ela lhe explica que seres invisíveis ("eles") dominam a casa, chamada Amon. Estranhos rituais são realizados pela avó, que, ao tentar ser impedida pela neta, acaba desencadeando uma verdadeira tragédia. A história de Them é uma das melhores que King Diamond já escreveu, assim como o disco, que marca e estreia de Pete Blakk na guitarra e de Hal Patino no baixo, substituindo Timi Hansen, que saiu do grupo por causa de sua namorada à época, e deixou King como o único membro com ligações ao Mercyful Fate presente no line up. Após a arrepiante intro "Out From the Asylum", assim como ocorre em outros álbuns conceituais as faixas funcionam melhor no contexto da história, perdendo força quando escutadas em separado. Mas é impossível não destacar "Welcome Home" (um dos clássicos da carreira de King, e uma das melhores aberturas de música que ele já gravou, tendo recebido um clipe de divulgação), a variada "The Invisible Guests", "Bye, Bye Missy" (com um refrão bem triste, apesar da velocidade da canção, e King abusando de sua capacidade de interpretação) e a pesada "Twilight Symphony" (com muitas variações). A melódica "Tea", "A Broken Spell" (com uma interessante e inusitada parte acústica no meio), a instrumental "Them" (com base de violões e alguns efeitos assustadores), "The Accusation Chair" (cujo riff da primeira parte remete ao álbum Abigail) e a variada "Mother's Getting Weaker" completam a história, que se encerra em "Coming Home", vinheta que retoma o tema infantil ao piano presente em "Out From the Asylum". A edição em CD tem como bônus versões instrumentais gravadas durante um ensaio para "The Invisible Guests" e "Bye, Bye Missy" (ambas com Timi Hansen no baixo e King e Andy nas guitarras) e a curta "Phone Call", uma assustadora ligação da avó do personagem King (depois de morta) para seu netinho trancado no hospício. Com toda a razão, Them é o favorito da carreira de King Diamond para muitos de seus fãs, sendo um de seus discos mais clássicos.


The Dark Sides [1988] 

EP lançado em 88 com seis faixas, quase todas bastante raras à época. Estão presentes as duas músicas do primeiro single ("No Presents For Christmas" e "Charon"), o single para "Halloween" ( a faixa título e seu lado B, "The Lake"), "Shrine" (das sessões de Abigail, mas presente originalmente no single para "The Family Ghost"), e "Phone Call", a única realmente inédita até então, sendo uma sobra das sessões de Them. A maquiagem de King presente na capa fez com que Gene Simmons, do Kiss, processasse o vocalista por achar que a mesma era muito parecida com a que o baixista usava, mas tudo foi resolvido em um acordo fora dos tribunais, quando King decidiu mudar a sua maquiagem dali para a frente. The Dark Sides é um item de colecionador, ainda mais que todas as suas faixas acabaram disponibilizadas depois como bônus das edições em CD.

Conspiracy [1989]


