sexta-feira, 18 de março de 2016

Livro: Nunca É O Bastante: A História do The Cure


Por Micael Machado

Resumir trinta anos da história de sucesso de uma banda famosa em apenas trezentas páginas deve ser um desafio enorme para qualquer escritor. Mas o jornalista australiano Jeff Apter (ex-editor da revista Rolling Stone na Austrália e colaborador de títulos como Vogue, GQ e Australian Hi-Fi) resolveu assumir esta bronca, e saiu-se muito bem ao redigir Never Enough: The Story of The Cure, livro que saiu lá fora em 2005, mas foi lançado no mercado brasileiro apenas em 2015, pela editora Edições Ideal (com o título, felizmente, traduzido em sua versão literal para o português, e não com "inventos aleatórios", como muitas vezes se vê por aí). A espera acabou sendo, de certa forma, benéfica para o Brasil, pois permitiu o acréscimo de um epílogo escrito em 2008 que, além de aumentar um pouco o número total de páginas da obra (que ficou em 318, mais dez outras apenas com fotos), agrega alguns outros fatos importantes acontecidos com o grupo depois da edição da versão original. O bom resultado apresentado por Apter em seu livro se torna ainda mais surpreendente quando constatamos que o convite feito pelo vocalista, guitarrista e eterno líder do The Cure, Robert Smith, para que seu "fiel escudeiro" Simon Gallup (baixista e principal colaborador do cantor ao longo da história da banda) se juntasse ao grupo acontece apenas na página 116 da obra. A entrada de Gallup, no final de 1979, e a consequente gravação do segundo registro do The Cure (Seventeen Seconds, de 1980), marcam, de acordo com Smith, a verdadeira "estreia" do conjunto (devido a vários problemas com a gravadora surgidos antes, durante e depois do lançamento do primeiro disco, Three Imaginary Boys, de 1979), e é, de certa forma, o início da estrada que levaria o The Cure ao reconhecimento mundial alguns anos depois.

Uma das mais importantes formações do The Cure: Simon Gallup, Porl Tompson, Laurence Tolhurst, Boris Williams e (à frente) Robert Smith

Estes "conflitos" com a gravadora são bem explorados pelo autor em algumas das páginas anteriores à união de Smith com Gallup, mas o foco da obra, até então, está na infância e adolescência dos amigos Robert Smith e Laurence Tolhurst (que viria a deixar o grupo em 1989), os quais se conheceram na escola ainda muito jovens, e foram os criadores daquela que viria a ser uma das maiores bandas do mundo nas décadas seguintes. Os primeiros passos musicais dos dois artistas (em grupos embrionários como o The Obelisk e o Easy Cure), suas decepções e suas pequenas conquistas são bastante detalhadas por Apter, que deixa claro que o sucesso não vem por acaso, e que a convicção dos dois músicos em sua obra nunca esmoreceu, mesmo diante de desafios e transtornos (principalmente com a primeira gravadora do grupo, a alemã Hansa) que fariam muitos desistirem, como aconteceu, de certa forma, com o baixista original Michael Dempsey, que saiu (ou "foi saído") do The Cure pouco depois do lançamento de seu primeiro registro completo.

A partir da união de Smith e Tolhurst com Gallup, e do lançamento do segundo disco, o The Cure começou uma trajetória que, entre altos e baixos, levou a banda, como já mencionei, a ser um dos maiores ícones do mundo da música, especialmente na década de 1980, quando seu nome era sinônimo de sucesso, muitas vezes por causa da associação ao termo "rock gótico" (rótulo que Smith sempre rejeitou, mas que, mesmo contra a vontade do cantor, ficaria associado para sempre a estes britânicos desde aqueles tempos). A estrada do grupo não foi feita apenas de momentos felizes, e as muitas mudanças de formação, os problemas de todos com as drogas (com abusos de diversas substâncias ilegais ao longo de muitos e muitos anos), as vidas pessoais atribuladas (principalmente a do líder Smith, que nunca lidou muito bem com o sucesso e o reconhecimento dos fãs invadindo sua privacidade), as dúvidas do líder Robert com relação ao futuro de seu grupo (que o levaram até mesmo a ser membro permanente de oura banda por um tempo, no caso o Siouxsie & the Banshees, e a montar um projeto paralelo de curta duração, intitulado The Glove) e as discussões artísticas com a gravadora Fiction (detentora da maior parte do catálogo do grupo) aparecem com destaque ao longo da obra, bem como comentários do autor para as composições registradas nos onze discos de estúdio lançados após Seventeen Seconds, bem como das circunstâncias de suas gravações e composições, e do "estado de espírito" do grupo quando das mesmas.

O The Cure com Martin Judd nos teclados. Sua passagem pela banda é esclarecida no livro.

