domingo, 22 de maio de 2022

Guns N' Roses – Hard Skool EP [2022]


Por Micael Machado

O Guns N' Roses está de volta (err... mais ou menos...). Pela primeira vez desde 2008 (quando saiu o controverso Chinese Democracy), o grupo lança novas músicas (err... mais ou menos, outra vez...) de estúdio, na forma do EP Hard Skool, lançado em fevereiro de 2022. São as primeiras gravações oficiais de estúdio a trazerem Axl Rose (vocais), Slash (guitarras) e Duff McKagan (baixo e backing vocals) juntos desde a versão para "Sympathy For The Devil", dos Rolling Stones, gravada em 1994 para a trilha sonora do filme "Entrevista com o Vampiro".

Tudo começou com o surpreendente anúncio da turnê mundial "Not in This Lifetime Tour" em 2016, a qual passou com estrondoso sucesso por diversos países (Brasil incluído, por duas vezes, em 2016 e 2017), trazendo os três membros originais citados acima ao lado de Dizzy Reed (teclados, pianos, percussão e backing vocals, no grupo desde a turnê dos álbuns ...Illusion, de 1991), Richard Fortus (guitarra base e backing vocals), Frank Ferrer (bateria e  percussão) e Melissa Reese (teclados e sintetizadores). Aos poucos, os rumores do lançamento de um novo álbum de estúdio com esta formação foi surgindo nas redes sociais, depois boatos de novas gravações acontecendo em estúdios aqui e ali. A pandemia mundial do novo corona vírus parecia ter paralisado o andamento dos acontecimentos, mas, em agosto de 2021, uma nova música "inédita" (na realidade, uma versão "retrabalhada" de uma das demos compostas durante os mais de doze anos da saga de gravações e composições para o já citado Chinese Democracy, mas não aproveitada no track list final do disco) apareceu oficialmente na internet, atiçado os fãs do grupo, que, em setembro do mesmo ano, ganharam mais uma "inédita" (outra versão "retrabalhada" para mais uma das demos que sobraram do álbum anterior), também lançada oficialmente na internet pela banda. Agora em 2022, o EP Hard Skool, disponível nas versões em CD (lançado no Brasil pela Universal Music), K7 e compacto de 7" (que a mesma gravadora promete em seu site disponibilizar no país "em breve"), coloca finalmente em meio físico no mercado estas "novas" composições disponíveis para os fãs e colecionadores, onde os dois primeiros formatos trazem as duas canções "inéditas" junto a duas faixas ao vivo gravadas durante a citada "Not in This Lifetime Tour" (em datas e locais não mencionados no encarte), com a bolachinha em vinil apresentando um track list um pouco diferente.

Duff McKagan, Axl Rose e Slash, com novas composições depois de anos afastados

Uma das duas faixas "inéditas" é Absuяd”, previamente conhecida pelos fãs mais devotados como “Silkworms”, e a primeira a ser divulgada ao mundo lá em agosto. Mesmo com algumas mudanças nas letras e no arranjo (a nova versão tem bem mais partes de guitarras que a original, por exemplo, e o refrão foi totalmente modificado), a faixa ainda transpira a atmosfera e o estilo do álbum Chinese Democracy durante a maior parte de seus três minutos e meio (um curto trecho mais calmo e quase psicodélico perto do final "quebra" um pouco esta impressão, alterando sensivelmente o clima frenético do restante da faixa), com a voz de Axl soando bem mais grave do que em seus "tempos áureos". Mais parecida com a "fase clássica" da banda é a faixa título "Hard Skool" (previamente conhecida como “Jackie Chan”), hard rock "pegado" com uma excelente introdução do baixo de Duff aliada a um riff de guitarra (retrabalhado por Slash) muito empolgante (apesar de uma parte mais "viajante" ali pelo meio destoar um pouco da atmosfera construída nos pouco mais de três minutos e quarenta segundos de sua duração) e a voz de Axl mais próxima do que fomos acostumados ao longo do tempo, transformando esta faixa, na minha opinião, em uma das melhores já lançadas pelo Guns "pós debandada geral", incluam-se aí todo o Chinese Democracy e a decepcionante "Oh My God" (excessivamente eletrônica para o meu gosto), da trilha sonora do filme "End of Days" ("Fim dos Dias", no Brasil).

