domingo, 4 de setembro de 2022

Neil Young and Crazy Horse - Toast [2022]


Por Micael Machado

No ano de 2000, o bardo canadense Neil Young estava enfrentando alguns problemas com seu longínquo casamento junto à sua então esposa Pegi Young (os dois viriam, efetivamente, a se divorciar em 2014), quando levou o seu melhor grupo de apoio em todos os tempos, o Crazy Horse (formado à época por Frank "Poncho" Sampedro nas guitarras e backing vocals, Billy Talbot no baixo e backing vocals, e Ralph Molina na bateria e também nos backing vocals), para dentro do estúdio Toast, em San Fancisco, visando registrar um novo álbum de composições inéditas. Mas os problemas pessoais de Neil acabaram transparecendo tanto nas letras quanto nas músicas registradas nestas sessões, e nem uma pausa nas gravações para uma turnê pela América do Sul no começo do ano seguinte (onde, dentre outros concertos, o canadense e o Cavalo Doido se apresentariam pela primeira - e, até agora, única - vez no Brasil, no Rock in Rio 3 de 2001) animou muito as coisas para o cantor, que acabaria abandonando em seus arquivos as faixas gravadas ao lado de seus velhos comparsas, e iniciando um novo projeto ao lado do lendário grupo de soul music Booker T. & the M.G.'s, que viria a ser lançado em 2002 sob o nome Are You Passionate?, trazendo, em algumas faixas, novas versões para algumas das músicas trabalhadas com o Cavalo Doido no ano anterior, sendo que o maior destaque do álbum (ao menos para mim), a faixa "Goin' Home", foi registrada durante aquelas sessões, sendo, desta forma, a única do álbum citado a contar com a participação do Crazy Horse (ainda que Frank Sampedro também faça parte do time de músicos que gravou o restante do álbum de 2002).

Ao longo dos anos, Neil chegou a comentar algumas vezes sobre a possibilidade de lançar oficialmente aquelas gravações abandonadas registradas em San Francisco, sendo que a ideia ganhou mais força quando o canadense e seus fiéis aliados voltaram a se reunir em 2011 para as sessões que resultariam nos álbuns Americana (do mesmo ano) e Psychedelic Pill (de 2012). Mas, como tantas vezes aconteceu ao longo da extensa carreira de Young, o lançamento do disco acabou sendo adiado várias e várias vezes, sendo que apenas em 2022 Toast, o álbum oficial com aquelas faixas registradas em 2000, viria a ser lançado no mercado, nas versões CD, vinil duplo (com o quarto lado em branco, ou "etched") e nas hoje obrigatórias plataformas digitais.

Neil Young e o Crazy Horse ao vivo no Rock In Rio 3 de 2001

Das sete faixas de Toast, apenas três não apareceram em versões diferentes em  Are You Passionate?. Uma delas, a "suingada" "Gateway of Love" (e seus mais de dez minutos), até constou na contracapa daquele álbum, embora efetivamente não fizesse parte do disco. Esta música chegou a ser executada diversas vezes ao vivo por Young desde então, assim como a agitada "Standing in the Light of Love", um dos grandes destaques de Toast, e da qual é possível encontrar várias versões ao vivo no youtube, inclusive uma apenas com a voz e o violão do bardo canadense, mas não menos interessante. Assim sendo, apenas o rockão "Timberline" (que me lembra algumas faixas de álbuns como Ragged Glory ou Broken Arrow) acaba sendo realmente "inédito" neste novo registro, sendo, as três, a melhor parte deste novo disco, ao lado de "Goin' Home", que reaparece aqui na mesma versão já disponibilizada antes no álbum de 2001.

Daquele disco, reaparecem "Quit" (em uma versão um pouco mais crua daquela que, para mim, é um "destaque menor" o registro de 2001, e que aqui perdeu o subtítulo "Don't Say You Love Me"), "Mr. Disappointment" (rebatizada como "How Ya Doin'?", com uma duração maior e alguns solos de guitarra adicionais) e "She's a Healer" (que virou "Boom Boom Boom", ganhou quase quatro minutos - passando, assim, dos treze ao total - e alguns solos de guitarra bastante interessantes, mas que ainda não fizeram com que ela se destacasse aos meus ouvidos).

Contracapa da versão em CD de Toast

Ao final da audição, fiquei com a impressão de que os pouco mais de cinquenta minutos de Toast acabam sendo válidos mesmo pelas três faixas "inéditas", todas com destaque dentre tantas faixas medianas que o bardo canadense lançou ao longo deste século. Mas o mérito maior é colocar "Goin' Home" ao lado de outras músicas do mesmo nível que ela, além de tornar praticamente dispensável a audição de Are You Passionate? daqui em diante (não fosse a presença de outra faixa interessante lá, a roqueiraça "Let's Roll", depois de conhecer estas "novas versões" para as músicas citadas certamente o álbum de 2001 não sairia tão cedo da prateleira para circular no meu CD player). Como já disse recentemente em uma resenha sobre o álbum Barn, Toast acaba sendo um disco "menor" na extensa carreira do bardo canadense, mas pode ser considerado um dos destaques dentre os lançamentos de Neil Young neste século. Confira!