A partir da leitura da obra, não é difícil perceber o porquê de tantas mudanças musicais (e pessoais) ao longo da história do The Cure. Do rock lento e depressivo da trilogia Seventeen Seconds, Faith e Pornography ao pop deslavado dos singles Let's Go To Bed, The Walk e The Lovecats, do reconhecimento das rádios aos álbuns The Head On The Door e Kiss Me Kiss Me Kiss Me ao retorno à depressão com os registros Disintegration e Bloodflowers, de lançamentos de sucesso como Wish a títulos equivocados como Wild Mood Swings, a trajetória de Smith e seus asseclas percorreu muitos caminhos diferentes, que pareceriam esquizofrênicos a um ouvinte casual. Mas, graças a Never Enough, se consegue perceber os motivos que levaram a banda por tantos caminhos tortuosos, criando uma legião de fãs que lhes apoiaram em todas as suas aventuras, e continuam a lhes dar suporte ainda hoje. A grande variedade de músicos e formações que o The Cure apresentou nos trinta anos compreendidos pela obra também acaba sendo explicada, de uma forma que demonstra que, ainda que se tenha a percepção de que Smith seja uma pessoa difícil de lidar, a realidade não é tão simplista assim (neste quesito, é primorosa a explicação do autor para a rápida passagem do tecladista Martin Judd pelo grupo em 1986, fato que até o lançamento do livro causava muita controvérsia entre os fãs mais fiéis da banda). A obra também não se furta de dar o crédito de  boa parte do sucesso da banda aos seus elaborados vídeo clipes, especialmente aqueles que tiveram como responsável o diretor Tim Pope, em uma duradoura associação que obteve um sucesso enorme enquanto perdurou.

Como disse, o fato de Apter conseguir contar toda esta conturbada jornada em pouco mais de cento e oitenta páginas (a partir daquele encontro registrado acima) é surpreendente, ainda mais quando se leva em conta que, ao contrário do que acontece em outras biografias, o autor não "apressa" os fatos, evitando "pular" aqueles que julga menos importantes e "resumir" os que mais se destacam, como já li em muitas outras biografias. Indo em direção contrária a vários de seus colegas de profissão, o autor "dá espaço" ao seu relato, em um texto que valoriza as histórias que conta, lhes dando o tamanho necessário e merecido, em uma edição que resulta muto fácil e agradável de ler, ajudada pela competente tradução para o português, a cargo de Ligia Fonseca, que presta um trabalho primoroso, demonstrando um bom conhecimento não apenas da língua inglesa, mas também do assunto abordado (fato que frequentemente é deixado de lado quando as editoras selecionam tradutores para suas obras).

Contracapa de Nunca É O Bastante: A História do The Cure

Com tudo isto, e apesar da trajetória do The Cure continuar ainda hoje, com outros fatos que também mereciam estar registrados em uma biografia, Never Enough: The Story of The Cure se torna ainda mais recomendável, especialmente para quem, como eu, tem o grupo britânico como um dos pilares de sua formação musical (ou apenas aprecia a obra de Smith e companhia, sem o fanatismo exacerbado de alguns fãs). Mesmo que você não goste tanto assim da banda, mas tenha algum interesse pela música e o universo pop das duas últimas décadas do século passado, deveria dar uma "olhada" neste primoroso livro. Garanto a você que não irá desperdiçar seu tempo. Pode acreditar!

Livro: Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia


Por Micael Machado

O jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical e letrista paulista Nelson Motta esteve presente em muitos dos momentos importantes da música brasileira nos últimos cinquenta anos (pelo menos), às vezes como testemunha, e outras como protagonista de fatos que, mais tarde, seriam considerados históricos em termos musicais. Em uma destas ocasiões, foi responsável por apresentar Tim Maia à "pimentinha" Elis Regina, em 1969. O encontro dos dois cantores gerou a gravação da canção "These Are The Songs", que catapultou a carreira de Tim para o estrelato. A partir daí, o músico carioca e Motta criaram uma amizade que duraria, entre altos e baixos, até o falecimento do cantor, em 1998. Por isso, quando a biografia de Tim Maia foi lançada em 2006, não foi surpresa descobrir que o autor do livro (intitulado Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maiaera o amigo de longa data de Maia.

Sebastião Rodrigues Maia (nome de batismo de Tim) foi um dos mais importantes e controversos artistas da música brasileira da segunda metade do século passado. Sua história cheia de fatos pitorescos rendeu, através da excelente prosa de Motta, um livro agradabilíssimo de ler, divertido, instrutivo, detalhado e, por vezes, até mesmo emocionante. Da infância entregando marmitas no Rio de Janeiro aos primeiros passos musicais em grupos vocais de seu bairro (alguns ao lado de Roberto e Erasmo Carlos - sim, esses mesmos em que você está pensando!), do sofrimento com a morte do pai ao período passado nos Estados Unidos (onde acabou preso por, entre outros delitos menores, dirigir um carro roubado de Nova Iorque a Miami, mas onde também conheceu o soul e o funk norte-americanos, os quais traria de forma precursora ao país anos depois), dos tempos de pindaíba quando da volta ao Brasil (deportado pela justiça americana) ao sucesso retumbante na década de 1970, do conturbado período de ostracismo nos tempos em que se dedicou à seita do Racional Superior (que rendeu muitas decepções ao músico, mas também dois dos melhores discos da MPB em todos os tempos) à volta triunfante aos holofotes da mídia nos anos 80, da entrega às drogas e ao álcool durante o final daquela década e o começo da próxima (onde faltava com tanta frequência aos compromissos assumidos que chegava a causar surpresa quando comparecia a um de seus próprios shows) às tentativas de retomar a saúde e o sucesso nos anos imediatamente anteriores à sua morte, as quase quatrocentas páginas de Vale Tudo formam um relato imperdível não só para os fãs do cantor, mas também para todos aqueles interessados em saber o que de importante aconteceu na música produzida no país entre 1965 e o final do século XX.