Como escrito acima, as versões em K7 (ainda inédita no Brasil) e CD (disponibilizado no nosso país em uma edição "cardboard", apenas com um envelope de papelão "segurando" o disco e um encarte muito, muito simples, sem trazer a formação da banda, uma foto sequer, ou mesmo a ficha técnica das faixas - estúdio de gravações, datas das mesmas, produtor, técnico de som, esse tipo de informação pela qual os fãs de verdade se interessam - ou mesmo a correta denominação dos autores das faixas "novas" - creditadas apenas como "escritas pelo Guns N' Roses", quando se sabe que os músicos envolvidos no Chinese Democracy também tiveram partes nas composições das mesmas) trazem versões ao vivo para as clássicas "Don't Cry" (onde a voz de Axl mostra que os "bons tempos" da garganta do frontman estão enterrados em um passado distante, pois a performance do cantor, especialmente na parte final, onde o tom original é bem mais alto do que o registrado aqui, chega perto da chamada "vergonha alheia", apesar da excelente performance geral do restante dos músicos) e "You're Crazy", em um arranjo mais "malemolente" e lento do que aqueles registrados no álbum de estreia (onde a velocidade prevalecia) ou na versão acústica presente em G N' R Lies, mas, ainda assim, bastante interessante, e, desta vez, com a voz de Axl mais "agradável" de se ouvir, embora algumas "pequenas falhas" aqui e ali (destaque também para a performance de Slash ao longo da faixa). Já a versão em compacto de vinil em 7" (ainda a ser lançada no Brasil) promete a versão de estúdio de "Hard Skool" no lado A, e uma versão inédita ao vivo para “Absuяd” no lado B, também registrada durante a "Not in This Lifetime Tour". Ao que li, uma segunda versão de 7" exclusiva para os assinantes do "Nightrain" (o "clube de membros" oficial da banda) trará ainda uma versão ao vivo para "Shadow Of Your Love" no lado B, no lugar de “Absuяd”, mas, como não sou membro do clube, não posso garantir esta informação.


Contracapa da versão em CD do EP Hard Skool

No geral, Hard Skool cumpre bem o papel de "aperitivo" para o álbum oficial que um bom EP deve fazer, despertando a curiosidade para o que virá a seguir caso realmente Axl, Slash, Duff e companhia realmente cheguem a lançar um novo álbum de inéditas após tantos anos separados, embora, por utilizar as bases de músicas já "antigas" (que foram "reaproveitadas" e "retrabalhadas" a partir de versões compostas sem a presença de duas das principais figuras do grupo atual), não chegue a "apontar" com maior clareza o estilo e o caminho que a banda seguirá nesse hipotético e esperado novo registro. Resta aos fãs do Guns N' Roses, mais uma vez, aguardar, coisa que já estamos mais do que acostumados a fazer (afinal, "aguardamos" por anos por Chinese Democracy, por mais tempo ainda por uma reunião do grupo, e muitos ainda aguardam um retorno triunfal de Izzy Stradlin e, em menor número, de Steven Adler... sonhar ainda é de graça, certo?).

Track List:

1. Hard Skool

2. Absuяd

3. Don't Cry (Live)

4. You're Crazy (Live)

domingo, 27 de março de 2022

Ministry – Moral Hygiene [2021]


Por Micael Machado

Al Jourgensen está de volta! Três anos depois de AmeriKKKant, de 2018, o Ministry lançou seu décimo quinto álbum de estúdio, intitulado Moral Hygiene, no primeiro dia de outubro de 2021, sendo este o segundo disco da "gang" de Al lançado pela Nuclear Blast (lá fora, tendo a edição nacional ficado a cargo da Shinigami Records), e um registro que mostra que a banda de Chicago continua firme no posto de mais relevante no mundo do metal industrial, além de ainda ter muita a coisa a dizer em suas letras.

Se, em um passado não tão distante, Al focava suas críticas literárias às falhas e problemas das administrações de George W. Bush e Donald Trump, desta vez o vocalista, guitarrista, produtor e "dono da porra toda" adotou uma posição mais "ampla" para seus textos, tratando de temas como o aquecimento global e a fome no mundo (na faixa "Broken System", de início climático e cadência marcada na condução), a epidemia de COVID-19 (na quase hip hop "Death Toll"), a ascensão do fascismo no mundo (na arrastada "We Shall Resist" e na cadenciada "Good Trouble", que também trata do excesso de violência nas abordagens policiais), o perigo do uso desenfreado de fake news para manipular a população - e as próprias eleições - em "Disinformation" (com um dos melhores riffs de guitarra do álbum, apesar de bastante repetitivo, como é característico da banda há muitos anos), e uma crítica pesada àqueles que ainda insistem em apoiar o ex-presidente Trump, acreditando na sua volta ao poder e causando tensão e apreensão aos Estados Unidos mais de um ano depois de sua derrota nas urnas, na empolgante "Believe Me" (para mim, o grande destaque do track list). Como sempre, Jourgensen possui opiniões bastante fortes a respeito destes assuntos, e não tem medo de assumir um posicionamento crítico e consternado a respeito destes temas, os quais parecem estar todos resumidos no aviso contido na faixa de abertura, "Alert Level" (de ritmo mais dançante do que o esperado para uma faixa da banda): "Let's get ready to die!" ("Vamos nos preparar para morrer", em tradução livre).

