domingo, 7 de maio de 2023

The Clash – Combat Rock + The People's Hall [2022]


Por Micael Machado

Combat Rock, lançado em 1982, é o quinto álbum de estúdio da banda britânica The Clash, e seu maior sucesso comercial (tanto em número de vendas quanto em posições nas paradas, onde alcançou a segunda posição na Inglaterra e a sétima nos Estados Unidos) ainda hoje. Vindo de uma verdadeira "exploração sonora" em termos de estilos musicais na forma de seu álbum anterior, o triplo Sandinista!, de 1980, o grupo continuou e incrementou ainda mais as experimentações neste registro, o qual deixaria para a história duas das mais conhecidas músicas da carreira do grupo, as faixas "Rock The Casbah", que eu sempre considerei como uma espécie de "filha tardia" da época da disco music (algo bastante estranho para uma banda que iniciou no movimento punk, convenhamos), e que foi quase que inteiramente composta, tocada e gravada pelo baterista Topper Headon durante as sessões de gravação para o álbum, e "Should I Stay Or Should I Go?", possivelmente a música mais conhecida do Clash fora do "circuito" de seus seguidores mais habituais (e a única faixa onde o baixista Paul Simonon consegue algum destaque ao longo do álbum).

O disco ainda contém no seu lado A (isto nos bons tempos do vinil, claro) duas outras faixas que eu sempre considerei como destaques, a "roqueira" "Know Your Rights" (um dos poucos lembretes em todo o álbum, ainda que sem muita convicção, de que a banda tinha um passado ligado ao punk rock) e o reggae malemolente de "Straight To Hell", uma das melhores letras do disco, e que teria uma versão ampliada lançada muitos anos depois no box set Clash On Broadway, já resenhado aqui no site.

No restante das composições, temos algumas das melhores letras da carreira do grupo, com muita acidez e críticas a tudo e a todos, mas com ênfase à Guerra do Vietnã e ao declínio moral da sociedade norte-americana à época. Uma pena, para mim, que o cuidado do grupo com as letras não se reflita nas músicas, pois, se as duas faixas restantes do Lado A, a "chacoalhada" e repetitiva "Car Jamming" e a "quase reggae" "Red Angel Dragnet", com participação nos vocais do MC Kosmo Vinyl (amigo de longa data da banda e seu manager eventual, e que reproduz durante a música algumas falas do personagem de Robert De Niro no filme Taxi Driver), se deixam ouvir sem maiores problemas (mas também sem maiores emoções), dos sulcos do lado B pouca ou quase nenhuma coisa se aproveita...

O Clash no pôster que acompanha a edição de quarenta anos de Combat Rock: Paul Simonon, Topper Headon, Joe Strummer e Mick Jones

"Overpowered By Funk" é uma tentativa dançante de fazer um "funk de branco com um pouco de hip hop", estilo este representado por um proto-rap ali pelo meio executado pelo grafiteiro Futura 2000, amigo do grupo e que se apresentava ao vivo com a banda pintando "backdrops" no fundo do palco desde a turnê europeia do ano anterior. "Atom Tan" possui um interessante riff de guitarra, cuja repetição e a falta de maior "animação" no ritmo da faixa acaba cansando o ouvinte ainda antes da metade de sua duração (de apenas dois minutos e meio). "Sean Flynn" (o protesto da banda contra a captura e possível morte do jornalista de mesmo nome pelos vietcongs no Camboja) é uma experiência psicodélica musical, aumentada pelos sopros do músico convidado Gary Barnacle, mas cujos efeitos da viagem podem não ser tão agradáveis assim quando chegamos ao final. "Ghetto Defendant" (com participação especial nos vocais do poeta beat Allen Ginsberg) quase me faz repensar a ideia de que o Clash nunca gravou um reggae ruim na carreira, mas acaba se salvando na média, enquanto "Inoculated City" lembra algumas faixas medianas já gravadas em Sandinista!, o que, no contexto das faixas de Combat Rock, acaba não sendo tão ruim. São estas duas composições que me impedem de afirmar que o lado B deste disco é um total desperdício de vinil, pois o encerramento com a lenta e repetitiva "Death Is A Star" não empolga ninguém, com sua melodia levada ao piano (tocado pelo músico convidado Tymon Dogg, que já havia participado em Sandinista!, e que futuramente faria parte da banda Joe Strummer and The Mescaleros) e os vocais mais falados que cantados de Joe Strummer.

Sendo assim, o fato deste ser o álbum de maior sucesso comercial da carreira da banda é, para mim, quase incompreensível (a turnê de divulgação de Combat Rock levou o grupo a excursionar pelos Estados Unidos abrindo para o The Who, com um show no Shea Stadium em Nova Iorque, a 13 de outubro de 1982, sendo lançado oficialmente como um disco ao vivo da banda em 2008), ainda mais que a versão "oficial" nem é a "melhor" versão que o álbum poderia ter, pois, bem no início das gravações que resultariam no disco, o grupo se instalou no People's Hall, um estúdio localizado no squat do movimento Frestonia, formado por moradores sem teto de Londres que ocuparam casas abandonadas em uma certa área da capital inglesa, e tentaram a independência do país para sua comunidade. Um álbum duplo chamado Rat Patrol from Fort Bragg, com produção do guitarrista Mick Jones, chegou a ser gravado ali, mas tanto o restante da banda, quanto seus empresários e o pessoal da gravadora, acabaram rejeitando a versão final montada pelo músico, o que o levou a um estado de frustração que culminaria em sua demissão do grupo poucos meses depois (para registro, o baterista Topper Headon também seria demitido da banda devido ao seu crescente vício em heroína, isto antes ainda do lançamento de Combat Rock). Para tentar "salvar" o resultado das gravações feitas no squat, a gravadora contratou o renomado produtor Glyn Johns para "retrabalhar" as faixas já gravadas, o que foi feito nos Electric Lady Studios de Nova Iorque, com participação dos membros da banda, exceto Jones, que, praticamente, não participou deste processo de "desconstrução" da obra que ele havia criado.

Em 2022, a gravadora Columbia anunciou o lançamento de uma edição especial em CD duplo e vinil triplo para comemorar os quarenta anos do álbum, chamada Combat Rock + The People's Hall, além de um compacto de 7 polegadas com duas colaborações inéditas do Clash com o cantor britânico Ranking Roger (versões alternativas para "Rock The Casbah" e "Red Angel Dragnet"). Como muitos, imaginei que, finalmente, o "rejeitado" Rat Patrol from Fort Bragg finalmente seria "oficializado", mas, infelizmente, não foi isto o que aconteceu.

Capa do disco bônus The People's Hall

As três primeiras faixas de The People's Hall (ou o lado A da versão em vinil) são um desperdício quase tão grande quanto o lado B do disco original. A faixa de abertura, "Outside Bonds", consiste em quase cinco minutos de conversas aleatórias e sons de tráfico registrados, como o nome diz, no lado de fora do Cassino Bonds de Nova Iorque, onde o grupo fez uma estadia de 17 noites em sequência durante a turnê de Sandinista! em 1981, em um dos momentos mais importantes da carreira da banda. "Radio Clash" é uma versão alternativa da faixa lançada apenas em single em 1981 (e que já apontava a tendência da sonoridade mais "dançante" que apareceria no álbum de 1982), e "Futura 2000" é uma versão alternativa para o single "The Escapades of Futura", lançado em 1982 pelo artista Futura 2000 (o mesmo que participa de "Overpowered By Funk"), onde ele faz um rap sobre uma base funk/hip hop executada pelo Clash.

