domingo, 4 de outubro de 2020

Eluveitie - Live At Masters Of Rock [2019]


Por Micael Machado

Poucas são as bandas que conseguem sobreviver à saída de um ou mais membros importantes de sua formação. Mas o grupo suíço de folk metal Eluveitie, liderado pelo vocalista e multi-instrumentista Chrigel Glanzmann, tem convivido com este tipo de percalço praticamente desde sua fundação, ainda em 2002. Sendo assim, depois das traumáticas partidas do baterista Merlin Sutter, do guitarrista Ivo Henzi e da vocalista Anna Murphy (esta também responsável pelo hurdy-gurdy, ou viola de roda, como é conhecido no Brasil) em 2016 (trio hoje reunido no Cellar Darling), o grupo se remontou com a chegada de Alain Ackermann para a bateria, Jonas Wolf para as seis cordas, Michalina Malisz para o hurdy-gurdy e Fabienne Erni para os vocais e harpa, além de trazer de volta a violinista Nicole Ansperger, que, junto com o guitarrista Rafael Salzmann, o baixista Kay Brem e o responsável pelos instrumentos de sopro Matteo Sisti, transformaram o conjunto num exército de nove peças pronto para retomar seu lugar no mundo metálico, primeiro com a gravação de um álbum acústico chamado Evocation II: Pantheon (que serviu como uma espécie de "respiro" para dar fôlego ao que estava por vir), em 2017, e depois com um de seus melhores registros de estúdio na carreira, Ategnatos, de 2019. Foi na turnê de promoção deste disco que o grupo tocou no festival Masters Of Rock, na República Tcheca, no dia 11 de julo de 2019, onde foi registrado o segundo disco ao vivo da extensa carreira da banda (descontados aqueles que vieram como bônus em edições especiais de alguns álbuns anteriores ou até mesmo um registro lançado como brinde da revista alemã Legacy em 2014).

Em um set de uma hora e quinze minutos de duração, é claro que muitas músicas marcantes acabaram ficando de fora da apresentação, mas o grupo conseguiu reunir no seu show, além de um solo de bateria (que, felizmente, não é muito extenso, possuindo pouco menos de três minutos e meio, mas que poderia, para o meu gosto, ter sido substituído por uma música "de verdade" dentre tantas que faltaram), cinco faixas de seu então novo disco (com destaque para a abertura com a faixa título, a agressiva "Deathwalker" e a variada "Rebirth", já no bis) junto a algumas faixas um pouco mais antigas (como "Helvetios" ou "Havoc") aquelas "favoritas de sempre" que já se tornaram obrigatórias nas apresentações dos suíços, como "Thousandfold", "A Rose For Epona",  "The Call Of The Mountains" ou "King", estas duas, apesar de mais recentes, já consideradas clássicas pelos fãs.

Foto da banda presente no encarte de Live At Masters Of Rock

Fãs estes que, tenho certeza, tinham como curiosidade principal saber como Fabienne Erni  conseguiria se sair ao desempenhar seu papel no palco. Pois (visto que ainda não tive, infelizmente, a oportunidade de assistir ao vivo a esta formação do grupo para formar uma opinião através de minhas próprias observações "in loco") se os vídeos disponíveis no youtube mostram que Fabienne ainda terá que evoluir muito para chegar ao nível de presença de palco, carisma e empatia que Anna Murphy possuía, pelo menos a parte vocal do grupo está garantida sem ressalvas, como comprovam aquelas composições que exigem um destaque maior da cantora, como as citadas "The Call Of The Mountains" e "A Rose For Epona", ou as mais novas "Epona" e "Artio", esta, especialmente, quase um "número solo" talhado para a vocalista mostrar toda sua extensão vocal e sua bela voz.

Fica difícil recomendar uma ou outra faixa para o ouvinte ocasional que pretenda conhecer o Eluveitie através deste álbum, devido ao largo espectro musical do grupo, indo de momentos quase death metal (como parte da abertura de "Worship") a momentos onde parecemos ser transportados às tavernas de filmes medievais (como em partes de "Thousandfold" ou da citada "Epona"), passando por temas que remetem às tantas bandas de gothic metal com vocais femininos que temos por aí (como em partes de "Breathe"), momentos quase pop (em "The Call Of The Mountains", aqui apresentada com sua letra em inglês, sendo que Anna frequentemente a cantava em sua versão com letras em alemão, uma das várias versões em que a faixa chegou a ser registrada) ou temas mais introspectivos e belos como "A Rose For Epona". Mas é claro que, neste disco e na extensa discografia da banda, um dos maiores destaques sempre será "Inis Mona", há anos escolhida para o encerramento dos shows da banda, e que aqui, mantendo a tradição, fecha tanto o bis quanto o álbum.

Contracapa da versão em vinil de Live At Masters Of Rock

Disponível, é claro, nas muitas versões em formato digital obrigatórias nos dias atuais, Live At Masters Of Rock foi lançado lá fora em vinil duplo e CD simples, sendo que a versão nacional (disponível apenas neste segundo formato, pela gravadora Shinigami Records) traz um adesivo indicando ser uma edição limitada a trezentas cópias (não numeradas, infelizmente). Sendo assim, se você curte a complexa sonoridade desta quase orquestra musical de folk metal, não perca a oportunidade de garantir sua cópia do álbum, pois a satisfação será garantida. Com a pandemia que assola o mundo e as incertezas para o futuro que ela traz, fica difícil prever o futuro desta formação do Eluveitie, mas, se depender do mostrado neste registro, ele tem tudo para ser tão ou mais brilhante que a estrada que o grupo já percorreu com seus antigos membros. Quem sobreviver à "gripezinha", verá!