Nelson Motta e Tim Maia juntos em Nova Iorque

As histórias e relatos (por vezes beirando o inverossímil, mas quase sempre engraçadas, e todas muito interessantes, graças à forte personalidade de Tim, que, como declara Motta, era um personagem de tal feita que nenhum ficcionista seria capaz de criar) sucedem-se de forma natural, bem como as análises feitas pelo autor da discografia do cantor e dos bastidores de suas gravações. A vida particular de Tim também não é deixada de lado, e a importância de sua família, de seus amigos e de suas (várias) mulheres é ressaltada ao longo de toda a narração da trajetória do "síndico" (apelido que recebeu de Jorge Benjor, eternizado na música "W/Brasil (Chama O Síndico)"). Destaca-se ainda, ao longo da leitura, as inclusões de termos "peculiares" do vocabulário do cantor, como "Bauret" (gíria para maconha eternizada pelos Mutantes no disco Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets, e cuja origem é esclarecida no livro), "Garrastazu" (um local no prédio onde estivesse no qual ele poderia se esconder e "queimar um bauret"), "Levadinho" (o cachê de seus trabalhos, que poderia ser um "levado" ou um "levadão" dependendo do tamanho) ou "Estratégia", comando que, quando dado por Tim a seus músicos, significava algo como "abandonar o navio", independente das consequências que a debandada fosse causar.

Chama a atenção também a quantidade de hits que o cantor gravou ao longo de sua carreira (mesmo eu, que nunca fui o mais dedicado fã deste artista, ao ler o nome das músicas de destaque em sua trajetória citadas por Motta ao longo da obra, lembrava quase que imediatamente a melodia e/ou a letra - ou pelo menos o refrão - de praticamente todas elas), assim como o grande número de personalidades que surgem aqui e ali ao longo das páginas do livro, em interações por vezes fugazes, por outras duradouras e permanentes na vida de Maia. Músicos, artistas, políticos, jogadores, muitas e muitas figuras conhecidíssimas, as quais normalmente não seriam associadas a um cantor tão popular quanto o biografado, acabam marcando presença em situações as mais variadas, e cujos rumos a personalidade forte e decidida de Tim poderia mudar rapidamente!



Algumas imagens das páginas do livro Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia

Depois de saber tudo isto a respeito do livro, o caro leitor há de estar pensando: "Ok, pode até ser interessante, mas eu já assisti ao filme (ou ao musical, ou ainda à minissérie exibida na televisão) baseado nesta obra aí, então já conheço a história, e não preciso perder meu precioso tempo me dedicando a conhecer um registro tão comprido (400 páginas, por favor, né?)". Ledo engano, meu estimado amigo: o que você viu na tela (ou no palco) não corresponde, arrisco a dizer, a vinte por cento daquilo que consta nas páginas da biografia. E mesmo aquilo que foi selecionado para ser filmado (ou encenado) surge de forma mais extensa e detalhada no livro, tornando a leitura deste bastante prazerosa (e, sobretudo, indicada) mesmo aqueles que já tiveram a oportunidade de estar presentes às três mídias que usaram Vale Tudo como fonte de inspiração. Confira lá, e depois venha aqui me dizer que estou errado, caso tenha coragem!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Anekdoten - Until All The Ghosts Are Gone [2015]


Por Micael Machado

Demorou oito anos, mas, finalmente, os suecos do Anekdoten saíram de seu período de hibernação e nos ofereceram um novo álbum de inéditas, o primeiro desde A Time of Day, lançado em 2007. Until All The Ghosts Are Gone, o sexto registro do grupo (se não contarmos álbuns ao vivo e a coletânea Chapters, de 2009), veio à luz em abril de 2015, mantendo a formação que o quarteto possui desde sua formação (Nicklas Berg nos vocais, guitarras, teclados e mellotron, curiosamente voltando a assumir no encarte o sobrenome Barker, adotado por ele já há algum tempo; Jan Erik Liljeström no baixo e vocais; Anna Sofi Dahlberg no mellotron, teclados e vocais; e Peter Nordin na bateria e percussão), e, para regozijo de seus apreciadores, apresentando também a mesma sonoridade baseada no estilo progressivo, a qual cativou a tantos fãs pelo mundo, ainda que algumas pequenas novidades sejam apresentadas aqui e ali ao longo dos pouco mais de quarenta e cinco minutos da obra.

Destes, mais de dez minutos pertencem a "Shooting Star", os quais passam voando pelos seus ouvidos, devido à grande qualidade desta que é a faixa de abertura do registro. Com um começo pesado e agitado, a música traz uma timbragem "nova" para a sonoridade da banda, com a guitarra bastante rascante e o mellotron ocupando o fundo da canção, sempre soando de uma forma meio "sobrenatural" e até um pouco assustadora. Lá pelos dois minutos e meio, acontece uma mudança de andamento, e a composição se acalma, com a atmosfera geral ficando mais familiar aos fãs do grupo, e a música passando então a alternar entre partes mais rápidas e outras mais calmas, além da faixa possuir um longo trecho instrumental, onde o destaque fica para o "duelo" entre a guitarra de Nicklas e os teclados do músico convidado Per Wiberg (do Spiritual Beggars, e ex-integrante do Opeth), que já havia participado de outros discos dos suecos.