A coisa melhora bastante no lado B de The People's Hall, pois, mesmo que o ritmo "malemolente" de "First Night Back In London" (que não me empolga tanto assim) e que o reggae "Radio One" (com vocais do músico jamaicano Mikey Dread) não sejam exatamente uma novidade (pois uma versão da segunda já havia aparecido como lado B do single "Hitsville U.K.", em 1980, enquanto a primeira foi lado B do single "Know Your Rights” ainda em 1982), e que "Long Time Jerk" já houvesse aparecido em compilações posteriores da banda (além de ser originalmente o lado B do single "Rock The Casbah"), a qualidade das três é bem superior às músicas do outro lado do vinil, ainda mais quando acrescidas dos outtakes "He Who Dares Or Is Tired" (excelente instrumental com marcantes passagens de saxofone, suponho eu que, novamente, a cargo de Gary Barnacle, pois as notas de produção deste registro são quase nulas ou inexistentes) e "The Fulham Connection" (faixa que abriria Rat Patrol..., anteriormente conhecida pelo nome "The Beautiful People Are Ugly Too", e que, mesmo em seu formato demo, e com um timbre de teclado "fuleiro" e bem próximo do ridículo, ainda é melhor que pelo menos sessenta por cento do disco oficial lançado em 1982).

No lado C da versão em vinil, temos a excelente "Midnight To Stevens", faixa "perdida" das sessões do squat, mas que havia sido "recuperada" para o já citado box set Clash On Broadway, além de versões alternativas para "Sean Flynn" e "Know Your Rights", e do que teria sido a segunda faixa do disco Rat Patrol..., a divertida "Idle In Kangaroo Court", previamente conhecida pelo nome "Kill Time", outra que precisava apenas de uma atualização nos timbres de teclado e algumas linhas mais impactantes de guitarra para ter posição de destaque no disco "oficial" lançado após a "intervenção" de Glyn Johns, mas que, assim como "The Beautiful People Are Ugly Too", inexplicavelmente acabou ficando de fora da seleção final.

Apesar de lançado em vinil duplo, o lado D de The People's Hall não traz nenhuma faixa (não sendo nem mesmo o que se costuma chamar de "etched", quando uma figura é "impressa" no vinil para marcar que ele está vazio... o lado D simplesmente não apresenta nada em sua superfície...), com certeza para não tornar o track list diferente da versão em CD duplo. Apesar de eu compreender os motivos da gravadora, esse tipo de atitude das companhias sempre me irrita, pois quem compra o produto em vinil paga um preço bem diferenciado (sempre para cima), e merecia um tratamento mais adequado ao custo do mesmo. Poderiam, por exemplo, ter incluído as duas músicas do compacto lançado junto com esta edição, ou a versão "completa" de "Straight To Hell" presente no box set, ou algum dos "lados Bs" do single "Radio Clash" (todos versões alternativas da faixa original, mas que, mesmo assim, ao menos preencheriam este lado do disco), ou a versão original de "Inoculated City" (que incluía uma sátira a um comercial do limpador de vasos sanitários 2000 Flushes, cuja empresa, à época, ameaçou processar a banda, o que a fez retirar este trecho da composição final, embora a versão original tenha aparecido em alguns bootlegs), ou algumas das muitas versões demos do "infame" Rat Patrol from Fort Bragg que permanecem inéditas ainda hoje. Enfim, haviam várias opções para preencher este lado D, mas a mais fácil (e, a meu ver, preguiçosa) acabou sendo a escolhida.

Contracapa da versão em CD do disco bônus The People's Hall

Preguiçosa também parece ter sido a atuação da área de arte da gravadora para este lançamento. Apesar de contar com envelopes individuais para cada vinil (todos reproduzidos na versão em CD, e trazendo algumas fotos inéditas da banda, sendo o do primeiro vinil uma reprodução da versão original do encarte de 1982) e de um enorme pôster do grupo (na versão em vinil, o mesmo tem o tamanho de seis capas normais), as notas de produção das faixas bônus, como disse, são muito fracas, e ficamos sem saber quem toca o quê, quem produziu, quem compôs o quê, em resumo, essas informações "técnicas" que pouco acrescentam ao produto final, mas que são tão importantes ao colecionador realmente dedicado. Pelo que poderia ter sido, Combat Rock + The People's Hall acaba sendo um tanto decepcionante ao final da audição, mas acaba "oficializando" alguns momentos realmente interessantes da história do Clash para seus fãs. Além de mostrar, mais uma vez, que, com as faixas que haviam sido registradas para Rat Patrol from Fort Bragg, o quarteto poderia ter saído do Electric Lady com um disco muito melhor do que Combat Rock, algo que, infelizmente, não aconteceu (fato que se repete pela segunda vez nesta edição de quarenta anos). Lamentável.

Track List (versão em CD):

Combat Rock

1. Know Your Rights

2. Car Jamming

3. Should I Stay Or Should I Go?

4. Rock The Casbah

5. Red Angel Dragnet

6. Straight To Hell

7. Overpowered By Funk

8. Atom Tan

9. Sean Flynn

10. Ghetto Defendant

11. Inoculated City

12. Death Is A Star


The People's Hall

1. Outside Bonds

2. Radio Clash

3. Futura 2000

4. First Night Back In London

5. Radio One

6. He Who Dares Or Is Tired

7. Long Time Jerk

8. The Fulham Connection

9. Midnight To Stevens

10. Sean Flynn

11. Idle In Kangaroo Court

12. Know Your Rights

Rainbow – Live In Japan [2015]

Por Micael Machado

Mais um dos muitos bootlegs do Rainbow "oficializados" pelo chefão Ritchie Blackmore entre 2013 e 2016 ganhou edição nacional (em CD duplo, pela gravadora Shinigami Records) neste recente ano de 2022. Editado pela primeira vez nos formatos CD duplo e DVD apenas no Japão em 2015 (com uma versão em um box com um vinil triplo e um CD duplo ganhando as prateleiras europeias em 2018, e outra apenas com as três bolachonas lançada no mesmo mercado no ano seguinte), Live In Japan registra a apresentação do grupo no famoso Budokan, em Tóquio, a 14 de março de 1984, na segunda noite da turma naquela cidade em sequência (e a última data de uma turnê de três dias pelo país), naquela que viria a ser a última performance oficial do Rainbow antes do retorno de Ritchie (e do baixista Roger Glover) ao Deep Purple naquele mesmo ano (e antes do "ressurgimento" do grupo em 1993, com uma formação totalmente diferente), retorno este que, curiosamente, já estava sacramentado mesmo antes destes últimos concertos serem realizados pela banda, e que seria oficialmente anunciado algumas poucas semanas depois do final desta excursão.