Track List:

1. Ategnatos
2. King
3. The Call Of The Mountains
4. Deathwalker
5. Worship
6. Artio
7. Epona
8. A Rose For Epona
9. Thousandfold
10. Ambiramus
11. Drumsolo
12. Havoc
13. Breathe
14. Helvetios
15. Rebirth
16. Inis Mona

domingo, 19 de julho de 2020

The Nice - The Thoughts of Emerlist Davjack [1968]


Por Micael Machado

Todo fã de rock progressivo tem a obrigação de conhecer ao menos de nome o excepcional tecladista Keith Emerson, que ganhou fama como membro do supergrupo Emerson, Lake & Palmer. O que talvez alguns não saibam é que, antes do ELP, Emerson também obteve fama e sucesso ao lado do The Nice, com quem tocou entre 1967 e 1970. Aqueles que não conhecem o som da banda, e resolvam iniciar pelo seu disco de estreia registrado em 1968, com o curioso nome The Thoughts of Emerlist Davjack (algo como "os pensamentos de Emerlist Davjack", em tradução livre), certamente serão surpreendidos pela sonoridade completamente diferentes entre as duas bandas de seu membro mais conhecido...

Mas antes de tratarmos do disco em si, um pouquinho de história. Como disse, o grupo iniciou sua trajetória em 1967, inicialmente como banda de apoio à cantora norte-americana P. P. Arnold, que estava na Inglaterra acompanhando a dupla Ike a Tina Turner em uma excursão pelo país. Quando a turnê acabou, Arnold decidiu continuar no país, mas pediu ao seu manager, Andrew Loog Oldham (também empresário dos Rolling Stones, e co-proprietário da gravadora Immediate Records) que lhe arrumasse um novo grupo como suporte, pois estava descontente com os músicos que lhe acompanhavam então. Emerson foi convidado para a empreitada, e rapidamente se uniu ao baixista Lee Jackson, ao guitarrista David O'List e ao baterista Ian Hague em uma digressão onde também apareciam, apenas os quatro, como "banda de abertura" para a cantora principal. Após uma apresentação de destaque (sem Arnold) no National Jazz and Blues Festival daquele ano, e, com o retorno da cantora a seu país de origem ao final da temporada inglesa, Oldham ofereceu ao grupo (já devidamente denominado como The Nice) um contrato com sua própria gravadora, o que foi logo aceito pelo quarteto, que efetivou Jackson nos vocais (além de continuar no baixo) e substituiu Hague (que estava descontente com os rumos musicais que o grupo queria seguir) pelo baterista Brian Davison, e partindo para a gravação de seu registro de estreia.

Algumas sessões de composição e gravações foram feitas entre o final de 1967 e o início de 1968 (muitas delas aparecendo anos depois na compilação Autumn '67 – Spring '68, que contém versões alternativas para quase todas as faixas do primeiro disco), mas o álbum oficial só sairia em março de 1968. Àquela época, o Nice estava completamente inserido na cena "psicodélica" inglesa (então representada por grupos tão díspares quanto Pink Floyd, Jimi Hendrix Experience, The Crazy World of Arthur Brown, Yardbirds e muitos outros, e que também fazia muito sucesso na costa oeste dos Estados Unidos, especialmente em San Francisco), como pode ser constatado nas faixas "Tantalising Maggie",  "Flower King of Flies", "The Cry of Eugene" ou a própria "The Thoughts of Emerlist Davjack" (sendo que o nome do personagem principal, caso você não tenha percebido, é uma junção dos sobrenomes dos membros do grupo), sendo que as duas últimas, com o benefício do tempo e da história, acabam soando bastante genéricas, e muito parecidas a diversas outras composições do período (o que não contribui, de forma alguma, para diminuir a sua qualidade, que fique bem claro).

The Nice em 1968: Lee Jackson, Brian Davison, Keith Emerson e David O'List

Mas isto não significa que o quarteto estava preso a uma única forma de compor ou a um único estilo. "Bonnie K", por exemplo, tem um pezinho e meio firmemente plantado no blues, enquanto "War and Peace" e partes da citada "The Cry of Eugene" já adiantam o estilo progressivo que Emerson adotaria mais adiante em sua carreira, sendo que a primeira conta com um verdadeiro show do músico em seu instrumento. Mas o grande destaque do álbum ficou, sem dúvidas, para "Rondo", onde, ao longo de mais de oito minutos (um verdadeiro exagero para a época), Emerson faz misérias sobre um arranjo diferente elaborado por ele para a clássica "Blue Rondo à la Turk", do Dave Brubeck Quartet, e inseriu definitivamente seu nome na história da música. A faixa fez um enorme sucesso, levando o Nice a excursionar pela Europa e os Estados Unidos, sendo anos depois incorporada ao repertório do Emerson, Lake & Palmer, onde, amparado pela base mais sólida construída por seus então parceiros, Emerson atingia voos musicais altíssimos na performance de suas teclas ao longo da faixa.