Track List:

1. Quit

2. Standing In The Light Of Love

3. Goin' Home

4. Timberline

5. Gateway Of Love

6. How Ya Doin'?

7. Boom Boom Boom

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Neil Young and Crazy Horse - Barn [2021]


Por Micael Machado

Em 2019, Neil Young voltou a se reunir com sua melhor banda de apoio, o Crazy Horse, depois de sete anos separados, para a gravação e subsequente lançamento do álbum Colorado, do mesmo ano. Com o baixo e a bateria, respectivamente, a cargo de Billy Talbot e Ralph Molina, como sempre, o "Cavalo Doido" se viu desfalcado do guitarrista Frank “Poncho” Sampedro, que se aposentou do mundo da música, sendo substituído por um velho conhecido tanto do grupo como de Neil, o guitarrista/tecladista Nils Lofgren, que já havia tocado com o Crazy Horse antes do grupo se unir a Neil Young, e que participou como músico de apoio de diversos registros do canadense desde a década de 1970, não sendo, portanto, nenhum "estranho no ninho" em uma turma que toca junto, com esporádicas separações, desde o início dos anos setenta. Após poucos shows de divulgação ainda em 2019, a turnê conjunta de Neil e o Cavalo Doido foi suspensa, com planos de ser retomada em 2020, algo que se tornou impossível devido à pandemia do novo coronavírus.

Desta forma, Neil acabou, ao longo de esporádicas sessões ao longo de 2020 e 2021, colocando o cavalo doido dentro de um dos celeiros de uma de suas propriedades nos Estados Unidos, e registrando um novo álbum de estúdio, adequadamente chamado Barn (que significa "celeiro", em inglês, imóvel que, aliás, aparece na capa do disco), seu quadragésimo primeiro álbum de estúdio, e décimo quarto ao lado da Crazy Horse (segundo informações da wikipedia), lançado em dezembro de 2021 em diversos formatos, como vinil (nas edições "simples" e "limited", a qual vem com seis fotos tiradas durante as sessões de gravação), CD, cassete, além de uma edição "deluxe" com o vinil, o CD e um blu-ray (que apresenta um filme registrado ao longo das gravações, dirigido pela esposa de Young, a atriz Daryl Hannah), como pode ser visto na foto que abre esta matéria, além, claro, de estar disponível em todas as hoje obrigatórias plataformas digitais.

Billy Talbot, Ralph Molina e Nils Lofgren (ou o Crazy Horse atual) ao lado de Neil Young

Da união do bardo canadense com o Cavalo Doido, os fãs mais atentos logo esperam sons conduzidos por guitarras distorcidas e rascantes, além de solos e mais solos de guitarra longos e empolgantes por parte de Neil. Surpreendentemente, para mim, Barn oferece pouco desta "receita tradicional" da união destas duas forças. "Human Race" talvez seja a mais próxima desta expectativa que eu tinha para o disco, bem como a autobiográfica "Canerican", cujo solo final foi abruptamente "encerrado" por um fade out indevido, no maior pecado musical de todo o disco. A longa (mais de oito minutos) e tristonha "Welcome Back" me lembrou, por algum motivo, a clássica "Change Your Mind", de Sleeps with Angels, disco de 1994 de Young e do Crazy Horse (e sendo, também por isto, um dos destaques do track list para mim), sendo a também autobiográfica "Heading West" outra faixa que se encaixa nesta "receita", embora seja curta demais para se destacar no meio das demais.

No restante do disco, parece que temos um "passeio" ao longo de alguns momentos da discografia de Neil separado do Crazy Horse. Desta forma, poderíamos dizer que a balada acústica "Song of the Seasons", música de abertura e primeiro single do disco, não soaria deslocada no track list de Harvest Moon, de 1992, assim como outra balada balada tristonha, "They Might Be Lost", desta vez conduzida pelo piano e a harmônica, se encaixaria perfeitamente em um disco como Silver & Gold, de 2000. O blues de "Change Ain't Never Gonna" poderia muito bem estar em This Note's for You, de 1988, assim como a agitada "Shape of You", com seu piano rocker e a harmônica de Neil, precisaria de poucas mudanças para se ajustar às faixas de Everybody's Rockin', de 1983, enquanto tanto "Don't Forget Love" quanto "Tumblin' Thru the Years" (esta, conduzida por Neil ao piano) não soariam deslocadas em Are You Passionate?, de 2002.

Contracapa da edição em CD de Barn

Pelas citações a tantos discos do passado, parece claro que Barn não soará estranho ao fã mais atento à discografia do bardo canadense. Porém, este mesmo fã, dependendo do seu grau de devoção à obra de Young, há de perceber que nenhum dos álbuns citados na matéria se encontra na categoria de "clássico" na extensa discografia do canadense. Por razões como esta, posso afirmar que, na minha opinião, apesar de ser um dos melhores registros de Neil neste século (e olha que a concorrência é grande), os pouco menos de quarenta e três minutos de Barn formam um disco apenas "OK", e um dos mais fracos registrados pelo canadense ao lado do Cavalo Doido (excetuando-se, é claro, alguns "desvios de rota" cometidos ao longo da década de 1980). Mesmo assim, se você curte a obra desta verdadeira instituição do rock mundial que é o "canericano" Neil Young (como ele se refere a si mesmo em "Canerican"), é um disco que vale conferir, pois, certamente, não irá lhe decepcionar.