Anekdoten em 2015: Peter Nordin, Jan Erik Liljeström (acima), Anna Sofi Dahlberg e Nicklas Barker (abaixo)

Se "Shooting Star" foi uma excelente escolha para início dos trabalhos de audição do álbum, é a faixa seguinte, "Get Out Alive", quem parece ter sido composta para esta finalidade. Desde a sonoridade tristonha e meio melancólica que caracteriza o Anekdoten desde seu princípio, até os versos iniciais da letra ("Hello my friend, tell me how you been"), tudo na composição parece ter sido feito para o "reencontro" do grupo com seus fãs depois de tantos anos de afastamento, em uma faixa que certamente cairá nas graças daqueles que já foram convertidos à sonoridade do quarteto, assim como também agradarão a estes os mais de nove minutos de "Writing On the Wall", que, apesar de não trazer grandes inovações à sonoridade geral da banda, tem uma qualidade evidenciada pelos longos trechos instrumentais e pela atmosfera melancólica e calma que o Anekdoten seguidamente apresenta em sua trajetória.

A faixa título apresenta-se como a mais curta do registro (passando por pouco dos cinco minutos), mas, apesar de soar familiar aos ouvidos já convertidos ao som dos suecos, e da presença do guitarrista convidado Marty Wilson-Piper (The Church, All About Eve) e da flauta do músico Theo Travis (que já colaborou em discos de gente como Porcupine Tree, Gong e Robert Fripp), a música não consegue decolar, soando como um "momento menor" no track list do álbum, assim como "If It All Comes Down to You", a qual dá ainda mais destaque ao instrumento de Travis, mas que, apesar de ser bastante bela e contemplativa, não consegue atingir um nível de destaque perto das demais faixas.

Arte completa da capa de Until All The Ghosts Are Gone

A instrumental "Our Days Are Numbered", com mais de oito minutos e meio, foi a escolhida para o encerramento do disco, e não decepciona o ouvinte, com uma sonoridade bastante variada, passando pelo clima melancólico tradicional do grupo, trechos macabros e assustadores, e passagens com bastante peso no baixo e na guitarra, além do mellotron sempre em evidência, com aquela sonoridade "estranha" e meio "ameaçadora" que Anna Sofi é excelente em extrair do instrumento, além de abrir um generoso espaço para o saxofone do músico convidado Gustav Nygren (do grupo New Rose, também sueco), o qual ajuda a dar um tom de "loucura geral" á sonoridade da faixa em certo ponto, em mais uma composição que entra para o rol dos "clássicos" do conjunto escandinavo.

Until All The Ghosts Are Gone não supera a obra prima que foi Vemod (disco de estreia do grupo, lançado em 1993), e talvez não venha a ser incluído por alguns sequer no "pódio" de melhores trabalhos do conjunto. Mas é uma bela adição à discografia do quarteto, e um dos melhores lançamentos progressivos de 2015. Só nos resta esperar que o próximo trabalho não demore tanto tempo para sair do forno!

"Everyone walks alone / Struggling to find out how to get out alive"


Track list de Until All The Ghosts Are Gone, grafado na parte interna da edição digipack

Track List:

1. Shooting Star
2. Get Out Alive
3. If It All Comes Down to You
4. Writing On the Wall
5. Until All The Ghosts Are Gone
6. Our Days Are Numbered

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Kleiderman - Con El Mundo A Mis Pies [1994]


Por Micael Machado

No ano de 1993, os Titãs lançaram Titanomaquia, o disco mais pesado de sua carreira até então. Depois da turnê de promoção ao mesmo, o grupo resolveu "sair de férias", o que abriu espaço para que seus integrantes se dedicassem a atividades paralelas ao grupo, como carreiras solo, escritas de livros ou estudos no exterior. Branco Mello (vocais) e Sérgio Britto (vocais e teclados) uniram forças e montaram um projeto que seguiria mais ou menos a mesma sonoridade que sua banda principal havia adotado naquele citado disco, efetivando assim uma ideia que já havia surgido um tempo antes, mas ainda não havia tido possibilidade de ser colocada em prática. Com Branco no baixo e voz, Sérgio nas guitarras e voz, e a adição da baterista Roberta Parisi (ex-integrante do Volkana), surgiu o Richard Clayderman, nome escolhido de "zoação" em homenagem ao famoso pianista. O trio assinou com o selo Banguela Records (que, vale a pena lembrar, era de propriedade dos próprios Titãs), mudou o nome para Kleiderman para evitar problemas legais (mas manteve o "Richard" na capa do disco, "escondido" debaixo de um band-aid)e lançou em 1994 Con El Mundo A Mis Pies, uma "pérola esquecida" do rock nacional, e um dos melhores lançamentos do estilo na última década do século passado!

A sonoridade do trabalho, como eu já disse, segue mais ou menos a linha adotada pelo então septeto paulista em seu registro do ano anterior. Mas é ainda mais suja, pesada e distorcida que a de Titanomaquia. Algumas faixas tem um pé no punk rock (como "Nem Mãe, Nem Puta", que chegou a ter algum destaque na época, inclusive tendo um clipe divulgado na MTV de então - e que, por algum motivo, não consegui encontrar para disponibilizar como link nesta matéria -, "Let Me Be Your Nightmare", que chega a lembrar o Green Day de Dookie, ou "Roberta", usada para "descrever" as características da baterista do trio: "19 anos, 1 metro e 60, 48 quilos e olhos cor de mel"), outras no dito rock "alternativo" inglês (como "Plastic" ou "Dracula's Tea Bag", que também possui algo de Alice In Chains no refrão), mas a maioria das composições se baseia mesmo em um hard rock pesado, distorcido e quase sempre rápido, como o presente em "O Amor É Uma Coisa Feia" (que abre os trabalhos da bolachinha), "Eu vou ficar dopado" ou "Nojo".