O sucesso de "Rondo" e das apresentações ao vivo do grupo, onde Emerson já tinha o costume de "maltratar" seu teclado, seja o arrastando pelo palco, jogando-o por cima de si ou mesmo atirando adagas no coitado (estas, segundo a Wikipedia, legítimos artigos originais da SS de Hitler, emprestadas ao músico por um de seus roadies, um certo Ian Kilmister, também conhecido como Lemmy -  sim, este mesmo que vocês estão pensando) foi seguido por um novo single, uma versão para a peça "America", de Leonard Bernstein, mas, em setembro daquele ano, o grupo acaba se separando de O'List, sendo que ainda hoje é discutido se o guitarrista saiu voluntariamente por questões particulares e de saúde (como consta, inclusive, nas "liner notes" do relançamento do primeiro disco de 2007), ou se foi expulso por Emerson após alguns desentendimentos entre os outros três membros e o titular das seis cordas. O certo é que a carreira do The Nice seguiria em frente, com o agora trio avançando cada vez mais no terreno do rock progressivo, estilo no qual, a meu ver, atingiu seu ápice no álbum Five Bridges, de 1970, gravado ao lado da orquestra The Sinfonia Of London. Naquele mesmo ano, Keith Emerson chegou à conclusão de que, musicalmente falando, o trio havia atingido o máximo de evolução possível, e decidiu abandonar o barco para formar o já citado ELP. Jackson formou o Jackson Heights, com quem tocou entre 1970 e 1973, e depois se reuniria brevemente com Davison em 1974 no projeto Refugee, onde tocaram ao lado do tecladista Patrick Moraz (que naquele mesmo ano se uniria ao Yes, o que foi o final do trio Jackson, Davison e Moraz). O quarteto "Emerlist Davjack" não tocaria junto de novo, mas o trio Emerson, Jackson e Davison ainda faria uma última excursão em 2002 (que resultou no álbum ao vivo Vivacitas, daquele mesmo ano), antes das mortes de Davison em 2008 e de Emerson em 2016.

Contracapa da versão original de The Thoughts of Emerlist Davjack

The Thoughts of Emerlist Davjack foi relançado várias vezes, com a inclusão de diversas e diferentes faixas bônus registradas naquele período a cada nova versão, como a já citada "America" ou o lado B do single para a faixa título, intitulado "Azrial (Angel of Death)", e permanece ainda hoje como um marco na carreira de um dos músicos mais importantes da história do rock progressivo. Se tiver a oportunidade, procure conhecer este trabalho, que já mostra o talento de Emerson nas teclas, mesmo que ele fosse evoluir ainda mais posteriormente em sua carreira. Só não espere os grandes arroubos instrumentais do músico em sua fase ELP. A banda, aqui, é outra, mas ainda é uma "nice band" (é, não consegui resistir a este infame trocadilho, perdoem-me).

Track List (versão original):

Lado A
1. "Flower King of Flies"
2. "The Thoughts of Emerlist Davjack"
3. "Bonnie K"
4. "Rondo"

Lado B
1. "War and Peace"
2. "Tantalising Maggie"
3. "Dawn"
4. "The Cry of Eugene"

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Rainbow ‎– Long Island 1979 [2015]


Por Micael Machado

Há pouco tempo atrás, abordei aqui no site o álbum ao vivo Boston 1981um dos vários bootlegs do grupo inglês Rainbow "oficializados" no mercado entre 2013 e 2016. Devido à boa repercussão da resenha (agradeço sinceramente aos vários comentários que o texto recebeu e ao engajamento dos nossos leitores com o mesmo), hoje gostaria de abordar outro disco que faz parte deste "pacote" licenciado pelo chefão Ritchie Blackmore à gravadora Purple Pyramid, uma divisão da Cleopatra Records. Trata-se de Long Island 1979 - Down To Earth Tour, registrado a 30 de Novembro de 1979 no Calderone Concert Hall, na cidade de Hempstead, no estado norte-americano de Nova Iorque, apenas dez dias antes do final da turnê americana do grupo naquele ano, e na mesma data do trigésimo quarto aniversário do baixista Roger Glover. A resenha será feita baseada na versão em vinil deste registro, pois o disco, ao que apurei, foi lançado separadamente apenas neste formato (ainda que em diferentes versões nas cores laranja, amarelo e preta), sendo que em CD o mesmo aparece apenas como parte de um box set chamado Down To Earth Tour 1979, que traz a íntegra deste show e do realizado em Denver apenas alguns dias antes (o qual também ganhou uma versão em vinil duplo), além de parte da apresentação em Chicago em outubro daquele ano, não podendo nenhum dos três ser adquirido de forma isolada neste formato de mídia física.