Alguns dos músicos que participaram de Moral Hygiene: Paul D’Amour (baixo), Cesar Soto (guitarras), Al Jourgensen (vocais, guitarras), Roy Mayorga (bateria, atrás) e Billy Morrison (guitarras)

Sem a companhia do parceiro e guitarrista Sin Quirin (que gravava com a banda desde Rio Grande Blood, de 2006, mas deixou o grupo no início de 2021 após alegações de ter se envolvido em relacionamentos sexuais com duas menores de idade), Al cercou-se de vários músicos diferentes ao longo das faixas, preferindo não adotar uma formação "fixa" para sua banda neste disco. Sendo assim, nas guitarras temos, além do próprio Jourgensen (que, além das funções descritas acima, ainda cuida de alguns baixos e teclados aqui e ali), os músicos Cesar Soto (ex-Pissing Razors), que só não participa de uma faixa do disco, além de registrar alguns dos baixos nas gravações, e Billy Morrison (membro do Royal Machines e da banda de Billy Idol), que participa de três faixas, sendo que, em uma delas, também tocou teclados e baixo, instrumento que ainda teve registros gravados em uma faixa por Paul D’Amour (ex-membro do Tool) e, em outras duas, pelo ex-membro do Megadeth David Ellefson. O tecladista John Bechdel (ex-membro de bandas como o Killing Joke e o Fear Factory) participa apenas de uma faixa, assim como o baterista Roy Mayorga (do Stone Sour, e ex-membro do Soulfly) - todas as demais faixas do track list tiveram bateria eletrônica programada pelo engenheiro Michael Rozon, que também cuida de alguns teclados. O DJ Arabian Prince (um dos fundadores do N.W.A.) faz scratches em outra faixa, e o eterno ex-vocalista dos Dead Kennedys (e ex-companheiro de Al no Lard) Jello Biafra empresta seus vocais característicos à excelente "Sabotage Is Sex", uma das músicas deste álbum que mais lembram o "antigo" Ministry do início da década de 1990.

Contracapa de Moral Hygiene

Os pouco mais de quarenta e sete minutos de Moral Hygiene ainda contam com a excelente "TV Song #6" (que pouco ou nada tem a ver com outras faixas de nome parecido surgidas na época do álbum ΚΕΦΑΛΗΞΘ, ou Psalm 69, de 1992) e um cover para a clássica "Search And Destroy", dos Stooges, que, aqui, ganhou letras diferentes e um ritmo mais arrastado que a original, a aproximando mais do estilo musical praticado pelo Ministry no decorrer de sua longa carreira. Estilo este onde, como escrevi no início, o grupo de Al e seus comparsas ainda continua como uma das principais (se não for a mais importante) forças no mercado musical atual. Ouça e confira!

Track List:

1. Alert Level

2. Good Trouble

3. Sabotage Is Sex

4. Disinformation

5. Search And Destroy

6. Believe Me

7. Broken System

8. We Shall Resist

9. Death Toll

10. TV Song #6 (Right Around The Corner Mix)

domingo, 5 de dezembro de 2021

The Sisters Of Mercy – BBC Sessions 1982-1984 [2021]


Por Micael Machado

Os arquivos sonoros da rádio britânica BBC parecem ser infindáveis! Centenas (ou milhares) de bandas já se apresentaram ao vivo nos estúdios da emissora ao longo de décadas, e são incontáveis os registros destas apresentações que chegaram ao mercado em lançamentos cobiçados e valorizados pelos fãs de diversos estilos musicais. Um dos mais recentes lançamentos vindo desta fonte quase infinita é BBC Sessions 1982-1984, dos também britânicos The Sisters Of Mercy, lançado inicialmente exclusivamente em vinil (duplo, com o quarto lado sem gravações), para o Record Store Day deste ano, e, logo depois, em formato CD na Europa e, surpreendentemente, no nosso Brasil Varonil, através da gravadora Warner Music Brasil, constituindo-se no primeiro lançamento oficial da banda desde a coletânea Greatest Hits Volume One (A Slight Case Of Overbombing), de 1992, e no primeiro registro "ao vivo" de áudio do catálogo do grupo a ser lançado oficialmente, para alegria e deleite dos góticos remanescentes no país, e dos demais apreciadores da sonoridade das Irmãs da Piedade!