O trio Kleiderman: Branco Mello, Roberta Parisi e Sérgio Britto

Com o disco durando pouco mais de trinta e cinco minutos no total, as músicas de Con El Mundo A Mis Pies são curtas e diretas (apenas uma passa dos três minutos de duração), e, assim como os vocais são divididos entre Branco e Sérgio (por vezes até na mesma composição), também as letras são ora em português, ora em inglês. A temática é variada, indo da quase escatologia de "Lick My Dirt" aos pretensos termos médicos de "Testosterona" (duas canções mais lentas e arrastadas, mas com o peso sempre presente). Dentre as letras que mais me chamam a atenção, estão as de "All Rock Bands" (que declara que "todas as bandas de rock deveriam se separar agora", em uma composição que serve de critica ao rock da época, mas que soa extremamente atual no mundo de hoje) e "Get Me Higher" (que cita vários artistas já falecidos, para então sentenciar: "merda vende, morte vende mais").

Algumas faixas lembram o trabalho da banda principal de Mello e Britto, como "Se Eu Sei Que Me Faz Mal" (que me remete a "Agonizando", do Titanomaquia), "Êxtase" ou a já citada "Nem Mãe, Nem Puta". Mas nenhuma delas é tão "Titãs" quanto "Não Quero Mudar", o grande hit do disco, com clipe em alta rotação na MTV, exposição nas "rádios rock" da época e tudo o mais. Certamente a faixa mais acessível do registro, poderia facilmente ter sido lançada como uma música do septeto paulista e ninguém notaria a diferença. Acessíveis também são duas de minhas faixas favoritas em Con El Mundo A Mis Pies"O Colecionador", um surpreendente tema instrumental com algo de surf rock em seu arranjo, e a própria faixa título, um oásis de calmaria no meio da porradaria sonora que é o disco. Trazendo a melhor intro do álbum (com Britto arrasando na guitarra), ela se transforma em uma "quase balada" regada à doce e suave voz de Roberta, que aqui canta (em espanhol) uma letra que chega perto de ser classificada como "romântica", e que apresenta aquele que talvez seja o melhor refrão de um disco com vários refrões memoráveis!

Contracapa de Con El Mundo A Mis Pies

O trio fez alguns shows pelo país, participou de especiais da MTV em 1995 (como o Carnaval É Legal, onde interpretaram "Está Chegando a Hora", e o Romance MTV, onde fizeram uma cover de "Darlin'", dos Beach Boys) e parou por aí mesmo, com Branco e Sérgio voltando a se dedicar ao seu grupo principal com o lançamento de Domingo naquele mesmo ano. Muitos, como eu, ainda esperam por um novo trabalho da banda, o qual parecia quase impossível um tempo atrás. Mas, com a volta dos Titãs ao "rock pesado" em Nheengatu, do ano passado, quem sabe Mello e Britto não se animam a reviver o Kleiderman, e nos brindar novamente com pérolas do peso musical nacional. Torçamos por isso!

"Acuerdade de mi, siempre así: con el mundo a mis pies"

Track List:

01. O Amor É Uma Coisa Feia
02. Let Me Be Your Nightmare
03. Nem Mãe, Nem Puta
04. All Rock Bands
05. Dracula's Tea Bag
06. Con El Mundo A Mis Pies
07. Eu Vou Ficar Dopado
08. O Colecionador
09. Testosterona
10. Roberta
11. Plastic
12. Não Quero Mudar
13. Lick My Dirt
14. Se Eu Sei Que Me Faz Mal
15. Êxtase
16. Nojo
17. Get Me Higher

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Discografias Comentadas: Änglagård


Por Micael Machado


Criado pelos músicos Tord Lindman (guitarras e vocais) e Johan Högberg (baixo) no verão de 1991, o grupo sueco Änglagård (termo inventado pelo guitarrista, que pode ser traduzido como "Jardim de Anjos", ou "Lugar de Anjos") começou a tomar forma com a chegada, ainda no mesmo ano, de Thomas Johnson (piano, mellotron e sintetizadores), Jonas Engdegård (guitarras) e Mattias Olsson (bateria e percussão). No ano seguinte, Anna Holmgren (flauta e saxofone) se uniu aos rapazes, e estava estabelecida a formação definitiva do sexteto. Uma demo tape registrada em 1992 lhes garantiu um contrato com a gravadora Mellotronen, e no mesmo ano o conjunto lançaria seu registro de estreia, o qual foi mundialmente aclamado, ajudando a reacender o interesse no rock progressivo, estilo que estava em baixa no início da década de 1990, período dominado musicalmente pelo "grunge" vindo de Seattle.

Acompanhe agora nossa análise da curta, porém muito reconhecida, discografia destes talentosos suecos.