Contando em seu line-upà época, com o baterista Cozy Powell, o tecladista Don Airey e o cantor Graham Bonnet (que havia substituído Ronnie James Dio alguns meses antes, e registrado o disco Down To Earth naquele mesmo ano), além dos citados Blackmore e Glover, e impulsionado pelo sucesso do single da canção "Since You've Been Gone" (sexto lugar na Inglaterra e presente no Top 100 dos Estados Unidos), o grupo fazia sua mais bem sucedida excursão ate então, em termos financeiros e de reconhecimento, nos Estados Unidos (curioso saber que parte dela foi como grupo de abertura do Blue Oyster Cult, o que nos dá uma ideia do "tamanho" do Rainbow no país à época), e o concerto registrado neste disco mostra uma banda já bastante entrosada e adaptada ao material executado, "azeitada" pelo longo período na estrada com seu novo "lead singer". Infelizmente, a qualidade sonora do álbum em questão é bastante ruim, com o som muito baixo e abafado, os pratos de Powell "sibilando" constantemente nas caixas de som (dá a impressão de um rádio FM ligeiramente fora da sintonia ideal, consigo me fazer entender?), a voz de Bonnet "abafada" em meio aos demais instrumentos e o baixo de Glover por vezes quase sumido na mixagem. Seria possível imaginar que Blackmore e a gravadora simplesmente pegaram um dos muitos bootlegs do show existentes por aí, colocaram algumas fotos do guitarrista nas capas externas e internas (à exceção das capas de três singles da época, a imagem do "poderoso chefão" do Rainbow é a única de um membro da banda a aparecer no disco) e "soltaram" o mesmo no mercado em uma versão diferente das anteriores. Mas um detalhe nos faz pensar diferente: em todas as faixas, a guitarra do Sr. “Ricardinho Maispreto” está alta e cristalina, brilhando à frente da massa sonora dos demais instrumentos, o que nos mostra que alguma coisa em termos de mixagem deve ter sido feita antes da "oficialização" do concerto ao público em geral. Claro que, para os colecionadores de verdade, acostumados a bootlegs mal gravados cujo valor histórico é muito maior do que a qualidade cristalina das gravações digitais atuais, esta alegada "falta de qualidade" na gravação não chegará a atrapalhar muito a audição (eu, por exemplo, tenho discos não oficiais em meu acervo muito mais difíceis de ouvir do que estes, e não me furto de escutá-los e apreciá-los com o mesmo entusiasmo que um disco oficial "ao vivo" lançado pelos artistas), e, lá pela terceira ou quarta música do álbum, este fator já não será mais um problema aos ouvidos menos sensíveis.

Capa interna e discos de uma das versões de Long Island 1979

E, por falar em "valor histórico", o deste registro em questão é bastante relevante, Apesar de não contar com a tradicional abertura com a fala de Dorothy no filme do Mágico de Oz e a banda tocando um trecho da canção "Somewhere Over The Rainbow" (ambos citados no texto da capa externa, mas ausentes da versão final do disco), substituídos por alguns "sons eletrônicos" dos teclados de Airey, quando estes revelam os primeiros acordes de "Eyes Of The World" a senha está dada para um belo álbum ao vivo do Rainbow. Seguida pela mais cadenciada "Love's No Friend", as duas canções possuem alguns dos melhores solos de Blackmore no disco, e tem na sequência (intercaladas por pequenos trechos instrumentais da citada "Somewhere Over The Rainbow" e da clássica composição de Beethoven "Für Elise") os dois maiores "hits" de Down To Earth, "Since You've Been Gone" e "All Night Long", que completam o primeiro disco da versão em vinil duplo. Ao final da última, Bonnet anuncia o aniversário de Glover à audiência, e Airey puxa um "Parabéns a Você" cantado entusiasticamente pelo público americano, fazendo o baixista "corar um pouco debaixo de seu tradicional chapéu", segundo o texto da capa interna.

Os quase vinte e sete minutos de "Lost In Hollywood" ocupam todo o lado C do vinil, e são maiores do que a soma de dois de quaisquer outros lados do disco. Claro que a faixa é um espaço para improvisos, solos e passagens dos músicos por trechos de outras composições. Um dos muitos bootlegs do show encontrados no mercado, chamado Roger's Birthday Party, lista estes trechos separadamente em seu track list, sendo eles "Lost In Hollywood - Part I", um trecho de "Beethovens Ninth" (em versão mais lenta, mas com arranjo semelhante, àquela registrada como faixa título do álbum Difficult to Cure), "Keyboard Solo", "Drum Solo", "1812 Overture" e "Lost In Hollywood - Part II". Como visto, a faixa dá espaço para quase todos brilharem individualmente, além de já apontar os caminhos que o Rainbow seguiria logo em seguida em seus próximos registros.