Sisters Of Mercy em 1982: Ben Gunn, Andrew Eldritch, Gary Marx e Craig Adams

Apreciadores estes que, talvez, não fiquem tão felizes assim... primeiro, porque, na época das gravações destes registros (como o próprio título entrega, entre 1982 e 1984, ou seja, antes ainda do primeiro full lenght oficial do grupo, First And Last And Alwayslançado apenas em 1985), o Sisters ainda não era o "monstro" pós punk que se tornaria pouco tempo depois (embora faixas como "Alice", "Valentine", "Walk Away" ou "Emma" possam ser consideradas verdadeiras pérolas do estilo), soando menos sombrio do que aquele que conquistaria o mundo a partir do citado LP de estreia, e, em maior escala, após Floodland, de 1987. Em segundo lugar, porque o Sisters of Mercy, formado, à época destas gravações, pelo vocalista Andrew Eldritch, pelo baixista Craig Adams, e pelos guitarristas Gary Marx e Ben Gunn (substituído nas gravações de 1984 por Wayne Hussey), tinha, no palco, algumas "limitações técnicas" por parte do "baterista" Doktor Avalanche (uma bateria eletrônica inicialmente bastante rudimentar, mas que, com o tempo, foi se expandindo e modernizando, chegando anos depois a assumir eventualmente as funções de "tecladista" e "baixista" da turma, além de ser o único "membro" presente em todas as formações, além de Eldritch), ficando impossibilitado de realizar muitas jams ou improvisos, o que faz com que as versões "live" de suas músicas acabem soando bem similares às versões de estúdio das mesmas, ainda mais em registros como estes, feitos sem a presença de público, e onde algumas faixas (como "Burn", "No Time To Cry" ou "Heartland") chegam até mesmo a contar com o recurso de "fade out", prática que eu considero lastimável em qualquer circunstância, mas quase criminosa quando é feita em um registro ao vivo.

Outro fator que pode causar desinteresse é que todas estas sessões já estavam disponíveis aos fãs mais dedicados em diversos bootlegs, tanto em CD quanto em vinil, lançados ao longo dos tempos, com este registro não trazendo nenhuma grande "novidade" para estes devotos seguidores, a não ser uma significativa melhora na qualidade dos áudios destas sessões, que iniciam-se em sete de setembro de 1982, em apresentação registrada para o programa do lendário John Peel, que compreende o lado A da versão em vinil. Aqui, temos as duas faixas do single Alice, do mesmo ano, mais uma cover para "1969", dos Stooges (que apareceria em versão diferente em 1983, em um EP também chamado Alice), além do primeiro registro oficial de "Good Things", uma composição interpretada pela banda desde seus primeiros shows em 1981, mas que nunca havia sido disponibilizada em nenhum dos lançamentos anteriores de sua vasta discografia (contando-se singles, EPs, álbuns e compilações), talvez por ser mais "roqueira" e menos "sombria' que suas colegas da época. Também foi no programa de John Peel, em 13 de julho de 1984, que o grupo, já com Hussey nas seis cordas, registrou a terceira sessão presente neste lançamento (compreendendo o lado C do vinil), a qual traz faixas registradas em estúdio nos singles Walk Away (do mesmo ano) e No Time To Cry (de 1985), além de uma versão para a faixa "Emma", canção que só seria disponibilizada oficialmente no single Dominion, de 1988, quando o Sisters já contava com uma formação bem diferente da que registrou aqui este clássico de sua discografia.

Sisters Of Mercy em 1984: Gary Marx, Andrew Eldritch, Craig Adams e Wayne Hussey

Completando o CD (e ocupando o lado B da versão em vinil), temos uma sessão gravada em seis de março de 1983 para o programa de David 'Kid' Jensen (portanto, ainda com Gunn na guitarra), que traz o lado B do single Temple Of Love (a já citada "Heartland") e duas faixas do EP The Reptile House (sendo ambos os lançamentos de 1983), além de uma curiosa versão para "Jolene", faixa originalmente gravada pela artista de country music Dolly Parton em 1973, e que acabou soando bastante "estranha" aos meus ouvidos, tanto por ter ficado bem diferente da original (e de várias das muitas versões desta música gravadas desde então), quanto por fugir um pouco ao estilo da sonoridade do Sisters à época...