Na continuação da história contada em Them, temos King voltando à casa Amon depois de sair do asilo para doentes mentais onde foi internado após os fatos daquele álbum. Para ver de novo sua irmã Missy (à época já morta), o rapaz faz um acordo com "eles", lhes devolvendo o poder sobre a casa. Mas o que ele não sabe é que seu médico e sua mãe (que se tornaram amantes) têm outros planos para o local, não se importando de matar King se isso for necessário para conseguirem o que desejam. Mas sera que "eles" irão permitir que estranhos tomem conta da casa que lhes pertence? E o que King pode fazer para impedir que isso ocorra? Musicalmente falando, a longa e variada "At the Graves" abre aquele que é, para mim, o melhor disco já registrado por King Diamond. "Sleepless Nights" ganhou clipe e é mais uma a virar clássica quando pensamos na banda, destacando-se no track list ao lado da citada faixa de abertura, "A Visit From the Dead" (que tem uma intro acústica muito bonita, em contraste com a velocidade da segunda parte), a cativante "'Amon' Belongs to 'Them'" (que conta com um dos melhores refrões do álbum) e a veloz "Victimized". Com muitas variações (assim como as outras faixas), "The Wedding Dream" (que efetivamente tem até a "marcha nupcial" em sua abertura) é outra faixa muito interessante, enquanto "Lies" é uma das mais pesadas da carreira solo de King. A instrumental "Something Weird" e "Let It Be Done" (que retoma o tema infantil ao piano presente em algumas faixas de Them, porém agora com uma sonoridade mais macabra) são apenas vinhetas que complementam a história, e o disco encerra com a intrigante instrumental "Cremation" (com seu riff repetitivo mas cativante), e um dos personagens prometendo voltar do túmulo para se vingar, deixando em aberto a possibilidade de uma terceira parte para a história, algo que ainda não ocorreu. A edição em CD tem como bônus mixagens alternativas para "At the Graves" e "Cremation" (esta com o subtítulo "Live Show Mix"). Ao contrário de Them, penso que as músicas aqui funcionam bem em separado, mas, quando ouvidas em conjunto, acompanhadas da história contada pelo vocalista, tornam-se insuperáveis! Este foi o último trabalho com o baterista Mikkey Dee, que deixou o grupo ainda antes das gravações, trabalhando aqui como músico contratado e indo juntar-se ao Motörhead pouco depois. Cabe citar que existem algumas cópias com a capa mostrando o personagem King jogando um caixão para fora da casa Amon (arte que o vocalista viria a recusar depois de pronta), as quais são muito procuradas por colecionadores mundo a fora.


A rara capa original de Conspiracy



The Eye [1990] 

Neste álbum King Diamond conta duas histórias diferentes, baseadas em fatos reais acontecidos durante a época da Santa Inquisição, unindo-as através da fictícia história de um medalhão chamado "o Olho da Bruxa" (presente na capa), que pode transportar as pessoas que o usam pelo tempo, mas também mata a quem lhe olhar diretamente. O narrador acha o tal medalhão, e acaba voltando à época de Jeanne Dibasson, acusada de bruxaria pela Inquisição e julgada pelo próprio Nicholas de La Reymie, chefe da Chambre Ardente, o braço francês da instituição. Como era costume na época, Jeanne é queimada na fogueira, e, no local onde era morreu, duas garotas encontram o medalhão do "Olho". Enquanto brigam para ver quem ficará com ele, uma das garotas olha em seu interior e morre, o que nos leva à história de Madeleine Bavent, que ocupa a última faixa do lado A e todo o lado B. Madeleine é um freira de dezoito anos que é seduzida pelo capelão de seu convento, Padre Pierre David, o qual também morre ao olhar o medalhão, que estava de posse da menina (seria ela a mesma que o encontrou nas cinzas da fogueira?). O novo capelão, Padre Mathurin Picard, não é uma pessoa tão religiosa assim, drogando as freiras e as obrigando a participar de rituais satânicos no convento. Todos os que participam dos rituais acabam sendo presos pela inquisição, e, segundo o encarte, morrendo na prisão. O álbum termina com o narrador voltando ao presente, agora sabedor do poder do medalhão. Único álbum a contar com a presença do baterista Snowy Shaw, que depois integraria o Mercyful Fate, musicalmente The Eye é o disco que menos me agrada nesta primeira fase, apesar da parte lírica ser uma das mais interessantes da carreira solo de King. Curioso é que foi o primeiro vinil com o vocal do Rei Diamante que comprei, há quase vinte anos (o qual ainda possuo). Os grandes destaques ficam com a faixa de abertura, "Eye of the Witch" (único single do álbum) e com a veloz "Burn", músicas até hoje presentes nos set lists dos shows do grupo, mas podemos citar também a variada "The Curse" e "The Meetings" (a que mais lembra o estilo dos álbuns anteriores, como Abigail ou Conspiracy, e que possui um excelente riff inicial, além da forte presença do baixo) como faixas que merecem ser ouvidas. Os teclados (a cargo do produtor Roberto Falcao) possuem aqui uma participação bem maior do que em outros álbuns, não apenas criando climas ou efeitos para auxiliar na compreensão da história (como na mid-tempo "Father Picard"), mas também fazendo parte da melodia de canções como a balada "Two Little Girls" (bastante sinistra) ou a mais cadenciada "Behind These Walls". King mais uma vez dá um show de interpretação ao longo do álbum, como nos diálogos entre Nicholas de La Reymie e Jeanne Dibasson em "The Trial (Chambre Ardente)" ou nos discursos de Father David em "Into the Convent". "1642 Imprisonment" (com um excelente refrão) e a calma "Insanity" (levada apenas pelos violões em sua primeira parte) completam o track list. Se você quiser uma descrição mais completa sobre o disco, leia esta matéria no blog Consultoria do Rock.