Ao contrário de outro lançamento desta "leva" de bootlegs que já resenhei para o site (o do show de Boston em 1981), nesta apresentação aqui, ao longo de 22 faixas (ou excertos) em uma hora e quarenta e cinco minutos, a banda (formada, então, pelo mesmo time que havia gravado Bent Out of Shape no ano anterior, ou seja, Joe Lynn Turner nos vocais, David Rosenthal nos teclados, Chuck Burgi na bateria, o já citado Roger Glover no baixo e o chefão Ritchie Blackmore nas guitarras, reforçados, como em datas anteriores, pelos backing vocals das cantoras Dee Beale e Lin Robinson) apresenta um repertório muito mais focado na "era-Turner" do Rainbow, com músicas mais adequadas ao seu estilo vocal (e à tendência AOR que Ritchie vinha progressivamente agregando à sonoridade do grupo) do que aqueles de excursões anteriores. Vide a abertura (após uma intro de teclados quase progressivos e do tradicional trecho de "Over The Rainbow" retirado do filme "O Mágico de Oz"), com a sensacional "Spotlight Kid" (com destaque para o solo de teclado de David e a marcante presença dos backing vocals femininos), a clássica "I Surrender", um dos maiores sucessos comerciais deste período da banda, e que aqui inicia com um trechinho de seu refrão ao teclado, ou de outras como a veloz "Can't Happen Here" ou a agitada "Power", uma composição muito legal, apesar de extremamente comercial. Chamam a atenção também algumas faixas que dificilmente tiveram versões "ao vivo" divulgadas antes em discos oficiais do Rainbow, como "Death Alley Driver", uma das minhas composições favoritas da "fase Turner", e que já ganha destaque aqui pelas linhas iniciais da bateria (bem mais agressivas que boa parte do material deste disco), e onde a presença das moças dos backing vocals no refrão também é bem marcante, com o solo de Ritchie sendo a cereja do bolo, em uma das melhores performances do guitarrista ao longo CD (sendo que David também tem um curtinho destaque logo antes da retomada dos versos iniciais), "Miss Mistreated", uma faixa bem AOR e comercial, com Joe se dirigindo ao público com algumas frases em japonês no seu início, e as quatro faixas saídas de Bent Out of Shape, disco praticamente ignorado (para mim, com toda razão) pelo grupo em seus retornos posteriores nas décadas seguintes, com destaque para a rápida "Fire Dance", que aparece aqui em uma versão mais pesada que a de estúdio, e para "Stranded", a qual, após alguns improvisos com a plateia ali pelo meio, traz alguns trechos de "Hey Joe" (aquela mesma), para depois voltar à interação com o público e encerrar em "grande estilo" com a presença repetida de seu característico refrão (as outras duas faixas do disco de 1983 presentes são o single "Street Of Dreams", que pode causar doses altas de glicemia em diabéticos que porventura a ouvirem, e a veloz "Fool For The Night", em uma versão que, para o meu gosto, carece de mais agressividade).

O Rainbow no palco do Budokan em 1984

Não faltam também alguns clássicos das encarnações anteriores do grupo, como "All Night Long" (antecedida por uma versão abreviada da linda "Maybe Next Time", originalmente intitulada "Vielleicht Das Nächste Mal (Maybe Next Time)" no disco Difficult to Cure), a qual, em seus quase dez minutos de duração, ganha muitos improvisos da banda, um trecho (bem curtinho) do refrão de "Woman From Tokyo" ali pelo meio e um longo trecho de interação entre Joe e a plateia japonesa, ou uma versão abreviada de "Catch The Rainbow", sem aquela longa sequência de solos no final presente nos tempos de Ronnie James Dio, sendo esta outra faixa na qual os backing femininos ganham destaque, mas que não chega a causar aqueles "calafrios emocionais" das versões com o saudoso "nanico" vocalista ao microfone. Há também espaço para um solo de teclado (sem muita "exibição de técnica e habilidade", como tantas vezes costumava ocorrer na década de 1970, mas com alguns efeitos sonoros que, tenho certeza, pareciam "revolucionários" à época), um furioso solo de guitarra do chefão Ritchie (onde, acompanhado pela bateria acelerada, o músico improvisa aquilo que seria um "esqueleto de composição" melhor que muitas das músicas "oficiais" desta fase da banda), o qual é seguido por um solo de bateria de quase cinco minutos, que, como quase sempre acontece nesses casos, deve ter sido mais interessante de assistir do que de ouvir (embora a segunda parte do mesmo seja bem legal, com alguns efeitos percussivos interessantes por parte de Burgi), além de algumas lembranças da época de Ritchie e Roger em seus tempos de Deep Purple, como os trechinhos de "Blues" (um tema instrumental relativamente curto que Richie executava ao vivo desde a época de sua banda anterior, e que aqui ganha uma certa "interação" maior dos teclados com a guitarra do chefão) ou "Lazy", cuja introdução instrumental (bem mais rápida que qualquer uma executada antes pelo Deep Purple que eu conheça) é seguida por um curto trecho (pouco menos de um minuto e meio) da clássica "Since You've Been Gone" (outra das poucas músicas do CD não gravadas originalmente por Turner), a qual, finalmente, leva ao final do show com a surpreendente "Smoke On The Water", mega clássico da banda anterior de Ritchie e Roger, cujo primeiro verso inteiro é levado a capella por Joe, com a banda entrando "de mansinho" a partir do segundo verso, para, então, "detonar" tudo depois do segundo refrão, com a presença de mais um inspirado solo do chefão, e com a música terminando em um inesperado "fade out" da plateia japonesa entoando seu refrão, ao invés do tradicional "arrasa quarteirão" que tradicionalmente encerra as versões ao vivo da banda que a registrou originalmente, e indicando, ao menos para mim, que edições (sabe-se lá quantas) foram feitas sobre a gravação original deste show...

Mas, é claro, tudo o que foi falado acima é facilmente superado em termos de qualidade quando tratamos da versão de "Difficult To Cure" presente aqui, onde o grupo aparece acompanhado por uma orquestra sinfônica, dirigida pelo maestro Takashi Hiroi, neste clássico baseado na nona sinfonia de Beethoven. Quando ouvi esta versão pela primeira vez na coletânea Finyl Vinyl, mais de vinte e cinco anos atrás, fiquei impressionado pela junção da banda com a orquestra, a qual realmente adiciona muito à composição, além de ter direito a um longo trecho "solo" ao longo da execução da mesma (trecho este que, ao que consta, foi totalmente composto e escrito pelo tecladista David Rosenthal), coisa a qual eu não estava acostumado a ouvir em discos de rock à época. Pois esta execução deste clássico continua impressionante ainda hoje, ainda mais que a versão presente aqui é diferente daquela encontrada na coletânea, a qual teve o solo de guitarra regravado em estúdio por Ritchie Blackmore. Arrisco a dizer que ela, sozinha, vale a aquisição deste CD. Se ainda não a conhece, ouça e confira!