Apesar das ressalvas feitas ao longo do texto, para os fãs da banda que nunca tiveram a oportunidade de ter ou ouvir um dos citados bootlegs presentes no mercado com estas versões, este lançamento é extremamente recomendado, sendo muito importante louvarmos a iniciativa da gravadora de lançar em nosso país uma versão nacional do mesmo, em uma época em que poucos registros novos acabam chegando ao mercado, e ainda por cima a um preço dentro do praticado atualmente, e não em valores exorbitantes como ocorreu com lançamentos ao vivo de algumas bandas maiores recentemente (alguém aqui falou em S&M 2 do Metallica? Eu não...). Portanto, se você curte esta sonoridade "gótica", e já é devoto das irmãs, tire o sobretudo do armário, ajeite sua maquiagem e curta os pouco menos de cinquenta minutos propiciados por este belo registro de Andrew Eldritch e sua turma quase quarenta anos atrás. Que este lançamento sirva para motivar o eterno líder do Sisters a disponibilizar oficialmente outros registros ao vivo de sua banda, especialmente aqueles que contenham algumas das várias músicas inéditas que a banda vem apresentando ao longo dos anos, e que nunca foram lançadas com boa qualidade sonora aos sedentos fãs das irmãs, que ainda tem de se contentar com versões registradas de forma amadora por outros fãs, e que estão disponíveis apenas nas diversas plataformas digitais existentes por aí. Ficamos todos aguardando!

Contracapa de BBC Sessions 1982-1984

Track List (versão em CD):

John Peel Session 1982

1. 1969

2. Alice

3. Good Things

4. Floorshow


David 'Kid' Jensen Session 1983

5. Heartland

6. Jolene

7. Valentine

8. Burn


John Peel Session 1984

9. Walk Away

10. Poison Door

11. No Time To Cry

12. Emma

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

The Jimi Hendrix Experience - Miami Pop Festival [2013]

 


Por Micael Machado

Quando se pensa nos principais registros de Jimi Hendrix ao vivo, os mais lembrados certamente são os de sua apresentação no Monterey Pop Festival (onde ele, ritualisticamente, queimou sua guitarra e entrou definitivamente para a história), o show do Festival de Woodstock (e sua imortal versão para "The Star-Spangled Banner", o hino nacional norte-americano), e as quatro apresentações no Fillmore East na virada de ano de 1969 para 1970, que foram compiladas no LP Band of Gypsys (além de diversos outros lançamentos saídos da mesma fonte). Um registro que certamente mereceria estar entre estes é o da apresentação da Jimi Hendrix Experience no Miami Pop Festival. Ocorrido entre 18 e 19 de maio de 1968 em uma pista para corrida de cavalos chamada Gulfstream Park, na cidade de Hallandale, na Florida, o festival contou com nomes como The Mothers of Invention, Steppenwolf, The Crazy World of Arthur Brown e Blue Cheer, além dos legendários Chuck Berry e John Lee Hooker, com a Experience (que havia lançado seu segundo registo, Axis: Bold as Love, meses antes) tocando duas vezes no sábado, em uma apresentação à tarde e outra à noite, sendo esta apresentada na íntegra no disco lançado (em CD e vinil duplo) pela família do guitarrista em 2013.

Focando seu repertório nas faixas do disco de estreia (Are You Experienced?, de 1967), o trio composto, além de Hendrix (vocais, guitarra), por Noel Redding (baixo e backing vocals) e Mitch Mitchell na bateria, estava em uma noite inspirada, e, tanto em repertório quanto na qualidade das performances, o show pode ser categorizado, a meu ver, como uma das melhores apresentações do grupo já lançadas oficialmente. Em pouco menos de uma hora de concerto, a banda passa por clássicos como "Hey Joe", "Foxey Lady" e "Fire", além de registros mais "obscuros" como "Tax Free" (cujo registro oficial de estúdio, gravado no começo daquele mesmo mês de maio, só apareceria oficialmente anos depois no "disco de sobras" War Heroes, de 1972), e duas de minhas faixas favoritas da discografia do guitarrista, "I Don't Live Today" (que, sozinha, serve para mostrar que Mitchell é tão genial na bateria quanto Hendrix é na guitarra) e "Hear My Train A Comin'" (cuja primeira versão elétrica "oficial" só apareceria em 1975, no controverso lançamento Midnight Lightning). Até mesmo o improviso instrumental do trio que serve como introdução ao show já bastaria para demonstrar o imenso talento e musicalidade do trio sobre um palco, sendo tanto imperdível quanto curto demais!

Jimi Hendrix no palco do Miami Pop Festival 

Encerrando a noite, temos uma longa versão para "Red House" (com um extenso e maravilhoso solo de Hendrix), com tudo culminando em uma versão repleta de improvisos para "Purple Haze", em uma apresentação  que, certamente, agradou aqueles que, à época, já estivessem ligados no músico mais cool do momento nos Estados Unidos, com este disco sendo, definitivamente, um item obrigatório àqueles que, ainda hoje, apreciam a obra do maior guitarrista que já passou pelo planeta.