Pete Blakk, Hal Patino, King Diamond, Snowy Shaw e Andy LaRocque

Desentendimentos com a gravadora Roadrunner, e as saídas de Pete Blakk e Hal Patino fizeram com que King Diamond fosse forçado a "dar um tempo" em sua carreira solo. Foi nessa época que Michael Denner entrou novamente em contato com o Rei para lhe mostrar as músicas que havia composto para o segundo disco de seu novo projeto, o Zoser Mez. Este encontro acabou levando à volta do Mercyful Fate, mas o vocalista não abandonaria sua carreira solo, como você confere daqui a quinze dias na segunda parte da Discografia Comentada de King Diamond!

domingo, 20 de janeiro de 2013

Discografias Comentadas: Mercyful Fate (Parte II)

Mercyful fate em 1993: Michael Denner, Snowy Shaw, Timi Hansen, King Diamond e
Hank Shermann

Por Micael Machado

Em 1992, após ouvir as novas composições de Michael Denner para sua banda Zoser Mez (que também contava com Hank Shermann e Timi Hansen), o vocalista King Diamond propôs o retorno do Mercyful Fate. Após algumas ligações telefônicas, tudo estava pronto para a volta, a não ser a falta de um baterista (Kim Ruzz, que ocupou este posto nos primeiros discos, não foi sequer cogitado, pois não tinha uma boa relação pessoal com Denner e King). O amigo Morten Nielsen foi escalado para a posição, e o grupo estava pronto para renascer.

Confira agora a segunda parte da discografia comentada do Mercyful Fate!

In the Shadows [1993]

O álbum de retorno foi o primeiro pela nova gravadora, a Metal Blade, após anos com a Roadrunner. Apesar de levemente diferente dos dois clássicos primeiros discos, acabou sendo muito bem aceito pelos fãs, com os clipes para as faixas "Egypt" (uma das melhores composições da carreira do grupo) e "The Bell Witch" ajudando a torná-las os destaques do track list, junto com a faixa título. Apesar de creditado no encarte, o baterista Snowy Shaw não participou das gravações, que contaram com Morten Nielsen em todas as faixas (Morten não teve condições de fazer a turnê devido a um problema no joelho, e Snowy, que já havia tocado na banda solo de King, assumiu o posto). A temática satânica foi substituída quase que inteiramente por letras relatando contos de terror, mais ou menos como King fazia em sua carreira solo, porém sem ser um disco conceitual. Bons exemplos disso são as longas e climáticas "The Old Oak" e "Legend of the Headless Rider", baseada no conto "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça". "A Gruesome Time" foi composta para o Zoser Mez, enquanto "Thirteen Invitations" e a instrumental "Room of Golden Air" (com passagens de violão e teclados em seu arranjo) acabam sendo pouco lembradas, apesar de sua qualidade. "Is That You, Melissa?" encerra o track list regular, retomando a história da bruxa Melissa, presente na faixa título do primeiro LP, em uma música em muitos aspectos parecida com aquela. A edição em CD ainda conta com uma faixa bônus para lá de especial, a regravação de "Return of the Vampire" (chamada "Return of the Vampire... 1993") com a participação de Lars Ulrich, do Metallica, na bateria (ele que também é dinamarquês, e era fã da banda desde o começo). Durante a turnê de promoção foi lançado o EP The Bell Witch, que conta com a faixa que lhe dá nome, a citada "Is That You, Melissa?", e quatro clássicos gravados ao vivo em 1993 na cidade de Los Angeles. O Mercyful Fate estava de volta com tudo!