Roger Glover e Ritchie Blackmore no palco do Budokan em 1984

O interessantíssimo encarte que acompanha a versão digipak nacional aponta em seu texto que apenas "Spotlight Kid" já havia sido disponibilizada oficialmente antes (na já citada coletânea Finyl Vinyl), com outras duas faixas presentes em um box de 2014 (as quais acredito serem "Fool For The Night" e "Smoke On The Water", presentes no box A Light In The Black 1975-1984, de 2015, e não de 2014 como diz o texto, caixa que também traz uma versão para "Difficult To Cure" gravada na mesma data, mas a qual não sei se conta com o solo original ou com o regravado). Achei este dado curioso, pois o track list de Finyl Vinyl informa que as versões de "I Surrender" e "Miss Mistreated" presentes ali também foram registradas no Budokan naquele março de 1984. Seriam elas do show da noite anterior a este? Não consegui confirmar esta informação na internet...

Os dois shows da capital japonesa foram gravados e filmados com a intenção do lançamento de um álbum duplo posteriormente, mas a Polydor, selo ao qual tanto o Rainbow quanto o Deep Purple estavam ligados à época, preferiu "segurar" o lançamento destes registro para não afetar aquilo que acreditava que viria a ser o "retorno triunfal" do Púrpura Profundo, lançado na forma do disco Perfect Strangers ainda naquele mesmo ano. Como disse, estas gravações só viriam a ser disponibilizadas oficialmente (e apenas no Japão, inicialmente) apenas em 2015, sendo que, hoje em dia, a versão do DVD é facilmente encontrada em sites como o Youtube, mas a versão remasterizada do áudio presente nestes CDs é bem superior à dos vídeos que encontrei, o que torna ainda mais atraente a aquisição deste lançamento, o qual, tanto pelo repertório como pela performance da banda, a qual, ainda que apareça no auge de sua fase AOR, aparentando estar tocando "com o freio de mão puxado" (até devido a saberem que aqueles concertos na Terra do Sol Nascente eram apenas "burocráticos", com tudo acabando logo em seguida para a banda), sem a mesma empolgação e entusiasmo dos dias de Dio ou mesmo de Graham Bonnet, soando bem mais "contida" em relação às suas encarnações anteriores (sendo que mesmo Ritchie não arrisca muitos solos "incendiários" aqui como costumava fazer em outros tempos), ainda consegue soar empolgante e de audição extremamente interessante, o que acaba fazendo deste, pelo menos até agora, o melhor registro ao vivo de Joe Lynn Turner à frente do Rainbow já disponibilizado oficialmente no mercado. Se você gosta da banda, e especialmente desta fase do grupo, não deixe de conferir. Seus ouvidos lhe agradecerão, com toda a certeza!

Contracapa da versão nacional de Live In Japan

Track List:

CD 1

1. Intro

2. Spotlight Kid

3. Miss Mistreated

4. I Surrender

5. Can't Happen Here

6. Catch The Rainbow

7. Power

8. Keyboard Solo

9. Street Of Dreams

10. Fool For The Night

11. Difficult To Cure

12. Guitar Solo

13. Drum Solo

CD 2

1. Blues

2. Stranded (Incl. Hey Joe)

3. Death Alley Driver

4. Fire Dance

5. Maybe Next Time

6. All Night Long (Incl. Woman From Tokyo)

7. Lazy

8. Since You've Been Gone

9. Smoke On The Water

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Datas Especiais: 20 anos de Degradation Trip Volumes 1 & 2


Por Micael Machado

Este dia 26 de novembro de 2022 marca os vinte anos do lançamento de um dos álbuns mais inusitados que o chamado "movimento grunge" legou ao mercado musical: a versão "completa" (com o subtítulo "Volumes 1 & 2") do disco Degradation Trip, segundo registro da carreira solo do vocalista e guitarrista Jerry Cantrell (também do Alice In Chains), o qual já havia sido disponibilizado no mercado em sua versão "simples" (ou "incompleta") em junho de 2002, mas que ganha uma dimensão completamente diferente quando ouvida em sua forma integral, imaginada anteriormente pelo artista, como ocorre nesta versão, inicialmente lançada em uma edição em CD duplo .

A história do disco começa ainda em 1998, quando Cantrell se isolou em sua própria casa por "três ou quatro meses, realmente não saindo para nada, mandando buscar comida comida fora e raramente me banhando durante este período", como ele declarou em uma entrevista de 2002. A separação (à época) dos membros do Alice In Chains e o final da banda (que, embora não oficializado, persistia na prática, com o grupo não se apresentando ao vivo desde 1996 por conta dos problemas de saúde do vocalista Layne Staley, que vivia praticamente recluso desde a morte de sua ex-noiva Demri Parrott no mesmo ano) afetaram muito ao guitarrista, que jogou em suas novas novas músicas todas as frustrações e sentimentos pelos quais estava passando. Durante este autoimposto período de reclusão, em um intenso processo criativo, o músico compôs perto de trinta composições novas, as quais seriam "aperfeiçoadas" em novas sessões de composição ao longo de 1999. No meio deste processo, Cantrell chegou a mostrar algumas de suas criações mais recentes para Staley, que acabou trabalhando em duas delas, as quais foram gravadas pela banda e se tornaram "Get Born Again" e "Died", ambas lançadas pela primeira vez ainda em 1999 no box Music Bank, e que viriam a se tornar as últimas gravações em vida do cantor junto ao Alice In Chains (sendo que ambas apareceriam em relançamentos e compilações posteriores do grupo ao longo dos anos).

Em abril de 2000, sem um contrato solo com uma gravadora, Jerry Cantrell decidiu bancar ele mesmo as gravações das faixas compostas durante seu isolamento, chamando para lhe ajudar a então "cozinha" da banda de Ozzy Osbourne, o baixista Robert Trujillo (ex-Suicidal Tendencies e Infectious Grooves, e futuro Metallica) e o baterista Mike Bordin (do Faith No More, e com curta passagem pelo Black Sabbath como parte da formação que se apresentou ao vivo em 1997). Dave Jerden, que já havia trabalhado com Cantrell no Alice In Chains, inicialmente seria o produtor, mas desavenças entre ele e o guitarrista fizeram com que Jerry assumisse a produção do registro, contando com a ajuda de seu amigo Jeff Tomei como co-produtor. Após o registro de vinte e cinco músicas, Cantrell intensificou as negociações com as gravadoras, chegando a um acordo com a Roadrunner, que, receosa em lançar um álbum duplo (com temas musicais e líricos tão intensos quanto aqueles, ainda por cima), propôs que o guitarrista selecionasse quatorze faixas para um lançamento simples (ocorrido em junho, como citado), mas com a promessa de disponibilizar a obra completa de alguma forma no futuro (li em algum lugar que esta condição dependeria do número das vendas da primeira versão, algo que não consegui confirmar quando fiz a pesquisa para este texto, portanto peço que considerem esta informação como um boato, não como um fato). O disco foi dedicado à memória de Layne Staley, que havia falecido em abril daquele ano por overdose de drogas.