Track List:

1. Song of the Seasons

2. Heading West

3. Change Ain't Never Gonna

4. Canerican

5. Shape of You

6. They Might Be Lost

7. Human Race

8. Tumblin' Thru the Years

9. Welcome Back

10.Don't Forget Love

Dead Kennedys – Iguana Studios Rehearsal Tape - San Francisco 1978 [2018]

Por Micael Machado

Um dos principais álbuns do hardcore norte-americano (e, para mim, o melhor), Fresh Fruit For Rotting Vegetables, registro de estreia dos Dead Kennedys lançado em 1980, é, sem sombras de dúvidas, um clássico do punk rock mundial. Mas, como já se provou muitas vezes no mundo das artes, clássicos nem sempre nascem prontos, precisando de muito refino e trabalho para chegarem a este elevado patamar. Uma evidência de que isto também ocorreu com este disco está em Iguana Studios Rehearsal Tape - San Francisco 1978, lançamento especial em vinil do Record Store Day de 2018 (no ano seguinte, também disponibilizado em CD, devido à demanda do público) que finalmente disponibiliza oficialmente parte de uma sessão de ensaios da banda feita, como indicado no título, nos estúdios Iguana, de San Francisco (cidade natal do grupo) no ano de 1978, antes ainda do lançamento de seu primeiro single, a também clássica "California Über Alles", e quando os Kennedys ainda eram um quinteto, com a formação do primeiro disco (Jello Biafra nos vocais, East Bay Ray nas guitarras, Klaus Flouride no baixo e backing vocals e Ted na bateria) complementada pelo guitarrista base 6025, que deixaria a turma logo depois destas gravações (as quais, segundo o excelente livro Fresh Fruit For Rotting Vegetables - Os Primeiros Anos, de Alex Ogg, foram registradas em fita cassete por East Bay Ray no último ensaio de 6025 com a banda, "porque queríamos ter tudo o que sabíamos gravado para a posteridade", segundo Jello Biafra - o mesmo texto ainda afirma que a sessão teria ocorrido em 1979, e não em 1978, como se acredita). Clandestinamente, estas gravações circulavam entre os fãs do grupo já há algum tempo, mas foram "oficializadas" pela primeira vez para este lançamento especial, e, pelo que se pode ouvir, sem muitos tratamentos digitais ou aperfeiçoamentos técnicos para "mascarar" as limitações tecnológicas da época (o som é, no geral, abafado e por vezes bem embolado, como seria de esperar de uma gravação amadora de um ensaio de uma banda também praticamente amadora, e o som, por vezes, chega a "enrolar", como se houvesse uma falha na reprodução da fita K7, num "efeito de som" bastante comum àqueles criados ouvindo este tipo de mídia nos anos de 1980).

Das quatorze faixas de Fresh Fruit For Rotting Vegetables, seis aparecem em versões embrionárias aqui. A mais "surpreendente" delas é "Holiday In Cambodia", onde Jello canta num tom muito mais grave que no disco de estreia, e em um volume muito baixo, como se ainda não tivesse a letra finalizada ou decorada, e estivesse ainda "experimentando" com a mesma e sua melodia (a não ser no refrão, onde sua voz soa alta e potente). A citada "California Über Alles" também traz vocais mais graves do cantor, e sua parte final não é tão acelerada quanto as versões posteriores. Outra que tem sua velocidade bastante reduzida é "Kill The Poor", que também possui um solo de guitarra bem mais simples que o de sua versão posterior. Em "I Kill Children", alguns trechos da letra foram alterados, e falta a controversa frase inicial "God told me to skin you alive" ("Deus me disse para esfolá-lo vivo", em tradução livre), assim como alguns trechos de guitarra foram suprimidos (enquanto outros foram acrescidos) em "Forward To Death", mas as duas soam bem próximas de suas "versões finais" no disco de estreia, assim como "Your Emotions", que, das seis, é a que mais se aproxima de sua versão mais conhecida e apreciada pelos fãs.

O Dead Kennedys ao vivo como quinteto, em imagem presente na capa interna da versão em CD de Iguana Studios Rehearsal Tape - San Francisco 1978

"Man With The Dogs", que seria regravada para ser o "lado B" do primeiro single, também não apresenta muitas diferenças em relação à sua versão posterior, assim como a versão para "Rawhide", que seria regravada posteriormente para o primeiro EP da banda, o também indispensável In God We Trust, Inc., de 1981. Outra faixa deste EP, "Kepone Factory", tem uma espécie de "rascunho" neste registro, na forma de "Kepone Kids", e o pastiche debochado ao reggae (estilo abominado pelos Kennedys, mas que estava em alta à época pelo mundo) na forma de "Dreadlocks Of The Suburbs" já era há tempos conhecido pelo fãs que escutaram o bootleg Live at The Old Waldorf 1979. Sendo assim, as únicas faixas realmente "inéditas" deste ensaio são "Cold Fish", uma espécie de mistura de punk rock com rockabilly, permeada por muitos mini-solos de East Bay Ray, "Kidnap", um veloz hardcore que se encaixaria muito bem no primeiro registro da banda, caso tivesse sobrevivido até lá (e que tem um trecho no meio onde aparece um "hey hey hey" que parece copiado diretamente de um dos primeiros discos dos Ramones) e a estranha, sombria, quebrada, experimental e longa (uma das poucas na carreira da banda a passar dos cinco minutos de duração) "Mutations Of Today", totalmente diferente das demais, mas que, curiosamente, não soa totalmente estranha aquilo que os Kennedys fariam em seus dois últimos registros de estúdio. O citado livro de Alex Ogg ainda afirma haver algumas outras músicas "inéditas", como "B-Flag", "Take Down" "Undercover" e a instrumental "Psychopath", as quais, por motivos que desconheço, acabaram de fora dos pouco menos de trinta e oito minutos que compõem este lançamento.