Hybris [1992]


Aclamado tanto pela crítica quanto pelos fãs do estilo, Hybris é frequentemente apontado como um dos melhores discos de rock progressivo da última década do século passado. A faixa "Jordrök" abre o registro com um início sombrio, que cede espaço para mais de onze minutos instrumentais de muitas variações, com todos os instrumentos (mellotron, violão, flauta, guitarra, teclados, bateria) encontrando aqui e ali um momento de destaque ante os demais, mas atingindo um grande brilho quando unidos na mesma melodia. Lá pelos cinco minutos, uma passagem ao órgão de igreja (que remete às composições de Rick Wakeman na década de 1970) abre espaço para um "duelo" entre guitarra e teclados que é um dos melhores momentos do álbum (e é interessante perceber nesta faixa como o grupo sabe mesclar trechos agitados e barulhentos com outros calmos e silenciosos de forma bastante harmoniosa). A segunda faixa, "Vandringar i Vilsenhet", abre com um trecho de flauta que remete à primeira fase do King Crimson, mas logo assume uma tonalidade meio sombria/meio "divina", a qual, após um pequeno trecho de agitação, nos entrega as primeiras frases cantadas do álbum, em um ritmo mais frenético do que a música possuía até então, caindo depois em uma sequência "quebrada" e complexa digna dos maiores nomes do rock progressivo setentista e que, quase doze minutos depois do início, vai desaguar em um final angustiante e com um clima "macabro", graças ao mellotron e às flautas. Na sequência temos "Ifrån Klarhet Till Klarhet", a mais curta de todas (pouco mais de oito minutos), mas que já começa com um trecho frenético de guitarras e teclados para tirar o fôlego do mais apaixonado fã de Yes. Essa passagem não é muito longa, e um trecho mais calmo (e com vocais) vem "baixar" um pouco a empolgação inicial. Mas uma bela passagem de flauta logo nos conduz a novas variações rítmicas, com a faixa encerrando abruptamente e nos deixando aquela característica sensação de "quero mais" típica das boas emoções. Finalmente, os mais de treze minutos de "Kung Bore" iniciam com teclados, baixo e bateria continuando a "quebradeira" do meio da faixa anterior, a qual cede lugar para uma calma e encantadora passagem de violão e flauta, que vem desaguar em mais um dos poucos trechos cantados do registro. Mas, nestas alturas, o ouvinte mais atento já sabe que uma nova virada rítmica acontecerá, e, embora não  tão brusca quanto outras guinadas anteriores, novamente a música ganha velocidade, e, após muitas outras mudanças de direção, um curto trecho de flauta encerra o álbum e nos deixa com aquela vontade de voltar e ouvir tudo de novo. Uma edição remasterizada lançada em 2000 trouxe a faixa bônus "Gånglåt Från Knapptibble", a qual aparenta ser a versão demo de "Skogsranden", presente no segundo disco, Epilog. Cabe ainda citar que, no site Prog Archives, Hybris já foi apontado como o décimo-sétimo melhor disco de todos os tempos, o que dá um bela ideia de seu apreço por parte dos fãs de progressivo!


A formação clássica do Änglagård: Anna Holmgren, Jonas EngdegårdJohan Högberg e Thomas Johnson (em pé), Mattias Olsson e Tord Lindman (abaixados)

Epilog [1994] 

Não que fosse novidade no mundo da música em geral, mas causou certa surpresa o segundo disco do Änglagård ser totalmente instrumental. Desta vez haviam apenas três longas faixas, juntamente a três vinhetas (uma calma e tranquila introdução intitulada "Prolog", conduzida pelo mellotron; um "interlúdio" de 14 segundos de "barulhinhos" praticamente inaudíveis intitulado "Rösten"; e a plácida "outro" "Saknadens Fullhet", conduzida pelo piano), as quais bastaram para manter o nome do grupo em evidência na comunidade progressiva mundial. "Höstsejd", a primeira faixa "de fato", é uma das melhores composições destes suecos, mostrando bem o lado "esquizofrênico" da banda através de suas múltiplas variações ao longo dos mais de quinze minutos de duração da música, com destaque para os longos trechos de mellotron e flauta, e para a agressividade da guitarra, que desfila solos com um estilo similar ao que Robert Fripp utiliza no seu King Crimson, além da "cozinha" se impor em certos trechos, executando "quebradeiras" quase "impossíveis" de serem reproduzidas! Ainda há espaço para um longo trecho mais calmo e contemplativo na seção central da suíte, mas o que acaba prevalecendo são as melodias "quebradas" e as mudanças de direção que tanto agradam aos fãs deste estilo musical. "Skogsranden" tem um início bem calmo, destacando a flauta e o piano, mas não demora muito para tudo ficar agitado e "esquizofrênico", como parece reger o "manual de composição" do grupo. Interessantes passagens do mellotron (intercaladas por sintetizadores) marcam esta segunda fase da canção, e é Thomas Johnson quem guiará a melodia da composição durante quase a totalidade dos perto de onze minutos de sua duração (boa parte deles tornando-se os mais contemplativos deste registro), contando ainda com o precioso apoio do baixo de Johan Högberg, com a guitarra e a flauta obtendo algum destaque apenas mais próximo ao final, pouco antes de nova mudança de direção e de nova "agitação sonora" atingir os nossos sentidos e silenciar brusca e inesperadamente. Antes do encerramento com a "outro" citada, ainda temos "Sista Somrar", a última faixa "de fato", e que se tornaria um "clássico" na discografia do Änglagård. Um perfeito resumo do "modelo de composição" do sexteto, ela começa calma e sombria, embarcando depois em uma verdadeira "montanha russa" de ritmos que, por mais de treze minutos, servirão como exemplo da capacidade técnica e criativa destes músicos excepcionais (confira com especial atenção um trecho que se inicia lá pelos sete minutos e lembra uma espécie de "marcha macabra" executada em uníssono por guitarra, baixo e percussão, com o teclado dando um "molho" sombrio ao fundo - de arrepiar!). Em 2010, a própria banda lançou uma edição remasterizada deste álbum, a qual vem com um CD bônus contendo apenas uma faixa, a qual parece ser a versão "completa" da vinheta "Rösten" (visto ter o mesmo nome), embora seja completamente diferente desta.