Time [1994] 

O único álbum de estúdio com Snowy Shaw marcou também a estreia do baixista Sharlee D'Angelo no Mercyful Fate, substituindo Timi Hansen, que deixou a banda por motivos particulares. Apesar da sonoridade geral ser um pouco mais leve que a de In The Shadows, este foi também o disco que atraiu novamente minha atenção para o grupo (depois da decepção com o vinil de Don't Break The Oath, como relatei na primeira parte), graças ao clipe para "Witches' Dance", que passava no saudoso Fúria Metal, da MTV. As letras continuaram contando histórias de terror, como as de "The Afterlife", "Lady in Black" (um dos destaques), "Nightmare Be Thy Name" (que também ganhou clipe) ou "The Mad Arab", baseada nos contos de H. P. Lovecraft, embora "My Demon" e "Angel of Light" retomem alguns dos antigos conceitos, a segunda referindo-se especialmente aos da faixa "The Oath", do segundo álbum. King mais uma vez gravou alguns teclados, como os que aparecem na quase sinfônica faixa título, uma composição diferente dentro da carreira do grupo. As faixas "The Preacher" e "Mirror" (com mais peso que as anteriores) completam o track list, que se encerra com a variada e enigmática "Castillo del Mortes", com letra em inglês apesar do título. No final da turnê deste disco, o grupo veio ao Brasil pela primeira vez (ao lado da banda solo de King Diamond), em 1996, onde se apresentaram no festival Monsters Of Rock em São Paulo, além de realizarem outras quatro apresentações no país. 


Into the Unknown [1996]

Após a intro "Lucifer" (uma espécie de "Pai Nosso" satânico), Into the Unknown começa com tudo, com a veloz "The Uninvited Guest", que ganhou um clipe de divulgação. No geral mais pesado que o anterior, o disco marca a estreia do baterista Bjarne T. Holm, e é o mais bem sucedido da banda até o momento, comercialmente falando, tendo como destaques, para mim, a faixa título (com algumas guitarras limpas no arranjo), "Fifteen Men (And a Bottle of Rum)" (com o baixo bem destacado), "Holy Water" (novamente com conceitos anti-cristãos na letra) e a continuação de "The Mad Arab", do disco anterior, aqui chamada "Kutulu (The Mad Arab, Part 2)" (com alguns toques de música árabe no seu arranjo). "Deadtime" começa apenas com King cantando sozinho, a capella, para então passar a uma música pesada, mas bastante melódica. As pesadas "The Ghost of Change" e "Under the Spell", junto com a variada "Listen to the Bell", completam o track list, que na versão japonesa apresenta a cover para "The Ripper", do Judas Priest, gravada para um tributo à banda britânica chamado Legends of Metal: A Tribute to Judas Priest, lançado no mesmo ano. Um bom disco, que vale a audição.


Mercyful fate sem Michael Denner: Bjarne T. Holm, Sharlee D'Angelo, King Diamond,
Hank Shermann e Mike Wead


Dead Again [1997] 