As versões de Iguana Studios Rehearsal Tape - San Francisco 1978 deixam à mostra várias considerações sobre este Dead Kennedys em quinteto: East Bay Ray ainda não tinha desenvolvido plenamente seu estilo particular de solos de guitarra (onde, segundo li certa vez, cada solo de seu instrumento deveria soar como uma música independente dentro de sua própria música), Klaus e Ted formavam uma bela "cozinha" para o grupo (embora o baixo do primeiro tenha aqui um destaque menor do que aquele registrado no disco de estreia), Jello Biafra ainda não tinha desenvolvido seu característico vocal de "personagem de desenho animado" (cantando, como citado algumas vezes, em tons muito mais graves que posteriormente, e sem a mesma segurança e os característicos tons debochados que adotaria em sua versão posterior), e que 6025, como guitarrista base, infelizmente não acrescentava muito à banda, limitando-se a maior parte do tempo a copiar as mesmas linhas do baixo de Klaus, e aparecendo sem muito destaque na execução da músicas, mesmo durante os solos de East Bay Ray. Um pouco depois destas gravações, ainda segundo o livro de Ogg, ele faria mais um show com a banda (a três de maio de 1979, no Deaf Club de San Francisco, em gravação também disponibilizada em um registro oficial em 2004) e "abandonaria o barco", embora tenha retornado como convidado durante as gravações de Fresh Fruit For Rotting Vegetables (ele aparece como guitarrista base na versão de "Ill in the Head" daquele disco).

Contracapa da Versão em vinil de Iguana Studios Rehearsal Tape - San Francisco 1978

Se você for fã dos Dead Kennedys, Iguana Studios Rehearsal Tape - San Francisco 1978 é altamente recomendável, ainda mais se você for apreciador de Fresh Fruit For Rotting Vegetables (e existe algum fã dos Kennedys que não idolatre este disco?). Se você não conhece a banda, melhor começar por um dos outros registros citados ao longo do texto, deixando a audição destes ensaios para depois de ter feito sua "lição de casa" no que se trata da banda. Para mim, pessoalmente, que escuto várias dessas músicas há mais de trinta anos, é um prazer enorme conhecer "novas versões" para canções tão familiares a mim, e tão importantes para a minha formação musical na adolescência. Longa vida aos Kennedys Mortos!

Track List (versão em vinil):

Lado A:

1. Man With The Dogs

2. Kepone Kids

3. Forward To Death

4. Kill The Poor

5. Your Emotions

6. Dreadlocks Of The Suburbs

7. I Kill Children

Lado B:

1. Cold Fish

2. Holiday In Cambodia

3. Kidnap

4. Mutations Of Today

5. Rawhide

6. California Über Alles

sábado, 11 de junho de 2022

Lockdown - Unholy Ceremony Heretic [2021]

Por Micael Machado

O Black e o Death Metal nunca foram dos meus estilos musicais favoritos. Porém, quando um projeto nestes moldes envolve a participação de João Gordo, vocalista do Ratos de Porão, um dos meus grupos nacionais preferidos, parece óbvio que a curiosidade para conferir o som do grupo acabe surgindo para mim. E não foi sem alguma surpresa que a audição do EP Unholy Ceremony Heretic, do Lockdown, acabou me trazendo vários momentos prazerosos de "bate-cabeça" e "air guitar" devido à sua qualidade.

Anunciado ainda em 2020, o projeto tirou seu nome do "confinamento" involuntário ao qual à população mundial foi submetida devido à epidemia do novo coronavírus. A impossibilidade de fazerem shows e excursionarem com suas próprias bandas e projetos foi a oportunidade que Gordo e Antonio Araújo (guitarrista das bandas Korzus e Matanza Ritual) tiveram de colocar em prática um antigo desejo de fazer um projeto musical juntos. Com a adição do baixista Rafael Yamada (do Claustrofobia e ex-Project 46) - em posto que, a princípio, seria ocupado por Alex Camargo, do Krisiun, que não conseguiu continuar a fazer parte do grupo, por motivos que não consegui averiguar - e do baterista Bruno Santin (do Endrah), foi então possível registar "nos poços do inferno, durante a quarentena do COVID 19", como "explica" o encarte, este trabalho de estreia do quarteto, onde todas as composições (exceto uma) são de Araújo (também produtor da bolacha) e a mixagem e masterização ficaram a cargo de Rodrigo Oliveira (baterista do Korzus) no Dharma Studios, de São Paulo, além de contar com uma excelente arte gráfica criada pelo renomado artista Alcides Burn (Burn Artworks). O EP teve lançamento em CD e vinil com lado único ("single sided") pela união dos selos Neves Records, Melomano Discos e All Music Matters, que estão fazendo um belo trabalho no meio musical nacional, oportunizando diversos produtos no mercado (especialmente em vinil, muitos com versões especiais limitadas) nos últimos tempos.


Os membros do Lockdown: Bruno Santin (bateria), João Gordo (vocais), Antonio Araújo (guitarra) e Rafael Yamada (baixo)

Com sete faixas espalhadas em pouco mais de quinze minutos, o EP não é só "porradaria" e "velocidade acelerada" como muitos outros lançamentos do estilo, os quais, a meu ver, muitas vezes se tornam maçantes e complicados de ouvir por falta de variações. Pois "variações" musicais são algo que aparecem bastante ao longo da audição de Unholy Ceremony Heretic. Ainda que "Archangel" (faixa de abertura - após a "calma" intro "Umbral" - e primeiro single divulgado pelo projeto) comece a toda velocidade, existem alguns momentos mais "lentos" e até as famosas "paradinhas matadoras" ao longo de sua execução. Quase o mesmo ocorre na agressiva "Hymn of Hate" e na própria faixa título (cujo começo acústico pode até enganar aos mais incautos), a qual conta com um curto mas eficiente solo do guitarrista Chris Cannella (à época da gravação, ainda membro do Deicide). Outro convidado especial do EP é o tecladista João Nogueira, do The Claypool Lennon Delirium, que compôs e gravou a curta vinheta "Mordor", climática e cheia de efeitos "especiais" de suas teclas.