Capa da versão "simples" de Degradation Trip

Esta primeira versão "incompleta" estreou no número 33 da billboard, ficando no TOP 200 por cinco semanas, e vendendo mais de 100 mil cópias até dezembro daquele ano. Sendo assim, em 26 de novembro de 2002 foi lançada a versão "completa", com as músicas na ordem original imaginada por Cantrell. Muitas de suas faixas poderiam facilmente se passar por gravações do Alice In Chains, mais notoriamente a abertura com "Psychotic Break" (com seus vocais dobrados e uma certa tristeza no arranjo, guiado em sua maior parte por um repetitivo riff de guitarra), "S.O.S." (lenta e melancólica, também com vocais dobrados por Cantrell), "Hellbound" (que alterna partes rápidas com outras mais cadenciadas), a agitada "Anger Rising" (primeiro single do álbum, e que conta com o guitarrista Chris DeGarmo, ex-Queensrÿche, como convidado especial) ou "Chemical Tribe", com muito uso do pedal wah-wah por parte do guitarrista na sua introdução e um excelente refrão (também com vocais dobrados pelo cantor). Outras faixas precisariam de poucas mudanças para se adequar ao track list de discos como Facelift (casos de "Owned", "Locked On" ou "She Was My Girl") e Dirt (como a arrastada e pesada "Bargain Basement Howard Hughes", "Spiderbite" e seu riff repetitivo, ou da pesada "Castaway"). O lado acústico das composições da banda, ainda que com passagens elétricas em maior ou menor quantidade, também não foi esquecido por Cantrell, seja em faixas que lembram as presentes no EP SAP (como as tristonhas "Solitude" e "Gone", "Thanks Anyway" e sua alternância entre melancolia e partes mais pesadas e rápidas, ou a quase balada "31/32") ou em outras que acabam remetendo ao EP Jar of Flies por causa de seus arranjos, como é o caso de "Angel Eyes", talvez a faixa mais "comercial" deste lançamento (e da própria carreira de Cantrell), e que foi escolhida como segundo e último single do disco, da "quase alegre" "Give It A Name" (com seu refrão mais melancólico em contraste com o andamento dos versos), da bela instrumental "Hurts Don't It?" ou de "What It Takes", faixa lenta e melancólica mas sem explicitar totalmente sua tristeza ao longo de sua duração; ou ainda das densas "Pig Charmer" e "Dying Inside", que parecem sobras do autointitulado terceiro álbum do grupo, o popular "disco do cachorro de três pernas".

Já outras composições soam meio como "estranhos no ninho" na discografia do compositor, se afastando mais de seu estilo "tradicional". É o caso, por exemplo, da experimental e esquisitíssima "Feel The Void", da quebrada e diferentona "Mother's Spinning In Her Grave (Glass Dick Jones)", de "Siddhartha", que tem alguns toques orientais dados pelo que soa como uma cítara tocada ao longo da melancolia de seus versos principais (embora seu refrão seja bastante agitado em contraste á tristeza de boa parte da duração da faixa), ou de "Pro False Idol", que, não fosse pelo excesso de distorção no timbre da guitarra, poderia se passar facilmente por um hard rock oitentista sem maiores problemas (pelo menos até o surgimento de uma parte totalmente psicodélica ali no meio, o que altera bastante o arranjo da faixa dali e diante). 

Robert Trujillo, Jerry Cantrell e Mike Bordin, o trio que registrou Degradation Trip Volumes 1 & 2

Na turnê de promoção do álbum, Cantrell foi acompanhado pela banda Comes with the Fall, que conta (ou contava, pois não achei registros de que o grupo continue na ativa) com o guitarrista/vocalista William DuVall, a quem Jerry havia conhecido ainda no ano de 2000. Começava ali uma relação que levaria a um convite para DuVall juntar-se a um reunido Alice In Chains em 2006, posto que seria efetivado em 2008, iniciando assim uma nova história na carreira tanto da banda quanto de seu principal guitarrista e compositor, a qual, arrisco a dizer, traz muito da influência dos estilos, timbres e arranjos utilizados por Cantrell neste disco (vide, por exemplo, músicas como "Your Decision" ou "Voices", as quais poderiam estar neste disco duplo sem maiores problemas, embora não se encaixem muito na produção musical anterior da Alice Acorrentada).

A versão abreviada do álbum foi lançada em vinil (duplo) pela primeira vez em janeiro de 2017, e a versão completa só seria lançada neste formato (em um disco quádruplo!) em fevereiro de 2019, com uma belíssima edição na cor laranja escuro (com pinceladas em preto e vermelho mescladas à cor predominante) disponível de forma limitada no mercado mundial em apenas duas mil cópias numeradas (a minha é a de número 1333, só para registro). Devido à temática das letras e à sonoridade mais depressiva/lamuriosa da maioria de suas composições, as quase duas horas e meia de Degradation Trip Volumes 1 & 2 não são exatamente um passeio fácil e agradável aos ouvidos menos acostumados à carreira de Jerry Cantrell antes ou depois deste álbum. Porém, aos fãs do guitarrista, o trajeto pelos sulcos do disco, ainda que com alguns percalços, será extremamente satisfatório ao final. Boa viagem aos que arriscarem!

Contracapa de Degradation Trip Volumes 1 & 2

Track List (versão simples):

1. Psychotic Break

2. Bargain Basement Howard Hughes

3. Anger Rising

4. Angel Eyes

5. Solitude

6. Mother's Spinning In Her Grave (Glass Dick Jones)

7. Hellbound

8. Give It A Name

9. Castaway

10. She Was My Girl

11. Chemical Tribe

12. Spiderbite

13. Locked On

14. Gone


Track List (versão completa):

Volume 1

1. Psychotic Break

2. Bargain Basement Howard Hughes

3. Owned

4. Angel Eyes

5. Solitude

6. Mother's Spinning In Her Grave (Glass Dick Jones)

7. Hellbound

8. Spiderbite

9. Pro False Idol

10. Feel The Void

11. Locked On

12. Gone


Volume 2

1. Castaway

2. Chemical Tribe

3. What It Takes

4. Dying InsideSiddhartha

5. Siddhartha

6. Hurts Don't It?

7. She Was My Girl

8. Pig Charmer

9. Anger Rising

10. S.O.S.

11. Give It A Name

12. Thanks Anyway

13. 31/32

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Datas especiais: 20 anos da primeira vez do Rush no Brasil

Por Micael Machado

Exatamente vinte anos atrás, em uma chuvosa noite de 20 de novembro de 2002, o trio canadense Rush se apresentava pela primeira vez no Brasil. E não, não foi no hoje famoso concerto do Rio De Janeiro que rendeu o DVD Rush In Rio pouco tempo depois, mas sim no hoje dilapidado Estádio Olímpico, na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Mesmo passado tanto tempo, tenho certeza de que aquela  tarde/noite de quarta feira permanece marcada na memória da maioria das 35 mil pessoas que estavam lá, fazendo história junto com a banda em terras gaúchas.