Durante a turnê de Into the Unknown, Michael Denner decidiu sair do grupo por motivos familiares, indicando Mike Wead como seu substituto. Desta forma, Dead Again foi o primeiro álbum do Mercyful Fate sem o guitarrista, que deixou sua marca nas mentes e corações de todos os fãs da banda pelo mundo. "The Night" foi a música escolhida para receber um clipe de divulgação, mas os destaques vão para "Torture (1629)" (cuja letra trata de uma mulher torturada pela Santa Inquisição), "Since Forever" (que parece saída da carreira solo de King) e a insana faixa título, a música mais longa da carreira da banda, com quase quatorze minutos e muitas partes diferentes. Enquanto algumas faixas são mais diretas, como "Fear", "Banshee" (que trata da lendária criatura que lhe dá nome) e "Sucking Your Blood" (que tem por tema os vampiros), outras são cheias de climas e mudanças de ritmo, como a "satânica" "The Lady Who Cries" (que tem um refrão contagiante), "Mandrake" (que fala sobre a raiz da mandrágora), ou "Crossroads", que encerra o disco de forma abrupta, deixando o ouvinte com a sensação de que houve algum problema com o CD (isto foi feito de forma intencional pela banda para provocar o ouvinte, causando-lhe uma certa perturbação, como se algo muito errado tivesse ocorrido). Felizmente, a saída de Michael Denner não comprometeu a qualidade da música do quinteto, e Dead Again é um dos melhores álbuns gravados depois do retorno do Mercyful Fate, e merece ser conferido!


9 [1999]

O nono full lenght da banda (contando os álbuns The Beginning e Return of the Vampire), gravado no ano de 99... Parecia claro que o título do novo disco tinha de ser 9, número que, para completar, tem diversos simbolismos no ocultismo, assunto do qual King sempre foi um apreciador. Pois o (até agora) último registro do Mercyful Fate não deixou por menos. Com faixas bastante velozes como "Insane", "House on the Hill" e a "satânica" "Burn in Hell", os destaques ficam para a faixa título, "Last Rites" (com um ritmo empolgante) e "Church of Saint Anne" (com um riff excelente, que lembra o Black Sabbath da fase Dio). "Sold My Soul", mais cadenciada, destaca o baixo de Sharlee D'Angelo, e "Buried Alive", apesar de bastante pesada, conta com alguns efeitos de passarinhos cantando tanto no início quanto no final, algo bastante curioso em um disco do Mercyful Fate. "The Grave" e "Kiss the Demon" completam o track list, que na versão japonesa teve uma faixa bônus, "S.H.", um curto tema instrumental. Um bom disco, mas que não supera o anterior.


Os membros do Mercyful fate ao lado do Metallica no show do Fillmore em 2011



Após a turnê de divulgação para 9, King se concentrou em sua banda solo, tendo a companhia do guitarrista Mike Wead. Hank Shermann e Bjarne T. Holm uniram-se a Michael Denner para formar o Force of Evil, enquanto Sharlee D'Angelo juntou-se ao Arch Enemy. Desde 2005, King trabalha em algumas fitas VHS que ganhou de um fã, na tentativa de compilar um DVD com apresentações da banda, algo que ainda não saiu do papel. Em 2008, a formação que gravou os dois primeiros discos (sem o baterista Kim Ruzz) se reuniu para gravar dois temas para o jogo "Guitar Hero: Metallica", tendo Bjarne na bateria, mas apenas uma faixa foi efetivamente usada no game. As regravações chegaram a sair em um Picture Disc de edição limitada, com as faixas rebatizadas de "Evil 2009" e "Curse of the Pharaohs 2009". Outra reunião (sem Bjarne) ocorreu em 2011, no show comemorativo aos trinta anos do Metallica, no Fillmore de San Francisco. 

Existem duas coletâneas do Mercyful Fate no mercado, A Dangerous Meeting, lançada em 1992 (que reúne material tanto do grupo quanto da banda solo de King Diamond) e The Best of Mercyful Fate, de 2003. Ambas são boas portas de entrada para o som do grupo, ao lado dos clássicos dois primeiros discos. O vocalista sempre afirmou que a banda não acabou, estando apenas "hibernando", então resta a esperança de ainda vermos o grupo lançar algum material novo por aí! Afinal, não se pode quebrar o juramento, certo?

domingo, 6 de janeiro de 2013

Discografias Comentadas: Mercyful Fate (Parte I)




Por Micael Machado

Surgido na Dinamarca em 1981, com músicos oriundos de grupos como Brats, Black Rose e Danger Zone, o Mercyful Fate tornou-se, com o passar dos anos, uma das bandas mais influentes do cenário do Heavy Metal mundial. Após algumas demos, foram convidados a participar da coletânea Metallic Storm em 1982, com a música "Black Funeral", que veio a ser sua estreia em vinil. Logo depois, com a formação estabilizada em King Diamond (vocais), Hank Shermann e Michael Denner (guitarras), Timi Hansen (baixo) e Kim Ruzz (bateria), conseguiram um contrato para a gravação de um EP. Era o começo da trajetória de uma das mais importantes bandas dinamarquesas da história, além de ser das mais polêmicas também. Trajetória esta que você confere a partir de agora no Discografias Comentadas!