"Black Demons Reign", a mais longa do play (embora nem chegue a três minutos e meio) acaba sendo, para mim, o maior destaque do EP, com um andamento mais cadenciado que o das demais faixas, mas, nem por isso, menos efetivo (para o meu gosto, bem ao contrário), enquanto "Desprezo", a única com letras em português (e outra música que não precisa abusar da velocidade para "passar o seu recado") tem um riff interessantíssimo de guitarra, lembrando algumas coisas do começo do Soulfly, e um dos melhores (dentre os poucos) solos de guitarra do disco, além de ser a escolhida para ter o primeiro clipe oficial do projeto. Talvez pelo idioma utilizado, é nesta faixa que Gordo chega mais perto de seu trabalho no Ratos, pois, nas demais, o cantor usa e abusa de sua capacidade vocal, soando mais agressivo do que de costume, além de variar bastante o estilo de sua voz, indo do urro gutural a um estilo mais agudo e rasgado com frequência e facilidade, com uma interpretação que acaba sendo um dos maiores destaques do disco, embora o trabalho da "cozinha" (ainda que o baixo soe meio "apagado" por vezes) e os riffs de Antonio Araújo também sejam merecedores de nota no quesito qualidade.

Contracapa da versão em vinil de Unholy Ceremony Heretic 

Como "apresentação" da banda, Unholy Ceremony Heretic é um excelente "cartão de visitas" do projeto, o qual, espera-se, tenha continuidade daqui para frente, e consiga, em breve, chegar ao seu "debut" completo. Fica a expectativa para o que o quarteto conseguirá criar no futuro, ainda mais agora que há a possibilidade de, finalmente, se reunirem presencialmente e aprimorar ainda mais a convivência e dinâmica entre si, o que só tende a melhorar a performance e as composições da turma. Aguardemos!

Track List:

1. Umbral

2. Archangel

3. Unholy Ceremony Heretic

4. Mordor

5. Hymn of Hate

6. Desprezo

7. Black Demons Reign

domingo, 22 de maio de 2022

Guns N' Roses – Hard Skool EP [2022]


Por Micael Machado

O Guns N' Roses está de volta (err... mais ou menos...). Pela primeira vez desde 2008 (quando saiu o controverso Chinese Democracy), o grupo lança novas músicas (err... mais ou menos, outra vez...) de estúdio, na forma do EP Hard Skool, lançado em fevereiro de 2022. São as primeiras gravações oficiais de estúdio a trazerem Axl Rose (vocais), Slash (guitarras) e Duff McKagan (baixo e backing vocals) juntos desde a versão para "Sympathy For The Devil", dos Rolling Stones, gravada em 1994 para a trilha sonora do filme "Entrevista com o Vampiro".

Tudo começou com o surpreendente anúncio da turnê mundial "Not in This Lifetime Tour" em 2016, a qual passou com estrondoso sucesso por diversos países (Brasil incluído, por duas vezes, em 2016 e 2017), trazendo os três membros originais citados acima ao lado de Dizzy Reed (teclados, pianos, percussão e backing vocals, no grupo desde a turnê dos álbuns ...Illusion, de 1991), Richard Fortus (guitarra base e backing vocals), Frank Ferrer (bateria e  percussão) e Melissa Reese (teclados e sintetizadores). Aos poucos, os rumores do lançamento de um novo álbum de estúdio com esta formação foi surgindo nas redes sociais, depois boatos de novas gravações acontecendo em estúdios aqui e ali. A pandemia mundial do novo corona vírus parecia ter paralisado o andamento dos acontecimentos, mas, em agosto de 2021, uma nova música "inédita" (na realidade, uma versão "retrabalhada" de uma das demos compostas durante os mais de doze anos da saga de gravações e composições para o já citado Chinese Democracy, mas não aproveitada no track list final do disco) apareceu oficialmente na internet, atiçado os fãs do grupo, que, em setembro do mesmo ano, ganharam mais uma "inédita" (outra versão "retrabalhada" para mais uma das demos que sobraram do álbum anterior), também lançada oficialmente na internet pela banda. Agora em 2022, o EP Hard Skool, disponível nas versões em CD (lançado no Brasil pela Universal Music), K7 e compacto de 7" (que a mesma gravadora promete em seu site disponibilizar no país "em breve"), coloca finalmente em meio físico no mercado estas "novas" composições disponíveis para os fãs e colecionadores, onde os dois primeiros formatos trazem as duas canções "inéditas" junto a duas faixas ao vivo gravadas durante a citada "Not in This Lifetime Tour" (em datas e locais não mencionados no encarte), com a bolachinha em vinil apresentando um track list um pouco diferente.