Infelizmente, o ambiente dentro do grupo já não andava lá muito bom durante as gravações de Epilog, e, pouco depois de uma apresentação no Progfest de 1994 (ocorrido na cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, e que seria lançado em CD sob o título Buried Alive no ano de 1996), o sexteto anunciou o final de suas atividades. Entre 2002 e 2003, o grupo (sem a presença de Tord Lindman) fez algumas apresentações pela Europa e EUA (onde participam do tradicional festival progressivo NEARfest), mas questões pessoais e familiares levam a uma nova parada nas atividades do Änglagård, as quais só seriam retomadas em 2011, quando o quinteto remanescente (Lindman novamente ficou ausente da reunião) fez algumas poucas apresentações (com destaque para o retorno ao NEARfest no ano seguinte), além de iniciar as gravações do que viria a ser seu terceiro álbum, o qual finalmente viu a luz do dia em 2012.


O grupo em 2011: Thomas Johnson, Anna Holmgren, Johan BrandMattias Olsson e Jonas Engdegård

Viljans Öga [2012]

Assim como a estreia, o terceiro disco do Änglagård trazia apenas quatro longas faixas, as quais, mesmo soando mais calmas e contemplativas do que as registradas no passado do grupo, mantiveram a qualidade e boa parte das características presentes nos álbuns anteriores dos suecos. Os quase dezesseis minutos de "Ur Vilande" trazem em seu início esta nova característica mais calma e "controlada", mas, depois de quatro minutos, a guitarra ganha distorção e o ritmo se intensifica, sem no entanto chegar a se tornar aquele "caos sonoro" que os registros anteriores por vezes apresentavam. Belos trechos de mellotron e flauta ainda aparecem no desenrolar da canção, a qual, surpreendentemente, consegue se manter plácida e lânguida por quase toda a sua duração (embora eu seja forçado a admitir que certos trechos soem repetitivos em demasiado). "Sorgmantel" também se inicia de forma calma (embora um pouco mais sombria), mas seus mais de doze minutos possuem vários momentos de agitação, além de alguns trechos mais "pesados" e distorcidos da guitarra de Jonas Engdegård e até um mini-solo do baixo de Johan (que passou a adotar o sobrenome Brand desde a abortada reunião da banda em 2002). "Snårdom" inicia como a mais agitada e "esquizofrênica" faixa de Viljans Öga até então, embora a "quebradeira" seja bem menor que a de discos anteriores. Mesmo assim, após mais de dezesseis minutos de uma verdadeira "montanha russa" sonora, posso indicar esta como a melhor faixa deste terceiro registro do Änglagård, possivelmente por ser a que mais lembra o "passado glorioso" do agora quinteto. Por fim, temos a instrumental "Längtans Klocka", que inicia lembrando muito o King Crimson de Islands (devido à flauta e ao piano), mas logo ganha uma "cara" mais parecida com suas companheiras de track list, mantendo o clima "contemplativo" por aproximadamente cinco minutos, até uma guitarra rascante e barulhos "inusitados" de percussão "quebrarem" o ritmo da canção, mantendo a audição imprevisível (flauta, guitarra e piano se alternam no "comando" das ações por um bom trecho, com o baixo e a bateria dando um verdadeiro show ao fundo) entre a quebradeira e a calmaria até próximo de seu final, quando o andamento passa a lembrar uma composição circense, ou algo inspirado na década de 1920 (até pelos instrumentos utilizados), em um encerramento bastante "estranho" se comparado aos demais momentos da discografia do grupo. De todo modo, um bom álbum, apenas (por ser "calmo" e "contemplativo" demais) não seria aquele que eu indicaria para quem quiser começar a conhecer a sonoridade do Änglagård.

Ainda em 2012, o grupo anunciou o retorno do membro fundador Tord Lindman, mas, infelizmente, ocorreram as saídas de Thomas Johnson, Jonas Engdegård e Mattias Olsson. Johan, Tord  e Anna recrutaram Linus Kåse (teclados, saxofone) e Erik Hammarström (bateria, percussão, ex-The Flower Kings) e continuaram a excursionar, chegando até mesmo a lançar um segundo registro ao vivo, Prog På Svenska: Live in Japan, que, como o nome indica, foi gravado no Japão entre 15 e 17 de março de 2013, e chegou no mercado no ano seguinte.