Na última parte do concerto temos uma volta ao passado do grupo e de seu líder. Iniciando com um breve improviso de Blackmore à guitarra (chamado de "Richi's Tune" no bootleg citado acima) e um curto trecho instrumental de "Lazy", um dos muitos clássicos do Deep Purple (banda que contava, cabe alertar aos desavisados de plantão, com Ritchie e Roger em suas fileiras), canção citada com entusiasmo na capa interna como "tendo trazido suspiros extras às hordas presentes na beira do palco", apesar de durar apenas alguns segundos, a "volta no tempo" continua com a vinheta "Blues", passagem instrumental que Ritchie já executava nos palcos desde seus tempos no Púrpura Profundo, que aparece separando as clássicas "Man On The Silver Mountain" e "Long Live Rock 'N' Roll", ambas remetendo aos tempos em que o baixinho Ronnie James Dio empunhava o microfone do Rainbow, e nas quais a performance de Graham Bonnet, apesar de compreensivelmente inferior à do fantástico cantor anterior, não soa nada decepcionante, pois, mesmo com estilos bastante diferentes entre eles, Graham consegue colocar sua personalidade nas faixas, ao contrário do que ocorreria com seu substituto, como escrevi na resenha do show de Boston citado no começo deste texto. As duas faixas aparecem no lado D do vinil, completando um show que, apesar de contar oficialmente com apenas sete canções, tem mais de uma hora de duração, e deve agradar aos verdadeiros fãs da banda, principalmente Àqueles que conseguirem superar mais facilmente a falta de uma qualidade sonora mais cristalina ressaltada acima.

Contracapa de Long Island 1979

Menos de nove meses depois, o Rainbow se apresentaria no Monsters Of Rock Festival em Castle Donington, na Inglaterra, naquele que seria o último show de Bonnet e Powell com o grupo, abrindo caminho para uma nova e exitosa (financeiramente falando) fase com Bob Rondinelli na bateria e Joe Lynn Turner nos vocais. O show do Monsters também teve seu lançamento oficializado neste "pacote" de discos, mas isto é conversa para um outro momento...

Track List:

Lado A

1. Eyes Of The World
2. Love's No Friend

Lado B

1. Since You've Been Gone
2. All Night Long

Lado C

1. Lost In Hollywood

Lado D

1. Man On The Silver Mountain
2. Long Live Rock 'N' Roll

sábado, 18 de abril de 2020

Ministry ‎– Live Necronomicon [2017]


Por Micael Machado

Houve uma época em que o Ministry era um dos maiores grupos de heavy metal do mundo, sendo possivelmente o nome mais destacado do chamado "industrial metal" no começo da década de 1990. Isto ocorreu graças a dois álbuns de qualidade excepcional, The Mind Is A Terrible Thing To Taste, de 1989, e ΚΕΦΑΛΗΞΘ (popularmente conhecido como Psalm 69: The Way to Succeed and the Way to Suck Eggs), de 1992, os quais consolidaram o nome da banda mundialmente. Pois foi justamente entre estes dois registros que o Ministry colocou no mercado seu primeiro álbum ao vivo oficial (também lançado em vídeo), In Case You Didn't Feel Like Showing Up (Live), de 1990, gravado a 22 de fevereiro daquele ano em Merrillville, no estado norte-americano de Indiana, e que, apesar de conter menos de quarenta minutos e apenas seis faixas da apresentação daquela noite, conseguiu reconhecimento como um dos melhores discos ao vivo dos anos 90, ganhando imediatamente a simpatia e aprovação unânimes dos fãs da banda (particularmente falando, uma das primeiras camisetas "de banda" que comprei lá pelos meus 17, 18 anos, trazia a capa do disco estampada, o que deve servir para demostrar meu apreço pela obra). Vinte e sete anos depois, em 2017, um acordo com a gravadora Cleopatra Records colocou no mercado em edições tanto em CD como em vinil (ambos duplos), e também nas hoje obrigatórias plataformas digitais, uma versão ampliada daquele registro, chamada Live Necronomicon, e que, apesar de não contar com a íntegra do show executado naquela data, serve para mostrar um lado até então quase desconhecido da carreira da banda de Chicago.

O Ministry, à época, era formado em sua versão de estúdio pela dupla Alain "Al" Jourgensen (vocais, guitarra, programações) e Paul Barker (baixo, teclados, programações). Mas, ao vivo, além de tocar por trás de uma cerca de arame (repetidamente derrubada pelos fãs ao final das apresentações), a banda se transformava em um combo de dez pessoas, agregando às suas fileiras o recentemente falecido Bill Rieflin (à época, também membro do Revolting Cocks, do Pigface e do Lard, e futuramente integrante de grupos como KMFDM, Swans, R.E.M. e King Crimson) e o ex-PIL Martin Atkins (que depois faria parte do Nine Inch Nails) em duas baterias, um quarteto de guitarras formado pelo ex-Rigor Mortis Mike Scaccia (parceiro de Al tanto no Ministry quanto em diversos projetos paralelos até sua morte, em 2012), o ex-U.K. Subs Terry Roberts, o também membro do Pigface William Tucker, e o líder do Skinny Puppy Nivek Ogre (também responsável por teclados e vocais), além do tecladista e vocalista Chris Connelly (também do Revolting Cocks e do Pigface) e de Joe Kelly nos backing vocals. Nesta noite em particular, este aglomerado ainda contou com a participação especial de Jello Biafra (ex-Dead Kennedys, e parceiro de Al e Paul no Lard), e são as músicas de vários destes grupos "paralelos" citados aqui que tornam Live Necronomicon tão interessante.