Duff McKagan, Axl Rose e Slash, com novas composições depois de anos afastados

Uma das duas faixas "inéditas" é “Absuяd”, previamente conhecida pelos fãs mais devotados como “Silkworms”, e a primeira a ser divulgada ao mundo lá em agosto. Mesmo com algumas mudanças nas letras e no arranjo (a nova versão tem bem mais partes de guitarras que a original, por exemplo, e o refrão foi totalmente modificado), a faixa ainda transpira a atmosfera e o estilo do álbum Chinese Democracy durante a maior parte de seus três minutos e meio (um curto trecho mais calmo e quase psicodélico perto do final "quebra" um pouco esta impressão, alterando sensivelmente o clima frenético do restante da faixa), com a voz de Axl soando bem mais grave do que em seus "tempos áureos". Mais parecida com a "fase clássica" da banda é a faixa título "Hard Skool" (previamente conhecida como “Jackie Chan”), hard rock "pegado" com uma excelente introdução do baixo de Duff aliada a um riff de guitarra (retrabalhado por Slash) muito empolgante (apesar de uma parte mais "viajante" ali pelo meio destoar um pouco da atmosfera construída nos pouco mais de três minutos e quarenta segundos de sua duração) e a voz de Axl mais próxima do que fomos acostumados ao longo do tempo, transformando esta faixa, na minha opinião, em uma das melhores já lançadas pelo Guns "pós debandada geral", incluam-se aí todo o Chinese Democracy e a decepcionante "Oh My God" (excessivamente eletrônica para o meu gosto), da trilha sonora do filme "End of Days" ("Fim dos Dias", no Brasil).

Como escrito acima, as versões em K7 (ainda inédita no Brasil) e CD (disponibilizado no nosso país em uma edição "cardboard", apenas com um envelope de papelão "segurando" o disco e um encarte muito, muito simples, sem trazer a formação da banda, uma foto sequer, ou mesmo a ficha técnica das faixas - estúdio de gravações, datas das mesmas, produtor, técnico de som, esse tipo de informação pela qual os fãs de verdade se interessam - ou mesmo a correta denominação dos autores das faixas "novas" - creditadas apenas como "escritas pelo Guns N' Roses", quando se sabe que os músicos envolvidos no Chinese Democracy também tiveram partes nas composições das mesmas) trazem versões ao vivo para as clássicas "Don't Cry" (onde a voz de Axl mostra que os "bons tempos" da garganta do frontman estão enterrados em um passado distante, pois a performance do cantor, especialmente na parte final, onde o tom original é bem mais alto do que o registrado aqui, chega perto da chamada "vergonha alheia", apesar da excelente performance geral do restante dos músicos) e "You're Crazy", em um arranjo mais "malemolente" e lento do que aqueles registrados no álbum de estreia (onde a velocidade prevalecia) ou na versão acústica presente em G N' R Lies, mas, ainda assim, bastante interessante, e, desta vez, com a voz de Axl mais "agradável" de se ouvir, embora algumas "pequenas falhas" aqui e ali (destaque também para a performance de Slash ao longo da faixa). Já a versão em compacto de vinil em 7" (ainda a ser lançada no Brasil) promete a versão de estúdio de "Hard Skool" no lado A, e uma versão inédita ao vivo para “Absuяd” no lado B, também registrada durante a "Not in This Lifetime Tour". Ao que li, uma segunda versão de 7" exclusiva para os assinantes do "Nightrain" (o "clube de membros" oficial da banda) trará ainda uma versão ao vivo para "Shadow Of Your Love" no lado B, no lugar de “Absuяd”, mas, como não sou membro do clube, não posso garantir esta informação.


Contracapa da versão em CD do EP Hard Skool

No geral, Hard Skool cumpre bem o papel de "aperitivo" para o álbum oficial que um bom EP deve fazer, despertando a curiosidade para o que virá a seguir caso realmente Axl, Slash, Duff e companhia realmente cheguem a lançar um novo álbum de inéditas após tantos anos separados, embora, por utilizar as bases de músicas já "antigas" (que foram "reaproveitadas" e "retrabalhadas" a partir de versões compostas sem a presença de duas das principais figuras do grupo atual), não chegue a "apontar" com maior clareza o estilo e o caminho que a banda seguirá nesse hipotético e esperado novo registro. Resta aos fãs do Guns N' Roses, mais uma vez, aguardar, coisa que já estamos mais do que acostumados a fazer (afinal, "aguardamos" por anos por Chinese Democracy, por mais tempo ainda por uma reunião do grupo, e muitos ainda aguardam um retorno triunfal de Izzy Stradlin e, em menor número, de Steven Adler... sonhar ainda é de graça, certo?).

Track List:

1. Hard Skool

2. Absuяd

3. Don't Cry (Live)

4. You're Crazy (Live)

domingo, 27 de março de 2022

Ministry – Moral Hygiene [2021]


Por Micael Machado

Al Jourgensen está de volta! Três anos depois de AmeriKKKant, de 2018, o Ministry lançou seu décimo quinto álbum de estúdio, intitulado Moral Hygiene, no primeiro dia de outubro de 2021, sendo este o segundo disco da "gang" de Al lançado pela Nuclear Blast (lá fora, tendo a edição nacional ficado a cargo da Shinigami Records), e um registro que mostra que a banda de Chicago continua firme no posto de mais relevante no mundo do metal industrial, além de ainda ter muita a coisa a dizer em suas letras.