Matérias em jornais locais repercutindo o show do Rush em Porto Alegre

Lembro que, para mim, foi o mesmo que a realização de um sonho. Eu uma época pré-internet, onde a maioria das informações sobre música chegava até mim através, basicamente, das revistas Bizz (depois ShowBizz) e Rock Brigade, em 2002 eu já curtia o Rush há pelo menos 12 ou 13 anos, desde que um amigo conseguiu a discografia inteira da banda (na época, até o álbum Presto) com alguém, com a promessa de devolver os discos no dia seguinte àquele em que os havia pego, o que me fez passar boa parte de uma madrugada e uma manhã e tarde inteiras de 1989 ou 1990 gravando os discos em fitas K7 sem nem mesmo ouvi-los antes, indo "curtir" e "entender" os mesmos a partir das fitinhas, nos dias subsequentes (experiência que, até hoje, me faz ter um pouco de medo da introdução de "Witch Hunt", faixa do disco Moving Pictures, depois de ouvi-la pela primeira vez às quatro da madrugada, nos fones de ouvido, num quarto escuro, com meu irmão dormindo ao lado e minha família em seus respectivos quartos, enquanto tentava manter o meu silêncio para não acordá-los, mesmo tendo experiências sonoras fascinantes à medida que a agulha percorria os sulcos de cada LP que ia para o toca discos... bons tempos...). Na verdade, eu já conhecia algo do grupo desde meados da década de 1980, quando "Spirit Of Radio" era tema do noticiário da TV estadual que passava na hora do almoço (e que, ainda hoje, se chama "Jornal do Almoço"), e, por isso, tocava bastante na rádio FM (e eu, que ouvia a música sem saber nada da banda, achava muito estranho o timbre de voz da "cantora" da banda... outros tempos)... e, claro, havia "Tom Sawyer", que era tema do seriado do MacGyver, que eu assistia religiosamente na TV nas sessões vespertinas da Rede Globo... Quando, anos depois disso tudo, os shows dos canadenses no Brasil foram anunciados, eu já tinha, não lembro como, o CD do Vapor Trails, álbum que a banda estava divulgando à época, e sabia que Peart havia passado por todos os problemas pessoais que hoje conhecemos bem, e que forçaram a banda a uma parada de quase seis anos, a qual quase acabou com a mesma. Sendo assim, a possibilidade de assistir ao vivo a uma banda tão importante para mim, já naquela época, era algo inimaginável, mas estava perto de acontecer.



Geddy Lee, Alex Lifeson e Neal Peart em Porto Alegre 
(fotos retiradas de uma reportagem da época sobre o show, disponível no Youtube)

Não lembro muito das horas que antecederam o show, mas lembro de ir ao estádio (que é muito perto de onde moro ainda hoje) e encontrar alguns amigos que haviam vindo do interior junto com meu irmão, e outras pessoas que estavam junto com eles. Juro que foi a primeira vez que vi alguém pronunciar "uái uái zí" para se referir a "YYZ" (que, para mim, sempre havia sido "ípsilon ípsilon zê"), e "twenty-one twelve" para se referir a "2112" (que, obviamente, eu sempre havia chamado de "dois mil cento e doze"), mesmo que meus conhecimentos de inglês não fossem tão limitados assim à época. Outra dúvida pertinente entre o pessoal era a pronúncia do sobrenome do baterista: seria "Pírt" ou "Pãrt"? Lembro também que a expectativa de todos era enorme ("Quais músicas será que vão tocar? Será que rola "Hemispheres"?), especialmente pelo solo de Peart, que, todos sabíamos de antemão, seria sensacional. Curiosamente, não lembro de ter encontrado o Mairon (que foi com sua esposa à época ao show, e ficou afastado de mim durante o mesmo, junto dela), mas sei que nos falamos antes do show, e, rapidamente, por telefone, após o mesmo...

As lembranças de momentos específicos do espetáculo também não são claras para mim... lembro mais das sensações da data... a "pista VIP", na frente do palco, era separada da "pista comum" por uma grade muito baixa, e tinha cadeiras em sua extensão. O pessoal da VIP começou a subir nas mesmas, o que dificultou a visão para quem, como eu, estava na "pista comum". Fora que o pessoal da "comum", não entendendo por qual motivo estava tão "para trás", tentava forçar a passagem à frente, talvez por não ver a grade, e espremia cada vez mais contra a mesma aqueles que estavam próximos à grade de separação, como eu. A primeira parte do show eu fiquei tão desconfortável que, no intervalo (foram quase três horas de apresentação, separadas por um intervalo de vinte minutos, como seria tradição dali para a frente nos concertos da banda, mas era algo quase inovador à época), eu me forcei a sair da minha posição e tentei ir mais para trás no gramado, mas o pessoal, aglomerado em suas posições, acabava dificultando minha passagem, mesmo que, teoricamente, eles fossem ficar mais perto do palco do que onde estavam... foi algo que achei bastante estranho na época, e me fez perder parte do vídeo de introdução da segunda parte, mas não escapar do calor do fogo "lançado" pelo dragão da animação por sobre o público das pistas no início de "One Little Victory" (quem estava lá deve saber do que estou falando)...

Neil Peart relaxando no antigo Estádio Olímpico, momentos antes do show de 20 anos atrás

Foram muitos momentos de puro embasbacamento musical assistindo aqueles três gênios naquele estádio. Desde a abertura com a conhecidíssima "Tom Sawyer", passando pelo êxtase coletivo em "YYZ" (que, ao que lembro, não teve o pessoal cantando as linhas instrumentais, como ficaria eternizado no DVD do show do Rio), minhas surpresas com as execuções de "The Trees", "Freewill" e, principalmente, "Natural Science" (três de minhas faixas favoritas da carreira da banda, e que a falta de informações que existia à época não me fazia sequer supor que a banda fosse tocar), a minha alegria com "Driven", que eu sempre gostei muito, mas que o pessoal parecia não conhecer direito, e, claro, o espetacular solo de bateria de Peart, ainda hoje não superado em técnica, emoção e sentimento por nenhum outro baterista que eu já tenha assistido ao vivo (quem presenciou algum show da banda em alguma turnê, sabe do que estou falando). Afinal, como alguém já escreveu, depois de presenciar um solo de Peart ao vivo, deveria ser proibido a qualquer outro baterista de rock de fazer um solo em show, sob o risco de passar vergonha perto do que este saudoso mestre fazia. Quem viu, há de concordar!

O final do show trouxe mais momentos marcantes, com "La Villa Strangiato" (outra faixa que adoro) e "Spirit Of Radio", que todos ali conheciam bem demais, e o bis ainda trouxe "By-Tor e Snow Dog", a introdução da primeira parte de "Cygnus X-1" e "Working Man", mas, confesso,não lembro bem da execução destas, ao contrário de boa parte das demais, as quais posso revisitar com frequência, graças a outro fato inusitado para aquela época: poucos dias depois do show, o dono de uma loja de discos da cidade, que eu frequentava com bastante regularidade, me informou que possuía uma gravação pirata do show, feita da plateia não sei como e não sei por quem. Era o hoje "famoso" CD Porto Alegre Trails, que muitos à época compraram, e que eu, claro, também adquiri. Ouvindo hoje, acostumados aos recursos digitais que possuímos, a gravação pode ser considerada como "horrível": há muito barulho de vento nas músicas, falas do público entre as mesmas, e, algo que não soube por anos (a internet foi quem me "contou", já na década seguinte): o repertório está incompleto (faltam "Closer To The Heart", que a banda incluiu no repertório da turnê apenas nestes shows brasileiros, ao que eu sei, a própria "Natural Science", e todo o bis). Mesmo assim, considerando-se que, à época, não se conseguia entrar nos shows sequer com uma câmera fotográfica analógica (com filme de rolo!), o fato de alguém ter gravado, de forma relativamente decente, praticamente toda a apresentação, e ter a possibilidade de ouvir a mesma vinte anos depois com uma qualidade de certa forma aceitável, como consigo hoje, chega perto de ser surreal (não são muitos os registros de shows da época que se encontram por aí, ainda mais os acontecidos em Porto Alegre, que, já na época, não era assim tão "prioritária" em termos de rotas para shows em turnês nacionais,algo que melhorou "um pouco" atualmente).