O álbum ainda conta com duas faixas bônus retiradas da performance vespertina, uma excitante "Fire" e uma versão estendida e com diversos improvisos para "Foxey Lady", servindo para nos deixar com "água na boca" para ouvirmos o registro completo daquele show, infelizmente, ainda inédito em formato físico (estas duas faixas também foram lançadas em um single de 45rpm de forma limitada no Record Store Day de 2013, além de uma filmagem oficial de "Foxey Lady" ter sido lançada oficialmente pela família naquele mesmo ano), e também traz um belíssimo encarte repleto de fotos inéditas e um interessante texto relatando algumas histórias sobre a concepção do festival e a participação da Experience no mesmo (além de revelar que deveriam ter acontecido outros dois shows do trio no domingo, no segundo dia do  festival, mas uma tempestade de verão acabou cancelando várias apresentações, dentre elas a de Jimi, que, no caminho de volta ao hotel, no banco de trás de uma limusine, compôs a letra do que viria a ser "Rainy Day, Dream Away", faixa presente no disco Electric Ladyland, também de 1968). Como já coloquei, o álbum Miami Pop Festival traz uma das melhores performances que já ouvi de Hendrix ao vivo, e é, a meu ver, extremamente recomendado aos fãs daquele que, ainda hoje, é reverenciado como um dos maiores mestres da guitarra elétrica a passar pelo planeta. Se você também faz parte do culto a Jimi e ainda não conhece este registro, é seu dever ouvir este disco e corrigir esta falha. Faça-o, imediatamente!

Contracapa de Miami Pop Festival 


Track List:

1. Introduction

2. Hey Joe

3. Foxey Lady

4. Tax Free

5. Fire

6. Hear My Train A Comin'

7. I Don't Live Today

8. Red House

9. Purple Haze

Bonus Performances:

10. Fire [Afternoon Show]

11. Foxey Lady [Afternoon Show]

Neil Young - The Times [2020]


Por Micael Machado

"Os tempos estão mudando"! Esta frase, uma tradução livre do título de uma das mais conhecidas canções de Bob Dylan, poucas vezes foi tão adequada ao momento da raça humana quanto a tudo o que ocorreu no ano de 2020, com a ameaça da COVID-19 e todas as restrições que o coronavirus impôs a todos nós (e, em alguns casos, especialmente em certos países sul-americanos liderados por negacionistas da pandemia, continua impondo). Uma das classes trabalhadoras mais afetadas foi a dos músicos, que, impossibilitados, de uma hora para outra, de excursionar e fazer shows, se viram obrigados a partir para soluções alternativas para continuar em relevância, ou mesmo, em alguns casos, conseguir pagar as contas. Muitos preferiram resgatar antigas apresentações (inéditas ou não) e transmiti-las em seus canais oficiais para seu sedento (e confinado em casa) público ao redor do mundo, enquanto outros partiram para a transmissão de "lives" pelas redes sociais, fossem elas realmente "ao vivo" ou apresentações especiais pré-gravadas.

Um dos artistas que adotou esta alternativa foi o bardo canadense Neil Young, que transmitiu através de seu site, ao longo daquele ano, uma série de vídeos chamados "The Fireside Sessions" ("Sessões ao Lado do Fogo", em tradução livre), onde o músico, isolado em seu rancho no Colorado, acompanhado apenas por sua nova esposa, a atriz Daryl Hannah (responsável pela captação tanto do áudio quanto das imagens em seu iPad), e tendo por audiência um gato, alguns cachorros e outro tanto de aves completamente desinteressadas, como galinhas e gansos, interpretava algumas de suas muitas composições no esquema "voz e violão" (e, ocasionalmente, harmônica - ou gaita de boca, como também é conhecida), algo comum à trajetória de Young desde antes de se lançar como artista solo, ainda na década de 1960. Uma destas sessões, realizada no início de julho de 2020, teve seu lançamento oficial em setembro daquele ano no formato do EP The Times, primeiro apenas através de streaming no site de Neil e pelo serviço Amazon Music HD, mas depois também nos formatos CD e LP, pela gravadora de longa data de Young, a Reprise Records.