Se, em um passado não tão distante, Al focava suas críticas literárias às falhas e problemas das administrações de George W. Bush e Donald Trump, desta vez o vocalista, guitarrista, produtor e "dono da porra toda" adotou uma posição mais "ampla" para seus textos, tratando de temas como o aquecimento global e a fome no mundo (na faixa "Broken System", de início climático e cadência marcada na condução), a epidemia de COVID-19 (na quase hip hop "Death Toll"), a ascensão do fascismo no mundo (na arrastada "We Shall Resist" e na cadenciada "Good Trouble", que também trata do excesso de violência nas abordagens policiais), o perigo do uso desenfreado de fake news para manipular a população - e as próprias eleições - em "Disinformation" (com um dos melhores riffs de guitarra do álbum, apesar de bastante repetitivo, como é característico da banda há muitos anos), e uma crítica pesada àqueles que ainda insistem em apoiar o ex-presidente Trump, acreditando na sua volta ao poder e causando tensão e apreensão aos Estados Unidos mais de um ano depois de sua derrota nas urnas, na empolgante "Believe Me" (para mim, o grande destaque do track list). Como sempre, Jourgensen possui opiniões bastante fortes a respeito destes assuntos, e não tem medo de assumir um posicionamento crítico e consternado a respeito destes temas, os quais parecem estar todos resumidos no aviso contido na faixa de abertura, "Alert Level" (de ritmo mais dançante do que o esperado para uma faixa da banda): "Let's get ready to die!" ("Vamos nos preparar para morrer", em tradução livre).

Alguns dos músicos que participaram de Moral Hygiene: Paul D’Amour (baixo), Cesar Soto (guitarras), Al Jourgensen (vocais, guitarras), Roy Mayorga (bateria, atrás) e Billy Morrison (guitarras)

Sem a companhia do parceiro e guitarrista Sin Quirin (que gravava com a banda desde Rio Grande Blood, de 2006, mas deixou o grupo no início de 2021 após alegações de ter se envolvido em relacionamentos sexuais com duas menores de idade), Al cercou-se de vários músicos diferentes ao longo das faixas, preferindo não adotar uma formação "fixa" para sua banda neste disco. Sendo assim, nas guitarras temos, além do próprio Jourgensen (que, além das funções descritas acima, ainda cuida de alguns baixos e teclados aqui e ali), os músicos Cesar Soto (ex-Pissing Razors), que só não participa de uma faixa do disco, além de registrar alguns dos baixos nas gravações, e Billy Morrison (membro do Royal Machines e da banda de Billy Idol), que participa de três faixas, sendo que, em uma delas, também tocou teclados e baixo, instrumento que ainda teve registros gravados em uma faixa por Paul D’Amour (ex-membro do Tool) e, em outras duas, pelo ex-membro do Megadeth David Ellefson. O tecladista John Bechdel (ex-membro de bandas como o Killing Joke e o Fear Factory) participa apenas de uma faixa, assim como o baterista Roy Mayorga (do Stone Sour, e ex-membro do Soulfly) - todas as demais faixas do track list tiveram bateria eletrônica programada pelo engenheiro Michael Rozon, que também cuida de alguns teclados. O DJ Arabian Prince (um dos fundadores do N.W.A.) faz scratches em outra faixa, e o eterno ex-vocalista dos Dead Kennedys (e ex-companheiro de Al no Lard) Jello Biafra empresta seus vocais característicos à excelente "Sabotage Is Sex", uma das músicas deste álbum que mais lembram o "antigo" Ministry do início da década de 1990.

Contracapa de Moral Hygiene

Os pouco mais de quarenta e sete minutos de Moral Hygiene ainda contam com a excelente "TV Song #6" (que pouco ou nada tem a ver com outras faixas de nome parecido surgidas na época do álbum ΚΕΦΑΛΗΞΘ, ou Psalm 69, de 1992) e um cover para a clássica "Search And Destroy", dos Stooges, que, aqui, ganhou letras diferentes e um ritmo mais arrastado que a original, a aproximando mais do estilo musical praticado pelo Ministry no decorrer de sua longa carreira. Estilo este onde, como escrevi no início, o grupo de Al e seus comparsas ainda continua como uma das principais (se não for a mais importante) forças no mercado musical atual. Ouça e confira!

Track List:

1. Alert Level

2. Good Trouble

3. Sabotage Is Sex

4. Disinformation

5. Search And Destroy

6. Believe Me

7. Broken System

8. We Shall Resist

9. Death Toll

10. TV Song #6 (Right Around The Corner Mix)

domingo, 5 de dezembro de 2021

The Sisters Of Mercy – BBC Sessions 1982-1984 [2021]


Por Micael Machado

Os arquivos sonoros da rádio britânica BBC parecem ser infindáveis! Centenas (ou milhares) de bandas já se apresentaram ao vivo nos estúdios da emissora ao longo de décadas, e são incontáveis os registros destas apresentações que chegaram ao mercado em lançamentos cobiçados e valorizados pelos fãs de diversos estilos musicais. Um dos mais recentes lançamentos vindo desta fonte quase infinita é BBC Sessions 1982-1984, dos também britânicos The Sisters Of Mercy, lançado inicialmente exclusivamente em vinil (duplo, com o quarto lado sem gravações), para o Record Store Day deste ano, e, logo depois, em formato CD na Europa e, surpreendentemente, no nosso Brasil Varonil, através da gravadora Warner Music Brasil, constituindo-se no primeiro lançamento oficial da banda desde a coletânea Greatest Hits Volume One (A Slight Case Of Overbombing), de 1992, e no primeiro registro "ao vivo" de áudio do catálogo do grupo a ser lançado oficialmente, para alegria e deleite dos góticos remanescentes no país, e dos demais apreciadores da sonoridade das Irmãs da Piedade!