Mercyful Fate EP [1982]

Também conhecido como Nuns Have No Fun, o primeiro EP tem apenas quatro músicas, mas já deixava claro o potencial daquele então novato grupo. O riff e o solo que abrem "Doomed by the Living Dead" (bem como o restante da faixa) e a fúria de "A Corpse Without Soul"  fizeram com que estas duas canções se tornassem clássicos da carreira do Mercyful Fate. A também excelente "Nuns Have No Fun" e a mais cadenciada "Devil Eyes" acabam sendo mais esquecidas pelos fãs, mas também possuem muitas qualidades. As letras de cunho anti-cristão ou de temática obscura (e por vezes lembrando a atmosfera dos filmes de terror), os solos e riffs da dupla de guitarristas e, principalmente, os vocais de King (indo do mais alto falsete ao próximo do gutural com facilidade, em um ponto que sempre foi algo tipo "ame ou odeie" na carreira da banda) acabaram conquistando muitos seguidores, e abriram caminho para o primeiro full lenght no ano seguinte.

Melissa [1983] 

Apenas sete faixas foram o suficiente para gravar o nome do Mercyful Fate como um dos mais importantes do Heavy Metal mundial. Lançadas no mesmo ano dos discos de estreia do Metallica e do Slayer, canções como "Evil", "Curse of the Pharaohs", "Into the Coven", "Black Funeral" e o épico "Satan's Fall" conquistaram seguidores mundo afora, com seus riffs e solos impressionantes, e a temática sombria de suas letras, mantendo os tópicos obscuros e deixando ainda mais clara a filosofia satanista de King (que era, e ainda é, um seguidor de Anton La Vey, o fundador da Church Of Satan nos EUA). A longa e atmosférica faixa título tomou o nome de um crânio humano real que King usava durante suas apresentações, e que acabou roubado durante a turnê do disco. "At the Sound of the Demon Bell" acaba sendo a canção menos lembrada deste debut, mas também tem bastante qualidade, com muitas variações. Em 2005, foi lançada uma edição remasterizada comemorativa aos vinte e cinco anos do álbum, com muitas faixas bônus e um DVD extra. Melissa é um dos clássicos do Heavy Metal, e, se você gosta do estilo e nunca o escutou, compense esta falha imediatamente!

Don't Break the Oath [1984]

Com o próprio tinhoso na capa avisando para "não quebrar o juramento", e ainda mais trabalhado em termos de arranjos, Don't Break the Oath é considerado por muitos como o ponto alto da carreira do Mercyful Fate. Embora eu prefira o primeiro álbum, é impossível não reconhecer a qualidade de faixas como "A Dangerous Meeting", "Nightmare", "Desecration of Souls", "Gypsy" e "Welcome, Princess of Hell". Lembro de ter este disco em vinil nacional, lançado, se não estou enganado, pelo selo Combat Records. A gravação era horrível, e fez com que eu me afastasse da banda por um bom tempo. Apenas na era do CD foi que descobri como este disco era bom, com a melhor sonoridade que as cópias neste formato trouxeram. Voltando ao track list, a assustadora "The Oath" tem em sua introdução teclados executados pelo próprio King Diamond, e "To One Far Away" é uma curta e triste peça instrumental com base feita pelo violão e apenas algumas vocalizações feitas por King, algo diferente na carreira da banda até então. "Night of the Unborn" é uma faixa que não é muito lembrada pelos fãs, e a clássica "Come to the Sabbath" encerra outro marco na carreira da banda e do Heavy Metal mundial. Audição obrigatória!