Lembranças e memorabilias do show de 20 anos atrás

Dois dias depois, o trio se apresentaria em São Paulo, e, no sábado, 23 de novembro, acontecia o histórico show registrado no DVD (e hoje também disponível em CD e vinil - eu tenho os três formatos). Alguns anos depois, em 10/10/2010, tive a oportunidade de assistir ao grupo mais uma vez, daquela feita no Rio de Janeiro, na turnê Time Machine Tour. Mas as circunstâncias eram completamente diferentes, e aquela primeira vez no Olímpico ficaria marcada para sempre nos presentes àquela data tão especial, mesmo vinte anos depois. E, creio eu, ainda vai ficar por muito tempo ainda!


Capa e Contracapa do CD Porto Alegre Trails

Set list:

Set 1:

Tom Sawyer

Distant Early Warning

New World Man

Roll the Bones

Earthshine

YYZ

The Pass

Bravado

The Big Money

The Trees

Freewill

Closer to the Heart

Natural Science

Set 2:

One Little Victory

Driven

Ghost Rider

Secret Touch

Dreamline

Red Sector A

Leave That Thing Alone

Drum Solo

Resist (acoustic)

2112 Part I: Overture

2112 Part II: The Temples of Syrinx

Limelight

La Villa Strangiato

The Spirit of Radio

Encore:

By-Tor & The Snow Dog

Cygnus X-1 (Prologue)

Working Man



sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Camisa de Vênus - Duplo Sentido [1987]


Por Micael Machado

Há uma série de postagens aqui no site onde o nosso colaborador Mairon Machado associou um disco do chamado BRock dos anos 1980 para cada um dos sete pecados capitais. Como a ambição não faz parte da lista de "pecados maiores" condenáveis pela Igreja Católica, acabou ficando de fora daquela relação, mas, se um disco do período tivesse de "encarnar" este sentimento, não haveria, na minha opinião, um álbum mais adequado do que Duplo Sentido, último registro da formação clássica do grupo baiano Camisa de Vênus, composta então por Marcelo Nova nos vocais, Karl Hummel e Gustavo Mullem nas guitarras, Robério Santana no baixo e Aldo Machado na bateria. Os motivos para eu fazer esta afirmação são, pelo menos, três: em primeiro lugar, obviamente, por ser um disco em vinil duplo, o primeiro (e um dos únicos) deste tipo naquela geração do rock brasileiro, pois a Legião Urbana, por exemplo, só veio a ter seu "duplo" (a compilação de apresentações ao vivo Música Para Acampamentos) lançado em 1992, e grupos como Titãs, Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Hawaii, Ultraje A Rigor ou Ira! nunca tiveram LPs editados neste formato; em segundo, pela imensa quantidade de convidados especiais que participam ao longo das dezessete faixas do álbum, indo de ícones como Raul Seixas (que dispensa apresentações), Manito (à época já ex-membro de grupos como Os Incríveis, Som Nosso de Cada Dia e Mutantes, e que depois ainda viria a gravar com o Ultraje A Rigor e a Patrulha do Espaço, dentre outros) ou Luiz Carlos Batera (percussionista que tocou com gente do porte de Tim Maia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de ter feito parte da Banda Black Rio), além de músicos reconhecidos nacionalmente, como o pianista Sérgio Kaffa (que, dentre outros, tocou com gente como Sá & Guarabyra, O Terço, Cezar De Mercês e Arnaldo Baptista), o também pianista Paulo Calasans (que já acompanhou artistas do porte de Djavan, Gal Costa, Gilberto Gil e Roberto Carlos, entre outros), o músico e ator Chiquinho Brandão (que, dentre outros, acompanhou Elis Regina ao vivo em parte de sua carreira), os gaitistas Ricardo Henrique e Mica Griecco, além das "backing vocalistas" Vera Natureza, Maria Aparecida de Souza (Cidinha), Rita Kfouri e Nadir, e da própria esposa de Marcelo Nova à época, Inez Silva. O terceiro motivo, e, para mim, o mais importante, é a imensa variedade de estilos musicais que o quinteto abrange nos quatro lados do LP.

Conta a lenda (e Marcelo confirma no excelente livro O Galope do Tempo, de André Barcinski), que o cantor ficou muito decepcionado com as atitudes e posicionamentos de alguns dos membros do grupo após o estrondoso sucesso de Correndo o Risco, terceiro disco do Camisa, lançado em 1986, e que vendeu, à época, quase trezentas mil cópias, levando o quinteto ao primeiro patamar do Rock Nacional de então (o tão falado BRock). Decidido a partir para uma carreira solo onde pudesse fazer algo diferente do que vinha gravando com a banda, Marcelo comunicou a decisão de sua saída do Camisa a seus colegas ainda antes do início das gravações para o que viria a ser  Duplo Sentido. Como os baianos ainda deviam dois discos para sua gravadora à época, a Warner, o próprio cantor se reuniu com o diretor André Midani para explicar que a banda estava se dissolvendo, e propor um álbum duplo para cumprir o acordo ainda pendente com o selo. Com a aceitação dos termos pelo executivo, e como não havia a pressão de ter de  superar as vendas do disco anterior, visto que a banda iria acabar de qualquer forma, os músicos, a meu ver, pareceram se ver livres para explorar várias de suas ambições musicais naquele que seria, então, seu último registro. Pelos sulcos do vinil original, passamos pelo "rock de FM" tão comum à época, na forma de músicas como "Muita Estrela, Pouca Constelação" (primeira parceria de Marcelo Nova com Raul Seixas, que participa como cantor na faixa, a qual chegou a ser lançada como compacto simples à época - vale lembrar que Marceleza e Raulzito gravariam posteriormente A Panela do Diabo, que, inclusive, representou a "preguiça" naquela série dos pecados citada lá no início do texto), "O País do Futuro" (que ganhou clipe e boa repercussão nas rádios naquele ano, além de contar com a percussão de Luiz Batera e uma temática na letra que, infelizmente, soa relevante ainda hoje) ou "Vôo 985"; rock and roll tradicional ("Chamam Isso Rock and Roll", para mim, uma das melhores letras da carreira do grupo, recheada por solos de gaita e sax, este a cargo de Manito, e cujo ritmo vai ganhando velocidade à medida que o arranjo se desenvolve); rocks mais "agitados" como "Lobo Espiatório" (com letra em solidariedade ao músico Lobão, à época constantemente perseguido pela polícia, e que abre com falas de Al Pacino retiradas do filme Scarface) ou "Ana Beatriz Jackson" (cuja temática da letra, muitos apontam, lembra a de "Billy Jean", de Michael Jackson); ecos da origem punk da banda (em "Após Calipso", que conta com inusitados solos de flauta, sax e violino a cargo de Manito); algo do pós punk reinante em certos períodos dos anos 1980 (em "O Suicídio Parte II", que retoma a temática lírica de "Pronto pro Suicídio", do autointitulado disco de estreia da banda, e na instrumental "Chuva Inflamável", a segunda deste formato lançada pela banda em toda a sua carreira - sendo a primeira uma versão para o tema da Pantera Cor de Rosa presente no segundo disco, Batalhões de Estranhos, de 1985); balada romântica acústica ("Deusa da Minha Cama", outra que conta com a percussão de Luiz Batera, e com a rápida participação da esposa de Marcelo em um "Bom Dia" falado em seu início); blues (na excelente "Me Dê uma Chance", um blues "rasgado" interpretado ao vivo no estúdio, e permeado por solos tanto de guitarra como de piano, por Paulo Calasans, sax, a cargo de Manito, e gaita, a cargo de Mica Griecco); e até uma versão moderna do tango argentino, em "O Último Tango" (que conta com Chiquinho Brandão no serrote).