O bardo canadense Neil Young, na varanda de seu rancho no Colorado

Pode-se dizer que os pouco menos de vinte e sete minutos de The Times o tornam no lançamento mais "político" de Young desde Living With War, de 2006, cujas letras e o conceito traziam duras críticas à administração de George W. Bush. Foi daquele álbum que Neil resgatou "Lookin' for a Leader", que teve título (virou "Lookin' for a Leader 2020") e letra atualizados para se tornar uma pesada crítica à administração de Donald Trump (em versos como "América tem um líder / Construindo muros ao redor de nossas casas / Ele não sabe que vidas negras importam / E nós temos que votá-lo para fora") e em apoio à candidatura de Joe Biden ("Sim, tivemos Barack Obama / E nós realmente precisamos dele agora /O homem que estava atrás dele / Tem que tomar seu lugar de algum jeito", lembrando que Biden era vice-presidente durante a administração Obama), que viria, felizmente, a vencer as eleições daquele ano nos EUA. A temática política também está presente nas letras de clássicos como "Alabama" e "Southern Man" (ambas com pesadas críticas ao modo de vida e mentalidade cultural no sul dos EUA, com fortes tendências de segregação racial e absolutismo religioso tanto nos anos 1970, quando foram escritas, quanto hoje em dia) ou "Ohio", o protesto do bardo ao massacre da Universidade de Kent State em 1970, e "Campaigner", onde o músico cita o ex-presidente norte-americano Richard Nixon, dizendo que "mesmo ele tinha uma alma", e que aqui aparece em uma rara interpretação ao vivo.

Fechando o track list do EP, há uma versão para a canção citada no início deste texto (para quem não "captou", a música é "The Times They Are A-Changin’", lançada por Dylan em 1964 - e uma composição com os versos "Venham senadores e congressistas / Por favor, atendam ao chamado / Não fiquem parados na porta / Não bloqueiem o corredor / Há uma batalha furiosa lá fora" certamente se adapta ao conceito deste lançamento) e uma raríssima rendição ao vivo para "Little Wing", faixa lançada originalmente em 1980 (no álbum Hawks & Doves) e, a princípio, a única a fugir da temática deste disco. Mas, quando se pensa que a mesma, segundo algumas interpretações, é um simbolismo para o ressurgimento da vida na natureza após a passagem do inverno (citado na letra como "a melhor das estações"), a faixa, que encerra o EP, acaba soando como uma esperança de novos tempos, longe da obscuridade e das trevas culturais trazidas aos EUA com a administração Trump, a qual, por mais malévola e destrutiva que tenha sido, infelizmente ainda influencia governos em outras partes do mundo, especialmente, como citado antes, em certos países sul-americanos liderados por negacionistas da pandemia. Tenhamos todos, enfim, esperança de tempos melhores, afinal, "The Times, They Are A-Changin’".


Contracapa de The Times

Track List:

1. "Alabama"

2. "Campaigner"

3. "Ohio"

4. "The Times They Are A-Changin’"

5. "Lookin’ for a Leader 2020"

6. "Southern Man"

7. "Little Wing"

sábado, 8 de maio de 2021

Renaissance – The Other Woman [1994]


Por Micael Machado

Em 1987, após dois discos mais voltados para a música pop (Camera Camera, de 1981 e Time Line, de 1983, verdadeiros "fiascos" aos ouvidos dos antigos fãs e também em termos comerciais) e de um período de relativa inatividade após a saída do baixista Jon Camp, em 1984, a parceria musical entre a vocalista Annie Haslam e o violonista e compositor Michael Dunford chegava ao final, acabando assim com a trajetória gloriosa do grupo britânico Renaissance, com a última apresentação da turma ocorrendo em 6 de junho de 1987 em New Jersey, nos Estados Unidos. Annie investiu em sua carreira solo (iniciada ainda em 1977, mas cujo segundo disco sairia apenas em 1989), e Dunford dedicou-se a elaborar um musical baseado na suíte "Song of Scheherazade", lançada por sua então ex-banda no álbum Scheherazade and Other Stories, de 1975. Durante workshops para selecionar o elenco de seu novo empreendimento, o músico conheceu a cantora americana Stephanie Adlington, cujo talento fez Michael desistir da ideia do musical e montar uma banda para gravar algumas de suas novas composições instrumentais, chamando para compor a parte lírica a antiga parceira Betty Thatcher Newsinger, letrista da maioria das composições do Renaissance desde a primeira encarnação do grupo, em 1969. Com Phil Mulford no baixo, Dave Dowle na bateria, Stuart Bradbury nas guitarras e Andy Spillar nos teclados e programações, gravaram então um álbum com o sugestivo título de The Other Woman em 1994, disco responsável por trazer o Renaissance de volta à vida!