Mercyful Fate nos anos 80



The Beginning [1987] 


Reunindo as quatro faixas do primeiro EP ao lado B do single "Black Funeral" (a música "Black Masses", um outtake do álbum Melissa) e a três faixas gravadas ao vivo para o programa "The Friday Rock Show", da BBC Radio One ("Curse of the Pharaohs", "Evil" e "Satan's Fall"), esta é uma coletânea lançada pela gravadora Roadrunner após a dissolução do grupo em 1985. Para muitos, foi a primeira chance de ouvir o Mercyful Fate ao vivo, apesar de ser em um ambiente sem plateia como o do estúdio da rádio, e, só por isso, o álbum já mereceria certo destaque. A edição em CD (com uma capa diferente) ainda conta com a faixa bônus "Black Funeral", presente na coletânea Metallic Storm, a estreia da banda em disco, que no encarte tem creditada a presença do guitarrista Benny Petersen (que na época estava no lugar que seria de Michael Denner), algo que, ao que consta, não ocorreu, pois Hank teria gravado todas as guitarras nesta faixa. The Beginning é um lançamento para completistas, mas altamente indicado àqueles que não conseguirem ter acesso ao raro EP de estreia na versão original. Confira sem medo!

Return of the Vampire [1992]

Outra coletânea, desta vez mais interessante que a anterior. Reunindo antigas demos do grupo (algumas com a presença efetiva do guitarrista Benny Petersen, no único disco oficial a contar com sua presença, outras ainda dos tempos do Brats, banda da qual King e Hank participaram)  tem como curiosidades as versões originais de faixas como "Curse of the Pharaohs", "A Corpse without Soul", "Desecration of Souls" (aqui chamada "On a Night of Full Moon"), "A Dangerous Meeting" (ainda com  o nome "Death Kiss") e "Return of the Vampire", que só sairia oficialmente no disco In the Shadows, com um arranjo diferente. "Burning the Cross" era a única música do Mercyful Fate a não ter sido regravada depois, visto que as faixas que completam o track list ("Leave My Soul Alone", "M.D.A." e "You Asked for It", que serviria de base para "Black Masses", presente em The Beginning) faziam parte da demo tape do Danger Zone, um grupo formado por alguns membros do Mercyful, mas que existia em paralelo à banda, e tem um estilo diferente do característico som "malvado" dos dinamarqueses. Vale pela curiosidade de se ouvir uma banda ainda iniciante, mas já carregada de talento.

Mercyful Fate em 1983: Hank Shermann, Michael Denner, Timi Hansen, Kim Ruzz  e King Diamond (em uma de suas raras fotos sem maquiagem ou óculos escuros)

Durante a turnê de Don't Break the Oath, especialmente após sua primeira passagem pelos EUA, Hank Shermann passou a ter outros gostos musicais, além de usar roupas brancas ou de cor clara no palco (em contraste com as cores escuras usadas pelos outros integrantes). Quando King e ele se reuniram para trabalhar no terceiro álbum do Mercyful Fate, ficou clara a incompatibilidade musical que os novos gostos de Hank haviam colocado entre os dois principais compositores da banda, e o vocalista decidiu por acabar com o grupo. Hank formou o Fate, com quem gravou vários discos, e King partiu para uma carreira solo, tendo a seu lado Michael Denner e Timi Hansen (o baterista Kim Ruzz, que não tinha um bom relacionamento pessoal com King e Michael, acabou virando carteiro). 

No começo dos anos 1990, Hank, Michael e Timi se uniram em um projeto chamado Lavina, que daria origem ao Zoser Mez, o qual inclusive chegou a lançar um disco. Denner convidou King para ouvir o material que ele preparava para o segundo álbum de sua nova banda, e o vocalista, ao ouvir as músicas, acabou achando a qualidade do material muito boa. Isto foi o estopim para a volta do Mercyful Fate, como você confere na segunda parte desta Discografia Comentada: Mercyful Fate!