Foto promocional da formação do Änglagård em 2014 (ainda como quinteto): Anna Holmgren, Johan Brand, Tord Lindman, Erik Hammarström e Linus Kåse

Em 2014, foi anunciado o retorno do guitarrista Jonas Engdegård, com o (novamente) sexteto continuando a excursionar pela Europa e América do Norte, sem previsão (ainda) de que um quarto álbum venha a ser lançado. Mesmo assim, ficamos todos na expectativa de que a saga destes suecos ainda não tenha sido encerrada, e que novas composições venham a surgir no futuro para deleite de nossos ouvidos. Que assim seja!

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Suicidal Tendencies - How Will I Laugh Tomorrow... When I Can't Even Smile Today [1988]


Por Micael Machado

O Suicidal Tendencies surgiu em 1981 como uma das principais bandas de punk/hardcore da cidade de Los Angeles, mas, com a entrada do guitarrista Rocky George a partir do segundo disco, a música do grupo se aproximou bastante do heavy metal, fazendo com que o ST fosse apontado como um dos primeiros grupos de crossover dos EUA. Influenciado por esta nova sonoridade, o eterno líder Mike Muir (vocais) transformou o agrupamento em um quinteto, trazendo para o line-up o guitarrista Mike Clark, colega do cantor em seu projeto paralelo chamado No Mercy (completavam o time o baterista R.J. Herrera e o baixista Bob Heathcote, outro estreante na formação do Suicidal). Clark se integrou muito bem aos parceiros, assumindo inclusive boa parte do trabalho de composição daquele que viria a ser o terceiro disco dos californianos, lançado em 1988 e intitulado How Will I Laugh Tomorrow... When I Can't Even Smile Today, talvez o mais pesado registro da história destes skatistas de Venice Beach!

Faixas como "Hearing Voices" (que lembra o Metallica de Ride The Lightning), "If I Don't Wake Up" e "The Feeling's Back" aproximavam de vez a sonoridade do ST da então emergente cena do thrash metal dos EUA, enquanto as guitarras melódicas de "The Miracle" (que, em certo trecho, ganha velocidade e peso equivalentes aos de um Slayer fase Reign In Blood), "One Too Many Times" e "Sorry?!" (a qual, arrisco a dizer, não faria feio no track list de um dos primeiros álbuns do Iron Maiden com Bruce Dickinson nos vocais) causavam arrepios de terror nos fãs do hardcore presente no registro de estreia do agrupamento de Mike Muir. Os admiradores desta fase encontravam apenas no CD uma faixa que lembrasse os primórdios da banda, a qual era intitulada "Suicyco Mania", a qual não estava presente na edição em vinil, ficando de fora até mesmo da versão em K7!

Suicidal Tendencies em 1988: Mike Clark, Bob Heathcote, Mike Muir, R.J. Herrera e Rocky George

Sempre gostei muito da abertura do lado B do vinil (a faixa "Surf And Slam", praticamente toda instrumental, e que, apesar de rápida, conta com guitarras limpas e bastante melodia em seu arranjo, com solos que lembram as músicas da época da surf music durante quase toda sua curta duração) e de "Pledge Your Allegiance", mais cadenciada e ainda mais pesada que outras canções citadas acima (e com um coro de "ST, ST" em seu início que, tenho quase certeza, influenciou e muito ao rapper Ice T quando da criação de seu grupo Body Count, o qual adotou como tema um canto de "BC, BC" muito semelhante ao entoado pelo Suicidal nesta faixa).

Mas How Will I Laugh Tomorrow... acabou gravando mesmo na história do grupo as duas músicas que seriam lançadas como single e que viriam a receber vídeo clipes de divulgação: "Trip At The Brain", porrada metálica que abria os trabalhos com direito até a um curto solo de baixo lá pelo meio, e, principalmente, a faixa título, um dos principais temas do heavy metal oitentista, e, paradoxalmente, uma das mais "leves" e melódicas canções deste registro (apesar de, em sua segunda metade, trazer algumas partes que chegam a lembrar as origens punk do grupo). O vídeo desta canção, infelizmente, acabou encurtando em muito sua duração original, inclusive deixando de fora (em um verdadeiro absurdo, na minha opinião) uma de suas melhores partes, o característico refrão com a repetição do nome da faixa. Mesmo mutilada nesta "versão para divulgação", a canção ainda mantinha sua força, e ajudou o registro a atingir a posição de número 111 na parada norte-americana, permanecendo no chart da Billboard por onze semanas, uma conquista para um grupo do porte do Suicidal.

Contracapa da edição em vinil de How Will I Laugh Tomorrow... When I Can't Even Smile Today

O próximo registro da banda (a união de dois EPs diferentes intitulada Controlled by Hatred/Feel Like Shit... Déjà Vu) marcaria a estreia do baixista Stymee, o qual, após abandonar o apelido e adotar seu nome de batismo (Robert Trujillo), traria para a sonoridade do Suicidal Tendencies elementos de groove e funk que ajudariam a tornar o grupo um dos principais nomes do heavy metal do início da década de 1990. Mas isto já é papo para um outro post...

"Find no hope in nothing new and I never had a dream come true... Does anyone even care at all?"

Track List (versão do CD):

1. Trip at the Brain

2. Hearing Voices 

3. Pledge Your Allegiance 

4. How Will I Laugh Tomorrow 

5. The Miracle 

6. Suicyco Mania

7. Surf and Slam 

8. If I Don't Wake Up 

9. Sorry?! 

10. One Too Many Times 

11. The Feeling's Back