In Case You Didn't Feel Like Showing Up (Live), a "versão original" do show lançado em Live Necronomicon

Isto porque, das quatorze faixas do disco, apenas oito são originais do Ministry, concentrado-se apenas nos álbuns The Land of Rape and Honey (de 1988) e o já citado The Mind Is A Terrible Thing To Taste, pois já naquela época Al renegava seus dois primeiros registros, With Sympathy (de 1983) e Twitch (de 1986), mais próximos do synth-pop que do industrial que a banda praticava então. As seis faixas de In Case You Didn't Feel Like Showing Up (Live) aparecem aqui em versões mais cruas, em certos casos ampliadas, e, de acordo com alguns artigos que li, sem os "overdubs" presentes na versão de 1990 (coisa que, honestamente, não sei afirmar, pois a música do Ministry é tão cheia de samplers e efeitos que é difícil dizer o que é pré-gravado e o que é efetivamente executado ao vivo), com destaques, ao menos para mim, para os hipnotizantes mais de onze minutos de "So What" e para aquela que talvez seja a minha música favorita da discografia da banda, a sensacional "Stigmata". As outras duas faixas originais do grupo aparecem na abertura (com uma longa versão para "Breathe") e no final do disco (uma pesada e apocalíptica redenção da faixa título de The Land of Rape and Honey, que parece se estender por bem mais que seus cinco minutos e meio, e que, no vídeo, conta com uma performance artística "especial" de Biafra).

Completando o track list de Live Necronomicon, temos seis covers de bandas e projetos dos músicos presentes no palco, algo que o Ministry raramente (ou nunca mais) faria em suas turnês posteriores, configurando assim o tal "lado desconhecido" que citei lá no início, pois, eu pelo menos, não tinha conhecimento desta faceta de "banda cover" que o grupo assumia ao vivo. As versões iniciam com as músicas "Man Should Surrender" e "No Bunny", ambas do Pailhead, projeto de Al e Paul ao lado de Ian MacKaye, membro do Minor Threat e do Fugazi (e que também contou com Bill Rieflin na bateria), duas faixas que, com um pouco mais de "sujeira", passariam fácil por composições originais do Ministry, e que, graças à ausência de maiores dados na ficha técnica, não tenho como dizer qual dos membros da banda está nos vocais, mas arrisco a dizer que não é Al. A coisa muda de estilo nas versões para "Smothered Hope", do Skinny Puppy (com  Nivek Ogre nos vocais) e "Public Image", do PIL, ambas trazendo um certo clima "punk" para o álbum, especialmente a segunda, onde o vocalista (mais uma vez não sei dizer quem) emula quase a perfeição o estilo de John Lydon. Fechando com chave de ouro, temos a presença de Jello Biafra na execução de duas faixas do Lard, "The Power Of Lard" (que começa como um funk pesado, com destaque para o baixo de Barker, e descamba em um furioso hardcore) e "Hellfudge", que, de alguma forma, sempre me lembrou o estilo adotado pelo Dead Kennedys em seus dois últimos álbuns.

Contracapa da versão em vinil de Live Necronomicon

Tendo algumas edições limitadas em vinil colorido vermelho, branco e azul (além do tradicional preto), Live Necronomicon deixou de fora algumas faixas executadas naquela noite, como um interlúdio chamado "Country Interlude", uma cover para "Stainless Steel Providers", do Revolting Cocks (outro dos muitos projetos de Al e Paul) e dois discursos (chamado em inglês de "spoken words") de Jello, "Message from our Sponsor" e "Pledge of Allegiance". Mesmo assim, é um álbum obrigatório para os fãs da banda e do estilo, pois eleva em muito o nível apresentado em In Case You Didn't Feel Like Showing Up (Live), além de capturar o Ministry no auge de sua forma, a qual ainda se manteria na excursão seguinte, mas nunca mais atingiria este mesmo patamar nos anos futuros. Confira!

Track List:

CD 1

1. Breathe
2. The Missing
3. Deity
4. Man Should Surrender
5. No Bunny
6. Smothered Hope
7. So What
8. Burning Inside

CD 2

1. Thieves
2. Stigmata
3. Public Image
4. The Power Of Lard
5. Hellfudge
6. The Land Of Rape & Honey

domingo, 5 de abril de 2020

Gorilla - Treecreeper [2019]


Por Micael Machado

Confesso que, apesar de ser admirador do chamado estilo Stoner, nunca tinha ouvido falar do trio inglês Gorilla, hoje formado por Johnny Gorilla nos vocais e guitarras, Sarah Jane no baixo e Ryan Matthews na bateria, mesmo o pessoal estando na estrada desde o início da década de 1990, e já tendo lançado três registros antes deste Treecreeper. O fato deste ser seu primeiro full-length desde 2007 talvez contribua para isto, mas a verdade é que, quando o registro caiu em minhas mãos, não nutria grandes expectativas quanto à sua audição, apesar do mesmo vir muito bem recomendado a mim por pessoas nas quais confiro.

E, aos meus ouvidos, realmente os conselhos foram sábios. O grupo investe no chamado "stoner rock", e, apesar de ter algumas partes mais lentas em suas músicas, sabiamente foge quase por completo da definição de "imitadores do Black Sabbath" que tantas outras bandas sob o amplo rótulo "stoner" carregam (a não ser por uma pequena escorregadela em "Terror Trip", onde uma parte mais rápida no meio da faixa lembra e muito "Electric Funeral", do disco Paranoid, dos mestres de Birmingham), apostando em canções mais velozes e "rock and roll", quase uma mistura de Motörhead (especialmente por causa dos vocais de Johnny) com as bandas de hard rock do início da década de 1970, como Buffalo ou Dust (para entender melhor, confira "Ringo Dingo", com o baterista Matthews nos vocais principais, ou "Gorilla Time Rock N Roll", onde algum ouvinte mais incauto pode jurar que está ouvindo o eternamente saudoso Lemmy Kilmister ao microfone, e uma inusitada harmônica surge para fazer o solo principal da canção).