Sisters Of Mercy em 1982: Ben Gunn, Andrew Eldritch, Gary Marx e Craig Adams

Apreciadores estes que, talvez, não fiquem tão felizes assim... primeiro, porque, na época das gravações destes registros (como o próprio título entrega, entre 1982 e 1984, ou seja, antes ainda do primeiro full lenght oficial do grupo, First And Last And Always, lançado apenas em 1985), o Sisters ainda não era o "monstro" pós punk que se tornaria pouco tempo depois (embora faixas como "Alice", "Valentine", "Walk Away" ou "Emma" possam ser consideradas verdadeiras pérolas do estilo), soando menos sombrio do que aquele que conquistaria o mundo a partir do citado LP de estreia, e, em maior escala, após Floodland, de 1987. Em segundo lugar, porque o Sisters of Mercy, formado, à época destas gravações, pelo vocalista Andrew Eldritch, pelo baixista Craig Adams, e pelos guitarristas Gary Marx e Ben Gunn (substituído nas gravações de 1984 por Wayne Hussey), tinha, no palco, algumas "limitações técnicas" por parte do "baterista" Doktor Avalanche (uma bateria eletrônica inicialmente bastante rudimentar, mas que, com o tempo, foi se expandindo e modernizando, chegando anos depois a assumir eventualmente as funções de "tecladista" e "baixista" da turma, além de ser o único "membro" presente em todas as formações, além de Eldritch), ficando impossibilitado de realizar muitas jams ou improvisos, o que faz com que as versões "live" de suas músicas acabem soando bem similares às versões de estúdio das mesmas, ainda mais em registros como estes, feitos sem a presença de público, e onde algumas faixas (como "Burn", "No Time To Cry" ou "Heartland") chegam até mesmo a contar com o recurso de "fade out", prática que eu considero lastimável em qualquer circunstância, mas quase criminosa quando é feita em um registro ao vivo.

Outro fator que pode causar desinteresse é que todas estas sessões já estavam disponíveis aos fãs mais dedicados em diversos bootlegs, tanto em CD quanto em vinil, lançados ao longo dos tempos, com este registro não trazendo nenhuma grande "novidade" para estes devotos seguidores, a não ser uma significativa melhora na qualidade dos áudios destas sessões, que iniciam-se em sete de setembro de 1982, em apresentação registrada para o programa do lendário John Peel, que compreende o lado A da versão em vinil. Aqui, temos as duas faixas do single Alice, do mesmo ano, mais uma cover para "1969", dos Stooges (que apareceria em versão diferente em 1983, em um EP também chamado Alice), além do primeiro registro oficial de "Good Things", uma composição interpretada pela banda desde seus primeiros shows em 1981, mas que nunca havia sido disponibilizada em nenhum dos lançamentos anteriores de sua vasta discografia (contando-se singles, EPs, álbuns e compilações), talvez por ser mais "roqueira" e menos "sombria' que suas colegas da época. Também foi no programa de John Peel, em 13 de julho de 1984, que o grupo, já com Hussey nas seis cordas, registrou a terceira sessão presente neste lançamento (compreendendo o lado C do vinil), a qual traz faixas registradas em estúdio nos singles Walk Away (do mesmo ano) e No Time To Cry (de 1985), além de uma versão para a faixa "Emma", canção que só seria disponibilizada oficialmente no single Dominion, de 1988, quando o Sisters já contava com uma formação bem diferente da que registrou aqui este clássico de sua discografia.

Sisters Of Mercy em 1984: Gary Marx, Andrew Eldritch, Craig Adams e Wayne Hussey

Completando o CD (e ocupando o lado B da versão em vinil), temos uma sessão gravada em seis de março de 1983 para o programa de David 'Kid' Jensen (portanto, ainda com Gunn na guitarra), que traz o lado B do single Temple Of Love (a já citada "Heartland") e duas faixas do EP The Reptile House (sendo ambos os lançamentos de 1983), além de uma curiosa versão para "Jolene", faixa originalmente gravada pela artista de country music Dolly Parton em 1973, e que acabou soando bastante "estranha" aos meus ouvidos, tanto por ter ficado bem diferente da original (e de várias das muitas versões desta música gravadas desde então), quanto por fugir um pouco ao estilo da sonoridade do Sisters à época...

Apesar das ressalvas feitas ao longo do texto, para os fãs da banda que nunca tiveram a oportunidade de ter ou ouvir um dos citados bootlegs presentes no mercado com estas versões, este lançamento é extremamente recomendado, sendo muito importante louvarmos a iniciativa da gravadora de lançar em nosso país uma versão nacional do mesmo, em uma época em que poucos registros novos acabam chegando ao mercado, e ainda por cima a um preço dentro do praticado atualmente, e não em valores exorbitantes como ocorreu com lançamentos ao vivo de algumas bandas maiores recentemente (alguém aqui falou em S&M 2 do Metallica? Eu não...). Portanto, se você curte esta sonoridade "gótica", e já é devoto das irmãs, tire o sobretudo do armário, ajeite sua maquiagem e curta os pouco menos de cinquenta minutos propiciados por este belo registro de Andrew Eldritch e sua turma quase quarenta anos atrás. Que este lançamento sirva para motivar o eterno líder do Sisters a disponibilizar oficialmente outros registros ao vivo de sua banda, especialmente aqueles que contenham algumas das várias músicas inéditas que a banda vem apresentando ao longo dos anos, e que nunca foram lançadas com boa qualidade sonora aos sedentos fãs das irmãs, que ainda tem de se contentar com versões registradas de forma amadora por outros fãs, e que estão disponíveis apenas nas diversas plataformas digitais existentes por aí. Ficamos todos aguardando!

Contracapa de BBC Sessions 1982-1984

Track List (versão em CD):

John Peel Session 1982

1. 1969

2. Alice

3. Good Things

4. Floorshow


David 'Kid' Jensen Session 1983

5. Heartland

6. Jolene

7. Valentine

8. Burn


John Peel Session 1984

9. Walk Away

10. Poison Door

11. No Time To Cry

12. Emma