Robério Santana, Aldo Machado, Gustavo Mullem e Marcelo Nova "apresentando" seu último registro juntos

No lado D, naquele que seria o último lado de um disco de vinil da banda ainda hoje (visto que os álbuns lançados após a "volta" do Camisa não foram editados neste formato), uma seleção de covers escolhidos apenas "para preencher o disco", como Marcelo coloca no livro citado acima. Se a correta e quase literal versão para "Aluga-se", de Raul Seixas (que inicia com o famoso "bordão" "Brasileiros e Brasileiras", do então presidente José Sarney) ou "A Canção do Martelo" (versão em português para "Hammer Song", da The Sensational Alex Harvey Band, que ficou ainda mais soturna que a sombria versão original, além de contar com um excelente solo de Órgão Hammond por parte de Manito) não chegam a ser surpresa para quem conhece os gostos musicais de Marceleza, também não o deveriam ser escolhas como "Farinha do Desprezo", de José Carlos Capinam e Jards Macalé (afinal, o Camisa já havia gravado "Gotham City", dos mesmos autores, no Batalhões de Estranhos), a qual, neste disco, ganhou tons de punk rock inusitados perto da acústica e "balançante" versão original, "Enigma" (composta por Adelino Moreira, a qual teve letra alterada por Marcelo, e também ganhou uma sonoridade quase punk), canção que ficou famosa na voz de Nelson Gonçalves (sendo que o Camisa já havia gravado no essencial Viva uma versão para "My Way", consagrada na voz inigualável de Frank Sinatra - e seria assim tão absurdo afirmar que Nelson Gonçalves é o equivalente brasileiro de Sinatra? Então, por que não gravá-lo em um disco de uma banda como esta?) ou "Canalha", de Walter Franco, outro artista que Marcelo sempre disse admirar (vale citar que a versão do Camisa, um rock agitado e "pegado", soa para mim muito superior àquela que os Titãs registrariam décadas depois no disco Nheengatu. Curiosamente, os mesmos Titãs também gravariam, anos depois do Camisa, uma versão para "Aluga-se", assim como os baianos fizeram neste disco aqui - e, para mim, com resultados também inferiores).

Segundo Marcelo, no livro citado acima, o disco "foi gravado num clima melancólico. Os integrantes da banda não se encontravam no estúdio (para gravar) ... e depois o Peninha foi juntando as partes (registradas em separado por cada músico) para completar o disco", referindo-se ao lendário produtor Pena Schmidt, um dos principais responsáveis por muitos dos discos de sucessos lançados pelo BRock naquela década, e que ficou com a "batata quente" nas mãos de produzir este registro que, ainda de acordo com Marceleza, seria "triste, melancólico, de final de etapa. Ali não tinha mais nada, só um contrato a cumprir". Apesar das palavras do vocalista, eu não o considero assim. Há, para mim, momentos muito interessantes ao longo de sua audição, e é inegável que o Camisa encontra-se em seu momento mais maduro, tanto musical quanto liricamente falando, no momento da gravação deste último registro. Eu quase incluí este disco na categoria dos "Discos Que Parece Que Só Eu Gosto" aqui do site, mas, honestamente, dos cinco registros da primeira fase dos baianos (os quatro de estúdio mais o fantástico ao vivo), este talvez seja o que menos me atrai, justamente por causa de sua pluralidade de estilos, que, a meu ver, deixam o álbum como um todo meio sem foco, sem direção, com boas e excelentes canções ao lado de outras que não me atraem tanto.


Contracapa da versão original em LP

Talvez o público da época tenha pensado o mesmo, pois o disco vendeu muito pouco (não consegui encontrar um número preciso, mas alguns sites falam em 40 mil cópias vendidas, quantidade muito abaixo das 300 mil do disco anterior), sem ter propriamente uma turnê de divulgação para ele (apenas algumas poucas entrevistas e outros poucos shows, sendo que um deles, no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo, inclusive foi transmitido pela TV Cultura na época, e hoje encontra-se disponível no youtube), com este álbum duplo nunca tendo o reconhecimento que merece, aparentemente, nem mesmo por parte da banda. Tanto que, quando do "retorno" em 1995 (sem Gustavo e Aldo, que culminou no disco Quem É Você?, do ano seguinte), ou no show de 2004 que rendeu o DVD Ao Vivo No Festival De Verão Salvador (apenas com Marcelo, Karl e Gustavo da formação original), ou ainda na "volta" á ativa em 2015 (apenas com Marcelo e Robério), que já rendeu discos de estúdio e ao vivo, apenas a faixa "Muita Estrela, Pouca Constelação" acabou sendo lembrada nos palcos, com o grupo (ou seria apenas Marceleza?) desprezando totalmente as demais composições de seu "último registro". Uma pena, pois é um álbum que merece ser redescoberto, ainda mais agora que está próximo de completar 35 anos de idade (a serem "festejados" agora em outubro, em data incerta, segundo a página da wikipedia). E você, está disposto a dar mais uma chance a este registro de duplo sentido?

Track List da versão original em LP:

Lado A:

01. Lobo Espiatório

02. O País do Futuro

03. Ana Beatriz Jackson

04. Vôo 985

05. Após Calipso

Lado B:

01. Me Dê uma Chance

02. Deusa da Minha Cama

03. Chamam Isso Rock and Roll

Lado C

01. Muita Estrela, Pouca Constelação

02. O Último Tango

03. O Suicídio (Parte II)

04. Chuva Inflamável

Lado D

01. Enigma

02. Farinha do Desprezo

03. A Canção do Martelo

04. Aluga-se

05. Canalha