O trio Gorilla: Ryan Matthews, Johnny Gorilla e Sarah Jane

"Scum Of The Earth" e "Killer Gorilla" seguem bem esta fórmula, mas é quando o trio investe na psicodelia que consegue os resultados mais agradáveis, na minha opinião. Apesar de uma certa "fórmula pronta" adotada a cada composição (início mais lento, solos lisérgicos e partes mais aceleradas e "aditivadas" no meio ou no final da faixa), músicas como "Last In Line" ou a faixa-título (onde suaves sons de passarinhos aparecem no início tentando nos enganar quanto à potência da sonoridade da banda) mostram que a banda consegue ser bastante criativa e arranjar soluções diferentes para que seus registros não soem maçantes ou muito similares entre si. Neste mesmo estilo "psicodélico com partes agitadas", a épica "Cyclops" (em seus mais de seis minutos) acaba sendo o grande destaque do registro para mim, ao lado de "Mad Dog", com uma longa e interessante intro (repetida ao final) e um contagiante ritmo quebrado.

Lançado em CD e em algumas versões diferentes de vinil (amarelo, laranja, preto e uma limitada edição splatter), além das inevitáveis plataformas digitais que hoje dominam o streaming de música, Treecreeper, em seus pouco mais de quarenta e sete minutos, é uma bela pedia aos fãs de Stoner Rock, mas também é muito recomendado aos saudosos admiradores da sonoridade do Motörhead e de um rock and roll pegado e furioso, com um pezinho no metal sim, mas o outro firmemente plantado na psicodelia e na "aura setentista" de alguns dos melhores grupos da história. Confira!

Contracapa da versão em vinil de Treecreeper

Track List:

01. Scum Of The Earth
02. Cyclops
03. Gorilla Time Rock N Roll
04. Treecreeper
05. Mad Dog
06. Ringo Dingo
07. Terror Trip
08. Last In Line
09. Killer Gorilla

domingo, 22 de março de 2020

Stick Men - Midori [2016]


Por Micael Machado

Não é a primeira vez que escrevo para o site sobre o Stick Men, trio formado pelo multi-instrumentista Tony Levin (responsável aqui pelo stick e pelas vozes principais), pelo percussionista Pat Mastelotto (ambos membros de antigas e da atual formação do King Crimson) e por outro multi-instrumentista, Markus Reuter, que neste registro fica responsável pela touch guitar, os "soundscaps" e os teclados (para aqueles que estão se perguntando o que seriam stick, touch guitar e soundscaps, sugiro audições sucessivas da obra do King Crimson a partir da década de 1990 para maiores compreensões). Seus lançamentos sempre foram bastante difíceis de encontrar no mercado nacional, por isso, foi com uma agradável surpresa que encontrei alguns de seus discos à venda em sites virtuais em edições brasileiras, especialmente este disco duplo ao vivo chamado Midori, que registra dois shows da curta turnê japonesa do grupo em 2015, onde foram acompanhados pelo também ex-membro do King Crimson David Cross, encarregado do violino e dos teclados nestas gravações.

Registrado a 10 de abril de 2015 na cidade de Tóquio, no Japão, cada CD traz, como dito, a íntegra de uma apresentação do Stick Men para a plateia japonesa, tendo no CD 1 a apresentação vespertina do trio, e no CD 2 a noturna. O bom é que, ao contrário do que ocorre com nomes mais consagrados da música mundial, o repertório de ambos os shows repete pouquíssimas músicas, fazendo com que o conjunto da obra seja ainda mais atraente aos fãs da sonoridade adotada pelo trio (temporariamente transformado em quarteto, pois Cross está presente em todas as músicas, ao invés de fazer participação especial em algumas partes selecionadas, como se poderia supor).

Infelizmente, cabe dizer que, para aqueles curiosos que gostariam de utilizar o registro como "porta de entrada" para a discografia do trio, este será de uso bastante limitado, isto porque o número de composições próprias presentes nas duas apresentações são muito reduzidas. As instrumentais "Hide The Trees" e "Cusp" (com Cross nos teclados) são as únicas presentes no primeiro CD, enquanto "Crack In The Sky" (com Levin nos vocais, e que lembra um pouco as baladas do King Crimson registradas nos discos dos anos 90) é a representante solitária da obra original do Stick Men na segunda bolachinha. Boa parte do registro é composta de improvisações feitas na hora pelos músicos, sem preparação anterior, como muitas e muitas vezes o King Crimson fez durante sua trajetória, especialmente na época em que Levin e Mastelotto faziam parte da formação (seja tocando juntos ou em momentos separados).