Com uma sonoridade ainda mais contestada pelos fãs do que os dois equivocados "últimos" registros da banda, as canções de The Other Woman podem, de forma simplificada, serem divididas em dois grupos, sendo o primeiro deles o das músicas com tendências mais "pop" e "dançantes", recheadas de efeitos de teclados e alguns sons de bateria que já soavam datados antes mesmo de serem gravados. Dentre esta turma, o maior destaque vai para a faixa de abertura, "Deja Vu" (composição "balançada" que talvez tivesse chance de emplacar na onda "disco" do final da década de ouro do grupo, mas soava totalmente deslocada em uma época que via o declínio do grunge e a consagração do rock alternativo e do rap no meio musical), e para a longa "Somewhere West Of Here", única do disco a ultrapassar os seis minutos, com trechos de teclados e violões que chegam a lembrar, bem de longe, algo do trabalho da banda na década de 1970. "Quicksilver" conta com a participação do guitarrista convidado Rory Wilson (ex-integrante do Broken Home, grupo britânico totalmente desconhecido para mim), e "Don't Talk" é capaz de causar crises em quem sofrer de diabetes, com o alto nível de "açúcar" e "sacarose" de seu arranjo.

Detalhe do encarte de The Other Woman, com total destaque para a cantora Stephanie Adlington

O segundo grupo é o das baladas com maior ou menor intensidade de emoções. Nesta área, Dunford se sai bem melhor, pois a bela voz de Adlington (bastante agradável, preciso reconhecer, mas longe do alcance fantástico de sua antecessora) aparece com mais destaque, e as faixas não soam tão deslocadas no tempo quanto suas colegas de track list. "Lock In On Love" tem um belo e emocionante arranjo, enquanto a curtinha "May You Be Blessed" (cuja duração nem chega a dois minutos) é levada por camas de teclados e alguns trechos esparsos de piano que a tornam realmente bela. Levada ao violão, "So Blasé" possui elementos que a tornam mais "comum" dentro de seu estilo de composição, enquanto a faixa título trata dos problemas pessoais que Thatcher estava enfrentado naquele momento, com o final de um relacionamento (tema que também aparece, com menos ênfase,  em outras faixas do álbum). O disco ainda conta com uma versão para "Love Lies, Love Dies", curiosamente lançada (com resultados melhores) por Annie Haslam naquele mesmo ano, no álbum Blessing In Disguise, e um novo arranjo para "Northern Lights", que já havia aparecido no disco A Song for All Seasons, de 1978, cujo single da versão original se tornou o de maior sucesso na carreira do Renaissance até hoje (e cuja regravação presente aqui a torna, obrigatoriamente, também a faixa de maior destaque deste registro, embora, a meu ver, inferior àquela com os vocais de Haslam).

Com o álbum tendo sido lançado pela gravadora britânica HTD Records (segundo o Discogs, apenas em CD, sem edições em vinil ou cassete), a arte gráfica da versão original é toda focada em Stephanie Adlington, com várias repetições da mesma foto de seu rosto ao longo das páginas do encarte, além de uma foto sua à beira da água na contracapa e uma outra mais "posada" no início do livreto. O disco não teve destaque nas paradas, o que não impediu Dunford e Adlington de lançarem um segundo registro, Ocean Gypsy, em 1997, contendo versões acústicas de destaques anteriores da carreira do grupo, que aqui aparece sob o nome Michael Dunford's Renaissance (o que também acontece na compilação Trip To The Fair, de 1998, que traz um apanhado de faixas dos dois lançamentos anteriores da dupla), o que fez com que a banda nos três álbuns passasse a ser chamada deste modo por fãs e imprensa, algo que não é indicado na capa de The Other Woman, creditado apenas ao Renaissance. 

Contracapa da versão original de The Other Woman

Michael Dunford e Annie Haslam voltariam a se reunir em 1998 em uma nova encarnação do Renaissance (que também trazia o baterista Terence Sullivan e o pianista John Tout da "formação clássica" dos anos 1970, e que viria a lançar o álbum Tuscany em 2001), o que "enterrou" de vez o trabalho da parceria entre Dunford e Adlington, com a cantora retornando aos Estados Unidos para ensinar canto na Nashville’s Belmont University, além de ter uma quase inexpressiva carreira solo mais voltada para o jazz. Já Dunford excursionou junto a Haslam e o Renaissance naquele 2001, com a dupla continuando a trabalhar junta nos anos seguintes, mas com Michael infelizmente vindo a falecer de hemorragia cerebral em 2012, época em que trabalhava no que viria a ser Grandine il Vento, disco lançado em sua memória no ano seguinte. Annie segue à frente de uma nova encarnação do Renaissance, sem o acompanhamento de nenhum dos membros da "época de ouro", e parece que a "chama" do grupo não irá se apagar tão cedo, apesar de contar com alguns momentos onde brilhou de forma mais fraca, como neste The Other Woman.

Track List:

1. Deja Vu

2. Love Lies, Love Dies

3. Don't Talk

4. The Other Woman

5. Lock In On Love

6. Northern Lights

7. So Blasé

8. Quicksilver

9. May You Be Blessed

10. Somewhere West Of Here