Stick Men ao vivo no Japão: Markus Reuter, o convidado David Cross, Pat Mastelotto e Tony Levin

Estes improvisos podem soar bastante desafiadores (para dizer o mínimo) àqueles não tão familiarizados com a sonoridade proposta pelo grupo (ou, sou obrigado a citar mais uma vez, àquela adotada pela banda de origem de dois de seus membros, especialmente a partir da década de 1990). Dos quatro registros espalhados pelos CDs, "Moth" lembra  bastante os improvisos feitos pelo King Crimson na década de 1970, especialmente pela participação do violino de Cross, músico que também se destaca em "Midori", onde seu instrumento cria climas bastante interessantes. "Moon" é mais lento, com um belo trabalho de Levin no Stick, e "Blacklight", precedido por uma vinheta introdutória composta pelos "soundscaps" tão adotados pelo Rei Escarlate a partir da década de 1980 (algo que também ocorre com o citado "Midori"), serve apenas para comprovar que a técnica e a inventividade destes músicos está realmente muito acima da média normal encontrada no mundo da música atualmente.

Claro que, com três membros com passagens pelas fileiras do grupo liderado por Robert Fripp, seria quase impossível que alguma composição desta banda não aparecesse nos shows. Pois alguns dos momentos mais interessantes destes shows ocorrem justamente nestas covers, que, a bem da verdade, soam aqui muito mais como "recriações" do que simples versões, como é o caso de "Industry", cuja faixa de estúdio original nunca foi muito de meu agrado, mas aqui ganha pelo menos cinco minutos a mais em sua duração, e a presença do violino de Cross dividindo improvisos com a touch guitar de Reuter, ou de "Sartori In Tangier" (esta, uma das minhas favoritas dentre os registros da chamada "trilogia das cores" lançada pelo Rei Escarlate na década de 1980), onde o acréscimo do violino às passagens originais leva a composição para novas paisagens sonoras. 

Ao olhar o track list pela primeira vez, pensei que "Shades Of Starless" (uma das poucas músicas que se repetem nos dois shows) se trataria de alguma variação de "Starless", a obra prima que encerra o disco Red (vocês devem saber de quem, certo?), mas a faixa é quase um improviso, onde durante boa parte do tempo a condução é o item que mais se assemelha à faixa setentista original, sendo que, no primeiro disco, apenas depois da metade de seus oito minutos o violino enfim emenda a melodia original de abertura da prima-irmã mais clássica, sendo que mesmo esta é "desvirtuada" por improvisos e pela participação da touch guitar de Reuter, resultando em uma quase completa recriação da obra original, sendo que cabe destacar que as versões presentes nos CDs são bem diferentes entre si, tanto em duração quanto em arranjo, pois no segundo disco a participação de Cross se inicia mais cedo, e é mais presente que naquela apresentada no primeiro show. Encerrando os dois registros, a dobradinha "The Talking Drum"/"Lark's Tongues In Aspic, part II", fora alguns improvisos aqui e ali, soa bastante fiel às versões setentistas interpretadas pelo King Crimson (pois as formações da banda nas décadas seguintes, sem a presença do violino, também tinham suas próprias interpretações para estas faixas, que, obviamente, acabavam soando bem diferentes), especialmente graças à presença de Cross, cujo violino também comparece nas composições originais registradas no disco Lark's Tongues In Aspic.

Capa da versão sul-americana de Midori

Completando o registro, o segundo show ainda traz uma versão "quase' fiel para "Breathless", canção registrada originalmente por Robert Fripp em seu álbum solo Exposure, de 1979 (o qual conta com Levin no baixo), e uma bela interpretação para parte da obra "Firebird Suite", do compositor russo Igor Stravinsky, famosa por ser o tema de abertura dos shows do Yes nos anos setenta do século passado. Os dez minutos desta música beiram o divino, sendo valorizados aqui pelo trabalho do violino, com a parte final, justamente aquela mais conhecida, soando mais agressiva do que a interpretação com orquestra a que o ouvinte do Yes está acostumado, em muito graças aos timbres utilizados pela touch guitar e pelos teclados de Cross.

Produzido pelo próprio Markus Reuter, Midori foi lançado originalmente apenas no mercado japonês, mas, como citei, uma edição sul-americana (que incluiu uma versão para o mercado nacional) foi disponibilizada em 2018, graças a um acordo entre as gravadoras MoonJune Records, Iapetus e Unsung Productions. Sorte a nossa, que temos à disposição por um preço bastante acessível uma obra que mostra que o rock progressivo não precisa ser sonolento e melodioso como muitos não-iniciados podem pensar, mas sim ser cerebral, criativo e genial quando submetido ao talento de músicos tão gabaritados quanto estes. Confira!



Contracapas das versões sul-americana e japonesa de Midori

Track List:

CD 1:

1. Opening Soundscape - Gaudy
2. Improv - Blacklight
3. Hide The Trees
4. Improv - Moth
5. Industry
6. Cusp
7. Shades Of Starless
8. The Talking Drum
9. Larks' Tongues In Aspic, Part 2

CD 2:

1. Opening Soundscape - Cyan
2. Improv - Midori
3. Breathless
4. Improv - Moon
5. Sartori In Tangier
6. Crack In The Sky
7. Shades Of Starless
8. Firebird Suite
9. The Talking Drum
10. Larks' Tongues In Aspic, Part 2